Desafios da Administração Hospitalar na Atualidade
Gestão Hospitalar
1 DESAFIOS DO ADMINISTRADOR HOSPITALAR:
A evolução da administração hospitalar está diretamente relacionada a história dos hospitais e da medicina. Os hospitais no Brasil, como em qualquer outro país, foram administrados por religiosos, médicos, enfermeiros ou pessoas da comunidade, devido ao fato de não serem vistos como uma empresa e sim como uma “instituição de caridade”. Nem sempre o gestor conhecia a prática hospitalar, nem as técnicas de gerenciamento, pois a escolha ocorria de forma empírica.
Na verdade, não existia a figura do gestor, mas, sim, a função de manter a estrutura física e de cuidar das despesas com os poucos recursos existentes. Não se pretende afirmar que o hospital só deva compor seu quadro de gerentes com administradores hospitalares, porém o profissional que for exercer função administrativa, deverá estar consciente da complexidade que é requerida a prestação do serviço na área de saúde.
A administração hospitalar é fruto do sistema que se expandiu por várias partes do mundo, onde o hospital é visto como uma empresa moderna, e, é claro, deve contar com os administradores. Inicialmente, só existiam cursos em nível de especialização, porém esses serviram de parâmetro para realização do curso de graduação. Fajardo Ortiz 1972, Malagón-Londoño 1996, Barquin C. ,1992, autores da América Latina, são unânimes em afirmar que em seus respectivos países, os cursos de administração hospitalar foram criados com o objetivo de preparar os profissionais para atuar nos serviços de saúde e eliminar o empirismo.
Como conseqüência, o administrador hospitalar, integra o elenco de profissionais da área da saúde, e tem a oportunidade de utilizar os conhecimentos adquiridos na vida acadêmica, tendo como responsabilidade maior proporcionar o equilíbrio financeiro aliado ao crescimento da organização.
2 O MÉDICO COMO DIRETOR:
Segundo Malik; Teles, no Brasil, a maioria dos dirigentes nos hospitais são médicos e enfermeiras que aprenderam a coordenar o hospital no dia-a-dia. Os autores afirmam que existe uma carência de cursos de administração para a área de saúde. Faz-se necessário, portanto, cursos profissionalizantes que poderão auxiliar o administrador a contrabalançar o dilema técnico-financeiro que tanto afligem os gestores das empresas de prestação de serviços em saúde.
Barquin C. afirma que os médicos e as enfermeiras são preparados para a realização de tarefas técnicas, prestando serviço direto ao paciente. Ocorre que, quando esses profissionais ocupam cargos hierárquicos mais elevados, que exigem conhecimento na área administrativa, na maioria das vezes, a sua atuação fica aquém da sua qualidade técnica. O autor orienta que se deve analisar estatisticamente, tanto o número de pacientes que obtém a melhora ou a cura, assim como o custo do tratamento, a taxa de mortalidade e as complicações pós-operatórias.
Barquin C. comenta que a maioria dos hospitais são dirigidos por médicos que frequentaram cursos de especialização para obtenção dos conhecimentos da técnica da administração e organização de empresa, e que para essa direção é requerido um profissional com conhecimento em administração hospitalar e habilidades para acompanhar o avanço da ciência médica e a conexão com outras profissões. Interessante, todavia, é que a partir do momento em que esses profissionais, que trabalham diretamente com o paciente, ocupam coordenações, na medida que ascendem na organização, passam a desempenhar mais tarefas administrativas.
A enfermeira que coordena uma unidade de internamento, realiza mais funções administrativas e quase nenhuma técnica. Ela usa seus conhecimentos de enfermagem para atuar na chefia. Esses profissionais, ao ocupar determinados cargos, não gostam e não entendem das atividades administrativas. Com isso, o hospital perde um bom técnico e não ganha um bom chefe.
Dessa forma, considerando o incremento das tecnologias no apoio ao trabalho do médico e a necessidade deste se dedicar mais aos estudos para acompanhar o desenvolvimento da medicina e, consequentemente, não tendo tempo para cuidar do funcionamento da instituição, ficando difícil conciliar a profissão, que é a sua vocação, com a de cuidar da organização do hospital, surge desse contexto um novo profissional que deve se dedicar, em tempo integral, aos trabalhos voltados para a administração, dando origem do administrador no hospital.
