História do Primeiro Café
História do Brasil: O Império e o Café
1 Origens:
O começo de tudo:
Ainda que verdadeira essa velha história, ao pastor observador só caberia a metade da honra da descoberta; a outra pertence incontestavelmente àquele que, pela primeira vez, pensou em torrificar essa baga. Brillat-Savarin, A fisiologia do gosto, c. de 1797.
Cabras mais espertas, uma lenda, uma história:
A Lenda de Kaldi, registrada em manuscritos do Iêmen, do ano de 575, é considerada a primeira referência alusiva ao café. Esse relato vem merecendo várias versões, como costuma ocorrer com toda a narrativa lendária, escrita ou oral, de caráter maravilhoso, fruto da imaginação popular e mesmo da criação poética. Alteram-se, assim, cenários e personagens, sem, contudo, esvaziar-se a mensagem principal: a descoberta do efeito estimulante da fruta por um pastor de cabras etíope. Mencionam-se também monges orientais como responsáveis por esta revelação, e, por vezes, paisagens quase paradisíacas são descritas para retratar as pastagens onde se deu a descoberta. O mais difundido desses relatos é a Lenda de Kaldi.
Kaldi era um pastor de cabras da Etiópia (nordeste da África), que, certo dia, observou o efeito excitante que as folhas e frutos de determinado arbusto produziam em seu rebanho. Os animais que mastigavam a planta se tornavam mais lépidos, subiam as montanhas com agilidade, revelavam melhor resistência, percorriam quilômetros de subidas íngremes. Ao experimentar os tais frutos, o pastor confirmou seus dotes estimulantes, e a notícia se disseminou pela região, provocando de imediato seu consumo, na forma macerada. A propagação da lenda, famosa durante séculos, confere-lhe foros de veracidade, apropriada até o presente como baliza inicial para a descoberta do café como fruto comestível e de teor estimulante. Seja ela fantasia ou realidade, importa registrar que a revelação do potencial do grão projetou no mundo a planta que, mais tarde, escreveria a história do Brasil.
Propagação inicial:
A fruta vermelha que nasce da flor branca e perfumada do pé de café tem sua origem geográfica nas terras quentes a nordeste da África, em tempos muito remotos.
Ali nascia o verdadeiro café selvagem, em meio à mata, no centro da também lendária região de Kafa, no interior da Etiópia, país de clima árido-tropical, onde hoje se localiza a cidade de Bonga. Até o presente, o arbusto do café é parte daquela vegetação natural. Os etíopes iniciaram seu consumo na forma de fruto. Alimentavam-se de sua polpa doce, por vezes macerada, ou a misturavam em banha, para refeição. E produziam um suco, que fermentado se transformava em bebida alcoólica. Suas folhas também eram mastigadas ou utilizadas no preparo de chá.
A África foi o território de origem, mas coube aos árabes o domínio inicial da técnica de plantio e preparação do produto, quando o café da Etiópia, atravessando o Mar Vermelho, foi levado para a vizinha Península Arábica. Ali, de acordo com os mesmos manuscritos do ano de 575, a primeira região a receber as sementes do fruto foi o Iêmen (sudoeste da Ásia). Só por volta do ano 1000 seria conhecida sua infusão, com as cerejas fervidas em água, servida para fins medicinais. Naquela altura, monges e dervixes começaram a usar o café como bebida excitante que os auxiliava nas rezas e vigílias noturnas, postura que indiretamente se constituiu em aval para que seu consumo se propagasse. O processo de torrefação, porém, só foi desenvolvido no século XIV, quando a bebida adquiriu forma e gosto como a conhecemos hoje. As plantas foram denominadas kaweh e sua bebida recebeu o nome de kahwah ou cahue, que significa “força”, em árabe.
O passo seguinte foi a sua produção comercial, no Iêmen. Ali, desde o século XIV, os pés de café foram cultivados em terraços, com a irrigação facilitada pela água dos poços que serviam à população. Detendo o controle sobre a produção em escala comercial, o país manteve por bom tempo o monopólio de sua comercialização. Era compreensível o cuidado para com o desenvolvimento de um produto que acenava com viabilidade comercial. A política econômica mercantilista deslanchava em busca de mercados pelas rotas marítimas dominadas pelos árabes. O comércio de especiarias do Oriente vinha como atrativo maior naquele universo que se abria para as práticas da economia capitalista nascente. Colocar em circulação novas drogas, rendosas, que se tornassem mercadorias competitivas, era bastante conveniente naquele cenário de crescente disputa mercantil. O café, propagando-se com facilidade nas terras quentes da Península Arábica, acrescido da característica estimulante, apresentava-se como produto da hora e da vez, no qual valia a pena investir. Logo, a popularização da bebida no mundo árabe foi efetiva para sua consagração no mercado. E seria também para o Ocidente, dado o apelo irresistível que guardava como produto exótico, do fantástico e dourado mundo islâmico, planta para muitos embriagadora e, até então, misteriosa.
Nasce um ritual:
O hábito de tomar café como bebida prazerosa, em caráter doméstico ou em recintos coletivos, deslancharia a partir de 1450. O produto era apropriado para a cultura árabe-islâmica, pois vinha ao encontro dos preceitos religiosos do islamismo ditados pelo Alcorão, que condenava bebidas alcoólicas. A princípio, um de seus consumos correntes foi entre os filósofos sufis, que, ao tomá-lo, permaneciam acordados para a prática de exercícios espirituais. Ao longo do século XVI, os árabes ampliaram as plantações em face do interesse pela bebida que atraía pelo teor excitante, pela proveniência oriental e pelo seu potencial de comercialização. Em 1520, a região de Moka, principal porto do Iêmen, foi responsável por um dos maiores cultivos do produto no mundo árabe. E seu porto, o maior exportador.
