Práticas convencionais e sistemas de manejo

Agroecologia e Manejo do Solo

1 Práticas conservacionistas e sistemas de manejo

As técnicas utilizadas para aumentar a resistência do solo ou diminuir as forças do processo erosivo denominam-se práticas conservacionistas. Estas práticas podem ser divididas em vegetativas, edáficas e mecânicas.

Para o controle adequado do processo erosivo é necessário que elas sejam aplicadas simultaneamente, a fim de abranger com  maior amplitude os diversos aspectos do problema.

Práticas de caráter vegetativo

São aquelas em que se utiliza a vegetação para proteger o solo contra a erosão. A densidade da cobertura vegetal é o princípio fundamental de toda proteção proporcionada ao solo, preservando-lhe a integridade contra os efeitos danosos da erosão. 

É necessário identificar dentro da proposta de produção da propriedade as formas para que sejam incluídos sistemas de proteção do solo baseados nas vegetações de revestimento e de travamento.

O uso de fogo deve ser sempre evitado. Os principais motivos são os seguintes:

Diminuição da densidade da cobertura vegetal, o que diminui a proteção do solo oferecida contra a erosão;

Destruição de grande parte da matéria orgânica do solo;

Mata os microorganismos responsáveis pela decomposição dos restos vegetais e pela condução de nutrientes da atmosfera para o solo. Um importante exemplo é o Rizobium, que retira nitrogênio da atmosfera e o incorpora ao solo.Muitos proprietários rurais colocam fogo no pasto com o objetivo de obter uma rebrota rápida, mesmo em ausência de chuva. O que ocorre é que esta rebrota é extremamente tóxica e não é apropriada para servir de alimento aos bovinos.

O resultado é tão severo que o leite produzido apresenta gosto diferente do normal. 

As técnicas de caráter vegetativo são as seguintes:

Florestamento e reflorestamento

As terras que possuem baixa capacidade de produção e, ao mesmo tempo, muito suscetíveis à erosão, deverão ser recobertas de vegetações permanentes bastante densas.

Um exemplo desta ação é a implementação de florestas, que podem ser produtivas, como por exemplo o plantio de eucalipto, teca, ou espécies frutíferas nativas.

Em locais onde o solo é pobre e o terreno é acidentado, é importante reduzir as enxurradas que se formam nas cabeceiras, atenuando os problemas de controle de erosão nos terrenos situados mais abaixo.

Neste caso, deve ser feito o plantio de árvores no topo de morros e em áreas com grande inclinação. A recuperação das matas ciliares é importante para a proteção das margens dos rios e das nascentes, o que é determinado pela lei.

Pastagem

Os empreendedores que se especializam em criação de gado tem como opção a implementação de pastagens em terrenos onde as culturas não proporcionam produções compensadoras ou existe grande  perigo pela erosão.

As pastagens não exercem a mesma proteção das florestas. Trata-se de uma opção indicada apenas se a propriedade atua com a criação de animais que dela se alimentam.

O uso de pastagens implica na realização de um dimensionamento adequado onde é colocado o número adequado de animais por pasto, evitando o pastejo exagerado que resulta em uma diminuição considerável da proteção contra a erosão. O melhor sistema de evitar que os pastos sejam muito raleados pelo gado, é fazer o rodízio de pastagens.

Outro agravante da superlotação de animais é o pisoteio excessivo que produz a compactação do solo, e se houver perda da cobertura vegetal este solo perde capacidade de infiltração. Recomenda-se aos produtores que promovam a renovação das pastagens (20% do terreno de pastos) todo ano, desta forma a cada cinco anos terá a pastagem totalmente renovada. Sabe-se que este manejo é caro e oneroso para os produtores mas deve ser considerado. Uma pastagem é uma cultura e requer cuidados tal qual outros plantios como adubação, replantio e controle de plantas invasoras.

Plantas de cobertura

São plantas que se destinam a manter o solo coberto durante o período chuvoso, com o objetivo de reduzir os efeitos da erosão e melhorar as condições físicas e químicas do terreno.

