Introdução ao Design Gráfico 3

Básico em Design Gráfico

1 O início da Modernidade

Objetivos de aprendizagem

* Conhecer alguns aspectos das revoluções econômicas, políticas, sociais e culturais que transformaram as sociedades tradicionais no dinâmico mundo moderno.
* Conhecer as principais idéias, os artistas e as obras dos movimentos Neoclássico, Romântico, Realista e Impressionista.
* Refletir sobre o conceito de arte observando os debates gerados pelas manifestações artísticas que inauguraram a Modernidade.

2 Para início de estudo

As idéias sobre arte do início da Modernidade, por volta de 1800, estão ainda bastante presentes na atualidade. Muitos dos que consideram a arte contemporânea uma degradação da verdadeira arte baseiam seus conceitos nos ideais clássicos de busca da beleza perfeita, ou no Romantismo, como reflexo da personalidade de um artista genial, ou, ainda, em uma representação exata do real.
Nesta unidade, você vai estudar um pouco sobre esse período histórico, as discussões sobre arte da época e buscar referências nas abordagens da História que enfatizem os aspectos psicológicos para tentar entender as experiências estéticas vivenciadas pelos artistas e pelo público em um período de mudanças importantes na sociedade que se refletem na nossa cultura.

3 O mundo moderno

O Barroco e o Rococó eram a expressão da mentalidade religiosa e aristocrática dos séculos XVI e XVII.

A arte ostentava exuberância nos palácios luxuosos com a riqueza que vinha das colônias. O estilo Rococó, aristocrático, decorativo e não-funcional, estava em moda. Observando algumas imagens, podemos perceber a suntuosidade e extravagância que enfeitavam os salões dos palácios e influenciavam os desejos da época.

Observe os detalhes dos objetos: móveis, lustres, louças, talheres, baixelas, saleiros, porta guardanapos, tudo era extremamente requintado.

Observe também os temas superficiais e leves dos quadros no delicado estilo Rococó, imaginando-os na cena da época.

Na política, as monarquias absolutistas prevaleciam, e a sociedade era dividida entre religiosos, nobres e o povo. A moda revelava essa hierarquia (figura 3.7). Os homens do povo usavam calças compridas, as pantalons, e trajes simples. Os nobres usavam culottes de cavalgar que iam até o joelho, casacas bordadas, meias de seda branca, sapatos com fivelas e perucas. As mulheres, que deveriam ter maneiras finas e tom aristocrático, usavam saltos altos, vestidos decotados, saias rodadas com caudas imensas, penteados complicados e majestosos.

Mas a partir do século XVIII, as coisas mudaram muito, e continuaram mudando rapidamente.

A moda pode revelar bastante. As mulheres diminuíram os saltos e as saias se tornaram mais simples, com os tecidos mais leves. Os homens mais inovadores escandalizaram ao tirar os culottes e adotar as pantalons de casimira revelando as formas do corpo e se identificando com o estilo do povo. Tiraram as perucas, cortaram os cabelos e adotaram as botas e o chapéu.

Era uma moda urbana que privilegiava o tecido, principalmente lã e algodão, e o corte em vez do adorno. Mas a simplicidade chique e elegante não dispensava a preocupação com a apresentação pessoal, cuidada com esmero. A moda também revelava dissidência, os revolucionários da revolução francesa foram chamados de “sans culottes”.

Observe os auto-retratos de David (neoclássico), Courbet (realista/romântico) e Monet (impressionista).

O comportamento, o gosto, o cotidiano também mudam: a risada espontânea substitui o riso contido, os homens não levantam mais quando uma mulher entra no recinto, o mundo fantástico e artificial da nobreza dá lugar à natureza, os parques agora são mais valorizados do que os jardins aparados e desenhados geometricamente.

Muitos aspectos podem ser considerados para essa mudança de costumes que tanto nos diferencia dos antigos. Com o desenvolvimento da indústria e do comércio, as cidades cresceram muito, principalmente os bairros operários, feios e sujos, na volta das fábricas. Em 1860, Londres tinha três milhões de habitantes, e em 1880, Paris já alcançava uma população de mais de dois milhões.

