Manual brasileiro de boas práticas agropecuárias na produção de suínos 2
Gestão de Agronegócios
1 Biosseguridade e ferramentas de controle sanitário
As doenças constituem um dos principais desafios da suinocultura, impactando diretamente sobre os resultados técnicos e financeiros das granjas pelas altas taxas de mortalidade e também pelas perdas em desempenho. Dessa forma, a preocupação com a biosseguridade e a prevenção de doenças tornam-se obrigatórias na busca de melhores resultados.
O que é biosseguridade?
A biosseguridade se refere à aplicação de normas e procedimentos utilizados na prevenção da introdução de doenças infecciosas em qualquer sítio de produção. A utilização eficiente desses conceitos requer a identificação de todas possíveis vias de transmissão das doenças, sendo fundamental contar com controles sanitários.
Biosseguridade engloba um conjunto de práticas de manejo e normas rígidas que, seguidas de forma adequada, reduzem o potencial para introdução de doenças na granja e transmissão dentro delas.
Um programa efetivo exige o desenvolvimento de vários itens de aspectos técnicos de restrição de trânsito de pessoas (visitas), planos de lavagem e desinfecção de instalações e veículos, programas de vacinação, entre outros (fi guras 1 a 9). Nesse contexto, em relação ao controle de trânsito de animais o controle de entrada de suínos e a quarentena são fundamentais.
Fatores importantes para a biosseguridade
Estabilidade imunológica
O sistema de produção deve ser entendido de forma dinâmica, de maneira que a formação de cada grupo de cobertura, parição, desmame e terminação estabeleça um comportamento que mostre um equilíbrio entre os microrganismos e os animais, determinando, desse modo, a estabilidade imunológica.
Quando há aumento na pressão de infecção ou queda na imunidade, alguns animais adoecem e passam a funcionar como “super-difusores”. Estes excretam os agentes no meio, aumentando o limiar de infecção e deixando um número maior de animais expostos às doenças.
Fatores que favorecem o desequilíbrio entre a pressão de infecção e o balanço imunitário:
Esses fatores interagem e atuam contribuindo para o aparecimento de doenças, bem como interferem na eficiência dos programas de medicação e vacinação.
O nível de imunidade para várias doenças varia durante todo o tempo. Há grupos de suínos que são importantes para a manutenção do equilíbrio imunitário. As marrãs de reposição são causas consideráveis da instabilidade do status de saúde dos rebanhos, seja pela introdução de novos agentes patogênicos nas granjas seja por sua natural menor imunidade, o que constitui fator de grande relevância na disseminação de doenças.
Na prática, o setor de reposição é um dos mais esquecidos quando se trata de planejamento de granjas. Muitas granjas iniciam a sua produção sem um setor de reposição estabelecido e assim prosseguem. A ampla maioria das granjas no Brasil não possui quarentena e os animais adquiridos de outras granjas entram diretamente para o plantel.
Quarentena
Na suinocultura, a prevenção deve ser a principal ferramenta de atuação sanitária. Impedir a entrada de determinados agentes patogênicos e manter uma boa estabilidade sanitária e imunológica no rebanho pode ser a diferença entre o lucro e o prejuízo.
As doenças entram nos rebanhos de forma direta (pelos suínos de reposição) e indireta (vento, veículos, pessoas, equipamentos, água, alimentos e outros animais), conforme ilustram as fi guras 10 e 11.
A entrada de suínos nas granjas configura um dos maiores riscos da introdução de doenças nas granjas, já que existem muitos portadores saudáveis, ou seja, suínos que possuem os agentes causadores de doenças, mas não estão doentes no momento da avaliação. Este risco está associado aos variados períodos de incubação para algumas doenças, a possíveis quadros de infecções subclínicas, enfermidades emergentes e de difícil diagnóstico (quando não há um teste diagnóstico desenvolvido) e, ainda, ao transporte da quarentena até a granja.
Os cuidados na introdução de animais no sistema de produção representam, juntamente com o isolamento, as barreiras mais importantes para a prevenção do surgimento de problemas de ordem sanitária no rebanho. Para auxiliar na segurança sanitária da introdução de animais nas granjas existe a quarentena.
