Introdução ao Design Gráfico 5
Básico em Design Gráfico
1 Contemporaneidade
Objetivos de aprendizagem
2 Para início de estudo
3 Da modernidade à contemporaneidade na arte
A Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria, as ditaduras militares na América Latina, o destino do comunismo, o agravamento das crises sociais, os problemas ambientais vão mostrando o fracasso do projeto modernista. Começamos a desconfiar da ideia de progresso, da promessa da ciência moderna, da razão, do planejamento estrutural como o caminho de um mundo melhor para todos.
Vai se disseminando a sensação de estarmos em um caminho, entre muitas opções, que talvez não seja o certo. Em todos os aspectos da cultura pós-moderna a multiplicidade, a complexidade, a diversidade dos pontos de vista são considerados e o etnocentrismo é questionado. São muitos os fatores que nos fazem considerar a modernidade como um evento da cultura ocidental, um movimento específico, diferente da pósmodernidade ou da contemporaneidade. Que tal identificar essas diferenças também na arte e no design? Vamos lá?
Na arte os Happenings, a Pop Art, a Arte Minimalista e a Arte Conceitual marcam a transição. Nesta unidade, você vai estudar as características desses movimentos, escolas ou estilos e conhecer alguns trabalhos de artistas atuais.
A Modernidade
Depois da Segunda Guerra Mundial começamos a refletir sobre a modernidade. Observe as figuras a seguir.
A Pop Art expõe as imagens que invadem o cotidiano da sociedade de consumo, o banal, ícones que são desenhos e recortes estereotipados, mas que representam ideais e desejos populares.
Explora o poder, o alcance e o fascínio da publicidade como material de trabalho. Ambas usam a mesma linguagem, a publicidade criando ícones, criando valores, e a arte exagerando e repetindo essas formas nos apresenta à nossa própria atitude frente à mídia.
Os EUA são emergentes e sua cultura, de estilo cinematográfico, chama a atenção. Suas influências promovem o medo de homogeneização cultural. É o mundo próprio do Pop.
Andy Warhol incorpora esse espírito pop mais do que ninguém, explorando as imagens da mídia e a própria imagem como arte, ele próprio se transforma em pop star.
Adotou usar uma peruca branca sobre o cabelo preto, frequentava as badalações e sempre aparecia em fotos ao lado dos famosos. Quando não podia comparecer enviava um imitador com a peruca.
Fez publicidade, pintura, cinema experimental, foi produtor do grupo de rock The Velvet Underground de Lou Reed, apresentador de programas de TV, criou o estúdio The Factory (A Fábrica) onde uma equipe produzia em grande escala seus trabalhos, criou a revista Interview e escreveu sua autobiografia. O mundo pop é o mundo da fama, da moda das celebridades, do consumo e da mídia. A Pop Art é pop.
A homogeneização cultural global acaba não se realizando porque a diversidade e a capacidade imaginativa prevalecem na contemporaneidade. Outras experiências, aparentemente muito diferentes, estão acontecendo paralelamente à Pop Art.
Um estilo importante, que parece difícil mas que merece ser compreendido, é a arte minimalista. A arte minimalista tem pouco ou nenhum conteúdo. Muitas não têm título. Também não pretende ser expressão nem contém o gesto do artista. Pode ser uma ideia para ser executada, industrialmente, por exemplo, ou ser executada por pessoas em outros lugares sem a presença do artista.
O que diferencia esse objeto e lhe possibilita a condição de arte?
O que é exposto é a presença do objeto simplesmente, sem ilusão de outros significados. “O que você vê é o que você vê” (Frank Stella). E estamos ali, olhando.
Uma mudança que a arte minimalista coloca em relação à arte considerada ilusionista — a arte que absorve a atenção para seu universo, suas forma, suas representações, seu interior — é que amplia a atenção para o contexto, para fora da obra.
