A nova gestão pública e a evolução no estado moderno
Gestão Pública
1 Reinventando o estado
Uma reflexão sobre as ideias de Osborne Parte 1
Assisti recentemente a uma palestra proferida por David Osborne em seminário organizado pelo Ibap para a Microsoft, realizado em Ilhéus, que me proporcionou insights muito interessantes! Fiquei tão mobilizado que resolvi reproduzir alguns dos seus principais conceitos e provocações. Portanto, o que vou apresentar para vocês é uma espécie de “palestra cover”.
David Osborne, juntamente com Ted Gaebler, escreveu o livro Reinventando o Governo e acabou de publicar, sobre o mesmo tema, Banishing the Bureaucracy, em parceria com Peter Plastrick, nos quais analisa a questão de como o espírito empreendedor pode transformar o Setor Público. Reinventando o Governo, talvez seja um dos maiores êxitos de venda no mundo, sobre o assunto administração pública. Em muitos países, equipes de trabalho e laboratórios foram criados baseados nas suas idéias, visando “reinventar o governo”.
Osborne foi o principal assessor de Al Gore, quando este liderou um dos mais importantes programas do Governo Clinton, o National Performance Review. Foi Osborne quem sugeriu o escopo dessa grande reforma da máquina administrativa governamental americana, sob quatro princípios básicos:
– redução da papelada desnecessária, a partir do incremento do uso de meios eletrônicos;
– priorização das necessidades e exigências dos cidadãos;
– atribuição de maior poder aos funcionários (empowerment), na ponta, para tomada de decisões;
– otimização da ação governamental, produzir mais a menor custo.
Segundo Osborne, transformar burocracias públicas em governos empreendedores, produtivos e eficientes, tem uma relação estreita com um recente fenômeno mundial: o ceticismo do cidadão sobre a capacidade do Estado em administrar a sociedade e satisfazer suas crescentes e complexas necessidades sociais. Em todas as partes do mundo verifica-se essa crise de governabilidade, um contexto de deterioração e descrédito geral na administração pública
O mal não está nas pessoas, nos servidores públicos, afirmou Osborne. O mal se encontra nos sistemas, nas estruturas, nas regras, nos procedimentos, nas leis que inibem a capacidade criativa e emperram a máquina. Tudo resulta em ficarmos prisioneiros dos meios e não focados em alcançar resultados. Assim, a meta da “reinvenção” não é mudar os fins – o quê e para quê – bons em essência, mas sim, mudar a forma tradicional e burocrática como funciona o governo.
Osborne destacou alguns princípios básicos a serem seguidos por um governo empreendedor, que apresentaremos a seguir:
Ser um governo catalisador. Ele distingue o timoneiro, o que dirige, daquele que rema, ou seja, daquele que faz. Assim, a função do governo deve ser a de catalisador, promotor e coordenador, não mais de provedor direto. Deve articular parcerias, promover soluções com empresas, organizações não governamentais, a sociedade civil organizada, outros níveis e esferas de governo e garantir que os serviços públicos sejam realmente prestados, sobretudo bem prestados,
Ser um governo competitivo. Para isso é necessária a quebra dos monopólios, de forma a liberar as forças do mercado;
Ser um governo inspirado em missões. A missão é a justificação social ou a razão de ser de qualquer organização, sem ela não se pode vislumbrar estratégias;
Ser um governo orientado para resultados, ligado à noção de desempenho, à qualidade dos serviços, à busca de soluções;
Ser um governo voltado para os clientes, para servir aos cidadãos, que são os “compradores” dos serviços públicos;
Ser um governo empreendedor, que ganha dinheiro com a venda de serviços públicos eficientes, em vez de só gastá-lo;
Ser um governo descentralizador, que delega autoridade para a tomada de decisões mais próximas do cliente, propiciando rapidez e agilidade;
Ser um governo da comunidade, proporcionando maior participação da sociedade nas decisões governamentais. A comunidade é quem mais conhece seus próprios problemas e sabe resolvê-los melhor do que os burocratas. (Acho que isso significa um corte cultural e político imenso!);
Ser um governo que antevê, que se antecipa, que previne, que trabalha antes que os problemas aconteçam e não um governo “quebra-galho”, que busca soluções de qualquer forma, quando os problemas acontecem;
Ser um governo orientado para o mercado, que usa mecanismos do mercado para oferecer serviços públicos. (Vejo este ultimo princípio, igualmente, como um dos mais radicais!).
Reinventar o Governo, Reforma do Setor Público, Nova Gestão Pública, os termos são vários, mas o fato é que, hoje, está em curso no mundo inteiro um processo de profunda reestruturação do setor público, que se iniciou nos países centrais e se está espalhando pela América Latina. Segundo Osborne, não se trata de um processo meramente ideológico, pois a maioria dos países está diante das mesmas pressões fundamentais, na direção de mudanças, e está respondendo de forma muito similar. Poderíamos citar como pressões a globalização financeira, a integração de mercados, privatizações e terceirizações, os novos valores culturais, a insatisfação dos cidadãos, a crise fiscal, a revolução tecnológica da informática e das comunicações, a ascensão de uma sociedade civil organizada, o crescimento em escala dos problemas, tornando muito mais difícil a ação de governo. Por outro lado, as demandas sociais estão mudando rapidamente e novas necessidades estão surgindo. Está havendo uma fragmentação da sociedade em centenas de grupos de interesses e isto está gerando demandas bem diferentes das de dez ou quinze anos atrás.
Osborne registrou, com destaque, que o governo da era industrial se caracterizava pela burocracia centralizada, administração hierárquica, excesso de normas e regulamentos, serviços padronizados. Isso vigorou por muitas décadas. Tratava-se, então, de um estado monopolista, centralizador, inchado. Mas, hoje, as premissas desse modelo estão sendo questionadas. Lentamente, começam a surgir novos tipos de instituições públicas. Em que elas seriam diferentes? Elas são mais descentralizadas, mais criativas, mais eficazes, mais interativas, mais flexíveis, mais inovadoras e são capazes de aprender, rapidamente, novas formas de ação, quando as condições mudam. A essência do novo modelo de governo empreendedor é, justamente, conseguir implementar mudanças com eficiência, eficácia e efetividade.
O modelo da era industrial, que funcionou bem durante muitas décadas, como todos sabemos, já não funciona mais. Teve, certamente, grande papel empregador, gerou estabilidade, segurança e conseguiu muitas realizações. Entretanto, o mal desse modelo, segundo Osborne, é que os governos foram se fechando em si mesmos, tornaram-se ineficazes, mais coorporativos, se afastaram das demandas dos cidadãos e acabaram ficando, no mundo inteiro, como uma entidade à parte, o que acabou gerando no cidadão a sensação do “eu aqui, o governo lá”. O cidadão não tem clareza sobre o que é a coisa pública, não entende a noção de patrimônio público, nem sente que o governo defende o bem público. No Brasil, esse fenômeno é claramente observado.
O mundo vem mudando velozmente nas duas ultimas décadas e os governos burocráticos, lentos e lineares por natureza, começaram a ficar, cada vez mais, inadequados e ineficientes. Hoje sabemos que as mudanças têm uma dinâmica incessante, pautada pela riqueza de informações e pela explosão das atividades cognitivas, e uma extraordinária interconectividade proporcionada pela existência de redes, especialmente a da Internet. Ainda assim, a burocracia se encontra enraizada na alma das pessoas, pois oferece uma ilusão de estabilidade, daquela estabilidade tão sonhada! Apesar disto, já se percebe o impacto das mudanças: burocracias estáveis passam por transformações rápidas; processos tradicionais de trabalho cedem lugar a novos processos que utilizam amplamente recursos da tecnologia da informação e comunicação; a baixa qualidade de serviços confronta-se com as expectativas de serviços de alta qualidade; orçamentos sempre crescentes se contrapõem a severas limitações fiscais. O setor privado elevou o nível das expectativas e ofereceu novos padrões de funcionamento. Hoje, os governos estão olhando o que podem aproveitar destas experiências, como podem mudar e operar com mais eficiência.
Em síntese, a qualidade do governo é o ponto central da competitividade do Estado. O perfil requerido das organizações, inclusive dos governos, na era da informação é este: organizações enxutas, flexíveis, que trabalhem basicamente em parcerias, voltadas às necessidades do cliente, inovadoras e em permanente evolução.
Osborne fez um alerta muito interessante! A tecnologia da informação pode ajudar a criar essas novas organizações, mas não é garantia de sucesso. Ou seja, pode-se, por exemplo, aplicar, equivocadamente, a tecnologia da informação de maneira tradicional e, mesmo assim, as organizações continuariam burocráticas, ignorando os clientes, com a tomada de decisões permanecendo extremamente centralizada
Efetivamente é possível redesenhar as práticas do Estado, afirmou Osborne em sua palestra, de forma que todos percebam que essas mudanças são necessárias, desejáveis e do interesse geral. É preciso, contudo, muita coragem, pois as mudanças dependem de um contexto político favorável. No caso específico do Brasil, acho que não há na Federação outro Estado com um caldo cultural tão favorável às mudanças como a Bahia. Talvez, em outra escala, o Ceará e o Paraná. É fato que, na Bahia, temos um campo extremamente fértil para propor inovações e melhorar nossa performance, em especial a partir de 1991.
Osborne desenvolveu a original idéia de que é preciso fazer uma engenharia genética no DNA do Estado. Ele vê as organizações públicas como um organismo vivo, complexo, com sistemas de adaptação, que vive, cresce, muda com o tempo e que, até mesmo, pode morrer. Os organismos vivos são talhados, definidos, formatados pelo seu DNA. São instruções codificadas que determinam quem e o que são. O DNA provê instruções básicas para o desenvolvimento das capacidades e comportamentos do organismo. Tem-se, então, que interferir nisso para que novas capacidades e comportamentos possam emergir, evoluir
As organizações públicas foram desenhadas para serem muito estáveis, mas chegamos a um ponto da história em que essa estabilidade é contraprodutiva, segundo Osborne. Ele concluiu que, se não for modificado o DNA dos organismos do governo, as mudanças serão excessivamente lentas, e as organizações que não mudarem estarão fatalmente condenadas ao fracasso.
2 Reinventando o estado Parte 2
3 Reinventando o estado Parte 3
4 Evolução do estado moderno
Antonio Pinho Parte 1
Vamos fazer aqui uma reflexão sobre a evolução do Estado Moderno. Podemos dizer que esse moderno tem quinhentos anos. Temos, então, que separar o que é moderno do que é contemporâneo. Vamos trabalhar exatamente a ideia do Estado Moderno, mas tentando chegar ao Estado Contemporâneo. E ainda fazendo um corte, numa abordagem mais universal estaremos falando do capitalismo mais avançado, como também trazendo a discussão para o Brasil, para a questão brasileira.