As plantas de cobertura, além de controlarem os efeitos da erosão e evitarem que os elementos nutritivos postos em estado solúvel no solo sejam lixiviados nas águas de percolação, também proporcionam uma eficiente proteção de matéria orgânica do solo contra o efeito da ação direta dos raios solares.

Um grande benefício dessas plantas é a produção de matéria orgânica para incorporação ao solo. O aumento do conteúdo de matéria orgânica no solo melhora as suas condições físicas e estimula os diversos processos químicos e biológicos.

De todos os resíduos das plantas, as raízes são, sem dúvida, o mais importante, pois o seu crescimento subterrâneo possibilita a acumulação de matéria orgânica a profundidades variáveis. A matéria orgânica melhora a estrutura e a capacidade de retenção da umidade dos solos.

No caso de culturas anuais, as plantas de cobertura são intercaladas nos ciclos da cultura, visando substituí-la assim que ela seja retirada do terreno.

No caso das culturas perenes, como cafezal, seringal, pomares, as plantas de cobertura são utilizadas principalmente para suplementar o efeito de cobertura já proporcionado pelas plantas cultivadas, cobrindo os claros deixados no terreno por suas copas.

As plantas utilizadas como cobertura, nas culturas anuais, são principalmente as mesmas leguminosas empregadas para adubação verde, ou seja, a mucuna, as crotalárias, o feijão-guandu. Nas culturas perenes, as plantas de cobertura são, também, as mesmas usadas para adubação verde.

Cultura em faixas

Consiste na disposição das culturas em faixas de largura variável, de tal forma que a cada ano se alterna em plantas que oferecem pouca proteção ao solo com outras de crescimento denso. Pode-se considerá-la como uma prática complexa, pois combina o plantio em contorno, a rotação de culturas, as plantas de cobertura e, em muitos casos, os terraços.

A cultura em faixas é um dos mais eficientes e práticos para culturas anuais. É importante que a cultura seja realizada no sentido das curvas de nível do terreno e pensada de forma a servir de obstáculo aos ventos dominantes, impedindo a   erosão eólica.

A locação das faixas pode ser feita de três maneiras:

a) Faixas niveladas: Todos os limites entre faixas são locados na linha de contorno do terreno;

b) Faixas paralelas: Apenas uma linha mediana da gleba é marcada em contorno, sendo as demais linhas divisórias entre faixas tiradas paralelamente à mesma;

c) Faixas associadas: Combinando os dois sistemas anteriores de tal modo que uma faixa paralela se alterne com uma nivelada, esta com largura irregular e aquela com largura regular.

O sistema de faixas niveladas é o mais adequado para terrenos de topografia irregular; o controle de erosão será mais eficiente em virtude de as fileiras de plantas seguirem com maior aproximação as curvas de nível do terreno, podendo ter nas linhas de transição das faixas a construção de reforços de proteção mecânica (terraços).

O espaçamento entre as linhas divisórias das faixas, correspondente à largura das faixas, dependerá do tipo de solo, do grau de declive, das culturas e dos sistemas culturais empregados. A largura das faixas será menor quanto mais erodível for o solo e quanto maior for a declividade do terreno.

Se o sistema é planejado com cuidado e se marcam adequadamente as faixas estabelecendo uma rotação de culturas, com os anos consecutivos de uso a gleba terá uma proteção balanceada em todo o terreno.

Cordões de vegetação permanente

Esta prática de caráter vegetativo consiste em fileiras de plantas perenes e de crescimento denso, organizadas em determinado espaçamento horizontal e sempre em contorno. Em culturas anuais cultivadas continuamente na mesma faixa, ou em rotação são intercaladas faixas estreitas de vegetação cerrada, formando os cordões de vegetação permanente; em culturas perenes como café e pomar, os cordões são colocados entre as árvores, com determinado espaçamento horizontal, formando barreiras vivas para o controle da erosão.

O objetivo é quebrar a velocidade de escorrimento da enxurrada. O cordão de vegetação provocará a deposição de sedimentos transportados e facilitará a infiltração da água que escorre no terreno, diminuindo a erosão do solo.

