Construindo modelos de gestão escolar
Administração e Gestão Escolar
1 Modelo de gestão escolar:
O que é um modelo de gestão escolar?
Sempre que formulada, a pergunta parece impertinente, de tão óbvia e consensual que, supostamente, é a resposta. E quanto maior é a experiência dos interlocutores mais descabida parece, acabando por ser tolerada com o estatuto de mera pergunta de circunstância, ou de retórica; uma pergunta que não chega a ser verdadeiramente formulada com o intuito de conduzir a uma resposta.
Geralmente, porém, após um primeiro momento de estranheza e de surpresa, despoletado por uma pergunta que não se esperaria ver formulada, ou até cuja simples formulação é interpretada como um ato de desvalorização social e acadêmica da audiência (que obviamente não pode deixar de conhecer a resposta), e após um segundo momento de confirmação e de insistência na pergunta por parte de quem a produziu, surge invariavelmente um terceiro momento marcado pelo incômodo e pela suspeição. Incômodo porque, afinal, se descobre que quem perguntou continua a aguardar pela resposta e que o seu súbito silêncio e a sua postura expectante responsabilizam definitivamente a audiência por uma tomada da palavra.
Suspeição porque, uma vez aceite a pergunta, isto é, socialmente atribuído à interrogação de partida o estatuto de pergunta, surge então o problema da construção da(s) resposta(s). E ao ser levada a sério, a pergunta parece exigir, congruentemente, uma resposta séria, suspeitando-se então que as várias respostas potenciais, e disponíveis, tomadas como óbvias, de senso tão comum e partilhado que ainda há pouco faziam da pergunta um exercício supérfluo ou retórico, talvez não preencham os requisitos ou as exigências agora supostos por uma pergunta que de tão aparentemente fácil começa a tornar-se de resposta difícil.
Nestas circunstâncias, ocorrem com frequência distintos modos de afrontamento da situação: a procura das razões implícitas e das intenções subjacentes à pergunta, ou até mesmo a crítica dos termos em que aquela foi formulada, mais do que propriamente a procura de uma resposta; a tentativa de encontrar «a resposta certa», que se supõe ser distinta da «resposta óbvia» que primeiro foi considerada de forma quase automática, mas cuja «facilidade» e «evidência» (agora reconhecidas) lhe retiram credibilidade e plausibilidade; (3) a adoção da «resposta óbvia» embora apresentada sob a forma de um discurso elaborado, abstrato e teorizante, considerado mais compatível com a situação criada em torno da pergunta do que com a pergunta propriamente dita.
A inicialmente suposta «facilidade» da pergunta, e da resposta, cai por terra no momento em que se começa a descobrir que talvez não exista uma única resposta «certa», que em pouco tempo os diversos respondentes foram capazes de construir respostas diversas, e por vezes mesmo antagónicas, que a sofisticação de algumas das respostas não supõe já o carácter «óbvio» da pergunta, que, mais radicalmente, a pergunta pode não fazer sentido ou ter sido mal formulada.
Descobre-se, em suma, que interrogar, procurar definir e caracterizar, aquilo que profundamente conhecemos e vivenciamos em termos de práticas sociais recorrentes, em contextos e situações em que fomos socializados e que hoje parecem desprovidos de segredos para nós, representa um exercício mais difícil do que poderíamos supor e, em todo o caso, um exercício por vezes incómodo. À medida que vamos inventariando a pluralidade de pontos de vista, de respostas e de definições possíveis, vai-se esbatendo a consensualidade e a partilha de significações que antes tendíamos a dar como certas.
