Introdução ao Design Gráfico 4

Básico em Design Gráfico

1 Entre vanguardas, nasce o design

Objetivos de aprendizagem

* Conhecer as principais características e algumas obras dos movimentos artísticos que se desenvolveram na Modernidade.
* Compreender como a arte, nesse período, tende a passar de figurativa a abstrata e de representativa a funcional.
* Reconhecer as influências e contribuições dessas concepções artísticas para o nascimento e desenvolvimento do design gráfico.

2 Para início de estudo

O que ocorre no final do século XIX e primeira metade do século XX é uma intensa movimentação na produção e teorização sobre arte. A multiplicação de “ismos”, que utilizam linguagem própria e especializada em suas obras, torna a experiência artística mais intelectualizada e menos popular.
O objetivo desta unidade é apresentar e debater sobre alguns desses códigos para que possamos melhor compreender e apreciar a arte moderna. Mas a multiplicidade de estilos e a abrangência das discussões nos exigem escolher alguns caminhos prioritários de investigação. Alguns artistas participaram de diferentes movimentos ao longo de suas carreiras, outros desenvolveram uma arte com características próprias e é difícil enquadrá-los em qualquer estilo. Seria interessante apresentar os movimentos desse período de forma sequencial, mas vários movimentos acontecem paralelamente.
Também seria possível organizar nossa abordagem por países ou regiões onde nasceram os movimentos. É certo que cada povo produz sua arte e estabeleceram linhas de desenvolvimento próprias no design, mas as influências nesse momento já são globalizadas. Seguir alguns ramos de influências parece ser mais adequado para estudarmos as principais idéias que disputam reconhecimento na arte moderna.
Talvez porque a Modernidade conceba razão e emoção como coisas separadas, tenha produzido tantos debates entre uma arte voltada para a expressão de sentimentos e emoções e outra mais voltada para a razão, ou seja, intensidade de cores e deformações em oposição à precisão da forma e à clareza. Também a função da arte e a separação entre arte pura e arte aplicada gerou bastante controvérsia.
Optamos por organizar esta unidade conforme as especulações de cada movimento artístico priorizem:
1. o objeto, a obra e aprofunde o estudo da forma;
2. a expressão do artista ou a interação com o espectador, a relação emocional e a reação psicofísica;
3. a função da arte e o nascimento do design.
Os artistas chamados de pós-impressionistas, Gauguin, Van Gogh, Cézzane, Seurat, Toulouse-Lautrec, aprofundaram em suas investigações diferentes aspectos da pintura, e suas influências apresentam esses diferentes caminhos de desenvolvimento artístico: Cézanne e Seurat perseguiram novas formas para retratar aspectos do mundo visível; Van Gogh é considerado um precursor do Expressionismo pela intensidade emocional revelada na sua pintura; Gauguin e Tolouse-Lautrec mostram influências da arte africana e das gravuras japonesas e nos ajudam a caracterizar as artes gráficas na origem do design moderno.
Vamos estudar esse período da Modernidade sob três aspectos estilísticos. Você vai perceber em qualquer das abordagens que a arte foi se libertando de representar a realidade, de ser bela, da aura imponente de objeto raro, dos materiais nobres, da moldura e do pedestal, de ter um modelo único e definitivo, vai rompendo limites e fronteiras e vai ampliando as possibilidades artísticas rumo à multiplicidade de manifestações da arte contemporânea.

3 A precisão da forma

Um desses caminhos percorrido pela arte inicia com a valorização dos elementos pictóricos elementares, como pontos ou manchas de cores puras, que foram tratados com precisão científica, permitindo uma rigorosa simplificação. Mas esta simplificação, inicialmente, não impedia a profundidade e os efeitos de luzes e sombras banhando os espaços, nem prejudicava a força visual conquistada pelos impressionistas.

Observe o trabalho de Seurat e Cézanne. Parece simples?

Seurat fez apenas sete quadros em sua carreira, mas trabalhou muito; para pintar o quadro Um Domingo na Grande Jatte (figura 4.1) levou dois anos e fez quarenta estudos de cores. Seurat aproximou a arte da ciência. Nesse período, os estudos sobre fisiologia e psicologia da percepção tinham evoluído bastante e Seurat explorou o novo conhecimento sobre contraste de cores complementares para desenvolver sua técnica de trabalho, o pontilhismo. Assim como a luz branca é formada pelas cores do arco-íris, a pintura de Seurat era resultante da aproximação de vários pontinhos de cores puras, do tamanho de confetes, que a certa distância se misturavam no olho do espectador formando a imagem e produzindo um efeito mais luminoso e cintilante do que se as cores fossem misturadas na paleta do pintor.

Cézanne não seguia nenhum mestre, observava a natureza diretamente tentando penetrar no que via, para encontrar sua estrutura subjacente e expressá-la o mais logicamente possível. Cézanne expôs junto com os impressionistas, mas sofreu tantas críticas que acabou por se afastar de todos (era chamado de ogro, ermitão) e desenvolveu suas pesquisas isoladamente, mas de forma tão intensa e contínua que sua arte se confunde com sua vida e influenciou fortemente as gerações seguintes.

É famosa a ideia de Cézanne de conceber qualquer aspecto da natureza como composto de cilindros, cones e esferas. Em uma carta ao crítico Émile Bernard faz um comentário que parece sintetizar sua ideia de arte e sua divergência com a intelectualidade da época:

Para fazer progressos, só através da natureza, e o olho se educa no contato com ela. Torna-se concêntrico à custa de observar e trabalhar. Quero dizer que em uma laranja, uma maçã, uma bola, uma cabeça, há um ponto culminante; e esse ponto – apesar do efeito terrível: luz e sombra, sensações colorantes – é o mais próximo do nosso olho. As bordas dos objetos fogem em direção a um centro localizado no nosso horizonte. Com um pouco de temperamento é possível ser muito pintor. É possível fazer coisas boas sem ser muito harmonista ou colorista. Basta ter senso de arte – e esse senso é, sem dúvida, o horror do burguês. Portanto, os institutos, as bolsas, as honras só podem ser feitos para os cretinos, os farsantes, e os patifes. Não seja crítico de arte, faça pintura. Essa é a salvação. (CÉZANNE, 1904 apud CHIPP, 1996, p. 17).