As cidades da época eram realmente muito sujas. As epidemias eram comuns. Este problema, aliado ao desenvolvimento da microbiologia, da descoberta dos germes por Pasteur, além do ideal político antinobreza aristocrática, que defendia a igualdade e a democracia, exigiu algumas mudanças de comportamento e contribuiu para que as longas cortinas de veludo e os muitos enfeites elaborados fossem deixando de combinar com o estilo de vida moderno. As largas avenidas começam a ser valorizadas no urbanismo e os terrenos por onde passavam aumentavam de preço.

As relações sociais nas cidades eram diferentes do que na vida do campo. O dinheiro começou a trocar de mãos, circular, alguns enriqueciam com o comércio e a indústria e adquiriam poder, as monarquias perderam força e a democracia se fortaleceu.

A educação privilegiava a cópia e os bons exemplos, o plágio não era um mal. A cópia, que atualmente é considerada um problema no mundo cultural, um roubo de idéias, linguagem, textos e imagens, antes do Iluminismo era útil para a disseminação do conhecimento. Mesmo na arte, o objetivo não era a criatividade, mas a perfeição técnica, e, de acordo com a estética clássica, a arte como imitação era perfeitamente aceitável. A arte tinha como objetivo oferecer coisas belas para o público. A principal questão no debate artístico era sobre a beleza: a imitação da natureza era suficientemente bela (naturalismo) ou o artista deveria usar seu talento para melhorar a natureza e deixá-la ideal como os gregos faziam (idealismo)?

Os temas da arte não variavam muito além de mitologia, fatos heróicos, retratos, alegorias, religião. Até a metade do século XVIII, as representações religiosas eram um dos principais temas, mas a partir daí, com a dissolução da cultura cristã que durava mais de mil anos, tornaram-se insignificantes. Temas cotidianos e populares, dramáticos, históricos, imaginários e a natureza começaram a ganhar ênfase.

Até então, os artistas tinham um ofício razoavelmente seguro e atendiam suas encomendas sem muitos riscos de não satisfazerem o gosto dos clientes. Mas a tradição também é rompida na arte e a história do século XIX é a história de conflitos entre a arte oficial e as inovações, história de artistas que fizeram enorme sucesso e dos que escandalizaram e foram desprezados pelo público e pela crítica, história de muitos que viveram na miséria e foram extremamente valorizados depois da mortos.

A modernidade surge com o declínio das monarquias absolutistas e do poder da Igreja, com a formação das nações, o espírito patriótico, o desenvolvimento dos mercados e da burguesia, o ideal democrático, o liberalismo econômico e a industrialização. A independência dos EUA e a Revolução Francesa pautada nos ideais de igualdade, fraternidade e liberdade foram os marcos do início da Modernidade.

O homem moderno perdeu a segurança da autoridade e da estrutura social fixa. Todos os valores podem e devem ser questionados. Nas sociedades modernas, o novo interessa, a criatividade e a inovação são valorizadas. A permanente transformação é uma característica da Modernidade. Essa amplitude de possibilidades e a liberdade de experimentar geraram na arte movimentos e contra-movimentos, conflitos e rivalidades, mesclas e fusões de idéias e estilos artísticos, sempre em discussão e em processo de mudança.

4 A arte moderna

Nesse período, três idéias principais norteiam o fazer artístico.

1. O Neoclassicismo, que retoma a beleza dos modelos clássicos como forma de transmitir solenidade e grandiosidade, calma, elegância e moral.

2. O Romantismo, que quer expressar o drama humano, as sensações e a imaginação.

3. O Realismo, que busca representar com exatidão o mundo visível, e o Impressionismo, que vai mais além ainda na ideia de representar o que vemos.

A rivalidade entre estes estilos foi tão intensa que gerou uma discussão rica e instigante que perdura ainda hoje. Observe algumas obras para entender como essas idéias se manifestam nos diferentes estilos.