O objetivo da quarentena é evitar a introdução de agentes patogênicos no sistema de produção. Esse período serve para realização de exames laboratoriais e também para o acompanhamento clínico no caso de incubação de alguma doença. Os animais ficam em uma instalação segregada por um período de 28 a 40 dias antes de serem introduzidos na granja. O objetivo do isolamento é proteger o rebanho reprodutivo da introdução de agentes infecciosos pela entrada de novos animais. Uma área de isolamento permite detectar enfermidades no período de incubação e checar a presença de infecções crônicas ou, ainda, eliminar um agente infeccioso através da medicação antes da introdução na granja.
A instalação deve ser longe do sistema de produção (mínimo de 500 m) e estar separada por barreira física (vegetal), como mostra a figura 12.
As instalações do quarentenário devem permitir limpeza, desinfecção e vazio sanitário entre os lotes, mantendo equipamentos e, quando possível, funcionários exclusivos. A quarentena necessita, ainda, respeitar medidas específicas de biosseguridade, sendo a última área a ser visitada e os visitantes devem banhar-se também ao sair. Todo material e equipamentos utilizados devem ser exclusivos a esta área.
Para as granjas de alto status sanitário é recomendável que a quarenta esteja a uma distância mínima de 2 km da unidade de produção. Nas granjas localizadas em regiões de alta densidade e com apenas um status médio, a quarentena poder ser construída a uma distância de 100 a 150 metros da granja. Enfim, o principal objetivo é prevenir a contaminação a partir do contato direto e assegurar uma correta aclimatação dos animais de reposição.
O controle de sanidade na quarentena passa por um período que serve tanto para a expressão das infecções latentes quanto para a investigação laboratorial do status sanitário dos animais de reposição, podendo ser iniciada a adaptação destes aos microrganismos da granja. A partir da introdução na quarentena recomenda-se realizar um exame clínico completo, inspecionar os lotes ao menos duas vezes ao dia durante os primeiros 15 dias e uma vez dia no período subsequente, registrando os aspectos clínicos como tosse, apatia, diarreia e febre. Além disso, devem ser realizados testes sorológicos ou outros exames para confirmação laboratorial. Todo esse monitoramento precisa ser recomendado e acompanhado por um médico veterinário.
O transporte da quarentena até a granja pode ser um ponto crítico. Deve-se assegurar que os animais não se infectem durante esse trajeto.
Adaptação sanitária
A adaptação sanitária pode durar de 30 a 90 dias e objetiva expor gradativamente os animais de reposição aos patógenos existentes na granja para que, quando colocados em uma condição de maior desafio, já apresentem imunidade e menores riscos de adoecerem clinicamente. O procedimento pode ser iniciado ainda durante o período de quarentena ou dentro da própria granja, quando houver introdução direta de leitoas de aproximadamente 100 kg e 150 dias de idade.
As principais atividades desenvolvidas são as vacinações, a serem recomendadas por um médico veterinário, bem como o contato com suínos mais velhos, os quais são portadores dos microrganismos presentes na granja. O segundo procedimento é a fase mais crítica da adaptação das marrãs, recomendando-se o uso de rufiões, como sentinelas, já se iniciando, nesse momento, o trabalho de preparação de marrãs e registro de cios.
Quanto maior for o desafio sanitário da granja, menor deve ser a idade dos animais de reposição, restando tempo hábil para se desenvolver a imunidade. Como recomendação, sugere-se adquirir animais com menos de cinco meses, iniciando-se um plano de vacinação que contemple a imunidade aos principais agentes da granja. Não é recomendado adquirir animais adultos e fêmeas gestantes, a menos que sejam provenientes de um programa controlado de reposição via quarto sítio.
O tempo mínimo para aclimatação deve ser de 45 dias. É possível, porém, recomendar períodos de 60 a 100 dias. Há também ferramentas de medicação, via ração ou água, que podem ser úteis no processo de adaptação, a ser realizado, no entanto, somente a partir de indicação de um médico veterinário.
Monitoria sanitária na quarentena
Existe uma relação direta entre a sanidade da granja receptora e a biosseguridade na doadora. Assim, é fundamental conhecer o status sanitário da granja fonte, tendo-se em mente que a saúde de rebanhos é um estado dinâmico relacionado à pressão de infecção e estabilidade imunológica.