Esses cordões possibilitam a formação gradual de terraços com o correr dos anos; com o preparo do solo e com os cultivos que se fazem entre as faixas, e também como resultado da própria erosão, a terra vai sendo deslocada do seu lado de cima, formando com o tempo os terraços.

É indicado que os cordões de vegetação permanente tenham de 2 a 3m de largura. É interessante que a vegetação utilizada apresente valor econômico e possua características de crescimento rápido, formação de uma barreira densa junto ao solo e não possuir caráter invasor para as terras de cultura adjacentes, sem  fornecer abrigo para moléstias e pragas das culturas próximas.

São exemplos de espécies usadas: a cana-de-açúcar, que oferece valor econômico pela utilização em forragem de alimentação do gado ou na industrialização; a erva-cidreira, que também fornece um óleo essencial, com boa barreira e a vantagem do porte menor; o capim-gordura, que pode ser usado como feno, produzindo uma barreira bastante densa e bem ligada ao solo.

Alternância de capinas

A alternância de épocas de capina em ruas próximas, durante o período chuvoso, é uma forma de se reduzir as perdas por erosão tanto em culturas anuais como em perenes.

A execução é bastante simples e consiste em fazer as capinas sempre pulando uma ou duas ruas. Depois de algum tempo, voltar para capiná-las. Desta forma sempre uma ou duas ruas ficam com  o mato imediatamente abaixo e a terra perdida pelas ruas limpas de mato será retida pelas ruas com mato que ficam imediatamente abaixo.

Ceifa do mato

A ceifa do mato pode ser feita em culturas perenes, como o pomar, café, etc. Consiste em se cortar as ervas daninhas a uma pequena altura da superfície do solo, mantendo intactos os sistemas radiculares do mato.

Esta é uma forma eficiente de controlar a erosão. Esta ceifa deve ser convenientemente repetida para não prejudicar a cultura pela concorrência. A execução do trabalho pode ser feita com ceifadeiras manuais ou mecânicas.

A figura a seguir apresenta o trabalho de ceifa do mato.

Figura: Roçadeira realizando a ceifa do mato.

Cobertura morta

A cobertura do solo com restos de culturas é uma eficiente prática de controle da erosão. A cobertura morta é uma eficiente proteção para o solo contra o impacto das gotas de chuva, fazendo diminuir o escoamento da enxurrada. Este processo  incorpora ao solo a matéria orgânica que vai aumentar sua resistência ao processo erosivo. Com relação a erosão eólica, protege o solo contra a ação direta dos ventos e impede o transporte das partículas.

A cobertura morta é uma eficiente proteção para o solo contra o impacto das gotas de chuva, fazendo diminuir o escoamento da enxurrada. Este processo  incorpora ao solo a matéria orgânica que vai aumentar sua resistência ao processo erosivo. Com relação a erosão eólica, protege o solo contra a ação direta dos ventos e impede o transporte das partículas.

Faixas de bordadura

Consistem em faixas estreitas formadas com plantas de pequeno porte e vegetação cerrada para conter os excessos de enxurrada que possam escorrer sem provocar danos.

Estas faixas devem ter uma largura de 3 a 5m, sendo formadas na margem das áreas cultivadas e ao lado dos caminhos e dos canais escoadouros. Sua principal função é a de controlar a erosão nas bordas dos terrenos de cultura.

É interessante formar as faixas de bordadura com vegetações úteis, fornecedoras de produtos de valor econômico. Estas faixas também contribuem para evitar o aparecimento de ervas daninhas. Para sua formação são recomendadas  leguminosas de pequeno porte, como centrosema, cudzu e crotalária, e gramíneas, como erva-cidreira e capim-gordura.

Quebra-ventos

São formados por uma barreira densa de árvores, colocadas a intervalos regulares do terreno em regiões sujeitas a ventos fortes. Sua função é a de formarem anteparos contra os ventos dominantes.

