A arte de contar histórias uma estratégia para a formação de leitores
Educação Infantil - Contadores de Histórias
1 A arte de contar histórias:
2 Uma estratégia para a formação de leitores
Uma estratégia para a formação de leitores 1:
A leitura é uma atividade inerente à condição humana. Freire afirma que a leitura de mundo antecede à da palavra, ou seja, desde que nascemos somos leitores do mundo e nossas ações decorrem dessa leitura. Ela é muito importante para inspirar sentimentos, valores, condutas e a celebração da própria vida.
Por isso, a leitura exerce um importante papel no crescimento intelectual, crítico e criativo do aluno, desenvolvendo as suas potencialidades e, conseqüentemente, o seu rendimento escolar, tanto como estudantes, como também no aperfeiçoamento de sua personalidade. Sobre isso, Bamberger afirma que a “leitura é um dos meios mais eficazes de desenvolvimento sistemático da linguagem e da personalidade. Trabalhar com a linguagem é trabalhar com o homem”.
Quando o ser humano experimenta a leitura, ele executa um ato de compreender o mundo, pois ler é, antes de tudo, compreender, e compreender é ser. Portanto, ler o mundo é assumir-se como sujeito da própria história. É ter consciência dos processos que interferem na sua existência como ser social e político. É imprescindível que os diversos segmentos da sociedade convençam-se da importância da leitura e, desta forma, da escrita. Conforme Gadotti:
... o ato de ler é incompleto sem o ato de escrever. Um não pode existir sem o outro. Ler e escrever não apenas palavras, mas ler e escrever a vida, a história. Numa sociedade de privilegiados, a leitura e a escrita são um privilégio. Ensinar o trabalhador apenas a escrever o seu nome ou assiná-lo na Carteira Profissional, ensiná-lo a ler alguns letreiros na fábrica como perigo, atenção, cuidado, para que ele não provoque algum acidente e ponha em risco o capital do patrão, não é suficiente.
Dessa forma, faz-se necessário que nos conscientizemos, enquanto educadores, da responsabilidade diante da importância da leitura para a vida individual, social e cultural do educando. A escola deve valorizar o livro, não como algo para ser guardado na estante, mas para ser lido. É também dever da escola indicar diretrizes e incentivar a prática da leitura. Segundo Ziraldo: “... a tônica da escola deveria ser a leitura, num trabalho que fizesse do hábito de ler uma coisa tão importante quanto respirar”. Apesar disso, o prazer da leitura não constitui um hábito para grande parte dos brasileiros. Não se vê pessoas lendo. Na maioria das vezes, o único contato que se tem com os livros é nas escolas, cuja leitura é obrigatória e não voluntária. Os jovens têm atravessado os portões das escolas sem ler e têm chegado às universidades tendo lido apenas resumos dos livros solicitados para o vestibular.
Porém, enquanto professores e formadores de leitores que somos, é possível acreditar na mudança desse protótipo de leitor.
Se a leitura for trabalhada de uma forma diferente nas escolas, transformando-a em momentos agradáveis, nutridos de motivação e curiosidade, teremos uma prática transformadora e a leitura se tornará imprescindível.
Para isso, os professores de Língua Portuguesa devem trabalhar diariamente com a literatura, pois é através dela que o aluno sente, vive e descobre emoções que nem sempre podem ser experimentadas na realidade. A literatura é a ponte entre o real e o imaginário, as histórias auxiliam as crianças na elaboração de seus sentimentos, já que as emoções gozadas por meio das narrativas preparam-nas para vivenciarem essas emoções no mundo real, de forma mais racional e equilibrada. A literatura suscita o imaginário, encanta e deleita o espírito.
Inicialmente, esse contato da criança com o texto acontece oralmente, através da voz de algum familiar, contando contos de fada, histórias bíblicas, histórias inventadas, lembranças da infância e tantas outras.
As histórias estão presentes em nossa cultura há muito tempo, e contar histórias é a mais antiga das artes, sendo que o hábito de ouvi-las e de contá-las tem inúmeros significados, está interligado ao desenvolvimento da imaginação, à capacidade de ouvir o outro e de se expressar, à construção de identidade e aos cuidados afetivos.
Nas sociedades primitivas essa atividade tinha um caráter funcional decisivo, os contadores eram os que conservavam e difundiam a história e o conhecimento acumulado pelas gerações. Durante séculos, essa cultura se manteve sem a escrita, mas na memória viva. Transmitidos de geração em geração, os contos de tradição oral viajaram do Oriente para o Ocidente.