Como citado anteriormente, é obrigatória a aquisição de animais de reposição (machos e fêmeas) de granjas com certificado GRSC, devidamente monitoradas pelos órgão competentes e com a legislação vigente cumprida, certificando-se, assim, que não houve mudança nesse status sanitário desde a última aquisição de animais.
2 Biosseguridade e ferramentas de controle sanitário Parte 2
Dispensário de medicamentos veterinários
Utilização de medicamentos
3 Biosseguridade e ferramentas de controle sanitário Parte 3
Vias de medicação em suínos
Medicação via água x medicação via ração
Controle de endo e ectoparasitas
Programa de vacinação
Período de carência
Programa de limpeza e desinfecção
Importância econômica e sanitária da limpeza e desinfecção
Características dos desinfetantes
4 Biosseguridade e ferramentas de controle sanitário Parte 4
Atenção à escolha do desinfetante
Manejo “todos dentro/todos fora”
Densidade de alojamento
Vazio sanitário
Fumigação
Aplicação prática de um programa de limpeza e desinfecção (PLD)
Controle de moscas e roedores
5 Manejo aplicado à reprodução
Nas granjas de suínos, o plantel de reprodução é composto tanto por marrãs pré-púberes (aquelas que ainda não manifestaram o primeiro cio) quanto por púberes em preparação para a cobertura ou gestantes, multíparas gestantes, lactantes e desmamadas. Nesse tópico, serão descritos os principais manejos reprodutivos aplicados à fêmea suína e a sua implicação prática sobre o desempenho reprodutivo das granjas.
Preparação de marrãs
Os princípios que devem ser observados no manejo de preparação de marrãs são as instalações, ambiência, nutrição, manejo reprodutivo e sanidade. É importante observar que existem diferenças entre os manejos adequados para cada linhagem genética disponível hoje no Brasil. Nesse sentido, então, faz-se interessante um bom contato com o fornecedor dos animais para a produtividade.
As marrãs de reposição devem ser alojadas em baias, com espaçamento de 2,0 a 2,2 m2/ fêmea, com 6-10 animais/baia, em piso de boa qualidade, com água à vontade e comedouros adequados (fi gura 1 e 2).
Imediatamente após a chegada, caso a granja não possua quarentena, deve ser iniciada a adaptação sanitária com a aplicação dos procedimentos já descritos no capítulo sobre Biosseguridade. O procedimento de vacinação e medicação deve ser discutido e indicado por um médico-veterinário.
Juntamente com a adaptação sanitária, recomenda-se dar início ao manejo de indução da puberdade. Esse procedimento consiste em colocar a fêmea jovem em contato com um macho adulto (com mais de 10 meses de idade) e saudável, duas vezes ao dia, durante 15 minutos, permitindo um contato focinho a focinho entre ambos. Como as leitoas estão alojadas em baias nessa fase, o macho deve entrar nesse local e dispor de tempo sufi ciente para estabelecer contato com todas as fêmeas (fi guras 3 e 4). Deve-se observar o rodízio de machos para renovação e variação do estímulo.
Tradicionalmente, esse manejo é iniciado aos 150-160 dias de idade, o que é conhecido como indução precoce da puberdade.
Após a manifestação do primerio cio, as fêmeas devem ser agrupadas em baias com data semelhante de entrada em cio, de forma que os lotes fi quem organizados, devendo ainda se acompanhar as próximas entradas em cio para definição do momento da cobertura. Espera-se que 95% das marrãs estejam em cio até 30 dias após o início do manejo com o macho.
A definição de momento ideal para a cobertura das marrãs deve ser feita baseando-se no adequado peso compatível com a idade, número de cios apresentados, flushing de 14 dias pré- -cobertura (ração de lactação à vontade) e programa de adaptação sanitário completo (vacinas recomendadas). Qualquer um desses fatores que venha a falhar pode resultar em falhas reprodutivas, problemas sanitários e até necessidade de remoção precoce da fêmea do plantel.