Quando não há mais nada para olhar na obra, quando não há uma estrutura de significados para serem lidos, começamos a notar o entorno, percebemos a obra num lugar, numa realidade que nos inclui como expectadores. Observe os trabalhos de Donald Judd (figura 5.6) e Robert Morris (figura 5.7) imaginando-se percorrer aqueles espaços.
Essa qualidade ambiental, essa ideia de que o significado da obra não está apenas na coisa vista mas também no contexto em que é vista, esse campo expandido para a significação vai sendo valorizado por diferentes experiências e teorias sobre a arte contemporânea. A obra vai ocupando a natureza, o espaço urbano, integrando o expectador.
Os movimentos de arte concreta e neo-concreta no Brasil são precursores ao colocar o observador como peça-chave na construção do significado. “Bichos” de Ligia Clarck e “Parangolés” de Hélio Oiticica são para ser usados.
Os bichos de Ligia Clark eram chapas de metal articuladas por dobradiças que podiam ser manipuladas pelo espectador. Os parangolés eram capas de algodão, náilon, borracha e tinta que se revelavam nos movimentos de quem usava.
A denominação Arte Concreta também se aplica ao outros eventos que aconteciam no mundo artístico.
Alguns trabalhos radicais exploram o corpo e os próprios limites da vida. A arte para esses artistas deveria ser um acontecimento concreto, transformador de uma realidade. As exposições artísticas só podem mostrar as marcas desses fatos. A arte não é pintura, escultura, mas ação.
O trabalho do Grupo Gutai, japonês, é exemplo de arte que se realiza em acontecimentos. “Nós desejamos apresentar de maneira concreta a prova que nossos espíritos são livres”.
Os artistas do Grupo Gutai Bitjutsu Kyokai inventavam novos processos artísticos, como a performance de Shiraga Kazuo, que luta com a lama como se ela estivesse viva até ficar todo esfolado e chegar ao limite de sua resistência física, ou as pinturas com o corpo, telas com rasgos feitos com o corpo, de Murakami Saburo. A lama seca que sobrou da luta, as telas rasgadas, as fotografias, os registros da ação artística ganham importância e são expostos.
O grupo Fluxos também foi marcante no cenário artístico. Era um grupo de artistas de vários países da Europa, EUA, Japão, Brasil e outros que colaboravam entre si. Faziam happenings, instalações, vídeo-arte, música, cinema e tinham uma postura radicalmente contrária ao sistema institucionalizado das artes. Trabalhavam com o efêmero, misturavam arte e cotidiano e faziam coisas que não poderiam ser vendidas ou guardadas em museus.
Joseph Beuys, artista alemão, fez esculturas, performances, vídeos, desenhos, instalações misturando política, arte, educação e a própria vida. Priorizava o processo de criação e a ação social ao invés de fazer um objeto consumível. A arte era fato e portanto efêmera.
Na Segunda Guerra o avião que Beuys pilotava foi atingido e ele ficou gravemente machucado. Para sobreviver seu corpo foi enrolado com gordura animal e feltro, por nativos da Criméia, onde caíra. Esses materiais marcam grande parte de sua obra.
Como professor foi demitido da Academia de Arte de Düsseldorf porque insistia que suas aulas deveriam ser abertas para qualquer interessado. Criou então a Universidade Livre Internacional.
Envolveu-se em diferentes causas políticas e participou ativamente do movimento ambientalista alemão.
Para Beuys “qualquer pessoa é artista” e “só as pessoas conduzem idéias, enquanto as obras de arte congelam e ficam para trás”.
Na exposição Coiote, “Eu gosto da América, a América gosta de mim”, em Nova Iorque Joseph Beuys foi levado do aeroporto, numa ambulância, enrolado em um feltro, diretamente para a galeria, onde passou cinco dias fechado numa sala com um coiote. De lá também saiu enrolado diretamente para o aeroporto, sem conhecer a América.
4 Da Modernidade À Contemporaneidade Na Arte II
Yoko Ono, também do grupo Fluxus, realiza obras provocativas como a performance Cut Pieces (corte pedaços), em que os espectadores cortavam com uma tesoura pedaços de sua roupa até que ficasse nua.
