Turismo
Turismo Nacional
1 Um olhar denso sobre acepções, significados e característica deste seguimento
RESUMO:
Ao discutirmos o desenvolvimento do turismo em nossa sociedade devemos tentar entender certos preceitos que o caracterizam, bem como estimulam sua aceitação por parte dos agentes que se beneficiarão, direta ou indiretamente, das ações advindas de sua cadeia produtiva. Nesse contexto, é de fundamental importância observarmos e entendermos a maneira como esse tipo de atividade é estruturada e guiada por concepções ligadas ao universo lúdico e recreacional. Dessa maneira, o trabalho aqui proposto tem como intenção discutir a ligação direta entre lazer e turismo, observando como ambos se influenciam e são vistos durante o processo de gestão, planificação e operacionalização da atividade turística nacional, enfatizando a necessidade, por parte de quaisquer planejadores, de se ter uma real domínio sobre as acepções que rotulam estes dois objetos, bem como a forma como são vistos, usufruídos e enraizados em nossa sociedade para que só assim possamos extrair benefícios positivos de ambos.
Palavras-chave: Lazer. Planejamento. Recreação. Tempo Livre. Turismo.
Toda pessoa tem direito ao lazer , ou seja, o uso de seu tempo para evadir-se da rotina de atividades diárias, da pressão do dia-a-dia de trabalho. Assim, ao falarmos sobre o lazer, devemos nos referir ao tempo não utilizado para o trabalho ou a qualquer outra ação que remeta a um ato de compromisso/dever, onde por isso retiraríamos ações ligadas as nossas obrigações familiares. Dessa maneira, poder-se-ia entender a prática do lazer enquanto as atividades que são selecionadas voluntariamente e que fornecem para os indivíduos que a executam a possibilidade de se renovar física e mentalmente, contribuindo para o entretenimento, divertimento e enriquecimento espiritual, social, cultural e intelectual de seus praticantes. Dessa forma, devemos entender o lazer enquanto: “(...) é um conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se, ou ainda, para desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora após livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações profissionais, familiares ou sociais”. (DUMAZEDIER, 1999, p.34).
esse sentido, para esse mesmo autor, o lazer apresenta-se enquanto substituto do trabalho alienado, oferecendo assim, práticas que não são vistas em boa parte dos ambientes severos, rígidos e exigentes dos universos laborais que são vistos em nossa sociedade contemporânea. Para este mesmo autor, o lazer deveria ser visto enquanto um mecanismo inovador na medida em que estabelece novas perspectivas de relacionamento social, onde por meio de sua prática, inúmeros grupos sociais aproveitariam, de maneira mais rica e saudável, as suas respectivas cotas de tempo livre, ganhando, através disto, qualidade de vida, relacionamentos interpessoais e diminuição dos riscos à saúde inerentes aos problemas decorrentes de excesso de trabalho. Além disso, por meio desta atividade, haveria a possibilidade de promovermos a integração do ser humano, o desenvolvimento de sua capacidade crítica, criativa e transformadora, proporcionando, dessa maneira, condições mínimas necessárias para o seu bem-estar físico e mental (DUMAZEDlER, 1999)
No contexto do lazer, por sua vez, pode-se situar o conceito de “recreação”, entendido como o conjunto de atividades não lucrativas que o homem realiza em seu tempo livre, dentro do lugar o zona de residência habitual. O entendimento sobre a diferença entre práticas que nos remetem a essência do lazer e da recreação basicamente poderia ser explanada através da ciência de que as ações ligadas ao universo do lazer deverão ser entendidas enquanto um “estado de espírito” alcançado por quaisquer indivíduos em seu tempo livre, graças à busca de diversão, alegria e entretenimento. Já a recreação seria uma a circunstância em que determinada pessoa escolhe, de modo espontâneo, ações, objetos, estruturas e equipamentos capazes de satisfazer seus desejos, anseios e expectativas relacionados ao lazer. Apenas a título de curiosidade, na figura abaixo, apresentaremos a relação intrínseca que será enxergada, usufruída e vislumbrada no momento em que contemplamos esses três agentes sociais: lazer, recreação e turismo.
(...) seria o tipo de atividade à qual o indivíduo se dedica durante o seu tempo de lazer, podendo-se identificar nela atividades que variam desde a recreação doméstica até o desfrute turístico em que haja a permanência no local visitado por pelo menos uma noite, [desde que, nos chama atenção este mesmo autor], o tempo de lazer concentre-se em um período de tempo que permita uma estada longe do local de residência”.
