Pedagogia empreendedora
Empreendedorismo
1 Pedagogia empreendedora:
Empreendedorismo é a capacidade de transformar projetos ou sonhos em realidade em qualquer domínio da atividade humana. Assim, uma pessoa pode ser empreendedora articulando mudanças nas relações de uma sociedade ou organização, planejando mudanças e implementando ações para ampliar a capacidade produtiva de uma empresa familiar, atuando na abertura de um negócio próprio, construindo uma carreira no setor privado, agindo no campo das políticas públicas ou dedicando-se a uma causa no terceiro setor.
Os sonhos e a capacidade de ser ativo frente aos projetos idealizados fazem com que o empreendedor se diferencie dentro da sua comunidade, porque ele começará a buscar alternativas para torná-los realidade. A capacidade de produzir mudanças em si e no meio ambiente, o estilo de vida, a visão de mundo, a reação frente às dificuldades, a percepção e o aproveitamento das oportunidades, a inovação e o protagonismo influenciam positivamente a realização do projeto de vida. No entanto, há duas questões que precisam ser consideradas: a primeira é que as condições de vida e oportunidades interferem tanto na projeção como na realização dos sonhos, e a segunda é a possibilidade de se formar empreendedores através da educação, a qual vem sendo denominada Pedagogia Empreendedora. Dentre as estratégias de inovação que devem estar presentes na pedagogia empreendedora, destacam-se aquelas que mais colaboram para os desenvolvimentos pessoal, social, intelectual e profissional e que precisam ser estimuladas durante toda a vida escolar, pois abrem espaço para que os jovens idealizem seu futuro, conheçam o meio em que vivem e criem estratégias de ação.
Neste capítulo, os jovens conhecerão as características empreendedoras e serão estimulados a desenvolvê-las, tendo como base as novas concepções de empreendedorismo que possibilitam empreender em diferentes setores e de diferentes formas. Pretende-se, com isso, que os jovens percebam que podem empreender inovando nas empresas em que trabalham, nas comunidades em que vivem, no setor público ou abrindo uma empresa. Para isso, necessitam relacionar seus sonhos com o trabalho que realizam ou querem realizar, de tal forma que não separem seus projetos de futuro da atividade laboral.
Empreendedorismo e qualidades empreendedoras:
Educador, uma pedagogia empreendedora baseiase muito mais na criação de estratégias didáticas que potencializem a participação ativa dos jovens do que na apresentação inicial de conceitos e técnicas. Isso significa que, antes de sistematizar os conhecimentos, é fundamental garantir que todos se aventurem a buscar respostas, tecer hipóteses e testar idéias, o que implica em mantê-los atentos ao que acontece no entorno dos lugares onde vivem, além de incentiválos, permanentemente, a expressarem seus sonhos e a forma como imaginam que poderão realizá-los.
O empreendedor tem um lugar projetado no futuro. A capacidade de sonhar, certamente, é a principal qualidade do empreendedor. Em outras palavras, a capacidade de sonhar e formular modos de realizar o sonho constitui-se em projetar o futuro e os meios de satisfação dos desejos, ou seja, transformá-los em objetivos a serem alcançados durante a caminhada. Entretanto, o lugar no futuro e a forma como cada pessoa sonha ou se relaciona com os objetivos que traçou para si dependem das experiências de vida, oportunidades, valores, escolhas.
Inicie a aula expondo aos jovens os objetivos do caderno e lembrando-os de que a participação deles dará à formação um caráter dinâmico e inovador, pois cada grupo tem experiências e projetos distintos, o que interfere na realização das atividades e dá a direção desejada. Explique que não terão aulas “sobre” empreendedorismo, mas “construirão” aulas coletivamente ao se empenharem na busca de respostas para as suas perguntas, na produção de estratégias para realizarem suas próprias iniciativas, contando com desafios e problema tizações que serão propostos por você para resolver situações-problema trazidas por eles. Proponha que comecem o trabalho com um exercício oral e anote no quadro as seguintes questões:
O que é empreendedorismo?
Qualidades de um empreendedor?
Empreendedores?
O que eles fazem?
No fim do século XVII, empreender era a firme resolução de fazer qualquer coisa. No século XIX e início do século XX, o termo designava os grandes capitães da indústria, tais como Ford nos EUA, Peugeot na França, Toyota no Japão. Atualmente, significa a atividade de toda pessoa que está na base de uma empresa, desde o franqueado, um dono de oficina mecânica, até aquele que criou e desenvolveu uma multinacional (Dolabela, 1999a/b, p. 67).
Registre as respostas sem intervir nas idéias que surgirem, deixando que o grupo expresse o maior número de alternativas possível, administrando apenas o tempo do exercício e garantindo a participação de todos que desejarem se manifestar. A seguir, apresente a tabela, que pode ser construída em um painel de papel pardo, e peça que os jovens respondam com “sim” ou “não”. De acordo com as respostas, faça um x na coluna correspondente, de modo que todos visualizem a quantidade de respostas afirmativas ou negativas para cada item. Deixe algumas linhas em branco, para sugerir que podem incluir outras características, e afixe numa parede da sala de aula.
Educador, provavelmente, os jovens queiram a confirmação de suas respostas. Diga-lhes que, neste momento, o que importa são as idéias que eles têm e, no decorrer do trabalho, terão oportunidade de confirmar o que expressaram.
Espera-se que os jovens respondam não ao item 1 e sim a todos os demais, e que se apercebam que “sempre dá certo em tudo que faz” é incoerente em relação ao item 8. Se isso não ocorrer de imediato, não se precipite, pois é importante que o grupo possa reconhecer isso em outros momentos.
Peça aos jovens que analisem as respostas que deram na 3ª coluna do primeiro exercício, comparando com o resultado dos registros no painel. Pergunte se desejam trocar ou incluir novos empreendedores. Este movimento é importante à medida que permite que os jovens revejam suas percepções e avancem com autonomia na direção de novos entendimentos.
Divida a turma em cinco grupos, usando a estratégia da proximidade em que se encontram, de modo a agilizar a sua formação. Projete as perguntas-guia e solicite que discutam, criem consensos e depois façam os registros que desejarem. Enfatize que os registros individuais das considerações do grupo serão utilizados no próximo exercício.
Solicite que, antes de buscarem respostas, analisem as questões a partir de vários ângulos e busquem encontrar uma saída coletiva. Se não houver consenso, sugira que registrem o pensamento do grupo e o individual, para que possam argumentar, em momento oportuno, sobre o motivo das discordâncias.
