Hemorragias,ferimentos e choque

Noções Básicas em Primeiros Socorros

1 Hemorragias:

A hemorragia é definida como uma perda aguda de sangue circulante. Normalmente o volume de sangue corresponde a 7% do peso corporal do adulto. Por exemplo, um homem de 70 Kg tem aproximadamente 5 litros de sangue. Na criança o volume é 8 a 9% do peso corporal.

É classificada de duas formas: Interna e Externa. Na hemorragia interna o sangue perdido não é visível e pode ser devido a lesões traumáticas de vísceras internas ou grandes vasos.

A suspeitar desta forma de hemorragia ocorre quando existe: Acidente por desaceleração;Ferimento por projétil de arma de fogo, faca ou estilete, principalmente no tórax e abdome.

 

 

Diagnóstico:

 

  • Pulso rápido e fraco;
  • Palidez da pele e mucosas;
  • Sudorese intensa;
  • Pele fria.

 

Sequência no atendimento:

 

  • Deitar a vítima;
  • Se não houver contra-indicação, elevar os membros inferiores;
  •  Verificar V.R.C.N. (vias aéreas, respiração, circulação, sistema nervoso);
  •  Transportar a vítima ao hospital.

 

Hemorragia externa:

 

A hemorragia externa, visível ao exame primário do paciente, deve ser prontamente controlada pela pressão, direta sobre o local do sangramento em ferimentos superficiais.

Nos ferimentos profundos com hemorragia devemos tomar as seguintes medidas:

  • Deitar a vítima;
  • Cobrir o ferimento com gaze ou pano limpo;
  • Pressionar o local com firmeza;
  • Transportar a vítima para o hospital o mais rápido possível.

 

 

Observação:

 

Caso um sangramento externo em extremidade não possa ser controlado por pressão, a aplicação de um torniquete é a etapa lógica seguinte para o controle da hemorragia. Observar técnica de colocação de torniquete e controle do mesmo.

 

Hemorragia nasal:

 

A hemorragia nasal ou epistaxe é causada pela ruptura dos vasos da mucosa nasal que pode ser produzida por traumatismos, hipertensão arterial, etc...Nestes casos, devemos colocar a vítima com a cabeça inclinada para trás, deixando-a nesta posição por 5 minutos e fazendo compressão com os dedos nas narinas. Caso a hemorragia não cesse com estas manobras, o paciente deve ser conduzido a um hospital.

2 Ferimentos:

Definição:

 

Ferimento é uma agressão à integridade tecidual, produzindo solução de continuidade entre o meio externo e o interno. O ferimento é sempre produzido por um agente lesivo que alberga micróbios próprios e, desta forma, contamina a ferida, como também leva os micróbios que vivem na pele para o interior da ferida. Esta contaminação, se não for adequadamente tratada, pode levar a uma infecção localizada da ferida.

 

 

Conduta nos ferimentos superficiais:

 

Os ferimentos podem ser superficiais ou profundos. Nos ferimentos superficiais devemos tomar as seguintes medidas:

  • Limpar o ferimento com água, se o transporte a um hospital for demorado;
  • Proteger o ferimento com gaze ou pano limpo, fixando sem apertar demasiadamente;
  • Fazer compressão local, o suficiente para fazer cessar a hemorragia;
  • Não tocar no ferimento;
  • Conduzir a vítima a um hospital, para receber tratamento definitivo.

 

Conduta nos ferimentos profundos:

 

  • Não lavar a ferida, pois aumenta o risco de hemorragia;
  • Colocar gaze ou pano limpo sobre o ferimento, fazendo compressão o suficiente para cessar a hemorragia;
  • Se o ferimento for nos membros, elevar o membro ferido;
  • Caso não haja controle, pressionar os pontos arteriais;
  • Caso não cesse, e a hemorragia for abundante nos braços ou pernas, aplicar torniquete (somente como medida de exceção);
  • Não remover objetos empalados;
  • Transportar a vítima para um hospital.

 

Ferimentos profundos no tórax:

 

Conforme vimos no capítulo de respiração, o ar é aspirado para dentro dos pulmões graças à pressão negativa criada pelo diafragma e pela caixa torácica.

Se um ferimento coloca em comunicação permanente a parte interna (cavidade pleural) com a externa (atmosfera) este mecanismo de aspiração é comprometido, passando o ar a penetrar pelo orifício do ferimento. Desta forma, devemos então tomar as seguintes medidas:

  • Controlar hemorragia;
  • Pedir para a vítima expulsar todo o ar dos pulmões (expiração forçada);
  • Colocar uma proteção (gaze, plástico, etc) sobre o ferimento no final da expiração, para evitar penetração de ar no tórax;
  • Fixar o material usado com esparadrapo ou fita de crepe, em três lados;
  • Não usar cinta ou atadura que envolva todo o tórax, pois pode dificultar a respiração;
  • Conduzir a vítima a um hospital.

