A Função do pedagogo como Supervisor Escolar

Supervisão Escolar e Orientação Pedagógica

1 A função do pedagogo como supervisor escolar:

Desde a implantação da figura do Especialista de Educação foi instalada a fragmentação tanto na formação inicial dos educadores quanto do trabalho educativo no interior da escola. O curso de Pedagogia através do modelo pedagógico em habilitações, contribuiu para suprimir da formação do educador o caráter totalizador da ação educativa, dado que as formações do professor e do especialista recebiam um tratamento diferenciado, distanciando este último da função docente. Assim, o Especialista de Educação, com um saber limitado, passou a ser um dos sujeitos determinantes, no contexto das políticas de caráter centralizadoras e totalitárias, dado que era quem operacionalizava, no interior das escolas, a ideologia dominante, especialmente através dos currículos, garantindo o cunho filosófico e político da Lei 5.692/71, que segundo Medeiros objetivava preparar a mão-deobra para trabalhar tanto na máquina estatal como no mercado, bem como especializar o trabalhador para atender as demandas da iniciativa privada, especialmente as multinacionais que se aglutinavam no país durante a década de 1970.

Nesse sentido, a citada lei determinou no Artigo 33 que "a formação de administradores, planejadores, inspetores, supervisores e demais especialistas de educação seria feita em curso superior de graduação com duração plena ou curta, ou de pós-graduação". Isto veio a reforçar o estabelecido na lei 5.540/68, no que concerne à formação de Especialista de Educação, dado que determinou a obrigatoriedade da presença de Especialistas de Educação nos estabelecimentos de ensino, garantindo, deste modo, à perpetuação da ideologia dominante.

Respondendo aos interesses econômicos da época a política educativa foi considerada um assunto de interesse econômico e de segurança nacional, send que o Especialista de Educação passou a exercer, nos diversos setores do sistema educacional, a função de promover as condições necessárias para implantar o controle do ensino. Assim, a pretendida neutralidade técnica que era colocada como elemento que configurava o Especialista, era na verdade, uma camuflagem, para que, cada vez mais, as decisões emanadas dos escritórios do MEC, fossem substituindo a participação social no processo de tomada de decisões dentro da escola. Mas apesar da grande repressão implantada pelo regime militar, a sociedade brasileira foi-se organizando e resistindo aos embates contra a sociedade civil. Assim, no final da década de 70, a classe trabalhadora ameaçada começou a organizar-se, através dos sindicatos e associações que foram fortalecendo as lutas sociais.

Esses movimentos passaram a se generalizar por várias categorias de profissionais, dentre elas a dos educadores que, através de suas associações, promoveram vários eventos na busca de reconquistar a sua identidade. Por outro lado muitos educadores e intelectuais progressistas iniciaram uma crítica cerrada ao sistema questionando a política educacional primando por melhorias no sistema e nos cursos de formação de educadores, se estendendo até o final dos anos 70. Em outubro de 1979, acontece o encontro Nacional de Supervisores de Educação, na ocasião defendia-se uma tese de que a função do supervisor é uma função política e não apenas técnica.

Com criação dos cursos de pedagogia tornavam pedagogos habilitados em supervisão escolar que seguiam, ainda, um modelo ideológico, embora mais moderno. Percebe-se então que a concepção havia mudado, mas a sua formação não, e esse profissional estava longe dele próprio se ver como político, com identidade própria, já que desde a sua origem ele sempre defendeu apenas os interesses dos dominantes e não tinha poder algum de decisão. Nessa fase da história, mesmo sem poder decisório, o supervisor teria que se integrar a essa nova ideia de ser um profissional que exerceria funções políticas, com autonomia e que envolveriam a escola, a comunidade, o sistema e os planejamentos.

Hoje a função supervisora se mostra bem mais ampla e o profissional dessa área entende a verdadeira essência desse termo: “supervisor”, aquele que vêo geral, que vê além e articula ações entre os elementos que envolvem a educação. O supervisor de hoje sabe que precisa ser um constante pesquisador e com isso poderá contribuir para o trabalho docente, pois essa equipe conta com a sua orientação e apoio.

Ser supervisor não é fiscal de professor, não é dedo duro[...]não é pombo correio[...]não coringa/tarefeiro/quebra galho/salva vidas[...] não é tapa buraco, não burocrata[...]não é de gabinete, não é dicário[...]não é generalista que entende quase nada de quase tudo. (VASCONCELLOS)

A função supervisora, nos dias atuais, se mostra através de profissionais maduros, capacitados para melhor executar propostas de resolução de problemas e enfrentar os desafios na escola os quais exigem o olhar investigativo do Supervisor Escolar como um agente articulador das políticas internas e externas da escola. Apesar de ainda existir muita negatividade dentro das escolas e muitas vezes o supervisor ter que se deparar com situações de descrédito por parte da equipe escolar, resistências e banalização do seu trabalho, ele tende a não desistir porque já entendeu que é capaz de transformar, já se vê como político, como um articulador e extrapola a esfera pedagógica, criando uma onda de relacionamento mais estreito com os docentes, as famílias, a comunidade, o sistema e outros elementos que possam se integrar à escola.

