Aplicação de Kinesio Taping na Subluxação de Ombro
NOÇÕES BÁSICAS EM KINESIO TAPING
1 Aplicação de Kinesio Taping na Subluxação de Ombro
Acidente Vascular Cerebral
O Acidente Vascular Cerebral (AVC) é uma doença cerebrovascular que pode ser apresentada como isquêmico ou hemorrágico, além de transitório ou definitivo, possui uma grande incidência de mortes ocorridas em todo mundo, apesar de que há alguns anos houve um declínio do mesmo devido a população estar melhor informada e preocupada com a prevenção. No entanto, o AVC ainda é uma doença que mata grande parte dos brasileiros e causa grandes consequências físicas e neurológicas, fazendo com que as capacidades funcionais sejam comprometidas, dificultando a realização das Atividades de Vida Diária (AVD’s) (SANTOS et al., 2010; BATISTA et al., 2008).
As doenças cardiovasculares compreendem as principais causas de Acidente Vascular Cerebral Isquêmico (AVCI), tais como o infarto do miocárdio, doença valvular, doenças cardíacas congênitas, arritmias, diabetes mellitus (DM) e doenças sistêmicas com a produção de êmbolos. Acidente Vascular Cerebral Hemorrágico (AVCH) em geral, as hemorragias que ocorrem devido à ruptura de importantes artérias cerebrais em decorrência principalmente de Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) compreendem a maior incidência do AVCH (PIASSAROLI et al., 2011; RADANOVIC, 2000).
Entre os sintomas mais característicos destacam-se a perda da consciência, da coordenação, da fala ou compressão da mesma, espasticidade, perda completa ou da metade do campo visual e alteração da marcha (PIASSAROLI et al., 2011).
No paciente com AVC, a hemiplegia é muito característica, ocasionando comprometimento do complexo do ombro, o que altera sua biomecânica. E com a instabilidade da articulação gleno-umeral, as complicações se tornam evidentes, ocorrendo modificação dos padrões normais do movimento do mesmo. Isso ocorre porque na fase aguda da hemiplegia, suas estruturas estarão mais propícias a certas patologias por haver flacidez na musculatura que envolve as estruturas do ombro. Ao movimentar ou até mesmo transferir esse paciente de forma inadequada facilitará que a subluxação ocorra (SANTOS et al., 2010).
Subluxação de Ombro
A prevalência da subluxação de ombro em pacientes portadores de AVC varia entre 17% a 75%, essa ampla variação ocorre devido aos métodos que são aplicados para diagnosticar o mesmo, como exames clínicos ou por imagem (SILVA; RIBEIRO; BATISTELLA, 2000).
Dor, lesões do plexo braquial, capsulite adesiva e lesões dos músculos supra-espinhoso, infraespinhoso, redondo menor e subescapular (bainha rotatória) e limitação da amplitude do movimento podem ocasionar uma subluxação do ombro (CORRÊA et al., 2009). Através da manifestação clínica é possível diagnosticar, porém não há nenhuma forma para se quantificar o grau da subluxação (SANTOS et al., 2010).
É preciso restaurar o mecanismo de travamento do ombro, corrigir a escápula e a fossa glenóide em relação a suas posições, não se esquecendo que a atividade ou o tônus muscular precisam ser estimulados, além de manter a amplitude de movimento sem gerar dor ou trauma nas articulações envolvidas (SANTOS et al., 2010)
Para uma avaliação fidedigna e com parâmetros, a Biofotogrametria Computadorizada é um recurso que pode ser usado para diagnósticos e avaliação funcional pelos fisioterapeutas, em diferentes áreas, vários estudos já foram demonstrados a sua validade. A Biofotogrametria Computadorizada foi desenvolvida pela aplicação dos princípios fotogramétricos às imagens fotográficas obtidas em movimentos corporais. A essas imagens foram aplicadas bases de fotointerpretação, gerando uma nova ferramenta de estudo da cinemática (BARAÚNA et al., 2006).