Para a sua implementação deve ser observada a proteção das plantas cultivadas e do solo contra a erosão eólica, sendo escolhidas árvores altas, de crescimento rápido e o mais cerrado possível. Normalmente são usados ao longo das divisas dos terrenos.

Os quebra-ventos são elementos obrigatórios em propriedades que desejam evitar contaminações trazidas pelo vento, como por exemplo em granjas de aves e suínos. Para a formação dos quebra-ventos as árvores mais utilizadas são: o eucalipto, o cipreste e em alguns casos, o bambu.

2 Práticas de caráter edáfico

São as práticas conservacionistas que são utilizadas no sistema de cultivo. Estas práticas proporcionam o controle da erosão e mantêm ou melhoram a fertilidade do solo.

As principais práticas de caráter edáfico são as seguintes:

1) Controle do fogo

O uso de queimadas em restos de culturas para facilitar o preparo do solo são muito nocivas. Causam prejuízos com a perda da matéria orgânica e do nitrogênio.  O solo perde a capacidade de absorção e retenção de umidade e a sua resistência à erosão. Os restos culturais devem ser enterrados, deixados na superfície, ou encordoados ao longo de curvas de nível do terreno, e deixados até se decomporem com o tempo.

2) Adubação verde

É uma prática que realiza a incorporação ao solo de plantas cultivadas para esse fim ou de outras vegetações cortadas quando ainda verdes para serem enterradas.

Essas plantas, quando estão vivas, realizam a proteção do solo contra a ação direta da chuva e depois de enterradas, melhoram as condições físicas do solo pelo aumento de volume de matéria orgânica.

Para a adubação verde, devem ser preferidas as plantas da família das leguminosas, que além de matéria orgânica, incorporam também nitrogênio ao solo.

3) Adubação química

A Sua função é a de recompor os nutrientes perdidos pelo solo através de processos erosivos, de uso exaustivo do solo ou ainda, de recuperação de solos originalmente inaptos para o cultivo.

A adubação química deve fazer parte de um planejamento amplo onde devem ser considerados os custos e os benefícios desta atividade ao longo do período do tempo. A manutenção da fertilidade é importante pois proporciona melhor cobertura vegetal no terreno e consequente proteção do solo.

4) Adubação orgânica

A adubação com esterco de animais ou com composto orgânico realiza importante papel de melhoramento das condições para o desenvolvimento das culturas gerando grande influência sobre o aumento da matéria orgânica na redução das perdas de solo e água por erosão.

O esterco de curral fornece ao solo a matéria orgânica já em estado de decomposição e elementos nutritivos. Tem a vantagem de fornecer certos compostos orgânicos que tem função estimulante do crescimento das plantas.

O composto orgânico é em geral, formado por detritos orgânicos diversos, tais como palhas, restos de limpeza de arroz, feijão, etc., depois de misturados e curtidos. A forma de obtenção deste produto também é chamada de compostagem.

A compostagem ainda é pouco utilizada nas propriedades rurais em função de que os técnicos e os proprietários rurais ainda desconhecem seus inúmeros benefícios.

5) Calagem

É o ato de realizar a correção da acidez do solo ( pH) com a aplicação de calcário (cálcio e magnésio para neutralização do alumínio trivalente que é um elemento tóxico para as plantas). A calagem proporciona melhor desenvolvimento das plantas, o que se reflete em maior proteção contra o impacto das gotas de chuva. Desta forma, diminuem as perdas de solo e água pela erosão.

6) Práticas de caráter mecânico

São as práticas em que se utilizam estruturas artificiais mediante a disposição adequada de porções de terra com o objetivo de quebrar a velocidade de escoamento da enxurrada, facilitando a infiltração da água no solo.

São exemplos de práticas de caráter mecânico:

Distribuição racional dos caminhos: O traçado costumeiro dos caminhos em linhas retas que desconsideram a topografia do terreno, são a causa de prejuízo devido às perdas por erosão. Normalmente, os caminhos e estradas são criados a favor das águas. A forma mais correta é distribuir os caminhos próximos do contorno das curvas de nível.

