Efeito do Kinesio Taping do Movimento de Dorsiflexão

NOÇÕES BÁSICAS EM KINESIO TAPING

1 Efeito do Kinesio Taping do Movimento de Dorsiflexão

O equilíbrio e a estabilidade postural são elementos essenciais para a realização de atividades funcionais e físicas. O equilíbrio é considerado o processo de manutenção do centro de pressão dentro da base de suporte do corpo, o que exige constantes ajustes do posicionamento articular e da atividade muscular. A estabilidade postural refere-se à capacidade do indivíduo em resistir a uma perturbação.

No entanto, a estabilidade e o equilíbrio estão relacionadas, pois quanto mais estável o indivíduo se mantém, maior será a facilidade em equilibrar-se.1 Para a correta manutenção do equilíbrio é necessária a integração de três sistemas: somatossensorial, vestibular e a visão. O sistema somatossensorial é importante para detecção da posição dos segmentos do corpo e seu contato com objetos externos, como por exemplo, o chão; o sistema vestibular percebe alterações na aceleração linear e angular e a visão fornece informações do ambiente.

Ao longo da vida, o equilíbrio pode sofrer alterações em decorrência de diversos fatores como o estado de saúde, as características antropométricas, índice de massa corporal (IMC), condicionamento físico, idade e o ambiente. Quando existem alterações da estabilidade postural em consequência desses ou outros fatores, o indivíduo torna-se propenso a sofrer quedas e lesões gerando prejuízos funcionais, perda de autonomia e consequentemente diminuição da qualidade de vida.

Na prática clínica, existem testes simples para a avaliação do equilíbrio como o teste de Romberg e outros mais sofisticados, com a utilização de equipamentos de alta tecnologia como o Biodex Balance System® (BBS) que é composto por uma plataforma circular com liberdade de movimento em todas as direções, de até 20° de oscilação nos eixos ânteriorposterior (AP) e medial-lateral (ML). Por meio dessas variáveis o BBS calcula o índice de estabilidade geral (IEG), índice de estabilidade ântero-posterior (IEAP) e o índice de estabilidade médio-lateral (IEML).

Essa plataforma também permite selecionar diferentes graus de estabilidade, modulados entre 1 (menor estabilidade) e 12 (maior estabilidade)9 gerando um feedback visual do posicionamento do centro de massa ao indivíduo.

Diferentes modalidades de atividade física podem produzir melhoras significativas na manutenção do equilíbrio interferindo nas oscilações corporais por meio das alterações sensoriais e motoras.8,10 Além dos exercícios físicos outros recursos surgem com intenção de corrigir as alterações de equilíbrio e estabilidade postural. A bandagem elástica terapêutica (BET) foi criada com o intuito de promover um apoio ou suporte externo para os músculos, ligamentos e articulações auxiliando a função normal dos tecidos.

Para que indivíduos alcancem maiores níveis de estabilidade, alguns estudos mostram que o uso da BET melhora a propriocepção, por meio do estímulo de mecanorreceptores cutâneos e que sua ativação pode contribuir na melhor detecção do movimento da posição articular. Isto ocorre devido à tensão aplicada à pele no final da amplitude.

O presente estudo teve como objetivo investigar a influência da bandagem elástica terapêutica na estabilidade dinâmica postural de mulheres jovens saudáveis e correlacionar as variáveis de estabilidade com dados antropométricos e a prática de atividade física.

2 Procedimentos da técnica

O estudo é caracterizado como um ensaio clínico randomizado, cego, com intervenção terapêutica. A pesquisa foi desenvolvida no Laboratório de Análise do Movimento Humano na Universidade de Brasília, Faculdade de Ceilândia e aprovada pelo Comitê de Ética da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília conforme parecer: CAAE 303.671.

Participantes

Foram recrutadas 37 jovens sadios do sexo feminino na Faculdade de Ceilândia com idade entre 17 e 24 anos. Inicialmente foi preenchida uma ficha de avaliação por cada voluntária contendo dados pessoais, medidas antropométricas, informações de doenças pregressas, bem como o termo de consentimento livre e esclarecido. Em seguida as voluntárias foram aleatorizadas e separadas, por meio de sorteio, em dois grupos: controle (Grupo C) e intervenção (Grupo I).