Gostaria de começar dizendo que esse Estado Moderno — que tem praticamente quinhentos anos, que está em crise nos dias de hoje —, surge na passagem do feudalismo para o capitalismo, depois sofre uma mudança, com nova organização do modo de produção, tem-se uma nova organização da economia, que demanda uma nova organização das forças políticas, do controle do poder político. E Maquiavel — mais conhecido pelo adjetivo maquiavélico —, é um dos primeiros pensadores a perceber que o Estado precisava tornar-se num outro tipo de Estado. E que Estado é esse? Um Estado concentrado, absolutista, um Estado que concentra, que deposita praticamente todos os poderes na figura do monarca. Para viabilizar essa nova ordem econômica, é feito um novo arranjo político. Daí tira-se um ensinamento útil, imprescindível mesmo, do que é essa estreita associação entre a economia e a política, entre sistema econômico e sistema político, entre economia e poder político.
Dando uma puxada para o contemporâneo — depois voltaremos ao passado — se nós pensarmos no momento atual, estamos hoje exatamente frente a um novo arranjo político, a uma nova estruturação, a uma nova forma de Estado. Depois vamos reservar algum tempo para o assunto. Então, voltando atrás, Maquiavel é que vai perceber isso, olhando a França e a Espanha, que nesse sentido moderno já eram nações estruturadas, já ocupavam grandes territórios, que haviam sido conquistados e formados às custas de uma perda de poder do feudalismo. Os senhores feudais vão perdendo espaço e poder e vai sendo construída uma estrutura centralizada de poder. Uma exacerbação disso acontece cento e cinquenta anos depois de Maquiavel, quando Thomas Hobbes — dileto discípulo de Bacon — que vem a ser o grande teórico do Absolutismo, vai dizer da necessidade da criação do Estado Leviatã, cuja imagem tem origem na mitologia da Bíblia sendo identificada como um monstro tentacular. E a ideia que Hobbes quer mesmo passar é a de um Estado que deve controlar tudo, um Estado Absolutista. O termo Leviatã é usado até hoje, ainda há bem pouco tempo o Estado no Brasil era chamado de um Estado Leviatã, ou seja, um estado gigantesco.
O Estado Absolutista sobrevive enquanto há apoio político para isso, enquanto as forças que estavam se beneficiando daquele arranjo político, principalmente as econômicas, estavam satisfeitas. À medida em que essas forças começam a se sentir incomodadas e a não encontrarem margem de manobra para exercerem o seu poder elas começam a se reorganizar no sentido de buscar um novo arranjo político. Esse é também um ensinamento, uma breve lição que podemos tirar para os dias de hoje de como as forças econômicas e políticas atuais se movimentam, no sentido de criar novas formas de Estado. E vem, assim, a ser criado o Estado Liberal.
Tudo isso que estou expondo parece acontecer por decreto, mas não é assim, é resultado de lutas e lutas ferrenhas, disputas incandescentes, guerras e mais guerras. O maior exemplo histórico disso é a própria Revolução Francesa, o movimento político que leva ao fim o Absolutismo. Todo mundo conhece o poder, a representação, a simbologia que tem a Revolução Francesa. Ela foi um ato de força, pela culminação de inúmeros movimentos promovidos por uma nova classe que já vinha se constituindo, ganhando expressão e poder econômico, mas que precisava do poder político. O que é poder político? É conquistar o Estado, é chegar e tomar o Estado.
A Revolução Francesa representa essa tomada do Estado pela burguesia comercial e de certa forma também pela industrial. Estamos em 1789, havia acontecido já a primeira revolução industrial, há uma certa expressão nessa burguesia industrial. Surgem e se organizam segmentos de classes que se sentem menosprezados e deslocados daquela estrutura de poder e num ato de força, no caso uma revolução, derrubam essa estrutura do velho regime dos privilégios, dos interesses particulares e assumem os interesses da burguesia.
Tem-se hoje uma visão negativa da burguesia, mas, um dia, ela já foi revolucionária; deixa de ser, porém, no dia seguinte à tomada do poder. Lógico que ela provoca mudanças radicais, acabando com resquícios muito fortes de poder pessoal e pondo fim a esses privilégios para poder implantar uma nova ordem que estaria mais na linha da ordem do mercado.
No início do século XIX, quando começa a vigorar a ordem do mercado é necessário então um Estado que não seja tão absolutista mas que mantenha seu caráter, uma vez que Estado é poder e exercício de poder. Vamos falar depois com certo destaque de Max Weber; ele vai dizer que “o Estado tem o monopólio do uso do poder legítimo” — e assim Estado significa poder mesmo. Mas aquela nova configuração de poder que a burguesia —francesa no caso— estava querendo era a de um Estado menos intervencionista, um Estado que deixasse as forças de mercado manifestarem-se mais livremente, mais de acordo com a idéia de Adam Smith, da mão invisível — que a mão visível do Estado não interferisse tanto e deixasse que o livre jogo das forças de mercado se encarregasse de prover um resultado melhor para todos. Não é que Adam Smith fosse um ingênuo, um otimista, ele estava colocando esse novo discurso para derrubar a velha ordem dos privilégios, aquela que acreditava que fora do Estado não havia salvação, que só o Estado seria capaz de entender e prover a sociedade. O discurso de Adam Smith vai dizer o contrário: que a sociedade pode buscar seus interesses contrariando a velha máxima Hobbesiana de que essa busca individual seria a guerra de todos contra todos, uma guerra fratricida, coletiva. E John Locke, um autor que antecede a Adam Smith, disse um não contra Hobbes, afirmando que um Estado todo poderoso significa a guerra do monarca contra os súditos, uma guerra de forças completamente desequilibradas.
Então, essa visão do Estado Liberal surge no momento em que a burguesia toma o poder clamando por uma maior liberdade de mercado, que ele falasse mais alto do que o Estado, seu poder coercitivo e seus interesses.
De 1789/1800 às primeiras décadas de 1900, o mercado é bem diferente do mercado que se conhece hoje. O Estado Liberal se mantém e se consolida durante 130, 140, 150 anos, tempo que varia de país para país. Não estou falando de uma homogeneidade nem de uma unidade — se isso não existe hoje, imagine-se há duzentos anos...— estou falando, fundamentalmente, da Inglaterra, da França, de parte da Alemanha, da Itália, nações que já estavam na linha de frente do processo de consolidação.
Esse Estado Liberal dura enquanto atende aos interesses das classes dominantes, enquanto essas classes conseguem manejar os interesses e conflitos que vêm das classes dominadas. E conhece-se bem a data, pelo menos o ano, em que esse Estado Liberal, simbolicamente morre, deixa de existir: o ano de 1929. Então, damos um salto da Revolução Francesa para o século XX, mais exatamente para o ano de 1929, marcado pela famosa quebra da Bolsa de Valores de NY, que é uma representação simbólica da quebra do capitalismo a nível internacional.
Não estamos falando de uma crise localizada, residual, bem definida, não, era uma crise generalizada, que se espalhou pelo mundo integrado ao Capitalismo. Lógico que aqueles setores não integrados ao sistema vão sofrer menos, mas evidentemente estavam numa estrutura de atraso e de precário desenvolvimento.
O Brasil vai ser bastante afetado por essa crise sistêmica mundial. Não tenho de memória o preço do café na época, mercado que representava de 75% a 85% de nossas exportações, mas a queda brutal, em libras, da saca do café no mercado internacional é de um dia para o outro na proporção de 100 libras para 20. E foi preciso muito tempo para que o preço do nosso principal produto de exportação fosse recuperado.
Podemos também nos lembrar das imagens dos Estados Unidos, onde a crise espalha desespero, desemprego, insegurança. O país era até então time que só ganhava, e a aposta que se fazia até aquele momento era a de que o capitalismo tinha encontrado todos os caminhos para a sociedade, que daria todas as respostas em termos de provisão de bem-estar, de crescimento econômico, de oportunidades de emprego. Lá estavam as propagandas endereçadas ao mundo, a Estátua da Liberdade recebendo imigrantes de todas as partes, aquela história toda... E a crise de 1929 mostrou que não era bem assim, que não existem receitas infalíveis nem arranjos duradouros. Mostrou que esse arranjo do Liberalismo — que tinha mais de 200 anos — não era eterno e não resistiria a essa crise.
Há, então, uma nova busca de modelo do Estado. Diante das dificuldades, é de novo chamado o Estado. Não é mais aquele Estado Absolutista e detentor de tanto poder concentrador, mas um Estado resultado do desenvolvimento, não só das forças produtivas como também dos movimentos populares, dos movimentos organizados da sociedade civil. Naquele momento já dava para se falar em sociedade civil.
Em razão da exiguidade de tempo, esta vai ser uma exposição guarda-chuva, bem panorâmica, uma vez que preciso abreviar muitas coisas. Mas vamos ao que acontece ao longo do século XIX. Acontecem a constituição e formação dos partidos políticos, a disseminação da educação, por exemplo. Para vocês terem uma ideia do que se passava nesse âmbito, até o século XV / XVI não era incomum que um rei não soubesse ler... Hoje os dirigentes sabem ler, mas, alguns, não articulam senão algumas coisas básicas... Mas este é um outro assunto...
Muito bem, a educação se dissemina no século XIX, e ao se disseminar, as massas até então desorganizadas começam a clamar por mais direitos. E toda a regulamentação da jornada de trabalho acontece, ao longo do século XIX, paralelamente à constituição de partidos políticos, de movimentos sindicais. Até então os sindicatos eram simplesmente proibidos. Dentro do ideário liberal, os sindicatos eram um desequilíbrio na livre manifestação das forças de mercado, que tinha que ser livre da oposição do operário ao capitalista — do operário contra empresário, como se fala agora. Então o século XIX assiste à constituição da sociedade civil organizada, à constituição de movimentos políticos e movimentos sociais que vão pressionar o Estado.
Estou fazendo o resgate desses acontecimentos de 29, para dizer que quando o Estado é chamado para intervir, digamos, para assumir toda aquela crise, não é mais um Estado Absolutista, não é mais um Estado que atende apenas aos interesses de uma camada extremamente reduzida, que era a nobreza territorial. O Estado que então está sendo chamado representa camadas mais amplas da sociedade, principalmente nesses países de ponta, incluindo os Estados Unidos, onde já está constituída uma classe média mais forte, mais consolidada. Trata-se de um Estado que já olha para segmentos mais amplos da sociedade de forma evidentemente diferente da daquele Estado Absolutista.
A seguir, vamos ver qual vai ser a saída encontrada. Em 1936 ela é formulada teoricamente por Keynes, que, numa obra extremamente importante, vai clamar pela necessidade da intervenção do Estado. E pergunta-se se essa intervenção pode ser chamada de socialismo.