Esse caminho, de pesquisa da forma, é também um ponto-chave para o desenvolvimento do Cubismo, que decompõe a imagem e nos oferece vários ângulos de visão simultâneos.

Picasso foi um artista que teve uma produção muito ampla (aproximadamente 50 mil trabalhos) e muito variada, sua carreira ilustra bem a movimentação artística desse momento. Quando lhe perguntavam o que ele queria dizer com sua obra, respondia que não queria dizer nada, se quisesse, diria e não pintaria.

É interessante notar que os significados são diferentes para cada observador, a obra agora é aberta à significação.

O movimento cubista é considerado fonte imediata de toda a arte abstrata que dominou o século XX. Muitos artistas, a partir daí, passaram a considerar que o que interessa em arte é encontrar novas soluções para os problemas da forma, não importando muito o tema.

Os cubistas pintavam o que inventavam, não o que viam. Isso dá uma grande liberdade nos modos de fazer arte.

Paul Klee (1879-1940), por exemplo, influenciado pelas idéias cubistas, experimentava formas puras, sem conteúdo, buscando harmonias. Mas se a partir dessas formas algum tema surgisse à sua imaginação, e fosse favorável à configuração, brincava com ele, e explorava a ideia deixando “a natureza criar em suas obras”. Veja alguns trabalhos e observe seus títulos.

Klee também poderia ser abordado na próxima seção de estudo, não buscava suas referências na racionalidade, mas na arte primitiva, na infância, no simbolismo arcaico, e fez parte do Movimento Expressionista Alemão.

A afinidade com a precisão geométrica desenvolvida pelo Cubismo também levou o grupo italiano que se auto-intitulou de Futurista a explorar a forma facetada para exaltar a velocidade da máquina, a sociedade industrial, os tempos modernos. Queriam a modernização tecnológica, científica e artística da Itália, que ainda estava presa à arte tradicional. A ideia de movimento, de velocidade, seja do objeto ou do impulso interno do artista, configura e deforma a imagem. Exploraram a capacidade expressiva da imagem gráfica da palavra, contribuindo para o desenvolvimento da tipografia e da composição de textos.

O Futurismo pode ser considerado o primeiro movimento de vanguarda.

Vanguarda, que significa dianteira, linha de frente em um exército, indica na arte um movimento de interesse ideológico, de subversão da cultura. As vanguardas se caracterizam pela proximidade com os movimentos políticos progressistas, pelos extremismos polêmicos, pelo gosto por escândalos, pelas idéias revolucionárias.

Observe alguns itens do Manifesto Futurista escrito em 1909 pelo poeta italiano Filippo Tommaso Marinetti (1876-1944).

* Queremos cantar o amor ao perigo, o hábito à energia e à temeridade.

* Os elementos essenciais de nossa poesia serão a coragem, a audácia e a revolta.

* Até hoje a literatura tem exaltado a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono. Nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, a velocidade, o passo ginástico, o salto mortal, a bofetada e o murro.

* Um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais belo que a Vitória de Samotrácia.

* Não há mais beleza senão na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser um assalto violento contra as forças desconhecidas, para intimá-las a deitar-se diante do homem.

* Nós estamos sobre o promontório extremo dos séculos!... Para que olhar para trás, no momento em que é preciso arrombar as portas misteriosas do impossível? O tempo e o espaço morreram ontem. Nós vivemos já no absoluto, pois já criamos a eterna velocidade onipresente.

* Nós queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo - o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas, as belas idéias pelas quais se morre e o menosprezo à mulher.

* Nós queremos demolir os museus, as bibliotecas, combater o moralismo, o feminismo e todas as covardias oportunistas e utilitárias.

É da Itália que lançamos ao mundo este manifesto de violência arrebatadora e incendiária com o qual fundamos o nosso Futurismo, porque queremos libertar este país de sua fétida gangrena de professores, arqueólogos, cicerones e antiquários.

O Futurismo acabou com a 1ª Guerra Mundial e alguns dos seus líderes foram mortos pelos mesmos instrumentos que eles glorificaram anos antes.

Na Holanda, um grupo de artistas e arquitetos aprofundou o estudo da forma rumo à síntese, precisão e abstração e deram origem ao movimento Neoplasticista ou De Stjil (O estilo), que era o nome da revista criada por eles.

No grupo destacam-se os artistas Piet Mondrian e Van Doesburg pelas idéias vanguardistas, polêmicas e inovadoras.

4 A Precisão Da Forma II

Eles pretendiam eliminar a emoção da arte e direcionaram seus experimentos para a abstração absoluta, sem qualquer referente da natureza.

Mondrian, como Cézanne, também queria encontrar uma estrutura permanente e essencial para as aparências sempre mutáveis das coisas, mas foi ainda mais longe que o Cubismo, que não tinha explorado a racionalidade suficientemente. As várias representações de uma árvore, ao longo de alguns anos, explicita o caminho que leva Mondrian ao abstracionismo.

Para Mondrian, o artista não deveria emocionar ou influenciar sentimentalmente o observador de sua arte, mas pela percepção promover a consciência. Buscava a essência da razão em suas formas, que atingiam diretamente o pensamento.

Considerava que os homens devem ter clareza absoluta de seus atos e que uma sociedade consciente é racional, moral e estética. Mondrian não fazia uma arte para a contemplação, mas para participar da vida. Seria o fim da arte tradicional. Não precisaríamos mais de quadros e esculturas porque uma nova realidade estética envolveria e unificaria a arquitetura, o design, a pintura e a escultura.

Durante vinte anos, os quadros de Mondrian buscaram reduzir formas, cores e luzes aos seus “termos mínimos”. São composições de resultados semelhantes: quadros de cores básicas, branco (luz) e preto (não-luz), separados por coordenadas verticais e horizontais. Os diferentes tamanhos dos retângulos eram equilibrados pelo tom da cor.

