Compartilhando saberes I:
Iniciamos nossa entrada na escola buscando nos aproximar da professora para refletir sobre as ações e práticas cotidianas. Com os primeiros contatos estabelecidos, começamos a delinear as ações que seriam compartilhadas e a prática de ensino voltada para o 4º ano. Ao mesmo tempo nos informamos, em entrevista realizada com a professora, sobre as atividades educativas cotidianas, suas características e seus significados, sobre as condições de vida dos sujeitos escolares e a relação com as aulas de Educação Física.
Mediante as narrativas produzidas na entrevista, realizamos encontros de planejamento em que foram problematizadas questões referentes à prática de ensino na Educação Física, como: definição de conteúdos, procedimentos metodológicos, práticas avaliativas, pesquisa como elemento articulador da prática docente e discente. Esses encontros se configuraram como momentos de projeção, partilhas e negociações, em que discutíamos a prática pedagógica, articulando a (re)construção do trabalho docente
Sobre esse assunto, é preciso ressaltar que a escolha do conteúdo Jogos e brincadeiras foi feita pela própria professora, considerando-o conhecimento socialmente produzido que deve ser aprendido, assistido, refletido e modificado, de modo a promover a ampliação do universo motor e cultural dos alunos. A partir de nossas conversas iniciais, propusemos a possibilidade da constituição de uma prática de ensino articulada a obras de artes que tematizavam o brincar. Essa opção fomentou a problematização de formas interdisciplinares e, ao mesmo tempo, permitiu uma inter-relação entre produção, leitura de imagens e contextualização histórica, favorecendo a importância do brincar e do criar nas atividades de Educação Física.
Fizemos uma primeira aproximação ao quadro de Pieter Bruegel, Jogos Infantis,11 embora a professora conhecesse outras obras que retratavam brincadeiras, como é possível notar no seguinte relato: “tem uns quadros de pintores que retratam brincadeiras e, se olharmos as suas datas, praticamente, são as mesmas brincadeiras dos nossos tempos”. Desenvolvemos, ainda, com a professora, na biblioteca da escola, uma pesquisa em que encontramos novas obras de Pieter Bruegel sobre o tema, bem como a produção de outros artistas, como Cândido Portinari e Orlando Teruz. Com base nessas fontes, resolvemos analisar detalhadamente o quadro Jogos Infantis para usá-lo nas aulas. Essa opção se justificou pela quantidade de jogos e brincadeiras presentes na obra e pela riqueza de detalhes apresentada pelo autor.
Diante do quadro do Bruegel, identificamos as atividades presentes e a relação entre a data, seu contexto original e as brincadeiras existentes em nossa realidade. De fato, não conseguimos visualizar as 84 brincadeiras sinalizadas por Rosa , porém, nas identificadas, observamos que estão presentes na atualidade, portanto, é possível trabalhar com elas como conteúdos de ensino nas aulas.
As iniciativas, em relação ao ensino e aprendizagem, representavam o processo em construção, um movimento de permanência e mudança, no qual se materializavam, de forma complexa, os fazeres escolares planejados de modo compartilhado. Dessa maneira, a prática pedagógica caminhava no sentido de:
- Dar evidência às brincadeiras que as crianças já haviam sugerido em sala;
- Pedir que os alunos pesquisassem em casa, com os adultos com que convivem (pais, avós, entre outros), outras brincadeiras que eles brincavam nas suas infâncias;
- Fazer com que os alunos pesquisassem em livros ou em outros materiais impressos;
- Após esses três momentos, promover uma socialização e discussão de todas as brincadeiras que apareceram, fazendo com que os alunos tenham contato com elas;
- Promover um momento para exposição dos quadros e das atividades vivenciadas.
Esse fragmento expressa a complexidade dos caminhos percorridos no processo de intervenção, ou seja, os movimentos, os conhecimentos, as práticas que atravessariam, de maneira estratégica e tática, a cultura produzida no cotidiano. Nesse caso, mesmo diante da delimitação realizada, a professora se apresentou confusa quanto à utilização dos quadros na proposta, mais especificamente em relação aos momentos em que eles poderiam ser utilizados. Uma providência inicial consistiu em sondar os jogos e as brincadeiras que as crianças do 4º ano conheciam e, consequentemente, os que mais praticavam. Uma das atividades iniciais da professora foi fazer perguntas a cada criança e construir um cartaz com as respostas apresentadas por elas. Dentre as atividades que a turma citou, apareceu desde futebol, queimada, amarelinha e pique-esconde, até video games, entre outras que não conhecíamos, como encantado, guerra dos mundos e pique-sardinha.
Incorporando o universo de vivência das crianças à prática pedagógica, pudemos atualizar nossos conhecimentos e, além disso, constituir as aulas de Educação Física como espaços de construções coletivas, exigindo um processo de implicação dos praticantes envolvidos. Com o intuito de conhecer novas atividades e ampliar nossos repertórios, começamos, a partir daquele cartaz, a dar ênfase às atividades que menos conhecíamos, buscando percebê-las com base na explanação dos próprios alunos. Cada criança deveria escolher uma atividade presente no cartaz e explicá-la, com o objetivo de ser vivenciada pela turma, conforme demonstra o trecho do diário de campo:
Ao final da aula, a professora fez as seguintes colocações: ‘Como o grupo é muito grande, tivemos que fazer adaptações.[...] conseguimos fazer o jogo usando os números para identificá-los [...]. Agora a gente pode pensar outras possibilidades, por exemplo: o que pode acontecer com quem conseguir segurar a bola? E quando for queimado? Podemos criar outras coisas, para além das próprias regras do jogo original, para ir adequando.
