SECRETARIADO EXECUTIVO
Secretariado Executivo
1 QUEM É O SECRETARIADO EXECUTIVO?
O profissional de secretariado executivo é um dos mais procurados pelas grandes empresas e companhias, sendo um personagem importante na realização de funções voltadas à comunicação e administração de pequenas e grandes empresas.
O perfil do Secretariado Executivo aponta para um profissional com competência para promover e participar da melhoria do processo de gestão e desenvolvimento das organizações, do aumento de produtividade e competitividade.
Desta forma, o secretário executivo deve desempenhar suas atividades com competência e profissionalismo, contribuindo, significativamente, para a busca da melhoria constante, da excelência profissional e da produtividade das organizações.
2 HISTÓRIA DO SECRETARIADO EXECUTIVO
A Profissão do secretariado executivo não só progrediu de forma exponencial, como também evoluiu a forma de gestão dentro das empresas. Foi um processo de grande sucesso.
Antes dos anos 50 teve o início do trabalho feminino nas indústrias, o foco na datilografia, e sem exigências de formação.
Mas a secretária ainda era somente cumpridora e executora de ordens e suas funções na época era basicamente atender telefonemas, fazer agendamentos, anotar recados, taquigrafia e datilografia.
Nos anos 60, já começou a fazer parte do ‘’STAFF’’ como membro atuante e dinâmico. Nesse período a profissão começou a ganhar um ‘’status’’, no qual cada chefe começa a ter um secretária particular.
A partir dos anos 70, passa a se tornas membro ativo na Gerencia, começa a participar dos programas de desenvolvimento e ter uma atuação mais dinâmica e de respeito na organização.
E então nos anos 80 e 90, passa a ser vista como o ‘’Braço Direito’’ do executivo, e deixa de ser só secretária dele a assessora da equipe. A partir dessa evolução já se começa a exigir formação acadêmica.
Depois dessa época tivemos a chegada da internet no Brasil, que foi de muita importância para o desenvolvimento e crescimento na profissão pelo grande poder informacional que agora teriam em mãos, que é a internet.
Hoje o profissional ganhou muito mais poder de decisão e autonomia, e continua a ser o ‘’braço direito’’ do seu Chefe, o profissional planeja, organiza, coordena, gerencia, controla e executo em um mesmo espaço de tempo e é um papel de grande importância dentro das empresas.
3 Conhecendo mais o secretariado
A fim de se vislumbrar a extrema complexidade da profissão de secretária e seu significado, é necessário conhecer o que tem sido dito a respeito da secretária, do seu trabalho e da sua imagem na sociedade. Neste capítulo, portanto, pretende-se realizar uma breve revisão bibliográfica sobre os estudos que se dedicaram a investigar a profissão de secretária, analisando as ambiguidades inerentes a ela, identificando e rechaçando estereótipos, enfim, submetendo a profissão e seus/suas profissionais a um exame crítico de suas características e vulnerabilidades.
Primeiramente, será construído um panorama temático dos estudos sobre secretárias, por sua vez, oriundos de diferentes pontos de vista, como Sociologia, Administração, Comunicação Social, História, Psicologia e Lingüística. Em seguida, discuto alguns dos temas mais abordados na literatura sobre secretárias, as ambiguidades e os estereótipos da profissão. Depois, faço um apanhado da constituição histórica do Secretariado, assim como de sua consolidação como profissão no Brasil.
Com essa explanação, espero facilitar o estabelecimento de relações entre o que discuto no capítulo seguinte, sob o ponto de vista da Sociologia das Profissões – os processos de constituição de uma profissão e o que a diferencia de ocupação – e as dificuldades do secretariado em ser socialmente reconhecido como profissão.
A secretária na literatura
Ao ampliar os horizontes para contemplar estudos de quaisquer nacionalidades e orientações acadêmicas com perspectivas mais críticas sobre a profissão de secretária, foram encontradas algumas pesquisas que descrevem, em maior ou menor profundidade, ou analisam a evolução sócio-histórica e tecnológica ocorrida no século passado e seus impactos sobre o comportamento, o papel e a forma de trabalho da secretária.
Outros estudos investigam como se dá a formação acadêmica e profissional da secretária e sua efetiva correspondência com as leis de regulamentação da profissão no Brasil e com o trabalho efetivamente desempenhado nas empresas (Castelo, 2008; Nonato Junior, 2009).
Há pesquisas que abordam a temática do secretariado sob a perspectiva imagética, analisando representações da secretária no cinema (Carvalho, 2008; Freitas, 2007), em cartazes de filmes, tirinhas publicadas em jornais nacionais (Freitas, 2007) e capas de revistas dedicadas ao universo profissional da secretária (Bernardon, 2005).
Outros estudos procuram ainda: identificar a percepção das secretárias quanto a temas como aparência física, estereótipos, processos de desqualificação da profissão e inserção no mercado de trabalho (Paim, 2007); verificar quais são os perfis de secretária que emergem de seus próprios discursos, conjugando-os àqueles requisitados por anúncios de emprego nos jornais, na tentativa de se chegar a um perfil profissional da secretária (Garcia, 1999); assim como, analisar a construção dos processos de categorização de secretárias executivas realizados por profissionais especializados em recolocação de secretárias no mercado de trabalho (Barros, 2008).
Em consonância com as perspectivas mais críticas sobre o secretariado, corroboro a opinião de Nencel (2008) acerca do trabalho de Pringle (1989) e compreendo a razão pela qual ele se tornou referência para outros estudos na área (Truss, Goffee & Jones, 1992, 1995; Truss, 1993, 1994; Sotirin & Gottfried, 1999).
A autora compilou num único volume uma série de temas que, inevitavelmente, vêm à tona quando se pensa a profissão de secretária: a dificuldade de definição do escopo de seu trabalho – o que é e que ingerências sofre de fatores externos; sua(s) identidade(s) no trabalho, em casa, entre pares; seu relacionamento com a chefia (masculina e feminina) e com colegas de profissão; interferências de elementos como gênero, classe social e sexualidade no trabalho; relações de poder e status que se estabelecem no ambiente corporativo.
Para Pringle, estudar as características e contradições que circundam o trabalho da secretária não é apenas um desafio teórico, é também um desafio emocional e político, pois esse grupo social lida diariamente com “toda a sorte de questões não resolvidas sobre o que significa ser uma mulher [em uma] sociedade patriarcal” (Pringle,1989, p.xi)
Complexidade da profissão
Ambiguidades
Na tentativa de se compreender o que os estudos chamam de ambiguidades da profissão de secretária, comecemos pela indagação: o que é uma secretária?
Segundo Pringle (1989, p. 2), não há uma resposta única para esta pergunta, pelo contrário. Se consultados chefes, colegas de trabalho, sociólogos, analistas do trabalho e, até mesmo, secretárias, não se encontra uma resposta padrão à pergunta acima.
Por essa razão, a tendência é que se procure respondê-la obtendo uma descrição do que a secretária faz. No entanto, nem assim se consegue uma descrição finita e padronizada sobre quais são as atividades desempenhadas pela secretária.
