Guia Prático de Produção Intensiva do Leite
Noções Básicas em Pecuária Leiteira
1 Introdução
2 Controle Leiteiro
3 Controle e Manejo da Reprodução
4 Cuidados com as vacas no periparto
5 Manejo da ordenha
6 Sistema de ordenha
7 Qualidade na Produção Intensiva do Leite
A qualidade do leite é influenciada principalmente pelo estado sanitário do rebanho, pelo manejo dos animais, pelas condições dos equipamentos durante a ordenha e pela presença de microrganismos, resíduos de drogas e odores estranhos. Do ponto de vista higiênico, o leite deve ter um aspecto saudável, com preservação das suas propriedades (sabor, cor, odor, viscosidade); ser limpo, livre de sujeiras, microrganismos e resíduos; fresco, com composição correta e conservação adequada; ser seguro, ou seja, que não cause problemas à saúde humana.
Saúde do úbere – Um dos grandes problemas da atividade leiteira é a mastite, que se manifesta como uma inflamação da glândula mamária causada principalmente por microorganismos provenientes do ambiente e de úberes infectados. A inflamação traduzse por presença de células somáticas em quantidades elevadas e alteradas na composição do leite. As bactérias são as causas primárias de mastite, mas fungos e algumas algas podem provocar a infecção. Trata-se de um dos mais sérios problemas econômicos e sanitários que afetam a produção de leite.
É importante ressaltar que a mastite em qualquer forma ou intensidade reduz a produção leiteira, levando em muitos casos à perda efetiva da produção em um ou mais tetos. Além da queda na produção, a doença leva a uma modificação na composição físico química do leite, diminuindo os níveis de gordura e proteína, afora as alterações de consistência e coloração. Pode-se considerar como perda todo o leite que deve ser descartado durante e logo após o tratamento da doença com medicamentos.
tipos de mastite
Mastite clínica – É aquela possível de ser observada a olho nu, por exemplo, pela presença de grumos, pus, o aspecto aquoso do leite e por inchaço dos quartos afetados.
Mastite subclínica – É a mais freqüente nos rebanhos. Como seus sintomas não são observados a olho nu, só é possível sua detecção por meio de testes ou análise do leite, o que indicará o nível de infecção. Os tipos de testes mais empregados são a CCS, o CMT (California mastitis test) e o WMT (Wisconsin mastitis test).
Existe uma grande divisão conceitual em termos de mastite. Esta se refere ao tipo de agente causador, que pode ser contagioso ou ambiental. Dessa forma, classifica-se a mastite em dois grandes grupos: Mastite contagiosa – Caracteriza-se por apresentar baixa incidência de casos clínicos e alta incidência de casos subclínicos, geralmente de longa duração ou crônicos e apresentando alta contagem de células somáticas (CCS). É causado por agentes patogênicos que habitam o interior do úbere e a superfície dos tetos (Staphilococcus aureus, Streptococcus agalactie, Corynebacterium bovis), razão pela qual os tetos devem ser cuidadosamente limpos e higienizados no momento da ordenha. Mastite ambiental – É causada por agentes que vivem no habitat da vaca (esterco, urina, barro e camas).
Caracteriza-se pela alta incidência de casos clínicos, geralmente de curta duração, freqüentemente com manifestação aguda e com maior concentração nos momentos do pré-parto e pós-parto imediato. Ao contrário da forma contagiosa, sua transmissão ocorre com maior freqüência no intervalo entre as ordenhas, podendo ocorrer no momento da ordenha devido ao mau funcionamento dos equipamentos envolvidos. É quase impossível a sua erradicação, ao contrário da forma contagiosa, que pode ser tratada. É causada principalmente por coliformes e Streptococcus uberis e Streptococcus dysgalactie.
O que é a CCS (Contagem de Células Somáticas) – Quando um agente infeccioso (bactéria, fungo etc.) invade o úbere, o organismo do animal reage, enviando para o local da infecção células de defesa (leucócitos), para tentar conter o processo infeccioso. Essas células de defesa, somadas às células de descamação do epitélio secretor do leite dos alvéolos, são chamadas células somáticas do leite. Quando há infecção, a contagem dessas células se eleva (acima de 300 mil cel/ml de leite). Esse índice é o principal meio utilizado para o diagnóstico da mastite subclínica.
A técnica de contagem de células somáticas é o instrumento mais moderno e preciso de avaliação da saúde da glândula mamária das vacas, individualmente e do rebanho. Trata-se de uma análise eletrônica de amostras de leite, realizada em laborató- rio específico da rede oficial do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). A análise pode ser coletiva, representativa do rebanho, quando a amostra de leite é retirada do tanque de expansão, ou individual, quando é amostra do leite de cada vaca. O tipo de análise a ser realizado depende da condição do rebanho quanto à incidência de mastite e deve ser decidida em conjunto com o técnico especializado que assiste a propriedade.