Educador, embora as questões para debate estejam formuladas como perguntas, não há necessidade de construir respostas individualizadas. É preferível que os grupos descrevam a forma como imaginam a sociedade do futuro mediados pelas perguntas-guia.
2 Pensando sobre a sociedade do futuro:
O que acontecerá se não pensarmos no futuro, se não fizermos planos, se não mudarmos a direção de nossos atos? Ao identificarmos, no presente, a sociedade com a qual sonhamos para um futuro próximo, é possível detalhar as ações que conduzirão à realização de nossos planos, aprofundando os assuntos que já conhecemos ou que nos interessam mais de perto. Mas, para elaborarmos planos, é necessário que pensemos a respeito do que queremos, dos nossos sonhos.
- Para onde caminha nossa sociedade? Como ela será no futuro? Será a sociedade do ser ou a sociedade do ter? O que as pessoas possuirão? Qual será o papel das famílias, do estudo, das idéias, do pensamento social?
- Como o trabalho será organizado? Vamos seguir a tendência atual, com cada vez menos empregos estáveis, aumento do trabalho autônomo e do setor de serviços? As novas leis facilitarão a ampliação do emprego formal com a legalização de micro e pequenas empresas?
- Qual será o papel do lazer? O que as pessoas farão como lazer e que tempo reservarão para ele?
- Qual será a influência das mídias: televisão, rádio, cinema, jornal, livros, redes de computador? Quais serão os conteúdos veiculados pelas mídias? Que tipo de propagandas, programas de televisão serão aceitos pelos consumidores?
- A rapidez do ritmo de mudanças vai continuar, diminuir ou acelerar? A que mudanças deverá adaptar-se uma pessoa habituada nos tempos atuais?
- Qual será a situação ambiental do planeta? As pessoas se envolverão com a sustentabilidade ou continuarão com os hábitos que têm hoje?
- Haverá ainda conflitos raciais, discriminação e desrespeito aos direitos humanos? A violência diminuirá?
Passados os trinta minutos planejados para a realização do exercício, solicite que os grupos se desfaçam e os jovens retomem seus lugares, mesmo que alguns não tenham finalizado o debate ou os registros.
Uma coisa é certa: a tese de que o empreendedorismo é fruto de herança genética não é mais relevante nos meios científicos, onde a preocupação maior não é a existência ou não de uma possível hereditariedade, mas sim, saber se é possível aprender a ser empreendedor. As conclusões a esse respeito são afirmativas, mas o ensino deve seguir uma metodologia própria, bastante diferente da utilizada no ensino tradicional (Dolabela, 1999a/b, p. 68-69.)
Educador, prepare, com antecedência, cópias para todos os jovens dos próximos exercícios, de modo que, ao retornarem para seus lugares, recebam a folha com as questões individuais.
Educador, deixe que os jovens leiam as perguntasguia individualmente e só interfira se for solicitado, evitando dar explicações coletivas que desviem a atenção e conduzam a respostas semelhantes, já que, neste momento, é fundamental que utilizem a construção coletiva dos projetos de futuro da sociedade que almejam para projetar sua vida pessoal.
3 Olhar empreendedor, a visão da oportunidade:
A pedagogia empreendedora estimula a relação entre o sonho e a forma de realização, impulsiona os jovens para a busca de seus projetos pessoais, sociais e profissionais, instrumentaliza a realização dos sonhos através da aprendizagem, favorece a construção de competências para a percepção do sonho e a compreensão das necessidades e limites, auxilia o planejamento de ações viáveis num espaço e tempo determinados.
Leitura coletiva:
Projete o quadro a seguir e proponha aos jovens que realizem uma leitura comentada, de modo a estimular que se questionem sobre a concepção convencional de empreendedorismo, ou seja, de que, para ser empreendedor, é preciso abrir um negócio e ter sucesso com ele.
Educador, o quadro apresenta uma comparação entre o olhar convencional e o olhar empreendedor, com o objetivo de possibilitar a visualização das características que se deseja desenvolver na sociedade em geral e, em especial, nos jovens que se preparam para ingressar no mundo do trabalho.
Problematize o olhar empreendedor e procure exemplificar cada uma das afirmativas. No caso da compreensão de que qualquer pessoa pode aprender a ser empreendedora, refira que, em famílias que têm práticas empreendedoras (têm planos de futuro, se organizam e buscam estratégias para realizar seus sonhos, procuram informações que possam ampliar os conhecimentos necessários, planejam e avaliam resultados, etc.), é muito mais comum que existam jovens com as mesmas características, pois aprendem a correr atrás daquilo que desejam e percebem as oportunidades que aparecem.
O mesmo ocorre em sociedades que costumam projetar o seu futuro e planejar formas de realizá-lo, pois não ficam esperando que alguém de fora venha resolver seus problemas, ao contrário, identificam que setores devem ser acionados e exigem o cumprimento de suas obrigações, criando as condições necessárias para realizarem seus objetivos. Comente também a afirmativa de que o olhar convencional preocupa-se com o crescimento econômico, enquanto o olhar empreendedor considera o desenvolvimento humano e social sustentável. Há diferença entre crescimento econômico e desenvolvimento humano e social sustentável, porque o primeiro (crescimento econômico) não garante distribuição de renda. Experiências recentes no Brasil demonstram que, apesar do aumento do PIB e da renda per capita, a renda ficou ainda mais concentrada e houve aprofundamento da desigualdade social. Numa concepção moderna do que seja desenvolvimento, só é possível falar nele se for humano e socialmente sustentável, e quando melhorar as condições de vida da população e elas tiverem acesso ao conhecimento, à riqueza e ao poder.
Segundo Franco (2001), para desencadear um processo de promoção de desenvolvimento, é preciso criar um ambiente favorável para que ele aconteça. Do ponto de vista do desenvolvimento humano e social sustentável, criar ambiente favorável é investir em capital humano (sobretudo no empreendedorismo) e em capital social (capacidade da sociedade de cooperar, formar redes, regular seus conflitos democraticamente). Sem empreendedorismo e sem a base de confiança fornecida pela cooperação, torna-se muito difícil promover o desenvolvimento, a exemplo de numerosas evidências registradas em todas as partes do mundo.
Trabalho em grupo:
Educador, faça cópias do exercício para todos os jovens com antecedência.
Empreendedorismo e protagonismo, vistos como práticas comprometidas com a realização de sonhos coletivos, resultam da auto-estima, autovalorização, autoconfiança, criatividade, cooperação e convivência democrática, e viabilizam a identificação de oportunidades.
