A relação afetiva das crianças com a música acontece, de acordo com Borges, desde muito cedo podendo ser facilmente comprovada nas reações de prazer que as mesmas apresentam ao serem embaladas, às cantigas de ninar, nos primeiros movimentos de dança, independentemente do contexto histórico-cultural em que estejam inseridas. Oliveira, Bernardes e Rodriguez afirmam que as crianças, mesmo antes de aprenderem a falar, se expressam através de movimentos, sons e ritmos.
Para as autoras, a convivência com os diferentes sons e ruídos é de suma importância, pois através dos mesmos se faz descobertas e com elas, o conhecimento e a exploração do diferente. Ainda de acordo com as autoras, a primeira descoberta dos sons e do ritmo se dá através do próprio corpo e do ambiente ao redor. Por ser criativo, o ser humano rompe continuamente os esquemas repetidos das experiências anteriores e vai explorando novos caminhos.
Quando a criança escuta uma música, ela se concentra e tende a acompanhá-la, cantando e fazendo movimentos com o corpo. Isso desenvolve o senso do ritmo nos pequeninos. Aprendendo a ouvir, a criança pode repetir uma música, recriando-a. É importante que nós, educadores, valorizemos o ato de criação da criança, para que ele seja significativo no seu contexto de desenvolvimento.
A música é um fenômeno corporal. De acordo com a autora, a criança, ao nascer, passa a ter contato com um universo sonoro que se localiza em torno dela, ou seja, os sons produzidos pelos objetos e pelos seres vivos. Assim, sua relação com a música se torna imediata, seja através dos aparelhos sonoros de sua casa, seja através do acalanto da mãe e do canto de outras pessoas.
A autora também ressalta o fato das crianças gostarem de acompanharem as músicas com movimentos corporais, seja com palmas, sapateados, volteios de cabeça, danças, entre outros, sendo a partir dessa relação entre o som e o gesto da criança que ela constrói seu conhecimento sobre música.
Portanto, a autora salienta que é possível constatar a grande influência que a música exerce sobre a criança. É por isso que os jogos ritmados, próprios dos primeiros anos de vida, devem ser incentivados e trabalhados na escola. As habilidades que as crianças desenvolvem em relação à música nas diferentes etapas do desenvolvimento infantil. De acordo com a autora, cada idade reserva um aspecto particular em relação à música, sendo que aproximadamente em torno de:
• 2 anos, a criança é capaz de cantar versos soltos , fragmentos de canções, geralmente fora do tom. Reconhece algumas melodias e cantores. Gosta de movimentos rítmicos em rede, cadeira de balanço, etc.;
• 3 anos, a criança consegue reproduzir canções inteiras, embora geralmente fora do tom. Tem menos inibição para cantar em grupo. Reconhece várias melodias. Começa a fazer coincidir os tons simples de seu canto com as músicas ouvidas. Tenta tocar instrumentos musicais. Gosta de particiar de grupos rítmicos: marcha, pula, caminha corre, seguindo o compasso da música;
• 4 anos, a criança progride no controle da voz. Participa com facilidade de jogos simples, cantados. Interessa-se muito em dramatizar as canções. Cria pequenas músicas durante a brincadeira;
• 5 anos, a criança entoa mais facilmente e consegue cantar melodias inteiras. Reconhece e gosta de um extenso repertório musical. Consegue sincronizar os movimentos da mão ou do pé com a música. Reproduz os tons simples de ré até dó superior. Consegue pular em um só pé e dançar conforme o ritmo da música. Percebe a diferença dos diversos timbres (vozes, objetos, instrumentos), dos sons graves e agudos, além da variação de intensidade (forte e fraca);
• 6 anos, a criança percebe sons ascendentes e descendentes. Identifica as fórmulas rítmicas, os fraseados musicais, as variações de andamento e a duração dos valores sonoros. Adapta palavras sobre ritmos ou trecho musical já conhecido. Acompanha e repete uma seqüência rítimica;
• 7 anos, a criança expõe e defende suas idéias. Ouve em silêncio, acompanhando a melodia e o ritmo da música. Canta acentuando a tônica das palavras. Bate as pulsações rítmicas com as mãos, enquanto o pé acentua o tempo mais forte. Distingue ritmos populares, baião, rock, samba, marcha, valsa, expressando-se com o corpo, criando gestos livremente, segundo esse ritmo. Produz pequenas melodias (compostas de perguntas e respostas) segundo uma fórmula rítmica. Interpreta músicas com expressão e dinâmica;
• 8 anos, a criança é mais rápida em suas próprias reações e também compreende melhor as dos demais. Percebe e distingue com segurança os elementos rítmicos , criando frases rítmicas;
• 9 anos, a criança adquire maior domínio de si mesma. Gosta muito de conversar. É capaz de distinguir os elementos da música: melodia, ritmo, harmonia. Percebe o fraseado musical. Lê, interpreta e responde a fórmulas rítmicas;
• 10 anos, a criança facilamente cria sonoplastias para histórias e trilhas sonoras para novelas. Canta a duas ou três vozes. Gosta de cantar, mas não canções pueris. Escuta discos com entusiasmo, principalmente de músicas mais tocadas na televisão e no rádio;
• A partir de 11 anos, o entusiasmo é o traço mais característico. Facilmente a criança perde sua própria identidade em função do grupo. As tarefas coletivas a atraem. É a época de montar ópera, criar uma obra musical em conjunto. Os debates, no nível analítico, aumentam. Ouve com facilidade tanto a música popular quanto a clássica. Gosta muito de música americana.
