A educação física no ensino fundamental
Educação Física, Jogos e Cultura
1 O conteúdo de ensino da Educação Física: de atividade física à cultura corporal de movimento
2 Propostas de seleção, organização e sistematização dos conteúdos da educação física
Para essa nova perspectiva, uma questão que logo se coloca é a da identificação, seleção, organização e sistematização dos conteúdos da Educação Física ao longo dos nove anos do ensino fundamental. Vamos aqui considerar que a disciplina seja contemplada com um espaço/tempo pedagógico específico nos currículos escolares nos nove anos, ainda que nos primeiros anos (1º ao 5º ano) de muitas redes de ensino a Educação Física ainda não esteja sob a responsabilidade de professores especialistas (licenciados em Educação Física). O tempo destinado às aulas da disciplina varia significativamente ― de três aulas semanais a uma, sendo o mais comum duas aulas semanais. Variam muitíssimo também as condições do espaço pedagógico específico para as aulas: de quadras cobertas a espaços de terra e pátios improvisados até a falta total de espaço minimamente adequado.
Para a seleção dos conteúdos, é preciso estabelecer critérios, já que a escola é necessariamente seletiva em relação aos conteúdos culturais. A seguir, apresentamos alguns exemplos de seleção e organização/distribuição dos conteúdos ao longo das séries/anos que compõem o ensino fundamental. Alertamos que esses exemplos não são apresentados aqui para serem “copiados”, já que foram construídos para realidades com especificidades que muito provavelmente não estarão presentes em outros contextos. Eles servem para ilustrar e concretizar as concepções e os princípios que vimos apresentando aqui e também para estimular novas construções com base nessas propostas e experiências.
Apresentamos, inicialmente, um plano elaborado e desenvolvido em uma escola de Belo Horizonte e divulgado por Silveira e Pinto (2001). Os autores partiram da delimitação dos conteúdos proposta pelo Coletivo de Autores (1992): Jogos, Danças, Esportes, Ginásticas e Lutas, compondo um quadro detalhado dessas práticas corporais como segue:
É fundamental observar que o simples elencar de algumas práticas corporais elaboradas historicamente pelo homem ainda não configura o conteúdo das aulas de Educação Física. Essas práticas, que compõem a cultura corporal de movimento, são apenas a referência para os saberes e fazeres que serão, então, objeto de ensino. É importante, portanto, entender que o conteúdo só se configura quando essas práticas são efetivamente tematizadas nas aulas a partir de determinadas intenções. Assim, o tipo de abordagem, mais do que simplesmente a eleição de uma determinada prática, é que vai definir o conteúdo, ou seja, o que se espera que o aluno vá aprender. Para exemplificar, vamos tomar uma das práticas citadas no quadro, a capoeira. Essa prática pode ser tematizada de várias formas. Para efeito de ilustração, apresentamos a seguir apenas duas possibilidades para ressaltar como o “conteúdo” se diferencia fortemente, embora se trate de uma mesma prática presente em nossa cultura.
a) A capoeira como conjunto de destrezas motoras
A capoeira pode ser tematizada objetivando-se apenas a aprendizagem dos gestos motores ou o desenvolvimento da aptidão física. Dessa maneira, a ênfase recairia sobre os gestos ou golpes que compõem o acervo de movimentos capoeiristas. O sucesso da aprendizagem seria medido pelo grau de habilidade para jogar desenvolvido pelo aluno.
b) A capoeira como elemento da cultura corporal de movimento
Neste caso, além de levar o aluno a se apropriar de uma técnica corporal, o objetivo seria fazer com que ele se aproprie do saber que detemos sobre essa prática, de maneira que possa compreender seu papel social e histórico, bem como situá-la na dinâmica cultural contemporânea.
Como podemos perceber, na segunda abordagem o conteúdo se amplia significativamente. Além da dimensão cognitiva de um saber sobre o fazer (social, histórico, cultural), é preciso considerar a educação estética e ética, que ocorre quando tal prática é tematizada nas aulas. Esses aspectos, entendemos, devem ser objeto de ensino e configurar o conteúdo de forma clara. Todavia, muitas vezes esses aspectos ou não são objeto específico de tratamento pedagógico por parte dos professores ou recebem tratamento conservador, como ajudar na “disciplina” dos alunos, ensinando-os a obedecer às regras. Dar um tratamento pedagógico às práticas implica tematizá-las explicitamente ― por exemplo, discutir a construção das regras esportivas e seu significado, refletir sobre as razões de sua existência, bem como sobre as motivações políticas e econômicas que explicam muitas mudanças.