Plantio em contorno: Consiste em dispor as fileiras de plantas e executar todas as operações de cultivo no sentido transversal à queda do terreno, em curvas de nível ou linhas no contorno. Uma linha de contorno é aquela cujos pontos estão todos na mesma altura do terreno.

Ao se cultivar em contorno, cada fileira de planta e os pequenos sulcos e torrões de terra que as máquinas de preparo do solo deixam no terreno, atuam como um obstáculo que se opõe ao percurso da enxurrada, diminuindo a sua velocidade e capacidade de arrastamento.

Todas as operações em contorno devem ser feitas em nível. Em áreas de grandes lançantes ou de topografia irregular, várias linhas de contorno devem ser definidas para que as operações de cultivo sejam feitas em nível. No plantio em contorno, normalmente são usadas estacas para servirem de guia para as máquinas no traçado das linhas de plantas.

Terraceamento: As práticas conservacionistas são empregadas para reduzir o impacto das gotas da chuva e a ação da enxurrada sobre o solo reduzindo as perdas por erosão. O terraceamento é a prática conservacionista considerada mais eficaz no controle da erosão, porém nem todos os solos podem ser terraceados com êxito, a exemplo dos terrenos pedregosos, declivosos, muito rasos, ou com subsolo adensado .

De forma prática, a finalidade dos terraços, é reter as águas e fazê-las aproveitadas pelas plantas ou escoar lentamente a enxurrada sem causar erosão. O sucesso da prática do terraceamento dependerá do seu planejamento ser bem elaborado e executado, conforme nivelamento adequado e declividade. E acima de tudo conservação e manutenção periódica, cuidados com a proteção das cabeceiras do terreno e evitar tráfego de máquinas sobre os terraços.

Na figura 05, é apresentado um exemplo de terraço, onde o objetivo é reter a água que desce originada da parte mais alta (esquerda).

Figura 05 - Exemplo de terraço.

Controle de voçorocas

É importante efetuar as medidas de controle das voçorocas para prevenir-lhes a formação. O controle das voçorocas, além de difícil é muito caro, podendo até ser mais elevado que o próprio valor da terra. É verdade que é necessária alguma atitude pois o deslocamento de terra da voçoroca vai provocar o assoreamento de córregos e barragens.

A formação da voçoroca ocorre quando a enxurrada se concentra em depressões mal protegidas e a água escorre de forma volumosa, adquirindo grande velocidade. Com o tempo, esta ação avança e as grotas vão atingindo maior tamanho, podendo chegar a até vários quilômetros de comprimento, com 10 a 15m de largura e 6m ou mais de profundidade.

O crescimento da voçoroca em comprimento é mais rápido que o transversal, pelo motivo de que é maior o volume de enxurrada que penetra na sua extremidade superior que nos seus lados. O crescimento maior da voçoroca em profundidade ocorre em regiões de grande declividade.

O controle da voçoroca é realizado com os objetivos:

a) interceptação da enxurrada acima da área de voçorocas, com o uso de terraços de diversão (estrutura composta de um canal e um camalhão de terra na parte de baixo, constituída no sentido contrário ao maior declive do terreno, com um pequeno caimento, para proporcionar o transporte da enxurrada, em baixa velocidade, para um ponto desejado de escoamento);

b) retenção da enxurrada na área de drenagem, por meio de práticas de cultivo, de vegetação e estruturas específicas;

c) eliminação das grotas e voçorocas, com acertos do terreno executados com grandes equipamentos de movimentação de terra;

d) reconstituição da vegetação da área;

e) construção de estruturas para deter a velocidade das águas ou até mesmo armazená-las;

f) retirada completa do gado da área;

g) controle da sedimentação das grotas e voçorocas ativas.

Todas as formas eficientes de controle de voçorocas são baseadas no estabelecimento de uma vegetação protetora, porém, quando o estágio da erosão está bem adiantado na área, é mais difícil conseguir a cobertura vegetal necessária. Os pontos intensamente erosionados, onde já não existe mais a parte superficial do solo, ou, como em muitos casos, nem se encontra mais com o horizonte B, é muito difícil fazer crescer uma vegetação.