Conforme a estudiosa, “a/o secretária/o é uma das poucas categorias de emprego para a qual nunca houve uma descrição de tarefas clara”1 (Pringle, 1989, p.2). E mais, segundo ela, não há sequer uma só tarefa sobre a qual se ateste veementemente fazer parte da descrição de atividades desempenhadas por todas as secretárias. Nos termos de Truss, Goffee & Jones (1995, p. 1333), “não há um conjunto uniforme de tarefas desempenhadas exclusivamente por secretárias”.
Pringle (1989) afirma ainda que, enquanto algumas profissões têm seu significado social construído sobre as tarefas e o trabalho que desempenham, o significado social da secretária acaba se constituindo de forma a diminuir a importância do que ela faz (dada a indefinição no escopo de seu trabalho) em favor da discussão sobre o que ela é.
Dessa forma, “a ambiguidade sobre o que constitui o trabalho da secretária o torna ‘disponível’ à redefinição cultural” (Pringle, 1989, p.2). A conseqüência disso é que a secretária torna-se parte do “folclore e da cultura popular”, sujeita a especulações a respeito das tarefas que desempenha e a “representações estereotipadas na mídia e, até mesmo, na pornografia” (Pringle, 1989, p.2).
Além da ambiguidade sobre o que é o trabalho da secretária, encontram-se na literatura outras ambiguidades, estereótipos de gênero e vulnerabilidades que circundam essa profissão, como se de uma mesma fonte jorrassem águas amargas e doces.
Como apontam Truss, Goffee & Jones (1995), a falta de clareza na delimitação do trabalho que é, ou deve ser, exercido pela secretária ocasiona maior dependência da chefia para lhe designar tarefas e, assim, permite grande ingerência dos chefes sobre as atividades desenvolvidas por ela.
“O gerente pode exercer um expressivo nível de controle sobre o trabalho desempenhado pela secretária” (Truss, Goffee & Jones, 1995, p. 1333), o que em última instância, afeta negativamente sua autonomia. Por outro lado, essa mesma indefinição de fronteiras sobre o que é, ou não, o trabalho da secretária é a grande responsável pela ampliação do escopo de seu trabalho, o que lhe permite assumir diferentes responsabilidades e afastar-se das atividades mais corriqueiras (atendimento telefônico, digitação/datilografia, por exemplo).
Reportando as vozes de Kanter (1977) e Pringle (1989), os autores dizem que, embora essa dificuldade de estabelecer limites para o escopo do trabalho da secretária seja vista, constantemente, de forma negativa nos estudos gerenciais, a ela se deve o distanciamento das secretárias melhor capacitadas das tarefas mais mecânicas, atribuídas justamente àquelas profissionais que não possuem potencial para absorver tarefas diferenciadas ou intelectualmente mais exigentes. Isso se converte em potencial acréscimo à autonomia da secretária, assim como exerce influência positiva sobre a percepção de status desta profissional perante seus pares e superiores.
Dessa forma, a mesma característica afeta diferenciadamente a autonomia e o status da profissão.
Há ainda uma outra conseqüência dessa ausência de critérios para definição do trabalho da secretária: os chefes podem “tirar vantagem da boa vontade das secretárias pedindo-lhes para realizar tarefas pessoais” (Truss, Goffee & Jones, 1995, p. 1333).
E a constante realização de trabalhos pessoais para a chefia leva, por sua vez, a um ciclo de retroalimentação da indefinição do escopo de trabalho da secretária, tornando ainda mais tênue a linha divisória entre as tarefas profissionais e as pessoais realizadas por ela.
Isso leva a uma associação que, no fim, se converte em fator de depreciação da profissão: a aproximação entre as atividades da secretária e as que deveriam/poderiam ser executadas pela mulher do chefe. Essa associação, por sua vez, cria e reforça o estereótipo de secretária–‘esposa do escritório’ (Golding, 1986; Pringle, 1989; Benet, 1972 apud Truss, Goffee & Jones, 1995). A cristalização desse estereótipo no imaginário popular se deve à freqüente associação entre os deveres da secretária e as demais atividades desempenhadas pela mulher em outros contextos, não profissionais – as chamadas ‘tarefas domésticas da mulher’.
Dentre essas, encontram-se as incumbências de receber os visitantes, regar as plantas, fazer café, encarregar-se da leitura, redação e encaminhamento de correspondências pessoais do chefe, realizar serviços para sua esposa (Truss, Goffee & Jones, 1995), servir de boa ouvinte e conselheira para os colegas de trabalho e chefia, ajudando-os a resolver problemas de naturezas diversas (Golding, 1986), enfim, ter cuidados maternais (Kennelly, 2006) com tudo que se relaciona ao ambiente de trabalho. Segundo Truss, Goffee & Jones (1995) tais atividades têm sido referidas na literatura como “tarefas de custódia” .
Uma outra característica do trabalho da secretária é que ele é estreitamente vinculado ao e moldado pelo negócio da empresa (Silverstone & Towler, 1984), assim como pelo perfil do executivo a quem atende (Pringle, 1989; Golding, 1986).
Outra ambiguidade que permeia o universo profissional da secretária refere-se ao status da profissão. Segundo Golding (1986), o status da secretária depende do status que possui o chefe na hierarquia organizacional. Assim, quanto maior é o posto do chefe, maior é o status da secretária perante seus pares e até mesmo perante outros executivos. Nas palavras da autora:
“Quando um gerente faz parte de um nível intermediário de uma organização, sua secretária tende a ser tratada como inferior às secretárias de outros gerentes [de postos superiores] e ignoradas pelo staff de níveis mais altos. (...) A secretária que trabalha para a alta gerência [diretoria] está a par de informação consideravelmente confidencial, ou pelo menos, interessante. Ela também está no controle da agenda do gerente [diretor], de seu itinerário e do acesso aos seus horários. Ela, portanto, se torna a pessoa com quem se negocia se os outros gerentes [diretores] desejam ter acesso a seu chefe.”(Golding, 1986, p. 101)
Truss, Goffee & Jones (1995, p. 1339), referendando as afirmações de diversos autores, também afirmam que o status (e freqüentemente o salário) da secretária deriva do status e da posição hierárquica do executivo.
A essa característica específica da profissão de secretária os autores dão o nome de ‘status contingente’ e traçam um paralelo entre este e o status do qual desfruta a esposa, também derivado do status do marido.
Conforme Silverstone & Towler (1984), o status contingente da secretária varia de acordo com o do chefe, enquanto o status dela propriamente é pequeno. Reportando McNally (1979), Truss, Goffee & Jones (1995) afirmam que “a proximidade [da secretária] com o tomador de decisões significa que a secretária desfruta de um grau de poder e autoridade que não pertencem ao seu próprio trabalho”5 (p. 1345). Há, ainda, uma outra peculiaridade a respeito do status da secretária e sua relação com a chefia:
A secretária representa, freqüentemente, um símbolo de status para o chefe, chegando a ser “oferecida” a um executivo como parte do pacote de benefícios e recompensas de uma promoção, por exemplo (Truss, Goffee & Jones, 1995, p.1335). Dessa forma, o status das secretárias é considerado pelos autores como “altamente complexo e ambivalente” (Truss, Goffee & Jones, 1995, p.1335), variando consideravelmente conforme o posto hierárquico do executivo para quem elas trabalham, enquanto o seu próprio status é pequeno e moldado pela natureza de seu papel na organização e pelo gênero.