Uma variada gama de técnicas podem ser utilizadas no tratamento da subluxação de ombro em pacientes hemiplégicos, tais como cinesioterapia, hidroterapia, eletroterapia como corrente russa, corrente farádica e a estimulação elétrica funcional (FES), Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva (PNF) e Conceito Neuroevolutivo Bobath. Além dessas técnicas é preciso de outro instrumento para que a ação dos exercícios sejam mantidos por um tempo maior. Essa manutenção pode ser adquirida através da Kinesio® Taping (SANTOS et al., 2010).
Kinesio® Taping
A Kinesio® Taping (KT) foi criada pelo quiropraxista Kenso Kase em 1973, no Japão. Como Kenso, inicialmente, utilizava o método para aplicação em desportistas, criou-se então um material que mais se assemelhasse a elasticidade da pele humana (peso e espessura) (ESPEJO; APOLO, 2011). A Kinesio® é constituída por um tecido fino e poroso, com ausência de látex, porém adesiva, ativada pela temperatura da pele (KAHANOV, 2007; ESPEJO; APOLO, 2011). A bandagem elástica possibilita sua aplicação sobre a pele, esticando-se em até a 140% a mais do seu comprimento original, resultando em um mecanismo de compressão (FU et al., 2008). A quantidade de tração colocada na bandagem e a direção que a mesma será aplicada definirá seus efeitos terapêuticos (KAHANOV, 2007).
As propostas para o uso da KT são variadas, incluindo a correção da função muscular, fortalecimento da musculatura debilitada, diminuição de edemas através da melhora da circulação sanguínea e linfática, diminuição da dor, correção de desalinhamento articular, melhora a amplitude de movimento e o aumento da propriocepção por aumentar a excitação dos mecanoceptores cutâneos, podendo ser aplicada em qualquer musculatura ou articulação (RIBEIRO et al., 2009; THELEN et al., 2008). Além de todos os benefícios oferecidos pela KT, o material é impermeável, podendo assim ter contato com a água e pode ser utilizado de 3 a 5 dias, dependendo das necessidades (TSAI et al., 2009).
Nos últimos anos novas pesquisas têm sido realizadas para comprovação da eficácia da bandagem na neurologia (SAYGI et al., 2010), na pediatria (RIBEIRO et al., 2009; YASUKAWA; PATEL; SISUNG, 2006) e na reumatologia (ZUK; ORTOWSKA, 2008). Cabe destacar que ainda não há critérios metodológicos padronizados. Por tais motivos, considera-se necessário artigos de revisão de literatura para melhor serem analisados resultados obtidos por pesquisadores (ESPEJO; APOLO, 2011).
2 Casuística e Método
Este estudo se tratou de uma pesquisa longitudinal e quantitativa. Participaram do estudo três sujeitos com diagnóstico de AVC, de ambos os gêneros, com idade entre 45 a 65 anos, apresentando subluxação de ombro. Foram excluídos do estudo os sujeitos apresentando cognitivo não preservado, utilizando estabilizadores de ombro, apresentando outras doenças ortopédicas em ombro e/ou neurológicas associadas, além dos sujeitos cadeirantes. Todos os sujeitos selecionados estavam em atendimento Fisioterapêutico na Associação dos Deficientes Físicos do Estado de Goiás (ADFEGO), duas vezes por semana com duração de 40 minutos cada sessão. Após leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), todos assinaram o Termo de Participação da Pessoa como Sujeito (TPPS).
Foram submetidos a uma avaliação inicial da subluxação de ombro através de exames físicos. Marcadores foram utilizados em alguns pontos de acordo com o protocolo elaborado para este estudo (Quadro 1).
O tratamento teve duração de 15 dias. Primeiramente foi realizada a avaliação postural através do programa Biofotogrametria. Para fazer as imagens foi utilizada uma câmera fotográfica Sony 14.1MP. A máquina digital foi posicionada sobre um tripé nivelado, com distância de 1,50m e altura de 93cm.
Após a avaliação, os sujeitos iniciaram o protocolo de aplicação da Kinesio® Taping. Alguns cuidados foram tomados para a aplicação da bandagem, tais como: a higienização da pele da região do ombro com álcool 70%, sujeitos sentados com pés apoiados ao solo.
