A psicologia e o desenvolvimento cognitivo:
A influência da psicologia sobre a educação constitui um tema sempre presente no estudo do desenvolvimento cognitivo e sua relação com o processo ensino-aprendizagem. A psicologia é sempre uma fonte natural fornecedora de aportes teóricos para o estudo do comportamento e da aprendizagem humana.
Desde o início, a psicologiaprocurou, experimentalmente, analisar os processos cognitivos dos quais são dotados os seres humanos. Assim, foram analisadas as relações entre a sensação, a percepção, a aprendizagem, a memória e o pensamento. Os estudos, cerne da psicologia cognitiva, eram sempre realizados através da observação da entrada de estímulos e informações e de como eram processados. Constatou-se que cada tópico do processo cognitivo relaciona-se com a manipulação ativa de informações, cada um envolvendo o pensamento.
Durante a evolução desses estudos, cada teórico defendia sua posição e definia como prioridade um dos processos cognitivos, enfatizando o papel da resolução de problemas, ora na memória, ora na percepção, ora na aprendizagem. Cada estudioso colocava sua teoria a serviço da educação.
Habitualmente, mencionava-se como critério diferenciador, na relação da psicologia com a educação, a dicotomia entre os aspectos estruturais e os aspectos funcionais, explicados pela genética . Existem aplicações que repousam nos estágios de desenvolvimento; outros, mais recentes, nas concepções construtivistas e interacionistas do conhecimento.
A psicologia da educação situa este estudo entre uma área que é de pesquisa básica e outra que é um campo de aplicação, sempre com aplicabilidade no processo ensino-aprendizagem.
O fato é que cada estudo realizado se reporta sempre a uma doutrina filosófica.
Por volta do século XIX, a filosofia dominante dos processos mentais era a do Associacionismo. Como todos os psicólogos que estudavam a teoria do desenvolvimento cognitivo, Vygotsky também a analisou e interpretou, contextualizando sua argumentação.
Como já foi dito, todo conhecimento humano tem seu início nos grandes filósofos. Portanto, não poderíamos deixar de falar nos artífices desse conhecimento, tomando por base Gaarder (1995).
O pensamento filosófico tem, como uma das características, a busca constante de conhecimento. O conhecimento é um processo infinito com verdades parciais, que podem ser superadas, transformadas e vistas como pontos de partida para novos conhecimentos. Sentindo a necessidade de fazer uma retrospectiva que nos leve a estudar a teoria vygotskyana a partir da construção do conhecimento humano pelos filósofos, tentaremos fazer um relato do pensamento filosófico ao longo de sua história
Os filósofos não tinham a preocupação com o conhecimento da maneira que o concebemos hoje; voltavam-se para o Ser. Seus primeiros passos apresentavam uma forma científica de pensar a compreensão da natureza. Ao estudarem a natureza e o ser, eles buscavam conhecer a essência e a relação de um e de outro, sem a preocupação de analisar o processo por meio do qual o conhecimento acontece no indivíduo. As primeiras idéias sobre o infinito, o ar e a origem das coisas partem dos filósofos Tales, Anaximando e Anaxímenes.
Com os primeiros passos em direção ao Racionalismo, surgem as primeiras preocupações com o conhecimento, trazidas por Parvenedes, Heráclito e Demócrito. Suas idéias eram explicitadas por meio dos opostos: sentido-percepção, razão pensamento, acreditando que a verdade traria uma mudança contínua. Enfocando o processo de mudança do conhecimento, começa a ser firmado um pensamento filosófico que acreditava ser diferente o perceber e o pensar. Demócrito descobre o átomo, desenvolvendo um novo conhecimento sobre a natureza e o homem, surgindo, assim, o Atomismo.
A partir daí, começam a aparecer os filósofos mais ligados ao estudo do conhecimento. Surge, então, Sócrates que passa a estudar o homem e sua posição na sociedade. Platão, por meio de quem se conhece as idéias filosóficas de Sócrates, afirmava que, ao ensinar, ele dava a impressão de querer, ele próprio, aprender com o interlocutor. Sócrates dialogava, discutia, perguntava como se nada soubesse, levava o interlocutor a ver os pontos fracos de suas reflexões. Acreditava que o conhecimento vem de dentro, e que só este é capaz de mostrar o verdadeiro discernimento. Ele procurava tirar de seus interlocutores aquilo que considerava verdadeiro. Ajudava as pessoas a “parir” sua própria opinião, acreditando no poder da razão e na utilizando a linguagem como forma de persuasão. Talvez, aqui, já pudéssemos vislumbrar a mediação trazida por Vygotsky. Sócrates, como pai da filosofia, deixa seguidores, dos quais o mais importante é Platão.
Nesta ocasião, surge a primeira escola de filosofia, chamada Academos. É nessa escola, cujo nome é oriundo de academia, que começam a se instituir as disciplinas acadêmicas, dando um aspecto formal, no qual o conhecimento é pensado de forma estrutural. O ensino é caracterizado pela linguagem dos diálogos. Vemos os primeiros jardins de infância na época de Platão.
Com Aristóteles, filósofo e biólogo grego, surge a teoria de que a razão nasce com o homem, sendo inata, e as idéias são adquiridas. Fundou, assim, a ciência da lógica, estabelecendo conceitos, organizando idéias, criando a máxima de que só o homem tem a capacidade de pensar racionalmente. Ele acreditava que é importante se ter a capacidade de organizar os fatos para compreender.