Outra ambiguidade descrita na literatura refere-se à tensão entre o alto nível de confiança e responsabilidade associados à profissão de secretária versus a relativamente baixa compensação financeira que recebe, se comparada, por exemplo, à devida a gerentes de níveis hierárquicos mais baixos. Nas palavras de Truss, Goffee & Jones (1995, p.1336):
“[as] secretárias estão em posição de alta confiança, na qual têm acesso a informação confidencial e de quem se espera o compartilhamento de certos objetivos e valores com seus chefes. No entanto, elas são recompensadas como se estivessem em uma ‘posição de pouca confiança’, marcada pela falta de oportunidades de promoção.''
Mais uma ambiguidade encontrada na bibliografia sobre secretárias diz respeito à deferência (Goffmann, 1956 apud Golding, 1986) que caracteriza os relacionamentos em ambiente de trabalho. No caso da secretária, ela tanto deve deferência aos chefes, demais superiores hierárquicos e também a clientes externos, quanto pode ser alvo de deferência, principalmente se ocupar uma posição junto à alta diretoria da organização.
Golding (1986, p. 101) descreve o tratamento deferencial que pode ser dado às secretárias que trabalham para altos executivos:
''Na maioria das vezes outros empregados se utilizam de charme, suborno ou, pelo menos, boas maneiras ao lidar com tais secretárias. As secretárias, na verdade, reclamam que são tratadas ‘de forma agradável’ por outros gerentes apenas porque ‘eles querem chegar até ele’ [o chefe]”
Truss, Goffee & Jones (1995, p. 1338) observam que a deferência prestada pela secretária é, também, influenciada por um conjunto de traços de personalidade que ela deve possuir e/ou desenvolver, como tato, diplomacia e intuição, para poder cumprir seu papel de representar adequada e positivamente o chefe perante o ‘mundo exterior’, tal qual a ‘boa esposa’, através da boa aparência, das boas maneiras e da adaptação aos estilos de trabalho do chefe e suas exigências.
Estereótipos de gênero
Pode-se dizer que as ambigüidades descritas acima são reflexos das relações assimétricas entre chefes e secretárias, espelhadas nas relações estabelecidas entre homens e mulheres em sociedades profundamente marcadas pelo sistema patriarcal e pela estrutura social construída ao longo dos processos históricos (Gooding, 1986; Pringle, 1989). Nencel (2008, p. 72) atribui a assimetria entre homens e mulheres ou chefes e secretárias às “relações de poder” que ela compreende “como interações entre indivíduos de diferentes posições influenciadas pelos contextos nos quais essas interações se dão.
Todos esses elementos produzem e atuam na manutenção de estereótipos de gênero e contribuem para que a profissão de secretária seja considerada um ‘gueto ocupacional feminino’ (Truss, 1993), uma ‘ocupação de domínio feminino’ (Silverstone & Towler, 1984), ocupação ‘segregada por gênero’ (Kennelly, 2002), ou ocupação que carrega consigo um ‘ideal de feminilidade’ (Sotirin & Gottfried, 1999). A esse respeito, Pringle (1989, p. 3) diz que:
“Os significados dados [aos termos] ‘secretária’ e ‘mulher’ são mutuamente dependentes. As qualidades da ‘boa mulher’ são encapsuladas na ‘boa secretária’. Representações das secretárias, portanto, têm importância direta para todas as mulheres, independentemente se trabalham ou não na ocupação”.
Não há, pois, como estudar a profissão de secretária sem qualquer referência ao gênero feminino e aos estereótipos associados a ele. Entre esses, são encontradas as figuras da secretária ‘esposa do escritório’, da ‘secretária despreparada’ (sem formação acadêmica ou treinamento especializado), onde se incluem a datilógrafa (ou em tempos atuais, a digitadora), a anotadora de recados e, até mesmo, a ‘secretária sexy’ ou ‘amante do chefe’, que utiliza seus atributos físicos como compensação pela falta de atributos intelectuais.
Pode-se dizer que a construção e a manutenção dessas figuras de secretárias no imaginário social têm relações estreitas com as ambiguidades explicitadas acima, que envolvem os aspectos deferenciais da profissão, as tarefas de custódia ou domésticas e também a subestimação (ou desconhecimento) da capacidade intelectual ou da formação específica da secretária.
Os estereótipos de gênero, no entanto, são mencionados nos estudos sobre secretárias (Truss, 1993, 1994; Truss, Goffee & Jones, 1992, 1995; Sotirin & Gottfried, 1999; Henson & Rogers, 2001; Kennelly, 2002, 2006; Nencel, 2009) não como endosso da opinião dos autores sobre as profissionais ou de confirmações empíricas de suas pesquisas. São citados apenas como manifestação de vozes do senso comum, servindo como uma espécie de base conceitual a ser contestada pela investigação crítica mais aprofundada dos aspectos de gênero referentes à profissão de secretária.
Truss (1994), analisou a influência de fatores macro-sociais – como nível de educação formal e treinamento específico, oferecidos pelas devidas instituições em três países (Inglaterra, Alemanha e França) – e culturais sobre o conteúdo do trabalho das secretárias e suas conseqüências nas oportunidades de carreira ofertadas a elas nos respectivos países. E os resultados desse estudo mostraram que as secretárias inglesas, com o menor nível de escolaridade dos grupos – equivalente ao ensino médio completo ou um curso técnico na área – têm o conteúdo de trabalho mais restrito, cujas atribuições majoritárias são:
filtrar e encaminhar ligações, realizar algumas tarefas de custódia, como servir café, datilografar, dar recados e cuidar da agenda dos chefes, com pouco grau de envolvimento com o trabalho deles. As secretárias francesas, com o melhor nível de escolaridade entre as participantes – formação acadêmica geralmente em Ciências Humanas – têm muito mais responsabilidades, além daquelas mencionadas pelas secretárias inglesas.
As francesas, por exemplo, são incumbidas de fazer pesquisas para a chefia, trabalhando em parceria com os chefes em projetos, lidar com contabilidade e supervisionar outras secretárias. Ou seja, apresentam maior envolvimento com o trabalho desenvolvido pelos chefes e na empresa, consideram-se membros de uma equipe e são as que menos desempenham tarefas de custódia.
As secretárias alemãs – que também possuem formação superior – em geral, desempenham funções mais independentes das que são desenvolvidas por suas chefias, como administração de um setor em uma outra unidade da empresa ou de imóveis particulares dos chefes.