Lançou em 1965 o livro Grapefruit, com instruções para se fazer obras de arte, por exemplo Hide & Go Seek, e recomendava “se esconda até que todos esqueçam de você. Se esconda até que todos morram.”
Yoko Ono e o marido John Lennon (Beatle) exploraram imagens da vida amorosa para espalhar a idéias pacifistas. Essas propostas artísticas estão nas origens dos happenings e performances.
Muitas vezes esses acontecimentos envolvem o observador colocando-o no meio do fato, como co-responsável, cúmplice, co-autor. Alguns trabalhos que envolvem ações extremas colocam mesmo o observador no limite entre continuar observando, tomar uma atitude ou fugir.
A sérvia Marina Abramovic coloca o corpo no limite em suas performances. “Ritmo” é o nome usado em várias delas. Em uma dessas performances dança até cair de exaustão, em outra grita até perder a voz, em outra se flagela até desmaiar. Em alguns casos precisou ser resgatada por pessoas da assistência, como numa performance que ficava deitada no meio de uma fogueira e desmaiou por falta de oxigênio. Em “Ritmo 0” ficava ao lado de uma mesa com vários objetos e a instrução: “Há 72 objetos sobre a mesa que podem ser usados em mim conforme desejado. Eu sou o objeto”. Pouco tempo depois estava com a roupa toda rasgada e tinha uma arma apontada para sua boca.
Em outro exemplo, extremo e polêmico, um cachorro moribundo foi exposto na galeria para o público assistir sua morte. Na parede a frase “Eres lo que lees” foi escrita com ração. O animal estava na rua e não comia nem levantava mais. Houve várias manifestações de repúdio e protestos procurando impedir a participação do artista Guillermo Habacuc Vargas na Bienal de Havana em 2008.
O contexto e o expectador fazem parte do significado da obra de arte contemporânea. As fotografias de Spencer Tunick são um ótimo e atual exemplo da participação do público no trabalho de arte. Ele fotografa pessoas nuas em diferentes lugares do mundo.
Em Acampamento dos Anjos, Eduardo Srur instala barracas verticalmente nas paredes externas de prédios e coloca luzes dentro.
Como o contexto contribui para os significados da obra, a arte pode ser planejada para um lugar ou uma situação específica, os “site specifics”.
Rubens Mano, convidado para participar da 25ª Bienal de São Paulo, constrói uma entrada envidraçada na lateral do prédio da Bienal, uma entrada por onde não era necessário pagar para entrar. A obra acabou sendo interditada e Rubens Mano se retirou da Bienal quinze dias antes de seu final.
Outra característica da obra contemporânea é a desmaterialização da obra. A arte pode ser apenas um conceito.
Arte é um conceito em transformação. Arte é um conceito pessoal. E o que é arte conceitual?
Para a arte conceitual o mais importante é a ideia. Muitas vezes nem temos objeto para apreciar, a arte pode ser o vazio, o projeto, um mapa, uma instrução, a ideia, a relação entre os envolvidos, um evento. Na arte conceitual assistimos a uma desmaterialização do objeto artístico. Para a arte conceitual a questão de ser ou não ser arte é a principal questão da arte.
Robert Barry, para a exposição “Perspectiva 69” em Düsseldorf, enviou o texto de uma suposta entrevista:
Perspectiva 69: Qual é a sua peça para a “Perspectiva 69”?
Robert Barry: A peça consiste das ideias que as pessoas terão a partir da leitura desta entrevista.
Perspectiva 69: Esta peça pode ser mostrada?
Robert Barry: A peça em sua totalidade não é conhecível porque existe na mente de muitas pessoas. Cada pessoa só pode realmente saber aquela parte que está em sua própria mente. Fonte: Archer (2001, p. 76)
Buscam-se sentidos, mas nem sempre eles são óbvios ou se revelam apenas ao olhar. Alguns trabalhos se evidenciam imediatamente, outros tratam de questões que podem envolver outros conhecimentos, exigir leituras, conhecer seu processo e não apenas o resultado. Alguns trabalhos consideram o tempo, por exemplo, e a continuidade da pesquisa ao longo da vida do artista é que conduz ao significado.