Com a invenção da imprensa, os livros e jornais se tornaram grandes agentes culturais dos povos. Os velhos contadores ficaram para trás, mas os contos tradicionais se incorporaram definitivamente em nossa cultura. Os Irmãos Grimm e Perrault coletaram e registraram os contos colhidos da boca do povo, permitindo que chegassem até nossos dias. Assim, as histórias ganharam a nossa casa através da agradável voz de nossa avó ou mãe.
As crianças e jovens aprendiam com as histórias vividas e contadas por seus pais, avós e parentes que compartilhavam suas experiências com a coletividade.
Mudaram os tempos, mudam os costumes. Os valores não são mais os mesmos. Atualmente, poucas famílias têm o hábito de contar histórias para as crianças à hora de dormir, essa atividade foi dando lugar a outros interesses. Com os avanços tecnológicos da sociedade contemporânea, as pessoas preferem a televisão, o vídeo game e o computador ao livro. Mas o fascínio que as histórias exercem sobre o homem não mudou, pois quando se conta uma história lança-se um fio invisível que vai enredando o narrador ao ouvinte, pelas tênues tramas da narração.
Para quem ficou, então, a função de provocar a imaginação infantil? Ao professor. É ele que, no contexto social vigente, deve tomar para si a função de resgatar esses momentos tão importantes na vida do ser humano, a prática mais prazerosa e usada entre as pessoas: o ato de contar / ouvir histórias.
Assim, numa sociedade tecnicista, contar e ouvir histórias são possibilidades mais libertárias da aprendizagem. Como educadores, o ato de contar histórias é uma postura a assumir, segundo Prieto:
Em plena virada de milênio, quando o professor se senta no meio de um círculo de alunos e narra uma história, na verdade cumpre um desígnio ancestral. Nesse momento, ocupa o lugar do xamã, do bardo celta, do cigano, do mestre oriental, daquele que detém a sabedoria e o encanto, do porta-voz da ancestralidade e da sabedoria. Nesse momento ele exerce a arte da memória.
Portanto, além de o professor promover a recuperação das narrativas populares, a contação de histórias assume a responsabilidade de transmitir a memória coletiva.
Contar histórias lidas, ouvidas, imaginadas, histórias de contos de fada, de terror, de suspense, etc. Enfim, todas essas formas de comunicação sempre estiveram presentes na vida e na lembrança de qualquer pessoa. Abramovich salienta que “é importante para a formação de qualquer criança ouvir muitas histórias... Escutá-las é o início da aprendizagem para ser leitor é ter um caminho absolutamente infinito de descobertas e de compreensão do mundo”.
Ou seja, ouvir e contar histórias na infância é muito importante para a formação da criança, já que é o início da aprendizagem para ser leitor, e ser leitor é compreender não só as histórias escritas como os acontecimentos do seu cotidiano.
É também contando histórias que preparamos a criança para vivenciar com mais segurança suas próprias dificuldades ou encontrar um caminho para sua resolução. É através delas que se pode sentir e viver importantes emoções como: a raiva, a tristeza, alegria, tranqüilidade e tantas outras, e viver profundamente tudo o que as narrativas provocam em quem as ouve. Abramovich diz também que ler “... é ouvir, sentir e enxergar com os olhos do imaginário!”
Por isso, contar histórias é saber criar um ambiente de encantamento, suspense, surpresa e emoção, no qual o enredo e personagens ganham vida, transformando tanto o narrador como o ouvinte.
O ato de contar histórias deve impregnar todos os sentidos, tocando o coração e enriquecendo a leitura de mundo na trajetória de cada um.
A contação de histórias é um momento mágico que envolve a todos que estão nesse momento de fantasia. Ao contar histórias o professor estabelece com o aluno um clima de cumplicidade que os remete à época dos antigos contadores que, ao redor do fogo, contavam a uma platéia atenta as histórias, costumes e valores do seu povo. A platéia não se reúne mais em volta do fogo, mas nas escolas, os contadores de história são os professores, elo entre o aluno e o livro.
Depois de ouvir uma história, o aluno quer prolongar o prazer e a reação dele é pedir para ler o livro, momento de o professor promover esse encontro, pois é através da narração que podemos fazer nascer no ouvinte o desejo de ouvir, ler e descobrir outras histórias.
O ato de contar histórias é próprio do ser humano, e o professor pode apropriar-se dessa característica e transformar a contação em um importantíssimo recurso de formação do leitor. Pennac, salienta suas próprias convicções de professor que sabe formar leitores: “Mas ler em voz alta não é suficiente, é preciso contar também, oferecer nossos tesouros, desembrulhá-los na praia ignorante. Escutem, escutem e vejam como é bom ouvir uma história. Não há melhor maneira de abrir o apetite de um leitor do que lhe dar de farejar uma orgia de leitura”.