Porém, a despeito de sua abrangente formação acadêmica, elas são as que mais exercem as chamadas tarefas domésticas, como fazer café, cuidar de plantas no escritório, providenciar pequenas refeições.
Tanto elas como seus chefes entendem que tais tarefas fazem parte do trabalho da secretária, diferentemente do que pensam chefes e secretárias franceses.
Segundo a autora, esses resultados indicam que “houve uma forte inter-relação entre o trabalho da secretária e o trabalho da mulher”, mas também houve estreita relação entre “a ocupação da secretária e educação e treinamento”. (Truss, 1994, p.214).
Com isso, percebe-se a complexidade do trabalho da secretária, envolto numa intrincada rede de influências. Conforme demonstrado no estudo, além do sistema educacional, a cultura de cada país também contribuiu para a construção das expectativas quanto ao papel da secretária nas empresas. Não é possível, portanto, reforçar ou tampouco refutar veementemente os estereótipos de gênero que associam a secretária à realização de tarefas domésticas e ao despreparo acadêmico e profissional.
No entanto, ficou claro que ao analisar atentamente esses estereótipos, as pesquisas podem torná-los mais visíveis para a sociedade como um todo, ajudando a desconstruí-los, iniciando, assim, um círculo virtuoso.
Em relação à imagem sexualizada da secretária, i.e., o estereótipo de ‘secretária sexy’, Nencel (2008) faz, em seu estudo, interessantes descobertas e observações acerca de sua criação, formas de perpetuação e tentativas de desconstrução. Seu artigo analisa como a sexualidade é construída na prática diária de secretárias peruanas. O conceito de sexualidade privilegiado pela autora inclui a significação sexual e os discursos produzidos por diferentes atores sociais, como homens, mulheres, religiões e instituições – em que todos “contribuem para a reprodução do sistema de gênero e ordem sexual de uma determinada sociedade” (Nencel, 2008, p. 72).
Quanto a isso, Pringle (1989) já observara que “gênero e sexualidade são centrais não somente na relação chefe-secretária, mas em todas as relações de poder em ambientes de trabalho”9 . Assim sendo, tanto homens quanto mulheres são atores que constroem suas próprias sexualidades, influenciando e sendo influenciados pelo sistema de gênero vigente (Nencel, 2005a10 apud Nencel, 2008, p. 72). Com base nesses pressupostos, a autora investiga:
“como os discursos sexuais e imaginários são institucionalmente construídos e reproduzidos pelo governo e [pela] mídia e como as secretárias se posicionam em relação à construção da sexualidade hegemônica”. Nessa construção a sexualidade é rigidamente definida e constituída em parte pela objetificação das mulheres (...) [que] podem até rejeitar essa objetificação e criar alternativas (...), mas elas continuam aderindo e reforçando [a sexualidade hegemônica] através de suas ações” (p.72).
Dessa forma, Nencel (2008) esclarece como se cria e se perpetua o mito o da ‘secretária sexy’. A autora percebe ainda que as secretárias constroem imagens mais positivas de si mesmas distinguindo-se das “outras”.
A ‘secretária séria’, comprometida com a profissão e com a construção de uma carreira distancia-se, discursivamente, da imagem negativa da secretária através de rótulos como ‘secretária sexy’, ‘secretária de adorno’, cujas características em geral são:
Beleza, juventude, corpo esbelto, cabelos louros, cabeça vazia, com péssima formação profissional, sendo essa mulher praticamente inútil como secretária (Nencel, 2008, p.79).
Em oposição, a ‘secretária séria’ é aquela que possui ambições de crescimento profissional e tem escolaridade média profissionalizante ou formação universitária. Nencel (2008) destaca que, embora a ‘secretária objeto sexual’ seja facilmente encontrada nos discursos das ‘secretarias sérias’ e faça parte do estereótipo de secretária presente no imaginário social, ela mesma nunca encontrou uma secretária nestes termos, como relatada pelas participantes de seu estudo.
Por isso, Nencel afirma que “se essa secretária (estereotipada) realmente existe, ela é menos relevante que o significado simbólico de sua imagem”.
Na composição da imagem da secretária profissional, a adequação da vestimenta é de suma importância. A sobriedade e o rigor do ‘dress code’ e os cuidados com a aparência, de forma geral, são as ferramentas visíveis dessa profissional para evitar ser confundida com “a outra secretária”.
Assim, excessos de maquiagem, roupas curtas, muito justas ou decotadas e cabelos extravagantes devem ser evitados.
A distinção estabelecida entre esses dois tipos de secretária é ambivalente, pois ao mesmo tempo em que cria uma imagem positiva de um grupo de profissionais, colabora para a perpetuação do imaginário social a respeito do outro tipo de secretária.
Esta prática caracteriza o que Sotirin e Gottfried (1999) denominam “secretarial bitching”, conceito a ser detalhado mais adiante.
Dessa forma, segundo Nencel (2008, p.82) “a mulher se acomoda à ordem de gênero vigente”, ao discurso que compõe a sexualidade dominante e torna mais difícil sua transformação ou extinção.
Como antecipado acima, dentre os elementos que contribuem para a manutenção de estereótipos de gênero descritos na literatura sobre secretárias, encontra-se a prática discursiva nomeada por Sotirin & Gottfried (1999) de ‘secretarial bitching’.
As autoras definem ‘bitching’ como uma prática comunicativa ambivalente que ocorre no interior de determinados grupos profissionais, que tanto contribui para a construção de sua identidade quanto para sua depreciação. Bitching é considerado por elas uma “subcategoria de fofoca” (p. 58), com um teor mais negativo, focado em pessoas com quem se têm intimidade.
A prática pode se configurar também como reclamação sobre os colegas, os chefes, o trabalho, reivindicação de melhores condições de salário e de trabalho. Pode ainda se manifestar como conversas onde os profissionais obtêm novas informações sobre a profissão, sobre o trabalho, a empresa, os colegas e expressam também sua indignação, sua raiva. Sotirin & Gottfried (1999, p. 58) referendam a opinião de Tannen (1990), que conceitua a fofoca como “falar de/sobre” (alguém/algo) e bitching como “falar contra” (alguém/algo). Nos termos de Tannen, bitching é uma espécie de ‘troubles talk’, que “confirma sentimentos, afiliações e cria camaradagem através do compartilhamento dos prazeres das conversas triviais” (Sotirin & Gottfried, 1999, p. 58).
Para Sotirin & Gottfried (1999), tanto homens quanto mulheres engajam-se nesses tipos de conversa em sua vida diária e profissional, no entanto, citando Bergmann (1987[1993])16, elas afirmam que a conotação pejorativa que a prática de bitching assume deriva da sua associação à “conversa de mulher”, à fala de mulher – ou seja, o que é marcado pelo gênero feminino torna-se negativo.
As pesquisadoras citam também Cameron (1985[1993])17, que destaca que essa prática é condenada no ambiente profissional, porém é considerada muito comum entre mulheres e, conseqüentemente, entre secretárias.