Forme cinco grupos conforme critério sugerido na aula anterior (procure agrupá-los de modo a reunir jovens com diferentes competências e estágios de desenvolvimento). Distribua os exercícios e solicite que façam a leitura do documento inteiro antes de iniciarem a atividade. Oriente-os para que contem com dez minutos para registrar os sonhos e o restante do tempo para debater as questões propostas. Lembre-os que precisarão controlar o tempo, ou combine que avisará quando esgotarem os dez minutos iniciais e o tempo final.
Um olhar empreendedor:
O empreendedor é uma pessoa comum (brasileiro ou de outra nacionalidade) que se diferencia das demais porque persegue a idéia de melhorar de vida e crê na importância de seu esforço. O empreendedor, na maioria das vezes, é mais inquieto do que as outras pessoas e está sempre atento às oportunidades que aparecem para iniciar uma atividade que lhe dará prazer ao realizá-la. Vê suas idéias sempre aliadas à satisfação pessoal e à possibilidade de realizar seus sonhos mais desejados. Um empreendedor é alguém que sonha com um futuro melhor e que tece planos para conseguir alcançar esse futuro.
O empreendedor persegue um sonho. Esta é, com certeza, sua principal qualidade, a capacidade de sonhar e de projetar o futuro. Esse sonho – ou sonhos – e a capacidade de ser ativo frente aos projetos idealizados fazem do empreendedor uma pessoa diferente, porque ele começa a trabalhar para transformá-lo em realidade. E quando os sonhos começam a ser postos em prática, viabilizam os projetos de vida.
O empreendedor tem um modelo que o influencia (uma fonte de inspiração), tem energia para ocupar espaços, compromete-se com o processo e não apenas espera o resultado, visualiza resultados inovadores, foge dos padrões e investe em experiências diferentes das convencionais. Adaptado de: Dolabela, 1999b. Quais são seus sonhos? Escrevam, no quadro abaixo, quatro sonhos que vocês gostariam de realizar. Não importa se alguns poderiam ser realizados logo e outros levariam mais tempo. Importa é que sejam sonhos que vocês gostariam de transformar em realidade. Não esqueçam que precisam ser sonhos pessoais! Este é um exercício coletivo, onde cada jovem do grupo deve colaborar com um sonho pessoal. Lembrem que cada um já escolheu e apresentou ao grande grupo o seu sonho e este é um momento em que poderão resgatá-lo, mas quem preferir pode escrever outro, pois talvez os exercícios e reflexões que estão fazendo já tenham influenciado a forma de detectar sonhos relacionados com o futuro que desejam.
Analisem os sonhos que priorizaram e pensem: Nossos sonhos se localizam na mesma área ou setor? Algumas atividades poderiam ser realizadas em conjunto? Como cada um de nós poderia cooperar com o sonho dos outros? O que devemos aprender para colocá-los em prática? Quem poderia ajudar? São viáveis a curto prazo? Que investimentos seriam necessários? Como poderíamos conseguir os recursos?
Uma atividade interessante é solicitar que os jovens realizem uma tarefa de campo. Peça que procurem identificar, nas comunidades ou bairros onde moram, atividades ou atitudes empreendedoras, independente do lugar onde acontecem. Lembre-os que já citaram, na primeira aula, algumas pessoas e sugira que analisem novamente os exemplos que deram e confirmem se podem ser mesmo considerados empreendedores.
4 Para além da empresa, empreender nos três setores:
Educador, os exercícios propostos abrem espaço para a realização do potencial empreendedor, porque, ao identificar questões que merecem ser tratadas ou enfrentadas, ao planejar a forma de realizar o enfrentamento, ao realizar as ações planejadas e avaliar seus resultados, os jovens adquirem a capacidade de analisar crítica e criativamente oportunidades que envolvam o seu futuro.
A educação empreendedora estimula o protagonismo, à medida que as pessoas constroem de si a imagem de que são capazes de promover o seu desenvolvimento através da cooperação, do trabalho conjunto e das relações horizontais (não-hierárquicas), aliadas ao conhecimento e ao desenvolvimento de competências exigidas na atualidade, como é o caso da leitura, escrita, interpretação, resolução de problemas de um lado e, de outro, a capacidade de trabalhar e decidir em grupo, de influenciar políticas públicas, de formar redes e estabelecer parcerias, de cooperar com o coletivo e se associar para produzir.
O termo empreendedor cívico foi criado por José Nasser e Eduy Ferro, do Instituto de Desenvolvimento do Paraná. O termo empreendedor social é utilizado por Bill Dryton, criador da ONG Ashoca. O termo empreendedor coletivo é utilizado por Fernando Dolabela e, embora as definições se assemelhem, o autor considera que o empreendedor social trabalha com as conseqüências e o coletivo com as causas.
Forme quatro grupos e projete, em lâmina, o quadro com a síntese das características de um empreendedor. Contextualize as cinco afirmativas, tendo como referência as idéias surgidas em outras aulas e exercícios. Peça que os jovens exemplifiquem trazendo histórias conhecidas, podem ser familiares ou do lugar onde vivem.
Características do empreendedor:
1 O empreendedor não desiste facilmente, encara os obstáculos como desafios que podem ser vencidos e persiste na busca dos objetivos.
2 O empreendedor acredita no seu sonho e na capacidade das pessoas para alcançarem seus objetivos.
3 O empreendedor sabe o que quer e quando quer muitas coisas ao mesmo tempo, sabe escolher por onde começar a agir.
4 O empreendedor “veste a camisa” e se dedica com afinco ao seu sonho.
5 O empreendedor reconhece as oportunidades porque tem clareza dos objetivos, estabelece suas metas e procura conhecer ao máximo a realidade com a qual está lidando.
A seguir, distribua os textos para os grupos e solicite que façam uma leitura comentada, relacionando as idéias com os diferentes tipos de empreendedorismo e as práticas que podem ser realizadas nos três setores.
Aumentar a capacidade de empreender dos jovens, assim como de suas famílias e comunidades, é fundamental, uma vez que o resultado do empreendedorismo dos jovens necessita ser acolhido, incentivado e valorizado como iniciativa capaz de ser viabilizada de forma duradoura. Comunidades empreendedoras fazem diferença na vida dos jovens.