Neoclassicismo

Os neoclássicos, inspirados pelos ideais da Revolução Francesa: igualdade, fraternidade e liberdade, buscavam formas que representassem a ordem e a virtude cívica. Adotaram o belo, calmo, grandioso, absoluto e igual para todos os homens, a beleza que não existe na natureza e que não se observa nem no cotidiano banal nem nas exaltações humanas, mas que se encontrava nas obras clássicas dos gregos e romanos, e nas referências do Renascimento italiano, que vão imitar.

Nesse período foram feitas importantes descobertas arqueológicas, como as pinturas murais antigas que estavam bem preservadas nas ruínas das cidades de Herculano e Pompéia. Viajantes também levavam informações e gravuras que reproduziam os templos de Atenas. Esses fatos também contribuíram para o entusiasmo com a arte clássica, que era conhecida por intermédio das cópias romanas, dos modelos e escritos renascentistas, em especial, as regras clássicas sintetizadas pelo arquiteto Andrea Palládio.

Na figura 3.13, vemos Sócrates na hora em que recebe o veneno para tomar. Ele está cercado por doze homens, como Cristo pelos apóstolos, todos são solenes, em formas destacadas do fundo, sólidas e esculturais.

Um exemplo característico da arte neoclássica é o cavalo de Napoleão (figura 3.14). Napoleão adorou, consta que David fez quatro réplicas do quadro que se refere à travessia do seu exército pelos Alpes rumo à Itália. Só que, na realidade, Napoleão e seu exército viajaram em mulas.

A valorização do estilo grego às vezes chegava ao exagero. As figuras da época eram representadas com trajes dos antigos gregos ou mesmo nuas, como eram os modelos dos soberanos e divindades. Antonio Canova fez uma estátua de Napoleão nu. A irmã de Napoleão, Pauline Borguese, também foi representada por Canova, como uma Vênus (figura 3.15).

Observe a menina do harém do quadro A Odalisca de Ingres (figura 3.16) comparando suas características com o estilo clássico estudado na Unidade 1. Ingres era um mestre neoclássico. Usava formas calmas e claras, elegantes, mas sem naturalidade, e para ficarem mais belas não precisavam ser realistas, podiam sofrer algumas deformações como o corpo ser mais alongado do que o normal.

O estilo neoclássico exigia a perfeição das formas, mas para isto era preciso um longo aprendizado das técnicas, conhecer as proporções, estudar desenho, observar e copiar os modelos clássicos. Criam-se então as escolas de Belas Artes. Por isto, a arte neoclássica é também chamada de arte Acadêmica.

Esses valores não desapareceram totalmente da nossa cultura, muitas escolas de arte atuais ainda privilegiam o desenho, a cópia e a técnica nos estudos para a produção artística, e muitos ainda consideram essa a única forma válida de arte.

Romantismo

O desenho neoclássico é o oposto da expressividade emocional, quase passional, do Romantismo, que valorizava mais a expressão da cor do que a precisão do desenho.

A rivalidade entre Ingres e o romântico Delacroix pode revelar a essência do debate artístico nesse momento. Ingres considerava os românticos os destruidores da arte, para ele, Delacroix era um diabo! Suas pinturas foram acusadas de esboços e consideravam o desenho ruim. Já os românticos acusavam a arte neoclássica de ser conservadora, sem vida e sem sentido, uma cópia e demonstração de habilidade manual, apenas desenhos coloridos. Para eles, a arte deveria expressar a individualidade do artista e não copiar efeitos e modelos de outros.

Enquanto a pintura neoclássica não deixava aparecer nenhum sinal da pincelada, com um acabamento liso e brilhante, os românticos usavam largas pinceladas e intensos contrastes.

Delacroix não gostava de ser considerado um fanático, mas era um homem muito intenso. Em seus diários, que revelam muito da vida cultural de Paris, escreveu que “o homem de verdade é o selvagem”. Em seus quadros, valorizava o dinamismo e a emoção do momento, a violência, e temas comoventes da literatura. No quadro Massacre em Chios, pintou um bebê mamando na mãe morta que impressionou o público. Buscou referências no colorido mundo árabe. Observe o vermelho intenso no quadro A Morte de Sardanapalus (figura 3.17), baseado nos poemas de Byron, que mostra o assassinato das concubinas de um imperador.