Em uma visão mais ampla, pode-se dizer que as atividades de recreação e entretenimento fazem parte de um universo maior denominado “lazer”5. Universo esse que extrapola a mera correlação com o tempo livre, pois se trata, como enunciado por Panosso Netto e Gaetta (2010), de uma construção cultural, bem como um fenômeno social, devido às inúmeras relações e características que quando bem compreendidas transparecem as maneiras peculiares e representativas de ser, ver e enxergar elementos, seres e objetos, sendo estas acepções capazes de “rotular” facetas de determinadas instituições e/ou grupos sociais.
Dessa maneira, julga-se importante afirmar que no Brasil, o direito ao lazer encontra-se no mais alto patamar legislativo brasileiro, situando-se no bojo constitucional dos “Dos Direitos e Garantias Fundamentais”, sendo, portanto, um direito e garantia fundamental do cidadão brasileiro defendido pela nossa Constituição Federal de 1988, expresso pelos artigos 6º e 7º deste mesmo documento que contextualiza o lazer como forma de promoção social7. Desta forma, pode-se dizer que o lazer e recreação ganharam uma nova dimensão com o advento da Constituição de 1988, encerrando em seu bojo uma grande preocupação com o social e com o bem estar do trabalhador e sua família (GOMES, 2005).
Assim, para entendermos como o lazer se insere e faz parte das raízes culturais de uma sociedade, é interessante recorrermos às funções que são dadas por Dumazedier a este tipo de prática. Durante a descrição de seu livro,Sociologia Empírica do Lazer, Dumazedier estabelece que à compreensão do universo tratado deveria ser contemplada através do entendimento das seguintes funções: 1) a função de descanso; 2) a função de divertimento, recreação e entretenimento; 3) a função de desenvolvimento, sob a forma de novas formas de aprendizagem e que tem importância fundamental para o incremento da cultura popular, visto que tais ações poderiam ser vislumbradas enquanto a possibilidade de tais indivíduos manifestarem ações, estruturarem elementos, bem como produzir ícones representativos a suas identidades e memórias.
Ainda no contexto jurídico das políticas públicas que regem e normatizam ações sociais e econômicas em nosso Brasil, julga-se, aqui, interessante citar o Plano Nacional de Turismo, mais precisamente o PNT 2007/2010. Esse plano é fruto do consenso de todos os segmentos turísticos envolvidos em nosso território e tem como objetivo comum a transformação da atividade turística em um importante mecanismo de melhoria sócio-econômica brasileira.
Além disso, o intuito deste é fazer do turismo nacional um importante indutor da inclusão social, que poderá ser estabelecida por duas vias: a da produção (por meio da criação de novos postos de trabalho, ocupação e renda), e a do consumo, com a absorção de novos turistas no mercado interno (MTUR,2010).
O PNT 2007/2010, de acordo com o próprio Ministério do Turismo poderia ser considerado, de maneira breve e sucinta, um instrumento de planejamento e gestão que coloca o turismo como indutor do desenvolvimento e da geração de emprego e renda no País, e que poderá proporcionar o fortalecimento do turismo interno, a promoção do turismo como fator de desenvolvimento regional, bem como assegurar o acesso de trabalhadores, estudantes, aposentados, a pacotes de viagens em condições facilitadas, investindo permanentemente na qualificação profissional e na geração de emprego e renda, bem como assegurar melhores condições para a promoção do turismo pátrio no exterior.
O desejo, nos próximos anos, é multiplicar as oportunidades para que milhões de brasileiros possam ampliar seu olhar para dentro do Brasil. Sem descuidar da divulgação das nossas belezas naturais no exterior, trata-se agora de colocar o lazer turístico na cesta de consumo da família brasileira e, com isso, fortalecer o turismo interno.
Refletindo agora na associação entre lazer e turismo, deduz-se que há uma correlação entre ambos, uma sinergia onde percebemos que a prática do lazer que vier se realizar no ambiente turístico auxiliará a construção e a percepção da imagem da destinação em questão, seja pelo usufruto das ações correlacionadas ao lazer ou então, de maneira indireta, pelo consumo dos equipamentos, serviços, infraestrutura turística que dará suporte as práticas do lazer, bem como sustentará a execução de afazeres capazes de atender as demais outras necessidades que acompanham quaisquer indivíduos que se predispõem a efetuar deslocamentos em busca do singular, do belo, do peculiar e do representativo.
Nesse contexto, as pessoas também procuram por atividades que lhe propiciem momentos de prazer, relaxamento e descanso, paralelamente àquelas que se enquadram perfeitamente no universo das atividades de lazer. Contudo, isso não que dizer que a prática turística restrinja-se tão somente a momentos lúdicos e recreacionais, uma vez que o turismo engloba outras dimensões, tal como negócios, religião, cultura, meio ambiente, e outras mais.