Cabe à Turquia, contudo, o pioneirismo do “hábito do café”, que ali se popularizou e transformou-se em ritual de sociabilidade. Na luxuosa capital Constantinopla, centro cosmopolita implantado estrategicamente entre três continentes, com população expressiva e que abriga palácios e mesquitas requintadas, surgiu o “Café”, estabelecimento aberto ao público. Data de 1475 a abertura daquele que é considerado o primeiro Café do mundo – o Kiva Han – marco do consumo generalizado da bebida.
Desde então, tomar café passou a ser ritual que se propagou pelo mundo afora. Em 1574, os Cafés do Cairo (Egito) e de Meca (Islã) eram locais procurados, sobretudo por artistas e poetas. Em Meca, cidade sagrada para os muçulmanos, a sudoeste da Ásia, em direção à qual se devia rezar cinco vezes ao dia, ingeria-se a bebida enquanto se exclamava 116 vezes: “Ya Kawi”. Assim, impregnada na cultura do mundo islâmico, a bebida foi absorvida até mesmo pela legislação turca. Sabe-se que as esposas podiam pedir divórcio caso o marido não provesse a casa de uma cota de café. Em contrapartida, o excessivo consumo do produto, liberador de emoções, tornou-se ameaça para o clero muçulmano, que em cerrada campanha pressionou o sultão Murad III a interditar a bebida. Interferência mais drástica, porém, foi desferida em 1511, contra Khair Beg, governador de Meca, que não só proibira seu consumo nas casas públicas e mosteiros como também determinara a incineração dos estoques, afirmando tratar-se de bebida excitante, condenada pelo Alcorão. Sua atitude contrariou o sultão, que o condenou à morte e decretou uma lei que tornava a bebida sagrada.
As campanhas contrárias à difusão foram em vão. Seu consumo já se arraigara no cotidiano árabe, a ponto de não só ser revogada a proibição como ainda se lançar um imposto sobre o café, fonte poderosa de divisas para o tesouro do país. A bebida negra dominou o mundo árabe. Exatamente por seu potencial econômico, as sementes foram guardadas com rigor, até as primeiras décadas do século XVII. Cuidadosamente defendidas, as sementes só deixavam as terras da Arábia após a retirada de seu pergaminho. Isso porque o grão do café, em geral, só germina se mantiver a fina película que o envolve. Esse cuidado foi tomado, posteriormente, pelos vários países que, na seqüência, detiveram sua produção.
Antes que se encerrasse o século, em 1592, Prospero Alpino (1553-1616), botânico veneziano, professor da Universidade de Pádua, visitando o Egito em 1580, registrava: “Os turcos têm uma bebida preta, que bebem a grandes tragos, não durante as refeições, mas depois delas, como uma sobremesa. Bebem-na para estar com os amigos – e não há reuniões que se façam sem café.”
A contribuição mais importante que este botânico viajante deixou encontra-se nas obras De Medicina Aegyptiorum (1591) e De Plantis Aegypti Liber (1592), nas quais constam as primeiras descrições científicas do cafeeiro. Obras igualmente notáveis, por seu pioneirismo sobre o assunto, são: De saluberrima potione cahue seu café nuncupata discursus (1671), de Fausto Nairobono Banesio, primeiro livro exclusivamente sobre o café, escrito em latim; De l’usage du caphe, du the et du chocolate (1671), de Philippe Dufour e J. Spon, reeditado apenas em 1685 por Philippe Dufour; Histoire du café (1716), de Antoine Jussieu, primeiro classificador do cafeeiro como Jasminum arabicum, sendo depois reclassificado por Lineu como Coffea arabica, apesar de sua origem etíope.
Esta rica bibliografia confirmava a crescente importância do produto, não só como curiosidade botânica, mas, sobretudo, como semente de alto interesse comercial.
Grãos sem pergaminho ganham os mercados:
Enquanto a planta permanecia como exclusividade árabe, os grãos do café – sem o pergaminho que os faz germinar – passaram a correr mundo apenas para o preparo da bebida. As notícias de sua excelência atingiam os centros europeus e ampliavam seu sucesso. No continente europeu, a porta de entrada do café em grão para o preparo da bebida foi a cidade de Veneza, no ano de 1615, o grande mercado de especiarias e artigos de luxo, centro difusor de produtos finos distribuídos para as cortes européias da época. Já se conhecia então a prática da torrefação e da moagem, e, dessa forma, o café passou a ser consumido. Consta que sua propagação, como grão torrado e moído, se deu a partir da Botteghe del Caffè, um dos mais tradicionais pontos-de-venda da cidade. Logo, a semente negra conquistou a Europa, ávida do exotismo das drogas do Oriente, vista como se fosse uma especiaria. Sua infusão era bebida rara, encontrada em poucas mesas, elegante, cobiçada e, finalmente, muito apreciada. Era o “licor do Oriente”. Em breve seria o “licor dos Trópicos”.
A grande receptividade, contudo, esbarrava em fortes resistências, numa Europa também marcada pelos embates da Contra-Reforma, onde as posições religiosas se acirravam em defesa da tradição católica. Nesse sentido, o café foi identificado como alimento procedente do lado herege do mundo, associado a estimulante pecaminoso, consumido por elementos pagãos, que se opunham ao catolicismo. Religiosos sugeriram que a bebida fosse excomungada. O papa Clemente VII, convocado para analisar a questão, apreciou-a e propôs até seu batismo, para que se tornasse uma verdadeira bebida cristã. Na Alemanha, a moda do café foi tamanha que o brilhante Johann Sebastian Bach compôs, em 1732, a Cantata do café, uma de suas raras composições de caráter profano e jocoso, uma história de amor, na qual exalta as qualidades da bebida, de forma arrebatada: “Ah, como é doce o seu sabor! Delicioso como milhares de beijos, mais doce que vinho moscatel! Eu preciso de café”...
