Estudo das línguas de sinais e estrutura gramatical

Libras: Língua Brasileira de Sinais

1 Estudo das línguas de sinais

Comumente quando conhecemos alguém lhes perguntamos logo o nome, como se chama, para que todas as vezes que quisermos nos referir àquela pessoa temos um signo que a representa.

O nome que estamos falando é o que na Língua Brasileira de Sinais denominamos de sinal pessoal ou somente sinal, costuma-se dizer que se trata de um nome visual, um batismo, para dar início à participação na comunidade surda.

Um nome visual, como o próprio nome diz se trata de uma marca, um traço visual próprio da pessoa. Quando tal pessoa ainda não tem um sinal (nome visual) usa-se o alfabeto manual que compõe o quadro das configurações de mãos usadas na Libras.

O alfabeto manual teve origem pela necessidade de representar as letras de forma visual e era usado principalmente para ensinar pessoas surdas a ler e escrever, na Libras o uso do alfabeto manual é caracterizado como um Empréstimo Linguístico.

Assim como todas as línguas a Libras tem seu léxico criado a partir de unidades mínimas que junto a outros parâmetros formam o sinal (vocábulo), estas unidades mínimas denominamos de CONFIGURAÇÕES DE MÃOS, ou seja, são as formas utilizadas para formação de sinais. Através de algumas dessas configurações de mãos é possível representar o alfabeto de outras línguas orais como a língua portuguesa, por exemplo.

Datilologia

Alfabeto manual é usado somente para nomes de pessoas e lugares, rótulos, não é uma representação direta do português e sim da ortografia. É uma sequência de letras escritas do português.

Variações linguísticas

Na maioria do mundo, há, pelo menos, uma língua de sinais usada amplamente na comunidade surda de cada país, diferente daquela da língua falada utilizada na mesma área geográfica. Isto se dá porque essas línguas são independentes das línguas orais, pois foram produzidas dentro das comunidades surdas. A Língua de Sinais Americana (ASL) é diferente da Língua de Sinais Britânica (BSL), que difere, por sua vez, da Língua de Sinais Francesa (LSF).

Além disso, dentro de um mesmo país há as variações regionais. A LIBRAS apresenta dialetos regionais, salientando assim, uma vez mais, o seu caráter de língua natural.

Variação regional:Representa as variações de sinais de uma região para outra, no mesmo país.

Ex:

Variação Social: Refere-se a variações na configuração das mãos e/ou no movimento, não modificando o sentido do sinal.

Ex:

Mudanças Históricas:

Com o passar do tempo, um sinal pode sofrer alterações decorrentes dos costumes da geração que o utiliza.

Ex.:

Iconicidade e arbitrariedade

A modalidade gestual-visual-espacial pela qual a LIBRAS é produzida e percebida pelos surdos leva, muitas vezes, as pessoas a pensarem que todos os sinais são o “desenho” no ar do referente que representam.

É claro que, por decorrência de sua natureza linguística, a realização de um sinal pode ser motivada pelas características do dado da realidade a que se refere, mas isso não é uma regra. A grande maioria dos sinais da LIBRAS são arbitrários, não mantendo relação de semelhança alguma com seu referente. Vejamos alguns exemplos entre os sinais icônicos e arbitrários.

Sinais Icônicos

Uma foto é icônica porque reproduz a imagem do referente, isto é, a pessoa ou coisa fotografada. Assim também são alguns sinais da LIBRAS, gestos que fazem alusão à imagem do seu significado.

Ex:

Isso não significa que os sinais icônicos são iguais em todas as línguas. Cada sociedade capta facetas diferentes do mesmo referente, representadas através de seus próprios sinais, convencionalmente, conforme os exemplos abaixo:

Árvore

Libras:Representa o tronco usando o antebraço e a mão aberta, as folhas em movimento. LSC (Língua de Sinais Chinesa) - representa apenas o tronco da árvore com as duas mãos (os dedos indicador e polegar ficam abertos e curvos).

Casa

Sinais arbitrários

São aqueles que não mantêm nenhuma semelhança com o dado da realidade que representam.

Uma das propriedades básicas de uma língua é a arbitrariedade existente entre significante e referente. Durante muito tempo afirmou-se que as línguas de sinais não eram línguas por serem icônicas, não representando, portanto, conceitos abstratos. Isto não é verdade, pois em língua de sinais tais conceitos também podem ser representados, em toda sua complexidade.

