1
O Romantismo
2
História da Arte Brasileira Modernismo século XX MATERIAL DA AVALIAÇÃO
3
GRAVURA HISTÓRICA
4
História E Cultura Buscando Definições Para Um Objeto Complexo
5
História da arte
6
Ensino de arte
7
Fundamentos metodológicos de Artes
8
Capacitação dos Professores para a disciplina de Artes
9
Artes visuais
GRAVURA HISTÓRICA
História da Arte
1 GRAVURA – HISTÓRIA, TÉCNICAS E RELAÇÕES COM A IMPRESSÃO DE PAPEL MOEDA
As formas de animais foram, sem dúvida, as primeiras imagens que interessaram aos homens pré-históricos, não apenas por sua importância como ameaça, mas, talvez, por suas possibilidades como recursos alimentares. Cultos eram reservados a eles, que muitas vezes eram usados como totens, ou seja, imagens sagradas2 . Por um lado, as primeiras inscrições gravadas pelo homem consistiram nas marcas deixadas sobre pedras que formavam as paredes de seus abrigos (cavernas) e, por outro, derivavam das marcas impressas sobre as mesmas paredes com suas mãos, muitas vezes pintadas com sangue dos animais que caçavam. Assim, esses dois modos de imprimir determinaram as bases de algumas técnicas de gravação usadas até os dias atuais – as gravuras de incisão, as de blocos secionados e outras, como as monotipias e os decalques, por exemplo.
Grande parte dessas primeiras imagens foi encontrada na Europa, mais precisamente na Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, Itália, Áustria e União Soviética. É possível encontra-las, também, em alguns locais arqueológicos na África, Austrália, América e Ásia. Locais como Altamira, na Espanha, Lescaux, na França e Papardallo, na Sicília foram dos mais importantes no sentido das descobertas encontradas. As imagens colocadas a seguir retratam algumas inscrições feitas pelo homem do Período Paleolítico e localizam-se na França e na Itália.
Figura 1 – Veados e Salmão, encontrada na região dos Altos Pirineus, Magdalenian, França, 9 5/8 ", Coleção do Musée des Antiquités, Saint-Germainen-Laye, França .
Figura 2- Figuras Humanas, encontradas na Caverna de Addaura, Monte Pellegrino, Sicília. Período Paleolítico, gravura sobre rocha, 6 x 10/8 “
Muitas dessas inscrições eram preenchidas com pigmentos naturais como carvão, obtido pela queima de madeiras, e fuligem. O vermelho era obtido com o óxido de zinco, o amarelo com o ocre, o branco por meio da pulverização de giz. O sangue, o leite e a gordura eram usados como aglutinantes. Os pincéis consistiam em penas, tufos de cabelo, asas e pelos de um modo geral. As cores terra eram aplicadas por meio de bastões e as tintas líquidas por meio dos pincéis ou sopradas sobre as superfícies a serem coloridas .
Com a invenção do ferro, as gravações ficaram mais acessíveis - antes disso, as pedras eram usadas como instrumentos; depois, eles começaram a produzir ciséis, agulhas e outros artefatos perfurantes. O aprimoramento dessas ferramentas permitiu, às civilizações posteriores, maior precisão e um número crescente de detalhes nos processos de gravação e impressão. Assim, na Mesopotâmia e no Vale do Tigre e Eufrates, no quarto milênio a. C., os textos eram muito elaborados e gravados sobre placas de barro e bronze, chegando-se muito próximo aos sistemas de impressão como são conhecidos hoje. Símbolos religiosos já eram gravados, criando-se os relevos, muitos dos quais em miniaturas com medidas aproximadas de duas ou três polegadas.
As inscrições sobre superfícies planas e circulares eram muito comuns, mas elas apareciam, também, sobre esculturas, como nos exemplos seguintes. Como é possível observar, essas peças apresentavam imagens bem próximas ao realismo, evidenciando traços fisionômicos até hoje encontrados em indivíduos originários daquelas regiões.