 

Ferimentos profundos abdominais:

 

Na cavidade abdominal, como já vimos no capítulo de noções de anatomia, encontramos as alças intestinais, fígado, baço, pâncreas e outras vísceras que, dependendo da extensão do ferimento, podem sair para fora do abdome.

Quando isto ocorre, devemos tomar as seguintes medidas:

  • Cobrir as vísceras com compressas de gaze ou pano limpo;
  • Não tentar recolocar as vísceras para dentro do abdome;
  •  Manter o curativo preso com atadura, não muito apertado, embebido em Soro Fisiológico;
  • Conduzir a vítima a um hospital;
  • MMII fletidos.

 

Ferimentos da cabeça:

 

Os ferimentos da cabeça podem estar acompanhados de ferimentos internos do crânio. O exame clínico inicial pode levar a enganos. Pequenos ferimentos externos podem ser muito graves e extensas lacerações do couro cabeludo, com grande hemorragia, podem não ter maior significado. Desta forma devemos tomar as seguintes condutas:

  • Verificar a permeabilidade das vias aéreas, mantendo a coluna cervical alinhada;
  • Colocar gaze sobre o ferimento e não apertar;
  • Não retirar objetos encravados ou transfixantes, exceto, aqueles na bochecha que devem ser retirados quando possível;
  • Conduzir a vítima a um hospital.

É importante registrar se a vítima perdeu os sentidos no momento do acidente, ou não, e se ela se encontra com nível de consciência normal ou comprometida (ver avaliação neurológica).

Também é necessário assinalar as circunstâncias em que se deu o acidente e a natureza do agente causador do traumatismo.

 

3 Choque:

Definição:

 

Existem, quanto à natureza, diversos tipos de choque. No entanto, no atendimento do doente, no local do acidente, os primeiros procedimentos são idênticos. Lembrar que nos acidentes a causa mais comum de choque é a perda de sangue, que pode ser interna ou externa, e que o tratamento definitivo só pode ser realizado por médicos e no hospital.

O sangue leva até às células os nutrientes e o oxigênio para manutenção da sua vida, através de pequenos vasos sanguíneos. Quando, por qualquer motivo, isto deixa de acontecer, as células começam a entrar em sofrimento e, se esta condição não for revertida à normalidade com urgência, as células acabam morrendo.

O sistema nervoso é o que menos resiste a esta situação. Desta forma, o organismo lança mão de mecanismo de proteção para preservar a vitalidade das células nervosas. Entretanto, estes mecanismos de defesa se esgotam rapidamente. Por isso, esta condição deverá ser corrigida de imediato para preservação da vida.

Doenças neurológicas, cardiológicas e infecciosas e perda de sangue podem levar o paciente ao estado de choque.

O passo inicial no tratamento do estado de choque é reconhecer a sua presença. O diagnóstico inicial é baseado na avaliação clínica da presença de perfuração, inadequada:

  • Pulso arterial acelerado;
  •  Freqüência respiratória aumentada;
  •  Pele fria e úmida;
  •  Perfusão periférica deficitária (compressão da polpa digital);
  •  Palidez da pele;
  •  Agitação ou depressão do nível de consciência;
  •  Sede.

Após feito o diagnóstico do choque, devemos colocar a vítima deitada, sempre lembrando a possibilidade de outras lesões associadas, principalmente trauma de coluna.Em seguida, devemos elevar as pernas (se não houver fraturas), afrouxar as roupas e cobri-las. Se não contarmos com apoio de ambulância para o transporte, devemos imobilizá-la sobre uma tábua e conduzi-la rapidamente a um hospital.

Não devemos nos esquecer de que uma porcentagem muito significativa dos pacientes traumatizados, que estão em choque hemorrágico, terá que ser operados com urgência para o efetivo tratamento do choque.

 

Presença de Fraturas em situação de choque:

 

Fratura é a ruptura total ou parcial da estrutura óssea. Ela pode ser classificada em fechada ou exposta. Nas fraturas fechadas não há rompimento da pele e nas expostas sim. Isto é, o osso fraturado fica com contato com o meio externo (a ruptura da pele muitas vezes é causada pelo próprio fragmento ósseo). Com esta exposição ao meio ambiente o osso fica em contato com bactérias, aumentando o risco de infecção.

Como geralmente a fratura de extremidade não causa risco imediato de vida, ela deve merecer atenção após a avaliação inicial e a correção dos problemas mais graves.

As vítimas que apresentam trauma isolado de extremidade deverão receber a mesma atenção inicial de um politraumatizado, isto é, avaliação inicial global e secundariamente o tratamento específico da fratura.

 

Diagnóstico:

 

Para uma avaliação adequada é importante comparar o membro onde se suspeita haver fratura com o correspondente não comprometido.

A seguir procure a presença de:

  • Deformações (angulações, encurtamento);
  •  Inchaço, contusões, hematomas;
  • Espasmo da musculatura;
  • Feridas;
  • Palidez ou cianose da extremidade.