Peso/idade/ número de cios
A recomendação é de que as marrãs sejam cobertas com 140-150 kg de peso vivo, com idade aproximada de 220 a 240 dias e, a partir do 2º cio, preferencialmente no 3º cio. Dados de pesquisa consistentes indicam que, com essas caracteríticas, é possível associar a maturidade hormonal da fêmeas com as reservas corporais de tecido magro e gordura e com um alto número de ovulações e espaçamento uterino adequado para gestação de um grande número de fetos. O peso corporal tem sido considerado o fator mais importante relacionado à determinação do desempenho da primípara e sua influência no desempenho por toda a vida. Assim, a marrã coberta com peso adequado chegará ao parto com bom escore corporal, garantindo uma boa primeira lactação e retorno à ciclicidade, além de um bom desempenho no segundo parto.
Vacinação para doenças reprodutivas
A vacinação para parvovirose, leptospirose e erisipela tem um excelente custo/benefício, sendo ainda um dos pontos não negociáveis do manejo da leitoa pré-cobertura. A vacina é aplicada em duas doses e a recomendação é a de que exista um intervalo mínimo de 15 dias entre a primeira e a segunda dose, devendo haver ainda o mesmo intervalo entre a segunda dose e a cobertura da fêmea. Em geral, para uma leitoa que será inseminada aos 210-230 dias, o ideal é que as doses da vacina sejam aplicadas aos 180 e 200 dias de idade.
Manejo alimentar das marrãs
As marrãs atuais têm um ganho de peso diário muito alto e, por isso, devem ser alimentadas durante a indução da puberdade para uma taxa de crescimento de 0,700 a 0,800 kg/dia. Assim, a alimentação, desde o início da indução da puberdade até duas semanas antes da cobertura, deve ser moderadamente restrita, já que as fêmeas cobertas muito gordas têm maior taxa de descarte e resultados reprodutivos piores.
Nos 15 dias que antecedem a cobertura, deve ser realizado o aumento da quantidade de ração e do número de arraçoamentos/dia. Esse manejo se chama flushing e é uma forma de aumentar a sobrevivência dos folículos que serão ovulados, além de também melhorar o ambiente uterino que vai receber os embriões, aumentando, assim, as chances de leitegadas maiores. Deve-se também utilizar uma ração mais energética como a lactação, à vontade.
Para realização do flushing adequadamente em marrãs alojadas nas gaiolas, é indispensável utilizar os comedouros acessórios, conforme indicam as fi guras 5 e 6, para que elas tenham ração à disposição durante todo o dia. Nas baias, com comedouros lineares, é possível fazer o flushing, apenas deixando ração à vontade.
Para realização do flushing adequadamente em marrãs alojadas nas gaiolas, é indispensável utilizar os comedouros acessórios, conforme as fi guras 5 e 6, para que elas tenham ração à disposição durante todo o dia. Nas baias, com comedouros lineares, é possível fazer o flushing apenas deixando ração à disposição.
As marrãs que estão alojadas em baias podem ser cobertas nas baias ou nas gaiolas. Caso sejam cobertas nas gaiolas, é fundamental realizar a transferência dessas para se adaptarem à nova instalação duas semanas antes da cobertura, juntamente com a realização do flushing.
Em resumo, para o adequado manejo das marrãs devemos seguir os seguintes pontos:
1. Receber fêmeas com 150-160 dias de idade;
2. Alojar em baias com 2,0 a 2,2 m2 /fêmea, grupos máximos de 10 fêmeas da mesma idade;
3. Aplicar o protocolo de vacinação da adaptação sanitária (deve ser definido para cada granja) e utilizar 14 dias de ração medicada;
4. Iniciar o manejo com o macho logo após a chegada na granja, duas vezes/dia, durante 15 minutos, até a formação das baias sincronizadas;
5. Utilizar machos com mais de 10 meses de idade, utilizando machos diferentes de um dia para o outro para variar o estímulo;
6. Realizar a vacinação reprodutiva 40 e 20 dias antes da cobertura;
7. Fazer a adaptação nas gaiolas e o flushing duas semanas antes da cobertura.
Manejo reprodutivo
As categorias de fêmeas incluídas no manejo reprodutivo são as marrãs prontas para cobertura (com todos os passos anteriores cumpridos), as matrizes desmamadas de todas as ordens de parto e as matrizes que voltam aos grupos de cobertura após problemas reprodutivos (retorno ao cio, aborto).