Figura 3 – Devoto sumeriano, encontrado no Templo Abu, no Iraque. Começo do Segundo Período Dinástico, 2600 a. C.. Gesso aplicado sobre pedra calcaria e concha branca, 11 ¾ “. The Metropolitan Museum of Art, New York, USA.
Figura 4 -Cilindro gravado e impressão correspondente, Nippur, Período Ur, sudeste do Iraque, 2100 a. C.6
No Egito os selos também serviam para substituir assinaturas e eram usados pelos sacerdotes e estudiosos com o objetivo de conhecer e retratar detalhes de anatomia. Havia vários ateliês para a confecção dessas peças. Com a invenção da escrita, os pergaminhos e papiros passaram a substituir as pedras e outras superfícies usadas para inscrições. Como se pode imaginar, isso adicionou um grande impulso ao progresso da humanidade. É certo que a princípio os escritos assim produzidos não eram acessíveis a todas as pessoas, mas já faziam muita diferença com relação ao desenvolvimento das potencialidades da escrita. Com o desenvolvimento da escrita, foram introduzidos os rolos de papiro, sobre os quais eram colocados os textos escritos à mão. Os romanos produziram grande quantidade desses rolos, que eram copiados por escravos, os quais, por sua vez, faziam tráfico desses exemplares. No entanto, as bibliotecas pessoais não eram muito comuns na Roma de então, havendo apenas trinta bibliotecas públicas. Tyrannio, amigo de Cícero, possuía uma biblioteca com 30.000 volumes desses papiros, mas era uma coleção pequena, se comparada com algumas bibliotecas públicas daquela época .
No Sc. VI, no Império Romano, era comum o uso de estêncil, aplicado com folhas de ouro sobre documentos oficiais. O esgrafito era utilizado no Império Romano para escrever sobre as paredes a opinião de algumas pessoas sobre determinados assuntos, sendo também comum sua utilização como base de desenhos de afrescos. Os etruscos eram excelentes gravadores, desenvolvendo, entre outras habilidades, a arte de gravar sobre o verso de espelhos, com efeitos decorativos que retratavam cenas mitológicas. Um exemplar dessas peças é a gravação em bronze ilustrada a seguir.
Os chineses, no Período Shang, 1200 – 1100 a. C., incrustavam seus caracteres sobre conchas, ossos e cascos de tartarugas, muitos dos quais eram destinados à prática de adivinhações. Só a partir do Período Han, entre os anos 206 – 220, foram criados os caracteres de escrita mantidos quase que sem modificações até os dias atuais. Ainda na China, na época de Confúcio (551 a. C.) e Lao-tsu (604 a. C.), os ensinamentos eram gravados sobre pedras e impressos sobre tiras de bambu . A civilização que se desenvolveu no Vale do Hindus, entre os séculos 2500 e 1500 a. C. também criou impressos a partir de cilindros, como aqueles que eram característicos da Região Sumeriana e do território compreendido entre os rios Tigre e Eufrates. Suas impressões apresentavam detalhes minuciosos, como pode ser visto na ilustração seguinte.
Figura 6 – Cultura do Vale do Hindus, selo com imagem de um búfalo, gravado sobre esteatita, 2500 – 1500 a. C. A imagem foi obtida por intermédio de uma impressão a partir de uma xilogravura10 . Um fato de extrema importância, tanto para a Civilização Oriental, como para a Civilização Ocidental, foi a descoberta do papel pelos chineses, em 105. Depois disso, foi muito mais fácil fazer crescerem os níveis de desenvolvimento científico e tecnológico, chegando-se ao patamar em que se encontram as culturas nos dias atuais. Foi possível, a partir de então, obter impressões em escalas cada vez maiores. Os impressos de então eram estreitamente relacionados a assuntos religiosos e cada vez se tornavam mais sofisticados e freqüentes.
A imagem a seguir representa um desses exemplares, datado do Sc. VIII, que foi extraído do impresso Buda Sentado, da Gruta dos Mil Budas, Tun-huang, China.