O Romantismo também revela o invisível, o sobrenatural, o imaginário, como na figura 3.18 do Gigante na beira do mundo de Goya, e a pintura de paisagens ganhou importância, mas era vista como expressão do pensamento e sensações do artista perdendo a objetividade. Turner explorava o sublime na natureza e pintava a emoção frente a ela, em seus quadros (figuras 3.19 e 3.20) podemos sentir o clima. O objetivo dessa arte era comover.

Géricault, outro artista de espírito romântico, pintou um evento político da época de forma emocionante e forte (figura 3.21). Um navio do governo francês que transportava colonos para o Senegal afundou por causa da incompetência do capitão que tinha sido nomeado politicamente. Improvisaram uma balsa com 149 emigrantes abandonada pelo capitão e sua tripulação que escaparam em barcos salva-vidas. A balsa ficou à deriva 12 dias e só 15 pessoas sobreviveram. Para expressar o sentimento e desespero da situação, Géricault estudou a expressão dos loucos em um manicômio e a cabeça de pessoas guilhotinadas, construiu uma balsa em sua casa e chegou a se amarrar no mastro de um barco enfrentando uma tempestade.

Vários elementos expressivos, como colunas, frontões gregos, esculturas, abóbadas, arcos, poderiam ser agrupados, mas não formavam um todo orgânico, e sim uma reunião de partes independentes que se organizavam para atender às funcionalidades e aos significados dos prédios.

Uma alfândega na periferia da cidade, por exemplo, deveria manifestar o poder do estado tendo um aspecto severo. Os prédios de governo privilegiavam o estilo Renascentista; as igrejas, o estilo Gótico; as óperas e teatros, o Barroco.

Realismo

Observe as figuras a seguir.

Para os realistas, a natureza não deveria ser transformada nem para demonstrar a emoção do artista ou para ficar mais bonita. Não buscavam temas heróicos ou dramáticos nem disfarces para as sujeirinhas, o musgo ou as poças de lama na grama, mas mostrar a vida corriqueira e sem pompa, como no quadro As Respingadeiras de Millet (figura 3.22), onde as camponesas trabalham na colheita normalmente.

Courbet se representou no quadro Bonjour Monsier Courbet (figura 3.23), com a mochila nas costas, encontrando seu patrocinador e amigo em um passeio, sem nada de espetacular. Observe seu moderno e rebelde estilo de vestir.

O realismo de Manet no quadro Almoço sobre a relva, com uma mulher nua e espontânea, sem o estereótipo clássico de nudez, no piquenique com dois homens vestidos, enfureceu o público burguês e os críticos, acostumados à elegante arte acadêmica. Isso ocorreu devido a falta de pudor e pelas áreas de cores marcadas que diferiam das suaves transições claro/escuro da arte neoclássica.

Os artistas do movimento realista buscavam reproduzir o que viam. Essa valorização do que é visto, e não os modelos ou a imaginação do artista, e os novos materiais que não exigiam misturas de pigmentos e óleos e tinham secagem mais rápida permitiram que o artista pintasse fora do ateliê. No final do século XIX, já com o capitalismo consolidado, um importante movimento artístico parece libertar a arte para a multiplicidade de formas, expressões e intenções que caracterizam as vanguardas do século seguinte: o Impressionismo.

5 A Arte Moderna II

Impressionismo

Os impressionistas registravam como percebiam as coisas no instante. Não vemos cada detalhe, mas uma impressão do todo.

Também apenas uma impressão rápida é capaz de captar o dinamismo. Pintavam o mesmo tema várias vezes e do mesmo ponto de vista, mas eram diferentes as impressões. A preocupação eram as cores, as sombras que eles perceberam serem coloridas, as impressões do espaço banhado em luzes que se transformava a cada hora do dia. Decompunham as formas, antes compactas e definidas, em áreas e pontos de cor, que se misturavam apenas na percepção do conjunto. Nesses quadros, de perto vemos apenas os pontos ou pinceladas, mas quando nos afastamos das imagens, a figura se revela.

