A Saúde Bucal do Trabalhador

Básico de Auxiliar de Saúde Bucal

1 A saúde bucal do trabalhador:

A Odontologia, em alguns poucos casos, tem se preocupado com pesquisas e normalizações, de forma dispersa e insuficiente; embora o interesse odontológico nesta área não seja pequeno, abrangendo certas doenças profissionais, como por exemplo o saturnismo, onde o Cirurgião Dentista muito pode contribuir para o diagnóstico, verificamos somente algumas pesquisas relativas a esta doença profissional e uma listagem de produtos nocivos à saúde do trabalhador, já bastante antiga (Chaves, 1986; Garrafa, 1983).

É importante não só levantar os problemas bucais que podem afetar diretamente os trabalhadores, se analisar concretamente a epidemiologia e patologia desses problemas, como também estudar o impacto que possam ocasionar em suas qualidades de vida, trazendo à tona novos elementos na análise da causalidade das doenças e dos porquês da sua maior ocorrência e manutenção em determinados segmentos da sociedade. Há que se considerar ainda o desconhecimento da problemática de saúde bucal por parte dos trabalhadores, falta de interesse e conhecimento dos profissionais da saúde no que se refere ao estudo e interpretação correta dos problemas de saúde bucal que afetam aos trabalhadores e a necessidade de uma política de saúde do trabalhador firme e eficaz.

A prática, hoje, em relação à saúde bucal do trabalhador, se refere a exames admissionais, processados por odontologia de grupos ou empresariais, que vendem certo trabalho por preço anteriormente estipulado e de acordo com determinados padrões encomendados pelos empregadores. Desta forma, o Cirurgião-Dentista estará selecionando o operário conforme as normas estabelecidas pelo contratante. Dentro do aspecto conceitual da saúde, tendo em vista mais especificamente a saúde bucal do trabalhador, diríamos que “é a parte da atenção à saúde do trabalhador, que trata de promover, preservar e recuperar a saúde bucal do trabalhador, consequente dos agravos, afecções ou doenças do exercício profissional, e que tem manifestações bucais, devendo ter sua ação voltada à prevenção de todos os agravos laborais, ou seja, objetiva a prevenção de doenças decorrentes da atuação profissional e dos acidentes de trabalho” (Araujo, 1998).

Apesar da saúde do trabalhador não ser uma área recente, veremos que tanto o médico quanto o cirurgião dentista não demonstram muito interesse por esta área específica, principalmente por desconhecerem as implicações do tema, tendo em vista neste caso, uma abordagem odontológica. O Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Ambientes de Trabalho (DIESAT) revelou, em 1989, que não se conhece o número exato de trabalhadores afetados por determinadas doenças profissionais, em decorrência da ausência de centros de referência em medicina do trabalho ao alcance de todos.

Em decorrência disto, não se conhece a severidade do quadro epidemiológico de muitas afecções bucais que acometem os trabalhadores, restringindo-se a atenção odontológica existente nos níveis primário, secundário e terciário, respectivamente, a cuidados com o ambiente de trabalho e controle periódico da população, atendimento prestado em âmbito ambulatorial e atendimentos em âmbito hospitalar para os acidentes do trabalho. Além disso, existe uma terceirização de serviços odontológicos ao trabalhador, mas que foge à necessidade contextual enquanto odontologia do trabalho verdadeira, pela falta de uma atenção especializada e a ausência de centros de referência específicos.

O que identifica-se no momento é a realização de uma medicina de trabalho mais eficiente, onde dela fazem parte o médico do trabalho, a enfermeira do trabalho, a auxiliar do trabalho, o psicólogo do trabalho, o engenheiro de segurança no trabalho, os educadores sanitários, os químicos, e não se incorpora a esta equipe, nem há qualquer referência legal do cirurgião-dentista do trabalho. Infelizmente, ainda não existe uma política de saúde do trabalhador que seja eficaz. Porém, a partir da descentralização operacional proporcionado pelo S.U.S., talvez o trabalhador venha a adquirir noções de direitos, inclusive com relação aos riscos no exercício de suas funções, apoiados inclusive pelas negociações coletivas de trabalho.