Foram incluídas no estudo as voluntárias sem quaisquer lesões nos MMII e/ou queixas de dor; não deveriam apresentar comprometimento neurológico, vestibular (teste de Romberg negativo), musculoesquelético, proprioceptivo ou cognitivo; não ter realizado cirurgias na coluna vertebral e MMII nos últimos 6 meses; não ter apresentado restrição de amplitude de movimento dos MMII; deveria permanecer em apoio unipodal por no mínimo 20 segundos e não estar sob uso de medicamentos que possam alterar o equilíbrio postural. Foram excluídas as participantes que faltaram alguma etapa da avaliação ou não conseguiram manter a estabilidade sobre a plataforma, apoiando-se nas barras laterais do equipamento.

Procedimentos

Foram coletados os dados antropométricos utilizando uma balança digital (MARTE, CLASSE II, LC 200-Os) e um estadiômetro adaptado à balança para medir a altura de cada voluntária. Todos os dados foram tabelados e foi calculado o IMC utilizando os valores de massa e altura. Foi realizado o teste de Romberg em todas as voluntárias.

Inicialmente foram feitas duas familiarizações, para cada grupo, no equipamento Biodex Balance System® com intervalo de 24 horas, já que as avaliações na semana seguinte seriam feitas utilizando o mesmo intervalo de tempo. Após 7 dias foi realizada a avaliação 1 que caracterizou a estabilidade postural sem intervenção, logo em seguida o grupo intervenção recebia a aplicação da BET e após 24 horas ambos os grupos retornaram para realizar a avaliação 2, conforme é mostrado na Figura 1.

Na avaliação 1 e 2 foram necessários três pesquisadores. O pesquisador 1 posicionava, o pé direito das voluntárias no centro da plataforma do BBS marcando os pontos correspondentes para que no dia seguinte fosse colocado na mesma posição e verificava se o centro de massa estava centralizado com o gráfico de oscilação do display do BBS. O pesquisador 2 orientava a voluntária a manter o membro esquerdo flexionado sem encostar os MMII, não segurar nas barras laterais de proteção, deixar os braços ao longo do corpo e tentar manter o marcador de referencia corporal, indicativa do centro de massa, no centro do gráfico. O teste foi repetido por três vezes com duração de 20 segundos cada, tempo de repouso de 10 segundos e grau 1 de estabilidade da plataforma. A aplicação da BET no grupo intervenção foi realizada sempre pelo pesquisador 3, experiente na aplicação do método.

Na avaliação 1 e 2 foram necessários três pesquisadores. O pesquisador 1 posicionava, o pé direito das voluntárias no centro da plataforma do BBS marcando os pontos correspondentes para que no dia seguinte fosse colocado na mesma posição e verificava se o centro de massa estava centralizado com o gráfico de oscilação do display do BBS. O pesquisador 2 orientava a voluntária a manter o membro esquerdo flexionado sem encostar os MMII, não segurar nas barras laterais de proteção, deixar os braços ao longo do corpo e tentar manter o marcador de referencia corporal, indicativa do centro de massa, no centro do gráfico. O teste foi repetido por três vezes com duração de 20 segundos cada, tempo de repouso de 10 segundos e grau 1 de estabilidade da plataforma. A aplicação da BET no grupo intervenção foi realizada sempre pelo pesquisador 3, experiente na aplicação do método.

Os MMII das voluntárias foram cobertos durante a avaliação. O avaliador 2 foi cegado, sem conhecimento de qual grupo foi caracterizado como controle e intervenção. Após realizar a avaliação 2 a BET foi retirada.

Descrição da Bandagem e Aplicação

No grupo intervenção, foi utilizada a bandagem elástica terapêutica da marca kinesio® Tex Gold™ de 5 cm de largura e 37 cm de comprimento para cada voluntária. Em seguida era dobrada em três partes iguais para realizar a marcação da âncora (ponto fixo) e da divisão na outra extremidade que acompanhava o trajeto do músculo gastrocnêmio.