Para a aplicação da Kinesio® Taping, a bandagem foi colocada em três diferentes formas, segundo a técnica em “Y”, e as demais aplicações foram utilizadas a técnica em “I”, completando assim, três aplicações. A bandagem em “Y” foi a primeira aplicação a ser realizada, a mesma foi aplicada no músculo deltóide, com a finalidade de ativar o mesmo, com uma tensão de aproximadamente 10%. Para a função mecânica, primeiramente foi aplicada a Kinesio®Taping da musculatura do peitoral direcionando para a escápula do mesmo lado, com uma tensão de aproximadamente de 50%, em seguida uma outra aplicação mecânica, iniciando-se do músculo trapézio, passando pelo deltóide e ancorando em bíceps braquial (Figura 1). As cores utilizadas na bandagem foram preta e azul.
A aplicação ocorreu da seguinte forma: o paciente permanecia por dois dias com a bandagem, após era retirada e reaplicada dois dias depois novamente, seguindo assim o mesmo protocolo até completar as três sessões.
O sujeito (A) recebeu a aplicação da Kinesio® Taping apenas duas vezes, relatou melhora no quadro álgico, porém desistiu da pesquisa em virtude da dificuldade de acesso ao local da pesquisa. Os sujeitos (B) e (C) receberam aplicação da Kinesio® Taping em três sessões.
A análise das fotos foram feitas através do Software de Avaliação Postural (SAPO), Posturograma e FisioMeter. Através de uma análise descritiva foram demonstrados os resultados.
3 Resultados da aplicação na Subluxação de Ombro
Na avaliação inicial o sujeito (B) apresentou uma distância em cm entre acrômio e tuberosidade do úmero 2,31cm e ao final 1,97cm (Gráfico 1). O sujeito (C) apresentou em sua avaliação inicial uma distância em cm entre acrômio e tuberosidade do úmero -2,07cm e ao final -1,91cm (Gráfico 2). Os valores positivos são referentes ao ombro direito e os valores negativos referentes ao ombro esquerdo.
No gráfico 3 foi possível observar a melhora do alinhamento horizontal dos acrômios. O sujeito (B) apresentou em sua avaliação inicial 0,8° e ao final 0°. No gráfico 4 o sujeito (C) apresentou -13,1° e ao final -4,2°.
Quanto à assimetria horizontal da escápula em relação à T3, também foi possível observar o melhor alinhamento das mesmas. O sujeito (B) apresentou em sua avaliação inicial 24,2° e ao final 2° (Gráfico 5). O sujeito (C) apresentou -38,8° e ao final -23,4° (Gráfico 6).
Quanto à projeção do centro de gravidade, considerando a simetria do plano frontal do sujeito (B), observou-se inicialmente a projeção para o lado oposto à lesão, após a aplicação, a projeção do mesmo foi para o mesmo lado da lesão. O sujeito (B) apresentou, em sua avaliação inicial, -26,5% (Figura 2) e ao final 15,8% (Figura 3). Quanto ao sujeito (C), observou-se uma diminuição da projeção para o lado oposto à lesão, inicialmente 67,1% (Figura 4) e na avaliação final 17,1% (Figura 5).
4 Discussão
A articulação do ombro além de ser a maior é a mais complexa existente no corpo humano. O tônus do músculo supra-espinhal, o posicionamento correto do úmero na fossa glenoide, onde o músculo deltoide o auxilia, posicionamento do ângulo da fossa glenóide e o tônus dos músculos trapézio e serrátil anterior mantêm o ombro em sua posição normal e as escápulas em seu alinhamento correto. Essas junções fazem com que a articulação do ombro alcance grandes amplitudes de movimento, 180º na e abdução, fazendo com que gere uma alta instabilidade na articulação, tornando propenso a subluxação (SILVA; RIBEIRO; BATISTELLA, 2000).
Em 70 a 84% dos casos de AVC, existem dores relacionadas ao movimento e, nos casos mais graves, ao repouso. Além de 17 a 66% dos pacientes portadores de AVC apresentarem a subluxação de ombro (PIASSAROLI et al., 2011). Isso ocorre devido a interrupção de um ou todos os componentes neurológicos do sistema nervoso central que mantém a posição correta e dá funcionalidade ao complexo glenoumeral (CAILLET et al., 2000).