Levava muito tempo elaborando suas precisas configurações. Explorava diferentes qualidades de branco com adição de um pouco de azul, amarelo ou vermelho, e as linhas pretas também serviam para as cores não se influenciarem mutuamente. Seu equilíbrio é tão exato que os críticos mais especializados não têm dificuldade de diferenciar um quadro de Mondrian de uma falsificação.

No início, o abstracionismo era mais intelectual, conceitual e filosófico do que propriamente artístico. Mas aos poucos foi invadindo os diferentes âmbitos da cultura material.

Observe a influência do abstracionismo geométrico no design.

Em 1913, um artista russo já tinha chamado a atenção internacional pela estética de formas puras com o quadro Quadrado preto sobre fundo branco (figura 4.12).

Kasimir Malevich (1878-1935) defende a supremacia da sensibilidade pura sobre a representação sentimental do mundo e escreve o Manifesto da Arte Suprematista.

Anos mais tarde vai ainda mais longe na ausência de representação (já que o quadrado preto sobre fundo branco poderia ser interpretado como o objeto e o vazio, o homem e a natureza, a ideia e a matéria) e pinta o Quadrado branco sobre fundo branco (figura 4.12).

Também importante foi o Construtivismo(1913-1932), um movimento iniciado na Rússia no período da Revolução Socialista e que representa a síntese entre experiência artística e política. É considerado um movimento estético-político.

No período de ditadura proletária e camponesa na Rússia, um período considerado de transição para o comunismo internacional, a Rússia vive um momento de drástica mudança na política e economia do Estado e desenvolvimento de novas formas de vida em comunidade. Era necessária a criação de uma base material que sustentasse essa nova ordem social e a mudança de uma economia rural para uma indústria mais moderna. Na arte e na arquitetura, era importante a criação de novos símbolos que fossem compreendidos por todos e que contribuíssem na difusão da mensagem da revolução.

Negavam a arte, separada do mundo cotidiano, e defendiam a idéia de uma arte que se utilizasse dos materiais industriais, da engenharia, que fosse desenvolvida coletivamente e não de forma individual, que reunisse e sintetizasse a arquitetura, o design, a escultura e a pintura. Promoveu mundialmente a idéia de uma estética construtiva.

Influenciou profundamente a arte, o design e a arquitetura mundiais, mas a burocracia stalinista impediu seu desenvolvimento na Rússia.

Nessa primeira metade do século XX, podemos observar também na escultura uma linha de desenvolvimento em direção à abstração e à simplificação da forma.

A simplicidade expressiva e primitiva da escultura de Brancusi é exemplo de um ponto de partida para a escultura moderna, e as características do seu estilo se mantêm atuais.

Nas esculturas O beijo e A Musa Adormecida é possível perceber sua busca nas raízes primitivas, a tendência à simplificação das formas e a influência da arte africana. Na escultura Ave no Espaço (figura 4.16), Brancusi, mais abstrato, nos oferece não a representação da ave, mas a própria sensação do voo.

O escultor e engenheiro americano Alexander Calder (1898-1976), à exemplo de Mondrian, buscava um equilíbrio preciso, como as leis da matemática, mas para ele a arte não poderia ser rígida nem estática. Os móbiles de Calder têm um equilíbrio delicado e dinâmico.

Como vimos, o desenvolvimento dessa linha de investigação artística levou a uma arte mais abstrata. Essa tendência foi defendida por diferentes artistas com diferentes objetivos e em diferentes lugares do mundo. Algumas vezes defendida com muita ênfase, com pretensão mesmo de que as características do estilo fossem uma forma definitiva para o verdadeiro fazer artístico. Mas a abstração não foi alcançada apenas pelas pesquisas formais, que abordaram a arte como conhecimento intelectual e racional. Outra linha de investigação que priorizava a intuição, a emoção, a expressão também produziu vários movimentos em direção a formas mais abstratas.

5 A arte como expressão

Os pós-impressionistas Cézanne e Seurat influenciaram uma linha de desenvolvimento da arte mais formalista, como vimos na seção 1, enquanto Van Gogh e Edvard Munch seriam os precursores de uma corrente expressiva na arte.

Van Gogh se afasta dos impressionistas porque não apenas a natureza exterior interessa, mas sua emoção frente a ela. O impressionismo é o contrário do expressionismo. Enquanto a impressão vem de fora, a expressão é subjetiva, apela às motivações interiores. Van Gogh luta desesperadamente para dar sentido ao seu mundo. A história da sua vida rendeu vários livros, documentários e filmes, depois da sua morte.

Os expressionistas deformam as imagens para provocarem sensações e essas imagens nem sempre são belas. A decadência da cultura ocidental que culminará na guerra, o medo, a violência, a injustiça, a miséria são também temas da arte. Nesse contexto, a beleza e a harmonia dos clássicos soam para os expressionistas como sendo falsa e hipócrita.

A obra de Edvard Munch (1863-1944) trata da existência nua e crua e do medo frente a ela. O grito (figura 4.19), sua obra mais conhecida, expressa como uma emoção transforma nossa percepção. O grito se transforma em uma onda de horror que deforma todo o ambiente.

O expressionismo ganha destaque na Alemanha com dois grupos de artistas: Die Brücke, (A ponte) e Der Blauer Reiter (O cavaleiro azul).

O primeiro, o grupo Die Brücke, viveu e trabalhou em comunidade de 1905 a 1913. Os integrantes do grupo acreditavam que agregando os elementos revolucionários e vivendo com liberdade de ação, frente às forças ultrapassadas, seriam uma ponte para o futuro. Veja alguns trabalhos.

Emil Nolde (Alemanha, 1867-1956) explorou a deformação da figura humana expressando a feiúra e o mal da Alemanha entre guerras. As imagens eram tão aterrorizantes que as mães ameaçavam as crianças que não se comportassem com os monstros de Nolde.

Além da investigação interna, o protesto social também era um tema explorado e as artes gráficas ganharam grande impulso com a xilografia expressionista de linhas ásperas e formas angulosas. O trabalho da artista Käthe Kollwitz explora o desespero do pósguerra nas suas xilogravuras.