Logo após o desmame, espera-se que o retorno ao cio ocorra em um intervalo médio de cinco dias. As matrizes que tiverem diagnóstico de cio positivo serão inseminadas e as demais continuarão sendo estimuladas com o macho até que entrem no cio e, consequentemente, nos grupos de cobertura.
Normalmente, as fêmeas fi cam alojadas em gaiolas e o macho colocado em frente às fêmeas desmamadas diariamente, duas vezes ao dia, e devem ser pesquisados os sinais de cio. Os sinais de cio são edema e hiperemia da vulva (figura 10), orelhas eretas (figura 9) e o reflexo de tolerância ao homem na presença do cachaço, onde a fêmea fica completamente parada na presença do macho adulto (figura 7 e 8).
Inseminação artificial
As fêmeas que estiverem em cio deverão ser incluídas em um protocolo de inseminação. Duas possibilidades estão descritas na tabela 1. Utilizam-se duas a três doses de sêmen com três bilhões de espermatozoides cada, distribuídas durante o cio em intervalos regulares, uma ou duas vezes ao dia.
6 Manejo aplicado à reprodução Parte 2
Manejo pós-cobertura e gestação
7 Manejos aplicados à maternidade
A maternidade pode ser considerada como um setor central dentro da granja, pois fornece os leitões para as fases de crescimento e devolve as matrizes para o setor de reprodução (gestação). O manejo de maternidade interfere diretamente na performance tanto das matrizes quanto dos leitões no pós-desmame, exigindo uma mão-de-obra muito bem treinada para cumprir rotinas relacionadas aos cuidados sanitários, alimentares e de ambiente. Registros de indicadores e de ocorrências são ferramentas fundamentais na melhoria constante de todos os processos.
Cuidados no pré-parto
A preparação ao parto inclui cuidados com o ambiente onde os animais serão alojados e a transferência e a adaptação das fêmeas na instalação.
Como forma de reduzir a pressão de infecção, o setor de maternidade deve trabalhar no sistema “todos dentro - todos fora” e a partir de procedimentos criteriosos de lavagem, desinfecção e vazio sanitário das instalações, antes da entrada de qualquer animal do lote subsequente.
Alojamento das matrizes na maternidade e alimentação pré-parto
Antes do alojamento das matrizes, os equipamentos de climatização e alimentação, bem como bebedouros, cortinas e demais componentes das instalações devem ser testados, a fi m de que se proceda com as correções necessárias em tempo ágil e se garanta o pleno funcionamento de todos os itens quando do manejo dos animais.
Recomenda-se levar as porcas para a maternidade de cinco a sete dias antes da data prevista para o parto (fi guras 1 a 4). Transferências muito próximas ao momento da parição não permitem uma boa adaptação da matriz ao ambiente de maternidade, resultando em maior estresse durante o parto, além do risco de ocorrerem partos no setor de gestação em fêmeas que naturalmente antecipam alguns dias na data prevista, além de interferir na qualidade do colostro.
As fêmeas que serão transferidas devem ser lavadas com escova, água e sabão, dando especial atenção à região posterior, aparelho locomotor e mamário. Pode-se ter um local especial para lavar os animais de forma a dar mais segurança e conforto a quem for realizar a tarefa. Recomenda-se também evitar lavar os animais em grupo, principalmente quando alojados na gestação em gaiolas individuais, pois podem ocorrer brigas, ferimentos nas fêmeas e até natimortalidade.
Após o banho, as matrizes devem ser transferidas com calma, sem estresse ou agressões, individualmente ou em grupos pequenos (três a quatro matrizes). Transferir as fêmeas nas horas mais quentes do dia durante o inverno e nas horas mais frescas no verão. Falhas na transferência para a maternidade podem resultar na ocorrência de abortos, partos prematuros, mortalidade de fêmeas e nascimento de leitões natimortos pré-parto.
Ainda antes do parto, recomenda-se proceder com a contagem de tetas funcionais de cada matriz, anotando essa quantidade na ficha da porca ou no posterior do animal, o que auxilia no momento da uniformização das leitegadas.