Todavia, não só as resistências religiosas constituíram-se em entraves iniciais para sua propagação no mundo ocidental. Mais que as restrições de ordem moral, o saboroso líquido negro passou a ser temido pela ameaça econômica que representava, sobretudo para os mercadores de vinho. Dominando tradicionalmente o comércio de bebidas, esses comerciantes viam no café sério concorrente. Inevitável, pois, que concomitante à sua difusão nos mercados europeus sobreviesse ampla campanha para desacreditá-lo. Frederico, o Grande, rei da Prússia (1740-1786), para melhor controlar aquele comércio de grãos em franco desenvolvimento, tornou-o monopólio estatal, comercializado apenas pelo governo.
Contudo, o alto consumo da bebida e a potencialidade comercial acenada pelo produto demandaram ambição maior: a obtenção da muda ou, preferencialmente, do grão, revestido pelo pergaminho, este sim responsável pela germinação da semente, produtora da muda do café.
Presente requintado e planta de estufa dos jardins botânicos:
Controlando o comércio europeu e possuindo os melhores navios mercantes, coube aos holandeses obter as primeiras mudas, a princípio apenas como raridade botânica. Por trás do gesto, porém, havia a intenção de conhecer as características da planta, que se sabia de extrema viabilidade comercial. Em 1616, o Jardim Botânico de Amsterdã recebia os primeiros pés de café, que passaram a ser cultivados em estufas, merecendo cuidados fundamentais para seu cultivo e estudo das possibilidades de adaptação. Em seguida, foram plantados em caráter experimental nas colônias holandesas. Apostando no produto, com mudas procedentes de Moka, os holandeses deram início ao cultivo sistemático do café no ano de 1658, em Java, a leste da Índia – origem da famosa mistura de grãos Mocha-Java. E prosseguiram no Ceilão, atual Sri Lanka, ilha do oceano Índico. Em 1699, levaram mais mudas para as colônias insulares da Indonésia, Sumatra, Timor, Bali, Malabar e Celebes, e, em 1718, plantaram no Suriname, na América do Sul. Sempre sob controle da Holanda, essas regiões figuram como as primeiras exportadoras de café comercial do mundo. Amsterdã tornou-se poderoso centro difusor do produto.
Mas a França não ficou fora desse circuito por muito tempo. Desde 1644, o café passou a ser introduzido no porto de Marselha, por mercadores acostumados a consumir a bebida no Oriente. Em 1699, a chegada do embaixador turco Suleiman Aga a Paris foi o coup de foudre a despertar a Corte francesa para o hábito do café. Em grande estilo! O embaixador não só presenteou Luís XIV com os grãos para seu preparo como ainda promoveu festas ritualísticas que marcaram época, em espaços cênicos luxuosos organizados, especialmente, para o prazer da beberagem do café, das quais D’Israeli deixou um relato, impressionado:
De joelhos em terra, os escravos negros do embaixador, ataviados com os trajes mais deslumbrantes, serviam o melhor café de Mocha em minúsculas chávenas de porcelana casca de ovo, quente, forte e aromático, servidas em pires de ouro e prata, pousadas sobre paninhos de seda bordada ornados com barra de ouro, às grandes damas que abanavam os seus leques entre muitos trejeitos, inclinando seus rostos maliciosos [...] sobre a nova fumegante bebida.
Com esta extravagância sedutora, os grãos viraram coqueluche. Mais que nunca, o café revestiu-se do apelo de planta exótica, raridade botânica, requinte digno de presente régio. Foi com esse propósito que o burgomestre de Amsterdã, por volta de 1713, ofereceu ao rei Luís XIV uma muda, que foi levada para o Jardin des Plantes, de Paris. Em 1715, esse exemplar foi transplantado para as Antilhas, nas ilhas de Sandwich e Bourbon (hoje, ilha Reunião), onde se aclimatou e também garantiu aos franceses a posse do produto. Registre-se que na então ilha Bourbon já havia uma variedade indígena, denominada Coffea mauritiana Lam, que, em 1718, os holandeses levariam para o Suriname.
De planta exótica ao consumo internacional:
As dificuldades iniciais de aclimatação da planta do café – sujeita às intempéries e aos riscos de deterioração nos longos transportes – e a oscilante política de fixação artificial de preços, determinando quase sempre sua elevação, tornaram os carregamentos que chegavam aos portos muito disputados. A ampliação de seu cultivo passou a ser ambição dos países europeus na concorrência de mercados. Por volta de 1720, o comércio de café proveniente da Ásia totalizava noventa toneladas, motivando os franceses a se empenharem em desenvolver novas plantações em suas colônias. A história de Gabriel Mathieu de Clieu, oficial da marinha francesa, com versões fantasiosas, vem sendo contada recorrentemente para relatar a chegada do café à ilha de Martinica, ao norte da Guiana. Seria esse personagem o responsável pela introdução do café na América Central e, portanto, indiretamente, no Brasil.