Não, em absoluto, trata-se de uma intervenção do Estado para salvar o Capitalismo. Keynes era um lord, e Lord Keynes era absolutamente a favor do capitalismo. O que ele faz é apontar a necessidade da intervenção do Estado para salvar a economia capitalista, a sociedade capitalista, os parâmetros básicos dessa sociedade capitalista — que vêm a ser: a competição, a busca do interesse individual, o ganho, o lucro. Keynes não está pregando nenhum socialismo, a intervenção do Estado é necessária para salvar o capitalismo. E isto representa admitir que os mecanismos do Estado Liberal preconizados por Smith e por Locke, entre outros, não davam conta de prover respostas nem soluções coletivas que dessem essas respostas e que, para obter-se melhor resultado, era necessário uma parceria ( usando um termo atual ) entre Estado e sociedade, entre Estado e mercado. Mas esse clamor de Keynes pela intervenção do Estado, para regular a economia, não foi de modo algum naquele sentido que veio a ser exacerbado nos momentos seguintes: de o Estado substituir a economia ou de substituir o empresário. De forma alguma o sentido era esse. A intervenção preconizada por Keynes era mais tópica, mais no ponto, mais naquele momento de crise, a partir daí o Estado se retiraria.
Só que ele não se retirou. Entrou e ficou. Por conta da elevação e aprofundamento dessa consciência social, dessa organização social das massas e das classes médias, a intervenção do Estado veio no sentido de uma provisão social mais efetiva, que se consubstanciou em prover bens com conteúdo social: habitação, transporte, saúde, educação, tudo no sentido de gerar emprego, porque a crise era necessariamente de emprego. Era preciso naquele momento intervir no sentido de resgatar a situação anterior do quase pleno emprego, ou de pelo menos condições mais adequadas de emprego.
Keynes então vai dar o receituário já adotado por alguns países, como a França, a Noruega e, depois, a Inglaterra. Em 1933, Roosevelt lança nos Estados Unidos o famoso New Deal que todos conhecem. E as resistências eram tantas e tamanhas que, só para dar uma ideia, Roosevelt era acusado de socialista.
Eram enormes as dificuldades para quebrar paradigmas, mexer-se em formas consolidadas e já cristalizadas de pensamento. Roosevelt vai deparar-se com essas dificuldades todas. Mas ele entende que sem o Estado o capitalismo não ia resolver sozinho aquela crise. Como, evidentemente, a tendência do capitalismo é de cada agente econômico defender o seu interesse, pressuposto do individualismo, da competição, o Estado tem então que intervir no sentido de representar os interesses coletivos. E esses interesses coletivos não se referem só às massas e às populações carentes, mas também aos interesses das classes capitalistas, uma vez que nenhum agente conseguiria sozinho essa atuação, tornando-se necessário, portanto, o Estado vir dar aquelas respostas.
A partir do fim da Segunda Guerra Mundial, acontece naqueles países o que chama-se de Welfare State, o Estado do Bem-estar Social, quando o Estado assume uma parcela de responsabilidade na provisão de bens sociais e é criado então o chamado “círculo virtuoso Keynesiano”, em que há um acordo no sentido de que cada um dê a sua contribuição e a sua parcela de renúncia. Praticamente durante uns 30 anos esse acordo tem sucesso. Desde o fim da Segunda Guerra até meados da década de 70, ele alcança êxito.
Mas novamente acontece o que já aqui foi mencionado: não existem receitas infalíveis nem duradouras e, a partir dos anos 70, sucedem-se novas acomodações no sistema econômico com o avanço do capital e do capitalismo monopolista, que vai desequilibrar aquela ordem criada nos anos 30, 40, abrangendo o surgimento de fenômenos que vão aguçar-se daí para frente, como a globalização, com a ideia de mostrar a falência do Estado do Bem-Estar Social.
De novo apresenta-se o Estado do Bem-Estar Social, mas apenas para alguns países da Europa, com maior ênfase para os que até o começo do século permaneciam atrasados, como a Suécia, Noruega e Dinamarca, que, a partir daí, se desenvolvem e assumem a linha de frente do que se entende por um Estado do Bem-estar Social. E há gradações no que se entende por Estado do Bem-estar Social, digamos que na Escandinávia é plenamente de Primeiro Mundo, de 1,5 na Alemanha, de 2,0 na Inglaterra.
A crise desse Estado surgida em meados de 70 é atribuída, entre outros fatores, à agenda sobrecarregada, o que significa que as pressões foram tantas e tão fortes, pressões sociais como demandas por melhores escolas, equipamentos de saúde mais atualizados, tipos de exames médicos cada vez melhores e cobertos pelo Estado, tantas foram as exigências da sociedade ao Estado que ele ficou incapacitado financeiramente de dar todas essas respostas. E aí fala-se também numa crise fiscal, o Estado não conseguindo arrecadar mais o suficiente para dar respostas na mesma vazão que chegavam lhe as demandas. E é criada assim uma nova crise sistêmica, começando então toda uma pregação de retorno aos ideais liberais.
É nesse contexto que surgem Margareth Thatcher na Inglaterra, Ronald Reagan nos Estados Unidos, Helmut Kholl na Alemanha, e se dissemina, a partir de Thatcher, um pensamento neoliberal, ou seja, ressuscitar os ideais mais puros do liberalismo. De novo é o mercado que regula, ele é que é o melhor provedor. O discurso é de que o Estado está incapacitado, é grande demais, gigantesco, perdulário, gastador ao extremo, ninguém agüenta mais tanto imposto, nem os cidadãos nem as empresas, diante disso, é necessário criar-se um novo tipo de Estado, o que significa o caminho para um Estado mínimo, o caminho para a desestatização e consequentes privatizações, o caminho para um novo desenho de Estado em que predomine a ideia de regulação. Um Estado mais regulador que interventor, seja nos setores sociais, seja na economia
Em linhas gerais, esse Estado Neoliberal dos dias hoje não é mais o mesmo dos “gloriosos” tempos de Margareth Thatcher. Repetindo as aspas, por que não estamos mais nos “gloriosos” tempos de Thatcher? Porque ela encontrou uma sociedade organizada que resistiu, impedindo que ela realizasse mais da metade do que pretendia. É verdade que, na tentativa de implantar a nova ordem, ela conseguiu quebrar parte do poder dos sindicatos, conseguiu quebrar o poder de movimentos organizados, mas não conseguiu fazer tudo que tinha em mente e nem com a intensidade do seu plano. Quando começa a haver uma resistência da sociedade as coisas complicam-se para os artífices desse discurso.
5 Evolução do estado moderno Parte 2
6 A nova gestão pública
Celina Souza Parte 1
Vou fazer uma exposição de uma visão relativamente crítica do que vem sendo chamado de Nova Administração Pública. Quero referir-me a ela focalizando cinco abordagens.
A primeira é sobre a articulação da Nova Administração Pública com a Reforma do Estado, senão entende-se apenas uma das conseqüências da Reforma e perde-se o porquê do que está se fazendo, a razão de alguns países estarem enfrentando a questão da Reforma e da criação de uma Nova Administração Pública
O segundo ponto que quero abordar são as diferenças que existem entre a nova e a velha administração pública. Pergunto: será que existem tantas diferenças e são elas tão substantivas assim? A maioria de nós foi formada pela velha administração pública weberiana, da hierarquia, dos procedimentos etc., e muitos de nós encontramos dificuldade em ver as diferenças entre as duas
Como não vamos ter muito tempo e é preciso que eu seja rápida, as abordagens serão feitas numa breve análise. O terceiro ponto é sobre o que está acontecendo naqueles países que já estão adiante de nós na chamada Nova Administração Pública
A quarta abordagem inclui a agenda de reformas dos governos desses países. E a quinta seriam referências ao caso brasileiro. Seria interessante se pudéssemos debater e vocês trouxessem referências ao caso específico da Bahia, porque vou falar muito rapidamente sobre o Brasil.
O primeiro ponto: articulação entre o Estado e a Administração Pública e porque é tão importante que a discussão da Administração Pública seja situada dentro de um conceito de Estado. Vamos ver primeiro, entre vários, esse conceito de Estado. Prefiro achar que o Estado é um conjunto de instituições criadas, recriadas e moldadas para administrar conflitos e tensões dentro de um determinado território, ou seja, a noção de conflito e tensão é essencial a este conceito de Estado. E como se sabe, o Estado é um ente abstrato, ele se materializa por meio de instituições, que são o executivo, o legislativo, o judiciário, as forças militares, os governos subnacionais e a administração pública. Todas essas instituições vão materializar e arbitrar esses conflitos e tensões que são levados para o Estado.
Como também nós sabemos, do que foi criado e consolidado no século XX nada está sob tamanho escrutínio e questionamento quanto o Estado. A partir do final da Segunda Guerra Mundial, o Governo passa a ter uma hegemonia extraordinária, que se consolida muito fortemente nas últimas décadas do século, mas hoje está passando pelos maiores questionamentos. E a Administração Pública, como parte dele, não está isenta desse escrutínio e enorme questionamento. Ela é afetada em alguns sentidos, enquanto instituição, sob o ponto de vista da auto-estima. Todos sabemos que até alguns anos atrás tinha-se orgulho de ser chamado funcionário público, mas hoje a instituição está fortemente abalada, seus principais atores são afetados quanto aos procedimentos da Administração Pública e a forma como os funcionários atuam dentro dela.