A primeira ação deve ser o desvio da enxurrada e a proteção da área contra o fogo e o pastoreio. Com o tempo, surge a vegetação natural; primeiro, aparecem lentamente as plantas mais rústicas e mais adaptadas às más condições de fertilidade; posteriormente, pelo aumento de matéria orgânica que elas fornecem, o solo melhora e outras plantas aparecem, e assim sucessivamente, até que a área se recobre normalmente de boa vegetação, semelhante à predominante na região.

Aqui aconselhemos como uma medida simples e de baixo custo, a realização de coveamento nas bordas da voçoroca. Este coveamento deve ter a profundidade de um metro. A metade desta cova deve ser preenchida com esterco de curral bem curtido misturado com 50% de terra. Nestas covas deve ser feito o plantio de árvores que tenham desenvolvimento rápido.

Na FIGURA abaixo, apresentamos uma voçoroca. Podem ser observadas as medidas de construção de terraços e curvas de nível para evitar que a água continue a seguir pela voçoroca.

Figura 06 - Voçoroca gigante na Serra do Caiapó, GO

Porém, a técnica de coveamento que propomos deveria ser aplicada. Agora, apresentamos o mapeamento para esta voçoroca, com o objetivo de implementação de vegetação protetora nas bordas da voçoroca através do coveamento. Foi determinado o uso de 240 mudas de árvores:

Figura: Mapa de coveamento para implementação de mudas de árvore na  voçoroca 

Quando se constroem as curvas de nível e os canais para impedirem a  concentração de enxurradas para a voçoroca, a construção de barragens dentro das voçorocas fica bastante simplificada e é uma prática que pode ser realizada. Neste caso, é desejável que estas barragens sejam feitas de pedras, ficando bem encravadas nas paredes laterais e no fundo das voçorocas.

Estas barragens devem ser de pouca altura, com mais ou menos 0,50m, e localizadas a intervalos regulares dentro da voçoroca. Estas barragens também podem ser construídas de tela de arame ou de tocos de árvores.

Realizamos um estudo para a utilização de pneus inservíveis na contenção de erosões e este processo demonstrou bastante eficiência.

Ao usar pneus, são necessários os seguintes cuidados:

- Fazer pequenos buracos, com ajuda de uma faca, na parte dos pneus que vai ficar virada para baixo, com o objetivo de evitar o acúmulo de água.

- Usar os pneus empilhados na forma de degraus, para aumentar a resistência da barreira.

- Fazer visitas periódicas ao local para verificar a estabilidade da barreira.

3 Sistemas de Manejo do Solo

Vários sistemas de manejo podem ser utilizados visando à manutenção da fertilidade do solo, ao controle da erosão e à redução de custos. Os principais sistemas de manejo são:

a) Rotação de culturas

É a forma de alternar, em um mesmo terreno, diferentes culturas em uma sequência de acordo com o plano definido.

A rotação de culturas, realiza o aumento do conteúdo de matéria orgânica do solo, possuindo grande influência na manutenção da fertilidade. A rotação pode auxiliar no controle de ervas daninhas e na prevenção de moléstias e pragas. As doenças que são adaptadas a determinadas plantas não sobrevivem quando a cultura é trocada.

b) Preparo do solo

Existe uma grande busca pelo uso de máquinas nas atividades agrícolas. É necessário pensar que o modelo de agricultura usado no Brasil foi criado em outros países, que possuem outros tipos de solo e condições climáticas diferentes da nossa.

A ideia de revirar constantemente o solo, usando arado e grade aradora, ou ainda o subsolador, deve ser revista, devendo ser utilizada apenas em atividades que seu uso seja realmente indispensável.

A mecanização em excesso causa a compactação do solo, gasto de combustíveis e horas de máquina e de operadores.

Tratores de pequeno porte e os micro tratores podem realizar atividades importantes que normalmente são realizadas por tratores de grande porte.