No sujeito (A), a Kinesio® Taping foi aplicada apenas duas vezes, porém apresentou melhoras consideráveis em relação ao quadro álgico do paciente, sugerindo que a efetividade da Kinesio® pode ser imediata.
A Kinesio® Taping atualmente tem sido utilizada tanto para prevenção quanto para processo de reabilitação (HALSETH et al., 2004).
Conforme alguns estudos, a bandagem sendo colada na pele permite estímulos mecânicos constantes e duradouros são percebidos em nível cortical, produzindo assim resposta motora, além de permitir os estímulos somatossensoriais aferentes. Estes estímulos no sistema tegumentar podem auxiliar na neuroplasticidade do sistema nervoso (STUPIK et al., 2007).
Em um estudo realizado por Santos et al. (2010), com 3 pacientes portadores de AVC, foi verificado a influência da Kinesio® Taping no tratamento de subluxação inferior de ombro, os sujeitos da pesquisa, receberam a aplicação da Kinesio® Taping no músculo deltoide, sendo que após 2 meses de tratamento foi realizada uma nova avaliação. Como resultados, foi verificada uma diminuição da subluxação inferior de ombro, bem como aumento do movimento de flexão do ombro, uma melhora da simetria postural, além de um aumento no movimento de extensão e abdução e de adução horizontal, concluindo assim que a Kinesio® Taping, utilizada como recurso terapêutico, contribui para uma diminuição da subluxação inferior de ombro, além de promover a melhora na simetria postural e diminuição de compensações.
Em outro estudo realizado por Murray e Husk, (2001), foi analisado o efeito da Kinesio® Taping na propriocepção de tornozelo e constataram que a mesma aumenta as habilidades na amplitude média de movimento, além de aumentar a propriocepção na entorse lateral em posições sem descarga de peso, na amplitude média de movimento, na qual os mecanorreceptores ligamentares estão inativos.
Em um terceiro estudo analisado, a aplicação foi realizada nos músculos quadríceps e ísquiotibiais e o resultado revelou que não ouve diferença significativa na força muscular após a aplicação da Kinesio® em jovens saudáveis (FU et al., 2008). Já em outro estudo realizado com vinte e sete pessoas saudáveis, a bandagem foi aplicada no músculo vasto medial, ouve um aumento significativo de recrutamento de unidades do músculo motor e atividade bioelétrica muscular, 24 horas após a aplicação, o seu efeito manteve por 48 após a remoção, um exame realizado 72 horas após a aplicação da Kinesio® também mostrou um aumento significativo (STUPIK et al., 2007)
Ambos os sujeitos avaliados na pesquisa assumiam uma projeção de gravidade oposta à lesão antes da bandagem realizada, após a bandagem foi observado em um dos sujeitos à projeção total para o lado da lesão e no outro sujeito a diminuição da projeção para o lado não lesado, é questionável que o estímulo proprioceptivo deve ter ocorrido nesses pacientes, fazendo com que houvesse o reconhecimento do lado lesado.
A inibição ou ativar a função muscular, diminuir a dor, manter uma posição articular e gerar a propriocepção pode ser facilitada através da Kinesio® Taping e um conjunto de outros recursos (ZARACZEWSKA; LONG, 2006). A elevação proprioceptiva pela estimulação sensorial como resultado da aplicação da Kinesio® gera um reforço ao controle postural facilitando assim o retorno às atividades realizadas anteriormente pelo indivíduo (HALSETH et al., 2004).
5 Considerações Finais
Observado os resultados referentes a projeção do centro de gravidade obtivemos também resultados positivos, onde, após a bandagem em um dos sujeitos, a projeção foi totalmente para o lado da lesão, no outro sujeito, ouve a diminuição da projeção do lado oposto a lesão, concluindo assim que seja questionável o estímulo proprioceptivo, fazendo com que houvesse o reconhecimento do lado lesado.
Apesar dos resultados positivos apresentados, é necessário que haja pesquisas com um maior número de participantes, afinal existem pouquíssimos estudos referentes ao assunto para fazermos comparações.