Na tentativa de voltarmos um pouco atrás, no sentido de olhar como essa Administração Pública e esse Governo formaram-se, podemos ver que houve no mundo ocidental três modelos de Estado, Governo e Administração Pública. Um deles é o modelo norte-americano, sempre mais voltado ao estímulo à competição, ao empreendedor individual e às associações locais. E não é à toa que nos vendem tanto a visão de que a comunidade americana é extremamente ativa, participante, mas sabemos bem que isso é restrito à esfera local, que não ultrapassa dali; e a Administração Pública sempre foi permeada de interesses particulares, aquilo que em nossos diagnósticos com relação ao Brasil é considerado negativo. Os interesses públicos e privados muito próximos sempre foram a marca da administração pública americana. No início do século é uma administração pública muito enfraquecida, depois surgem dois momentos de profundas reformas no sentido de fortalecê-la. O primeiro momento é ainda no início do século XX, quando se faz uma intervenção federal, uma intervenção pesadíssima, no sentido de desmontar ou pelo menos diminuir o forte viés clientelista — há uma vasta literatura sobre o clientelismo americano, sobre a corrupção do governo; nessa época Boston era o modelo, o paradigma do que havia de pior no meio da Administração Pública americana, extremamente corrupta e clientelista. E o segundo momento da reforma norte-americana acontece com Roosevelt, quando ele implementa o seu famoso programa New Deal, que faz enorme intervenção para tirar os Estados Unidos da depressão ocorrida no início dos anos 30, quando o desemprego e falências se alastram por todo o país
Mais tarde, surge uma terceira tendência, que tem início com Nixon e é perseguida por todos os presidentes que o sucedem, que é a de promover reformas, especialmente na burocracia estadual, quando parte da Administração Pública norte-americana passa por mais reformas, bem na linha de David Osborne e Ted Gaebler: a do Governo Empreendedor. Num certo sentido, retorna-se ao modelo antigo, em que as fronteiras entre o público e o privado tendem a ser dissolvidas, há de novo uma interpenetração dos interesses privados empresariais na administração pública
O segundo modelo que vai repercutir no mundo é o modelo europeu, o chamado Estado do Bem-Estar Social. A administração e a burocracia públicas são altamente maximizadas nesse modelo. Há toda uma cultura e procedimentos que fortalecem sempre o papel da Administração Pública e de seus servidores, a ponto de alguns serem chamados de “os gestores públicos europeus ” — como um corpo de jesuítas, um grupo de mandarins, todos extremamente privilegiados sob o ponto de vista dos direitos, das garantias e do poder que têm em relação aos demais atores políticos e sociais
E o terceiro modelo — houve outros, obviamente, mas vou limitar-me aos três mencionados — foi o seguido na América Latina, onde, no início de sua implantação, o Governo chegou a ser praticamente o único condutor dos negócios públicos e privados, gerando o que chamamos de Estado Desenvolvimentista. Do ponto de vista econômico, esse modelo se materializou e objetivou a substituição de importações. Do ponto de vista social, foi um modelo caracterizado por políticas extremamente ambíguas, instáveis, muitas delas populistas e clientelistas. O seu conteúdo com relação à Administração Pública foi marcado por muitas ambigüidades. Edson Nunes escreveu um livro muito interessante sobre este assunto: “Estado e Clientelismo no Brasil”, em que ele argumenta que a Administração Pública brasileira conviveu de forma bastante harmoniosa com o que ele chama de “as quatro gramáticas”: uma é marcada pelo clientelismo, a outra pela universalidade de procedimentos, a terceira pelo corporativismo e a última pelo insulamento burocrático, ou seja, por aquela burocracia que é bem paga, que é relativamente hierarquizada, que tem direitos, em geral acima dos direitos trabalhistas comuns ou direitos expandidos.
Edson Nunes nos dá essa contribuição de esclarecimentos com suas quatro gramáticas do porquê nossa tendência é dizer sempre que o Brasil é clientelista, que a Administração Pública brasileira é isso ou aquilo, o autor vai nos mostrar que não é bem assim, que esses quatro modelos de Administração Pública convivem entre si, funcionam de forma relativamente harmoniosa, mas que há uma diferença entre modelos de administração pública voltada para a área econômica e aquela voltada para a área social. Ou seja, a burocracia pública da área econômica, sempre mais voltada para o insulamento burocrático, é aquela em que servidores são preservados da convivência com o mundo exterior e de suas pressões, enquanto a da área social é sempre marcada pelo clientelismo. Apesar de todas as tentativas de tornar uniformes procedimentos na forma de acesso ao setor público, parece que esses dois mundos são separados de maneira muito pragmática: o mundo da política econômica, do qual os fazendários aqui do estado fazem parte e o mundo da burocracia social, que é aquele de menores salários, onde a lógica é clientelista, personalista. Mas são convivências e lógicas que precisam conviver, para que sobrevivam de uma forma extraordinária.
E chegamos aos anos 90, cheios de mudanças, quando decidese que vai haver uma profunda revisão do papel do Governo e da Administração Pública. E devemos aqui dividi-la pelo menos em dois estágios. O primeiro, que vem a ser o começo da geração dessas reformas, tem a seguinte pauta: abertura de mercado, desregulamentação, privatização, e em quase todos os países é conduzido pelo governo federal; nos países federativos, essa agenda é também absorvida pelos estados. Aqui no Brasil, cumprindo esse primeiro estágio das reformas, começamos muito lentamente, com o governo Sarney, quando são feitas algumas privatizações. Depois, rapidamente o governo Collor faz a abertura da economia brasileira, há a desregulamentação, privatizações, e podemos dizer então que essa primeira pauta das reformas está em conclusão. A partir daí é que vem o segundo estágio da geração de reformas, pautado pela tentativa de construção e reconstrução das capacidades administrativa e institucional.
No que se refere à capacidade administrativa, eu quero dizer que essas reformas buscam instrumentos voltados para aumentar o desempenho dos organismos públicos, com vistas à obtenção de resultados e a satisfação do cidadão, que nessa linguagem é chamado de cliente. Significa aumentar a satisfação do cliente que utiliza os serviços públicos; esta será a noção de capacidade administrativa. Por capacidade institucional, nós entendemos que se trata da busca de um incentivo que aumente os estímulos para a cooperação, a formulação e implementação sustentada das decisões governamentais
As tarefas desse novo estágio são tarefas, obviamente, de longo prazo, pois envolvem questões muito mais estruturais do que as do primeiro estágio. As reformas deste primeiro estágio, desregulamentação e privatização, são reformas que se polarizam, as pessoas são contra ou a favor, são reformas que não são permeadas de outros conflitos, têm um viés ideológico, o que leva à definição: pessoas serem contra ou a favor. Já as propostas de reformas do segundo estágio são muito mais complexas. Há uma série de fatores que interferem na concretização dessas propostas, que, embora tenham um viés ideológico, são abalroadas por vários outros vieses: o trabalhista, o corporativista, o do compromisso com a prestação de serviços públicos, que tornam, assim, as reformas do segundo estágio bem mais complicadas.
Quando as pessoas se queixam: já fizemos tantas privatizações, tantas desregulamentações, já abrimos ao máximo a economia, por que então não conseguimos tornar o setor público mais eficiente? Eu poderia argumentar que essa primeira geração de reformas, embora não seja fácil, é clara, coloca as pessoas em posições opostas, mas não há interferência, nenhum curto-circuito, ao passo que esta segunda geração, a que nós estamos vivendo, está entrecortada de um grupo enorme de interesses divergentes entre si, o que a torna mais complexa
Este segundo estágio é o que mais diretamente nos interessa. Ele tem os seguintes objetivos, o primeiro é a eficiência dos serviços públicos. Eficiência é uma palavra vaga, se formos destrinçá-la veremos que pode significar uma série de coisas. Então, nesse destrinçar de documentos das reformas, vamos ver que a noção de eficiência é alcançada pela otimização de recursos humanos e financeiros via estímulo à competição administrada pelo governo. O exemplo disso são as organizações sociais. A ideia de eficiência que é trazida hoje pelas reformas não é a de apenas chegar à ponta do cidadão e ficar lá, mas a da eficiência que pode ser promovida pela competição, pela concorrência entre os diversos prestadores de serviços. O segundo objetivo dessas reformas é a efetividade dos serviços públicos. E o terceiro é a democratização desses serviços. O que quer dizer: envolvimento da comunidade nas decisões relativas aos assuntos públicos. O quarto objetivo é a descentralização para as esferas subnacionais, com transferência das responsabilidades de provisão de infra-estrutura e de serviços sociais
Então, neste segundo estágio, descentralização significa basicamente transferir para estados e municípios a responsabilidade de toda dotação de infra-estrutura e de toda prestação de serviços sociais
Nos países em desenvolvimento, tanto a primeira como a segunda geração de reformas passam a ter uma centralidade muito grande, e nós aqui somos, não há dúvida, o laboratório dessas reformas. Estes países são alvo de apoio e pressões da comunidade internacional, tanto a de negócios como a de organismos financeiros, os multilaterais tipo Banco Mundial, BID, etc. Com referência a estes dois organismos, o Brasil tem bastante convivência com projetos financiados por eles. Em todos esses projetos eles enfatizam a importância da criação da capacidade do Estado e das instituições, escrevem lá nos memorandos: State capacity building e institutional building, enfatizam a adoção dessas práticas no que passou a ser chamado de bom governo. Retornaremos o assunto mais adiante
Agora vamos entrar numa visão um pouco mais crítica dessas reformas. Eu diria que o principal ponto de partida para entendê- las é saber que seu postulado traz argumentos de caráter normativo, ou seja, o que deve ser, a proposta de como será assim e não necessariamente do que é, ignorando toda base existente com relação ao que é, como se fosse possível eliminar tudo que existe e começar tudo num: “o que deve ser”, ou “o que deveria ser”.
Um dos primeiros pontos a considerar, em se falando de reformas, é que, em todos os documentos em que são propostas, elas passam pelo diagnóstico de que existe uma crise de Estado que afeta todas as instâncias de governo, que afeta a administração pública e também a retomada do desenvolvimento. Mas, em tudo que nos é vendido, que nos é passado, tem sempre a justificativa de que há uma crise no Estado e que essa crise tem nos impedido de retomar o desenvolvimento. A segunda premissa é de que essas reformas se baseiam na necessidade de se enfrentar a crise com novo modelo de Estado e de Administração Pública, implementando-se mecanismos que teriam já mostrado eficácia
Nesses documentos das reformas, nos dizem que aconteceu isso em todos os países, mas não é verdade, os que estão adotando essas reformas pelas quais estamos passando são: em primeiro lugar, a Nova Zelândia, que é a grande vitrine das reformas gerencialistas, em segundo lugar, a Inglaterra, que também tem sido uma vitrine e está nesse processo de reforma há mais tempo do que a Nova Zelândia, depois vêm a Austrália, os Estados Unidos e o Canadá.
Então existem estes dois pressupostos: há uma crise do Estado, precisamos nos inspirar nestes países em que essas reformas estão acontecendo. Entretanto, esses pressupostos podem ser questionados Os problemas que afetam o setor público podem ser passíveis de outro tipo de interpretação. A crise seria realmente do Estado ou do seu formato? Ou será que é necessariamente, essa crise que leva à baixa operacionalidade das políticas públicas? Para nós que vivemos o período do modelo do milagre brasileiro — década de 70, com vários anos de altas taxas de crescimento econômico de forma rápida e acelerada — é possível vermos que naquele momento — em que não se argumentava que o Estado estava em crise, ou que o formato do Estado no que se refere à Administração Pública estava em crise — nós não tivemos qualquer melhora nas nossas políticas sociais
Então, é um diagnóstico no mínimo parcial. No entanto, embora esse diagnóstico seja parcial, não quero dizer que temos hoje as condições para a mesma administração pública do pós guerra Sabemos que, com o fim da Segunda Guerra Mundial, tanto nos Estados Unidos como nos países europeus, os Estados passaram a ser os principais indutores do desenvolvimento econômico e social. Foi um formato que foi usufruído, mas parece que o ‘fato’ não cabe mais, o ‘terno’ não cabe mais no que estamos vivendo hoje.