No início dos anos 70 aconteceram as primeiras experiências brasileiras com o sistema de plantio direto. O Paraná, em especial, foi o precursor da tecnologia no país. O primeiro plantio de que se tem notícia foi feito na região de Rolândia, no norte do Estado, pelo produtor Herbert Bartz, em 1973. Ele foi aos Estados Unidos, conheceu e trouxe a técnica para o Brasil.

Desta forma, a tecnologia que revolucionou a agricultura está completando, em 2004, 30 anos em Campo Mourão, município que foi um dos pioneiros na implantação da prática no Brasil.

O sistema de plantio direto surgiu frente a necessidade de tornar mais sustentável a produção agrícola, minimizando os custos com insumos e otimizando o aproveitamento da área de plantio. Mais de três décadas depois de implantada no país, a tecnologia é tida como a única alternativa para a sustentabilidade da agricultura.

 

c) Subsolagem

É o processo mecânico para soltar e quebrar o material do subsolo, com o objetivo de que haja um aumento na infiltração da água de chuva, maior penetrabilidade das raízes e melhor aeração.

d) Plantio direto

É o plantio sem preparo que consiste na seguinte metodologia: na época do plantio, o agricultor não ara o solo. Normalmente é usado um herbicida de contato e, dias depois, utilizado um equipamento que abre um sulco de apenas 5-10cm de largura onde é depositada a semente e o fertilizante. Desta forma, o solo é revolvido o mínimo possível, não sendo realizada nenhuma operação de cultivo e depois apenas a colheita.

Os efeitos do plantio direto são importantes na redução das perdas por erosão, o que pode ser explicado pela quase eliminação das operações de preparo e cultivo, ocorrendo menor quebra mecânica dos agregados e mantendo a superfície do solo irregular em todo o ciclo vegetativo.

O preparo reduzido do solo exige baixa demanda de potência de equipamento e de consumo de combustível, cuja economia tem sido estimada em 80%, quando comparado com o preparo convencional.

Os tipos de solo

O preparo reduzido do solo exige baixa demanda de potência de equipamento e de consumo de combustível, cuja economia tem sido estimada em 80%, quando comparado com o preparo convencional.

A realização de um levantamento dos tipos de solo deve ser feita através das seguintes etapas:

  1. Análise minuciosa da propriedade;
  2. Observação dos tipos de solo existentes;
  3. Coleta de amostras para análise;
  4. Realização de considerações sobre a topografia do terreno;
  5. Desenvolvimento de um mapa com legendas explicativas e identificação de áreas.

Os grandes grupos e as principais unidades de solos encontradas no Brasil podem ser tentativamente enquadradas em dez agrupamentos fundamentais:

  1. Entissolos: solos azonais (aluviais, litossólicos, regossólicos, areias costeiras, areias coloridas), alguns solos glei pouco húmicos.
  2.  Vertissolos: grumossolos.
  3. Inceptissolos: solos Bruno-ácidos, alguns solos glei pouco húmicos, litossolos e regossolos.
  4. Aridissolos: alguns solos Bruno-avermelhados, solonetz associados, regossolos e litossolos.
  5.  Molissolos: brunizens ou prairie, alguns solos solonetz e glei húmicos associados.

6. 7. e 8. Espodossolos, Alfissolos e Ultissolos: podzolo, incluindo Podzolo Hidromórfico.

9. Oxissolos: solos latossólicos, solos com o horizonte B latossólico, algumas lateritas hidromórficas.

10. Histossolos: solos orgânicos.

Profundidade efetiva do solo:

É a profundidade em que as raízes das plantas podem penetrar livremente em busca de água e elementos nutritivos. É a camada do solo mais favorável ao desenvolvimento radicular e ao armazenamento da umidade disponível para as plantas.

Essa profundidade possui importância especialmente para conhecimento da capacidade de uso do solo, para o uso de culturas de sistema radicular mais ou menos profundo, para conhecimento da capacidade de retenção de água e de elementos nutritivos, e para o uso de práticas de trabalho mecânico de terrenos como, por exemplo, o terraceamento.