Entretanto, também não podemos nos esquecer de que, independentemente do tipo, do porte e da segmentação a serem contemplados no processo de inserção e desenvolvimento do turismo, este, poderá sim, em determinados momentos, ter facetas que se relacionem diretamente com a prática do lazer, exatamente como será ilustrado na tabela abaixo:
Assim, percebe-se que a partir da análise da tabela acima, que independentemente dos tipos de turismo que são ofertados, estes poderão, dependendo do processo de gestão, planificação e operacionalização que os cercam, apresentar em determinadas partes de seus contextos, atividades de lazer que se valerão dos serviços e facilidades turísticas encontrados nos núcleos receptores dos quais o segmento principal ofertado por essa atividade faz parte.
Para ilustrar essa realidade, imaginemos uma viagem a Porto Seguro-BA. Nesse destino muito visitado do Nordeste brasileiro, o turista encontra uma grande gama de atividades de lazer, desde visitas a locais históricos, a experiências gastronômicas, prática de esportes aquáticos, mergulho, dentre outras, independentemente do tipo de turismo que este, inicialmente, se propôs a executar e consumir. Assim, percebemos que para que o lazer turístico se viabilize, é necessário que haja serviços, equipamentos, infraestrutura e facilidades turísticas que auxiliem a conexão de vários subprodutos de uma determinada destinação, facilitando, assim, a permanência de nosso visitante, bem como corroborando para que este tenha uma experiência inesquecível durante a sua estada.
Esporte e lazer: um nicho a ser explorado pela atividade turística.
A medida que o tempo dedicado ao trabalho vai se reduzindo de forma considerável para a maior parte das pessoas, a crescente disponibilidade de tempo livre propicia uma maior propensão ao lazer, que se estabelece em uma considerável diversificação de atividades, que podem ser divididas em cinco dimensões:
- – Lúdica: corresponde ao mundo dos hobbies, esportes, jogos, recreação, etc.
- – Criativa: diz respeito à música, literatura e teatro, entre outras atividades.
- – Festiva: Entendida como manifestação que permite viver experiências coletivas.
- – Ambiental-ecológica: dimensão que se encontra vinculada ao desenvolvimento da recreação ao ar livre, às vivências em espaços naturais e à prática de deportes em espaço aberto.
- – Solidária: permite a vivência social, comprometida e de ajuda, que pode ocorrer através de grupos de voluntários e associações de lazer que desenvolvam ações de ajuda e solidariedade.
O esporte situa-se, portanto, na dimensão lúdica, ao lado da recreação, sendo essa – em si mesmo – uma forma de prática desportiva, e por consequência um meio para a ocupação do tempo livre. A prática esportiva, tanto em suas manifestações mais elaboradas, como em suas versões mais modestas, sempre virá acompanhada de um forte elemento festivo que altera a rotina cotidiana da vida urbana, onde este elemento festivo relacionar-se-á ao tipo de turista atraído pelos eventos esportivos.
Na maior parte das vezes, estes são pessoas com espírito jovial, com grande disposição para atividades diurnas e noturnas, o que acarretará um aumento da demanda por serviços e produtos turísticos, e dependendo do fluxo, observaremos até mesmo a mudança da dinâmica de funcionamento dos estabelecimentos, produtos e serviços ligados ao contexto aqui mencionado (horários de funcionamento dos estabelecimentos comerciais, por exemplo).
Contudo, um ponto digno de nota e que vale ser ressaltado é a maneira como enxergamos a questão do lúdico. A ludicidade é uma necessidade do ser humano em qualquer idade e não pode ser vista apenas como diversão, e implica também em uma melhoria da qualidade de vida da população, condição essa indispensável para se pensar no desenvolvimento do lazer. Nesse momento, percebemos então o lazer, juntamente com a recreação, enquanto um tipo de válvula de escape, um meio para encontrar a liberdade e a criatividade, uma fórmula para fomentar o desenvolvimento social e cultural, um recurso para a formação pessoal e um direito de todo cidadão.
O lazer e o trabalho em nossa sociedade:
uma análise contemplativa e reflexiva sobre a relevância das atividades lúdicas-recreacionais. Para discutir esse assunto fez-se uma pequena ilustração das ideias abordadas por Domenico de Masi, em seu livro “O Ócio Criativo”. Para este autor (2000), a relação entre lazer e sociedade passa necessariamente por uma análise do mundo do trabalho. De acordo com este, durante mais de 7.000 anos o mundo do trabalho fora baseado em atividades ligadas à agricultura. Após a Revolução Industrial, desde o final do século XVII, o trabalho deslocou-se substancialmente para a atividade industrial.