Mas a grande questão que se coloca é quanto o Estado, Governo e Administração Pública são responsáveis pelas suas próprias mazelas, ou quanto estão absorvendo de uma reestruturação muito mais ampla no sentido da globalização, sendo transferidos o Governo e a Administração Pública para os estados? Essa é a pergunta que me faço e não vejo muita clareza na resposta
O segundo ponto que devíamos nos indagar, partindo do pressuposto de olhar-se com simpatia para estes países em que as reformas estão sendo implementadas, é se há viabilidade de transposição para o contexto de países em desenvolvimento dos modelos e mecanismos de instrumentos de gestão originários das experiências de sociedades bem diferenciadas da nossa, bem mais atuantes e onde a questão de uma cidadania nacional mínima já foi conquistada. Seja antes da guerra, seja depois da guerra, seja no início dos anos 70 — que é o caso da Austrália e da Nova Zelândia —, quando todos os indicadores mostravam que esses dois países tinham, de fato, enfrentado e equacionado a questão da pobreza de suas populações.
Ao transpormos hoje esses movimentos para países em desenvolvimento, especialmente os da América Latina, que, além de tudo, ainda apresentam condições muito diferentes das existentes naqueles países, tendo de usar mecanismos e instrumentos usados por eles, sendo um desses instrumentos a demissão de funcionários públicos, perguntamo-nos como funcionarão esses mecanismos e instrumentos em espaços em que o emprego público é uma forma de compensar a desocupação em setores econômicos? Nós sempre soubemos da escassez de atividade econômica em vários estados do Brasil, o que faz o setor público gerar uma certa dinâmica na economia pela via de contratação de funcionários, que certamente estariam empregados no setor privado, se houvesse uma economia mais robusta.
Uma outra questão importante: quais as consequências da descentralização em setores tão sensíveis como a educação e a saúde? Vamos discutir isso um pouco mais adiante. Mas é evidente que são setores aos quais as reformas não deram ainda uma resposta favorável. Como poderá, então, ser dada resposta a um dos postulados das reformas que é a democratização via participação da sociedade, como vai acontecer isto em espaços de escassa infra-estrutura cívica e cidadã? E como essas propostas vão materializar-se em países tão heterogêneos, como é o caso brasileiro? Não é preciso dizer que somos quase os campeões do mundo no que concerne às disparidades sociais, que temos um país altamente desigual, não só do ponto de vista regional como dentro das próprias regiões. Vários trabalhos mostram que São Paulo — onde, metaforicamente, eles costumam dizer “que carrega o Brasil nas costas” — não consegue “carregar” alguns de seus municípios. No estado mais rico da federação há também cidades, no interior, com muitos problemas.
Na verdade, não temos ainda respostas para estas questões, e é importante mantê-las presentes para não serem esquecidas. Em toda esta temática de formatos político-institucionais do que melhore um Estado, uma Administração Pública, embora não seja recente essa busca de novos formatos, como em muitos aspectos das ciências sociais, infelizmente ainda não se conseguiu uma base significativa tanto empírica como teórica capaz de nos oferecer um referencial mais adequado para os planejadores e avaliadores.. Por essa razão, muitas outras vão ressaltar que todos os esforços de mudança dos modelos políticos institucionais e administrativos são sempre, na verdade, uma reorganização da retórica no sentido de criar argumentos de convencimento a favor desses temas.
7 A nova gestão pública Parte 2
8 A nova gestão pública Parte 3
9 Ética no serviço público
Elizete Passos Parte 1
Nos últimos anos tenho recebido muitos convites para ministrar cursos de ética em instituições públicas e privadas e ao prepará-los tenho me deparado com grande dificuldade para encontrar material didático adequado. De um lado, encontramos livros e textos escritos por filósofos, e nesse caso estou me referindo aos clássicos, que nem sempre tratam da temática com clareza — se pegarmos, por exemplo, um clássico como Kant, em A Crítica da Razão Prática, vamos ver o quanto é difícil ler esse filósofo; se tentarmos Aristóteles, em Ética a Nicômaco, a mesma coisa —, e não era o caso de estudar esses clássicos, quando a demanda consistia em tratar o assunto de forma prática, refletir sobre nossa realidade e entender de que maneira nos comportamos nela. De outro lado, encontramos pessoas que vêm escrevendo sobre a ética nas organizações, mas sem uma formação filosófica, e a mesma sendo tratada como código, como regras, como normas, de maneira extremamente formal, sem o significado filosófico, o que também não satisfaz, uma vez que a ética é, acima de tudo, uma disciplina filosófica
A minha convivência com o ensino da ética é longa, entretanto, o livro Ética nas Organizações é a minha primeira experiência de estar sistematizando sobre ética nas organizações. Dele vou apresentar aqui o quinto capítulo, intitulado Ética no Serviço Público, antes, porém, quero tratar rapidamente de alguns conceitos básicos.
Nós sabemos que todas as pessoas têm uma idéia do que seja a ética, pois no dia-a-dia agimos sob sua influência, mesmo quando não refletimos sobre nossas ações elas são permeadas por valores e tudo aquilo que fazemos, todas as decisões que tomamos se dão a partir de valores. Dessa forma, nossas ações são sempre orientadas por uma base valorativa e, conseqüentemente, por um comportamento ético. Há uma relação muito forte entre forma de agir e costume, o que implica em dizer que a nossa forma de agir com as outras pessoas tem influência da cultura. A pergunta básica da ética é: como devo me comportar na relação com outras pessoas? Podemos acrescentar que na relação com os animais e com o meio ambiente o nosso comportamento ético deve ser o mesmo, porque cuidando dos animais e do meio ambiente, por extensão, estamos cuidando também do ser humano e da sua sobrevivência no planeta.
O ponto básico da ética é discutir a relação entre os seres humanos e é por isso que há uma grande articulação entre o costume e a forma de agir. Essa articulação entre o costume e nossa forma de agir com os outros vem do fato de cada sociedade criar os seus valores a partir dos seus interesses e das suas necessidades. Os nossos valores, a forma como nos relacionamos com outras pessoas, com o meio ambiente, com os animais resultam da cultura em que estamos inseridos. Por exemplo, a forma como o velho é tratado em nossa sociedade ocidental é diferente de como é tratado em sociedades orientais. Aqui ele é tomado, quase sempre, como alguém que atrapalha, um estorvo que a família não sabe bem o que fazer com ele, mesmo quando se sabe que a aposentadoria dos velhos está sustentando muitas famílias. Em outras culturas, como as que citamos ele é sinônimo de sabedoria e é tratado com todo respeito e toda consideração. Queremos com isso afirmar que cada cultura cria os seus valores e dessa forma define as relações entre os seres humanos.
Não vou me deter neste assunto, é uma longa discussão; no primeiro capitulo do livro eu passo o tempo inteiro nela e ainda me alongo um pouco no segundo ao andar pelas principais doutrinas filosóficas, passando por Aristóteles, por Platão, indo à Idade Média, com São Tomás de Aquino, Santo Agostinho, seguindo para a modernidade, com Kant, Espinosa, e chegando à contemporaneidade, com Sartre e Simone de Beauvoir — estando tudo isso dentro dessa preocupação de discutir os principais conceitos. Em razão do nosso tempo restrito que temos e dos objetivos dessa fala, não podemos nos aprofundar, mas eu gostaria de que, pelo menos, ficasse uma idéia, um conceito de como discutimos a ética. E quero deixar bem claro que eu não a entendo — o meu trabalho confirma isto — como sendo apenas códigos e princípios que devem rigidamente orientar o comportamento das pessoas. A ética precisa ser muito mais do que lei, ela é colocada como a ciência que estuda o comportamento moral dos indivíduos na sociedade. Ela não estuda o comportamento estético, nem o comportamento econômico, ela estuda o comportamento moral, a forma como as pessoas se relacionam e se comportam, ela é reflexiva, teórica e é por isso que a ética é entendida como uma ciência.
Os valores morais expressam uma cultura, e cada sociedade edifica suas normas a partir das suas crenças, do seu modelo social e da sua formação econômica. E ainda para fechar esses conceitos, colocamos que desde o início a ética foi tida como “a morada do homem” como o abrigo protetor. Vejam que imagem bonita, um abrigo protetor. É uma metáfora que define bem a ética como condição de sobrevivência e de convivência social. Imaginem o que seria de uma sociedade que não tivesse princípios e normas para orientar a conduta das pessoas, normas que precisam estar interiorizadas nos indivíduos. Seria uma sociedade em que cada um faria o seu caminho, sem se preocupar com o outro. Esses princípios e essas normas são “o abrigo protetor”, no sentido de dizer quais são os limites. E esses limites são colocados exatamente pela ética. O nosso direito termina onde começa o do outro, diz-se no dia-a-dia. É nesse sentido que para Jean-Paul Sartre “o inferno são os outros” — os outros limitam a liberdade.
Insisto em afirmar que a ética não pode ser reduzida a códigos, prescrições e normas, é fundamental que ela seja uma forma de ser no mundo, que esteja comprometida com a dignidade do ser humano e com a justiça social.
Muitas vezes, tem-se a tendência de confundir a ética com o moralismo, e nisso fica-se regulando o comprimento da saia da mulher, tomando conta da hora que o casal vizinho acorda, etc.. Isso é absurdo e nada tem a ver com ética nem moral. Se a mulher não está causando nenhuma espécie de problema, se o casal acorda tarde porque assim a sua forma de vida permite, isso não deve em absoluto interessar a ninguém, a não ser que o casal tenha filhos descuidados, que não sejam levados à escola; aí é outro caso, há os filhos envolvidos, cujos direitos precisam ser respeitados. Caso contrário, a vida do casal não deve absolutamente preocupar ninguém. Isso é moralismo, e os moralistas gostam de ficar controlando o comportamento dos outros: a hora que saem, que entram, com quem. Um outro engano é misturar o aspecto legal com o ético, achando que são a mesma coisa. Não é assim: legal é uma coisa e ética é outra. O que existe é que as situações da área jurídica são também quase sempre da área da ética, mas são duas coisas diferentes, apesar de caminharem juntas. Entretanto, podemos ver muitas situações que são legais, mas não são éticas.
Aristóteles afirma que “a ética é uma segunda natureza.” Isto implica em dizer que não se pode ser mais ou menos ético, não se pode ser ético em um momento e em outro não ser. Não há o meio termo, ou se é ético ou não se é ético. Não se pode entender que um indivíduo seja ético no trabalho, onde ele sabe que se agir de uma maneira errada vai sofrer críticas e não será respeitado, mas ao entrar em casa trate mal e desconsidere a empregada doméstica, desrespeite a mulher e os filhos. Quando uma pessoa é ética, tem uma formação ética, não importa onde ela esteja, o seu comportamento será sempre o mesmo: pautado pelo respeito à dignidade do ser humano e pela justiça social.