O processo atrás descrito, em traços largos, ocorre com frequência em distintas situações sociais e de comunicação e relativamente aos mais variados aspectos da vida social, sobretudo naqueles casos em que uma dada realidade social se nos afigura particularmente conhecida, evidente, certa e esperada, sem mistério. Em contexto de formação, mais ou menos formal, envolvendo profissionais e participantes experientes, e realidades sociais e profissionais tomadas como consistentes e não problemáticas, minimamente partilhadas na acção e pela ação, o processo acima caracterizado pode ocorrer com especial intensidade e mesmo com alguma dramatização. E de facto ocorre, segundo a nossa experiência, sempre que questionamos o até aí pouco questionado ou inquestionado, as definições implícitas e os significados sociais partilhados, aquilo que pressupomos ou a que atribuímos o estatuto de «dado» do problema ou da situação e que, portanto, uma vez assumido como «certo» ou «óbvio» tende a escapar à nossa capacidade analítica e à nossa imaginação crítica. Por exemplo quando, no contexto de uma discussão em torno da organização e da administração das escolas se pergunta, de súbito: «mas, afinal, o que
é um modelo de gestão das escolas?».
O que encerra aquela pergunta de surpreendente, capaz de eventualmente perturbar uma audiência ou de originar um certo mal estar? Possivelmente apenas o facto de raramente ser formulada, de ser uma pergunta que não se espera, sobretudo entre professores experientes, membros de conselhos directivos, inspectores ou outros elementos da administração.
Com efeito, não parece plausível que atores com tanta experiência na gestão escolar sejam incapazes de responder à pergunta. Na verdade acabam sempre por lhe responder, superados os primeiros instantes de surpresa. Mas é ainda menos plausível que só a partir do momento em que a pergunta foi formulada se passem a considerar as possíveis respostas, isto é, que o problema da definição e da caracterização de um modelo de gestão escolar surja pela primeira vez, como se os atores envolvidos não fossem já, e de há muito, detentores e construtores de concepções sobre o que é e pode ser um modelo de gestão. Concepções no mínimo implícitas, sem as quais a ação em contexto organizacional escolar não seria possível, pois é através dessas concepções que se define e se reconhece o que é a gestão escolar, o que é legítimo e ilegítimo realizar, quais os limites e as fronteiras, o que se espera dos gestores e da gestão, etc.
Assim sendo, poderia afirmar-se que, no limite, toda a ação pedagógica contém, pelo menos implicitamente, um repertório mais ou menos alargado de respostas possíveis à questão «o que é um modelo de gestão escolar?»; apenas a pergunta raramente é formulada enquanto tal e nestes termos, e as respostas raramente são tomadas como respostas a uma pergunta, mas antes como concepções, pontos de vista e interpretações, práticas.
Como que pré-existindo à formulação da pergunta, as respostas possíveis encontram-se disponíveis, em carteira, de tal forma que o ponto de partida talvez não deva ser «a pergunta», mas sim «a(s) resposta(s)». Será em função destas que, a posteriori, mais corretamente poderíamos formular a(s) pergunta(s), descobrindo então que certas respostas exigem certas perguntas, que são apenas respostas admissíveis para certos tipos de perguntas. A metodologia seguida seria do tipo — responda primeiro e pergunte depois.
justificar as perguntas?
Uma pergunta aberta e formulada em termos muito genéricos, mesmo quando apresentada num contexto de formação em administração educacional, e sobretudo sendo anterior ao estudo de perspectivas analíticas da escola como organização, arrisca-se naturalmente a múltiplas interpretações e a distintos tipos de respostas. O efeito de surpresa pode basear-se nisso mesmo e, em rigor, uma boa resposta àquela pergunta poderia consistir na formulação de várias perguntas de retorno.
P: O que é um modelo de gestão escolar?
R: Segundo o ponto de vista de quem?
A partir de que perspectiva de análise?
Relativamente a que dimensões?
O que é, ou o que deve ser?
O que é segundo as orientações formais-legais, ou o que é de acordo com as práticas? (…)
Ou seja, uma primeira reação, compreensível e aceitável, poderia consistir no pedido de esclarecimento da pergunta ou, mais radicalmente, na exigência de uma especificação e mesmo de uma justificação da pergunta. Assim se concluiria que tal tipo de pergunta dificilmente pode exigir respostas justificadas e que, ao invés, é a pergunta que parece carecer de justificação.