O grupo Cavaleiro Azul, nome dado em homenagem a um quadro de Kandinsky, durou de 1911 até a Primeira Guerra, em 1914, e se direciona para outra forma de expressão, mais distante do Realismo. Os principais artistas que participaram do grupo foram Paul Klee (conforme você estudou na seção 1), em função de seus estudos obstinados com as harmonias da forma, e Wassily Kandinsky (Alemanha, 1966-1944), o primeiro a abandonar qualquer referência à realidade em sua obra.

Kandinsky comparava a pintura com a música. A música não precisa ter uma letra, uma referência ao mundo externo, para atingir nossa emoção, uma música instrumental pode provocar uma experiência estética plena. As artes plásticas também não precisariam contar uma história, representar alguma coisa, mas poderiam atingir nossos sentimentos e emoções apenas pelas formas e cores.

A arte não é um problema cognitivo, intelectual ou racional, mas é explicada em termos psicológicos. Os argumentos de artistas e teóricos se embasam principalmente no desenvolvimento da psicologia experimental: como as formas nos atraem ou repelem? Como as formas se tornam significativas?

As formas têm um conteúdo próprio que pode agir como estímulo psicológico. São expressivas quando provocam determinadas sensações e comportamentos (você estudou na Unidade 2, os efeitos psicofísicos provocados pelas cores) e se identificam com os sentimentos do observador.

Kandinsky elabora uma teoria das linhas, cores e formas, uma teoria da linguagem abstrata.

Por exemplo, as formas influenciam nossa percepção das cores, um quadrado, um círculo ou um triângulo vermelhos podem ser percebidos como tendo tonalidades diferentes. As cores também influenciam as formas, o amarelo parece aumentar a área, o azul tende a diminuí-la pela sensação de profundidade e o vermelho não se expande nem contrai. Mas a teoria de Kandinsky aborda também o que ele considera os aspectos espirituais das formas e cores. Kandinsky é o inventor da arte expressionista abstrata.

Além do caráter expressivo com fins comunicativos, a arte também explorou o inconsciente, os sonhos, o gesto e a força física do artista, a atitude fortuita e casual, o irracional.

O Dadaísmo, fundado em Zurique por um grupo de refugiados da 1ª Guerra Mundial, expressa a sensação dos que viveram em um mundo onde dez milhões de pessoas foram massacradas e que não encontraram razão para isso. E se não era possível confiar na razão e na lógica estabelecida no mundo, então, optaram pelo absurdo.

O grupo era formado por poetas, filósofos e artistas, entre eles Hans Arp, Tristan Tzara, Hugo Ball. Eles não tinham um programa, a não ser a idéia de ironizar e desmistificar todos os valores da cultura burguesa, inclusive a arte, e fazer uma antiarte arte. O ponto de encontro em Zurique era uma cervejaria batizada de Cabaré Voltaire.

Uma intervenção Dada era uma imprevisível manifestação do absurdo e do irracional. Podia, por exemplo, consistir de vários poetas declamando simultaneamente versos insensatos em diferentes línguas, enquanto outros latiam e uma menina vestida de primeira comunhão declamava poemas obscenos.

O que parecia brincadeira de criança e zombaria, com as experiências de artistas como Marcel Duchamp, Man Ray e Picabia, acabou por lançar bases para uma profunda mudança na linguagem artística, uma inovação estética, uma nova forma de fruição artística e um novo comportamento que irá caracterizar a arte contemporânea, como veremos na próxima unidade. Duchamp, que participou brevemente dos movimentos Impressionista, Fauvista e Cubista e antecipou o nascimento do movimento Dadaísta, será também um influente artista da arte conceitual.

Vamos conhecer, agora, um pouco mais sobre esses trabalhos que expandiram o Dadaísmo para novas técnicas e novos campos expressivos e tentar entender como nesse momento, em que a arte abstrata já está consolidada, começa a se esboçar outra importante mudança na arte rumo a uma poética contemporânea.

As mudanças na arte que ocorreram com o Cubismo, Futurismo, Abstracionismo não estavam, para os dadaístas, tão distantes da ideia tradicional de arte, mantinham a idéia de produzir objetos quadros e esculturas para o mercado.

Não ocorrera uma revolução, a não ser dentro da concepção “histórica” da arte como forma e da forma como objeto; mas enquanto a arte permanecesse produção de objetos, a razão social da arte permaneceria inalterada, porque na sociedade burguesa o objeto é a mercadoria, a mercadoria é a riqueza, a riqueza é autoridade e poder. (ARGAN, 1998, p. 355).

O que esses artistas propõem é que qualquer objeto pode vir a ser arte, não é preciso o artista desempenhar o processo técnico nem produzir um objeto, a arte é um processo mental. Portanto, o artista não precisaria ter habilidades para desenhar, pintar, esculpir.

Criam ambiguidades combinando elementos de forma inusitada, ou simplesmente descontextualizam os objetos, tirando-os de sua função utilitária e lhes conferindo uma função nova: a contemplação estética. Esses novos objetos artísticos Marcel Duchamp chama de ready mades.

Na figura 4.24, Marcel Duchamp fixa uma roda de bicicleta em um banquinho e expõe o objeto. Mas, então, para que serviria a roda girar? Man Ray coloca pregos soldados em um ferro de passar roupas, justo em um ferro de passar roupas.

Com seus ready mades, Duchamp tira a função do objeto e o apresenta na sua especificidade estética. Por exemplo, coloca um mictório na vertical e dá o título de Fountain (Fonte). Para ele, esse objeto exposto em um salão de arte seria arte, o objeto de arte poderia ser simplesmente eleito pelo artista. Duchamp queria colocar a arte a serviço da mente.

Duchamp eleva à categoria de arte objetos industriais de uso cotidiano apenas deslocando a visão que se tinha deles, mas também faz o inverso, ao invés de promover um objeto industrial à arte desmistifica com ironia os valores estabelecidos. Veja o “bigodinho” na Monalisa.

O Dadaísmo em 1922 se dissolveu no anarquismo.

O movimento Surrealista dois anos depois explorou também o irracional e o automatismo psíquico. Influenciados pelos estudos de Freud sobre os sonhos e a Psicanálise, alguns surrealistas como Miró e Max Ernest usavam técnicas de composição e associação de idéias baseadas no improviso, outros, como Salvador Dali e Magritte, racionalizavam o delírio e usavam técnica realista para expressar suas idéias.