Dessa forma, quanto mais elevada a CCS, maior a severidade da infecção e, conseqüentemente, o prejuízo econômico do produtor. Mesmo na glândula mamária não infectada o número de células somáticas pode chegar a 50.000 por mililitro. Aceitam-se como normais – o que significa que o quarto mamário não está infectado – contagens de até 200.000 células/ml. Estudos têm mostrado que a CCS a partir de 250.000 células/ml indica, com 80% de probabilidade, a presença de infecção no úbere.
Atualmente, a CCS do tanque é uma ferramenta valiosa na avaliação do grau de ocorrência de mastite subclínica do rebanho, na estimativa de perdas de produção de leite e como indicativo da qualidade do leite produzido na propriedade. Qualquer tendência contínua de elevação do número de CCS em um rebanho evidencia que a incidência de mastite está aumentando. Isso requer uma imediata reavaliação do manejo das vacas, bem como uma revisão do programa do controle da doença.
O CMT (Califórnia Mastitis Test) e o WMT (Winsconsin Mastitis Test) são testes que avaliam o teor de células somáticas. Existem kits completos à venda no mercado (bandejas, raquetes, tubos graduados e reagentes), que deverão ser utilizados por funcionário com o devido treinamento, com rotina estabelecida pelo técnico especializado.
Normas oficiais para a qualidade do leite – As análises laboratoriais microbiológicas objetivam identificar e quantificar os microrganismos no leite responsáveis pela destruição dos componentes do produto, ou seja, pela transformação dos açúcares em ácidos e pela degradação das proteínas e gorduras.
A principais análises são: Contagem Bacteriana Total (CBT), Contagem de Psicotróficos, Contagem de Mesofílicos e Redutase.
O Programa Nacional de Melhoria da Qualidade do Leite (PNQL) tem como objetivo a forma de produzir leite no Brasil, elevando-se o padrão de qualidade do leite cru. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento publicou, em 2002, a Instrução Normativa 51 (IN-51), tornando esta norma obrigatória: nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, a partir de 1º de julho de 2005; nas regiões Nordeste e Norte, a partir de 1º de julho de 2007.
Conforme a IN-51, desde 1º de julho de 2007, o resfriamento do leite é obrigatório para as regiões CentroOeste, Sudeste e Sul do país. A IN-51 também determina que, uma vez por mês, amostras do leite de cada produtor devem ser enviadas pela indústria para análises na Rede Brasileira de Laboratórios de Controle de Qualidade do Leite (RBQL). Os produtores recebem os resultados das seguintes análises:
• Contagem Bacteriana Total (CBT) – indica a contaminação bacteriana do leite e é expressa em Unidades Formadoras de Colônias por mililitro (UFC/ml);
• Contagem de Células Somáticas (CCS), já comentado neste manual;
• Determinação dos teores de gordura, lactose, proteína, sólidos totais e sólidos desengordurados;
• Pesquisa de resíduos de antibióticos.
O leite tipo C é o que sofreu as maiores mudanças e deixou de existir com essa denominação. Seu lugar é ocupado pelo leite pasteurizado, que pode ser integral, semidesnatado ou desnatado. O resfriamento do leite na propriedade ou em tanque comunitário próximo é obrigatório, exigindo-se a entrega do leite até as 10 horas, ou no caso de segunda ordenha, até as 10 horas do dia seguinte, na temperatura máxima de 10ºC. A amostragem será feita uma vez por mês. Os parâmetros de qualidade serão: CCS, máximo de 1 milhão/ml; UFC (unidades formadoras de colônia), máximo 1 milhão/ml; Proteína, mínimo de 2,9%; Gordura, mínimo de 3,0%; Crioscopia (analisa quantidade de água no leite), máximo de -0,530ºH (-0,512ºC).
O leite tipo B deve ser resfriado na propriedade e nela mantido por no máximo 48 horas, a uma temperatura igual ou inferior a 4ºC. Como índices, as normas exigem que esse tipo de leite apresente um máximo de 600 mil CCS/ml e 500 mil UFC/ml. Quando pasteurizado, não pode apresentar mais do que 80 mil UFC/ml.
Para o leite tipo A, mantém-se a exigência da pasteurização e envasamento na propriedade e de uma contagem de UFC de, no máximo, 10 mil/ml, antes da pasteurização.
Quanto aos tanques comunitários, as análises devem ser feitas por unidade de tanque. Exige-se que o teste do alizarol a 72% seja feito em cada latão recebido, barrando-se o leite com problema. Os latões são tolerados por enquanto, desde que haja comprador, que seja entregue até 2 horas após a ordenha e atenda às normas da IN-51. Tanques de imersão serão permitidos, desde que resfriem o leite a 7ºC em três horas.
8 Controles sanitários
9 Controles Econômico