Paralisia Cerebral e Fatores de Risco ao Desenvolvimento Motor
Educação Inclusiva
1 Conceito de Paralisia Cerebral:
O termo Paralisia Cerebral se refere ao grupo de condições crônicas que têm como denominador comum a anormalidade na coordenação de movimento. O desenvolvimento motor dessas crianças não é só atrasado, mas segue um curso anormal, podendo ser influenciado por fatores de risco, do mesmo modo que ocorre com o desenvolvimento de crianças normais.
2 O termo PC:
A Organização Mundial de Saúde (1999) descreve a paralisia cerebral (PC) ou encefalopatia crônica não progressiva da infância como decorrente de lesão estática, ocorrida no período pré, peri ou pós-natal, que afeta o sistema nervoso central em fase de maturação estrutural e funcional.
O termo PC é abrangente, apresenta variedade de fatores causadores e descreve a evolução do distúrbio da função motora secundários à patologia não progressiva do cérebro imaturo.
A PC é caracterizada principalmente pela disfunção motora, contudo, ela é frequentemente acompanhada de outras desordens, como o retardo mental, defeitos sensoriais e epilepsia.
O comprometimento neuromotor da PC pode envolver partes distintas do corpo, resultando em classificações topográficas específicas. A classificação baseada nas alterações clínicas do tônus muscular e no tipo de desordem do movimento pode produzir o tipo espástico, discinético ou atetoide, atáxico, hipotônico e misto. A gravidade do acometimento neuromotor da criança com PC pode ser caracterizada como leve, moderada ou grave, baseada no meio de locomoção da criança.
Retrata que os anos iniciais de vida da criança são caracterizados por diversas modificações no crescimento e desenvolvimento. O termo desenvolvimento, quando aplicado à evolução da criança, significa que com o decorrer do tempo existirá um aumento das possibilidades individuais de agir sobre o ambiente. Para esse ambiente pode, de certa forma, influenciar o desenvolvimento motor de crianças, mais especificamente, de crianças com paralisia cerebral. Pois o desenvolvimento motor não é um processo estático, não é somente o produto de fatores biológicos, mas é influenciado, do mesmo modo, por condições ambientais que interferem na aquisição de habilidades funcionais dessas crianças.
Dentre os fatores de risco, que aumentam a probabilidade de déficits no desenvolvimento motor, o nível socioeconômico da família é um fator que pode interferir no desenvolvimento. Segundo Victora et al algumas pesquisas evidenciaram a importância dos fatores socioeconômicos na determinação da saúde da criança. Tem-se considerado a educação da mãe e a renda familiar como elementos básicos, por serem indicadores de recursos disponíveis e conhecimento ou comportamento em relação à saúde da criança.
Esse tipo de abordagem é retomado por Halpern et al (2000) e Eickmann (2003), quando mencionam que há relação entre aspectos biológicos e ambientais, destacando, entre os ambientais, os fatores socioeconômicos e demográficos. Deste modo, determinadas situações de vulnerabilidade são causadas por fatores biológicos, sociais e do ambiente, interagindo entre si, de forma que problemas biológicos poderão ser modificados por fatores ambientais e vive-versa. As crianças com paralisia cerebral também se desenvolvem, só que num ritmo mais lento, contudo o seu desenvolvimento não é apenas atrasado, mas é desordenado e prejudicado, isso por consequência da lesão cerebral .
Portanto, como há desenvolvimento, consequentemente ele pode ser influenciado por fatores de risco. Dentre os fatores de risco, estão características familiares, que podem colocar as crianças em maior risco para o seu desenvolvimento saudável. Dessas características podemos citar a baixa renda familiar, baixa escolaridade dos pais, elevados níveis de estresse da família, baixos níveis de suporte social, entre outros.
3 Paralisia Cerebral:
Aspectos Conceituais:
Não existe um conceito suficientemente amplo ou específico sobre PC, isto pode ocorrer devido à etiologia e manifestações clínicas variadas. Desta forma, o termo PC se refere ao grupo de condições crônicas que têm como denominador comum a anormalidade na coordenação de movimentos, isto é, transtorno do tônus postural e do movimento.
Bobath definiu a PC como sendo:
“[...] resultado de uma lesão ou mau desenvolvimento do cérebro, de caráter não progressivo, e existindo desde a infância. A deficiência motora se expressa em padrões anormais de postura e movimentos, associados com um tônus postural anormal. A lesão que atinge o cérebro quando ainda é imaturo interfere com o desenvolvimento motor normal da criança.”
O problema quando descrevem que qualquer lesão no cérebro em desenvolvimento que cause dano permanente e não progressivo, que afete a postura ou o movimento da criança é denominado paralisia cerebral.
A PC é igualmente designada como encefalopatia crônica não-progressiva, causada por lesões ocorridas no encéfalo imaturo, em desenvolvimento, tendo como consequência problemas de motricidade, do tônus e postura, com ou sem comprometimento cognitivo. Estas lesões ocorrem nos diversos estágios de maturação, surgindo antes de 3 anos de idade e tendo causas pré, peri ou pós-natais.
Vários autores consideram o termo PC inadequado, uma vez que significaria o estacionamento total das atividades motoras e mentais, o que não é o caso. Atualmente, tem-se utilizado o termo Encefalopatia Crônica Não Progressiva ou Não Evolutiva para deixar claro o caráter persistente, mas não evolutivo, apesar das manifestações clínicas modificarem com o desenvolvimento da criança e com a plasticidade cerebral. Contudo, o termo Paralisia Cerebral ainda é útil para diferenciar a PC das Encefalopatias Crônicas Progressivas, que derivam de patologias com degeneração contínua.
