Kinesio Taping
NOÇÕES BÁSICAS EM KINESIO TAPING
1 Introdução á kinesio Taping
Desenvolvida originalmente em 1973 por Kenzo Kase no Japão, Kinesio taping (KT), também conhecida como bandagem elástica, é um método relativamente novo, que se tornou mais popular nos últimos 10 anos, após a divulgação proporcionada em grandes eventos como os jogos olímpicos. A fita é livre de látex, com capacidade adesiva acrílica e ativada pelo calor do corpo, feita de fio elástico de polímero envolto por fibras de algodão (100%). Suas características superam as fitas geralmente utilizadas em bandagens por permitir secagem rápida, maior tempo de uso e ser mais fina e mais elástica (alongamento/ estiramento longitudinal de 55 a 60% da sua posição de repouso ou elasticidade total de 120 a 140%), o que facilita envolver tecidos e articulações com maior precisão. De acordo com seu criador, a KT proporciona: (1) correção da função muscular por fortalecer músculos fracos; (2) estímulo cutâneo que facilita ou limita movimento; (3) auxílio na redução de edema por direcionar exsudatos em direção a ducto linfático e linfonodos; (4) correção do posicionamento articular por amenizar espasmos musculares; e (5) redução da dor por vias neurais.
Com tantos possíveis benefícios, além de seu uso em condições ortopédicas clássicas, surgem aplicações em diversas afecções como, por exemplo, acidente vascular encefálico, sialorreia na paralisia cerebral, esclerose múltipla, pós-mastectomia, entre outros. Apesar de bastante utilizada na prática, o mecanismo de ação da KT ainda não é completamente compreendido e as evidências científicas são limitadas e controversas em relação ao efeito hipoalgésico. Sendo assim, faz-se necessário analisar se o uso da KT, na dor, gera efeitos superiores, semelhantes ou inferiores a outras formas de tratamento, se é apenas um efeito placebo ou incapaz de proporcionar mudança significativa a um grupo controle. O objetivo deste estudo foi realizar uma revisão sistemática para relatar os princípios do método e principalmente, analisar quais foram os resultados dos ensaios clínicos com grupo controle referente à dor com a KT.
2 Metodologia
Para a realização deste estudo foram consultadas as bases de dados PubMed, SciELO, Lilacs, Scirus, Google Acadêmico, bem como pesquisa manual em revistas cientificas indexadas, com as seguintes palavras-chave: “Kinesio Taping”; “Kinesio Tape”; e “Kinesiotaping”; associados ou não à “dor” (pain). Para serem inclusos os estudos deveriam oferecer acesso na íntegra para avaliação (disponibilização do material de forma aberta ou de revistas relacionadas no Periódicos da CAPES), na forma de ensaio clínico com grupo controle e que avaliaram dor com a aplicação da KT, sem limitação de idade dos pacientes ou linguagem do manuscrito.
Foram excluídas as pesquisas que não utilizavam a dor como parâmetro de comparação frente à aplicação da KT, que utilizavam bandagem não elástica como forma de tratamento ou que o desenho do estudo não envolvia grupo comparativo. Os estudos que atenderam aos critérios de inclusão foram avaliados pela escala Physiotherapy Evidence Database (PEDro), utilizada por dois profissionais com experiência em fisioterapia musculoesquelética, sem ter por objetivo excluir dados de acordo com a nota obtida, ou seja, apenas apontar a qualidade metodológica de cada estudo. Em seguida, o software Statistica 7 foi utilizado para a análise dos dados. A Figura 1 apresenta os dados quantitativos da busca realizada.
3 Análise Individual
Antes de ser discutida a análise individual de cada estudo, vale ressaltar o que há de concordância entre os mesmos nos quesitos básicos da KT, no que se refere às formas de aplicação, preparo da pele, posicionamento, tensão, direção e tempo de uso. Dentre as formas de aplicação da KT, o corte da fita poderá ser em “Y”, “I”, “X”, “ventilador”, “teia” (“ventilador” modificado) e “rosquinha”, o que dependerá do tamanho do músculo comprometido e do tratamento desejado. Essas formas de aplicação são usadas, respectivamente, para fraqueza muscular (efeito facilitatório ou inibitório), dor e edema, correção biomecânica, drenagem linfática (ambos “ventilador” e “teia”), edema focal ou área específica (esportes).