Começam a ser discutidas e estudadas fontes e formas de conhecimento, já com a intenção da criação de uma teoria. Para os filósofos de então se constituía prioridade o estudo de sensação, percepção, imaginação, memória, raciocínio, intuição, processos psicológicos.
Conceitos que diferenciam alguns termos, usados na época, surgem, tais como: distinção entre saber e opinião; aparência e essência. São discutidas as formas de conhecimento verdadeiro, analisando idéias, conceitos e juízos; procedimentos são viabilizados para se alcançar o conhecimento. Pela indução, dedução e intuição chegam à definição de campos de conhecimento verdadeiros, classificando-os como teórico, prático e técnico.
Na Idade Média, surgiram as primeiras escolas em conventos, sob a orientação da igreja cristã. Também aparecem as primeiras faculdades com diferentes áreas de saber. Vemos, nessa ocasião, Santo Agostinho respondendo às questões por meio da fé; São Tomás de Aquino, influenciado por Aristóteles, apregoando que existiam dois caminhos que levavam a Deus: a fé e o conhecimento.
Com o Renascimento, desenvolve-se a arte e a cultura. O homem torna-se o centro das discussões. Delineiam-se os objetivos pedagógicos, levantando o lema de que o homem deve ser educado para tornar-se humano. A teologia cristã atinge seu apogeu. Fala-se em libertação, em natureza, em um novo método científico. Novamente há um resgate do papel do conhecimento, por meio das artes, das letras, da filosofia e da política.
Encontramos, aí, uma teoria do conhecimento que estabelece relação entre o sujeito e o objeto do conhecimento, entre pensamento e coisa, entre consciência (interior) e realidade (exterior), fundamentação também defendida, posteriormente.
Surgem os filósofos modernos, como Francis Bacon que dá ênfase ao conhecimento, afirmando que “saber é poder”; Descartes, com a afirmativa que a razão é o único meio de se chegar ao conhecimento e reforçando a questão do inatismo trazida por Aristóteles.
Questões importantes são levantadas com relação ao dualismo do homem, em corpo e alma. John Locke cria uma teoria do conhecimento, na qual analisa novas formas de conhecimento, como elas surgem, a origem de nossas idéias e a relação entre o sujeito e o objeto do conhecimento. Sua concepção era diferente de Platão e Descartes, uma vez que separava a razão da percepção. A orientação de John Locke era voltada para o racionalismo e o empirismo. Como narra Gaarder, em O Mundo de Sofia, “Muitos filósofos passaram a defender, então, a opinião de que nossa mente é totalmente vazia de conteúdo, enquanto não vivemos uma experiência sensorial. Esta visão é chamada de empirismo.
Um empírico deriva todo o seu conhecimento do mundo daquilo que lhe dizem os seus sentidos. A formulação clássica de uma postura empírica vem de Aristóteles, para quem nada há na mente que já não tenha passado pelos sentidos. Esta ideia contém uma severa crítica a Platão, para quem o homem, ao vir ao mundo, trazia consigo idéias inatas do mundo das ideias. Locke repetiu as palavras de Aristóteles, mas o destinatário de suas críticas era Descartes.
Os seguidores de John Locke desenvolvem esta concepção empírica da mente, cuja ênfase da origem das ideias se dava em função das sensações, produto de estimulação do ambiente.
A partir da Revolução Francesa, surge o Iluminismo, tendo como premissa dar conhecimento à população para, por meio da luta, conquistar seus direitos e definir seus deveres, posição semelhante à de Vygotsky. A principal figura dessa época foi Kant. Para ele, os racionalistas atribuíam uma importância muito grande à razão, e os empíricos eram muito parciais quando defendiam a experiência centrada nos sentidos. Os kantianos asseguravam que as idéias eram referentes ao espaço e tempo, bem como aos conceitos de quantidade, qualidade e relação tinham sua origem na mente humana, não podendo ser decompostas em elementos mais simples.
Tanto a filosofia de John Locke quanto a de Kant tinham, como embasamento teórico, os trabalhos de Descartes, que apregoava ser o estudo científico do homem restrito ao corpo físico e que cabia à filosofia o estudo da alma.
No fim do século XIX, as teorias de Darwin, Fechner e Schenov se tornam essenciais para o estudo do pensamento psicológico. Darwin expôs a presença de uma continuidade essencial, demostrando a evolução do homem a partir de outros animais; Fechner detalhava uma relação entre os vários eventos físicos que podiam ser determinados e suas consequentes respostas psíquicas, expressas pela linguagem; Schenov dizia que havia bases fisiológicas que ligavam o estudo científico natural de animais aos estudos fisiológicos humanos. Nesta teoria, já se vislumbra uma filosofia materialista.
Com o Romantismo, expresso pela arte, reforça-se o papel do sentido, da imaginação e dos anseios, exaltando o brincar e o jogar como uma capacidade cognitiva, de onde surge a aprendizagem; aqui também já se vislumbra o pensamento vygotskiano.
Outros filósofos surgiram com uma visão idealista, como o caso de Hegel, que analisa o conhecimento pelo tempo histórico e pela evolução dialética. Já aparece a noção de que a Razão só se concretiza através da interação com as pessoas, numa dinâmica processual. Percebem-se, aí, as raízes do interacionismo de Vygotsky.