É preciso ter disposição curiosa, questionadora e livre para descobrir arte. Certamente vale a pena ir além das aparências.
Paulo Damé esculpiu uma delicada caixinha na madeira de uma das peças que compõe a passarela na Avenida das Rendeiras na Lagoa da Conceição, Florianópolis, em Santa Catarina. A caixinha de surpresas, o porta-jóias público, só é percebido pelos mais atentos.
Na arte atual não é preciso escolher gostar desse e não daquele estilo, mas perceber cada trabalho em sua especificidade.
O que é identificável como arte contemporânea não são movimentos como os de vanguarda, mas influências e contaminações que se disseminam. Algumas preocupações contemporâneas exploradas na arte podem exemplificar a diversidade das estratégias poéticas.
Privilegiamos nesta seleção, em função de nossos objetivos, exemplos que considerem os aspectos comunicativos da obra, que tenham significados que possam se revelar numa introdução breve como esta, em detrimento de outros mais herméticos.
Alguns trabalhos exploram a possibilidade de superação de nossa condição humana, outros nos explicitam justamente as suas limitações.
A artista Orlan explora a manipulação do próprio corpo e fez várias cirurgias plásticas criando formas estranhas no rosto.
Stelarc trabalha com híbridos homem-máquina, construindo próteses controladas por impulsos do corpo (como uma terceira mão robótica, controlada por sinais dos músculos do estômago e das pernas) ou implantando sensores no corpo que reagem independentemente da sua vontade, que podem ser ativados por pessoas em outros lugares.
O ‘Inversor’ é um projeto de Edmilson Vasconcelos para literalmente se ver o mundo de cabeça para baixo. É também exemplo de extensão do corpo para alterar nossa percepção do mundo.
O realismo nas imagens ou em acontecimentos concretos continua sendo um bom motivo para a arte.
A cova aberta, de Edmilson Vasconcelos, é exatamente o que sairia do buraco com a dimensão do corpo e sete palmos de profundidade.
5 Da Modernidade À Contemporaneidade Na Arte III
“Quando a fé remove montanhas” é um trabalho de Francys Als desenvolvido com a participação, trabalho pesado, de aproximadamente quinhentos estudantes, que munidos de pás deslocaram alguns centímetros uma montanha no Peru.
As esculturas de Ron Mueck, de tamanhos muito grandes ou pequenos e de absoluto naturalismo, impressionam.
Um trem verdadeiro, funcionando e soltando fumaça, pendurado em um gigantesco guindaste, é um projeto do americano Jeff Koons. Veja a proporção do trabalho em relação às pessoas na figura. Jeff Koons trabalha com uma grande equipe e desenvolve projetos espetaculares, irônicos e de grandes proporções.
Damien Hirst é outro artista famoso e polêmico que usa materiais inusitados nos trabalhos, como vacas mortas partidas em fatias, ou uma caveira antiga cravejada de diamantes, a obra de arte mais cara do mundo, chamada “Pelo amor de Deus”.
As questões éticas são presentes na arte contemporânea, muitas vezes colocando o espectador numa situação de conflito.
Eduardo Kac, brasileiro que trabalha nos EUA, colocou um gene em uma coelha chamada Alba que se torna verde fluorescente sob certas luzes. Como a experiência envolveu transformação genética, a coelha foi impedida de sair do laboratório. Isso gerou um movimento “Libertem Alba”, com grande produção de material gráfico, cartazes, folhetos, camisetas...
Marco Evaristti expôs liquidificadores com água e um peixinho dentro. As pessoas poderiam ligar o liquidificador e matar o peixe. Muitas pessoas fizeram isso em todos os países em que a exposição foi realizada. Expôs a estupidez humana.
O universo pessoal e o humor também se destacam na arte contemporânea.
Joana Vasconcelos usa objetos da casa em configurações significativas. “Sofá aspirina” é feito de cartelas do remédio, “Noiva” é um lustre feito de absorventes íntimos (OB).