Observe algumas obras impressionistas. Esta linha de desenvolvimento da arte aprofundou tanto a ideia de representar o que vemos como vemos que, estranho paradoxo, se afasta da representação “realista”.

Monet recomendava que os pintores esquecessem que objetos tinham à sua frente, se uma casa, um campo, uma árvore, que pensassem apenas que viam um quadradinho azul aqui, uma forma cor de rosa ali, uma faixa amarela, e pintassem exatamente como viam. Chegou a desejar ter nascido cego e de repente ganhar a visão para pintar o que via sem preconceitos.

Os movimentos Neoclássico, Romântico e o Realismo inauguraram a Modernidade e suas idéias sintetizam algumas tendências de desenvolvimento da arte a partir do século XIX.

Apesar dos conflitos e rivalidades, muitas vezes essas idéias se misturam e encontramos obras de um classicismo romântico, por exemplo. Essa é a Modernidade! Que cria, recria, mescla e transforma, contesta, inova, mas não permanece. Essa diversidade exige, especialmente de quem trabalha com projetos visuais, um olhar mais atento para as imagens, exige reflexão sobre o próprio gosto, opinião pessoal, questionamentos, mudanças de opinião, transformação, escolhas. É bom trocar idéias, ouvir os artistas, os projetistas, os críticos, os historiadores e teóricos.

6 O debate artístico

Nesse período os artistas recebiam encomendas principalmente de retratos, mas muitos desejavam trabalhar com temas e formas diferentes, experimentais e emocionais. Os salões de arte promovidos pelas academias eram a principal instituição artística e acontecimentos sociais de grande repercussão. Ali, reputações eram promovidas ou destruídas.

Muitos artistas buscavam temas dramáticos em formas já aceitas para impressionar críticos e públicos. Temas sentimentais, trágicos ou engraçados tinham grande aceitação. As formas eram clássicas, mas tinham um aspecto literário, narrativo, com intenções morais.

Outros artistas, no entanto, mantinham posturas radicais e faziam uma arte que demonstrava personalidade e ousadia desafiando as concepções artísticas e os modelos vigentes; ficavam fora do mercado, mas se orgulhavam da condição dissidente.

Começam também a surgir exposições dos que foram recusados nos salões oficiais e alguns chamam a atenção pelas novas e ousadas formas. Ampliam possibilidades para o fazer artístico, e os debates que esses movimentos geraram podem contribuir para flexibilizar nossa ideia de arte.

Os neoclássicos buscavam a beleza, mas este não foi o único caminho da arte e a beleza foi contestada em favor de outros princípios. Para quem acredita que o imponente cavalo branco de Napoleão é necessariamente mais artístico que a sua mula, a História da Arte oferece bons argumentos em contrário.

A arte bela, no meio de muitos conflitos e importante transformação social, era acusada de servir apenas para ornamentar a vida burguesa. Além disto, o conceito de arte se tornou relativo, porque a crítica, que determinava os padrões, se mostrou impotente, muitas vezes desprezando obras e artistas que mais tarde alcançariam enorme prestígio.

Frente à diversidade, o gosto se mostrou um critério frágil para definir o que é boa arte ou mesmo o que é arte. O que é belo para uma pessoa pode não ser para outra, o belo depende da cultura e muda ao longo do tempo ao sabor da moda. Será mesmo que gosto não se discute?

O que é belo? Qual a relação entre arte e beleza?

De forma geral, é uma tendência acreditar que o gosto é individual e pessoal, mas o gosto é uma categoria histórica e social. Nesse início do século XIX, acreditava-se que as regras de bom gosto eram ensináveis. A arte oficial era ensinada nas Academias e os procedimentos corretos em arte eram estudados a partir das obras clássicas greco-romanas e renascentistas.