É nesse sentido que queremos deixar aqui nossa mensagem: é claro que os códigos de ética ajudam, porque eles são o norte orientador, mas sabemos também que o código pelo código não garante de modo algum que o indivíduo aja eticamente. Não é por falta de códigos que temos uma sociedade tão injusta, com tantas e tantas pessoas vivendo abaixo da condição mínima de dignidade humana.
Isso não acontece por falta de códigos, temos a Declaração Universal dos Direitos Humanos há mais de cinqüenta anos, todos os princípios básicos estão postos nela. E ainda temos códigos de ética das profissões, código de direitos da criança e do adolescente, enfim, temos muita coisa no papel, mas não tem sido o bastante. A verdade é que não adianta termos apenas códigos, pois eles só têm sentido se as pessoas tiverem uma formação em que tenham interiorizado que o ser humano é o ser supremo e como tal deve ser respeitado. Segundo Kant, o ser humano deve ser sempre o fim e nunca o meio. Não sendo assim, podemos ter os códigos escritos mais perfeitos e a prática ser outra.
Posto isso, quero destacar que a prática moral é exclusiva dos seres humanos porque pressupõe consciência e liberdade. Para que o indivíduo seja responsável pelo ato moral praticado, é preciso que esse ato tenha sido executado de forma livre e conscientemente. Se ele teve uma prática ou atitude em que não tinha consciência do que fazia não se pode responsabilizá-lo. A responsabilidade moral implica em escolha, em estar consciente. Isso é muito importante. Acho que agora podemos dirigir nossas reflexões para a ética nas organizações, pois já temos um conceito de como estou tratando a ética.
Por muito tempo acreditou-se que a ética e o mundo do trabalho não se entrosavam, que era impossível pensar em ética quando estava em jogo a questão do lucro. Mas os ventos estão soprando em outra direção, nós estamos vivendo um momento em que se começa a vislumbrar outra paisagem. O nosso Diretor falou do assunto na abertura e a revista Veja desta semana traz uma matéria intitulada: “A hora e a vez da ética no mundo dos negócios”, onde mostra o resultado de uma pesquisa feita pela Fundação Getúlio Vargas, onde as grandes empresas brasileiras, a exemplo de outras internacionais, admitem que a ética é indispensável no mundo dos negócios e precisa receber o mesmo tipo de atenção que é dispensada à formação técnica. Não adianta apenas terem profissionais preparados tecnicamente, é preciso que sejam bem formados eticamente. Está provado que uma empresa que investe nesses dois aspectos só tem a ganhar.
Se analisarmos bem essa caminhada das empresas ao encontro da ética, vamos ver que há nela uma relação com o próprio problema econômico. É pensando no retorno financeiro que essas empresas estão sendo impulsionadas a trabalharem com ética, a darem aos seus empregados melhores condições de trabalho, que os faça gostar do que estão realizando; elas sabem que o empregado satisfeito produz e rende mais, que ele passa a vestir a camisa da empresa. E vestir a camisa implica, principalmente, em interiorizar os valores da empresa; é preciso que a pessoa acredite que aquela forma de comportar-se é a correta e a melhor para ela. A imposição não leva a nada, ela se submete por necessidade, mas seu trabalho não rende. O melhor caminho é o da consciência da ação através da educação, da qual a ética faça parte. Isso assegura um comportamento considerado digno e ético.
Nesse sentido eu listei alguns dos principais problemas éticos que hoje em dia ainda vigoram no mundo dos negócios ou de uma organização. Entre eles: a ganância, a deturpação de relatórios e procedimentos de controle; às vezes acham que não é nada de mais acrescentar um dado ou excluir outro, ou então usar um texto escrito por alguém sem citar o autor. São atitudes anti-éticas, são furtos, afinal, nem só objetos materiais são roubados, idéias também o são. É importante também lembrar o excesso de confiança no próprio julgamento, o ego maior que tudo: eu, eu e mais eu. Ninguém cresce sozinho, é muito importante trabalhar em grupo e valorizar as pessoas. O trabalho em parceria, em equipe impõe-se mais a cada dia, e como se ter parceiro ou equipe se não houver confiança, respeito e a segurança de que está se trabalhando com alguém em quem se acreditar?
Um outro ponto: a humilhação imposta às pessoas. Humilhação direta ou através de estereótipos, por exemplo: isso é coisa de mulher; isso é coisa de negro. São atitudes antiéticas, de desrespeito pelo outro, de desrespeito às diferenças. Todos somos diferentes, sim, e precisamos ser respeitados dentro dessas diferenças, sejam quais forem. Ser diferente não é ser desigual. É preciso que se reveja tudo isso. Há muita discriminação, com a mulher, por exemplo, paga-se um salário inferior ao do homem pelo mesmo trabalho; não são dados a ela cargos de projeção. Temos aqui, hoje, a presença de uma mulher que é uma Secretária de Estado, um posto altíssimo, mas trata-se de uma das poucas exceções; e quando a mulher chega a um posto alto precisa ser muito mais competente que o homem, exigem dela um esforço excepcional. Nós vivemos ainda uma realidade onde o diferente é interpretado como desigual e assim vêm as conseqüências: menor prestígio, menor salário, posição social inferior, menos respeito, enfim, são muitos os desdobramentos.
Outro aspecto, no que se refere à humilhação das pessoas, é a obediência cega à autoridade. Não estamos dizendo com isso que não haja hierarquia, mas como é que o indivíduo pode contribuir em seu trabalho se simplesmente não lhe é permitido que se posicione nunca? Se ele gosta do trabalho que faz e quer que a empresa ou organização cresça é preciso muitas vezes que se posicione, principalmente se está vendo que certos caminhos seguidos ali não terão bons desfechos. Ele faz parte da empresa, na hora em que não der certo ele vai estar incluído nisso. O silencio pode ser uma forma de omissão e significa uma atitude moralmente condenável.
É o que a sociedade faz diante do problema dos meninos de rua: “lava as mãos”. Não temos nada a ver com meninos de rua, nem com os favelados que estão por aí, é o que costumam dizer as pessoas. Toda a sociedade têm a ver, sim. É muito cômodo jogar-se toda a culpa no governo, “eu pago meus impostos em dia”, dizem. Claro que o governo tem o seu papel nisso e foi escolhido para desempenhá-lo, ele tem dinheiro para isso, mas todos nós fazemos parte dessa sociedade e temos nosso papel também. Se queremos uma sociedade melhor e menos violenta precisamos fazer a nossa parte. Fechar o vidro do carro para não ver o menino pedinte e simplesmente recusar-se a tomar conhecimento do que está em volta não vai resolver problema nenhum, é uma atitude de omissão. E eu me pergunto: como é que alguém pode viver feliz numa sociedade que não está bem?
Outro ponto a assinalar é a exploração do mais fraco. Há o ditado popular que diz que a corda sempre rompe do lado mais fraco, e é mesmo assim. Em geral, as pessoas não assumem seus erros e estão sempre descontando nos mais fracos. É claro que no mundo do trabalho não se pode estar errando, é preciso acertar, mas como somos todos humanos e falíveis os erros acontecem, então vamos assumi-los e tentar consertá-los, em vez de ficar jogando-os em cima daquele que tem menos meios de se defender.
Outra atitude inconveniente é a da falta de cooperação com outras áreas da empresa em que se trabalha, “o meu setor está ótimo, o outro eu não tenho nada a ver com isso...” É preciso pensar numa empresa como um organismo. Se todas as partes do nosso corpo não estiverem bem, nós não vamos estar bem. Assim acontece com a empresa, se funcionar bem somente em parte não vai ter um bom desempenho final. É preciso entender que todas as pessoas que fazem parte de uma empresa têm um papel importante, da moça ou rapaz que vai lá fazer a limpeza ao diretor maior, é preciso respeitar e dar a devida importância a todos. Outra prática censurável é substituir a competência e seriedade pela bajulação, que em geral é praticada por quem não é competente. Mas ser companheiro e solidário não é bajular. Passa-se a maior parte do dia no trabalho, se não for um ambiente de amizade, de solidariedade, onde a pessoa possa sentir prazer em estar lá, torna-se muito difícil a convivência. Faz-se necessário aprendermos a levar o prazer para o mundo do trabalho. Isso não vai em absoluto prejudicar a qualidade do trabalho, ao contrário, quando se está feliz com o que se está fazendo vai se fazer muito melhor. Se a pessoa está se sentindo respeitada e qualificada no que faz ela é estimulada a fazer sempre melhor. É importante não perder de vista que o trabalhador é um ser humano com alegrias, tristezas, enfim com sentimentos, ele não é apenas razão, e tem que estar inteiro no mundo do trabalho.
Antes de entrarmos, exatamente, no quinto capítulo do livro, há uma outra coisa importante a lembrar: cada empresa é única, cada organização é única, cada uma tem suas características específicas e tem o seu ethos, no sentido de uma cultura. Quando um funcionário sai de um emprego para outro, fica sempre se lembrando de como as coisas funcionavam no anterior e costuma dizer: “mas lá no meu outro emprego era assim, e não assim...”. Cada organização tem uma cultura própria, é a partir daí que cada funcionário vai ter a sua forma de ser e de agir estabelecida. Vocês podem estar se perguntando se não existem princípios que ultrapassem o tempo e o espaço, eu diria que sim, que os valores vão mudando de época para época, de sociedade para sociedade, de cultura para cultura, mas que no campo da ética persistem princípios básicos que ultrapassam o tempo e o espaço, que são o respeito pela dignidade da pessoa humana e pela justiça social. Tem tudo a ver com aquilo que citei há pouco dito por Kant: “O ser humano deve ser considerado sempre um fim e não um meio.” Esse é um princípio básico, não importa a época, não importa o local nem a cultura da organização, deve estar presente sempre.
Faço, agora, uma citação do livro que está sendo lançado hoje: “Uma organização é, pois, uma construção social que se articula com a cultura, a partir do que define suas relações interpessoais e empresariais, seus objetivos, compromissos e formato administrativo. Dentro de uma organização podem existir ainda sub-culturas, pois existem interesses divergentes.”
Trocando em miúdos, são as famosas “panelinhas” de grupos que se fecham em torno disso ou daquilo. Com isso, queremos deixar claro que uma empresa ou uma organização pode ser, sim, um campo de lutas, de conflitos tornando-se indispensável que haja ética nas relações de trabalho.
E chegamos, então, no ponto básico do nosso trabalho, em torno do qual eu preparei parte de nossa palestra de hoje, Ética no Serviço Público, que, como já foi dito, é do que trata o quinto capítulo do livro.