Cindy faz fotos dela mesma com estilos que nos levam a imaginar cenas cinematográficas, com estereótipos da figura feminina.
6 Da modernidade à contemporaneidade no design
A Escola Superior de Design de Ulm, na Alemanha, foi tão influente para o design quanto foi a Bauhaus. Tinha como objetivo ser uma escola onde o saber profissional e a responsabilidade política andassem lado a lado.
Inaugurada em 1955, foi inicialmente dirigida por Max Bill, que tinha sido aluno da Bauhaus e seguia os ideais de Gropius. Buscava uma adequação das funções práticas dos objetos aos aspectos psicológicos e estéticos, e para isso os estudantes deveriam ter tanto uma formação técnica quanto uma educação dos sentidos.
Mas professores mais jovens começaram a questionar os princípios da Bauhaus da década de 20 serem adotados numa sociedade tão diferente. Disciplinas de caráter científico, como matemática, semiótica, sociologia, economia e física, foram sendo priorizadas em detrimento da formação artística, e Max Bill se afastou da direção.
Na escola de Ulm a diferença entre design e arte e entre design e artesanato ficou marcada. Características artísticas, artesanais ou luxuosas se tornaram verdadeiros tabus. Com um prédio solene, de linhas retas, era comparado a um monastério por causa da rígida disciplina e da exigente formação científica.
O funcionalismo é a característica principal dos projetos de design de Ulm. A metodologia de projeto e os sistemas modulares servem ainda hoje como modelos. A exposição com o nome “A moral dos objetos”, em Berlim, é significativa dessa idéia: a transparência da função explicitada na simplicidade matemática das formas e a identidade da empresa revelada em todos os produtos.
A influente ideia do Bom Design ou Boa Forma é a ideia funcionalista baseada na utilidade prática, modularização, ergonomia, adequação para produção em série, é a ideia de que as formas deviam explicitar seu emprego. O desenvolvimento de sistemas de produção racional através da investigação científica ganhou confiança e os empresários começaram a requisitar os serviços dos projetistas da escola.
O trabalho desenvolvido por Dieter Rams para a empresa Braun AG é exemplo de design corporativo integral. A identidade visual foi planejada e aplicada rigorosamente nos produtos, ambientes, catálogos etc.
Mas o envolvimento com o mercado e a comercialização dos projetos desenvolvidos na escola não estava de acordo com as idéias de muitos estudantes que começaram a reivindicar autonomia para pesquisas de relevância social na Escola Superior. Os estudantes defendiam um distanciamento crítico e pesquisas independentes da área empresarial. O movimento estudantil na década de 1960 era muito forte e a crescente crítica às idéias funcionalistas motivou o fechamento da escola de Ulm em 1967.
Uma vertente do Funcionalismo se desenvolveu na Suíça e é chamado Estilo Internacional. Marca o design pela padronização da informação visual com uso de sistemas de grades para composição de textos e eliminação de qualquer tipo de interferência visual ou ornamento.
A construção de tipos e a estrutura dos layouts se baseavam no Grid System, uma grade retilínea, desenvolvida por Ernst Keller para orientar a composição.
As fontes sem serifas simples e harmoniosas, como Univers, de Adrian Frutiger, e Helvetica, de Max Miedinger, são muito usadas até hoje. Usam alinhamento de texto à esquerda e não justificados como na Bauhaus.
Mas apesar da importância e influência do Funcionalismo, suas idéias começam a ser questionadas e outros valores começam a interessar a partir da década de 1960: os materiais previstos no projeto consideravam se a produção era feita com a exploração dos trabalhadores? É importante para o usuário individual ou interessa também para a comunidade? Considera a proteção ao meio ambiente?
Em 1966 Roberto Venturi ironiza a tão valorizada ideia expressa na frase de Mies Van Der Rohe “menos é mais”. Para ele: “menos é chato!”