6 A Arte Como Expressão II

Magritte, em muitos trabalhos, investiga a própria linguagem da pintura e provoca o observador a refletir sobre a arte e a ilusão.

O quadro Isto não é um cachimbo (Figura 4.28) é emblemático de sua produção, é também uma obra que antecipa a arte conceitual: não é um cachimbo, é uma pintura de um cachimbo.

Além de representar é possível fazer arte abstrata, arte com objetos não artísticos, arte apenas com idéias, arte com acasos. A partir daí, também podemos observar uma tendência de desmaterialização do objeto artístico e uma aproximação da arte ao acontecimento.

Para explicitar essa direção artística que se desenvolve a partir da Segunda Guerra com os Happenings, a Body Art, a Arte Conceitual, vamos ainda falar de mais uma forma de experimentação artística.

A arte foi se libertando da exigência de redução e simplificação como nos movimentos do Neoplasticismo e Suprematismo, da utilidade e de expressar os impulsos da alma como nos movimentos expressionistas e pode agora manifestar a pura tensão, movimento e força física do gesto do artista. Pollock (EUA) é um iconoclasta, não parece pretender nada com sua arte além do prazer de fazer. Oferece o registro da sua atividade gestual, sem objetivos prévios e intenções significativas. Usa grandes telas espalhadas no chão e se movimenta na volta ou pendurado sobre elas pingando tinta e traçando fios e manchas ao acaso.

Sua obra foi considerada um bom exemplo de obra aberta pela sua indeterminação. O espectador poderia buscar significados no ritmo da densa trama de sua pintura. Essa arte é chamada de Informalismo ou Action paiting.

— Você estudou na Seção 1 os movimentos que priorizaram a investigação sobre a forma; na Seção 2, os movimentos que priorizaram a expressão. Na próxima seção, você vai estudar mais um pouco sobre esse período da História (dos pós-impressionistas no final do século XIX até a metade do século XX), um período marcado pelo acelerado desenvolvimento industrial, grande crescimento das cidades e duas guerras mundiais, procurando identificar como essas idéias influenciam a produção em massa e o design em suas origens. Esses movimentos acontecem simultaneamente, como mostra o Gráfico 4.1.

7 Origens do design

Lembram que até o final do século XIX nos salões oficiais a pintura era tradicional e baseada em estilos históricos?

A forma era um invólucro bem acabado para uma idéia ou coisa: um fato heróico, um ensinamento, uma representação do visível, uma expressão dos sentimentos do artista. Só depois se foi percebendo que a forma também era expressiva e significativa por si mesma.

A arquitetura burguesa também enfatizava a tradição e tinha um estilo eclético, ou seja, as obras de engenharia eram adornadas pelos estilos Clássico, Barroco, Gótico, às vezes misturados e adaptados para os fins particulares. Os objetivos públicos, urbanísticos não eram ainda considerados por esses arquitetos e pelos especuladores imobiliários das já grandes cidades. Mas foram justamente os problemas urbanísticos da cidade insalubre, feia e alienante nos bairros operários e fábricas, com estrutura inadequada para sua nova funcionalidade, que cobraram maior urgência e exigiram de arquitetos e artistas atitudes projetuais mais conscientes.

Nessa época, eram feitas grandes exposições de arquitetura e de produtos industriais. Em 1851, a primeira grande mostra, em Londres, já apresentava muitos produtos com técnica e estilo avançados. Para essa exposição foi construído, em quatro meses e meio, o Palácio de Cristal, com estrutura modular pré-fabricada de ferro fundido e paredes de vidro.

A modernidade dessa construção sofreu críticas dos que defendiam os estilos históricos. Mas em 1889, na exposição em Paris, a construção da Torre Eiffel é o ponto alto. A torre, uma treliça metálica com 300 metros de altura, cuja única função era dar visibilidade para a sua estrutura técnica, um monumento urbano à engenharia moderna, logo se torna símbolo de Paris.

O ferro e o concreto, que até então eram disfarçados por colunas de estilos antigos, começam a se mostrar. Assim como a pincelada rápida e marcada dos impressionistas substituiu o liso verniz neoclássico.

E as possibilidades desses materiais eram muito ricas para novas configurações. É o que veremos acontecer com o nascimento de um novo estilo.

Na passagem do século XIX para o século XX, uma Arte Nova, uma moda - moda de uma sociedade de consumo em massa - se dissemina por toda a Europa e os Estados Unidos.

Na pintura, o trabalho de Paul Gauguin (1848-1903), contemporâneo e amigo de Van Gogh, também teve uma repercussão importante na definição dessa linha de desenvolvimento artístico.

Gauguin se afastou da sociedade moderna e buscou, junto com os povos não corrompidos pela sociedade moderna, uma autenticidade e ingenuidade primitivas, fonte da criação. Foi viver no Taiti, não para imitar a arte desse povo, mas viver com eles e explorar suas próprias sensações. Defendia pintar não o que se vê, mas o que se guardou na memória, para comunicar um pensamento.

As repercussões da arte primitiva, como o exemplo da obra de Gauguin, podem ser identificadas em muitos trabalhos de artistas modernos, na publicidade, nas artes gráficas, no design.

Comumente estudamos os movimentos artísticos da história oficial européia e, principalmente, de artistas homens. As mulheres ainda eram minoria nesse mundo da arte. Essas são nossas principais referências porque determinaram o debate artístico e sua institucionalização, inclusive nas escolas de arte brasileiras.

Mas muitas formas paralelas de desenvolvimento artístico estavam acontecendo. Não só a obra de Gauguin, mas a descoberta e valorização de outras formas de expressão, começam a acontecer. A arte africana, com suas máscaras e estilização das formas, por exemplo, exerceu forte influência no Cubismo e na escultura moderna. As gravuras japonesas de imagens planas com valorização da linha e composição assimétrica, como instantâneos aparentemente casuais do cotidiano, eram colecionadas entusiasmadamente pelos impressionistas.

O artesanato das Américas do Sul e Central e a arte tribal de povos não-europeus também foram importantes na formação da arte moderna.