 

Verifique se há:

 

  • Dor à manipulação delicada;
  • Crepitação;
  • Enchimento capilar lento;
  • Comprometimento da sensibilidade;
  •  Redução da temperatura do membro fraturado

Quando não encontramos perfuração da pele, a fratura é fechada, quando encontramos qualquer ferida perto do local ela é considerada aberta ou exposta.

Avalie a movimentação ativa: peça para o paciente mover a extremidade; com cuidado mobilize o membro delicadamente; não mova passivamente a extremidade que obviamente se encontra fraturada ou que o paciente se negue a mover espontaneamente.

Algumas fraturas de extremidade são consideradas de risco imediato de vida por causa de complicações associadas.

Exemplos:

  • Esmagamento com fratura e contaminação (terra, graxa,...);
  • Fratura de fêmur bilateral;
  •  Fratura próxima ao joelho ou cotovelo resulta em trauma vascular associado;
  •  Amputação traumática do braço ou perna.

 

 

Após o diagnóstico firmado da fratura devemos tomar as seguintes providências:

Nas fraturas fechadas:

  • Não alinhar o membro;
  • Imobilizar com talas ou material rígido (a imobilização deve atingir uma articulação acima e outra abaixo da lesão);
  • Usar macas para a remoção.

Nas fraturas expostas:

  • Não alinhar o membro;
  • Curativo com gaze ou pano limpo no local do rompimento;
  • Colocar a tala para imobilização (uma articulação acima e abaixo);
  • Remover a vítima com maca.

Geralmente o sangramento diminui após a imobilização. Caso haja sangramento ativo devemos proceder conforme capítulo de hemorragia.

Nas fraturas com deformidade do joelho, cotovelo e tornozelo, devemos proceder à imobilização sem tentar o alinhamento e transportar a vítima ao hospital imediatamente.

 

Tipos de fraturas:

 

 

 

Tipos de imobilizações de fraturas:

 

 

 

Fratura de crânio (Traumatismo Crânio Encefálico):

 

Batidas na cabeça fazem suspeitar de uma condição neurológica de urgência. Geralmente são acompanhadas de sangramento no cérebro que, se não corrigido de imediato, pode causar a morte do paciente. Devemos, ao exame, observar se há contusões ou hematomas na calota craniana, que fazem suspeitar de trauma de cabeça.

Podem ser sinais presentes nos traumatismos de crânio:

  • Alteração no comportamento, coordenação e habilidades;
  •  Tontura persistente;
  •  Sonolência extrema no horário em que estaria acordado;
  • Não conseguir acordar do sono;
  •  Irritação persistente;
  • Perda de sentido horas após o trauma;
  • Dor de cabeça intensa e/ou permanente;
  • Vômitos repetitivos;
  • Fluidos em narinas ou ouvidos;
  • Pupilas de diferentes tamanhos;
  • Palidez persistente;
  • Parada respiratória.

Estes sinais de alerta duram de 24 a 48 horas após o TCE.Havendo queda de local muito alto ou batidas muito intensas, levar a vítima imediatamente ao Pronto Socorro.

 

Fratura de coluna:

 

Todas as vítimas de traumas violentos, como já dissemos na avaliação inicial, deverão ser considerados como portadores de fratura de coluna até se provar o contrário. Tal afirmativa é particularmente importante para todos os doentes que estejam inconscientes.

As fraturas de coluna mal conduzidas podem produzir lesões graves e irreversíveis da medula com comprometimento neurológico definitivo da região atingida. Todo o cuidado deverá ser tomado nestes pacientes para não produzirmos lesões adicionais à vítima.

São sinais de suspeita de fratura de coluna:

  • Dor regional;
  • Incapacidade de movimentar-se;
  • Sensação de formigamento dos membros;
  • Perda da sensibilidade tátil nos braços e/ou nas pernas.

O transporte destes pacientes deverá ser feito sem mobilizar a coluna traumatizada (em plano duro como: maca, folha de porta, prancha etc.) e em bloco. É por causa desta razão que nas manobras de respiração não devemos estender a cabeça da vítima.

 

 

Fratura de costela:

 

Os arcos costais fraturados podem produzir lesão interna no parênquima pulmonar levando ao peneumotórax (ar dentro da caixa torácica mas fora dos pulmões) comprometendo desta forma a dinâmica respiratória. O paciente que apresenta respiração difícil e dores aos movimentos respiratórios é suspeito de ter fratura de costela. No local do acidente nada ou muito pouco podemos fazer por estes pacientes. Devemos, então, levá-los ao hospital.

 

Fratura de bacia:

 

As fraturas de bacia denotam gravidade do acidente. Neste tipo de fratura existe um sangramento intenso importante e, também, nada podemos fazer no local do acidente no sentido de interrompê-lo. O paciente que apresenta dor na bacia, dificuldade de mobilizar-se e hematomas localizados é suspeito de fratura de bacia. O transporte do paciente deverá ser feito com os mesmos cuidados dos pacientes com fraturas de coluna.