Por que uma imagem deve ser necessariamente utilitária? Não é mais adequado ao homem a variedade e uma certa dose de caos na humanidade? Porque devemos nos apropriar do termo cunhado em Ulm de “design sistemático”? Que classe de lógica é essa? Trata-se de uma lógica de produção ou de uma lógica humana? Porque deve ser tudo tão claro, ordenado e manuseável? (MICHAEL ANDRITZKY, 1987 apud BÜRDECK, 1994, p. 45).
A nova geração rejeita o modernismo. Queriam variedade e novidade ao invés de modelos e uniformidade, buscavam uma imagem própria e diferente de seus pais. A mídia se apropriou dos estilos dos movimentos jovens, de suas músicas, roupas e idéias, e a indústria ofereceu material para muito consumo. As grandes firmas baseavam os trabalhos de design em pesquisas feitas com os consumidores. Os movimentos artísticos e os protestos sociais foram referências para a produção industrial, a propaganda e o design. O psicodelismo, o movimento hippie, o punk, por exemplo, foram marcantes no design.
Ironicamente a Pop Art, que explorava a linguagem mercadológica, foi usada pelos próprios fabricantes em seu design. Os ready mades também influenciaram o design. A reciclagem e recombinações de objetos industriais com novas utilidades e significados é um recurso comum e diferenciado da Gute Form (Boa Forma).
As formas aerodinâmicas que se transformam em símbolo do novo, do progresso, do futuro (streamline) aparecem mesmo sem nenhuma função prática em objetos, móveis design gráfico. Raymond Loewy, designer da garrafa de Coca-Cola e da logo da Shell, marcou o estilo.
Com o programa espacial e a chegada do homem à Lua na década de 1960, a ficção científica também ganha destaque e as imagens do espaço são exploradas em muitos trabalhos.
As manifestações contra a guerra do Vietnã, os protestos estudantis de maio 1968 em Paris, a revolução cubana, o movimento hippie, entre outros, produziram grande quantidade de material gráfico barato e com estilo informal, mas que se tornaram referência.
Os pôsteres políticos e culturais decoravam as casas e eram símbolos de compromisso ideológico. Esse design amador, com técnicas artesanais, mostra que o design não é apenas um recurso comercial e influencia a produção gráfica em todo o mundo, especialmente as revistas de estilo underground.
O psicodelismo também foi uma expressão da cultura underground – atitude contrária aos padrões convencionais. Os efeitos que os alucinógenos provocavam na percepção foram expressas graficamente com uso de contrastes de cores e vibrações óticas.
O Punk britânico no final dos anos 70 foi outro marcante estilo de comportamento que se manifestava na moda, nos fanzines, capas de discos, revistas de fã-clubes... Usavam letras cortadas de jornais e revistas ou escritas a mão e misturavam com desenhos e imagens fotográficas de forma improvisada.
Mas o rebelde visual punk invadiu as butiques mais chiques, as revistas, o mobiliário, o design, a moda e a cultura mundiais.
O design italiano também se destacou com grandes empresas apostando em designers criativos e inovadores que experimentavam formas alternativas ao design funcionalista. O design italiano é conhecido como o precursor do design pósmoderno mundial. O grupo Memphis, fundado em Milão por Ettore Sottsass, inspirava-se numa variada mistura de estilos, cores ousadas e ênfase ao significado. Não buscava uma estética universal, explorava metáforas visuais, referências a trabalhos de outros designers, símbolos conhecidos do mundo gráfico em configurações com novos sentidos. Muitas vezes o grupo produzia para atender necessidades mais individuais, para uma elite italiana ou internacional, e não para a grande massa de consumidores.
Como na arte, a diversidade caracteriza o design contemporâneo. As idéias artísticas como manifestação pessoal que vimos nos happenings também aparecem no design. Wolfgang Weingart, suíço, na capa do jornal acadêmico Visible Language, em 1974, escreveu simplesmente: “Hoje estou sem idéias pra porra dessa capa”.
Sagmeister cortou na própria pele as informações do poster acima. Até mesmo a legibilidade foi deafiada no design contemporâneo. David Carson é um exemplo marcante.