Precisamos considerar também de que modo os conteúdos (no caso, as práticas corporais) podem ser distribuídos ao longo das diferentes séries do ensino fundamental. Nos Quadros 2 e 3, podemos observar como os conteúdos foram organizados ao longo dos oito anos (agora nove anos) do ensino fundamental pelos autores anteriormente citados.
Chamamos a atenção para alguns aspectos dessa seleção e distribuição dos conteúdos nas diferentes séries ou anos. Nas primeiras quatro séries do ensino fundamental, ainda não aparece de forma mais proeminente o conteúdo esporte; o que se observa é a predominância de outras práticas corporais, principalmente os jogos. Outro aspecto a ressaltar é a presença, no segundo bimestre, de danças que pertencem ao contexto cultural específico em que está situada a escola. Esse aspecto é importante na medida em que permite atender, na construção curricular, ao princípio de contemplar e valorizar a cultura local, vinculando o ensino ao contexto social de vida dos alunos. Além disso, destacamos também a realização, durante o terceiro bimestre, de um festival de jogos que, envolvendo as quatro séries (o festival se estende para todas as séries do ensino fundamental), foi preparado durante os bimestres anteriores, quando o conteúdo foi desenvolvido.
Em relação ao Quadro 3, chamamos a atenção para o fato de que muitas práticas corporais, normalmente ausentes no ensino tradicional da Educação Física, aparecem alocadas como conteúdo de ensino em diferentes séries, o que demonstra a preocupação em ampliar o acervo cultural do aluno, bem como estabelecer um diálogo entre o conteúdo das aulas e a cultura contemporânea de nossos jovens.
Outra observação importante é que os autores da proposta tematizavam cada uma das práticas corporais elencadas sob muitas e diferentes óticas, tais como:
• História dos antecedentes que deram origem à atual forma do conteúdo, trabalhados tanto a partir de textos quanto da prática não só da forma atual, mas também, das formas originais dos jogos, esportes e ginásticas;
• Aspectos técnicos e táticos: as questões técnicas e os condicionantes de sua evolução (evolução das regras, exigências da mídia, entre outros). Aqui se coloca como objetivo central não a incorporação de técnicas (que pode ser ou não conseqüência do trabalho), mas a compreensão do universo técnico e táticos dos jogos e lutas e da transitoriedade desse universo;
• Produzindo uma cultura escolar: a possibilidade de mudar as regras, os valores e a forma de realizar cada prática corporal, criando novos jogos, esportes, ginásticas e lutas mais coerentes com o espaço escolar;
• Lazer e tempo livre: as práticas corporais como possibilidade de fruição do lazer;
• Crítica social: como as práticas corporais têm se estabelecido como um campo de poder, como as instituições (federações, ligas, governos) se apropriam das práticas corporais; a quem servem, que valores veiculam;
• Mitos, crenças e preconceitos associados às práticas corporais, como, por exemplo, “futebol é para homem”;
• Mídia: como a mídia e a propaganda usam as práticas corporais; como a relação com a mídia transforma a atividade em espetáculo, dando-lhe novos sentidos e valores. A análise crítica de artigos de jornal e de vídeos é um excelente meio de desmascaramento da lógica mercantilista do esporte espetáculo;
• Aspectos fisiológicos das práticas corporais: relação entre prática corporal, condicionamento físico e flexibilidade; planejamento de carga, tempo e freqüência de prática em função de objetivos predeterminados. A avaliação física e seus protocolos, objetivos, bem como(,) a interpretação de seus resultados, partindo da experiência dos próprios alunos com a avaliação física em academias e clubes. Nutrição e práticas corporais;
• Lesões corporais e primeiros socorros no âmbito das práticas corporais;
• Doping: os motivos e valores que levam atletas e não atletas a se doparem. A supervalorização da estética e do rendimento como estimulantes do consumo de doping; as conseqüências do doping. (SILVEIRA; PINTO, 2001, p. 145).