Um grupo de artistas franceses, chamados de “feras” (Fauves), porque exploraram a cor de forma intensa e irreal, pode sintetizar essas influências. Henri Matisse (1869-1954) é o principal representante desse grupo. Seu trabalho marca a linha do desenho e utiliza as cores puras e chapadas, em um estilo gráfico.

Sempre busquei ser compreendido, e, quando via minha obra ser deturpada pelos críticos ou confrades, dava-lhes razão, achando que não fora suficientemente claro para ser compreendido. (Matisse 1952 apud CHIPP 1996, p. 140).

As idéias de William Morris (1834-1896), socialista, pintor, projetista e escritor, que percebendo os problemas da industrialização em massa defendia uma revalorização do processo artesanal e do trabalho criativo, tornam-se famosas. A empresa inglesa Morris & Co. na Inglaterra e o movimento Arts and Crafts (Artes e Ofícios) que se criou em torno dela reuniu vários artistas e pretendia renovar a produção unificando o projeto e a execução, como no artesanato. O trabalho nas fábricas era alienante, como mostrou Marx, porque o operário que só apertava um tipo de parafuso não conhecia o resultado final do seu trabalho e não poderia ter prazer, orgulho ou envolvimento com o processo. Morris pretendia que o operário tivesse uma atividade criativa para concretizar a arte na vida. Essa concepção estética, contrária à da máquina, era muito cara e fracassou com o desenvolvimento acelerado da indústria no final do século. No entanto, a ideia de que um sentimento artístico da vida deveria se refletir na fabricação dos objetos cotidianos é compartilhada com o nascente Movimento Art Nouveau.

A Arte Nova era chamada de Art Nouveau na França, Modern Style na Inglaterra, Modernismo na Espanha, Sezessionsstil na Áustria, Jugendstil (estilo jovem) na Alemanha, Liberty na Itália. Suas linhas curvas, floridas e em forma de heras são percebidas na arte, na arquitetura, nos objetos, nas artes gráficas e na tipografia, nos equipamentos urbanos, na decoração, nas roupas, nas jóias e até nos corpos. As mulheres deveriam ter curvas em “S”, seios e bundas volumosos e uma cintura finíssima.

A Art Nouveau também pode ser observada nas artes gráficas, em especial nos pôsteres que inundam as charmosas ruas de Paris do fim do século e despertam a atenção de todos. Os cartazes de Toulouse-Lautrec marcam esse período nas artes gráficas.

Considera-se que ocorreu uma transição das artes gráficas para o design gráfico quando houve a integração da produção artística e industrial. A litografia permitiu que os designers desenhassem suas próprias letras e imprimissem amplas áreas de cores, tendo domínio sobre os processos de produção e reprodução de imagens e textos.

Na litografia, os designers pintavam à mão as pedras litográficas, uma para cada cor. Antes disto, normalmente o próprio impressor selecionava os tipos entre os poucos existentes e montava o texto. Observe as fontes decorativas Art Nouveau nos projetos para impressão em litografia (figura 4.45) comparativamente aos anúncios tipográficos da figura 4.44.

O decorativismo de formas orgânicas da Art Noveau não está mais ligado ao artesanato e às idéias socialistas de William Morris e nem contribuem para que o trabalho operário seja mais criativo e menos degradante. Os artistas desenvolviam um trabalho de arte aplicada que agregava valor aos produtos da indústria. Estavam, principalmente, interessados na psicologia da cidade para tornar o lugar da existência mais elegante, moderno e alegre, uma nova paisagem. Mas a cidade rica e adornada era interrompida quando iniciavam os subúrbios das fábricas e os enormes bairros operários. A Art Nouveau também serviu para revelar as contradições, e quando os conflitos se intensificam nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, o movimento se dissolveu.

No período que antecede a guerra, as experimentações futuristas marcaram o design gráfico. Exaltavam o movimento e as formas da máquina moderna e mostraram que as letras e as palavras também eram imagens e podiam ser exploradas de forma significativa. Variavam não apenas os tipos, tamanhos e pesos das letras, mas sua composição na página. A publicidade era para os futuristas a manifestação da vida moderna e a influência desse movimento no design gráfico foi importante. Os dadaístas deram continuidade a esses experimentos.

Mas foi a guerra que revelou a importância que o design gráfico assumiria no mundo moderno. A guerra e os movimentos políticos exigiram um grande empenho para a produção de materiais informativos, signos de identificação, diagramas, manuais de instruções, ilustrações, campanhas publicitárias para recrutar pessoas, persuadir à contribuição financeira e estimular o espírito patriótico, campanhas contrárias aos horrores da guerra, etc. Tudo isso, em um período em que a comunicação em massa ainda não contava com o rádio e a televisão.

Os pôsteres foram muito utilizados na propaganda, e a fotografia, que já podia ser reproduzida em preto e branco e possibilitou as montagens, tornou-se um recurso de comunicação poderoso.

A Primeira Guerra Mundial reordena a economia e a sociedade mundial. Como vimos, a partir daí, os movimentos artísticos se multiplicam e as vanguardas revolucionam constantemente a forma e a expressão dessa modernidade. No período pós-guerra está acontecendo o movimento Dadaísta, o Expressionismo tardio na Alemanha, o Neoplasticismo na Holanda, o Suprematismo e o Construtivismo na URSS.

O desenho industrial e a arquitetura adquirem características peculiares em diferentes países, mas para o desenvolvimento do design gráfico, a Alemanha e os EUA foram as principais referências desse período.

Depois da guerra, a Alemanha estava desorganizada, endividada, com a capacidade produtiva da indústria em baixa e ameaçada pelos movimentos proletários, e os Estados Unidos eram um país emergente.