Empreender em diferentes setores:
Empreendedor cívico: Muitas pessoas sonham com o seu desenvolvimento e o de suas comunidades. Dentre elas, há as que transformam seus sonhos em realidade. Algumas o fazem dedicando-se à vida pública, outras a atividades privadas e ainda outras atuando em organizações do chamado terceiro setor. Como políticos, empresários ou membros de organizações da sociedade civil, essas pessoas criam, no meio em que atuam, caminhos novos para realizar suas visões. São as pessoas empreendedoras. Implementando políticas públicas inovadoras, gerando riqueza e renda ou realizando atividades sociais, elas promovem o desenvolvimento nos terrenos específicos de suas vocações. No entanto, há entre essas pessoas algumas que formam um subgrupo especial: além do que é próprio de suas áreas, elas exercem a ação empreendedora também nas conexões com as outras. São os empreendedores cívicos.
O empreendedor cívico é um tecelão: conecta e entrelaça os fios das diversas vertentes da vida comunitária, tecendo a rede social que promove o desenvolvimento. Ele não se satisfaz em fazer, reúne fazedores, ajuda-os a descobrir suas convergências e estimula-os a cooperar. Faz e faz fazer. É um agitador cultural: mobiliza mentes e corações para a mudança de cultura que transforma dependência em autonomia, “grupismo” em pluralismo e dissensão em cooperação. É um cidadão: parlamentar, magistrado, gestor público, empresário, trabalhador, executivo, técnico, líder classista, voluntário social ou estudante, pertencente a qualquer classe social, desempenhando qualquer profissão, homem ou mulher, na essência, ele não se liga em cargos, mas em encargos.
Mulheres e homens de todas as classes sociais, das mais diversas profissões e ocupações, estão agindo como empreendedores cívicos em todo o país. De norte a sul, de leste a oeste do território nacional, brotam iniciativas de civismo empreendedor. Em alguns lugares, são governantes que deixam de lado os ritos do poder e se investem da condição de cidadãos para conviver com outros cidadãos nas lides da cooperação [...]; noutros, são empresários ou trabalhadores que, transcendendo seus papéis na produção, assumem as funções de articuladores comunitários; e noutros ainda, são representantes de organizações da sociedade civil que transpõem os limites de suas corporações para tratar de interesses do conjunto da sociedade. São fatos animadores, mas ainda insuficientes. O Brasil precisa de mais e mais cidadãos desse tipo.
Empreendedorismo interno na micro e pequena empresa:
Estabelecido como conceito há cerca de duas décadas, o intra-empreendedorismo não decolou, principalmente porque as empresas não estavam dispostas a dar aos empregados a liberdade para criar (e, conseqüentemente, errar) e oferecer-Ihes um orçamento para financiar a inovação. Além disso, não queriam arcar com os custos dos erros que, inevitavelmente, acontecem neste percurso. Não que os executivos e proprietários agora estejam dispostos a partilhar o seu poder: esta será a única saída. Muitas empresas fingem ignorá-Ia, mas, se quiserem continuar competindo, terão de dar espaço aos empreendedores internos. Mas qual é o entendimento que se tem do intra-empreendedorismo? O conceito foi concebido por consultores suecos nos anos 1970. Ao perceberem que boas idéias geradas pelos empregados não eram aproveitadas, eles se propuseram a desistir dos sistemas de controle e a começar a investir nas pessoas e estimular que assumissem riscos e implementassem inovações. Hoje, o intra-empreendedorismo utiliza-se das conquistas das pesquisas relativas à atividade empreendedora. Entende-se que o empregado inovador se comporta de forma semelhante ao empreendedor proprietário, ou seja, alguém capaz de oferecer novos valores ao cliente. Mas a prática demonstra que, para ter empregados empreendedores, ou intra-empreendedores, as empresas precisam, elas próprias, serem empreendedoras. Não adianta contratar funcionários empreendedores sem que tenham criado uma cultura interna para recebê-los.
Por isso, os hoje raros e valiosos profissionais que se prepararam para ser empreendedores internos devem, no processo de seleção, pedir o currículo da empresa candidata. Se ela não provar que tem as condições e competência para oferecer liberdade para a criatividade e para a expansão da sua personalidade, a solução é jogar o currículo no lixo e chamar a próxima.
O empreendedor coletivo:
Diz-se que o empreendedor coletivo “tenta provocar mudanças que conduzam à sustentabilidade, à auto-suficiência, ou seja, tenta tornar dinâmicas as potencialidades da comunidade, criando condições para que seus habitantes sejam protagonistas, através de redes de cooperação internas e externas, na construção de seu próprio desenvolvimento” (Dolabela, 2001, p. 108). Nesse sentido, interfere diretamente na sociedade através de propostas reais, provocando e inspirando mudanças nas relações sociais ao seu redor. Geralmente, as propostas geram novos grupos, iniciativas, projetos, metodologias, organizações sociais (associações, ONGs, cooperativas, clubes de mães, grêmios), seja para sensibilizar a comunidade a se responsabilizar pelo seu destino, seja para influenciar assuntos que dizem respeito à família, escola, bairro, cultura local, meio ambiente, desenvolvimento, geração de ocupação e renda, etc. Pelo seu temperamento contestador de padrões previamente estabelecidos, por suas inquietudes, capacidade criativa e ânimo para promover transformações, os empreendedores sociais contribuem para “mudanças” nas relações sociais. Dentre as ações mais comuns pode-se citar:
- A sensibilização das lideranças para a importância da cooperação;
- A mobilização das pessoas para a participação em eventos que beneficiem a todos e não somente naqueles que dizem respeito aos interesses individuais;
- O incentivo ao diálogo entre os vários setores da comunidade;
- O estímulo à criação de fóruns democráticos para debater sobre os interesses e problemas da comunidade;
- O estímulo para que a comunidade conheça suas potencialidades e indique suas prioridades; A criação de condições para que a comunidade construa coletivamente sua visão de futuro e se comprometa com ela;
- A busca do consenso, da colaboração, da prática democrática. Desenvolver competências empreendedoras através da educação pode colaborar para a geração de atitudes que beneficiem mais as coletividades do que as individualidades. Portanto, a prática empreendedora dos jovens nos bairros ou comunidades onde moram pode estimular a cooperação entre os diversos setores sociais e auxiliar a identificação e solução dos problemas que afetam a qualidade de vida, dentre eles a falta de oportunidade para o ingresso no mundo do trabalho com a alegação da falta de experiência.