Em primeiro lugar, está o desabono do comportamento ético no serviço público, o que se vê e o que se ouve a respeito disso no dia-a-dia: “filas e mais filas, processos engavetados”, “funcionários não têm seriedade com o trabalho”; o que traduz aquela velha ideia de que o funcionário público pendura o paletó na cadeira e some. No nosso livro, eu tento desconstruir alguns mitos, conceitos e preconceitos que considero inverídicos e frutos de generalizações apressadas, que põem no mesmo pacote servidores, gerentes e políticos, ao falarem do serviço público. Eu lembro aqui de uma matéria publicada sobre o nosso livro, focalizando o capítulo, A Ética no Serviço Público, em que um dos aspetos destacados é exatamente esse: de que, em geral, imagina-se que todo funcionário seja preguiçoso, não seja bom profissional, mas esquece-se de que em todas as categorias profissionais há pessoas preguiçosas, omissas, como não é lembrado que no setor público há muita gente séria, competente, atuante, que ingressou através de concurso. Nós tentamos desconstruir a ideia de que no serviço público só existem pessoas que ganham dinheiro sem fazer um trabalho sério.
Afirmam também que a ética no serviço público é um problema estrutural e, por conseguinte, sem saída. Muitas queixas da opinião pública são procedentes, pois se baseiam naquilo que sentem na pele através da morosidade, do empreguismo, mau uso da máquina e do dinheiro público etc.. Sabe-se que tudo isso existe, mas há também o outro lado, o bom, que nunca é destacado, parece que por conta da nossa formação, digamos assim, cristã medieval, de achar que se deve estar do lado do sofrimento, ilumina-se principalmente os aspectos que são negativos; há empreguismo, há morosidade, há filas, é verdade, há tudo isso, mas também existem áreas onde flui o trabalho sério e competente, em que processos não são engavetados — mas não se fala disso. Há também espaços em que está se discutindo a ética — e também não se fala disso. Fala-se só da falta de ética. Eu tento discutir e explicar no livro o descrédito da população no que se refere aos padrões éticos do aparelho do Estado. Para muitas pessoas, esse descrédito tem origem na falta de normas explícitas, na ausência de ações educativas e de informação e, também, na ausência de punição.
E aqui nós entramos num ponto muito importante: para muita gente, o assunto se resolveria com a punição. Eu, particularmente, acho que não. É claro que em alguns momentos a punição é necessária, precisa acontecer, porque quando não se tem limites para o que se faz de errado, se nunca tem conseqüência a tendência é que o comportamento errado seja repetido. Entretanto, nós sabemos que usar somente a punição assemelha-se ao adestramento de animais irracionais. Continuo a dizer que, talvez por vício de formação, acredito que o melhor caminho seja o de trabalhar a mentalidade, a consciência dessas pessoas. É preciso mudar a consciência e a mentalidade do indivíduo, trabalhando-se no sentido de ser criada uma nova consciência ética — a punição sozinha não muda nada. Nós sabemos de quantas pessoas que passam anos e anos numa penitenciária e quando saem de lá repetem os mesmos erros; e isso acontece porque não passaram por um processo de conscientização e mudança de mentalidade. Não lhes foram dadas as ferramentas para que isso acontecesse. Infelizmente não temos tempo de nos aprofundar no assunto.
Em resumo, o caminho mais seguro para se garantir um perfil ético é priorizando a educação e a conscientização. A ética precisa ir além de códigos, ela é uma forma de ser no mundo, repito. Gostaria de fazer aqui uma citação de um texto do Carneiro, de 1998: que a observância de padrões de conduta adequada por servidores públicos é principalmente uma questão cultural, que requer um trabalho pedagógico de permanente esclarecimento e persuasão.
10 Ética no serviço público Parte 2
11 Governo empreendedor e estado - rede na gestão pública brasileira
Arnoldo Valente Parte 1
Quando se fala em reforma de Estado não se pode deixar antes de fazer algumas ressalvas. A primeira é que não é só uma reforma da máquina administrativa, é também uma reforma do Estado, ou seja, envolve as dimensões e novos papéis do Estado e principalmente das relações desse Estado com a sociedade. Outra ressalva é que, embora aproveite-se de modelos técnicogerenciais da área privada, não se pode confundir Estado com organização privada. Então a nova gestão pública não é coincidente, embora apoiada na teoria moderna de organização empresarial, ela se distingue. A reforma administrativa gerencialista atual não acaba com o modelo de gestão burocrática, o weberiano. É um erro imaginar-se o contrário. Embora ela tenha surgido e insurgidose contra a modelo burocrático, a nova gestão pública mantém esse modelo em alguns aspectos.
Eu queria, então, falar um pouco do governo empreendedor de David Osborne e Ted Gaebler, mas adianto que vai ser apenas uma referência. Vou complementar com alguns conteúdos e exemplos locais e alguns conteúdos complementares de minha responsabilidade.
Traços comuns de um governo considerado hoje empreendedor. Primeiro traço: ele tem ação ampla, ele catalisa o setor público, o privado, o voluntário, e isso significa que esse governo amplia sua ação. Eu vou começar com uma citação que é repetida por nove entre dez reformistas; qualquer livro que se abra ela está lá, é uma citação realmente de impacto, radical, bombástica: “a palavra governo vem de um vocábulo que significa navegar, e o papel do governo é navegar — prestar serviço é remar, e o governo não é bom remador.” É dita de forma drástica. Não é de autoria de Osborne, é uma citação muito antiga e não me ocorre agora quem é seu autor. É usada por quase todo mundo, ela tenta mostrar que o governo deve deixar de ser provedor direto de serviços para ser catalisador. Ao governo cabe definir os problemas, reunir recursos que outros vão usar na solução desses problemas. Ao governo cabe modelar a sociedade, dar o rumo à sociedade, definir a política a ser seguida, manejar, o máximo que puder, instituições econômicas e sociais, enfim, regular e cumprir a função regulatória.
Então o governo catalisa o que é público, ele articula, coordena, aproveita a capacidade e a vocação do setor público, do setor privado e do terceiro setor, o voluntário no que cada um faz de melhor. Osborne é muito feliz na sua descrição das capacidades ou das alocações de cada setor, e eu tomei a liberdade de esquematizar isso aqui.
O que o governo faz melhor é o gerenciamento das políticas governamentais, a regulamentação das atividades públicas, a manutenção da equidade, a prevenção da discriminação e exploração, a garantia da continuidade e estabilidade dos serviços públicos, a defesa da coesão social; o que a empresa privada faz melhor são as tarefas econômicas, obviamente, as que visam e buscam lucros, tarefas que envolvem inovação, treinamento mais rápido, capacitação melhor das pessoas, repetição de experimentos bem sucedidos. Dificilmente, no setor privado, discute-se de quatro em quatro anos ou de dois em dois o que fazer, não há mudança de gestão. Principalmente na empresa familiar, onde é longo o período de uma mesma gestão e mesmo nas empresas de capital aberto, embora estas sejam mais flexíveis para adaptarem-se às mudanças, aos novos cenários, às novas situações.
No que se refere ao abandono de atividades obsoletas ou inúteis, a empresa privada consegue descartar-se mais facilmente daquilo que não deu certo, enquanto o governo ata-se às amarras jurídicas e institucionais, que não permitem que ele se libere delas. Na execução de tarefas complexas ou técnicas, está provado que a empresa privada consegue exercê-las com mais facilidade, capacitando pessoal, reunindo recursos e tecnologia. Vejamos agora o que faz melhor o terceiro setor, o voluntário: tarefas não lucrativas, atividades que envolvem compaixão e solidariedade, ele é composto de pessoas que, na maioria das vezes, estão nele por opção, por vontade própria. São tarefas que exigem confiança ampla dos clientes e isso depende de atenção direta de pessoal, aconselhamento individual, aplicação de regras e conduta moral. Uma entidade religiosa ou uma ONG pode exigir determinado comportamento dos seus membros compatível com seu ideal. Já o governo não pode cobrar essa qualidade de conduta do servidor, ele é absolutamente neutro, não pode determinar nem exigir regras de conduta moral.
Dentro desses setores são essas então as capacitações e atividades em que cada um estaria mais vocacionado e, portanto, para onde deveria ser direcionada sua atividade.
Eu pergunto se nessa situação de governo novo os funcionários públicos são prejudicados ou não. Não se trata de ser um governo menor ou maior, o que interessa é que seja melhor. Ser menor e melhor é o grande paradoxo, mas a pergunta é se com as reformas os servidores são perdedores ou ganhadores. Alguns otimistas acham que o servidor brasileiro não vai perder. Está provado que os quadros dos poderes públicos brasileiros , no país, não são excessivos, o que pesa nos custos de pessoal é possivelmente os gastos com a Previdência do Funcionalismo e o excesso de cargos comissionados, que nada têm a ver com os quadros efetivos. Assim os funcionários não perdem necessariamente, podem ser reaproveitados, reciclados, terceirizados. E segundo Osborne, ao enxugar as tarefas, principalmente as burocráticas e rotineiras, o Estado concentra-se naquilo que efetivamente deve ser feito por ele, e o servidor ganha com isso, ganha atividades mais complexas, consequentemente, de maiores responsabilidades, que exigem maiores conhecimentos e com isso o servidor está sendo valorizado. Segundo o que ouvi a ministra de então, Cláudia Costin, dizer numa palestra, não há excessos de quadros no Brasil e não há razão para se temer a modernização de uma reforma administrativa em bases gerencialistas.
Quanto a promover a competição, segundo traço do governo empreendedor, há um dado interessante do Osborne de que, segundo pesquisa feita nos Estados Unidos, os serviços realizados diretamente pelo setor público são de 30 a 95% mais caros do que os terceirizados, incluída a taxa de administração. Isso não acontece por que o governo seja pior do que a iniciativa privada, acontece porque a iniciativa privada trabalha sob o regime da competição. Para Osborne, a questão não é ser público ou privado e sim a competição versus monopólio. Onde há competição é estimulada a eficiência, e com isso obtém-se mais por menos, promove-se a inovação e tem-se um corpo de funcionários certamente mais motivado. Então, a competição é sempre vantajosa.
No âmbito da competição no setor público há formas interessantes observadas por Osborne. A primeira: estimular a competição do serviço público com o setor privado . É interessante comparar o serviço que é feito hoje no sistema do monopólio com o que é explorado por uma concessão ou permissão na mesma área. O exemplo mais óbvio que tem-se é o da coleta de lixo, na Prefeitura. Há a empresa estatal, mas é aberta uma área de concessão a um concorrente. Com isso, são comparados padrões de desempenho, custos da tonelada de lixo etc., sem falar na competição interna que é disparada e nas medidas administrativas que são tomadas. Esse é um exemplo de competição entre um serviço público e um serviço terceirizado.
Mas pode-se também estimular a competição abrindo uma área de concorrência entre diversos setores privados. Por que não terceirizar a instituição que presta serviços médicos ao servidor, trazendo uma rede de conveniados que possa competir entre si, com menores custos e melhor qualidade de serviços?
O terceiro tipo, e que deve servir muito ao Brasil, é a competição dentro do próprio setor público. Exemplo: uma escola competir com outra por indicadores de desempenho, taxas de evasão, repetência, etc.. Um posto de saúde competir com outro por eficiência. Por que não estimular essa competição interna se só se tem a ganhar com isso?