As classes de profundidade efetiva do solo adotadas nos levantamentos conservacionistas são as seguintes:

0 – não identificada;

1 – muito profundo: quando a camada livre de solo tem profundidade superior a 2,0 m;

2 – profundo: quando os impedimentos para o livre desenvolvimento das plantas se situam entre 2 e 1,0m abaixo da superfície;

3 – moderadamente profundo: quando os impedimentos para o livre desenvolvimento das plantas se situam entre 1 e 0,50m abaixo da superfície;

4 – raso: quando os impedimentos para o livre desenvolvimento das plantas se situam entre 0,25 e 0,50m abaixo da superfície;

5 – muito raso: quando os impedimentos para o livre desenvolvimento das plantas se situam a profundidades menores que 0,25m abaixo da superfície.

4 A Textura do solo

A textura do solo superficial (camada arável) é importante para a determinação da capacidade de uso do solo, dando indicações sobre a facilidade do trabalho mecânico, sua erodibilidade, a sua permeabilidade, e a sua capacidade de retenção de umidade.

A textura de um solo define as proporções em que se encontram as frações argila, limo e areia, que constituem o material inorgânico sólido de sua massa, não devendo, pois, ser confundida com a estrutura, a constituição, ou mesmo a facilidade de ser trabalhado o solo, embora tais características mantenham, com ela, uma estreita correlação.

De acordo com o tamanho das partículas, distinguem-se as seguintes frações de uma massa de solo:

1. Argila: formada de partículas inferiores a 0,002mm de diâmetro médio;

2. Limo: formada de partículas com diâmetro médio entre 0,002 e 0,02mm;

3. Areia fina: formada por partículas com diâmetro médio entre 0,02 e 0,2mm;

4. Areia grossa: formada de partículas com diâmetro médio entre 0,2 e 2mm

A massa de solo pode ter, também, cascalho e calhaus.

A expressão areia corresponde à soma de areia fina (0,02 a 0,2mm) e areia grossa (0,2 a 2,0mm), o silte ou limo, às frações de diâmetro médio de 0,02 a 0,002mm, e a argila às frações menores que 0,002mm. Para fins de levantamento conservacionista, o Manual Brasileiro adota a seguinte classificação textural, ou seja, os índices de textura identificáveis, que consistem em uma primeira parte obrigatória e, de uma segunda, opcional, constituída pelas subdivisões da primeira.

Classificação textural principal ou obrigatória:

0 – não identificada;

2 – solos argilosos, com teor de argila superior a 40%;

4 – solos barrentos, com teor de argila entre 25 e 40%;

6 – solos limosos, com teor de argila inferior a 25% e teor de limo superior a 50%;

8 – solos arenosos, com teor de argila inferior a 25% e teor de limo inferior a 50%.

Uso atual do solo

A capacidade de uso do solo deve ser determinada e realizado o planejamento das mudanças necessárias na sua utilização.

É necessário realizar um levantamento dos diferentes tipos de uso do solo, assinalando-os por letras simbólicas convencionais segundo o Manual Brasileiro de Levantamentos Conservacionistas. São usados símbolos e as cores adotadas para a caracterização dos diferentes tipos de uso ou cobertura do solo.

 São exemplos:

Mato (verde dominante) Vegetação espontânea:

F – mata tropical e subtropical de terras altas (verde-escuro):

Co – cocais caracterizados pelo predomínio de coqueiros, especialmente carnaúbas, buritis e assais;

Vegetação formada artificialmente (traços verticais verde-escuros):

Fr – reflorestamento;

Fre – reflorestamento com eucalipto;

Campos e pastagens (amarelo dominante)

1 – Diversos:

c – capim-colonião;

e – capim-elefante;

III – Culturas

1 – Culturas e explorações permanentes (roxo dominante):

Mi – melancia;

Re – repolho;

To – tomate.

Abx – abacaxi;

Ba – banana;

IV – Diversos (cores diversas)

1 – Terreno baldio (âmbar e cinza):

Bai – terras improdutivas (cinza)

É necessário realizar monitoramento para que sejam identificadas áreas propensas a erosão e a ocorrência de novas erosões, bem como o acompanhamentos das técnicas empregadas para seu controle.