Gestão pública empreendedora:
A grande mudança é deslocar o foco da preocupação, obedecer a regras em compartimentos estanques e estabelecer o processo inverso, assumindo uma postura mais empreendedora. Empreender, aqui, significa identificar o que precisa ser feito e, depois, subordinar a organização, a estruturação, a normatização, o conhecimento, a qualificação e o arranjo de pessoas em equipes na busca do resultado. De modo concomitante a esse processo de mudança, o gestor público deverá recorrer a um conjunto de princípios e ferramentas: construção de parcerias, trabalho em rede, diálogo com a sociedade, acesso à informação, avaliação permanente, autonomia e responsabilização, simplificação dos processos e confiança. Ser empreendedor no governo não é uma questão de recursos, é uma questão de atitude. É ser capaz de fazer mais e melhor com os mesmos recursos, de encontrar fontes alternativas para o financiamento de projetos e idéias. Também está associado à necessidade de aumentar os compromissos com a eficiência e eficácia do gasto público. Ser empreendedor no governo é sentir-se desconfortável com normas ou procedimentos que emperram os serviços e dificultam a melhoria da qualidade das políticas governamentais. É saber trabalhar de forma articulada com outros setores para minimizar os prejuízos associados à burocracia, que geralmente é morosa e ineficiente. É saber delegar poder e cobrar resultados.
Principalmente, é saber que empreender é tentar realizar o sonho, e que, por isso mesmo, o sonho vai ter que ser discutido, revisado, ajustado, melhorado, até que se converta em uma melhoria concreta para a sociedade.
Possuir as qualidades de um empreendedor é um ótimo começo. Mas é fundamental trabalhar essas qualidades para se tornar um empreendedor preparado. A educação participativa antecipa a vivência da experiência democrática, cria condições para que as iniciativas individuais e coletivas sejam analisadas e validadas pelo grupo, permite que boas idéias sejam compartilhadas e colaborem para o aumento da criatividade, incentiva a realização dos sonhos, apóia a inovação e valoriza os conhecimentos que tenham significado para o contexto social em que se realiza. A pedagogia empreendedora é possível quando está apoiada em uma educação participativa, onde a aprendizagem é vista como direito e condição para a melhoria das circunstâncias de vida.
Trabalho em grupo:
Entregue aos grupos o desafio que deverão solucionar, recomendando que considerem o perfil empreendedor que vem sendo construído ao longo das atividades e se apóiem nas diferentes concepções de empreendedorismo tratadas até esta aula.
Espera-se que os jovens gerem idéias que possam ser executadas em todos os setores e denotem que a prática empreendedora pode estar presente em todas as atividades, conforme leram nos textos-referência.
Desafio:
Soluções empreendedoras: Desde o início da unidade, estamos construindo coletivamente as características empreendedoras, identificando práticas que buscam realizar sonhos, gerando idéias que precisam vir acompanhadas de ações que as viabilizem, entre outras questões que envolvem a visão projetada no futuro. Mas nem sempre é fácil transformar idéias em bens ou serviços que nos projetem para o futuro que planejamos, porque há outras pessoas envolvidas. O público ou consumidor-alvo tem demandas que precisam ser atendidas. Os quadros a seguir apresentam características e situações-problema que demandam soluções empreendedoras. Pensem em possíveis soluções, recorrendo aos textos lidos sempre que necessário.
Educador, todos os exercícios têm o objetivo de mexer com várias alternativas e áreas onde se localizam os sonhos. À medida que realizações ou produtos passam à esfera do atendimento ao interesse de outros, é possível que os jovens detectem a importância de projetarem seu futuro inserido em determinados contextos e relacionado com diferentes coletividades, pois, conforme já se disse em outros momentos, o empreendedor é um cidadão que não deseja atender apenas aspectos individuais, mas principalmente provocar mudanças no ambiente em que vive
Apresentação em grande grupo:
Convide os grupos a apresentarem seu trabalho, propondo que, primeiramente, digam a qual ambiente ou característica se refere a solução que planejaram, seguido do setor e argumentação das escolhas feitas pelo grupo. Pergunte se algumas das alternativas têm relação com os sonhos que projetaram em momentos anteriores e se pensaram sobre o que envolverá a aplicação das idéias. Lembre-os dos elementos do processo visionário e reitere a sua importância para os projetos empreendedores. Após as apresentações, fale aos jovens que às competências desenvolvidas pela educação empreendedora deverão ser acrescentadas aquelas específicas requeridas para o exercício de uma ocupação, serviço ou profissão no mundo do trabalho. Dominar a área de atuação, estar informado sobre inovações tecnológicas, trabalhar em equipe, ser capaz de rever processos e práticas, participar de decisões e avaliações, cada vez mais, são considerados requisitos que influenciam a ocupação de postos de trabalho.
É importante sempre lembrar que, na medida em que formos capazes de educar com base na pedagogia empreendedora e de atuarmos para e com os jovens, estaremos contribuindo para a formação das pessoas, dos cidadãos e dos profissionais de que o Brasil necessita para se desenvolver de forma sustentável.
Debate em grande grupo:
Os sonhos individuais devem, necessariamente, contribuir para a construção do coletivo, devem oferecer valor para a sociedade, mesmo que se perceba a sociedade como o conjunto de todos os humanos e do ambiente em que se inserem. Assim, se o sonho de determinada pessoa é a preservação de uma espécie animal não existente em sua comunidade, mesmo assim este sonho está vinculado a objetivos sociais, pois está relacionado com a preservação do equilíbrio ecológico favorável à espécie humana e com princípios éticos de preservação da vida (Dolabela,1999 b).
Não se trata de vincular o espírito empreendedor exclusivamente à atividade de criação de empresas ou geração de auto-emprego. Não se propõe a orientação ou indução para uma determinada atividade, ação, profissão, trabalho. Fala-se em ser empreendedor. Somente isto (Dolabela, 1999a).
Antes de propor o tema do debate, reforce a idéia de que, na atualidade, o empreendedorismo é considerado como atitude que se desenvolve em qualquer lugar e tem como finalidade provocar mudanças nos ambientes familiar, social e profissional. A polêmica que ainda envolve o espaço profissional, quando se trata do gênero feminino, dá ao tema lugar de destaque na formação dos jovens, na expectativa que se construa uma relação mais equânime, sem desconsiderar os traços culturalmente construídos que caracterizam homens e mulheres.
A participação feminina no mercado de trabalho tem aumentado alheia às flutuações da atividade econômica. Algumas razões explicam esse comportamento mais favorável às mulheres do que aos homens, dentre elas o processo de reestruturação produtiva desde os anos 1990 que gerou a redução do emprego industrial. Outros fatores são a expansão do setor de serviços, a maior flexibilização do mercado de trabalho e a precarização das relações de trabalho, com o aumento das ocupações por conta própria e da informalidade em geral . Refira os estudos feitos pelos jovens sobre o novo mundo do trabalho (Organização Industrial e Comercial e de Serviços) e lance a afirmativa abaixo para que os jovens debatam em grande grupo.