Por fim a competição nos serviços internos. A meu ver, que sou da área de recursos humanos há muitos anos, a oferta de serviços internos só será aceita pelos nossos usuários na medida em que ela resulte em serviços com preços menores e de melhor qualidade. Caso contrário, têm-se todo direito de procurar quem lhe sirva melhor. E isso vale para folha de pagamento, para assistência social, para a informática etc.. Se existe um serviço sistêmico prestado que pode ser oferecido pela comunidade por igual valor e mais qualidade não há duvida que é direito dos órgãos buscarem esse serviço. Falar em competição abrange tudo isso.
Outro traço do governo empreendedor: ele tem a característica de orientar-se pela missão em vez de regulamentos. Há um autor que diz que a hora da verdade de uma empresa ou de uma organização é ali no balcão. Uma empresa de aviação, por exemplo, é ali no check-in, é na hora em que há relações de âmbito interpessoal, as transações individuais, como ele diz. É aí que se dá a hora da verdade da empresa, em que vende o seu produto, garante sua imagem. Para pegar-se 5% de funcionários desonestos frustram-se 95% de honestos com os regulamentos que são feitos em gabinetes distantes dos locais efetivos de trabalho o que em geral dificulta esse trabalho.
Observa-se que no serviço público, principalmente nas prefeituras e nos municípios, há situações absolutamente imprevistas e que requerem improviso. Seus regulamentos também são feitos de forma distante em gabinetes de órgãos de planejamento e dificilmente se prestam a ajudar na hora do contato pessoal nessas situações individuais. É preciso, portanto, conceder poder às pessoas que estão na ponta o direito de ter idéias, de decidir e principalmente de agir. É a esse funcionário lá na base da pirâmide que deve ser dada certa autonomia. Mas a situação real é a de sempre estabelecerse regras de longe, lá de cima.
Outra característica do serviço público é focalizar e investir no insucesso ao invés de se investir nos resultados: mais polícia quando a taxa de criminalidade atinge níveis altíssimos, mais médicos e vacinas quando as epidemias grassam etc.. Os investimentos são sempre em fracassos e não em prevenção ou resultados.
Servidores mais bem pagos por antigüidade ou por maior nível hierárquico, maior orçamento para aumento de quadros — isso é resultado? Evidente que não. A empresa privada que não tiver resultados desaparece do mercado, seus administradores são obrigados a dar satisfações aos seus acionistas, mas a quem os administradores públicos dão satisfação de seus fracassos? Talvez ao Legislativo, que é quem lhes dá os recursos, talvez ao grupo de interesses ou ao grupo político que os colocaram no cargo. A relação com o cliente, no caso, é muito frouxa, e por isso a cobrança não é tão incisiva e forte como nas empresas privadas.
Entretanto, estamos vendo que isso está mudando, a sociedade vem passando a cobrar; vemos no resultado das campanhas políticas que a população começa a cobrar mais resultados do que ideologias, o que importa é o que vai impactar de forma positiva nas reais mudanças. Mas, por enquanto, investe-se no input e não no output, nas entradas e não nas saídas, nos resultados.
Poucas pessoas falam a palavra cliente no setor público, pouquíssimas conhecem o cliente, o que é muito pior. Não sei se vocês já leram O Capital Intelectual, de Thomas Stewart. Ele diz que nós estamos saindo de uma sociedade de produção em massa para uma situação de segmentação em massa, o que para mim é novo. Conhecia produção em massa acrescida da customização, isto é, com a preocupação individual. O que quer dizer que estamos produzindo em massa e em grande escala, só que produtos diferentes e produzidos individualmente. Com os recursos das telecomunicações e informática, nós vamos ter produtos individuais, mas numa escala de mercado de massa. Vale uma digressão, faço uma complementação, não necessariamente de Osborne, embora ao longo de seu texto ele concorde com essa visão de que é preciso fazer-se uma distinção entre os clientes do setor público, principalmente no que se refere à ideia importada da qualidade total do cliente à busca da sua satisfação. Evidentemente, nem tudo pode ser entendido dessa forma, nem todo serviço público pode ser orientado no sentido de ser a garantia da satisfação do cliente. Um departamento de polícia, o Ministério Público, uma agência reguladora, o Fisco, uma agência de meio ambiente, nenhum deles está preocupado com a satisfação do cliente. Muito pelo contrário, querem impor obrigações e até perdas materiais. Um detento não vê com bons olhos a ação do Estado via polícia e justiça, um contribuinte autuado pelo fisco não vê com satisfação a multa que lhe é aplicada, diante das leis e multas do Meio Ambiente o poluidor e o predador da natureza também não ficam satisfeitos.
É importante então que se faça a diferença do cliente individual e o cliente que representa a sociedade como um todo, que é para quem o governo deve manter a segurança, a ordem, a arrecadação de impostos num nível razoável etc.. Essa distinção é fundamental.
Embora com a reforma a qualidade tenha efetivamente trazido melhorias no balcão, é um equívoco pensar-se que a qualidade total e a visão do cliente podem ser simplesmente importadas para dentro de todos os setores públicos. Essa qualidade total trouxe grandes avanços para os serviços feitos, antes, por servidores mal treinados e rudes. Mas é preciso não se esquecer de que o serviço público tem especificidades. Tem-se que trazer sempre em mente que a gestão pública não se confunde com a gestão privada
É dito sempre que fazer prevenção evita problemas, mas não é o que acontece; em geral cria-se uma grande burocracia e aí, em vez de navegar, o governo passa a remar. A burocracia autoreferenciada passa a se auto-alimentar, renova-se e cresce permanentemente. Então, em vez de se preocupar com prevenção para evitar problemas, está sempre dando soluções; em vez de apresentar normas para evitar o fogo, está sempre apagando incêndios; em vez de buscar vacinas, está combatendo a doença.
É importante lembrar disso, uma vez que nossas grandes estruturas foram criadas para resolver problemas, em vez de preveni-los, e foram se deformando, na medida em que iam resolvendo, ainda que mal, esses problemas e hoje estão se auto-lamentando de não terem investido na prevenção.
Como forma de alerta, lembro também que os gerentes podem ter quatro atitudes, numa visão a longo prazo quanto ao futuro. A primeira pode ser considerada teórica: é o inativismo, a atitude daqueles que acham que “o futuro a Deus pertence”, nada há a fazer senão assistir ao desenrolar dos fatos. Essa posição altamente conservadora está mais para nominal e teórica do que realista. A segunda atitude, do reativismo, já começa a ser menos ficção e mais verdade, cuja senha é: “o passado era melhor”, que é uma forma de resistência à mudança, uma posição que resulta em sempre viver correndo atrás do prejuízo, de admitir que existe futuro, mas olhando sempre pelo retrovisor para o passado. A terceira atitude — talvez a mais comum pelo menos nas empresas e organizações que fizeram muito treinamento gerencial — é a do preativismo, que significa predizer o futuro e preparar-se para ele. Nessa posição há o reconhecimento de que o mundo está mudando e são feitas projeções para identificar as dificuldades, aproveitando as oportunidades. Porém, com um dado claro de que não se consegue manejar o futuro. A quarta atitude, interativismo, é certamente, a que todo gerente de setor público ou qualquer outro setor deveria inspirar-se: a de que o futuro pode ser construído, que o futuro é uma sucessão de estados presentes: “o que eu fizer hoje vai determinar o meu amanhã”. Há a constatação de que existe um quadro de restrições, mas as parcelas delas que se consegue manejar permitem a chegada ao futuro desejado.
Essas quatro atitudes advêm de ensinamentos da técnica de cenário. Quem estudou e trabalhou com planejamento estratégico de cenários, principalmente em setor elétrico, conhece bem esses conceitos. É possível normatizar o futuro, há condições de prescrever– se o cenário desejado, o que significa determinar o futuro e interagir com ele. Não falo isso em termos só de vida pessoal. Posso ver o quanto é tudo verdadeiro em termos organizacionais, de uma possibilidade hoje ser construída amanhã. Não deixa de ser uma divagação, para não se ficar preso apenas ao olhar Osborneiano.
O governo empreendedor descentraliza a autoridade, abdica da hierarquia em nome da participação e do trabalho em equipe. Os serviços públicos e empresas já foram centralizados, os meios de divulgação ou de disseminação da informação eram primitivos, as pessoas na ponta eram pouco instruídas, entre a solicitação do cidadão, a chegada desta lá em cima e o seu retorno havia um tempo imenso que o cidadão era obrigado a aceitar complacentemente. Hoje a situação mudou: tem-se informação em tempo real, servidores instruídos na ponta, o tempo de retorno das solicitações é bem menor. A descentralização é necessária a qualquer custo.
Está provado que as empresas que se descentralizaram são mais eficientes, resolvem melhor os problemas, são mais inovadoras, dão mais poder às pessoas que estão na ponta, que, com certeza, ficam com o moral mais elevado sentindo-se mais capazes e com mais responsabilidade.
O governo empreendedor prefere os mecanismos de mercado às práticas burocráticas. A demanda sobre o Estado é muito grande, principalmente depois da globalização, e enganam-se os que pensam ao contrário. Como não é mais possível resolver os problemas com mais aumentos de impostos e mais programas administrativos, o governo prefere, então, as práticas de mercado. Um exemplo clássico disso é o BNH. O governo tinha um déficit muito grande no setor da casa própria popular, e como não podia prover essa população carente sem moradia criou um mercado com juros e prazos de financiamento que não existiam no país, conseguindo assim recursos para movimentar um mercado financeiro de habitação que financiasse as casas populares. Foi, parece, uma grande solução. Não sei como está hoje, não sou do ramo, mas foi um projeto copiado por muitos países e festejado internacionalmente. Uma situação típica de quem não pode fazer com programa administrativo e recursos próprios e usa soluções de mercado. A reforma na Inglaterra, que é a grande matriz, pelo que se sabe, só está fazendo isso. E está na moda se falar nos para mercados, que não são outra coisa senão soluções desse tipo: Investir-se na produção de recursos.
Diz-se que falar em lucro no serviço público dá arrepio, fere o que há de mais sacralizado no setor público, entretanto, falar em desperdício não dá arrepio nem fere. O governo empreendedor precisa gerar receita para atender despesas. O país está numa crise fiscal e isso decorre do fato de a receita tributária vir caindo e os gastos públicos virem aumentando, o que gera o déficit público. Como não se admite mais aumentar impostos e o governo é cobrado a prestar mais e mais serviços é necessária a busca de outras soluções. Isso está ocorrendo em todos os lugares do mundo. Em muitos países, além do déficit público interno, há o déficit externo — os recursos são buscados externamente. Mas eu continuo insistindo com a pergunta: por que não se gerar recurso onde isso seja possível no setor público?