Nota-se, aqui, que as complexas inter-relações de gênero e sexo intervêm na construção da identidade da secretária.
Para melhor caracterizá-las, Sotirin & Gottfried (1999) trazem o exemplo de um homem ocupando a posição de secretário, que pode ser rotulado pelas outras secretárias (e colegas de trabalho) como homossexual apenas por exercer uma profissão considerada de mulher, feminina; e o exemplo de “uma secretária lésbica que pode ser marginalizada ou domesticada” (p.60) pelas colegas de profissão, para que se conforme aos padrões patriarcais de heterossexualidade que regem as relações organizacionais e o ideal de feminilidade associado à profissão de secretária.
Desta forma, as autoras afirmam que “tanto a resistência a se desviar do padrão quanto a acomodação ao mesmo promovem um ideal feminino bastante específico, restrito, como requisito para construção da identidade da secretária” (Sotirin & Gottfried, 1999, p.60).
Esse ideal de feminilidade que “permeia as expectativas e experiências do trabalho e das profissionais de secretariado” (Sotirin & Gottfried, 1999, p.59) é resumido à imagem da secretária como uma mulher de classe média, branca, gentil e de boas maneiras (Pringle, 1989).
Engajar-se na prática de bitching oferece o conforto da ligação comunicativa com outras colegas de profissão, permitindo que se façam reclamações pessoais que podem, posteriormente, adquirir significação coletiva.
Desta forma, bitching tanto opera no nível pessoal, criando intimidade, quanto no nível político, gerando consciência de classe, que pode levar até à reivindicação de direitos e melhores condições de trabalho.
No entanto, é uma prática ambivalente, que permite afiliação das profissionais a um grupo social, contribui para a construção de identidade, mas ao mesmo tempo reforça estereótipos.
A prática de bitching permite que as secretárias construam suas identidades profissionais e criem sensação de pertencimento a um grupo, entretanto, produz também desarmonia entre as mulheres, que mantêm o “controle sobre os desvios da norma de feminilidade gentil” (Sotirin & Gottfried, 1999, p.64).
Essa prática discursiva realça, ainda, as assimetrias de poder nas organizações, regidas por padrões patriarcais, legitima condições de enfraquecimento de poder das mulheres e promove conformidade com as estruturas de subordinação vigentes
Assim, as secretárias oprimem e/ou marginalizam as minorias (novas profissionais, homens na profissão, e a ‘secretária sexy’) da mesma forma como são oprimidas e/ou marginalizadas pelo poder dominante (Sotirin & Gottfried, 1999, p.73). Em suma, bitching viabiliza a manutenção dos diversos estereótipos associados à secretária.
As dicotomias de gênero, além de reforçar estereótipos, colaboram também para o afastamento dos homens do exercício do secretariado ou, ao que parece, dificulta a identificação de homens que se autodenominam ‘secretários’. Isso, por fim, contribui para a caracterização da profissão como um ‘gueto ocupacional’ feminino, conceito cujas características principais serão enumeradas mais à frente.
No tocante à participação masculina no secretariado, Pringle (1993) observa um dado interessante:
''Toda grande organização possui dezenas de homens (...) desempenhando um número similar de tarefas como as [desempenhadas] pelas secretárias, freqüentemente sob a direção de um ‘chefe’, (...) [e] incluindo uma gama de serviços semi-pessoais. Em vez de serem chamados ‘secretários’, eles são geralmente classificados como trabalhadores administrativos, burocráticos ou mesmo gerenciais.”
Assim, o que a autora percebe é que há inúmeros homens desempenhando (praticamente) as mesmas atividades de trabalho que são associadas à profissão de secretária, no entanto, esses homens são formalmente chamados de assistentes ou assessores administrativos.
Henson & Rogers (2001) observam que as estratégias (atitudes e discursos) utilizadas por esses homens no intuito de construir e manter sua masculinidade, em geral, reproduzem e reforçam os estereótipos sobre o trabalho feminino.
Algumas dessas estratégias podem ser a renomeação do cargo ou o reenquadramento do trabalho que eles exercem, de forma a distanciarem-se do trabalho feminino ou de minimizar as semelhanças entre eles.
Segundo os autores, os homens costumam iniciar a descrição de suas atividades com uma ‘cover story’
- espécie de estória introdutória que se põe entre a pergunta e a resposta que deveria ser dada, desviando-lhe o foco – ou oferecer ‘resistência pacífica’19 à deferência que acreditam ser inerente às ocupações femininas.
Dessa forma, ao colocar em prática tais estratégias, os homens tendem a se colocar no discurso em posição diferente e superior à das mulheres, reforçando os estereótipos de masculinidade e feminilidade impostos pela sociedade e reproduzidos pelas organizações. Com isso, o que poderia ser um bom motivo para desconstrução de estereótipos e desafio ao sistema de gênero vigente (homens atuando como secretários), converte-se em mais uma forma de reafirmação do mesmo.
Pringle (1993, p. 130) afirma que gênero não se restringe apenas ao estabelecimento de diferenças, mas trata também (e principalmente) de poder: “dominação dos homens e a subordinação das mulheres. Essa relação de poder é mantida pela criação de distinções entre esferas masculinas e femininas”. Assim, pode-se entender a postura de alguns homens no desempenho do secretariado, pois exercer essa profissão, tão repetidamente vinculada ao universo feminino, é visto como “uma ameaça à identidade e ao poder masculinos” (Pringle, 1993).
O secretariado como gueto ocupacional
Todas essas ambigüidades, ambivalências e estereótipos de gênero referentes à profissão de secretária contribuem para inserção da mesma no rol das profissões femininas, exercidas majoritariamente por mulheres como, por exemplo, enfermeiras, professoras e bibliotecárias (Truss, 1993; Madalozzo, 2008).
Conforme designa a literatura, tais profissões configuram ‘guetos ocupacionais femininos’ (Truss, 1993), ‘ocupações de domínio feminino’ (Silverstone & Towler, 1984) ou ocupações ‘segregadas por gênero’ (Kennelly, 2002).
Entre os autores que abordam a temática do gueto ocupacional feminino, Truss (1993) realiza a mais abrangente revisão bibliográfica, apresentando os diversos elementos que o caracterizam. Segundo ela, a profissão de secretária é considerada tipicamente feminina, com quase 95% de seus membros sendo mulheres, em países ocidentais como Inglaterra, França, Alemanha, Austrália e Estados Unidos (p. 563).
A autora afirma que devido à divisão por sexo, algumas profissões tendem a apresentar ou adquirir certas características comuns e, no caso das ‘profissões femininas’, as mais recorrentes são: precárias condições de trabalho, salários baixos, conteúdo de trabalho restrito, repetitivo, monótono;
pouca ou nenhuma autonomia; poucas possibilidades de promoção, difícil mobilidade horizontal e vertical; e, também, algumas marcas estereotipadas de gênero, que contribuem para perpetuar essa segregação – transformando-se num círculo vicioso.