As mulheres mostram maior aptidão para atender à nova demanda de mão-de-obra não especializada.
Educador, a intenção do debate é promover a discussão de temas que fazem parte da vida em sociedade e que afetam as relações entre os gêneros no mundo do trabalho, e não se pretende, de nenhuma maneira, estimular o distanciamento entre os jovens e as jovens da turma. Lembre-os que a cooperação, o respeito às diferenças e a convivência democrática são atitudes que dão ao empreendedor o diferencial que possibilita realizar sonhos e beneficiar as coletividades.
Empreendedorismo feminino:
Numa pesquisa sobre empreendedorismo feminino realizada em 1996, por Hisrich, 267 mulheres e 360 homens no norte da Europa, Reino Unido, Irlanda, América do Norte e Austrália responderam a 60 variáveis: 40 compreendendo “Empreendedorismo” e 20 compreendendo “um empreendedor”. As descobertas realizadas atestam que as mulheres geralmente percebem o empreendedorismo mais positivamente que os homens. As variáveis egoísticas, como insolência, egoísmo e dureza, foram consideradas de menor significado para mulheres do que para homens. Em variáveis típicas de Empreendedorismo, como polivalência, inovação, desejo de experimentar, criatividade, eficiência, dedicação ao trabalho e comprometimento, as mulheres conseguiram notas mais altas que os homens.
Cinco fatores foram delineados:
1) Comprometimento no trabalho e energia;
2) Valores econômicos e resultados;
3) Oportunismo e inovação;
4) Fome de sucesso;
5) Empatia e desejo de servir. Nos três primeiros, as mulheres foram mais positivas do que os homens. Quanto aos dois últimos, não foram detectadas diferenças entre os dois grupos.
Os resultados sugerem que as mulheres têm melhor estrutura afetiva para aceitar e apreciar o Empreendedorismo. Na prática, tem-se observado um volume crescente de mulheres empregadoras no mundo e no Brasil.
Para motivar os jovens e dar subsídios ao debate, projete as duas lâminas propostas a seguir. Leia cada um dos quadrinhos e problematize as afirmativas. Se houver tempo e for de interesse dos jovens, sugira que construam quadrinhos semelhantes para descrever características masculinas para enfrentar os desafios do novo mundo do trabalho e que apontem para realizações empreendedoras.
Trabalho individual:
Para incentivar os jovens a pensarem sobre a área de realização de seus sonhos e dar uma visão mais ampla a respeito do que buscam outros jovens para sua vida pessoal e profissional, apresente o gráfico que sintetiza os interesses de grupos pesquisados pelo Instituto de Cidadania, no ano de 2003.
A seguir, escreva no quadro ou projete em lâminas de retroprojetor as seguintes questões:
1 Que projetos eu tenho para minha vida pessoal, social e profissional? Elabore um planejamento para a realização dos projetos desejados em cada uma das esferas de vida: familiar, social, profissional.
2 O que preciso aprender para realizar meus projetos de vida? Identifique e descreva as necessidades de: informação, aprendizado e meios necessários para a realização de cada etapa do planejamento.
3 Como anda minha rede de relações? Indique quem poderá auxiliar a suprir cada uma das necessidades e escreva o porquê.
Conforme Dolabela, ter iniciativa não necessariamente significa ter idéias geniais, ao se falar de empreendimentos, costuma-se lembrar de casos sensacionais, de grandes inovações. Isto inibe o pensamento empreendedor, já que muitas práticas e produtos de sucesso dependem mais da capacidade de observação do empreendedor do que de sua genialidade.
Educador, neste primeiro capítulo, tratou-se de criar as condições para que os jovens se aventurem a pensar sobre o seu futuro e relacioná-lo com suas escolhas pessoais e profissionais. Em razão disso, não se investiu em grandes momentos de socialização ou análise de viabilidade dos sonhos, de modo a não inibir a criatividade e não apostar na comparação entre os jovens. Entretanto, pretendeu-se construir uma nova visão sobre empreendedorismo, de modo a apontar caminhos a serem trilhados por jovens empreendedores.
Encerre a aula sugerindo que os jovens façam, extraclasse, o exercício que segue, a título de revisão de capítulo. Se desejar, utilize-o como elemento de avaliação.
5 Ambientes Empreendedores:
Ambientes empreendedores potencializam o desenvolvimento da capacidade empreendedora de uma sociedade. Os resultados com os quais se convive influenciam a imagem que cada um faz de si, a percepção da competência para empreender mudanças e o sucesso nas iniciativas. Os ambientes empreendedores estimulam a compreensão de que o perfil empreendedor é uma forma de ser aprendido da cultura, da convivência com práticas empreendedoras. Criar situações que valorizem a criatividade e a iniciativa e que ofereçam modelos e práticas empreendedoras são estratégias pedagógicas que valorizam não só o saber, mas principalmente a forma de ser, e podem ser viabilizadas em espaços de distintas naturezas, como é o caso da família, escola, sindicato, empresa, etc. A confiança em si, a iniciativa, a perseverança, a fé nas próprias idéias, a capacidade de reconhecer erros e aprender com eles e a dedicação aos projetos são desenvolvidas ao longo da vida e sua permanência está relacionada com os resultados obtidos nas atividades realizadas nos âmbitos familiar, social e profissional.
Ambientes empreendedores viabilizam o desenvolvimento de competências para o empreendedorismo, já que os processos educativos se dão no coletivo e demandam cooperação e confiança. Portanto, educar jovens empreendedores no âmbito da formação profissional exige que os espaços produtivos (existentes nos três setores) desenvolvam a cultura empreendedora, de modo a acolher trabalhadores que têm idéias e energia para empreender estratégias que alavanquem a realização de projetos pessoais, sociais e profissionais. Formar empreendedores significa também proporcionar que os jovens transitem entre o conhecimento produzido sobre o tema e a construção de estratégias que possam viabilizar a prática empreendedora. Desse modo, os jovens poderão, além de realizar seus projetos de vida, colaborar para a criação e manutenção de ambientes empreendedores.
Educador, ao se estimular ações empreendedoras, qualifica-se os jovens para exercitarem a cooperação e auxilia-se na identificação de oportunidades, planejamento de estratégias de ação e busca de solução para possíveis dificuldades, assim aumenta-se a possibilidade de formar uma nova geração de empreendedores.