Desde o primeiro dia de alojamento na maternidade deve ser fornecida ração do tipo lactação nas mesmas quantidades que vinham sendo dadas no final da gestação, pois o crescimento dos fetos nessa fase final é bastante significativo.
Nos três dias que antecedem o parto, recomenda-se a redução na quantidade de ração fornecida para diminuir o volume de fezes no intestino. Isso é importante para prevenir a ocorrência de complicações e a contaminação com fezes durante o parto. Pode-se ainda utilizar produtos laxativos (sal amargo) alguns dias antes da parição. No dia do parto, as fêmeas não podem ser alimentadas, recebendo apenas água à vontade.
Indução ao parto
A ocorrência dos partos pode ser programada com o uso da indução. Se bem conduzido, esse procedimento determina que mais de 80% dos partos ocorram entre 24-36 horas após a aplicação do produto indutor. O principal objetivo dessa técnica é reduzir a ocorrência de partos no período noturno, quando há poucos ou nenhum funcionário para atender os leitões.
Os produtos utilizados são o dinoprost ou coprostenol sódico, nas doses recomendadas nas suas bulas, podendo ser aplicados pela via intramuscular com agulha 40x12 ou na submucosa vulvar (figura 5) com agulha de insulina (13 x 4,5).
A escolha do momento da aplicação deve ser feita baseada na duração média da gestação de cada fêmea e de cada granja, sendo recomendado utilizar como padrão um dia antes da data prevista do parto. Faz-se necessário muito cuidado quanto à exatidão das anotações de cobertura, caso contrário haverá risco de indução de abortos ou partos prematuros, além de nascimento de leitões fracos, pouco viáveis e até de leitegadas inteiras sem qualquer leitão vivo.
Assistência ao parto
O atendimento imediato ao parto e aos leitões recém-nascidos se faz fundamental para garantir a sobrevivência do maior número possível de leitões, reduzindo, assim, o frio e acelerando a chegada ao aparelho mamário ou pela intervenção nos partos com problemas.
Sinais de parto
Para que o acompanhamento ao parto seja efetivo, desde o início é preciso conhecer os sinais que antecedem a expulsão do primeiro leitão. O quadro abaixo resume esses sinais (fi gura 6 a 9). Principais sinais associados ao parto e momento em que eles ocorrem.
A eliminação de uma secreção com consistência semelhante à urina indica a abertura da cérvix e a possibilidade de expulsão do primeiro leitão. A fêmea mostra as contrações através de movimentos de esticar e encolher dos membros posteriores em direção ao abdômen. Esses movimentos são responsáveis pela expulsão do feto.
Parto e registros
Os leitões são expulsos com a fêmea em decúbito lateral (deitada de lado) e a cada leitão que estiver passando pelo canal do parto, a fêmea faz um movimento da cauda. A posição de nascimento dos leitões pode ser em apresentação anterior (fi gura 10) ou posterior. A placenta pode ser expulsa (fi gura 12) junto com os primeiros leitões nascidos e ao longo de todo o processo, mas normalmente quando em quantidade maiores pode ser um indicativo de que o parto está no fim.
É importante utilizar fichas de parto, registrando a hora de nascimento de cada leitão, visando a auxiliar na decisão de intervenção. Da mesma forma, pode-se anotar as intervenções (carbetocina ou ocitocina, toque e aplicação de medicamentos), peso ao nascimento e o tipo de leitão: vivo, natimorto ou mumificado (figuras 13 a 15).
Tabela 1: Classificação natimortos e mumificados
Classificar adequadamente no momento do parto é muito importante, pois as medidas que devem ser tomadas para prevenir essas perdas são diferentes entre essas três categorias.
Intervenção aos partos complicados (distócicos)
Considera-se como distócico todo parto que foge da normalidade, ou seja, onde a fêmea não consegue parir naturalmente, precisando da intervenção humana.
Os principais problemas nos partos em suínos são a presença de leitões mal posicionados ou muito grandes e a falta de contrações uterinas.
As reações das fêmeas durante o parto são bastante variáveis e podem ter interferência de fatores ambientais como temperatura e tranquilidade da sala de maternidade. Apesar disso, a fêmea normalmente manifesta comportamento diferenciado quando o trabalho de parto não transcorre de forma normal. Saber reconhecer esse comportamento anormal e realizar as intervenções corretas no tempo certo pode auxiliar na redução da perda de leitões e de fêmeas.