3 A GESTÃO HOSPITALAR:
Para Fajardo Ortiz, os problemas da gestão da saúde referem-se a “insuficiência de pessoal”; “insuficiência de recursos econômicos e materiais”; “administração antiquadas”; e “locais e equipamentos inadequados”. O autor explica que esses problemas estão tão inter-relacionados que as soluções são simultâneas. A origem principal dessa situação, é a escassez de recursos financeiros, gerando falta de atendimento médico, principalmente para a população menos favorecida.
Atualmente, no Brasil, se percebe a situação é idêntica e mesmo havendo um bom investimento na área da saúde, deve existir um profissional qualificado que saiba utilizar os recursos de forma correta. Conforme Fajardo Ortiz, “[...] a América Latina necessita com urgência de verdadeiros administradores da atenção médica”. As instituições de saúde encontram-se com estruturas antigas e rígidas, onde o médico, como diretor, é responsável pela atividade administrativa e clínica.
As áreas e os equipamentos não são bem aproveitados, falta renovação, manutenção de equipamento, de instalações e de mobiliário. Necessita-se de programas de erradicação de doenças que melhorem a saúde e o futuro da população. A presença de problemas econômicos e sociais, tais como saneamento básico e desnutrição, também dificultam o atendimento médico. Ele salienta que, por enquanto, a área médica e a área administrativa não têm igual valor entre os latinos (incluindo o Brasil) e não goza de nenhum prestígio.
Porém, entre os anglo-saxões, a atenção dada a administração de hospitais é uma disciplina que possui sua própria tecnologia e que conta com profissional qualificado. Entre os médicos é freqüente pensar que a administração se refere apenas ao pagamento de salários e honorários, lavagem de roupa, equipamentos e alimentos, contabilidade, entre outros. Essas atividades existem em qualquer instituição, tanto em restaurantes, como em hotéis e podem ser realizadas por qualquer administrador competente. No entanto, os serviços de atendimento médico agregam atividades relacionadas com o cuidado e a saúde do paciente, que são altamente complicadas e não é de fácil solução se não existem conhecimentos específicos.
Segundo o referido autor, o êxito da assistência depende, primordialmente, da forma como é gerido o hospital, o tipo de profissional existente, assim como dos recursos tecnológicos disponíveis. Ele também chama atenção de que todas as áreas são responsáveis, de alguma forma, pela saúde dos pacientes. E explica que no hospital, como em qualquer empresa, quando existem recursos monetários ilimitados a necessidade de um administrador eficiente é mínima.
Porém, quando os recursos são escassos é necessário dar uma boa atenção ao atendimento, verificando os custos de investimento em equipamentos e obras, na quantidade e na qualidade de pessoal técnico e administrativo. Por fim, Fajardo Ortiz aborda algumas particularidades dessa administração: os hospitais e clínicas são instituições com estrutura pública ou particular com finalidade também de ensino e pesquisa; é um lugar de contraste emocional, de nascimento, alívio ou morte; os serviços são pessoais, porque não existe a enfermidade, existe o enfermo; a autoridade médica é maior que a administrativa; o pessoal que trabalha é heterogêneo e de nível universitário; nunca se encerra o serviço, deve-se contar com pessoal para trabalhar 24 horas; é de difícil medição e interpretação, pois não dá para medir quanta saúde se tem obtido, mede-se quantas cirurgias e quantas consultas; e muitas unidades trabalham provocando déficit econômico, mas não podem ser desativadas.
Na organização hospitalar existe uma constante renovação na área técnica/médica. Porém, na área administrativa, o mesmo não ocorre com tanta freqüência, o que provoca uma acomodação do administrador em busca de mudanças das rotinas de trabalho. Para se exercer a função de gestor hospitalar, é necessário: saber coordenar as atividades para se atingir os objetivos; promover programas de capacitação dos profissionais para acompanhar as inovações, pois sem renovação o hospital irá declinar e morrer; promover a motivação do pessoal para trabalhar com entusiasmo.
E cabe ao diretor dar o exemplo de dedicação ao serviço. O diretor deve ser um hábil negociador, de forma que os profissionais pensem no hospital como uma instituição estável que deve durar muitas gerações e que seja um multiplicador e acelerador de benefícios sociais e econômicos. Analisando as funções do diretor de hospital, chega-se a conclusão que, sua responsabilidade maior é proporcionar o bom desenvolvimento das diversas atividades técnicas e profissionais que são realizadas ao mesmo tempo. Essa diversidade, é que torna a administração hospitalar complexa, que devido aos altos custos operacionais, necessita de um esquema organizacional que dê apoio a toda essa sofisticação.
