Avaliação de Segurança do Trabalho de Operadores de Motosserra

Operador de Motosserra

1 SEGURANÇA NO TRABALHO DE OPERADORES DE MOTOSSERRA:

O corte florestal semimecanizado com motosserra é o mais difundido no Brasil. Segundo MINETTE, existiam cerca de 400.000 motosserras em atividade no Brasil no ano de 1996. O corte com motosserra permite produtividade individual relativamente elevada, com baixo investimento inicial, podendo essa máquina ser utilizada em locais de difícil acesso às máquinas especializadas. A derrubada é considerada uma atividade perigosa, podendo o risco ser maior quando ocorrem cipós e sub-bosque.

A movimentação de toras no empilhamento é uma atividade pesada e que sobrecarrega a coluna lombar, podendo ocasionar lombalgias no trabalhador. O desgalhamento, por sua vez, é uma atividade perigosa, pois a motosserra é operada em sua rotação máxima, estando sujeita a resvalos e podendo atingir o operador (SANT’ANNA). Uma das características do corte florestal é ser um trabalho com alto risco de acidentes. Os trabalhadores atuam expostos às condições climáticas, em diferentes tipos de terreno e de florestas, sujeitos ainda a acidentes com animais peçonhentos (SODERSTROM).

A motosserra é uma máquina perigosa e seus riscos inerentes podem ser classificados, segundo SANT’ANNA em:

a) Riscos da operação, tais como rebote, queda de árvores, postura de trabalho e projeção de cavacos (serragem) nos olhos;

b) riscos do equipamento, tais como ruído, vibração, parte cortante, tanque de combustível, parte elétrica e escapamento.

É importante que as empresas florestais adquiram motosserras profissionais, equipadas com freio de corrente, pino pega-corrente, sistema anti-vibratório, protetor da mão esquerda, protetor da mão direita, trava de segurança do acelerador, direcionador de serragem e escapamento com dispositivo silencioso e direcionador de gases. Além disso, as motosserras devem ter baixo peso , design ergonômico, baixo nível de ruído e de vibração e balanceamento adequado (SANT’ANNA et al.).

Segundo HASELGRUBER & GRIFFENHAGEN, para garantir a segurança no trabalho, é preciso que o operador de motosserra utilize os seguintes equipamentos de proteção individual (EPIs): capacete, protetores auriculares, protetor facial, luvas, calça de segurança e botas com biqueira de aço e solado antiderrapante.

Segundo HARSTELA, somente os dispositivos de segurança da máquina e o uso de equipamentos de proteção individual não são suficientes para garantir a segurança do trabalhador. Também são considerados itens essenciais à segurança no corte florestal:

a) Treinamento de formação de operadores, abrangendo técnicas de operação, manutenção e segurança no trabalho;

b) observância de distância de segurança entre um operador e outro (equivalente a pelo menos duas vezes a altura da árvore), para evitar a queda de árvores sobre alguém;

c) sinalização nos limites e proximidades do talhão de corte;

d) disponibilidade de material de primeiros socorros e veículo para locomoção de feridos na área de corte;

e) uso de meios de comunicação eficientes na floresta.

Acidente, de modo geral, é toda ocorrência não-programada que altera o curso normal de uma atividade. Já o acidente de trabalho é todo aquele que decorre do exercício do trabalho, a serviço da empresa, provocando, direta ou indiretamente, lesão corporal, perturbação funcional ou doença que ocasione a morte, perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade de trabalho (SEGURANÇA E MEDICINA DO TRABALHO). Os problemas econômicos acarretados pelos acidentes de trabalho atingem o acidentado, a empresa, a sociedade e o País.

A redução da capacidade de trabalho, em virtude de acidente, diminui a produtividade do trabalhador, reduzindo assim as suas possibilidades de progressão na empresa, limitando o aumento salarial e a motivação de uma futura promoção. Além do custo do equipamento danificado, salários pagos para treinar o substituto, despesas médicas e farmacêuticas e queda da produção, muitos outros fatores contribuem para aumentar os custos de um acidente de trabalho (PEREIRA & MACHADO).

Para SILVA, a causa dos acidentes está vinculada à forma de realizar as tarefas. O acidente é percebido em sua relação com a forma pela qual o trabalhador realiza ou é obrigado a realizar o seu trabalho. A configuração dos acidentes está vinculada à configuração da atividade em que eles ocorrem. O acidente desvinculado do processo, também chamado de azar, ocorre em número mínimo e sua prevenção é praticamente impossível. Entretanto, geralmente os trabalhadores se acidentam durante as atividades para as quais estão previstos, com os equipamentos previstos e, na maioria das vezes, de forma absolutamente previsível.

Segundo MACHADO & SOUZA, anualmente ocorrem muitos acidentes na exploração florestal, grande parte deles nas operações de derrubada, desgalhamento, destopamento e toragem com motosserras, sendo a falta de experiência na atividade e a falta de treinamento pessoal as principais causas de acidentes com operadores de motosserra. Durante muitos anos, o rebote (kick-back) foi responsável por cerca de 30% dos acidentes com operadores de motosserra.

O rebote ocorre quando a ponta do sabre da motosserra toca na madeira ou outro tipo de superfície, provocando um golpe no sentido contrário, fazendo com que a ponta do sabre volte em direção ao corpo do operador. No fim dos anos 70 muitas motosserras foram equipadas com dispositivos anti-rebote e o número de acidentes em conseqüência dos rebotes diminuiu. Em 1978, 23% dos acidentes com motosserra, nos Estados Unidos, foram atribuídos aos rebotes (SODERSTROM).