Figura 7 – Buda Sentado, da Gruta dos Mil Budas, Tun-huang, xilogravura, Sc. VII, 9 ¼ x 13". Collection Spencer, New York Public Library, Astor, Lenox e Tilden Foundation11 . O primeiro exemplar de impressão a partir de blocos de madeira (xilogravura) foi elaborado em 770. Seu título original é “Os milhões de charmes do Imperador Shotoku”. Seu título pode também aparecer como Hyakumanto Darni. A peça mostra os muitos “encantamentos” budistas e apresenta-se sob a forma de texto. A primeira xilogravura apresentando ilustrações intitula-se Senmen Koshakio, apresenta ilustrações religiosas e é datada do Sc. XI. Mais tarde, em 1633,surgem as xilogravuras do estilo uyko-e, com cenas da vida cotidiana. Elas eram executadas em preto e branco e, muitas vezes, eram coloridas à mão.
FIGURA 8 – Chõbunsai Eishi, Füryü Nana Komachi, xilogravura no estilo uyko-e, Período Edo, Sc. XVIII. Coleção Seikadö, Japão 13 .
A Gravura na Europa – A Xilogravura
As xilogravuras foram introduzidas na Europa na Idade Média, aproximadamente em 1418. Naquela época elas eram usadas para a impressão de cartas de baralho e, também, na confecção de mementos religiosos. Sua introdução na Europa só foi possível depois que o continente passou a conhecer e a produzir o papel. As gravuras então criadas misturavam caracteres de escrita e imagens. Para tanto, elas eram impressas juntamente com os tipos móveis. Logo após sua introdução, além de motivos religiosos e aqueles usados nas cartas de baralho, as xilogravuras eram utilizadas para a criação de estampas e ilustração de livros. Sua introdução ocorreu na Alemanha, mas logo depois ela se espalhou pela França, Itália e Holanda. Esses exemplares, na maioria das vezes, eram repletos de detalhes, cortados na madeira com goivas e facas de diversos formatos. Os alemães eram exímios nesta técnica, como também o foram os italianos. Aos poucos, as imagens foram se tornando cada vez mais sofisticadas e os ilustradores e artistas passaram a acrescentar grande variedade de traços, sombreados e texturas.
Diversos movimentos artísticos a partir de então tiveram representantes que praticaram a xilogravura, sendo importante destacar o pintor, desenhista e gravador alemão Albert Dürer. As primeiras xilogravuras européias apresentavam conteúdos mais direcionados à ilustração, mas no Renascimento foram notáveis algumas obras artísticas criadas a partir dessa técnica. Mais tarde, os artistas ligados ao Impressionismo foram muito influenciados pelas estampas produzidas no Japão, depois que tiveram contato com as criações dos artistas gravadores japoneses, por intermédio de uma exposição apresentada na Europa no Sc. XIX.
Os artistas ligados ao Movimento Expressionista, já no Sc. XX, usaram a xilogravura para expressar sua arte, em virtude das possibilidades oferecidas pela técnica, que permite criar imagens em que a dramaticidade e a expressão gráfica podem se fazer presentes. Os artistas de vários países continuam a praticar a xilogravura, bem como as demais técnicas de gravura, apesar das dificuldades que as técnicas apresentam e mesmo depois da introdução e circulação crescente das imagens digitais e do ferramental tecnológico hoje disponível. Algumas imagens colocadas a seguir permitem constatar o uso disseminado da xilogravura nos séculos que sucederam sua introdução na Europa. As duas primeiras são xilogravuras de artistas desconhecidos, enquanto a segunda é um exemplar da série produzida por Albert Dürer, intitulada Apocalipse. Dürer criou inúmeras gravuras, sendo que suas xilogravuras são muito apreciadas, não só pela riqueza de detalhes, como pela expressividade e variedade de traços apresentados.
Figura 9 – Xilogravuras de artistas italianos anônimos. O Monge (acima) e Aesop, ilustração colocada embaixo .
O artista alemão Edward Münch, ligado ao Expressionismo, movimento artístico desenvolvido no Sc. XX, também usou a xilogravura para criar sua arte com imagens ricas e capazes de evidenciar sua ligação com este movimento artístico. Não só Münch, mas diversos outros artistas ligados ao Expressionismo produziram xilogravuras.