4 O ADMINISTRADOR HOSPITALAR:
Galán Morera, ao explanar sobre a figura do gestor, informa que em alguns países foi determinado regras legais e mínimas para quem for exercer função de direção no hospital. O autor chama atenção para as vantagens de se ter um gerente preparado em administração hospitalar, em vez de entregar essa gestão a um político ou a um leigo. Esse fato ocorre normalmente, em diversas instituições, tanto públicas quanto privadas.
Ele afirma que, o hospital terá outro desempenho a partir do momento em que fizer a opção de contar com um gestor que tenha conhecimentos técnicos de administração, aliado ao domínio dos assuntos dos serviços de saúde. Não se pretende aqui dizer que esse cenário é um mar de rosas, pelo contrário, para o administrador exercer suas atividades burocráticas, é preciso partilhar em parceria com as ações do médico, da enfermagem e dos demais profissionais, para que se possa obter apoio nas decisões a serem tomadas.
Para gerenciar suas atividades, esse profissional deve privilegiar as rotinas médicas, oferecendo todo o aparato necessário para a prestação do serviço. Zoboli discute sobre o caráter ético que envolve a figura do administrador, referenciando os valores e princípios que irão influenciar no processo de tomada de decisão. A autora questiona sobre o que é mais importante: a situação financeira ou o paciente? Esse é um assunto enfrentado diariamente nas instituições de saúde, e sem dúvida, o conflito deve ser constante, e como não existe resposta certa, cada caso deverá ser estudado, separadamente. No entanto, não se pode perder de vista que quando existe a possibilidade de cura, deve-se buscar a oportunidade, pois não há dinheiro que pague a perda de uma vida.
Malik; Teles também chamam atenção quanto ao conflito que tem vivenciado o administrador. Por representar o hospital, intermediar os médicos e as fontes pagadoras, negociando o valor da prestação dos serviços, e caso não aconteça de forma favorável para todos os envolvidos, poderá provocar a suspensão do contrato.
Para a edificação dessa convivência, deve-se promover um harmônico ambiente entre o médico (que se preocupa em salvar a vida do paciente) e o profissional da área administrativa (que precisa oferecer os recursos materiais, cada vez mais caros) para manter a saúde financeira da instituição. Para tanto, faz-se necessário uma boa articulação com as empresas que pagam pela prestação do serviço. Na área de custos, tão elevados e imprevisíveis, existe uma preocupação, tanto para quem presta o serviço, como para quem paga. No hospital, a decisão do tratamento, e conseqüentemente, do custo, está nas mãos do médico e da enfermagem.
No entanto, esses profissionais não têm como formação a preocupação com os custos, procurando reduzi-los com a substituição de medicamentos ou aparelhagem. Na visão deles, o paciente deve receber todo o tratamento necessário e o que tiver de melhor para o seu pronto restabelecimento. Porém, quando a receita financeira é insuficiente, o papel do Administrador Hospitalar é encontrar o ponto de equilíbrio entre o preço e o custo.
Quando o administrador se insere na instituição de saúde e começa a compreender como atuam os profissionais da área e como funcionam as suas inter-relações, a depender da sua capacidade profissional, poderá não ter êxito. Considerando-se que o processo de formação encontra-se em fase de construção e que os hospitais são gerenciados por vários tipos de profissionais, é que se procura investigar o perfil desse administrador e quais competências (conhecimentos, habilidades e atitudes) ele deve ter.
A princípio, a literatura afirma que ele precisa ter o perfeito entendimento do processo de trabalho na área da saúde, com uma visão integrada de todos os serviços, autonomia e iniciativa para decidir, apoiado nos princípios éticos, estar comprometidos com a empresa, saber trabalhar com equipe multiprofissional e estar disposto a aprender diariamente.
Por fim, o administrador precisa conhecer os aspectos éticos e legais que envolvem essa instituição, que se deriva do direito a “saúde para todos”, onde a dignidade da pessoa deve ser respeitada e o atendimento deve ser garantido, ter conhecimento de todas as funções que envolvem o hospital e compreender a visão do conjunto por completo, que são: manutenção da saúde, prevenção da doença, educação profissional e pesquisa. No entanto, assiste a esse administrador a tarefa de procurar aliar essas funções aos recursos disponíveis da instituição.