A pele deverá estar livre de loções ou óleos hidratantes previamente à aplicação. Ao retirar-se o papel protetor do adesivo, mínimo contato deverá ser feito para que não ocorra diminuição da capacidade de aderência, sendo assim, não se deve retirar a proteção adesiva totalmente. Em técnicas básicas corretivas, a colocação da fita cinesioterápica deverá reproduzir o posicionamento das mãos do terapeuta no paciente.
A base da fita deverá ser aplicada 5 cm abaixo da origem ou acima da inserção, sem colocar tensão, para evitar desconforto. Após colocar o músculo em alongamento, a fita elástica tracionada deverá ser aplicada sobre o mesmo. Se a KT estiver esticada demasiadamente, ocorrerá diminuição dos seus efeitos, portanto, é melhor que haja menor tensão do que excessiva. Graduada por porcentagem, esse tracionamento da fita elástica é descrito como um dos fatores primordiais para o sucesso da aplicação, sendo: tensão total 100%, intensa 75%, moderada 50%, apenas a retirada do papel protetor ou leve 15–25%, muito suave 0–15%, nenhuma tensão 0%.
A direção na qual a fita deverá ser aplicada dependerá do propósito do tratamento. Como regra básica, coloca-se da inserção no sentido da origem muscular (15–25%) para inibir a função muscular em situações agudas, causado por sobreuso (overuse) ou estiramento muscular. No caso de músculos cronicamente enfraquecidos ou quando se deseja aumento da contração/ativação muscular, a KT deverá ser dirigida da origem para inserção (25–50%).
Em cerca de 10 minutos o paciente não irá perceber mais sua presença na pele e em cerca de 20 minutos terá ocorrido adesão total à pele. A aplicação deverá permanecer por 3–5 dias, quando ocorre diminuição do polímero elástico.
As formas de aplicação podem variar, mas nos estudos verificados foram todas baseadas nos princípios do livro de Kenzo Kase.
Após a realização da busca de referências, 10 estudos atenderam aos critérios de inclusão, a qualidade metodológica mínima foi de 5, máxima de 9 e média de 7,9±1,6 pontos determinados pela escala PEDro. De maneira geral, participaram 415 indivíduos em estudos que compararam a KT com outro grupo (controle, placebo ou intervenção), 4 demonstraram resultados superiores, 5 semelhantes e 1 inferior à contra-intervenção (Tabela 1).
Os autores dos trabalhos em que o grupo KT obteve redução da dor superior à intervenção em comparação descrevem que clinicamente talvez não represente relevância, pois a diminuição álgica foi minimamente melhor e que depois os resultados seriam equivalentes à contra intervenção. Além disso, a melhora descrita seria apenas em curto prazo (24 horas a 1 semana). Apenas 1 dos estudos com resultados superiores com o uso da KT obteve nota relativamente baixa (5), os outros 3 apontaram alta qualidade metodológica (9) pela escala PEDro, resultando em uma média 8±2 pontos.
Nos estudos nos quais os benefícios obtidos foram semelhantes ao outro grupo, não significa que não ocorreu diminuição da dor do paciente com o uso da KT, mas que sua aplicação seria tão eficiente quanto o uso de outra técnica, o que não representa justificativa para ser o principal tratamento a ser escolhido.
Como exemplo, pode-se utilizar a pesquisa de Saavedra-Hernández et al. 18, que dentre as selecionadas, foi a que envolveu o maior número de participantes, com alta qualidade metodológica de acordo com a escala PEDro e que, ao comparar a KT com manipulação cervical, encontraram redução da dor equivalente após uma semana. No entanto, como ilustrado pelos autores, a limitação foi a ausência de um grupo sem nenhuma intervenção (controle) e de grupos placebo, o que traria informações mais conclusivas.
Em outro estudo, o qual comparou grupo KT e placebo para dor no ombro, apenas nos três dias iniciais os resultados do primeiro grupo foram significativamente superior, ocorrendo equiparação entre os grupos posteriormente. Diferente dos dois últimos estudos, foram comparados um programa de reabilitação de seis semanas para síndrome femoropatelar, sendo um grupo com e outro sem a adição da KT. Em ambos ocorreu diminuição do quadro álgico, sem diferença intergrupos. Portanto, a KT não pode ser considerada superior ou inferior às outras intervenções utilizadas em cinco dos estudos, os quais obtiveram quase nota máxima na escala de avaliação, atingindo 8,4±0,8 pontos em média.