O gosto mudou. A extravagância dourada passou a ser vulgar, a imagem moderna é limpa, simples, comedida, clássica.

Ao mesmo tempo em que a Modernidade pretendia chegar em uma verdade, em um estilo artístico, em um modelo social válido, acreditava no que a ciência comprovava e no desenvolvimento, separava razão e emoção e confiava mais na razão, as guerras castigavam a Europa e explicitavam a ilusão humana e o absurdo. Tendências que mostravam esse outro mundo, não tão belo, e os conflitos existenciais frente a ele começam a fazer parte da arte de forma revolucionária.

O Romantismo, que acontece também de forma marcante na literatura, idealiza não a forma, mas personalidades como o índio, o cavaleiro, o selvagem, solitários e fortes, mulheres delicadas e apaixonadas. É intimista e retrata as tragédias, os amores e as utopias. A intensidade emocional, o drama humano é o tema romântico.

O Romantismo valoriza a personalidade do artista, e o público se interessa por se aproximar dessas figuras que julgavam pelas obras. A emoção promovida ou representada pela arte também revelaria o temperamento apaixonado e intenso do artista.

Gombrich (1999) analisa essa ideia a partir de uma interessante questão:

A ideia de que o artista pode usar os instrumentos visuais intencionalmente para transmitir uma emoção que não esteja sentindo só vai ser aceita um tempo depois, com o movimento expressionista.

O estereótipo do artista genial, meio louco, que sofre profunda agonia e cria sob inspiração febril é romântico. Os românticos tendiam a fugir da realidade frustrante cultuando a morte, a solidão, a natureza e a loucura e podiam ver a boemia, o alcoolismo, a decadência e a miséria de forma poética.

A situação profissional instável e os processos inovadores que precisavam romper a barreira da tradição exigiam mesmo dos artistas atitudes fortes e determinação. Mas a ideia de que o dom é algo nato é discutível. Atualmente, aceita-se a ideia de que o dom pode ser desenvolvido, e que nem sempre artistas com excelente produção têm personalidade íntegra ou inteligência genial.

Vimos algumas críticas à ideia de arte como sinônimo de beleza ou expressão da genialidade do artista. Agora observe que o realismo como objetivo da arte também é abalado com o desenvolvimento do instantâneo na fotografia por volta de 1860.

A arte figurativa e ilusionista (o cacho de uvas tão bem representado que os pássaros tentam bicar o quadro) vai perdendo interesse. Mas, ainda que a fotografia assuma a função de registrar o real, a imitação naturalista não é a única forma de representação na arte. Gombrich (1999) levanta outra questão pertinente para refletirmos sobre as possibilidades de representação: uma vara, para uma criança, pode representar um cavalo mais do que um pequeno cavalinho de madeira que imita sua forma. O que faz uma coisa ser capaz de substituir outra, representá-la? (GOMBRICH, 1999).

Para ele, não a imitação da forma, mas a função que ela cumpre - uma forma que permita cavalgar, por exemplo - é a essência da representação. A projeção psicológica poderia explicar a possibilidade de uma simples vara representar um cavalo mais do que sua miniatura estilizada.

É interessante perceber que não apenas as formas de representar a realidade, mais ou menos naturalistas, se transformaram na arte, mas o próprio conceito de realidade vai mudando. O real, aquilo que o mundo é, não é tão objetivo como parecia. Não é único e estável, mas efêmero, transitório, particular. Quando olhamos uma paisagem, vemos diferente se estamos alegres ou tristes.

A economia e a tecnologia modernas dão um ritmo nervoso e urbano à vida e reajustam a velocidade das transformações na moda, na arte, nas idéias filosóficas A atitude perante a vida é outra.

Os impressionistas dão forma a essa sensação de velocidade e permanente mudança. A arte impressionista mostra a realidade não como uma condição, uma coisa dada, mas como um processo, mostra a natureza momentânea e transitória do fenômeno, o acaso, o estado de ânimo passageiro. Essa atitude é também uma concepção de vida passiva, contemplativa, uma renúncia à vida ativa, uma atitude estética pura, a arte pela arte, e não como crítica social.