Sabe-se que Clieu fora nomeado por Luís XIV para um posto na Martinica, e pelos serviços prestados recebeu o título de cavaleiro. Desejoso de desenvolver uma cultura lucrativa na ilha, obteve em Paris algumas mudas de café no Jardin des Plantes e se aventurou a transportá-las através da longa viagem marítima. Saindo de Nantes, o trajeto foi marcado por inúmeros lances aventurosos, que conferiram heroísmo e bravura à sua missão. Ataques de piratas e tempestade na Costa da África foram percalços que enfrentou, obstinado com a preservação daquelas espécies. Sobrevindo falta de água potável a bordo e temeroso de que as mudas não sobrevivessem, destinou parte de sua porção de água doce para a rega diária. Finalmente, conseguiu desembarcar com uma planta ainda viva, já brotando. Mas os cuidados extremos continuaram. Plantando-a no jardim de sua residência, manteve uma guarda permanente para protegê-la até que prosperasse e vingasse. Em 1726, Clieu obtinha sua primeira colheita de café, originária dessa matriz, e cinqüenta anos mais tarde a Martinica possuiria dezenove milhões de pés da rubiácea. Hoje, no Jardim Botânico da Martinica, uma estátua de Gabriel Clieu perpetua seu feito e homenageia o introdutor do café naquela porção da América. O café estava então mais próximo do Brasil, pois naquela muda estaria a origem de nossos cafezais.
2 Café:
De bebida a lugar:
O uso do café como bebida não se limitou à experiência doméstica. Nem aos vendedores ambulantes, que experimentaram e consumiram regularmente a infusão, antes mesmo que se propagasse nos Cafés. Dotada de caráter agregador, estimulante à troca de idéias, liberava a comunicação entre os homens, que passaram a consumi-la em lugares públicos. Às iniciais vendas do produto em grão, geralmente em mercados, seguiram-se as lojas para venda da bebida, que funcionaram como pontos de encontro, espaços de troca de idéias. Logo, o Kiva Ham, em Constantinopla, primeiro Café do mundo, foi seguido de cafeterias no Oriente, conhecidas como kaveh kanes, famosas pelo seu luxo e suntuosidade. Não é de se estranhar que o inovador espaço da sociabilidade, movido à beberagem proveniente da infusão do grão exótico, surgisse numa das mais prósperas e sofisticadas cidades do Oriente. Ali também, em 1554, foi aberto o primeiro ponto-de-venda do produto em grão, como estabelecimento próprio para sua comercialização, como se fora um empório do café. Na seqüência, Meca, Cairo e Damasco abriram seus Cafés, registrando só no Cairo mais de mil lugares públicos para seu consumo. Consta, inclusive, que ali foi introduzido o açúcar para adoçar o café.
Logo, o modelo da casa de café – a cafeteria –, como ponto de encontro e lugar de convívio social, vingou pelo mundo afora, atestando não só a ampla disseminação da bebida, mas, sobretudo, a função celebrativa, advinda de seu próprio teor, estimulante e liberador de emoções. Empreendimento lucrativo, esses estabelecimentos comerciais para encontros de negócios e lazer floresceram em paralelo à trajetória do produto, sobretudo nos centros urbanos europeus, intensificando a cobiça mercantil.
A Inglaterra foi o primeiro país a cultivar o hábito dos Cafés públicos. Em 1650, foi aberto em Oxford um dos primeiros pontos-de-venda, por um comerciante de nome Jacob. Mas foi em Londres, capital que despontava como centro urbano efervescente, que se fundou, em 1652, o Pasqua Rosée, que trazia o nome do proprietário, ao que consta de origem grega. A iniciativa foi conturbada, pois a bebida ainda era vista com reservas pela Igreja local. Mas a resistência foi rapidamente vencida, e sua aceitação deu origem às famosas coffeehouses, ponto de reunião de altos comerciantes, banqueiros, políticos e intelectuais. Por volta de 1708, mencionam-se em torno de três mil Cafés na cidade, fenômeno que mereceu a seguinte consideração da literatura inglesa: “[...] Zelosos da saúde e da bolsa, os londrinos não gostavam de reunir-se em tabernas, mas começaram a freqüentar os Cafés, porque uma xícara desta bebida, recentemente importada da Turquia, custava apenas um penny e acreditava-se que curasse males ligeiros”.
Ao longo do século XVIII, fazem parte do cenário londrino os famosos Cafés Lloyd’s, Dick’s, Jonathan’s, Rainbow, Nando’s, Tom King’s, Chapter, Turk’s, Grecian, Percy, Smyrne, estabelecimentos que permaneceram na memória local. Um dos mais tradicionais, o Bedford Coffeehouse, mereceu em 1751 a publicação do livro Memoirs of the Bedford Coffeehouse [Memórias do Café Bedford], atestando sua importância. Na sua maioria, os Cafés ingleses estimularam convívios diversos, constituindo-se em locais de discussões filosóficas e políticas, definidos então como “seminários de rebelião”. Denominação posterior foi “universidade a vintém”, onde se obtinha “instrução mui variada” e por preço módico. Mas esta proliferação de Cafés ingleses teve duração limitada. A partir de meados do século XIX, o desenvolvimento da cultura do chá nas colônias do Império britânico determinou seu consumo pela população, em detrimento do café. As casas de café passaram a ser casas de chá, o produto da vez no rol dos artigos britânicos.
Coube à França eternizar esse modelo de espaço lúdico através dos charmosos Cafés parisienses, que celebravam não só o convívio informal da população, mas também guardaram momentos históricos de amplo alcance. A cidade de Marselha foi porto de entrada do produto, com referências de seu comércio já em 1644, seguido, dez anos mais tarde, do aparecimento dos primeiros Cafés franceses. Ao longo do século XVIII, com um quarto da população da Europa, a França figura como um dos países de maior concentração de Cafés. Sabe-se que, em 1720, só Paris possuía 380 estabelecimentos, que chegariam a 900 no final daquele século, ocasião em que a França concentrava 27 milhões dos 175 milhões de habitantes europeus.