Inúmeras são as possibilidades que o uso da contação de histórias em sala de aula propicia. Além de as histórias divertirem, elas atingem outros objetivos, como educar, instruir, socializar, desenvolver a inteligência e a sensibilidade.
Apesar disso, há uma ausência total ou quase total da prática de ouvir histórias na sala de aula ou na escola. Talvez essa ausência seja característica da ideia de que, na escola, a leitura deva ser somente aquela capaz de instrumentalizar o aluno para a vida futura, oferecendo-lhe oportunidade de lutar por condições mais dignas. Com esse caráter utilitário, a escola exige leitura, com vistas, quase sempre, à avaliação.
Se, por um lado, a escola lança mão de várias estratégias para fazer o aluno ler e escrever provas, testes, questionários, interpretações de textos, por outro, despreza a contação de histórias como ferramenta valiosa no estímulo à leitura e à escrita. Bajard diz que “... às vezes, a expressão escrita da criança é alimentada pelas histórias contadas sistematicamente pelo professor”.
3 Uma estratégia para a formação de leitores 2:
O professor pode até saber disso, mas ao analisarmos o espaço que a narrativa ocupa na sala de aula, como fonte de prazer e troca de experiências na vida dos alunos, é necessário considerar que o professor não pode se constituir narrador se ele próprio não encontra prazer em narrar histórias. Ou seja, se ele não reconhece a importância de estimular a troca de experiências com e entre alunos não será um bom narrador, já que narrar é disponibilizar experiências. Benjamin salienta que ”O narrador retira da experiência o que ele conta: sua própria experiência ou a relatada pelos outros. E incorpora as coisas narradas à experiência dos seus ouvintes”.
Outro ponto importante sobre o porquê dessa prática não ser comum na sala de aula são as condições institucionais que podem impedir um trabalho diferenciado com a leitura, visto que a contação de histórias foge ao padrão das avaliações.
Não se podem mensurar notas ou conceitos quando contamos ou ouvimos uma história e a escola tem dificuldades em trabalhar com aquilo que não se pode avaliar. Tal dificuldade é apresentada até mesmo com a literatura, que perde o seu caráter estético quando o texto literário se transforma em uma ferramenta de avaliação, fazendo com que o prazer e o deleite da leitura se evaporem com a avaliação.
É evidente que o fracasso escolar referente ao desenvolvimento pelo gosto da leitura e formação de leitores recai sobre a forma como o professor está trabalhando a relação do livro com o aluno. A literatura não está recebendo um estímulo adequado e a contação de histórias é uma alternativa para que os alunos tenham uma experiência positiva com a leitura, e não uma tarefa rotineira escolar que transforma a leitura e a literatura em simples instrumentos de avaliação, afastando o aluno do prazer de ler. Porque para formar grandes leitores, leitores críticos, não basta ensinar a ler. É preciso ensinar a gostar de ler. [...] com prazer, isto é possível, e mais fácil do que parece. (VILLARDI, 1997, p. 2).
Dessa forma, utilizar a contação em sala de aula faz com que todos saiam ganhando, seja o aluno, que será instigado a imaginar e criar, seja o professor, que ministrará uma aula muito mais agradável e produtiva e alcançará o objetivo pretendido: a aprendizagem significativa.
Por isso, a proposta do projeto “A Arte de Contar Histórias: uma teia mágica que enreda leitores” teve como principal objetivo desenvolver o gosto e o hábito da leitura por meio da contação de histórias e de divulgar textos clássicos da literatura e da tradição oral.
Além disso, as histórias ampliam o contato com o livro para que os alunos possam expandir seu universo cultural e imaginário e, através de variadas situações, a contação de histórias pode: intrigar, fazer pensar, trazer descobertas, provocar o riso, a perplexidade, o maravilhamento, etc. Ou seja, ao se contar uma história, percorre-se um caminho absolutamente infinito de descobertas e compreensão do mundo.
As histórias despertam no ouvinte a imaginação, a emoção e o fascínio da escrita e da leitura. Afinal, contar histórias é revelar segredos, é seduzir o ouvinte e convidá-lo a se apaixonar... Pela história... Pela leitura.
Este artigo, por conseguinte, versará sobre as atividades desenvolvidas com os alunos e as reflexões teóricas que serviram como base para a prática exercida pelo professor no decorrer do primeiro ano de existência do projeto.