O uso das tarefas coletivas remeteu a um maior envolvimento e compromisso por parte das crianças, com as experiências produzidas durante o desenvolvimento do projeto e da pesquisa. Entretanto, algumas meninas apresentaram uma postura de resistência em relação ao espaço-tempo da aula de Educação Física, como nos mostra o fragmento do diário de campo:
[...] a professora [...] distribui uma tarefa específica ao entender que as meninas não haviam colaborado com a aula passada: ‘As pessoas que receberam essa fichinha, é para fazer um texto, pensando no que aconteceu na última aula: Hoje estou sem Educação Física porque... E nós [referindo-se ao restante da turma] vamos sair’. As meninas, exceto uma delas, não fizeram a tarefa pedida. Confeccionaram, na verdade, mensagens que desafiavam a professora [...] diziam que a odiavam [...] e que nunca iriam gostar dela.
O comportamento de resistência astuciosa apresentado pelas alunas gerou impaciência e frustração. Porém, diante de tal situação, começamos a questionar os alunos sobre suas diferenças e o respeito ao outro, focalizando nosso fazer no trato com as questões dos valores e atitudes. Foram planejadas e desenvolvidas diversas situações intencionando potencializar a capacidade de agir cooperativamente. A forma a que nos referimos implicou inserir os alunos nas atividades, privilegiando princípios democráticos, de maneira que eles pudessem participar de forma ativa e propositiva nas aulas.
A partir da listagem de jogos e brincadeiras sugeridos pela turma, executamos uma sequência de cinco atividades: mamãe e os lobos, guerra dos mundos, o rato e o gavião, cai no poço e pique-bandeira. Nessas aulas, os alunos, primeiramente, explanavam a atividade proposta, enquanto os demais prestavam atenção às suas devidas recomendações. Após introduzidas as informações e as condições básicas, a atividade era iniciada e acompanhada de possíveis reflexões e reconstruções. Essa foi uma dinâmica constante nas aulas.
Após a primeira sondagem, organizamos mais duas pesquisas com a turma. A primeira objetivou o resgate dos jogos e brincadeiras vivenciados pelos adultos em suas infâncias, provocando o diálogo com outras gerações de sua família e, por sua vez, demonstrando, assim como na obra de Bruegel, (des)continuidades das práticas corporais.
Na segunda pesquisa, fomos à biblioteca para que a turma pesquisasse nos livros ou em outros materiais impressos. Formaram-se grupos de quatro componentes, que receberam instruções para selecionar duas brincadeiras, que deveriam ser explicadas em forma de redação.
Com essas tarefas iniciais, sistematizamos a continuidade no trato com o conteúdo, fazendo relações entre as obras de arte. A partir da leitura dos textos de Carvalho, França, Rosa e Kishimoto, com a professora, identificamos a conceituação de jogo, brinquedo e brincadeira e suas implicações para o ensino, bem como a necessidade da construção de um segundo cartaz que materializasse os dados coletados nas pesquisas com os alunos, como mostram os extratos do diário de campo.
Mas não sei se eu faço com eles um quadro. Por exemplo, boneca: boneca é o quê? É uma brincadeira com o quê? Com material? Com o corpo? Tentar ver se a gente consegue chegar a algo nesse sentido. Tenho medo da dinâmica do cartaz ficar muito demorada. Melhor trazer delimitadas as categorias e promover uma maior reflexão em cima das brincadeiras.
Discussões interessantes surgiram entre as crianças, como: ‘Queimada é só com o corpo? Precisa de mais alguma coisa? Precisa de bola!’. Durante as discussões a professora [...] fez intervenções para explicar melhor a dinâmica das mesmas.
Nesse contexto, o conteúdo jogos e brincadeiras foi categorizado em:
a) Brincadeiras com brinquedos;
b) Brincadeiras com o corpo; e
c) Brincadeiras com materiais.
Nos espaços-tempos de planejamento com a professora, passamos a discutir as possibilidades que o conteúdo jogos e brincadeiras trazem para as aulas de Educação Física.
Com base em Ferreira, vimos que, quando a criança brinca, amplia a sua capacidade corporal, a percepção, a relação com o outro, descobre o mundo e conhece leis e regras. Tornar o jogo objeto de intervenção nas aulas de Educação Física é uma forma profícua de assumir outra racionalidade para esse espaço-tempo, que associa interesses e necessidades das crianças para favorecer o desenvolvimento de diversas linguagens presentes na escola.
Vygotsky argumenta que o brincar se configura como uma atividade humana criadora, na qual imaginação, fantasia e realidade interagem na produção de novas possibilidades de interpretação, de expressão e de ação pelas crianças, assim como de novas formas de construir relações sociais com outros sujeitos.
De acordo com Borba, o brincar e o jogar são espaços de apropriação e constituição, pelas crianças, de conhecimentos e habilidades no âmbito das práticas corporais, da linguagem, da cognição, dos valores e da sociabilidade.
Esses conhecimentos se tecem nas narrativas do dia a dia, constituindo os sujeitos e a base para muitas aprendizagens e situações em que é necessário o distanciamento da realidade cotidiana, o pensar sobre o mundo e interpretá-lo de novas formas. Ao brincar e jogar, as crianças vão se constituindo como sujeitos de sua experiência social, organizando com autonomia suas ações e interações, elaborando planos e formas de ações conjuntas, criando regras de convivência social e de participação nas brincadeiras.
O trato com a brincadeira e o jogo seria uma possibilidade de compreender a criança como sujeito que produz histórias e culturas com linguagem própria, a infantil, indo além da capacidade de visualizá-la apenas como aluno.