Em 1688, foi aberto o mais famoso dos Cafés parisienses – o Café Procope. Fundado por Procópio dei Coltelli, é tido como o mais antigo do mundo em atividade, embora funcione hoje como restaurante, abrigando em seus vários salões evocações e memórias das glórias revolucionárias francesas, das tertúlias de seus homens de letras. As mesas preferidas de Voltaire e Rousseau lá se encontram, em meio às muitas estantes que guardam as obras que produziram. Centro da vida literária da capital ao longo dos séculos XVIII e XIX, em seu interior conviveram La Fontaine, Voltaire, Benjamin Franklin, Danton, Marat, Robespierre, Napoleão, Balzac, Victor Hugo, Gambetta, Verlaine, Anatole France – entre tantos. Sabe-se que os trezentos Cafés registrados em Paris, no ano de 1721, saltaram para quatro mil no início do Império, com freqüência definida por públicos específicos, assim percebidos, em alguns deles: o Bourette, cultivado pelos literatos; o Café Anglais, pelos entusiastas da Comédie Française; o Café Alexandre, pelos músicos; o Parnasse e o Café Foy, por políticos e intelectuais.
No Café Foy, dois dias antes da tomada da Bastilha, em 12 de julho de 1789, Camillo Desmoulins fez relato inflamado à multidão, mobilizando-a para luta, que revoltada conclamava: Des Armes! Des Armes! [Às armas! Às armas!]. Embora não haja registro da freqüência de Napoleão aos Cafés de Paris, sabe-se que era incondicional consumidor da bebida. Do prazer de sua beberagem, deixou especial relato: “O café, forte e abundante, desperta-me. Dá-me calor, uma força invulgar, uma dor não sem prazer. Prefiro sofrer a ser insensível.”
Assíduo freqüentador do Café Procope, Balzac em “Dos estimulantes modernos” deixou impressão arrebatada da bebida, como se fora uma mobilização de guerra: “O café cai-nos no estômago e há imediatamente uma comoção geral. As idéias começam a mover-se como os batalhões do Grande Exército no terreno onde a batalha ocorre. As coisas que recordamos surgem a todo o galope, de estandarte ao vento.”
A Itália, primeiro país europeu a importar comercialmente o café, viu rapidamente seus tradicionais vendedores ambulantes de limonada e infusão de ervas serem substituídos pelos caffetiéri, os vendedores de café que dominaram a venda de bebidas de rua. Em Veneza, embora a cidade tenha sido sua porta de entrada na Europa, em 1615, só no ano de 1683 instalou-se na Piazza San Marco o primeiro Café daquele grande empório comercial. Mais de um século depois, em 1720, Floriano Francescari abriria também, entre os arcos da mesma praça, o Caffé Florian, até hoje templo de fruição não só de maravilhoso café, mas também do melhor cartão postal da cidade. Ainda que se pague caro por uma xícara, vale cumprir este programa de guloso e usufruir do local histórico, já freqüentado por Lord Byron, Goethe, Marcel Proust, Rousseau e Stravinsky. Ir a Veneza e não tomar um capuccino no Florian, aproveitando a atmosfera renascentista do Palácio dos Doges e da Basílica, ao som do velho piano de calda, é perder um dos ângulos mais privilegiados para o exercício dos sentidos do gosto, do olhar, do ouvir.
Em Roma, o Café Greco fez parte da cena musical do século XVIII e XIX, com visitas freqüentes de Mendelssohn, Rossetti, Liszt e Toscanini. Local de tertúlias e também de conspirações, inspirou a obra A crônica do Café Greco, de Diego Angeli, sendo hoje tombado como monumento nacional. Viena, que se celebrizou inclusive pelos “cafés vienenses”, conheceu o produto em circunstância fortuita. Em 1683, ao rechaçar o exército turco que assaltara a cidade, a população encontrou quinhentos sacos de café abandonados pelos soldados, que se puseram em fuga no momento da derrota. Foi o que bastou para se apropriar da mercadoria e dar início à sua beberagem, de forma sistemática. Com um diferencial: coado e acrescido de leite, mais tarde com açúcar e chantilly. Hoje, novos sabores são acrescentados à bebida, com receitas sofisticadas que imortalizaram os espaços glamourosos dos tradicionais Cafés vienenses.
Já nas terras vizinhas da Alemanha, embora o café fosse consumido e festejado desde o século XVII – tema da já citada Cantata do café, de Bach , só no século XIX a bebida passou a ser tomada com regularidade, dada sua importação comercial. Adeptos da cerveja e do vinho consolidaram o espaço das tabernas e dos Wein Stube como pontos de encontro, em detrimento dos estabelecimentos de café. Hoje, a situação se inverte, e as cafeterias disseminam-se pelo país, tão populares como as indefectíveis cervejarias alemãs.
Em outra escala, outro aporte beneficiou a difusão do café como bebida comercial: o invento da cafeteira, em finais do século XVIII, por parte do conde de Rumford. Em 1802, surgiu outro modelo, projetado pelo francês Descroisilles, no qual dois recipientes eram separados por um filtro. Em 1822, novamente à França chega a máquina do café expresso, mas não passava de um protótipo, que aperfeiçoado foi exposto em 1855 na Exposição de Paris.