Inicie a aula apresentando o conteúdo que será tratado e questionando os jovens sobre o significado do termo cooperação. É possível que a palavra cooperação seja confundida com ajuda, já que, freqüentemente, ela é usada com esta finalidade. Se isso ocorrer, procure diferenciar uma atitude da outra, pois é fundamental que os jovens revejam alguns conceitos. Explique que o tema da cooperação está atrelado ao empreendedorismo, conforme viram na aula anterior.
O que é cooperação? O que significa cooperar?
Pode-se dizer que cooperar significa buscar respostas coletivas para enfrentar questões ou problemas que, sozinhos, não conseguimos resolver e que, muitas vezes, nos impedem de viver melhor. Exige abandonar comodismos, desconfianças, e apostar na força das decisões partilhadas. Cooperar uns com os outros é uma forma de contribuir para a realização de nossos sonhos e projetos de vida.
O que é cultura da cooperação? Como ela se estabelece?
A cultura da cooperação só acontece quando o bem comum e os interesses coletivos estão acima dos benefícios individuais e é prática recorrente em famílias, grupos de amigos, colegas de trabalho, cidadãos de uma sociedade. Não é coisa que se fala de vez em quando, mas atitude que se repete nas diversas situações da vida cotidiana. Isso não significa que não podemos buscar a realização pessoal e profissional, mas que nossos projetos, obrigatoriamente, devem considerar os direitos das coletividades, respeitar as diferenças, promover a solidariedade e levar em conta a sustentabilidade ambiental.
A cultura da cooperação se estabelece quando formas de entender, sentir, decidir e agir possibilitam o compartilhamento de idéias, iniciativas ou resultados. Muitas vezes, na esfera produtiva, os ideais da cooperação fracassam porque não há confiança entre as pessoas e nas instituições.
Leia para os jovens a parábola escrita pelo filósofo escocês David Hume no Século XVIII e peça que procurem lembrar de alguma situação onde a desconfiança impossibilitou a continuidade de uma relação ou a realização de projetos que eram comuns.
– Teu milho está maduro hoje. O meu estará amanhã. É vantajoso para nós dois que eu te ajude a colhê-lo hoje e que tu me ajudes amanhã.
– Não tenho amizade por ti e sei que também não tens por mim. Portanto, não farei nenhum esforço em teu favor. Sei que, se eu te ajudar, esperando alguma retribuição, certamente me decepcionarei, pois não poderei contar com tua gratidão. Então, deixo de ajudar-te e tu me pagas com a mesma moeda. As estações mudam. E nós perdemos parte de nossas colheitas por falta de confiança mútua.
(Citado em: Putnam, 2000).
A seguir, proponha que os jovens procurem lembrar de situações onde tiveram uma atitude cooperativa e outra em que se basearam em pensamentos semelhantes ao descrito na parábola que acabaram de ouvir. Dê ênfase ao fato de que é a atitude que define a forma como cada um se posiciona frente às situações de vida, sejam pessoais ou profissionais. Cada posicionamento pode expressar uma atitude cooperativa ou competitiva, que busca beneficiar o indivíduo mesmo que cause prejuízos a outras pessoas, às coletividades ou ao meio ambiente.
Trabalho em duplas:
Solicite que os jovens se organizem em duplas e projete o quadro abaixo utilizando o retroprojetor ou datashow.
Educador, informe aos jovens que eles terão vinte minutos e procure realizar o exercício no tempo previsto, de modo que ele seja breve e prepare os jovens para tratar das duas atitudes nos ambientes organizacionais, visto que, muitas vezes, é possível cooperar para competir, unindo esforços e buscando realizar em conjunto objetivos comuns. Para isso, é importante priorizar o diálogo e a negociação.
Chamamos de “cooperar para competir” quando pensamos em competir com maiores possibilidades num mercado cada dia mais exigente. Sob este ponto de vista, nossos concorrentes imediatos tornam-se parceiros. Juntos ficamos mais fortes e podemos ir mais longe. Cooperar é essencial para crescer. A cultura da cooperação nos ajuda a criar empreendimentos coletivos: realizações maiores, conquistas praticamente impossíveis de alcançar por outros meios. O ponto de partida para essa grande mudança somos nós, cada um de nós, mudando nossa própria atitude, desenvolvendo uma postura mais cooperativa. Sebrae Nacional. Juntos somos fortes. s.d. p. 22.
Exposição dialogada:
Lance para o grupo duas questões relacionadas com o tema da aula para introduzir a reflexão sobre a formação de redes de cooperação, condição cada vez mais valorizada para o enfrentamento de desafios e aproveitamento de oportunidades de mercado.
Por que a cooperação entre as pessoas pode gerar trabalho, renda e benefícios para as comunidades?
Se tomarmos como exemplo empreendedores fabricantes de móveis, que benefícios teriam ao estar conectados em rede com os três setores da sociedade? Em relação ao Mercado, por exemplo, os moveleiros teriam melhores condições de desenvolver seus negócios e poderiam contratar mais funcionários, com a união entre vários empreendedores e a cooperação entre concorrentes poderiam se organizar melhor para enfrentar a competitividade de mercado para seus produtos.
Às prefeituras e outras instituições locais, como as universidades, caberia cooperar com a criação de cursos profissionalizantes, de gestão, de negociação e comercialização, isto é, com a capacitação dos atores associados. A sociedade, representada pelos clientes ou consumidores, teria acesso a produtos de qualidade com preços justos, poderia ter suas demandas melhor atendidas e, provavelmente, valorizaria mais a marca dos produtos. Tudo isso junto, certamente, aumentaria o número de clientes e exigiria o aumento da produção.
Trabalho em grupo:
Educador, nestas aulas, os jovens tiveram a oportunidade de pensar sobre a importância da cooperação para realizarem seus projetos de vida, reconhecendo que ambientes cooperativos (familiares, escolares, sociais, profissionais) que cultivem a cooperação estarão colaborando com a aprendizagem de valores, hábitos e atitudes e potencializando a formação de uma cultura de cooperação. Viram também que a formação de redes de cooperação beneficia as organizações e, muitas vezes, viabiliza a permanência de uma empresa no mercado.
Educador, como os jovens que estão fazendo a disciplina de Empreendedorismo estão voltados para a área de serviços, incentive os grupos para que pensem sobre a sua rede de cooperação voltada para este setor.