Na perspectiva acima referida, quando se fala que a Educação Física deve levar à aprendizagem do esporte, isso não significa que o aluno vá apenas adquirir a habilidade ou destreza motriz esportiva. Aprender esporte significa não só adquirir essa destreza motriz, mas também competência de situar o esporte na história, perceber como os interesses econômicos e políticos interferem no seu desenvolvimento, identificar os possíveis benefícios que essa prática pode trazer para a vida, compreender essa prática como direito do cidadão, entre outros aspectos.
Ao longo da década de 1990 e no início da década de 2000, muitas experiências e elaborações de diretrizes foram levadas a efeito em todo o Brasil, a partir dessa nova perspectiva de Educação Física. Nesse contexto e considerando todo esse movimento, no ano de 2009, Fernando Jaime González e Alex Branco Fraga elaboraram o referencial curricular da Educação Física do Estado do Rio Grande do Sul (GONZÁLEZ; FRAGA, 2009). Esse documento se configura como um esforço de sistematização de propostas e experiências herdeiras do movimento renovador da Educação Física brasileira, que teve como primeira sistematização a já citada obra do Coletivo de Autores (1992). Nosso entendimento é que esse documento não só sistematiza o conhecimento acumulado, como também inova, representando o que temos de mais avançado, no momento, para orientar a Educação Física no ensino Fundamental e Médio. A seguir, apresentamos alguns elementos que configuram a proposta.
Assim se expressam os autores do documento em relação às finalidades e conteúdos da Educação Física:
De um modo específico, cabe à educação física tratar das representações e práticas sociais que constituem a cultura corporal de movimento, estruturada em diversos contextos históricos e de algum modo vinculadas ao campo do lazer e à promoção da saúde. É o caso, por exemplo, das práticas esportivas, das ginásticas, das lutas, das atividades lúdicas, dos movimentos expressivos, entre outros que se firmaram ao longo dos anos como objetos de estudo próprios desta disciplina. Entre tantos desdobramentos possíveis, os saberes produzidos pela experimentação das práticas, o conhecimento da estrutura e dinâmica destas manifestações, bem como a problematização dos conceitos e significados a elas atribuídos, compõem as competências e conteúdos a serem ensinados na escola (GONZÁLEZ; FRAGA, 2009, acesso em 28 abr. 2010).
Consonante esse entendimento de Educação Física, os autores organizaram os conhecimentos que constituem o seu objeto de estudo inicialmente em dois conjuntos de temas: a) práticas corporais sistematizadas (esporte, ginástica, jogo motor, lutas, práticas corporais expressivas, práticas corporais na natureza e atividades aquáticas); b) representações sociais que constituem a cultura corporal de movimento e afetam a educação dos corpos de maneira geral. Esquematicamente estes dois conjuntos podem ser representados como segue (Figura 1):
Esses temas, por sua vez, subdividem-se em diferentes subtemas, detalhamento que aqui não é possível apresentar. O conteúdo Ginástica, por exemplo, pode ser subdividido em Acrobacias, Programas de exercício físico e Práticas corporais introspectivas. Além disso, propõe-se que todos os subtemas sejam desenvolvidos em duas perspectivas: como saberes corporais e como saberes conceituais.
3 Propostas de seleção, organização e sistematização dos conteúdos da educação física
Se considerarmos a proposta desenvolvida por Silveira e Pinto (2001), veremos que, no caso dos Referenciais Curriculares da Educação Física do Estado do Rio Grande do Sul, aparecem mais três conjuntos de práticas corporais: práticas corporais expressivas, práticas corporais na natureza e atividades aquáticas. Isso se deve, em parte, ao fato de que, no primeiro caso, se trata de uma escola específica e, no segundo caso, de uma grande rede de ensino. É importante aqui o princípio de que o currículo de Educação Física de uma escola contemple um conjunto o mais amplo possível de práticas corporais. Isso, no entanto, não deve acontecer sem que se leve em consideração o tempo necessário para a aprendizagem de determinado conteúdo e o tempo disponível para tal, bem como outras condições objetivas, como as instalações disponíveis; há que se obter uma adequada equação desses dois tempos e dos espaços.