Com esta ideia, quando relata que o nome Paralisia Cerebral, ainda que consagrado pelo uso, tem sofrido algumas tentativas no sentido de se alterar esse termo, para um mais apropriado e menos sujeito às interpretações equivocadas. Porém, o extenso e universal uso do termo PC, até mesmo como título de periódicos respeitáveis, e o seu reconhecimento por associações e congressos em todo mundo, seria melhor continuar a utilizá-lo, contudo, respeitando-se as condições atribuídas pelas acepções usuais.
4 Histórico:
Em 1843, o ortopedista inglês Willian John Little, pela primeira vez, relatou 47 casos de crianças com rigidez muscular, principalmente nos membros inferiores e com menor acometimento nos membros superiores. Nessa época, o quadro foi denominado de “Síndrome de Little”. Essas crianças descritas nasceram prematuramente ou por partos complicados e Little sugeriu que este quadro seria resultado de asfixia perinatal. Em 1862, o mesmo autor instituiu a relação entre o quadro da paralisia cerebral e o parto anormal.
O termo Paralisia Cerebral foi introduzido por Freud enquanto estudava a “Síndrome de Little”. Little acreditava que a causa nos casos expostos permanecia atrelada a circunstâncias adversas ao nascimento, ele descreveu a diplegia espástica acarretada por asfixia e lesão cerebral ao nascimento, em contrapartida Freud relatou que a PC era acarretada por anormalidades pré-natais. Em 1946, a expressão PC foi consagrada e generalizada por Phelps, para diferenciá-la do termo paralisia infantil, ocasionada pelo vírus da poliomielite.
Desde o Simpósio de Oxford, em 1959, a expressão PC foi definida como “seqüela de uma agressão encefálica, que se caracteriza, primordialmente, por um transtorno persistente, mas não invariável, do tono, da postura e do movimento, que aparece na primeira infância e que não só é diretamente secundário a esta lesão não evolutiva do encéfalo, senão devido, também, à influência que tal lesão exerce na maturação neurológica”.
A partir dessa data, a PC passou a ser conceituada como encefalopatia crônica não evolutiva da infância que, constituindo um grupo heterogêneo, tanto do ponto de vista etiológico quanto em relação ao quadro clínico, tem como ligação comum o fato de apresentar, predominantemente, sintomatologia motora, à qual se juntam, em diferentes combinações, outros sinais e sintomas.
5 Etiologia:
Os problemas durante o processo de nascimento e sinais e sintomas do recém-nascido, como o Apgar baixo, estão relacionados com o desenvolvimento de PC, contudo, como na maioria dos transtornos, a PC tem múltiplos fatores de risco para o seu desenvolvimento, bem como causas e modificadores.
Por mais distintos que sejam os fatores etiológicos, os mecanismos patológicos do sistema nervoso central (SNC) são estacionários, não obstante, as manifestações clínicas parecem se modificar ao longo dos anos nas crianças. Essas alterações podem ser advindas dos processos de maturação e adaptação, conseqüentemente, espera-se que elas sejam influenciadas pelas experiências da criança.
Diversos fatores podem contribuir para ocorrência de PC, e com frequência mais de um fator está envolvido. Os pesquisadores da atualidade relutam em atribuir as causas a casos individuais de paralisia cerebral, eles acreditam que, na maioria dos casos, diversos fatores determinantes podem ser relevantes. Em especial, a asfixia perinatal está diminuindo como causa única da paralisia cerebral, em contrapartida para Fonseca ela ainda é a causa mais comum de PC em nosso meio, outras causas são a prematuridade e as infecções do Sistema Nervoso Central (SNC).
No pré-natal, os fatores etiológicos principais são as infecções e parasitoses (sífilis, rubéola, toxoplasmose, citomegalovírus, HIV); intoxicações (drogas, álcool, tabaco); radiações (diagnósticas ou terapêuticas); traumatismos (direto no abdome ou queda sentada da gestante); fatores maternos (doenças crônicas, anemia grave, desnutrição, mãe idosa).
Pode-se citar nesta fase as anormalidades gênicas e cromossômicas, apesar de serem raras. Kok salienta que eventos que circundam o nascimento da criança, ou seja, aqueles que ocorrem no período perinatal, podem contribuir para a paralisia cerebral. Esses acontecimentos podem ocasionar hemorragias intracranianas, encefalopatia hipóxico-isquêmica, encefalopatia por hiperbilirrubinemia e leucomalácia periventricular.
Considera que no citado período, pode-se reconhecer o grau de asfixia aguda pelas condições vitais do recém-nascido, que é medido pelo Apgar, sendo significativa a asfixia aguda quando mantida em observações sucessivas . O mais importante, no entanto, é a asfixia crônica, que ocorre durante a gestação, podendo resultar num recém-nascido com boas condições vitais, mas com importante comprometimento cerebral. A asfixia crônica está fortemente ligada à insuficiência placentária, na qual resultam fetos pequenos ou imaturos.
As causas pós-natais podem ser infecções como meningite ou encefalite, traumatismo craniano, afogamento, parada cardíaca durante cirurgias, acidentes vasculares cerebrais, tumores, exposição ao chumbo e tromboses pela anemia falciforme. A incidência das causas varia de acordo com a localização geográfica e com a disponibilidade de atendimento médico.