[,,,] É importante lembrar que, antes de mais nada , a coordenação é exercida por um educador,e como tal deve estar no combate a tudo aquilo que desumaniza a escola:a reprodução da ideologia dominante, o autoritarismo, o conhecimento desvinculado da realidade, a evasão, a lógica classificatória e excludente [...],a discriminação social na e através da escola, etc.(VASCONCELOS)

Um grande desafio que ainda é enfrentado, é o fato da função supervisora já ser reconhecida e mesmo assim não ser regulamentada, é importante salientar, pois que é muito comum confundir regulamentação profissional com o reconhecimento da profissão e a garantia de direitos, quando, na verdade, regulamentar significa impor limites, ordenar competências, atribuições e fixar responsabilidades. Mas com o intuito de regulamentar essa profissão o Senado aprovou, no dia 18 de outubro de 2007, o projeto de lei oriundo da Câmara com o n° 132/05, que regulamentou a profissão de supervisor educacional.

Os profissionais que atuam no ramo, normalmente como supervisores, coordenadores ou orientadores pedagógicos, agora têm sua situação regulamentada através desta lei. Na sua justificação, o autor, o então deputado Federal Cezar Schirmer se baseia e apresenta como razão para aprovação, a necessidade de regulamentação das atividades de administração escolar, aos supervisores educacionais, graduados em Pedagogia, com habilitação em Supervisão Educacional ou Supervisão Escolar ou, ainda, pós-graduados nessas áreas, no que dispõe a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394, de 1996), que, em seu art. 64, que estabelece que a formação de profissionais de educação para administração, planejamento, inspeção, supervisão e orientação educacional para a educação básica, será feita em cursos de graduação em Pedagogia ou em nível de pós-graduação, a critério da instituição de ensino, garantida, nesta formação, a base comum nacional.

Portanto, é possível dizer que a figura de supervisor foi sendo construída historicamente conforme a necessidade da sociedade. Atualmente seu papel já precisa responder o ato de planejar, coordenar, orientar, dialogar, auxiliar, estudar, discutir as problemáticas presentes no dia-a-dia e, ainda, buscar junto ao coletivo os temas para a formação dentro do interior da escola, sem perder de vista, a política de educação, onde a escola está inserida.

Podem-se citar ainda nos dias atuais, outros desafios que se mostram bastante visíveis, como: a falta de estrutura dos estabelecimentos de ensino, os recursos escassos, a má vontade de alguns educadores, alguns alunos, por parte de alguns funcionários administrativos, o autoritarismo dos diretores, enfim, uma série de coisas que dificultam o trabalho do supervisor, mas que não o impedem de criar na sua atividade profissional, meios de mudar esta realidade e fazer com que a escola mude sua cara, e se transforme na escola de nossos sonhos.

Diante da forte crise de incentivo para o trabalho que os educadores estão vivenciando, e da conseqüente resistência á mudança.há o perigo de o coordenador cair na postura moralista no trato com os professores.Não “moralizar”significa não fechar a porta para o outro; acreditar na possibilidade de mudança do outro; ao invés de ficar preocupado em julgar e rotular alguém [...], procurar, antes de mais nada, compreender o porquê daquele ato situação[...], desta atitude de acolhimento, uma outra possibilidade de ser,. Podemos nos remeter aqui para uma metaleitura: quando dizemos isto a um supervisor é porque estamos procurando vivenciar este principio , acreditando que este supervisor [...], pode ter uma visão diferente a respeito dos professores com quem convive. (VASCOCELOS)

A simultaneidade e o grande acúmulo de tarefas confundem de certa forma o profissional no seu cotidiano, este é marcado por experiência e eventos que o levam com frequência a uma situação estressante resultante de diversos problemas diante de uma atuação desordenada, porém longe de desenvolver o seu trabalho de coordenar.

Diante dessa exposição surge a questão. Mas afinal o que é coordenar? Coordenar, do latim. Coordinar significa 'ligar', 'ajuntar', 'organizar', 'arranjar'. Coordenação, do latim. Tardio coordenationenos passa a ideia de: 'mediar', 'ligar', articular um trabalho em andamento. Procurar unir, dar sentido, uma articulação ao que está sendo feito individualmente. Portanto, o Coordenador Pedagógico atua ou deve atuar como elemento integrador, dinamizador de toda a equipe escolar. No cotidiano escolar, o Coordenador Pedagógico desempenha uma função que poderíamos afirmar que hoje é quase insubstituível.

A sua importância no universo escolar dá-se pelo fato de ser ele o articulador, o mediador das relações pais/professores/alunos/diretoria, evitando o desgaste que possa vir a acontecer entre esses pólos, que fazem parte da escola, com o compromisso de ações humanizadoras, capazes de gestar as transformações ocorridas na sociedade contemporânea. Neste sentido FERREIRA, diz:

Como prática educativa, a supervisão educacional, independentemente de formação especifica em uma habilitação no curso de pedagogia, em cursos de pós-graduação ou como conjunto de conteúdos desenvolvidos no curso de pedagogia, constitui-se num trabalho profissional que tem o compromisso de garantir os princípios de liberdade e solidariedade humana, no pleno desenvolvimento do educando, no seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho e, para isso,assegura a qualidade do ensino, da educação, da formação humana.