8 O design alemão

A Alemanha investe na educação e na pesquisa para adequar a sua produção ao mercado e reformular a economia do país. Para isto, reúne várias experiências artísticas das vanguardas européias e soviéticas e discute como aplicar essas idéias na prática projetual.
Naquele país, a política econômica do Estado, ainda antes da guerra (percebendo a importância da adequação dos produtos à produção e ao consumo, ou seja, a importância do design), cria uma associação de artistas, arquitetos, designers e artesões, a Deutscher Werkbund, buscando desenvolver um padrão estético capaz de fortalecer o mercado interno.
Peter Behrens, membro da associação, é considerado o precursor do design gráfico moderno por concretizar em seus projetos a idéia de integração das diferentes artes: arquitetura, design, publicidade.
Peter Behrens, contratado como conselheiro artístico da AEG, grande empresa alemã, fabricante de produtos elétricos, desenvolve o que seria o primeiro projeto visual integrado, incluindo o projeto arquitetônico das fábricas, a marca, os catálogos e mostruários.
Diferentemente das idéias da Art Noveau e do movimento Artes e Ofícios, o que começamos a observar nos trabalhos de Peter Behrens é uma preocupação com a adequação dos projetos para a fabricação industrial e a produção para o consumo em massa.
Na arquitetura e no design, as principais tendências modernas se desenvolvem segundo alguns princípios:
* racionalização das formas;
* padronização da produção em série;
* ideologia do progresso baseado na racionalidade técnica e científica;
* valorização da educação;
* integração de todas as artes na arquitetura;
* qualificação do design como forma de desenvolvimento social.
À esses princípios, a escola Bauhaus na Alemanha reuniu idéias artísticas de diferentes movimentos vanguardistas elaborando um programa rigoroso e lúcido de trabalho, que também valorizava as concepções estéticas formalistas.
A Bauhaus foi criada em 1919 em Weimar, na Alemanha, com a união da Escola de Artes e Ofícios e da Escola Superior de Artes Plásticas, sob a direção de Walter Gropius.
Nesse momento, eram acirradas as divergências entre comunistas e capitalistas, entre os que buscavam a internacionalização da economia e do sistema político e os que queriam fortalecer os nacionalismos.
Gropius era social-democrata e a Bauhaus foi uma escola democrática em seus princípios e métodos pedagógicos. A escola reunia arquitetos, designers, artistas de diferentes estilos e artesãos em um trabalho que valorizava a pesquisa conjunta de mestres e alunos e a colaboração interdisciplinar nos projetos.
Gropius considerava que a sociedade democrática devia ser funcional e não hierárquica, a própria sociedade é que deve se auto-organizar e determinar seu progresso. Por isto, a educação era considerada fundamental. O urbanismo é o centro das atenções. A organização da sociedade é a cidade, e a cidade é concebida como um sistema de comunicação. Tanto a cidade, como a casa, os objetos, e a comunicação visual deveriam ser projetados para atenderem ao dinamismo de sua funcionalidade. Mas a atividade projetual não poderia ser apenas racionalista e mecanicista. Quando se projeta, se projeta para um grupo de pessoas, e é necessário considerar a experiência dessas pessoas ao usufruir o espaço ou utilizar os objetos, inclusive em seus aspectos psicológicos.
Walter Gropius era a figura mais deslumbrante do panorama mundial para aqueles jovens arquitetos americanos que empreenderam uma peregrinação pela Europa. (...) A Bauhaus era mais do que uma escola, era uma comunidade, um movimento espiritual, um acesso radical à arte em todas as suas formas, um centro filosófico comparável ao jardim de Epicuro. Gropius, o Epicuro desse jardim, era magro, sensível, porém meticulosamente cuidadoso; cabelo negro, penteado para trás, bem parecido, irresistível para as mulheres, correto ao estilo clássico e versado em mundologia, oficial da cavalaria durante a guerra e condecorado por sua audácia; um personagem que era capaz de irradiar sabedoria, superioridade e força persuasiva. Tom Wolfe (BÜRDECK, 1994, p. 30).
No período de formação da Bauhaus, a Alemanha vivia uma retomada do Expressionismo tardio e Gropius convidou artistas de movimentos abstratos e expressionistas como Kandinsky e Paul Klee para lecionarem. O curso básico da Bauhaus era um ponto forte, os alunos e mestres estudavam as formas, observando, analisando, experimentando configurações e materiais, inventando. Os alunos também estudavam teatro e os processos imaginativos eram estimulados. Depois do curso básico, eles escolhiam os ateliês de tipografia, vidro, cerâmica, carpintaria, metal e também estudavam formas de gestão.
Na segunda fase da escola em Dessau (de 1923 a 1929), aprofundou-se a ideia de que os objetos deveriam se adequar perfeitamente a sua função e serem acessíveis economicamente para a maior parte da sociedade.
Nesse período, as influências das vanguardas construtivistas e do movimento De Stjil (de Mondrian) são absorvidas e adaptadas ao estilo Bauhaus. Esses movimentos defendem a morte da arte burguesa, da arte pura e a total integração do estético na produção dos objetos do cotidiano, na construção material de uma nova sociedade. O valor e a função social da arte não está em ser representativa, ou decorativa, mas funcional. Desprezavam a idéia de obra de arte como objeto único e valorizavam a produção mecânica de imagens como a fotografia e as técnicas de impressão para reprodução em massa.
O movimento Construtivista russo é político, social, mas também é inovador nos aspectos formais. Buscava a forma adequada à produção mecânica e considerava que cada material tinha características específicas que ditavam as formas que lhe seriam próprias, as obras deveriam procurar essa forma, seguir essas leis da criação.
A Bauhaus adota a ideia de que a forma deve seguir a função, de que uma forma é bela quando é perfeitamente adequada à sua utilidade.
A tipografia da Bauhaus, por exemplo, privilegiava o uso de fontes sem serifa, com base geométrica, explorava também fios verticais e horizontais para separar e organizar as informações, mas tais elementos eram moldados por necessidades funcionais, ou seja, com objetivos de comunicação. E a comunicação deveria ser feita de forma simples e penetrante.
Depois de Gropius, de 1928 a 1930, Hannes Meyer dirigiu a Bauhaus e enfatizou os aspectos de normatização e as técnicas criativas aplicadas em vez de experimentos artísticos. Hannes Meyer deixou a direção por questões políticas e, depois dele, Mies van der Rohe dirigiu a Bauhaus até seu fechamento.
O movimento artístico moderno também foi um movimento de implicações políticas. As forças reacionárias, como o nazismo na Alemanha, o fascismo na Itália e o estado burocrático da URSS impediram o desenvolvimento da arte, da arquitetura e do design modernos e adotaram um suposto estilo clássico. Com a ascensão do nazismo ao poder, a Bauhaus é fechada em 1933, e a maioria dos professores e alunos emigram para outros países, principalmente para os EUA.
Os EUA chamavam a atenção pela capacidade e liberdade produtiva, pelo cinema, os anúncios e as revistas, os arranha-céus. Para muitos, a América parecia ser um lugar maravilhoso e o território americano passa a ser o novo palco para o design moderno.