Alguns Artistas Brasileiros e a Xilogravura
No Brasil, o uso da xilogravura apresenta três vertentes importantes, a xilogravura de Cordel, a xilogravura comercial e a xilogravura artística. Assim, além dos vários artistas brasileiros que se expressaram por meio da gravura em madeira, devem ser citados os artistas populares e a Literatura de Cordel, que vem utilizando a técnica de modo muito criativo na ilustração de hábitos, poesia popular e tradição da cultura brasileira. Muitas dessas obras estão ligadas à crítica social e política, o que lhes confere valor histórico e status de documentação regional. Essas peças são produzidas principalmente na Região Nordeste do Brasil. Além disso, diversos artistas populares têm encontrado na xilogravura um meio profícuo para sua expressão plástica. Introduzida no Brasil por padres missionários no final
do Sc. XIX, a xilogravura de Cordel é feita com o uso da madeira denominada cajazeira e os gravadores usam apenas canivetes e facas amoladas para talhar a madeira. Destacam-se os artistas J. Borges, Enéas Tavares Santos, Zé Caboclo, Mestre Noza e outros. Há também artistas que ilustram seus próprios poemas, como Dila, Damásio Paulo Valdero, Cirilo e outros. A xilogravura comercial no Brasil esteve grandemente associada à criação de rótulos para diversos tipos de produtos, bem como associada à tipografia para impressões de ilustrações de livros, ex-libris e demais objetos impressos.
A xilogravura no Brasil teve impulso na área artística com a vinda de Modesto Brocos y Gomes para a Escola de Belas Artes, no final do Sc. XIX. Ele veio para coordenar a área de xilogravura da Escola de Belas Artes. Ele teve sua formação na Itália e, além de artista, foi ilustrador. Ao que parece, foi ele que deu início ao uso da xilogravura pelos artistas com formação em escolas de arte no Brasil. O desenvolvimento da xilogravura artística no Brasil se intensificou nas primeiras décadas do Sc. XX, com a ida para o Rio de Janeiro do gravador brasileiro Osvaldo Goeldi. Ele foi um mestre para vários dos mais importantes gravadores brasileiros, dentre os quais Fayga Ostrower e Edith Bhering. Com ele, Lazar Segall e Lívio Abramo inicia-se um dos mais expressivos momentos da arte brasileira que foi a moderna gravura brasileira.
Figura 13 – Emiliano Di Cavalcanti, xilogravura a cores, 70 x 51 cm. Acervo do Banco Central do Brasil. Maria Bonomi nasceu na Itália em 1935, vindo para o Brasil ainda jovem. Ela fez estudos no Ateliê de Gravura do MAM (Museu de Are Moderna do Rio de Janeiro) e montou, juntamente com Lívio Abramo, o Estúdio de Gravura em São Paulo, em 1960. Ela inaugurou um novo estilo na xilogravura brasileira, utilizando impressões a cores com várias placas de madeira, cujas dimensões eram bastante avantajadas quando comparadas com aquelas encontradas nas gravuras de um modo geral. Ela criou gravuras com cerca de 80 a 100 cm de altura ou comprimento e, atualmente, cria painéis de grandes dimensões em madeira e demais materiais, que cobrem paredes e demais superfícies.Figura 14 – Maria Bonomi, Parede em Construção, xilogravura, 50 x 80 cm.Acervo do Banco do Brasil .
2 A Xilogravura – Técnicas
Existem duas formas básicas de preparar matrizes para impressões. Uma delas é pela utilização da madeira cortada no sentido longitudinal em relação ao tronco, ou seja, na direção de seu comprimento. A outra forma é por meio de cortes e incisões sobre fatias da madeira, ou seja,pedaços cortados transversalmente, no sentido vertical do tronco da árvore da qual ela é extraída. De acordo com o corte da madeira, as ferramentas utilizadas para as incisões são diferentes. No primeiro caso, são usadas goivas, formões e facas. No segundo, as ferramentas utilizadas são os buris de pontas diferenciadas. A ilustração a seguir permite compara os modos diferentes de corte da madeira e os tipos de ferramentas utilizadas.