Contudo, foram os italianos que chegaram mais longe na concepção da cafeteira expressa e passaram a comercializá-la a partir de 1905. A venda em larga escala se deu em 1945, a partir da Segunda Guerra Mundial. Mais tarde, o italiano Giovanni Gaggia otimizou o invento, concebendo uma máquina em que a água passa pelo café, após ser pressionada por uma bomba de pistão. Foi esse modelo que se consagrou. Fosse através do café coado por infusão ou aquele das máquinas expressas, o hábito das cafeterias se consolidou mundo afora, sobretudo quando a vida conheceu novo ritmo ditado pela produção das fábricas, pelo horário do trem, pela racionalização do tempo. No Café, as energias eram repostas. O nome da fruta e da bebida consagrou o espaço de lazer e encontros, associado a estabelecimentos imprescindíveis nos centros urbanos e mesmo em recônditos rurais. No presente sobretudo no ritmo intenso da vida contemporânea figuram como local de parada obrigatória, seja para saborear a bebida estimulante que “acende os sentidos”, seja como pausa prazerosa e relaxante. Na Europa, os Cafés representam autêntica expressão cultural, denominadores de um euro-sentimento comum. Costumes e sociabilidades afloram nas mesas informais desses estabelecimentos recendendo o aroma de café.
É o refúgio preferencial do homem contemporâneo, afago e aconchego para o cotidiano acelerado e hostil do mundo capitalista e globalizado.
Botânica do café:
A planta do café foi originalmente classificada como pertencente à família dos evônimos (do latim evonymos), arbusto com propriedades medicinais, também cultivado como ornamental. Em seguida mereceu a classificação de jasmim (do árabe yasmin), designação das várias espécies do gênero Jasminum arabicum, da família das oleáceas. Mas entrou definitivamente nos compêndios de botânica pelas mãos do naturalista Lineus, no seu Systema Naturae, publicado em 1735.
O fruto origina-se de um arbusto da família das rubiaceae, que se desenvolve em regiões tropicais ou subtropicais, e está presente na natureza em mais de sessenta espécies, tendo sido batizado com o nome genérico de Coffea pelo naturalista Antoine-Laurent Jussieu. Produz flores com aroma de jasmim e frutos conhecidos como cerejas. Dentro de cada cereja, protegidos por dois invólucros – uma polpa e um pergaminho, estão dois grão de café. Os pés de café atingem de 2 a 2,5 metros, podendo chegar a 10 metros de altura. Existem pelo menos 25 espécies importantes, originárias da África e de algumas ilhas do oceano Índico. Para consumo comercial, há duas espécies importantes: a Coffea arabica, que fornece o café arábica, de gosto suave, aromático, redondo e achocolatado, o único que pode ser vendido puro, sem nenhum blend; e a Coffea canephora, variedade robusta, que produz o café conillon, mais resistente às pragas e às intempéries, mas não oferece bebida tão qualificada, possuindo sabor adstringente e mais amargo.
A diferença entre as duas espécies está no número de genes. A Coffea arabica é mais complexa, contém 44 cromossomos, dois a menos que a espécie humana. Só pode fazer cruzamentos com ela mesma, o que evita casamentos negativos. É muito mais delicada, gosta de grandes altitudes e exige um clima ameno, com a temperatura entre 15o C e 22o s. A Coffea canephora (ou robusta), com 22 cromossomos, como as outras plantas, aceita temperaturas entre 24o C e 29o C. As duas espécies morrem quando a temperatura cai abaixo de zero e ambas necessitam uma média anual de pluviosidade entre 1.500 e 2.000 milímetros. Para simplificar, a espécie arábica é predominante nos cafés especiais, pois tem mais aromas e sabores. A espécie robusta, de características mais rústicas, conforme sugere o próprio nome, tem maior produtividade.
Café no Brasil, a semente que veio para ficar:
[...] Se acaso entrar em quintal ou jardim ou roça aonde houver café, com pretexto de provar alguma fruta, verá se pode esconder algum par de grãos com todo o disfarce e com toda a cautela e recomendará ao dito cabo que volte com toda a brevidade e que não tome coisa alguma fiada aos franceses, nem trate com eles negócio. Regimento que há de Guardar o Sargento-Mor Francisco de Melo Palheta, 20 de fevereiro de 1727.
Missão premeditada, presente clandestino ou acaso amoroso?
A exemplo das tantas narrativas que traçam a rota do café do Oriente ao Ocidente, a chegada da planta ao Brasil também é envolta em relatos extravagantes. Os registros têm um ponto em comum: a figura de Francisco de Melo Palheta como autor do feito de introduzir as primeiras sementes no Pará, no ano de 1727. Em torno desse personagem construiu-se uma mística romântica, que parece ser da natureza dos relatos alusivos à trajetória do café pelo mundo, associação ditada talvez pelo caráter da bebida, estimulante dos sentidos e da imaginação.
O festejado introdutor do café no Brasil – sempre tipificado como vulto aventureiro, a serviço do engrandecimento das rendas do Império português – tem sido apresentado de forma pitoresca. Ilustradores anônimos reproduzem o personagem sempre trajando rica vestimenta, com aura épica e sedutora, em meio à natureza luxuriante dos trópicos. As ilustrações reconstroem o perfeito herói dos folhetins dos alvores do Romantismo. Essa construção não foi gratuita. Ela se deu ao gosto do imaginário sobre a ação destemida do colonizador nas terras do Brasil setecentista, imbuído da missão “bandeirante”, modelo de agrado da historiografia em voga no século XIX, que associava nosso passado colonial a uma idealizada“raça de gigantes”.
Essa representação ganhou força, sobretudo, com a consagração histórica de Francisco de Melo Palheta a partir de 1927, quando do bicentenário da introdução do café no Brasil. Na ocasião, uma série de estudos privilegiou sua imagem, ampliando-lhe a biografia e a ação. Ao gosto daquela historiografia, de culto dos personagens e feitos heróicos, consolidou-se uma frase oficial: “o café foi introduzido no Brasil por Francisco de Melo Palheta, no ano de 1727”. A rigor, o produto já era conhecido no território, vindo de Portugal, segundo mencionado em 1663 pelo diplomata português Duarte Ribeiro de Macedo, lotado na corte francesa de Luís XI. Em seu Discurso sobre os gêneros de comércio que há no Maranhão, citava 37 produtos, entre eles o café, acrescentando que sua cultura era pequena e de baixo preço. O interesse menor se devia à sua difusão recente na Europa, considerando-se que fora introduzido em Veneza em 1615 e seu cultivo ainda se propagava nas colônias holandesas e francesas. Naquela altura, porém, os grãos não se colocavam como produto da vez no mercado. A situação mudaria no século seguinte, ao tempo do nosso “herói”.