9 Design americano

Os EUA, especialmente a elite de Nova Iorque, também tinham interesse e admiração pela cultura européia e buscavam talentos entre esses profissionais. Quando se aproxima a Segunda Guerra Mundial e muitos artistas e designers europeus emigram para a América, estes assumem postos importantes em escolas, escritórios e agências de publicidade. A cultura americana assimilou muito dessas contribuições adequando-as aos seus interesses.
O design alemão foi reconhecido, e em muitos aspectos seguido, por desenvolver uma metodologia de projeto adequada às exigências técnicas e às necessidades funcionais sem abrir mão de buscar uma concepção estética particular. Criou-se o mito de que a Bauhaus elaborou uma maneira de projetar objetos que era a única certa. O exemplo da Bauhaus determinou a formação curricular e os projetos pedagógicos de muitas escolas de desenho industrial na América.
Nos EUA, a cultura mais objetiva, e o liberalismo econômico contribuíram para que a idéia “a forma deve seguir a função” fosse adotada na prática e sem tantas preocupações com a definição de um padrão estético. O desenvolvimento do design e da arquitetura se deu mais por meio dos grandes escritórios e das agências de publicidade do que de escolas.
A estratégia da obsolescência planejada criada nos EUA também favoreceu o consumismo. Pequenas mudanças estilísticas, como o que acontece com os carros do ano, criavam o desejo permanente do novo.
A diferença entre o Bom Design e o Styling Americano, ou seja, entre a Boa Forma do funcionalismo e o design comercial, se explicita. No design alemã, por exemplo, a ênfase era o nome do produto, a imagem vinha das características do produto, enquanto o design americano, mais próximo da publicidade, valorizava um grande título sintetizando a mensagem e imagens ilustrando um conceito de marketing
O design americano enfatizava uma mensagem que deveria permear toda a comunicação visual. Deveria haver uma relação direta dos elementos gráficos com a função ou mensagem que se pretendia comunicar. Nesse período, eram os diretores de arte das agências que desenvolviam os projetos gráficos.
Lucian Bernhard, designer alemão radicado nos EUA na década de 1920, comenta que: “O americano quer uma imagem e uma idéia. Para ele, uma idéia puramente visual não é uma idéia. Ele quer aquilo que chama de ‘interesse humano’.” (HOLLIS, 2001, p. 67).
A ideia de valorizar um tema único que integre a comunicação visual das empresas terá forte influência no design gráfico a partir de então. A cultura americana da sociedade de consumo repercute em diferentes países e as agências de publicidade se disseminam.
No início do século XX, existia uma euforia quanto a novas atitudes projetuais serem capazes de incrementar as possibilidades humanas. Mas o projeto moderno, cientificista e racionalista, não foi capaz de promover o prometido “bem-estar social”, nem construir um mundo mais consciente e criativo.

10 Síntese

Nesta unidade, você estudou sobre os movimentos modernos de vanguarda que vão se aproximando cada vez mais da abstração.
Os movimentos artísticos defendiam uma participação na atividade industrial e utopicamente na transformação dessa sociedade industrial em uma sociedade justa, moderna, ética e estética por meio da arte, da arquitetura e do design. Outros movimentos, em oposição aos problemas dessa sociedade, colocaram-se em posição crítica ou alienada e defenderam uma arte pura, independente da produção industrial.
Além disso, você conheceu quais foram os principais movimentos de investigação da forma: o Cubismo, o Futurismo, o Neoplasticismo e o Construtivismo, que tendem a não mais representar a realidade, iludir, emocionar. Estudamos também os movimentos Expressionistas — que valorizam as formas para provocar uma sensação — e os movimentos do Dadaísmo, Surrealismo e o Informalismo, que exploram o acaso, o inconsciente e o gesto livre.
Os ready mades, objetos utilitários que foram transformados em arte quando usados em novas combinações e contextos, são importante exemplo de que a arte não é mais demonstração da habilidade do artista para desenhar, esculpir ou pintar, mas criação de algo novo. Algo para pensar. Estudamos também os movimentos das artes aplicadas, como o movimento Arts and Crafts, a Art Noveau e as influências que tiveram das artes de povos não-europeus, como a arte japonesa.
Com o conhecimento adquirido do mundo das artes e das técnicas de produção industrial, o design vem responder à necessidade de se projetar o mundo material, agora produzido em massa. A necessidade de comunicação, informação, criação de signos de identificação, diagramas, manuais técnicos, publicidade, embalagens tornam o design indispensável no mundo moderno.
As associações profissionais e as escolas alemãs — especialmente a Bauhaus —, que desenvolvem design com um ideal social de qualidade acessível para todos, e as agências de publicidade americanas são as principais influências para o design gráfico na sua origem.

11 Saiba mais

Para aprofundar as questões abordadas nesta unidade, você poderá pesquisar os seguintes livros:
ARGAN, Giulio Carlo. Arte moderna: do iluminismo aos movimentos contemporâneos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
BAUMGART, Fritz. Breve história da arte. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
BÜRDEK, Bernhard E. Diseño: historia, teoría y práctica del diseño industrial. Barcelona: Gustavo Gili, 1999.
CHIPP. Herschel B. Teorias da arte moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
DE FUSCO, Renato. História da Arte Contemporânea. Lisboa, Presença, 1988.
GOMBRICH, Ernst Hans. A história da Arte. Rio de Janeiro: LTC, 1999
HOLLIS, Richard. Design gráfico: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
SOUZA, Pedro Luiz Pereira de. Notas para uma história do design. Rio de Janeiro: 2AB, 2000.
STRICKLAND, Carol; BOSWELL, John. Arte comentada: da pré-história ao pós-moderno. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.