7 Da Modernidade À Contemporaneidade No Design II
No final do século XX o design também explorou o corpo e a cena real, invadiu outros espaços e outras tecnologias, se diversificou e se abriu para novas possibilidades.
As tendências que observamos não têm um discurso universalizante como as vanguardas e a própria ciência moderna que buscava uma “verdade” válida para todos. A pós modernidade é crítica, permanentemente reflexiva, considera os diferentes pontos de vista não como excludentes, mas como aspectos da complexidade.
Pela fragmentação da totalidade, pela insegurança da liberdade pela perda da legitimidade das grandes narrativas, pelo vazio de um sentido último pelo caráter híbrido da cultura, o design pós-moderno opta pela expressão individual, estética (uma vez que sensível), colocando-se no lugar da criança que experimenta novas formas, que brinca beirando a tolice, que erra porque está sempre ensaiando, e que basicamente inventa e reinventa novas regras à medida que se realiza. Erro, acaso e jogo fazem parte do processo de design pós-moderno. (GRUSZYNSKI, 2000, p.76).
8 Campo aberto
Identificar tendências é uma tarefa de risco. A diversidade que caracteriza o momento atual, tanto na arte como no design, exige uma abordagem que considere a complexidade para tentar identificar alguns caminhos prováveis de desenvolvimento, novas demandas, novas possibilidades.
Algumas tendências podem ser identificadas observando movimentos sociais incipientes, mudanças comportamentais ou demandas provocadas pelo desenvolvimento tecnológico recente. Podemos buscar ferramentas nas teorias da complexidade ou explorar os recursos computacionais para fazer mapeamentos com gigantesco número de dados e variáveis, mas também podemos criar tendências. É preciso estar atento, observar o mundo.
As ferramentas informáticas oferecem recursos de mapeamento importantes porque abrangem imenso número de dados. As modelagens matemáticas são usadas para prever os mais diferentes eventos desde fenômenos naturais, como ondas, ventos etc., até movimentos culturais.
Também é possível considerar o acontecimento de fatos improváveis ou não previstos pela probabilidade. Fatos simples, numa certa quantidade, combinados de certa forma, podem fazer emergir um comportamento complexo e imprevisto. A teoria da complexidade trata das emergências, que são situações novas, geralmente inesperadas, com características diferentes de suas partes quando vistas isoladamente, com qualidades e propriedades novas. Por exemplo, analisando as conexões dos neurônios isoladamente não é possível prever a inteligência. A teoria da complexidade interessa para o design não para fazer previsões, mas porque o design pode promover associações, conexões, desenhar redes, propiciar que ocorram emergências.
Alguns indícios são simples de identificar, por exemplo, as pessoas estão vivendo mais, e a demanda de produtos adequados para a faixa etária mais avançada deve aumentar. O tempo que as pessoas trabalham no mesmo lugar é menos estável, as pessoas tendem a mudar de emprego e de casa mais vezes na vida, flexibilidade é uma característica dessa cultura. Parece também que agilidade e desburocratização serão cada vez mais exigidas.
As tecnologias indicam demandas e possibilidades como a TV digital, os equipamentos de web móvel, as investigações do passado remoto, as nanotecnologias e as tecnologias de captação de imagens macro abrem campo para web design, tratamento de informações visuais, sistemas hipermídia. Mas também as demandas criam tecnologias. Na educação a distância, por exemplo, muitas tecnologias têm sido propostas e desenvolvidas a partir das propostas pedagógicas.
As formas de produzir imagens e informações com os meios digitais — como a aleatoriedade, a captação de imagens do invisível mundo micro ou macro, a capacidade de acelerar ou retardar movimentos para observar sua essência, produções coletivas, interferências remotas... também podem ser exploradas de forma poética e são indícios de novas demandas para o design.