Em geral, quando ocorre um intervalo maior que 20 minutos entre os nascimentos, deve-se considerar que há algum tipo de complicação, buscando-se iniciar, assim, as intervenções.
São dois tipos de distocias mais frequentes:
1. A fêmea apresenta contrações abdominais frequentes e vigorosas, associadas a inquietação e sem o nascimento de qualquer leitão;
2. A fêmea não apresenta contrações abdominais e uterinas após o nascimento de um leitão que exigiu muita força e energia da fêmea ou durante um parto prolongado e difícil;
8 Manejos aplicados à maternidade Parte 2
Manejo dos recém-nascidos
Reanimação de leitões aparentemente mortos
Acompanhamento da primeira mamada (ingestão do colostro)
9 Manejos aplicados à maternidade Parte 3
Manejo dos leitões na primeira semana
Treinamento para uso do escamoteador
Corte de cauda (caudectomia)
Desgaste dos dentes:
Aplicação de ferro
Castração
Uniformização das leitegadas pós-parto
10 Manejos aplicados à maternidade Parte 4
Fornecimento de ração pré-inicial
Manejo de porcas lactantes
Alimentação da fêmea na maternidade
Sanidade da matriz lactante
11 Manejos aplicados à maternidade Parte 5
Principais cuidados sanitários
12 Manejos aplicados aos leitões
Cuidados com leitões na fase pós-desmama
Um dos pontos cruciais na produção suína é o momento de desmama dos leitões e sua transferência para creche, iniciando o período de alimentação solida.
O melhor manejo de creche consiste em amenizar esses fatores de estresse e adaptar o leitão o mais rápido possível ao sistema para que manifeste o máximo potencial de ganho de peso e conversão alimentar.
Assim, também são as primeiras semanas de creche, onde o desempenho tem grande influência no potencial de desenvolvimento do leitão, não só nesse setor, mas também nas etapas seguintes de crescimento e terminação.
Após o desmame, deve-se fornecer a mesma ração de desmame desde o período de lactação. Esse manejo é essencial na adaptação do leitão ao consumo na primeira semana pós-desmame. O programa nutricional da creche pode ser alterado conforme os níveis de cada ração, além do potencial genético dos animais. Normalmente, os programas adotados no Brasil seguem o esquema abaixo:
O programa nutricional da creche também pode ser estabelecido segundo as quantidades de ração/fase:
Primeira semana pós-desmama
Dentro dos objetivos cruciais ao setor de creche, nas primeiras semanas, está a maximização do consumo de ração e água. Assim, o uso de rações pré-iniciais molhadas (papinha) no período pós-desmame é uma forma simples de aumentar o consumo nessa fase. As rações molhadas são mais atrativas e auxiliam na manutenção da integridade da mucosa intestinal (vilosidades), melhorando, assim, a digestão e absorção dos nutrientes.
Outra grande preocupação nos primeiros dias após o desmame está relacionada ao consumo de ração e de água. O leitão lactente utiliza basicamente a ingestão do leite materno para saciar fome e sede. Na creche há uma mudança radical nas fontes para saciar as duas necessidades fisiológicas em fontes diferentes (ração e água). O tempo médio para que os leitões ingiram água pela primeira vez na creche é variável, sendo que alguns podem levar até dois dias para encontrar o bebedouro e consumir efetivamente esse alimento.
O baixo consumo de água, além de ocasionar desidratação, também contribui para redução do consumo de ração. Entende-se então que consumo de ração e de água devem ser trabalhados em conjunto, desde a entrada dos leitões na creche. Deve-se lançar mão de artifícios para estimular a ingestão d’água.
A utilização de bebedouros suplementares, reabastecidos várias vezes ao dia, auxilia no fornecimento de água até que os leitões se adaptem aos bebedouros da creche.
Pode-se adicionar a essa água ácidos orgânicos que, além de aumentarem a palatabilidade, também auxiliam na redução do pH do estômago.
Recomenda-se trabalhar com no máximo 10 animais por bebedouro e a vazão deve ser de 1 litro/minuto, com a altura regulável ao tamanho e desenvolvimento de cada grupo, 3 a 5 centímetros acima do dorso dos leitões.