Só a arte e a beleza pura das formas dariam sentido à existência. Essa absorção pelo momento fugaz, um modo de vida inútil e fluído, é oposta à busca de paz e segurança burguesa.

Para os impressionistas, todos os motivos interessam apenas pelas possibilidades pictóricas, pelos elementos puramente visuais, os aspectos psicológicos e humanistas desaparecem na arte impressionista.

O Naturalismo pode ser idealizado como na arte clássica e ser tão perfeito que pareça real, como o caso do pássaro que bica o quadro acreditando na realidade das uvas. Vimos também que a representação não precisa ser naturalista, uma vara pode representar muito bem um cavalo. Mas a arte vai ainda mais longe e em busca de maior realismo, pode se afastar da representação e se aproximar do acontecimento.

O que é mais real? A imagem que representa um fato da realidade exterior ao quadro (figura 3.30), ou o ato marcado no quadro que não representa nada além dele mesmo, como na obra de Lúcio Fontana, com apenas um corte na tela (figura 3.31), um corte real?

A arte vai se libertando da necessidade de representar a natureza chegando a uma arte que não representa nada, não re-apresenta algo que conhecemos, mas apresenta uma situação nova à significação, conforme veremos nas próximas unidades.

A partir do Impressionismo, os movimentos artísticos se multiplicam. Alguns autores tendem a classificá-los segundo valorizem mais a expressão emocional (usando a cor, o gesto, a imaginação e os sentimentos livremente) ou a razão (com o aprofundamento do estudo da forma). Outros autores classificam os estilos artísticos em diferentes linhas de desenvolvimento, como os movimentos de arte útil, arte social, movimentos formalistas, expressionistas, etc.

É nesse momento de transição também que as artes puras e as artes aplicadas, consideradas menores, se redefinem. Nasce o design.

7 Síntese

Nesta unidade, você conheceu os principais fatos que marcaram o início da Modernidade, um período que ao contrário das sociedades tradicionais é de permanente mudança. O desenvolvimento da indústria, o crescimento das cidades, o fim das monarquias absolutistas transformam a vida social. Nesse momento, os movimentos artísticos começam a se diversificar e competem o Neoclassicismo, o Romantismo e o Realismo.
O movimento Neoclássico retoma as formas clássicas, mas a elegância do estilo é questionada por ser fria e sem vida, desconectada da realidade social. A arte neoclássica era ensinada nas Academias de Belas Artes, onde os alunos copiavam modelos gregos e romanos. A beleza ideal dos clássicos foi muitas vezes, ao longo da História, contestada por servir apenas para enfeitar a vida burguesa.
O Romantismo é um estilo que valoriza os aspectos emocionais da obra. Para os românticos, a obra revela a história de vida intensa e heroica do artista. A crítica ao Romantismo é também a crítica ao mito do artista genial, que já nasce com um dom especial de origem divina.
O Realismo é a arte que representa o que se vê, nem tão belo, nem tão perfeito quanto o ideal clássico, nem deformado pela ideia do artista. A principal oposição a esse estilo artístico surge com o desenvolvimento da fotografia, que pode cumprir, a partir de então, o papel de documentação do real.
A unidade foi finalizada com a questão: o que é real? Na verdade, qualquer representação da realidade é uma re-apresentação de algo, e é sempre um recorte selecionado pelo artista, um olhar pessoal.

8 Saiba mais

Para aprofundar as questões abordadas nesta unidade, você poderá pesquisar os seguintes livros:
BAUMGART, Fritz. Breve história da arte. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
GOMBRICH, Ernst Hans. Meditações sobre um cavalinho de pau e outros ensaios sobre a teoria da arte. São Paulo: Edusp, 1999.
GOMBRICH, Ernst Hans. A história da Arte. Rio de Janeiro: LTC, 1999.
JANSON, H. W.; JANSON Anthony. Iniciação à história da arte. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
STRICKLAND, Carol; BOSWELL, John. Arte comentada: da pré-história ao pós-moderno. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.