O grande número de acidentes com motosserra na Suécia, em virtude de rebote, bem como a alta incidência da doença dos dedos brancos (má circulação sanguínea nas mãos, provocada pelas vibrações da motosserra), só começou a ser solucionado após concisas estatísticas de acidentes, e mediante pesquisa e desenvolvimento do trabalho. No fim dos anos 70, o número de acidentes com motosserra havia decrescido 85% e a ocorrência da doença dos dedos brancos, 80%. Ao mesmo tempo, o número de horas de trabalho com motosserra diminuiu em torno de 20% (PETTERSSON).

HASELGRUBER & GRIEFFENHAGEN afirmam que aproximadamente 80% dos acidentes com operadores de motosserra têm origem em falhas humanas e 20% são provenientes de causas mecânicas. As partes do corpo mais atingidas são: pernas (30%), braços (25%), cabeça (20%), pés (13%) e tronco (12%).

FENNER estudando as partes mais atingidas pelos acidentes com motosserra, nas operações de derrubada e traçamento de eucalipto, encontrou os seguintes valores: pernas (37%), pés (15%), tronco (15%), cabeça (12%), mãos (11%) e braços (10%).

FORSTWIRTSCHAFTLICHE ZENTRALSTELLEDER SCHWEIZ & STEPHANI registraram a seguinte estatística de partes do corpo atingidas em acidentes com motosserra na Suíça: 29% nas pernas (4% nas coxas, 12% nos joelhos e 13% nas canelas); 25% nas mãos (11% na mão e 14% nos dedos); 14% nos pés; 12% no tronco; 11% na cabeça (4% nos olhos e 7% na cabeça) e 9% nos braços (4% nos antebraços e 5% nos braços).

Os quase-acidentes adquiriram importância a partir de um estudo que ficou conhecido como pirâmide de Bird. O autor demostrou que, para cada lesão incapacitante, ocorrem 100 lesões leves e 500 quase-acidentes. A existência de correlação entre a frequência de acidentes e a frequência de quase-acidentes já foi demonstrada em outras experiências (Sartor apud FENNER). Entretanto, embora os quase-acidentes possam ser observados e registrados, não foram encontradas estatísticas a esse respeito na atividade de corte florestal com motosserra. Os objetivos do presente trabalho foram a investigação das principais causas de acidentes no trabalho com motosserra, as partes do corpo mais atingidas e as atividades parciais mais perigosas.

2 MATERIAIS E MÉTODOS DE TRABALHO COM MOTOSSERA

A coleta de dados foi iniciada em outubro de 1995 e concluída em fevereiro de 1996, tendo sido realizada em plantios de Eucalyptus spp, nas áreas montanhosas de uma empresa florestal, no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Foram coletadas informações de 29 operadores de motosserra, número que correspondia a 45,13% dos operadores de motosserra da empresa que atuavam em áreas montanhosas.

Área de estudo:

A coleta de dados foi feita em uma empresa florestal de Minas Gerais, nos Municípios de Marliéria e Córrego Novo, em plantios comerciais de Eucalyptus spp, em regime de corte raso, localizados em terrenos com relevo variando de forte ondulado (declividades entre 20 e 45%) a montanhoso (declividades entre 45 e 75%). A espécie predominante foi Eucalyptus torelliana.

A área de estudo está compreendida na região bioclimática número 5 do Estado de Minas Gerais cujo clima é classificado como subtropical úmido-subúmido, com temperatura média anual variando de 20 a 23ºC, precipitação média anual variando de 1.100 a 1.400 mm e altitude de 200 a 900 m, em relevo que varia de suave ondulado a montanhoso (GOLFARI). As médias de temperatura máxima em dezembro de 1995, janeiro e fevereiro de 1996 foram, respectivamente: 29,4ºC, 31,7ºC e 34,0ºC. As médias de umidade relativa do ar nos meses de dezembro de 1995, janeiro e fevereiro de 1996 foram, respectivamente: 82,0%, 74,5% e 73,9%. A precipitação mensal nos meses de dezembro de 1995 e janeiro de 1996 foram, respectivamente: 665 mm e 94 mm, enquanto que em fevereiro de 1996, a coleta abrangeu apenas os 15 primeiros dias do mês (15 mm).

Método de corte florestal:

A empresa utiliza o corte raso, semimecanizado, sendo empregadas motosserras profissionais de 3,0 KW de potência, equipadas com sabre de 37 cm de comprimento, efetuando a derrubada e o traçamento, e ainda, machados que efetuam o desgalhamento, no sistema 1 + 1 (um operador e um ajudante). Cada dupla trabalha com eitos de quatro ou cinco linhas de plantio, a critério do coordenador de área ou supervisor.

O corte começa pela parte mais baixa do terreno e termina na parte mais alta. O empilhamento da lenha é feito por outra equipe, até 30 dias após o corte. A bitola comercial é de 2,20 m, em virtude das dimensões dos fornos das carvoarias. O espaçamento de plantio predominante é de 3 x 2 m. O horário de trabalho é de 6 às 15 horas, de 2ª a 6ª feira e em sábados alternados, com intervalo de uma hora para almoço, das 11 às 12 horas. Ou seja, a jornada de trabalho semanal é de 44 horas, incluindo o tempo de transporte.

O local onde os trabalhadores fazem suas refeições é preparado, abrindo-se uma pequena clareira na qual é montada uma estrutura de madeira coberta com lona, com dimensões de 3 m (largura) x 8,00 m (comprimento) x 1,50 m (altura). Troncos roliços apoiados em toretes funcionam como banco. Improvisa-se também uma estante de madeira para uso do coordenador de área. O transporte dos operadores de motosserra da sede da Empresa até o campo é feito em ônibus particular, com 45 lugares. O ônibus transporta, ainda, a carretinha que leva as motosserras, machados e combustíveis.