Seu compromisso, em última instância, é a garantia de qualidade de formação humana que se processa nas instituições escolares, no sistema educacional brasileiro,na atual conjuntura mundial.Não se esgota,portanto, no saber fazer bem e no saber o que ensinar, mas no trabalho articulador e orgânico entre a verdadeira qualidade do trabalho pedagógico que se tornará mais verdadeira em seus compromisso humanizadores,quando expressar e se constituir em pólo-fonte de subsídios para novas políticas e novas formas de gestão na intensidade espaço-temporal de transformações que a era da globalização e a sociedade do conhecimento ocasionaram. (FERREIRA)

O trabalho do coordenador é por si só complexo, porém, é essencial, uma vez que busca compreender a realidade escolar e seus desafios no cotidiano educativo, visando construir alternativas que apontem rumos adequados e satisfatórios para os participantes, propor um mínimo de consciência entre as ações pedagógicas, tornando as mesmas solidárias e não isoladas ou em conflito uma com as outras. Em sua atuação na função integradora e articuladora, o Coordenador Pedagógico está presente nas ações pedagógicas e didáticas desenvolvidas na escola, mantendo uma relação constante com professores, alunos e pais, constituindo-se num agente articulador no processo de construção do coletivo escolar.

O coordenador pedagógico, um dos atores da escola, conseguirá desencadear um trabalho transformador, à medida que o mesmo objetiva realizar o seu trabalho no intuito de alcançar uma ação intencional, interligada com a organização e gestão escolar e um trabalho coletivo, integrado com a comunidade escolar, onde ele cumprirá o papel de orientar, estimular e criar oportunidades de estudos coletivos, para a tematização da prática e suas questões, que envolvem a formação através de fundamentos teóricos e seus problemas e possíveis soluções, que se trocam e se aproximam nos relatos de experiências.

Dessa forma, espera-se que o Coordenador Pedagógico favoreça a organização dos atores e dos processos da escola, com atitude crítica e reflexiva, fazendo uso dos saberes adquiridos na sua formação acadêmica e na experiência profissional, com o intuito de nortear as relações existentes no ato de aprender e ensinar, transformando a escola num espaço onde se coordena o saber fazer e o saber aprender. Para tal é importante que o coordenador pedagógico compreenda realmente e tenha bem claro qual a sua real função, uma vez que ser coordenador pedagógico é maior de que planejar e executar projetos.

Enfim, administrar planejamento, mediado pelo desenvolvimento profissional e a formação do educador e com as relações sociais e interpessoais, presentes nas escolas, é administrar com a complexidade do humano, com a formação de um ser humano que pode ser sujeito transformador de si e da realidade, realizando ele mesmo resultado de sua intencionalidade. A Coordenação Pedagógica de uma escola deve diferenciar-se do modelo organizacional, cuja autoridade e poder se estabelecem nas relações verticais de dominação, indicando quem deve mandar e quem deve obedecer; ao contrário, na escola a Coordenação Pedagógica deve ser um ambiente favorável ao diálogo, nas relações com os professores, alunos, pais e com a gestão, pois o supervisor faz a transposição da teoria para a prática escolar, reflete sobre o trabalho em sala de aula, estuda e usa as teorias para fundamentar o fazer e o pensar dos docentes.

Um bom supervisor deve apresentar em seu perfil as seguintes características: auxiliador, orientador, dinâmico, acessível, eficiente, capaz, produtivo, apoiador, inovador, integrador, cooperativo, facilitador, criativo, interessado, colaborador, seguro, incentivador, atencioso, atualizado com conhecimento e amigo.

O supervisor escolar deve, portanto, ser habilitado e capacitado para realizar suas atividades no interior da escola. O sistema de ensino atual proporciona as referências legais para a redefinição do papel do educador, para uma função gestora que promova discussões para a construção do projeto político pedagógico da escola, onde a escola deve ser percebida como um espaço que lida com dois planos: o real e o ideal. E dentro daquele plano, o que já existe e estamos tentando mudar, é que dará voz as ações coletivas para o outro plano que poderá vir a existir. Percebemos o esforço de alguns profissionais em associar às teorias às suas práticas, incorporando o estudo à realidade de trabalho na medida em que vai aprendendo.

Contudo, o convívio democrático é uma construção que realiza no convívio democrático no espaço escolar, é um processo que se realiza a cada dia, com a participação de toda a comunidade interna e externa, e a coordenação desses trabalhos depende para serem realizadas, do coordenador pedagógico da escola e sua atuação consistente, crítica e participativa. E para que este processo se realize, exige um planejamento seguro de todas as ações, associando-as, incondicionalmente, ao projeto pedagógico, exigindo também o respeito à diversidade.