Segundo Truss (1993), dentre todas essas características, a que é mais acentuada na profissão de secretária é a limitação em termos de mobilidade, tanto no que diz respeito à ascensão na própria profissão, que permite a construção de uma carreira (mobilidade vertical), quanto no que tange à mudança de área, no intuito de assumir posições de responsabilidade e/ou destaque dentro das organizações (mobilidade horizontal). Considerando o significado mais restrito de ‘gueto ocupacional’, i.e., trabalho cujas perspectivas de mobilidade e promoção (de saída do gueto) são difíceis.
“Os resultados do estudo confirmam a ideia de que o trabalho da secretária é um gueto neste sentido, já que as secretárias, chefes e responsáveis pelo departamento de pessoal em todos os três países [Inglaterra, França e Alemanha] acreditam que as oportunidades de promoção para secretárias [são] extremamente limitadas, e pouca evidência de promoção na área de secretariado foi encontrada. No entanto, vimos também que as oportunidades de promoção podem ser relacionadas aos sistemas nacionais de educação e treinamento e com a estruturação de ocupações individuais.”(Truss, 1993, p. 578)
“Os resultados do estudo confirmam a ideia de que o trabalho da secretária é um gueto neste sentido, já que as secretárias, chefes e responsáveis pelo departamento de pessoal em todos os três países [Inglaterra, França e Alemanha] acreditam que as oportunidades de promoção para secretárias [são] extremamente limitadas, e pouca evidência de promoção na área de secretariado foi encontrada. No entanto, vimos também que as oportunidades de promoção podem ser relacionadas aos sistemas nacionais de educação e treinamento e com a estruturação de ocupações individuais.”(Truss, 1993, p. 578)
Como o escopo do trabalho da secretária varia grandemente em função da natureza do negócio da empresa, do setor onde ela está alocada, do perfil do executivo para quem trabalha, do nível de educação formal que possui e, também, da iniciativa própria em relação à aquisição e desempenho de novas responsabilidades e tarefas, todos esses fatores atuam conjuntamente na restrição ou ampliação das possibilidades de promoção das secretárias.
Com esse entrecruzamento de fatores condicionantes, Truss (1993) mostra que “não é suficiente classificar o trabalho da secretária como ‘uma ocupação segregada a mulheres’ sem olhar para o tipo de mulher a que [este trabalho] se refere” (Truss, 1994, p. 209).
Como o escopo do trabalho da secretária varia grandemente em função da natureza do negócio da empresa, do setor onde ela está alocada, do perfil do executivo para quem trabalha, do nível de educação formal que possui e, também, da iniciativa própria em relação à aquisição e desempenho de novas responsabilidades e tarefas, todos esses fatores atuam conjuntamente na restrição ou ampliação das possibilidades de promoção das secretárias.
Assim, novamente, lança-se um pequeno foco de luz sobre outro dos aspectos estereotipados referentes ao trabalho da secretária, o mito do gueto ocupacional, construído e perpetuado nas organizações e na sociedade.
Com esse entrecruzamento de fatores condicionantes, Truss (1993) mostra que “não é suficiente classificar o trabalho da secretária como ‘uma ocupação segregada a mulheres’ sem olhar para o tipo de mulher a que [este trabalho] se refere” (Truss, 1994, p. 209).
Com essa explanação sobre as ambiguidades, estereótipos de gênero e vulnerabilidades mais freqüentemente apontadas na literatura sobre secretárias, compreende-se como alguns dos aspectos identitários dessa classe profissional entram em contradição:
Assim, novamente, lança-se um pequeno foco de luz sobre outro dos aspectos estereotipados referentes ao trabalho da secretária, o mito do gueto ocupacional, construído e perpetuado nas organizações e na sociedade.
identidade emergente da secretária como trabalhadora qualificada através de educação formal ou treinamento específico (profissional séria, intelectualmente capaz) versus identidade estereotipada e perpetuada no imaginário social (secretária sexy, profissionalmente despreparada)23. A despeito de todas as características e fragilidades que envolvem o secretariado expostas até aqui, Pringle (1993, p. 129) observa que ''há alguns discursos-chave que estruturam as vidas profissionais das secretárias, [no entanto] estes discursos não são impostos de um modo determinístico. Em vez disso, eles existem como enquadres de significado dentro dos quais os indivíduos negociam seus relacionamentos: há [portanto] lugar para diferentes resultados e para alterações nas ênfases [dadas a tais discursos]”.
Com essa explanação sobre as ambiguidades, estereótipos de gênero e vulnerabilidades mais freqüentemente apontadas na literatura sobre secretárias, compreende-se como alguns dos aspectos identitários dessa classe profissional entram em contradição:
Dessa forma, acredito haver espaço, ainda, para desconstruções de pilares seculares, cujas estruturas têm sido corroídas com o tempo, para dar lugar a construções de novas bases, sobre as quais sejam fixados novos saberes, conhecimentos, imagens e identidades, que abarquem e considerem, igualitariamente, diferentes perspectivas. Por essa razão, partilho da opinião de Sotirin & Gottfried (1999, p. 60)) que sintetizam a construção da identidade da secretária como, “indubitavelmente, um ponto de discórdia”, em busca de definição.
identidade emergente da secretária como trabalhadora qualificada através de educação formal ou treinamento específico (profissional séria, intelectualmente capaz) versus identidade estereotipada e perpetuada no imaginário social (secretária sexy, profissionalmente despreparada)23. A despeito de todas as características e fragilidades que envolvem o secretariado expostas até aqui, Pringle (1993, p. 129) observa que ''há alguns discursos-chave que estruturam as vidas profissionais das secretárias, [no entanto] estes discursos não são impostos de um modo determinístico. Em vez disso, eles existem como enquadres de significado dentro dos quais os indivíduos negociam seus relacionamentos: há [portanto] lugar para diferentes resultados e para alterações nas ênfases [dadas a tais discursos]”.
O Secretariado no Brasil e a regulamentação da profissão
Após esse panorama de constituição da profissão de secretária em âmbito internacional, passaremos a sua configuração no Brasil e a contribuição que a regulamentação profissional trouxe ao Secretariado.
Dessa forma, acredito haver espaço, ainda, para desconstruções de pilares seculares, cujas estruturas têm sido corroídas com o tempo, para dar lugar a construções de novas bases, sobre as quais sejam fixados novos saberes, conhecimentos, imagens e identidades, que abarquem e considerem, igualitariamente, diferentes perspectivas. Por essa razão, partilho da opinião de Sotirin & Gottfried (1999, p. 60)) que sintetizam a construção da identidade da secretária como, “indubitavelmente, um ponto de discórdia”, em busca de definição.
história dos profissionais de Secretariado no Brasil toma vulto apenas na década de 50, no período pós-guerra, com o incipiente processo de industrialização do país e conseqüente chegada de multinacionais.
O Secretariado no Brasil e a regulamentação da profissão
Após esse panorama de constituição da profissão de secretária em âmbito internacional, passaremos a sua configuração no Brasil e a contribuição que a regulamentação profissional trouxe ao Secretariado.