Vários são os tipos de madeira próprios para esta técnica de gravura, destacandose a cerejeira, o mogno, cedro e outras madeiras mais moles. A imbuia é também bastante adequada, pois embora mais rígida, é dócil ao corte. Outras madeiras são também adequadas para o corte a fio, ou seja, no sentido longitudinal da peça, quais sejam, alguns tipos de jacarandá, canela, jequitibá, dentre outras. Dependendo da madeira que se usa, os resultados obtidos serão diferentes, não só em temos de corte, como na textura das impressões. As imagens a seguir apresentam diferentes cortes, madeiras e ferramentas utilizadas no processo de corte a fio em xilogravura.
Com relação à gravação em topo, ou seja, com as madeiras cortadas transversalmente em relação ao crescimento do tronco, a madeira mais adequada denomina-se buxo e é mais rara no Brasil do que na Europa. Ela é utilizada, também, para a fabricação de instrumentos musicais e marchetaria. Este tipo de madeira tem cor amarelada, apresentando, algumas vezes, manchas escuras. As imagens seguintes evidenciam diferentes possibilidades de uso do buril na xilogravura de topo, podendo ser apreciados detalhes que se pode conseguir com seus cortes sobre madeira. Vê-se, também, uma gravura executada pelo burilista do Sc. XIX, considerado um dos melhores da época, que foi Henri Thitiat.
A imagem acima mostra detalhes de cortes da madeira de topo, usando o buril. Note-se que há diversos tipos deste instrumento. Enquanto a seqüência de imagens a seguir mostra a série de passos necessários à impressão de uma xilogravura de topo. O processo de impressão, no entanto, é o mesmo quando se trata de impressão de xilogravuras a fio.As impressões seguem, quase sempre, os mesmos passos, sendo alteradas em casos específicos ou pelo gosto do impressor. Antes do corte, as madeiras devem ser necessariamente preparadas e lixadas. Depois, executam-se os cortes, entinta-se a madeira e pressiona-se o papel sobre a peça entintada. A impressão pode ser feita com a parte posterior de uma colher de madeira ou metal, com uma prensa ou com um instrumento desenvolvido pelos japoneses, intitulado baren. A tinta pode ser aplicada com rolos sobre a madeira ou com pincel. Pode ser dissolvida em água ou com querosene. Isso permite concluir que os processos de impressão em xilogravura, embora guardem elementos em comum, permitem alguma flexibilidade. A série de figuras colocadas a seguir apresenta a seqüência dos passos necessários para uma impressão em xilogravura colorida.
O Papel Moeda e a Xilogravura
Levou algum tempo até que o papel moeda, ou seja, as notas impressas em papel fossem aceitas universalmente como dinheiro. A princípio, objetos ou metais eram considerados elementos de reserva de valor. A circulação de papéis substituindo valores aconteceu quando se percebeu que haveria a possibilidade de deixar valores em depósito, emitindo recibos que lhe conferissem valor. Na verdade, foi a invenção do papel, no ano de 105, por Tsai Lun, ministro da agricultura da Dinastia Han na China, que possibilitou a disseminação do papel moeda. Muitos desses papéis eram preenchidos à mão, sendo que o couro e o papiro foram usados como papel moeda antes mesmo que o papel tivesse sido inventado. No entanto, no mundo ocidental, as primeiras notas de banco aceitas sem prazo de duração, destinadas a circular entre o grande público, só apareceram em 1656, em Estocolmo, Suécia.
No Oriente isso aconteceu alguns séculos antes. No Sc. XIV, quando Marco Polo esteve na China, encontrou e relatou o uso disseminado do papel moeda28. A imagem a seguir apresenta uma dessas notas. O dinheiro de então era denominado Kwan e era o tempo da Dinastia Ming. No entanto, desde o Sc. VII, eram feitas oferendas aos mortos com papel moeda.No Ocidente, com o desenvolvimento de outras técnicas de impressão, dentre as quais a gravura em metal, a xilogravura foi perdendo espaço no que concerne à impressão de papel moeda, embora também tenha sido usada para essa finalidade.