A autora ressalta que todas essas características variam de criança para criança, sendo que o desenvolvimento da mesma pode ser acelerado através da interferência do trabalho de musicalização realizado na escola. É importante que o professor tenha cuidado para, por exemplo, não dar ênfase exagerada à parte rítmica em detrimento dos elementos melódicos, culturais, formais e criativos que compõem a música. O Referencial Curricular Nacional Para a Educação Infantil ressalta a importância de se trabalhar na pré-escola, com atividades que envolvam música, por ser este um excelente meio para o desenvolvimento da expressão, do equilíbrio e da auto-estima das crianças.
Ouvir música, aprender uma canção, brincar de roda, realizar brinquedos rítmicos, jogos de mão, são atividades que despertam, estimulam e desenvolvem o gosto pela atividade musical, além de atenderem às necessidades de expressão que passam pela esfera afetiva, estética e cognitiva.
A importância da música na educação infantil quando afirmam que a mesma é um:inestimável benefício para a formação, o desenvolvimento, o equilíbrio da personalidade da criança e do adolescente; o acesso à música constitui-se nas possibilidades de criar, de interpretar ou de ouvir, que podem ser estimuladas, desenvolvidas e educadas.
O objetivo do ensino da música não reside na transmissão de técnicas, mas no desenvolvimento do gosto pela música e da habilidade para captar a linguagem musical além de expressar-se através dela, possibilitando o acesso do educando a um imenso patrimônio musical que a humanidade vem construindo. Nesse sentido é importante ressaltar que é de responsabilidade do educador, enquanto um dos maiores modelos de imitação da criança, ser crítico e criativo na escolha do que apresentar a mesma, garantindo, com isso, que o trabalho seja interessante para ambos.
Além da competência técnica, o professor deve ser criativo. A necessidade de criar é comum a todas as crianças, que, ao interagirem com o mundo, constroem seu conhecimento. O educador não deve perder a oportunidade de aproveitar essa disposição.
Para a autora cabe ao adulto compreender de que forma a música constitui uma possibilidade expressiva privilegiada para a criança, considerando que a mesma atinge diretamente sua sensibilidade sensorial e afetiva.
A autora ainda afirma que é de suma importância estimular a criança a fazer suas próprias descobertas, cabendo ao educador enriquecer o repertório musical da mesma através de materiais a serem explorados, observando o trabalho de cada criança e planejando atividades que envolvam músicas de diferentes povos, de diferentes formas, de diferentes épocas, de diferentes compositores. O trabalho do professor deve ser criativo para despertar a motivação na criança, pensando em novas possibilidades de aprendizagem além de facilitar, quando solicitado, as atividades dos alunos.
A importância do professor organizar um espaço que permita a participação de todas as crianças, reunindo, para isso, toda e qualquer fonte sonora como brinquedos, instrumentos musicais e objetos variados, podendo-se incluir os materiais recicláveis. Para Jeandot a música é linguagem e, dessa forma, deve-se seguir, no que diz respeito à música, o mesmo processo de desenvolvimento que se adota quanto à linguagem falada, ou seja, é necessário que a criança seja exposta à linguagem musical e dialogue com ela sobre e por meio da música. A autora também coloca que da mesma forma que acontece com a linguagem, cada grupo social, cada civilização possui sua expressão musical própria. Nesse sentido, antes que o educador transmita sua cultura musical própria é importante que o mesmo investigue o universo musical do qual a criança faz parte, encorajando, com isso, a criação de novas formas de expressão através da música.
No entanto, Borges afirma que, embora se concorde com a importância que a música tem na educação das crianças, é freqüente se deparar, nas classes pré-escolares, com atividades musicais limitadas exclusivamente à reprodução de cantigas utilizadas com finalidades apenas didáticas, quando as mesmas deveriam ligar-se primordialmente às emoções, no sentido de proporcionar um momento de prazer ao ouvir, cantar, tocar e inventar sons e ritmos.
Para a autora, se a música for utilizada na educação infantil apenas com o objetivo de ensinar conceitos matemáticos, anunciar o momento da história ou do lanche ou reforçar hábitos de higiene, a função primeira da mesma estará sendo desvirtuada. E para que isso não aconteça, é necessário que o professor seja sensível à expressão musical, o que não significa que o mesmo tenha que ser um especialista em música ou que saiba, necessariamente, tocar algum instrumento. Ele deve sim, estar consciente de que, em contato com a música, a criança poderá:
• Manter em harmonia a relação entre o sentir e o pensar;
• Proteger a sua audição, para que não se atrofie diante do aumento de ruídos e da desqualificação sonora do mundo moderno;
• Habituar-se a isolar um ruído ou som para dar-lhe sentido, especificidade ou beleza que lhe são próprios.
Dessa forma, os conteúdos relacionados à musicalização deverão ser desenvolvidos nas instituições de educação infantil como conceitos em construção organizados em um processo contínuo e integrado de modo que as crianças desenvolvam, dentre outras, as capacidades de identificar e explorar os elementos da música a fim de que se expressem, interajam e ampliem seus conhecimentos sobre o mundo.
Partindo dessas idéias, é importante refletir sobre algumas questões relacionadas à formação de professores, especialmente os da educação infantil uma vez que é a partir da mesma que se configura um dos aspectos que permeia a prática do profissional que atua junto às crianças nas instituições formais desse nível de ensino.