Principais cuidados ao desmame
• Ajustar toda a sala antes do desmame, regulando cocho, bebedouro e ambiência;
• Definir lotes pelo tamanho dos animais (padronização);
• Estimular o consumo através do fornecimento de 6 a 8 tratos diários;
• Utilizar termômetro de máxima e mínima para verificação da temperatura nas salas;
• Atenção especial à hidratação dos leitões;
• Atenção ao manejo de cortina e lavação das salas (formação de gás);
• Respeitar a relação de 10 leitões/bebedouro.
É importante que os leitões sejam mantidos em sua zona de conforto para que se obtenha maior consumo e ganho de peso na fase de creche. Grandes amplitudes térmicas, associadas à alta concentração de gases (amônia) e poeira, levam a irritações no trato respiratório dos animais, aumentando a probabilidade de ocorrência e agravamento de doenças respiratórias.
É necessário o controle da temperatura através do acompanhamento diário com termômetro de máxima e mínima em cada sala de creche, mas muito além está a observação do comportamento dos animais.
Os sinais comportamentais dos suínos nos demonstram, independente da temperatura ambiente, a sensação térmica e o conforto dos animais (fi gura 2). Leitões amontoados demonstram desconforto e sensação de frio (fi gura 1). Por outro lado, leitões ofegantes e espalhados demonstram sensação de calor excessivo.
O manejo de cortinas é fundamental para manter a temperatura adequada a cada fase, permitindo a renovação de ar das salas e impedindo a incidência direta de correntes de ar frio sobre os leitões. Em regiões mais frias, o uso de cortinas duplas auxilia significativamente na manutenção do conforto térmico.
Entretanto, em algumas situações, nem sempre apenas o uso de cortinas é sufi ciente para garantir o conforto térmico dos leitões, especialmente nas primeiras semanas de creche. Portanto, faz-se necessário dispor de alternativas para manter a temperatura ideal em cada fase. A temperatura ideal para a fase de creche é de:
O aquecimento das creches ( fi guras 3 a 7) pode ser realizado com a circulação de ar aquecido nas salas ou com a utilização de campânulas. As campânulas podem utilizar energia elétrica (resistências ou lâmpadas infravermelhas) ou gás (GLP ou biogás). As campânulas são móveis, podendo ser transferidas de uma sala para outra. Quando se usa o gás é preciso ter cuidado com a queima excessiva de oxigênio da sala que pode ocasionar desconforto aos animais. Recomenda-se fazer a renovação de ar manejando as cortinas com mais frequência.
O uso de lonas ou escamoteadores móveis nos primeiros dias de alojamento na creche também pode auxiliar na melhor utilização do calor produzido pelos leitões e pelas campânulas, já que promovem a redução no ambiente a ser aquecido.
Deve-se atentar também para a disponibilidade de cochos e bebedouros, além da lotação das baias, tendo importância no desempenho e na sanidade dos animais. A creche com piso ripado deve trabalhar com uma lotação de, no máximo, três animais por metro quadrado.
Independente do sistema de alimentação utilizado, deve-se ter como objetivo o maior consumo de ração possível, com o menor desperdício, pois a fase de creche é onde o leitão tem o melhor potencial de conversão da fase de crescimento. Os sistemas existentes de fornecimento de ração de forma seca, farelada ou peletizada são manual, semi-automático e automático.
Principais fatores relacionados com o peso de saída de creche
• A nutrição é uma importante ferramenta para um bom desempenho na creche;
13 Manejos aplicados à creche de leitões
• O desempenho na primeira semana de desmame apresenta forte correlação com o peso na saída de creche e dias necessários para o abate;
• Há correlação direta entre o desempenho na creche, peso ao nascer e peso ao desmame e estes devem ser trabalhados nos diversos setores para que possam somar ao desempenho final;
• Diversas ferramentas e manejos influenciam na variabilidade ao longo do crescimento e podem ser utilizados na melhoria para maior produção de carne magra;
• Há uma grande correlação entre consumo de água na primeira e o aumento do ganho de peso diário aos 42 dias pós-desmame, necessitando o estimulo ao leitão para evitar que ocorra desidratação.