A Gravura na Europa - A Gravura em Metal
O uso de objetos pontiagudos para fazer incisões já foi abordado neste texto anteriormente, mas é importante reforçar que essas incisões são também as origens da gravura em metal. Os povos da Mesopotâmia, os egípcios e os gregos executavam gravações em metais, vidros, gemas preciosas e semipreciosas e sobre a parte posterior dos espelhos. Não se sabe exatamente quem teve a idéia de fazer uma impressão a partir dessas gravações pela primeira vez na História. No entanto, a primeira gravura em metal de que se tem notícia é datada de 1446, intitulada Christ Crowned with Thorns e apenas uma dessas cópias sobrevive nos dias atuais30. Alguns autores consideravam que o inventor da gravura em metal foi o Mestre das Cartas de Baralho, um joalheiro suíço, cujo estilo era semelhante ao do pintor Stephan Lochner. No entanto, no começo do Sc. XX, ele foi identificado como o famoso pintor de Bassel, Konrad Witz31
As discussões a respeito das primeiras gravuras em metal em relação a seus criadores são muito extensas, uma vez que os nomes dos autores dessas gravuras não apareciam nas obras impressas e estas eram apenas conhecidas como tendo sido criadas pelo Mestre da Paixão, Mestre do Altar Erfut Regler e assim sucessivamente. No entanto, sem dúvida, essas gravuras foram iniciadas na Alemanha. Abaixo está apresentada a gravura intitulada The Crowning with Thorns.
Na Itália a gravura em metal se originou das gravações feitas pelo processo conhecido como nielo. Tais gravações eram feitas sobre objetos do dia a dia e peças de joalheria, sobretudo em Florença. Era uso a criação de medalhas com relevos esmaltados com uma mistura de prata, chumbo, bórax e enxofre misturado ao sal de amoníaco. Quando essas peças eram colocadas no forno, produziam relevos. Mazzo Finiguerra teve a idéia de tirar provas de papel a partir dessas imagens, usando para isso uma prensa antes que fosse executada a esmaltação. Embora haja discordância sobre a primeira gravura produzida, as gravuras mencionadas nos parágrafos anteriores, editadas na Alemanha foram, de fato, os primeiros exemplares de gravuras em metal.
Gravura em Metal – Técnicas
Várias são as técnicas utilizadas para as impressões a partir de chapas de metal. No entanto, aqui são abordadas aquelas mais utilizadas pelos artistas de um modo geral e para a fabricação de moedas e notas. A gravura a buril, também conhecida como talho doce, consiste em incisões sobre chapas metálicas (cobre, preferencialmente) por intermédio do buril. Essa ferramenta pode ter formatos, tamanhos e espessuras variadas, permitindo diversos tipos de corte, desde os mais profundos até aqueles mais suaves e superficiais. Essa variedade de ferramentas e traços, aliada aos estilos dos artistas e à pressão que estes exercem na ferramenta quando executam as incisões, permite resultados muito delicados e expressivos, proporcionando texturas e sombreados diferenciados. Foram e são muitos os artistas, desde a criação da técnica até os dias atuais, que elaboraram gravuras com riqueza de detalhes. Dentre eles podem ser destacados os pintores Albert Dürer e Andréa Mantegna. As imagens a seguir são exemplares de obras desses dois artistas.
A gravação a buril é muito delicada e demanda habilidade do gravador. Geralmente os traços devem ser executados em uma mesma direção. O buril deve ser retirado da chapa quando se quer mudar a direção dos mesmos e, para traçar linhas curvas, é necessário que a placa seja colocada sobre um pedaço de tecido ou couro, de modo a ser possível mudar a direção da chapa, mantendo o buril sobre ela. Caso contrário, dificilmente o gravador tem controle das linhas curvas, perdendo a direção iniciada pelo primeiro corte. A gravura intitulada “Sudariun de Santa Verônica”, de autoria do artista Claude Mellan, é um exemplo do controle preciso que o burilista teve sobre o desenho e a ferramenta utilizada.