Em apenas um dos trabalhos a KT foi menos eficiente, em entorse de tornozelo, no qual proporcionou redução do quadro álgico (55,6%), mas a melhora da dor foi menor quando comparada com a mobilização articular (MWM) (74,9%), sendo que ambos os grupos receberam apenas três sessões por uma semana. No entanto, foi um dos estudos que atingiu menor pontuação na escala PEDro (5 pontos), representando menor qualidade na realização da pesquisa.
A maioria dos autores descreveu hipóteses para o mecanismo hipoalgésico atribuídos à aplicação da KT. Dentre estas, as mais citadas foram as seguintes. A tensão proporcionada pela fita gera estímulo aferente, facilitando o mecanismo inibitório da dor (teoria da comporta); a fita proporciona um feedback sensoriomotor que permite apenas movimentos que causam menor irritação mecânica dos tecidos, consequentemente ocorre menor dor; outra teoria foi fundamentada na condição de dor cervical mecânica, na qual os autores não enfatizaram diretamente um mecanismo de redução álgica, mas afirmam que isso ocorreria à medida que a técnica proporciona aumento da amplitude de movimento articular; apenas um estudo citou a possibilidade da melhora ocorrer pelo aumento da circulação na região da lesão.
A ideia mais aceita até o momento é a da teoria da comporta, na qual o estímulo mecânico proporcionado pela KT agiria através de fibras de condução rápida (Aβ) que ao atingir a Substância Gelatinosa de Rolando (corno posterior da medula espinhal), realiza sinapses com interneurônios inibitórios, ocasionando fechamento da comporta e, portanto, não permitindo a passagem de estímulos nociceptivos (Fibras C e Aδ)19. Outra tese elucidada facilmente na prática seria o efeito imediato que pode ser obtido ao aplicar a KT de maneira transversal ao músculo ou tendão comprometido (compressão moderada a forte), previamente ou após sessão de fisioterapia.
Pode-se testar essa hipótese, ainda não explicada cientificamente, em casos de epicondilite lateral do cotovelo (Tennis elbow), tendinopatia da “pata de ganso” (sartório, grácil e semitendíneo), patelar (joelho do saltador ou jumper´s knee) e do calcâneo. Acredita-se que essa forma de utilizar a fita diminui a sobrecarga no músculo ou tendão por modificar o ponto de alavanca (braço de momento interno), diminuindo a força exercida no local comprometido e, consequentemente, a dor. Seria um efeito literalmente mecânico, que cede à medida que a fita perde sua capacidade de manter a pressão no local por conta da utilização repetida do membro, mas que na maioria das vezes proporciona maior alívio da dor comparado às aplicações padronizadas para estas regiões.
Depois de verificar esses estudos do uso de KT em condições variadas, pode ser ressaltado que, após o músculo/articulação ser envolto pela fita, o fisioterapeuta deverá iniciar ou realizar previamente a aplicação de algum método ou técnica corretiva da causa do comprometimento. Como elucidado, é sugerida a aplicação da KT como estratégia adicional em curto prazo para redução da dor, como por exemplo na dor lombar crônica, mas isso não substitui a realização de exercícios. Portanto, a fita cinesioterápica é retratada como um tratamento alternativo ou complementar, sendo opção quando se deseja efeito imediato e de curta duração por aplicação, mas que não deve ser utilizado como única forma de tratamento. Sugere-se ser associada a outras técnicas e recursos (terapia manual, eletrotermo fototerapia e fortalecimento muscular).
Até o momento, nenhum trabalho foi desenvolvido para avaliar os efeitos em longo prazo do KT, o período máximo foi de 4–6 semanas, sendo obtidos valores semelhantes entre os grupos.
A combinação de baixo custo, risco de intercorrência limitada e redução da dor imediata (apesar de pequena) torna a aplicação da KT considerável, mesmo que a literatura ainda não consiga responder com certeza sobre seu mecanismo de ação.
4 Conclusão
O Kinesio taping produz efeito hipoalgésico semelhante quando comparada a outros grupos experimentais (8,4±0,8 pontos, escala PEDro), o que, clinicamente, não justifica seu uso como principal técnica analgésica. Três estudos de alta qualidade metodológica (9 pontos, escala PEDro) sugerem que seus efeitos sobre a dor foram superiores a curto prazo (24 horas após a aplicação), e seus resultados são, na maioria, descritos como benéficos, porém não há evidencia cientifica de que esses efeitos sejam prolongados.