E nasce praticamente associada ao gênero feminino, pois a contratação em massa de profissionais de escritório ocorre com a instalação dessas empresas, que já estavam habituadas à presença feminina (mal remunerada e, portanto, lucrativa) em seu quadro funcional.
história dos profissionais de Secretariado no Brasil toma vulto apenas na década de 50, no período pós-guerra, com o incipiente processo de industrialização do país e conseqüente chegada de multinacionais.
Assim, conforme relata Bruno (2006, p. 14), a organização da categoria secretarial se dá com a criação do Clube das Secretárias, em 1967, “com o objetivo de conscientização e aprimoramento para a atuação profissional”. Figueiredo (1987 apud Bruno, 2006) destaca o grande avanço, ocorrido na década de 70, da transformação de movimentos profissionais isolados em Associações de Secretárias em todo o Brasil, sendo a primeira delas formada no Rio de Janeiro, em 1970.
E nasce praticamente associada ao gênero feminino, pois a contratação em massa de profissionais de escritório ocorre com a instalação dessas empresas, que já estavam habituadas à presença feminina (mal remunerada e, portanto, lucrativa) em seu quadro funcional.
A partir daí, são criadas diversas associações estaduais e, posteriormente, a categoria identifica a necessidade de criação de uma única entidade para congregar as associações de todos os estados. Surge, desse modo, a ABES – Associação Brasileira das Entidades de Secretárias, em 1976.
Assim, conforme relata Bruno (2006, p. 14), a organização da categoria secretarial se dá com a criação do Clube das Secretárias, em 1967, “com o objetivo de conscientização e aprimoramento para a atuação profissional”. Figueiredo (1987 apud Bruno, 2006) destaca o grande avanço, ocorrido na década de 70, da transformação de movimentos profissionais isolados em Associações de Secretárias em todo o Brasil, sendo a primeira delas formada no Rio de Janeiro, em 1970.
A mobilização política da ABES foi responsável por conquistas da classe secretarial, como a criação do Dia Nacional da Secretária (Lei nº 1.421/77), a responsabilização das Delegacias Regionais do Trabalho pelos registros profissionais para exercício da profissão de Secretária (Lei nº 6.556/78), considerando-a até o momento uma atividade, não uma profissão.
A partir daí, são criadas diversas associações estaduais e, posteriormente, a categoria identifica a necessidade de criação de uma única entidade para congregar as associações de todos os estados. Surge, desse modo, a ABES – Associação Brasileira das Entidades de Secretárias, em 1976.
A mais importante das conquistas foi a regulamentação da profissão, normatizada pela Lei 7.377/85, que estabeleceu as exigências de formação específica para a área (técnica ou superior), direitos e deveres dos profissionais e alçou o Secretariado à categoria de profissão. Algumas falhas nessa legislação, porém, deixaram algumas secretárias, já atuantes no mercado, excluídas do novo enquadramento funcional.
A mobilização política da ABES foi responsável por conquistas da classe secretarial, como a criação do Dia Nacional da Secretária (Lei nº 1.421/77), a responsabilização das Delegacias Regionais do Trabalho pelos registros profissionais para exercício da profissão de Secretária (Lei nº 6.556/78), considerando-a até o momento uma atividade, não uma profissão.
Para corrigi-las foi criada a Lei de 6.2691/96. Outras importantes conquistas foram a criação do Código de Ética Profissional de Secretariado, em 1989, e a publicação da portaria nº 3.103, de 198729, publicada pelo Ministério do Trabalho, reconhecendo o profissional de secretariado como Categoria Profissional Diferenciada e, na opinião de Bruno (2006, p. 15), indicando:
A mais importante das conquistas foi a regulamentação da profissão, normatizada pela Lei 7.377/85, que estabeleceu as exigências de formação específica para a área (técnica ou superior), direitos e deveres dos profissionais e alçou o Secretariado à categoria de profissão. Algumas falhas nessa legislação, porém, deixaram algumas secretárias, já atuantes no mercado, excluídas do novo enquadramento funcional.
“ao mundo do trabalho (capital e mão-de-obra), que para o exercício profissional de secretariado, deviam ser obedecidas as seguintes regras: ter representatividade sindical própria; acatar o que determina a Lei nº7.377/85; respeitar os instrumentos legais que regem a relação do trabalho com o capital por meio de Acordos, Convenções e Dissídios Coletivos.”
Para corrigi-las foi criada a Lei de 6.2691/96. Outras importantes conquistas foram a criação do Código de Ética Profissional de Secretariado, em 1989, e a publicação da portaria nº 3.103, de 198729, publicada pelo Ministério do Trabalho, reconhecendo o profissional de secretariado como Categoria Profissional Diferenciada e, na opinião de Bruno (2006, p. 15), indicando:
Conforme Sabino (2004), após a regulamentação da profissão foram criados os Sindicatos da categoria em diversos estados, sendo o primeiro no Rio Grande do Sul, em 1987. No ano seguinte, foi criada a Federação Nacional das Secretárias e Secretários – FENASSEC, atualmente composta por vinte e quatro sindicatos estaduais. Entre as atribuições da FENASSEC, encontram-se:
“ao mundo do trabalho (capital e mão-de-obra), que para o exercício profissional de secretariado, deviam ser obedecidas as seguintes regras: ter representatividade sindical própria; acatar o que determina a Lei nº7.377/85; respeitar os instrumentos legais que regem a relação do trabalho com o capital por meio de Acordos, Convenções e Dissídios Coletivos.”
''a busca do equilíbrio entre capital e trabalho (...) independente e autônomo, com atuação nas áreas da educação profissional, formação acadêmica, técnica e cultural, objetivando a implementação de um currículo básico; conscientização de cidadania, ou seja, direitos e deveres do cidadão e sua função social; assuntos legais como acordos salariais, assistência jurídica; ética que trata da imagem da profissão e do profissional, desempenho profissional, luta contra a discriminação no trabalho; (...) além de definir diretrizes para a atuação dos sindicatos filiados e a representação dos profissionais brasileiros de secretariado no mundo.” (Bruno, 2006, p. 18).
Conforme Sabino (2004), após a regulamentação da profissão foram criados os Sindicatos da categoria em diversos estados, sendo o primeiro no Rio Grande do Sul, em 1987. No ano seguinte, foi criada a Federação Nacional das Secretárias e Secretários – FENASSEC, atualmente composta por vinte e quatro sindicatos estaduais. Entre as atribuições da FENASSEC, encontram-se:
Nonato Junior (2009, p. 106) destaca que a regulamentação da profissão de secretária/o e sua ascensão à categoria profissional diferenciada permitiram ao Secretariado “ter maior autonomia para gestão de suas peculiaridades de trabalho e demandas de conhecimento”.