Ex.:

2 Estrutura Gramatical

Aspectos estruturais:

Fonologia das línguas de sinais:

Fonologia envolve o estudo das unidades menores que irão fazer diferença na formação de uma palavra. Por exemplo, no português, os sons de /p/ e de /b/ são distintivos porque formam um par mínimo /pala/ e /bala/. O par mínimo indica que ao mudar apenas uma unidade mínima, ou seja, /p/ e /b/, em uma determinada combinação determinará mudança de significado. Isso é o que acontece com os pares mínimos listados na língua de sinais brasileira a seguir.

O termo fonologia tem sido usado também para designar o estudo dos elementos básicos distintivos da língua de sinais.

Como as LS são de modalidade espaço-visual, uma vez que a informação linguística é recebida pelos olhos e produzida pelas mãos, às unidades básicas da fonologia dessas línguas, não são fonemas, mas são elementos de natureza icônica, que também são compostos por um conjunto de propriedades distintivas.

Os sinais apresentam uma estrutura dual, isto é, podem ser analisados em termos de um conjunto de propriedades distintivas (sem significado) e de regras que orientam essas propriedades. Dessa forma, os estudiosos propuseram parâmetros que não carregam significado isoladamente. Na comunidade científica, prevalece, dessa forma, a ideia de que esses parâmetros são unidades mínimas (fonemas) que constituem os morfemas nas línguas de sinais, de forma análoga (semelhante) aos fonemas que constituem morfemas nas línguas orais.

A LIBRAS têm sua estrutura gramatical organizada a partir de alguns parâmetros que estruturam sua formação nos diferentes níveis linguísticos. Três são seus parâmetros principais ou maiores: a Configuração da(s) mão(s)- (CM), o Movimento - (M) e o Ponto de Articulação - (PA); e outros constituem seus parâmetros menores: orientação de mão – (Or ou Om) e as expressões não-manuais - faciais ou corporais – (ENM).

Parâmetros fonológicos:

  • Configuração de Mão (CM).
  • Localização ou Ponto de Articulação (PA) .
  •  Movimento (M).
  • Orientação e direcionalidade (Or).
  • Expressões não – manuais (ENM).

a) Configuração da mão (CM):é a forma que a mão assume durante a realização de um sinal. Pelas pesquisas linguísticas, foi comprovado que na LIBRAS existem 46 configurações das mãos (Quadro I), sendo que o alfabeto manual utiliza apenas 26 destas para representar as letras.

 

Ex:

b) Ponto de articulação (PA)/ Localização:Também designado por ponto de articulação. Trata-se da área no corpo em que o sinal é articulado. Na Libras e também em outras línguas de sinais conhecidas, o espaço de enunciação é uma área que contém todos os pontos dentro de um raio de alcance das mãos em que os sinais são articulados. As locações dividem-se em quatro regiões principais: cabeça, mão, tronco e espaço neutro.

Ex:

c) Movimento (M): é o deslocamento da mão no espaço, durante a realização do sinal.

Ex.:

3 Direcionalidade do movimento

a) Unidirecional: Movimento em uma direção no espaço, durante a realização de um sinal.

Ex.: Proibid@,Sentar,Mandar.

b) Bidirecional:Movimento realizado por uma ou ambas as mãos, em duas direções diferentes.

EX:Pront@,Julgamento,Grande,Comprid@,Discutir,Empregad@,Prim@,Trabalhar,Brincar.

c) Multidirecional:Movimentos que exploram várias direções no espaço, durante a realização de um sinal.

Ex:Incomodar,pesquisar.

Tipos de movimentos

a) movimento retilíneo: 

b) movimento helicoidal:

c) movimento circular:

d) movimento semicircular:

e) movimento sinuoso:

d) Orientação de mão (Or ou Om?):trata-se da direção para a qual a palma da mão aponta na produção do sinal, para cima, para baixo, para o lado, para a frente, etc. . Também pode ocorrer a mudança de orientação durante a execução de um sinal.trata-se da direção para a qual a palma da mão aponta na produção do sinal, para cima, para baixo, para o lado, para a frente, etc. . Também pode ocorrer a mudança de orientação durante a execução de um sinal.

Ex:Montanha,bike,fritar

e) Expressões não manuais (faciais e corporais):Podem realizar-se por meio de movimentos na face, olhos, cabeça ou tronco e têm duas funções nas línguas de sinais:

Marcação das construções sintáticas: marcam sentenças interrogativas, orações reativas, topicalizações, concordância e foco;  Diferenciação de itens lexicais: marcam referência específica, referência pronominal, partícula negativa, advérbio, grau ou aspecto.