Não obstante, pode argumentar-se que a dimensão pedagógica ou formativa (e até mesmo investigativa) da pergunta reside, exatamente, no seu carácter aberto e na sua falta de justificação a priori. Isto porque uma pergunta assim formulada se revela propícia à obtenção e inventariação de concepções e de representações várias em torno do(s) modelo(s) de gestão das escolas, das escolas enquanto organizações, das estruturas e das ações, dos processos de construção social e dos atores participantes/construtores.
Em contexto escolar, como se sabe, o poder de perguntar e o poder de responder encontram-se assimetricamente distribuídos. De resto, é suposto que quem responde é que deve justificar a sua resposta, e não o contrário, já que quem pergunta ou é porque não sabe (e quer eventualmente conhecer a resposta) ou, sabendo, formula a pergunta para indagar se o seu interlocutor sabe ou não sabe responder, e em função da resposta dada assume com frequência o estatuto de avaliador, ou mesmo de classificador. O estatuto social de «professor» e o estatuto social de «aluno» ficam assim bem ilustrados em termos tradicionais.
Ora é exatamente rompendo com este tipo de relação assimétrica que a nossa pergunta de partida ganha um novo sentido; um sentido não escolar, não avaliativo, mas antes indagativo, aberto e plural, simplesmente à procura de respostas possíveis e diversificadas, capazes de engendrarem novas perguntas, desta feita mais claras e precisas.
Trata-se, assim, de uma pergunta sem solução prévia e, obviamente, sem qualquer grelha de correção que pressuponha os limites do «certo» e do «errado». Simplesmente porque, deste ponto de vista, não há propriamente respostas «certas» ou
«erradas», mas apenas respostas que relevam de distintas racionalidades, perspectivas, experiências, interesses, etc. As respostas são tanto mais ricas e interessantes quanto, individualmente e no seu conjunto, permitirem aceder a distintas representações da organização escolar, permitirem o seu confronto e discussão e, posteriormente, num exercício já teoricamente orientado, possibilitarem a sua desconstrução e a desocultação e a crítica dos princípios que lhes subjazem. Então as respostas podem ser reformuladas, exigindo também a reformulação da pergunta.
proposta de trabalho:
Sugiro-lhe que interrompa aqui a leitura deste Caderno e que, em grupo, proceda com os seus colegas do seguinte modo:
a) Durante cerca de quinze minutos cada membro do grupo responderá, por escrito, à seguinte pergunta: «o que é um modelo de gestão escolar?».
b) As respostas obtidas serão apresentadas e inventariadas, seguindo-se um período de pedidos e de prestação de esclarecimentos.
c) Seguidamente, o grupo procederá a uma discussão em torno das respostas obtidas procurando, designadamente,
d) O resultado do trabalho realizado deverá ser guardado para posterior utilização, ainda no âmbito deste Caderno.
2 O singular e o plural:
o singular como versão oficial da realidade:
O plural de modelo e a pluralidade de práticas:
3 Modelos juridicamente consagrados:
4 Modelos de orientação para a ação:
Modelos decretados ou de reprodução:
5 Modelos recriados ou de produção:
6 Modelos praticados:
Proposta de trabalho II:
«modelos decretados»;
7 Dos construtores e dos processos de construção:
Construindo modelos de gestão através do exercício da autonomia:
necessariamente a cristalização de tais realidades.
serão profundamente alterados (e estreitados), insistindo mais nos grandes princípios e respectivas regras gerais, bem como nas formas de responsabilização dos órgãos e atores escolares, assim abrindo possibilidades de uma estruturação mais livre a nível escolar, alargando e aprofundando a tipologia e o alcance das regras e das decisões.
organização pedagógica e administrativa da escola, que posteriormente serão apresentadas e discutidas em plenário.
e alcance deste;