Com um auxílio de um suporte elaborado pelos próprios pesquisadores e um dinamômetro tubular foi medida tensão que deveria ser exercida na aplicação de todas as voluntárias. A âncora foi fixada no suporte junto ao dinamômetro, segurando a bandagem na outra extremidade foi realizada a tensão de 100% que corresponde a 20N, utilizou-se apenas 40% de tensão o que corresponde a 8N. Essa tensão gerada deformou a bandagem elástica na distância de 30 cm a partir do final do ponto fixo. Sendo assim para todas as voluntárias a bandagem foi tensionada em 30 cm a fim de uniformizar a força aplicada.

A aplicação foi iniciada posicionando o ponto fixo na porção distal do calcâneo passando pelo tendão calcâneo e a junção miotendínea do tríceps sural, com o membro inferior em dorsiflexão. Em seguida foi realizada a tensão até atingir 30 cm aplicando a bandagem no trajeto do músculo gastrocnêmio e foi finalizada aplicando as duas âncoras das extremidades finais a porção proximal do músculo, conforme mostrado na Figura 2. A voluntária foi orientada a retirar a BET caso houvesse alguma reação alérgica com ajuda de um óleo mineral no sentido oposto ao crescimento dos pelos.

O grupo controle não recebeu intervenção terapêutica.

Análise dos Dados

Os dados foram tabelados pelo programa Excel da Microsoft Word e em seguida foi realizada a estatística utilizando o programa GraphPad Prism v.4.0. Todas as variáveis avaliadas do estudo foram processadas pelo teste de Kolmogorov-Smirnov para confirmar a normalidade da distribuição. Na comparação das variáveis dependentes e independentes foi utilizado o teste t pareado e não pareado, respectivamente. Para a correlação das variáveis antropométricas com os dados da estabilidade postural foi utilizado o teste correlação de Pearson. O nível de significância para todas as variáveis foi estabelecido a 5% ( p<0,05).

3 Resultados

Foram selecionadas 37 voluntárias sendo que dessas, seis foram excluídas por não comparecer a avaliação e duas por não conseguirem manter a estabilidade sobre a plataforma. Assim restaram 29 voluntárias das quais 12 (41%) não praticavam atividade física, sendo consideradas como sedentárias e 17 (59%) praticavam atividades físicas regularmente. As atividades físicas citadas foram musculação, dança, handebol e corrida.

A idade média foi de 18,4±0,8 para o grupo I e 18,9±1,4 para o grupo C; a massa corporal foi de 54,5±8,8 para o grupo I e 56,4±8,1 para o grupo C; a altura foi de 1,6±0,1 para ambos os grupos e o IMC apresentou valores de 21,2±3,0 para o grupo I e 21,8±2,3 para o grupo C. Em relação às variáveis antropométricas (idade, massa, altura e IMC) não foram observadas diferenças significativas entre os grupos p>0,05 caracterizando uma amostra homogênea.

A Tabela 1 apresenta a comparação intragrupo, dos grupos intervenção (Grupo I) e grupo controle (Grupo C). Não houve diferenças significativas (p>0,05) para todas as variáveis.

Na Tabela 2 observa-se a correlação intergrupo em que foi comparado o grupo I com o grupo C utilizando os dados referentes à segunda avaliação. Não foram apresentadas diferenças significativas entre os grupos (p>0,05).

A Tabela 3 apresenta a comparação referente aos dados antropométricos do grupo I e as variáveis do BBS. Foi observada correlação positiva e moderada para massa e altura com todas as variáveis do BBS e fraca correlação com a idade. O IMC apresentou correlação moderada apenas com a variável IEML.

Na comparação entre as voluntárias sedentárias e que praticavam atividade física regular não foi observada diferença significativa (p>0,05) quando comparada os índice de estabilidade. Apesar disso foi possível notar, em valores absolutos, que o grupo ativo apresentou melhor índice de estabilidade média em comparação ao grupo sedentário. O grupo sedentário apresentou os seguintes valores: IEG 1,22±0,65; IEAP 1,02±0,62; IEML 0,58±0,26. Já o grupo que praticava atividade física apresentou IEG de 0,95±0,53; IEAP de 0,72±0,36 e IEML de 0,54±0,35.

4 Conclusão

O presente estudo demonstra que a BET aplicada sobre a região do gastrocnêmio por meio da técnica em Y não promove alterações da estabilidade postural após 24 horas. A massa e altura apresentam correlações moderadas com a oscilação postural e a prática de atividade física demonstra possível influência na estabilidade postural.