Atualmente, no entanto, dadas as transformações nos processos de produção (sobretudo a automatização) o eixo para o qual estão convergindo os empregos são as atividades ligadas à informação, ao bem-estar, à estética e onde, durante a execução destas, o homem sequer consegue mensurar e dividir a questão do tempo, justamente, pelo fato destas atividades não serem encaradas como verdadeiras obrigações e “demônios” a serem vencidos, tais atividades misturam o senso de dever, gratificação, prazer, obrigação em um mesmo cenário.
Os setores apresentados acima, bem como aqueles que se ligam ao terceiro setor de nossa economia – prestação de serviços11, encontram-se, de acordo com este mesmo pesquisador, em um ritmo frenético de expansão, sobretudo, nos países mais ricos do mundo, bem como em outros, como o Brasil, onde especialmente as camadas mais favorecidas dedicam grande parte de seu tempo produzindo informações e atividades que não são diferenciadas pela questão tempo. É como se tais indivíduos, afirma De Masi (2000), pudessem, em uma mesma linha de tempo estabelecer ações que fossem capazes de responder as suas obrigações laborais, familiares, pessoais, sociais e lúdicas em um mesmo intervalo de tempo e espaço.
Segundo De Masi (2000) na Inglaterra do século XVIII empregava-se 95% dos operários em atividades manuais. Já no final do século XX esse percentual era relativamente menor: cerca de 30%, e com um detalhe digno de nota: a maior parte desses operários era oriunda de países mais pobres e que enxergavam nesse excesso de tempo livro e na realidade a escassez de trabalho é que proporcionaria esse tempo livre em que as jornadas seriam menores e o tempo de ócio seria maior a possibilidade de arrumar outro emprego para que a renda de sua família fosse maior e, através disto, tais indivíduos fossem capazes de proporcionar aos seus familiares, uma melhor qualidade de vida.
Contudo, a realidade descrita anteriormente passa por um processo de mudança. De Masi (2000) afirma que 66% dos italianos, alemães, americanos, por exemplo, exercem atividades de natureza intelectual e criativa, e metade deles de maneira flexível. De Masi (2000) reflete então que para essa gama de profissionais não existe uma divisão entre tempo livre e trabalho, estando tudo junto, e a isso chama de “ócio criativo”. Ou seja, a atividade onde a pessoa trabalha, estuda, brinca, se diverte, tudo ao mesmo tempo. Assim, praticamente um terço da população dos países desenvolvidos, afirma este mesmo pesquisador, enquadra-se nesse conceito de “ócio criativo”.
O que nos chama atenção na fala deste sociólogo, quando tentamos compreender de que maneira essas acepções poderiam ser discutidas e vistas em território brasileiro, seria a questão da violência. Para este, a interferência de tais ações pejorativas, incidem, decisivamente, no desenvolvimento deste país, isso porque, segundo este autor, a violência impede que o país possa usufruir de uma de suas maiores riquezas: o turismo.
Citando a Espanha como exemplo a ser seguido para o processo de planificação e organização da atividade turística, este sociólogo do lazer informa que 19% do PIB daquele país advêm do turismo, lembrando que em média, o turismo representa mais que 10% do PIB de todos os países da zona do euro. No Brasil, esse percentual no final da década de 90 girava em torno de 2%, chamando atenção aos contrastes regionais. Como, argumenta este pesquisador, um país que tem um forte potencial turístico, assume números tão inexpressivos? Para este, a resposta a tais índices poderiam ser encontradas, em grande parte, a violência e a falta de segurança.
O lazer encaixa-se nessa discussão proposta por Domenico de Masi, sobretudo, no contexto do que este autor conceitua como “ócio criativo”, onde existe a possibilidade, através de um ambiente não segmento por ações de tempo e espaço, estabelecer um trabalho criativo, capaz de expandir as possibilidades de atrativos, fazendo com que o homem tenha uma disponibilidade maior para ver, sentir e experienciar, de forma mais humanista e construtivista, as relações e os objetos que o cercam.
Dessa maneira, poderíamos visualizar a prática do turismo enquanto ferramenta para que tais preceitos aqui apresentados possam ser verificados. À medida que o mundo transforma-se, e as relações de trabalho também se transformam como visto acima, abrir-se-á cada vez mais espaço para o desenvolvimento de atividades associadas ao tempo livre, estética, informação e bem estar, e nesse contexto o lazer e a recreação.