 

2 Diagnóstico de problemas de saúde do trabalhador:

O processo da “história natural da doença” proposto por Leavell e Clark, em 1976, traduz-se num triângulo epidemiológico, onde os vértices são representados por um agente, um hospedeiro e um meio ambiente. Tomando o enfoque do trabalhador, podemos descrever que o agente patogênico seria um elemento mecânico, físico, químico ou biológico que pode gerar um estímulo em um hospedeiro que tem seus fatores intrínsecos moldados por seus hábitos, saúde e ocupação, associados ao meio ambiente físico, biológico, social ou econômico, resultando, conforme o desequilíbrio ou não destes fatores, em um processo de doença ocupacional instalada.

A equação acima representada não é tão simples assim, limitando Mendes, 1996, a afirmar que “é competência específica da medicina do trabalho, dirigir o foco de sua atenção sobre o homem que trabalha - o hospedeiro”. Portanto, para fazermos um completo estudo do hospedeiro, faremos a abordagem sob três aspectos: clínico, laboratorial e epidemiológico, ainda segundo Mendes, 1996. No primeiro, além dos fatores chamados modificadores, temos a história profissional, descrevendo minuciosamente a ocupação atual e anterior do indivíduo.

Na sequência, temos o caráter complementar da investigação, com vistas a quantificar uma possível exposição e consequente absorção de um agente patogênico e por fim temos a abordagem epidemiológica, encarando a saúde ocupacional com caráter comunitário, permitindo uma análise mais profunda das possíveis causas de uma patologia instalada. Dessa forma, é necessário identificar se através da exposição ao agente sofrida por um trabalhador, em decorrência do tempo inclusive, não surge o chamado período patogênico da doença, caracterizado pelo aparecimento de uma possível lesão passível de identificação clínica, ou somente através de instrumentos ou indicadores biológicos que definam tal exposição.

 

Sistema de informação em saúde:

Segundo Lilienfeld, 1978, a epidemiologia é sobretudo “um método de raciocinar sobre doença”, o que, dentro da saúde ocupacional ou odontologia do trabalho, está muito distante de ser um fato concreto. Desta forma, os autores reforçam a ideia de que, através da inclusão da odontologia no Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional, normatizada (P.C.M.S.O.) pela Norma Regulamentadora n° 7 (NR7), Brasil, 1991, adotada pelo Ministério do Trabalho, além de atestar a saúde oral dentro do sistema de saúde ocupacional, criariase um banco de dados para a área odontológica.

Além disso, a participação da odontologia junto à medicina na expedição dos exames médicos admissional e periódico geraria a criação de uma nova especialidade, novas fontes de emprego, favorecendo inclusive a criação de uma nova linha de pesquisa em odontologia. Para tornar possível a atividade proposta como fonte epidemiológica, relacionada às doenças profissionais, no exame clínico rotineiro e obrigatório do P.C.M.S.O. deveria ser incluído o exame odontológico, utilizando-se inicialmente uma ficha simplificada da Organização Mundial da Saúde (OMS), apresentada por Pinto, em 1994, onde constam exames de dentes, mucosa e articulações, além da possibilidade da utilização do Código Internacional de Doenças (CID). Este exame, uma vez anexado ao prontuário médico, favoreceria o cruzamento de informações pessoais e do local de trabalho, auxiliando no desenvolvimento de uma lista de verificação de possíveis doenças por função, semelhante à proposta por Schour e Sarnat, em 1942.

A criação da odontologia do trabalho, com base no exposto acima, poderia:

  • levantar os problemas bucais que podem afetar a classe trabalhadora
  • determinar um perfil patológico de uma população e a existência ou não de patologias em níveis aceitáveis ou não
  • estudar as conseqüências de uma exposição a agentes patológicos
  • determinar riscos ocupacionais
  • efetuar um diagnóstico precoce de alterações bucais ou mesmos sistêmicas
  • identificar a necessidade ou não de mudanças no processo de trabalho
  • identificar o nível de atuação dada à saúde bucal
  • estimular a participação da classe trabalhadora na reinvindicação de melhores condições de trabalho e saúde
  • definir bases científicas para a aplicação de um diagnóstico mais preciso.