Sistema Pronominal

a) Pronomes pessoais: a LIBRAS possui um sistema pronominal para representar as seguintes pessoas do discurso:

  • No singular, o sinal para todas as pessoas é o mesmo CM[G], o que diferencia uma das outras é a orientação das mãos;
  • Dual: a mão ficará com o formato de dois, CM [K] ou [V];
  • Trial: a mão assume o formato de três, CM [W];
  • Quatrial: o formato será de quatro, CM [54];
  • Plural: há dois sinais: sinal composto ( pessoa do discurso no singular + grupo), configuração da mão [Gd] fazendo um círculo (nós).

Singular: EU - apontar para o peito do enunciador (a pessoa que fala).

Plural:

Quando se quer falar de uma terceira pessoa presente, mas deseja-se ser discreto, por educação, não se aponta para essa pessoa diretamente. Ou se faz um sinal com os olhos e um leve movimento de cabeça em direção à pessoa mencionada ou aponta-se para a palma da mão (voltada para a direção onde se encontra a pessoa referida).

b) Pronomes demonstrativos: Na LIBRAS os pronomes demonstrativos e os advérbios de lugar tem o mesmo sinal, sendo diferenciados no contexto. Configuração de mão [G].

EST@ / AQUI - olhar para o lugar apontado, perto da 1ª pessoa.

ESS@ / AÍ - olhar para o lugar apontado, perto da 2ª pessoa.

AQUEL@ / LÁ - olhar para o lugar distante apontado.

Tipos de referentes:

Referentes presentes. Ex.: EU, VOCÊ, EL@...

Referentes ausentes com localizações reais.Ex.: RECIFE, PREFEITURA...

Referentes ausentes sem localização.

c) Pronomes possessivos:também não possuem marca para gênero e estão relacionados às pessoas do discurso e não à coisa possuída, como acontece em Português:

EU: ME@ IRM@ ( CM [5] batendo no peito do emissor).

VOCÊ: TE@ AMIG@ ( CM [K] movimento em direção à pessoa referida).

ELE / ELA: SE@ NAMORAD@ ( CM [K] movimento em direção à pessoa referida).

Observação. : Para os possessivos no dual, trial, quadrial e plural (grupo) são usados os pronomes pessoais correspondentes.

d) Pronomes interrogativos: os pronomes interrogativos QUE, QUEM e ONDE caracterizam-se, essencialmente, pela expressão facial interrogativa feita simultaneamente ao pronome.

QUE / QUEM: usados no início da frase. (CM [bO]

QUEM: com o sentido de quem é e quem é são mais usados no final da frase.

QUANDO: a pergunta com quando está relacionada a um advérbio de tempo (hoje, amanhã, ontem) ou a um dia de semana específico.

Ex.:

EL@ VIAJAR RIO QUANDO-PASSADO (interrogação)

EL@ VIAJAR RIO QUANDO-FUTURO (interrogação)

EU CONVIDAR VOCÊ VIR MINH@ ESCOLA. VOCÊ PODER D-I-A (interrogação)

QUE-HORAS? / QUANTAS-HORAS?

Para se referir a horas aponta-se para o pulso e relaciona-se o numeral para a quantidade desejada.

Ex.:

CURSO COMEÇAR QUE-HORAS AQUI (interrogação)

Resposta: CURSO COMEÇAR HORAS DUAS.

Para se referir o tempo gasto na realização de uma atividade, sinaliza-se um círculo ao redor do rosto, seguido da expressão facial adequada.

Ex.: VIAJAR RIO-DE-JANEIRO QUANTAS-HORAS (interrogação)

Por que / Porque

Como não há diferença entre ambos, o contexto é que sugere, através das expressões faciais e corporais, quando estão sendo usados em frases interrogativas ou explicativas.

e) Pronomes indefinidos: 

Ninguém (igual ao sinal acabar): usado somente para pessoa;

Ninguém / Nada (mãos abertas esfregando-se uma na outra): é usado para pessoas e coisas;

Nenhum/ Nada (CM [F] balança-se a mão ) é usado para pessoas e coisas e pode ter o sentido de "não ter":

Nenhum / Pouquinho (CM [F} palma da mão virada para cima) : é um reforço para a frase negativa e pode vir após Nada.