Figura 25 – Claude Mellan, “Sudariun de Santa Verônica“, detalhe, buril sobre metal, 16 3/4 x 12 ½, medida da gravura completa. Coleção University College London . Como se pode ser observar, a precisão do traço é básica nesse processo de gravação, daí seu uso na fabricação de notas e documentos bancários. A imagem a seguir mostra a aplicação da técnica em papel moeda.
Nos processos de gravação em metal, a primeira tarefa que deve ser levada a efeito é a limpeza da chapa, removendo oxidações e demais imperfeições da mesma. As ferramentas devem estar perfeitamente polidas e com bom corte. Pode-se fazer o esboço do desenho a ser gravado com papel carbono ou por outro método qualquer. Depois de feita a incisão na peça, a rebarba deixada por cada traço deve ser removida. Para isso se usa um raspador. Quando toda a gravação está completa, a chapa pode ser entintada e impressa. As imagens abaixo apresentam o preparo do buril e a gravação de uma chapa de metal por meio desse instrumento.
Uma outra técnica bastante usada para gravações em placas de metal é a água forte, que consiste na aplicação de uma cera sobre a chapa, na qual são feitos traços ou desenhos, removendo-se partes da película aplicada por meio de agulhas. Depois disso, a peça é imersa em uma vasilha contendo água e ácido (geralmente ácido nítrico), que se encarrega de gravar ou corroer a chapa. Na medida em que os traços são devidamente gravados, o artista repõe a cera,abrindo novos sulcos e mergulhando de novo a chapa na solução de ácido e água. O processo se repete tantas vezes quantas forem necessárias até que o desenho fique completo. Como é possível perceber, a técnica é mais flexível do que a anterior, possibilitando ao gravador obter resultados sem as dificuldades encontradas na técnica descrita anteriormente. Por essa razão, a água-forte facilitou o desenvolvimento da gravura em metal, sendo mais comum, nos dias atuais, encontrar gravuras executadas por esse processo do que pelo uso do buril. A imagem seguinte retrata os passos acima descritos, mostrando o processo utilizado para gravação de uma chapa de metal pelo método da água-forte.
As primeiras gravuras em água-forte de que se tem notícia no Ocidente foram feitas por Albert Dürer e Urs Graf no Sc. XV e foram gravadas sobre ferro, metal mais utilizado no começo das gravações por meio desse processo. Apesar de ser mais prática a utilização da água-forte, as gravuras em buril e nas demais técnicas de incisão direta sobre a chapa eram mais comuns nos séculos XV e XVI. Só no Sc. XVII é que as águas-fortes começaram a ser mais populares e isso se deve aos gravadores holandeses. Destes, destaca-se Rembrandt Van Rijn, que foi exímio na técnica e cujas gravuras são exemplos de maestria no que concerne ao uso de claro-escuros. A imagem seguinte apresenta um detalhe da gravura de autoria de Rembrandt, intitulada Cristo com o Doente. Note-se a perfeição dos sombreados obtidos pelo artista.
Um outro processo de gravação em chapas de metal é a água-tinta. Esta técnica permite impressões em que diversas zonas de claro-escuro são obtidas. A técnica possibilita a impressão de degradês e sombreados diversos. A técnica consiste na aplicação de pó de breu sobre a chapa, que é levada ao calor para que o breu se derrete e adira ao suporte, Com isso, quando a chapa é entintada, a tinta penetra nos espaços gravados, evidenciando texturas diminutas correspondentes aos diferentes tons. Estes tons podem ir do cinza claro até o negro profundo. As imagens seguintes ilustram, respectivamente, as diversas texturas obtidas com a água-tinta, a caixa de breu usada para a obtenção de uma retícula regular e a “queima” da chapa feita com o propósito de fixar o breu sobre a mesma. Depois, tem-se uma gravura de Goya, da série Caprichos, em que se pode observar uma gravura em que foram usados os processos de água-tinta e águaforte.