A maioria dos estudos aponta para o efetivo envolvimento desse agente do rei na obtenção das sementes de café. Consta que não só foi seu introdutor no Pará como também agricultor, responsável pelo cultivo da planta em escala considerável. Seu gesto, como agente oficial do governo, ganha significado na política mercantilista da época, regida pela idéia da máxima exploração das terras do Brasil, então a mais próspera colônia portuguesa. Certo que, naquela altura, as descobertas crescentes das jazidas auríferas absorviam boa parte da atenção da metrópole, a ponto de criarse, em 1720, a Capitania de Minas Gerais, delimitando a área de onde saía o ouro para o mundo. Mas, também o açúcar, o algodão e o fumo, provenientes do Norte e Nordeste, se destacavam com sucesso no rol das “drogas do sertão” de interesse do Reino. No entanto, tudo isso não bastava. A Coroa precisava de mais e mais produtos tropicais para fins de exploração econômica no competitivo quadro daquela etapa capitalista. Concomitantemente, na colônia que se tornara a “galinha dos ovos de ouro” do Reino português, centrada então, sobretudo, na exploração do metal precioso, uma questão se tornou premente: a defesa e rígida demarcação de fronteiras dado o imenso e rico território, sujeito à ocupação clandestina pelos países vizinhos.
Data desse momento o envolvimento de Palheta com tarefas de importância para os interesses de Portugal, do reconhecimento de trajetos fluviais ainda obscuros à defesa de fronteiras no território constantemente ameaçado, além da busca de novos produtos agrícolas de interesse mercantil, figurando como agente social típico de seu tempo. Era um militar graduado, funcionário real, a serviço do aumento das rendas da metrópole e das suas próprias, imbuído da ambição comum aos homens que atuavam no Novo Mundo: enriquecimento e poder.
3 Proibida a venda de café capaz de nascer:
Cherchez la femme:
Sargento-mor Francisco de Melo Palheta, um potentado do Pará:
Café isento de imposto:
Prelúdio do café:
4 “Ora! Vamos agora plantar frutinhas e doidices da cabeça do vice-rei! Se o vice-rei gosta de café, ele que o plante!”:
Momento propício:
Pão de Açúcar e cafezais
Um porto aberto para o mundo e para o café:
Incentivos régios:
Estrangeiros de fino trato no cultivo do café:
Do açúcar para o café:
Através do mar de morros:
5 Estradas e portos para servir o café:
Entre os portos fluviais, foram muito utilizados o de Itaguaí, no rio do mesmo nome, o Iguaçu, também neste rio, os dois portos de Estrela, sobre o rio Inhomirin, no fundo da Baía de Guanabara, e o porto de Caxias, nas margens do rio Macapu. No rio Paraíba, encontravam-se os portos de Campos, São Fidelis, Porto Velho e Porto Novo. Desses portos, saíam estradas, de uso intenso, onde os próprios cafeicultores investiam, sabendo-se que a de Ariró, a mais utilizada, foi até mesmo calçada com pedras numa época em que isso era muito raro.
“O homem vai, enfim, subir a serra de machado em punho”:
E mais: ambos se integram do ponto de vista geográfico, econômico e social, abrigando municípios com características comuns àquela fase da implantação da lavoura cafeeira. A passagem do café por ali foi breve, de aproximadamente três gerações. O embaixador Nogueira Porto, descendente de família tradicional da região, resume bem a evolução do ciclo, constituído por desbravadores e pioneiros, sucedidos por filhos enriquecidos, educados e enobrecidos, e pelos netos pobres, contemporâneos da decadência dos opulentos feudos rurais herdados, resultado do fracionamento das terras e fortunas das grandes famílias e do conseqüente esvaziamento do poder econômico e político que um dia detiveram.
Reparos necessários:
O requinte do cotidiano nas propriedades rurais próximas da Corte, com estilo de vida, hábitos, alfaias e mobiliário condizentes com os melhores salões do Império. Ao contrário destas, as sedes de fazendas que se abriram para além de Campinas – ressalvadas algumas exceções – foram rústicas, por vezes singelas, sofisticando-se em fase muito posterior, quando a ferrovia, com materiais importados, já podia atravessar o sertão. Só então é que a casa de vivenda da fazenda paulista conheceu toda a sorte de adereços representativos da civilização: do mobiliário Thonet à água de Vichy, do piano de cauda ao melhor figurino francês.
Entrando em território paulista:
Naquela altura, a situação paulista era especial, apoiada na função de abastecedora de víveres de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Apesar de ser província pobre, tinha seu dinamismo e comércio desenvolvidos pelo tráfico terrestre de mulas, mas também expressivamente pela navegação de cabotagem. O melhor meio para transportar era atingir um porto e daí a seus pontos de comércio, o que explica a localização das tantas lavouras oitocentistas paulistas próximas às regiões portuárias: no vale do Paraíba, por situar-se no caminho para o Rio; nas proximidades de Santos, pelo possível escoamento através daquele porto. Assim, o café foi aparecendo, por um lado, no litoral e subindo a serra na altura de São Sebastião e Ubatuba; por outro, veio pelo vale do Paraíba.