Partindo de imagens do movimento do corpo – internas ou externas, imagens captadas da natureza, misturando efeitos gráficos e filtros, usando imagens formadas aleatoriamente, acelerando acontecimentos que levam muito tempo, como uma borboleta se formando ou o movimento de estrelas no universo, retardando movimentos rápidos, transformando, ajustando, deformando, combinando imagens, misturando textos e sons –, os artistas e designers têm apresentado o mundo digital como pleno de possibilidades.
A criatividade pode residir na capacidade de transformar coisas existentes, recombinar, sintetizar e integrar sistemas até então separados. A apropriação e re-configuração de imagens e textos estão na gênese do processo criativo. No ciberespaço temos uma ferramenta de grande interatividade, plasticidade e possibilidade de metamorfose, diferentemente das mídias clássicas. A natureza e a infra-estrutura tecnológica da informação digital, a grande disponibilidade e a facilidade de uso do conteúdo disponível na web fazem com que essas apropriações sejam prática inevitável.
A discussão sobre os direitos autorais na web coloca questões ainda não plenamente elaboradas que precisarão de atenção. Os trabalhos geralmente são feitos por equipes multidisciplinares, e o criador não é uma pessoa, mas um conjunto de agentes.
Não podemos abrir mão da retórica parnasiana — da arte pela arte — para abraçar um segundo fetiche, o do tecnoromantismo, que oscila entre a mitificação do gênio criador – o artista que teve uma idéia — e a do programador que — suposto verdadeiro viabilizador do projeto. Além do mais, dado o caráter transdisciplinar e sampleado da cultura digital — usamos programas desenvolvidos por alguém ou baseados em sistemas operacionais criados por outros, conquistas científicas de equipes diversas, repertórios de outras mídias, entre outra gama de ferramentas que jogam papéis decisivos na montagem e distribuição — é difícil sustentar essa hierarquia que definiria quem ocupa o centro do trabalho criativo... (Giselle Beiguelman. Entrevista ao Jornal Folha de São Paulo. Caderno Mais. 18/jan/2004).
As questões éticas exigem permanente reflexão.
Algumas possibilidades de trabalho surgem do contexto, outras nós inventamos, ou ainda, detectamos uma solução mais adequada para uma situação e articulamos para que elas sejam implementadas. O designer inglês John Thackara, por exemplo, trabalha com políticas de sustentabilidade. Desenvolveu o projeto Designers of the time, trabalhando com os aspectos que podem deixar a existência mais ágil e inteligente. A relação de grupos urbanos com o ambiente, o transporte, a alimentação podem ser trabalhados por projeto de design, planejando as redes.
Você estudou que cada projeto tem características próprias e o trabalho de design deve participar do processo de construir e marcar uma imagem especial da organização. Ao mesmo tempo encontramos vários serviços que oferecem modelos prontos e projetos gráficos executados em poucas horas.
A diversidade e variedade de recursos tendem a continuar, mas o que a imaginação vai criar não se pode antecipar. Percebemos apenas que o interesse pelo estético, pela arte tem sido freqüente nos estudos sobre as tecnologias informacionais e as transformações culturais na sociedade digital. É notório o grande número de considerações sobre as tecnologias de informação e comunicação que concluem pela necessária valorização do sensível e do poético na apropriação desses recursos.
A arte é um terreno extremamente sensível, e o próprio capital e a tecnociência estão cada vez mais conscientes da importância da arte, exatamente porque ambos lidam com o virtual. (SANTOS, 2003, p. 8).
Eu, por exemplo, me lembro de ganhar de Tolstói, Balzac, Dickens, Dostoievski, Kafka, e Thomas Morus muito mais insights sobre as substâncias das experiências humanas do que de centenas de relatórios de pesquisa sociológica. Acima de tudo aprendi a não perguntar de onde uma determinada idéia vem, mas somente como ela ajuda a iluminar as respostas humanas à sua condição, assunto tanto da sociologia quanto das “belle lettres”. (BAUMAN, 2003).
Vattimo elege a experiência estética como expressão do movimento de emancipação do homem pós-moderno, e até mesmo como manifestação do sentido do seu ser. (SANTOS, 2003, p. 163).