''a busca do equilíbrio entre capital e trabalho (...) independente e autônomo, com atuação nas áreas da educação profissional, formação acadêmica, técnica e cultural, objetivando a implementação de um currículo básico; conscientização de cidadania, ou seja, direitos e deveres do cidadão e sua função social; assuntos legais como acordos salariais, assistência jurídica; ética que trata da imagem da profissão e do profissional, desempenho profissional, luta contra a discriminação no trabalho; (...) além de definir diretrizes para a atuação dos sindicatos filiados e a representação dos profissionais brasileiros de secretariado no mundo.” (Bruno, 2006, p. 18).
Porém, esclarece que a nomenclatura dos sindicatos, a maioria com referência ao gênero feminino, acabou favorecendo a manutenção de estereótipos com relação à profissão, contribuindo para a cristalização da mesma como gueto ocupacional.
Nonato Junior (2009, p. 106) destaca que a regulamentação da profissão de secretária/o e sua ascensão à categoria profissional diferenciada permitiram ao Secretariado “ter maior autonomia para gestão de suas peculiaridades de trabalho e demandas de conhecimento”.
Felizmente, segundo ele, alguns sindicatos já procuraram corrigir esse equívoco e passaram a denominar-se Sindicatos ‘das Secretárias e Secretários’ ou ‘dos profissionais de Secretariado’.
Porém, esclarece que a nomenclatura dos sindicatos, a maioria com referência ao gênero feminino, acabou favorecendo a manutenção de estereótipos com relação à profissão, contribuindo para a cristalização da mesma como gueto ocupacional.
Ainda segundo o autor, a federação está pleiteando junto ao Congresso Nacional a criação do Conselho Federal de Secretariado, que, sem dúvida, irá fortalecer politicamente a categoria, encarregando-se de registrar, fiscalizar o exercício da profissão, evitando fraudes e o descumprimento da lei, aumentando, por conseguinte, a autonomia da profissão na gestão de seus próprios critérios para controle de conteúdo e de formação de pesquisadores.
Felizmente, segundo ele, alguns sindicatos já procuraram corrigir esse equívoco e passaram a denominar-se Sindicatos ‘das Secretárias e Secretários’ ou ‘dos profissionais de Secretariado’.
Assim, extraídos da Lei nº 7.377/85, seguem abaixo os artigos que estabelecem as principais atividades dos Secretários Executivos e dos Técnicos em Secretariado:
Ainda segundo o autor, a federação está pleiteando junto ao Congresso Nacional a criação do Conselho Federal de Secretariado, que, sem dúvida, irá fortalecer politicamente a categoria, encarregando-se de registrar, fiscalizar o exercício da profissão, evitando fraudes e o descumprimento da lei, aumentando, por conseguinte, a autonomia da profissão na gestão de seus próprios critérios para controle de conteúdo e de formação de pesquisadores.
Quanto à formação acadêmica do profissional de secretariado, Sabino (2004) registra a criação do curso de Bacharelado em Secretariado da Universidade Federal da Bahia (UFBA) como o pioneiro do país, em 1969, vinculado à Escola de Administração, mas que só obteve reconhecimento do Ministério da Educação e Cultura (MEC) em 1998. O primeiro curso superior na área a ser reconhecido pelo MEC, em 1978, foi o da Universidade Federal de Pernambuco, criado em 1970, oficializando, assim, a inclusão do Secretariado no âmbito acadêmico.
Assim, extraídos da Lei nº 7.377/85, seguem abaixo os artigos que estabelecem as principais atividades dos Secretários Executivos e dos Técnicos em Secretariado:
Apenas em 2004, com o Parecer 102/04, da Câmara de Educação Superior (CES), foram estabelecidas as Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de Graduação em Secretariado Executivo30, que entre outras determinações incluem:
Quanto à formação acadêmica do profissional de secretariado, Sabino (2004) registra a criação do curso de Bacharelado em Secretariado da Universidade Federal da Bahia (UFBA) como o pioneiro do país, em 1969, vinculado à Escola de Administração, mas que só obteve reconhecimento do Ministério da Educação e Cultura (MEC) em 1998. O primeiro curso superior na área a ser reconhecido pelo MEC, em 1978, foi o da Universidade Federal de Pernambuco, criado em 1970, oficializando, assim, a inclusão do Secretariado no âmbito acadêmico.
Apenas em 2004, com o Parecer 102/04, da Câmara de Educação Superior (CES), foram estabelecidas as Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de Graduação em Secretariado Executivo30, que entre outras determinações incluem:
Como é possível perceber, as diretrizes curriculares para formação do profissional de Secretariado preveem formação generalista, que engloba diversas áreas do saber, e um amplo escopo de trabalho, com variadas possibilidades de prática profissional.
Conforme indicam Sabino (2004), Sabino & Marchelli, (2009), Bruno (2006) e Nonato Junior (2009), o Brasil foi pioneiro na regulamentação da área de Secretariado e, embora em outros países haja formação específica para capacitar os profissionais de secretariado, a área “desfruta da condição de profissão apenas no Brasil” (Sabino & Marchelli, 2009).
Como é possível perceber, as diretrizes curriculares para formação do profissional de Secretariado preveem formação generalista, que engloba diversas áreas do saber, e um amplo escopo de trabalho, com variadas possibilidades de prática profissional.
Esse feito é admirado internacionalmente, a ponto de, em 30/01/2001, o jornal britânico The Guardian publicar uma reportagem em que se encontra a afirmação: “As secretárias mais bem treinadas do mundo estão no Brasil”31 (Bruno, 2006; Sabino, 2004), onde se destacou a exigência de formação técnica ou acadêmica e registro profissional para que se exerça a ‘ocupação’ de secretária.
Conforme indicam Sabino (2004), Sabino & Marchelli, (2009), Bruno (2006) e Nonato Junior (2009), o Brasil foi pioneiro na regulamentação da área de Secretariado e, embora em outros países haja formação específica para capacitar os profissionais de secretariado, a área “desfruta da condição de profissão apenas no Brasil” (Sabino & Marchelli, 2009).
Cabe aqui uma observação de Sabino & Marchelli (2009, p. 617) acerca da dicotomia profissão e ocupação:
Esse feito é admirado internacionalmente, a ponto de, em 30/01/2001, o jornal britânico The Guardian publicar uma reportagem em que se encontra a afirmação: “As secretárias mais bem treinadas do mundo estão no Brasil”31 (Bruno, 2006; Sabino, 2004), onde se destacou a exigência de formação técnica ou acadêmica e registro profissional para que se exerça a ‘ocupação’ de secretária.
“o título de profissão, (...) é outorgado por órgãos governamentais de acordo com o sistema legal de cada nação. Assim, a existência do título [de profissão] está submetida às condições peculiares dos países, o que implica cultura, interesses e entendimento sobre determinada ocupação.”
Cabe aqui uma observação de Sabino & Marchelli (2009, p. 617) acerca da dicotomia profissão e ocupação:
A discussão teórica entre profissão e ocupação é o mote do próximo capítulo, pois, talvez ajude a compreender por que o secretariado, a despeito da regulamentação e de todas suas conquistas no Brasil, frente a outros países, continua a não ser socialmente identificado como profissão e, sim, como ocupação, função ou atividade (em geral transitória), dentro do universo das organizações.