No engenho de açúcar, de produção mais complexa, exigindo investimentos de grande envergadura, essa situação de sobrevivência econômica até a primeira colheita do café era mais difícil. Assim, a emergência das plantações se deu, sobretudo, em propriedades agrícolas de subsistência e, de forma mais tênue, onde havia açúcar.
Ainda em 1800, o governador Antônio Melo de Castro e Mendonça informava com pouco entusiasmo: “A cultura deste gênero não passa de alguns pés, que cada um dispersamente planta nas suas fazendas, para ornato das ruas e passeios dela”. Do mesmo ano, a Memória econômico-política do governador da Capitania de São Paulo, Antônio Melo de Castro e Mendonça, concluía:
Trata-se de uma página de narrativa pitoresca, rica de informes, que vale a reprodução pelo raro depoimento sobre a área em transformação. Vindo, pois, de São Paulo para o Rio de Janeiro, no trecho intermediário entre ambas as províncias, observou:
A contiguidade com o território fluminense facilitou o avanço pelo vale na sua banda paulista. Mais exatamente nas imediações da atual cidade já mencionada de Areias, então distrito da Vila de Lorena. Foi dali que o café tomou o rumo das vilas vizinhas de São José do Barreiro, Bananal e Silveiras, que viriam a ser as iniciais e expressivas produtoras na primeira metade do século XIX, adentrando Guaratinguetá, Pindamonhangaba, Caçapava, Taubaté e Jacareí, estas duas últimas especialmente em 1822.
6 Coffe a Arábica:
Uma matéria de sucesso:
O café aparece no capítulo denominado “Bebidas alimentosas”, e o objetivo das instruções para a preciosa planta, segundo o botânico, é seu “perfeito preparativo para passar à Europa e igualar, se não exceder, ao cultivado nas possessões Africanas e Americanas estrangeiras, e ainda, como se julga possível, ao que se transporta de Moca, cuja perfeição parece estar distante o nosso”. Com esse cuidado, o autor transcreve ali a publicação clássica sobre o café, de autoria de P. J. Laborie, fazendeiro de café da ilha de São Domingos, que passou a ser utilizada por fazendeiros mais esclarecidos como manual de orientação.
Pois é ali que, no artigo denominado “Memória sobre o Café, sua história, sua cultura e amanhos”, o autor afirma ser a bebida de tal maneira admitida no uso econômico que chega ao grau dos objetos de primeira necessidade. Noticia ainda a exportação de produtos do ano de 1812, informando que da Bahia, Pernambuco e Maranhão vêm muitas sacas de algodão e muito couro e, do Rio de Janeiro, sessenta sacas de café. Entusiasmado com a planta, descreve enlevado:
“Um cafezal bem disposto é talvez o mais lindo quadro que a agricultura oferece. A brancura brilhante das flores, o encarnado dos frutos, contrastando com o verde das folhas apresentam o mais agradável matiz, o que mais realça o aroma que das flores se derrama”.
Café e Independência:
A permanência de D. João no Brasil coincidiu com o avanço das plantações, sincronia que não se deveu apenas à aposta oficial no produto e no incentivo para seu plantio. Mais que isso, a capital da colônia tornou se sede da Corte, porto importante e principal centro comercial, financeiro e manufatureiro do território. Da Abertura dos Portos em 1808 à suspensão do Bloqueio Continental francês, em 1814, criaram-se as condições que possibilitaram a ampla colocação do produto no mercado.
A nova situação do Rio de Janeiro, de potencializado escoadouro de artigos coloniais para o mercado europeu, consolidou-se ainda mais a partir de 1815, quando a cidade foi elevada à sede do Reino Unido a Portugal e Algarves, capital do Reino. Nessa altura, o café ainda não ocupava o primeiro lugar na balança comercial, mas estava chegando lá.
Para se ter uma ideia da importância daqueles cafezais, o próprio setor de comunicações, sempre tão precário, recebeu estímulos oficiais em benefício do café. A Estrada do Comércio, cuja construção data de 1812, servia à área que o café tomava de assalto, passando entre as regiões de Vassouras, de um lado, e Pati, de outro. Servia o porto conhecido como Comércio, à beira do Paraíba, e atingia o Porto dos Índios, à margem do rio Preto. Sua reforma, em 1829, visou preencher as novas necessidades relativas ao café, cujo destino final era o porto de Iguaçu, de onde a carga era destinada aos armazéns e trapiches do Rio de Janeiro. A tradicional estrada das boiadas, a Estrada da Polícia, figurou como agente de desenvolvimento para aquela lavoura, valorizando a terra, promovendo o povoamento da área, considerada de irradiação da economia cafeeira.
“As posses dão, Real Senhor!”:
Ali, o coronel João Ferreira de Souza ofereceu-lhe soberba refeição, com leitão, guisados, frangos, arroz e lebre. No dia seguinte, o príncipe regente parou em Guaratinguetá, na casa de Manoel José de Mello, que tinha até baixela de ouro. Surpreso com tamanha riqueza, recebeu do proprietário a resposta: “As posses dão, Real Senhor!”. As posses resultavam de suas lavouras de café, que se propagava pelo vale.
O país começava a escrever uma nova história. As tintas e as cores desse relato foram dadas pelo cafezal. Da Independência, passando pelo Primeiro Reinado e Regência, o café delineou-se como planta esteio da nação. E consolidou-se ao longo da Monarquia construída nos trópicos, num Reino visto como flor exótica das Américas, onde governou um imperador loiro, de olhos azuis, que se vestia com um manto de penas de papo de galos da serra nas ocasiões de pompa e circunstância. Esse monarca reinaria à sombra dos cafezais. Ou melhor: seu reinado acabou por figurar como uma alegoria do café. Vamos, pois, leitor, ao Império do café.