Selecione um exemplo de atividade empreendedora no setor de serviços e trace, desenhando no quadro, os itens que poderiam compor as relações de cooperação e uma provável rede cooperativa, incluindo concorrentes, fornecedores, poder público, instituições, como o Sebrae e universidades, etc. Na seqüência, peça que os jovens formem quatro grupos e solicite que relembrem os sonhos que projetaram no capítulo anterior para simular uma rede de cooperação para o seu negócio. Lembre-os de acionar os conhecimentos referentes ao processo visionário, pois ali também traçaram as relações que poderiam auxiliar os empreendimentos, assim como identificaram os saberes que deveriam ser construídos, entre outros. Proponha que criem uma rede cooperativa apoiados nos estudos sobre cooperação competitiva e no exemplo dos moveleiros. Para melhor exemplificar a forma como os grupos poderão construir seu modelo de rede, projete em lâminas para retroprojetor ou datashow a representação abaixo e demonstre como uma pessoa ou grupo pode fazer parte ou criar várias redes. Alerte-os que o ponto central circulado com preto representa a organização ou grupo de onde partem as linhas que se conectarão a outros pontos. A nomeação do ponto central será diferente à medida que a representação for feita por outra organização, neste caso, ela será o ponto de onde partirão as linhas.
Observe o modelo que parte das relações de um determinado jovem e trace sua rede de cooperação, considerando as respostas dadas às perguntas iniciais e o objetivo da atividade.
O respeito à autonomia dos integrantes da rede não significa ausência de acordos e normas. O funcionamento de uma rede depende de pactos que coordenem as autonomias, que respeitem as decisões coletivas e as individualidades. Por isso, as normas precisam ser resultado de consensos estabelecidos por todos.
6 Empreendedorismo e economia solidária:
Ao tratar do tema empreendedorismo, é importante aproximar os jovens das iniciativas e idéias que possibilitam realizar projetos de vida de formas não-tradicionais, principalmente, considerando o novo mundo do trabalho e a constante incerteza que ronda a vida dos trabalhadores.
Apresente a definição de economia solidária e pergunte aos jovens se já ouviram falar no assunto ou se conhecem alguém que participa deste tipo de empreendimento. Justifique o tema através dos pontos de contato com os estudos que os jovens vêm fazendo ao tratar de cooperação, relações solidárias, redes cooperativas, práticas empreendedoras.
Economia solidária é uma forma de produção, consumo e distribuição de riqueza (economia) de base associativa e cooperativista que se baseia na autogestão, ou seja, na autonomia de cada unidade ou empreendimento e na igualdade entre os seus membros.
Economia solidária é um termo da década de 1990, criado com o objetivo de reunir diversos movimentos e iniciativas, novas e antigas, que possuem como valores comuns:
- zPosse e/ou controle coletivo dos meios de produção, distribuição, comercialização e crédito;
- Gestão democrática, transparente e participativa dos empreendimentos econômicos e/ou sociais;
- Distribuição igualitária dos resultados (sobras ou perdas) econômicos dos empreendimentos.
Uma síntese possível entre cooperativismo, autogestão e economia solidária:
- O cooperativismo fornece um modelo de organização aberta e democrática, adequada aos interesses dos trabalhadores, seja para a produção, crédito, comercialização, serviços;
- A autogestão estabelece a qualidade democrática das relações de gestão e trabalho, adequada aos interesses dos trabalhadores, seja em cooperativas, organizações sociais ou empresas estatais;
- A economia solidária se constitui como um campo filosófico, político, social e econômico mais adequado aos interesses dos trabalhadores, visto que nela os trabalhadores empregam os meios de produção, comercialização e crédito em função de seus interesses.
O princípio geral da autogestão é que “todos os que trabalham são donos do empreendimento e todos os que são donos trabalham no empreendimento”.
Empreendimentos solidários produtivos: associações ou cooperativas agropecuárias, industriais, de transporte, de educação escolar, de hotelaria, entre outros. Empreendimentos solidários de consumo: cooperativas de consumo, habitacionais, de crédito, e mútuas de seguros gerais, de seguro de saúde, clubes de troca, etc.
A administração de um empreendimento é coletiva e democrática. Todas as decisões mais importantes são tomadas em assembléias de sócios, em que vigora o princípio “cada cabeça um voto”.
Uma modalidade recente de economia solidária é o clube de trocas (chamado de Lets em inglês, cujas iniciais significam sistemas locais de trocas e comércio). São formados por microprodutores e prestadores de serviços, a maioria desempregados e com falta de clientes. Eles formam uma associação que cria uma moeda própria (conhecida como “moeda social”), que pode ter a forma de notas de papel ou de registro em computador. Cada sócio recebe de entrada um valor inicial da moeda do clube, o que lhe permite comprar serviços ou bens dos outros sócios. O clube promove reuniões regulares em que os membros anunciam ou exibem o que têm para vender e informam o que precisam comprar. Há clubes que publicam periódicos em que as ofertas e demandas são divulgadas como anúncios
Trabalho em grupo:
Divida a turma em cinco grupos e distribua uma folha de papel pardo. Peça que os jovens a dividam ao meio com uma linha e registrem, na coluna da direita, quais seriam as expectativas do grupo ao trabalharem em uma empresa tradicional e, na coluna da esquerda, as expectativas referentes a um empreendimento solidário.
Sugira aos jovens que, após terminarem de preencher a folha, conversem sobre suas experiências ao procurar emprego. Quem já procurou emprego ou conhece alguém jovem que já o fez? O que aconteceu? Seria mais fácil enfrentar a busca de colocações no mercado de trabalho de forma coletiva? Como poderiam fazer isso? Têm conhecimento de algum empreendimento solidário na sua região?
Educador, peça que os jovens afixem suas folhas de resposta na parede da sala, de modo que, ao finalizar o assunto da aula, possa contar com as idéias e percepções deles sobre o assunto.
Fechamento da aula: Resgate, oralmente e de forma coletiva, as principais características da economia solidária e procure sistematizar as diferenças que encontraram ao elaborar seus cartazes. Relacione a iniciativa dos trabalhadores que fazem parte de empreendimentos solidários com o desemprego e a busca da superação das dificuldades através de iniciativas conjuntas, típicas do empreendedorismo coletivo estudado nas aulas anteriores. A Economia Solidária (ES) é definida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) como o conjunto de atividades econômicas de produção, de distribuição, de consumo, de poupança e de crédito organizadas e realizadas solidariamente por trabalhadores de forma coletiva e em regime de autogestão.