TIPOLOGIA
Pastor Evangélico
1 Princípios conceituais da tipologia bíblica
Fazer a exposição do que é a tipologia bíblica (TB) é uma tarefa demasiadamente difícil e complexa. A dificuldade está no fato de ser um conceito que, no trajeto milenar do cristianismo, foi esmeradamente estudado tanto em sua essência como em sua função e que, tendo sido descrito e classificado pormenorizadamente em seus múltiplos aspectos, torna o ato de (re)apresentá-lo um processo de pouca abrangência diante da impossibilidade de lhe recolher todas as investidas. Por esse motivo, haverá aqui um empenho em justapor algumas abordagens a respeito da TB, privilegiando mais aquelas trazidas por críticos da literatura do que as apresentadas por estudiosos de teologia, perspectivando, assim, suas características constitutivas com enfoque na área de atuação da presente pesquisa.
A TB é, via de regra, entendida como exegese. Trata-se de um princípio interpretativo da Bíblia. O fato, no entanto, de ter sido amplamente utilizada, tendo extrapolado os limites da escrita sagrada e religiosa, e de ser hoje facilmente reconhecida por leitores especializados, não significa que esteja identificada, nos escritos bíblicos, por sua nomenclatura: typos ou figura. Alguns poucos exemplos são encontrados, e recorrentemente citados nas publicações da área, para justificarem ou explicarem tal uso terminológico. Vejamos alguns. A certa altura da Carta aos Romanos, a pregação de Paulo diz: “Ora, a morte reinou de Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não haviam pecado, cometendo uma transgressão igual à de Adão, o qual é figura [tu,poj, typos] daquele que devia vir” (Rm 5, 14). Paulo refere, então, nessa passagem, que a vicissitude da morte e da ressurreição, surgida com a transgressão humana à proibição divina de comer do fruto da árvore do conhecimento, estava lançada em Adão e se resolveria com a chegada de Jesus Cristo. Temos, pois, a proposição básica da palavra figura: ela sugere uma adequada compreensão daquilo que liga passado, presente e futuro: o previsto, o visto e o pós-visto, ou o que prefigura, figura e pós-figura, uma sequencialidade de tipos e antítipos. Assim sendo, devemos entender, por exemplo, que, segundo a exegese tipológica, o pecado de Adão, cometido na época da criação do mundo, prefigurara, desde então, a salvação na figura de Cristo.
Além de figura, a TB pode ser identificada por outras nomenclaturas. Vejamos, no exemplo seguinte, também presente nas cartas de Paulo, como a palavra “alegoria” cria a mesma relação tipológica entre o filho de Agar – Ismael – e os judeus, e o filho de Sara – Isaac – e os cristãos:
De fato, aí está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava e outro da mulher livre. O filho da escrava nasceu de modo natural, enquanto o filho da mulher livre nasceu por causa da promessa. Simbolicamente - állegoroumena] isso quer dizer o seguinte: as duas mulheres representam as duas alianças. Uma, a do monte Sinai, gera para a escravidão e é representada por Agar (pois o monte Sinai está na Arábia, que é o país de Agar). E Agar corresponde à Jerusalém atual, que é escrava junto com seus filhos. Mas a Jerusalém do alto é livre, e ela é a nossa mãe. (Gl 4, 22-26)
Neste trecho, o termo grego é Ainda que em certas versões, como esta, apareça traduzido como “simbolicamente”, a palavra está nomeando o mesmo procedimento interpretativo que é, indistintamente, ora chamado de figura, ora de alegoria. Segundo explica Hansen, em seu livro Alegoria, “o verbo grego allegorein, por exemplo, tanto significa ‘falar alegoricamente’ quanto ‘interpretar alegoricamente’” (2006, p. 8). Conhecida, portanto, como alegoria interpretativa, a TB difere da noção clássica da alegoria como modo de expressão, aquela que refere o funcionamento utilizado por poetas greco-romanos e medievais, em que a técnica metafórica de representar e personificar abstrações criava um discurso figurado para substituir o discurso próprio (idem, 2006, p. 8-9). A alegoria interpretativa, ou, ainda, a alegoria dos teólogos, é “operada como hermenêutica 9 (grego hermeneia, hermeneuiein = transporte, transferir, termos traduzidos pelos latinos por interpretatio, interpretare, ‘interpretação’, ‘interpretar’)” cuja técnica interpretativa “decifra significações tidas como verdades sagradas em coisas, homens e eventos das Escrituras” (idem, 2006, p. 91). E completa: “Diferentemente da leitura greco-latina, a alegoria hermenêutica cristã é uma ‘semântica’ de realidades reveladas pelas coisas representadas pelas palavras, não importa sejam palavras de sentido próprio ou figurado” (idem, 2006, p. 92).
A TB instaura uma dinâmica de comunicação entre os Testamentos, e dessa dinâmica surge uma chave de compreensão para o significado gerado pelos vínculos estabelecidos entre os fatos ou pessoas que figuram em uma e em outra ocasião “histórica”, e uma vez criado o nexo entre as figuras, cria-se também um impedimento, do ponto de vista da doutrina, para que sejam observadas isoladamente. O procedimento interpretativo tipológico se assenhora, portanto, do Antigo Testamento como figura do Novo Testamento, em um movimento contínuo e eterno.
Auerbach, em seu ensaio Figura, recupera a etimologia da palavra e ajuda a esclarecer o funcionamento da TB. A palavra figura, diz o autor, “vem da mesma raiz de fingere, figulus, fictor e effigies, [e] significava ‘forma plástica’” (1997, p. 13). Sua mais remota ocorrência data do século II a.C., e seu uso foi adquirindo, com o passar do tempo, novas nuances, tais como “aparência externa”, “contorno”, “molde”, “forma”, “schema”, “typos”, “plasma”, “aparência”, “imagem”, “visão”, “visão de sonho”, “fantasma”, “simulacro”, “semelhança”, “cópia” (cf. Auerbach, 1997, p. 13 e ss.). Em uma dessas alternâncias, a palavra latina passou a ser sinônimo do termo grego allegoria. Outras ainda, como “ambages”, “exemplum”, “similitudo”, “species”, “umbra” também a substituíam (idem, ibidem). Entretanto, Auerbach afirma que, em meio a essa variedade terminológica, a palavra figura é a mais adequada para expressar todos os elementos do conceito de modo integral: “o princípio formativo, criativo, a mudança da essência que permanece, os matizes de significado entre cópia e arquétipo” (idem, 1997, p. 42). E, em meio aos Padres da Igreja, o termo adquiriu importância histórica e seu significado passou a gravitar em torno do campo semântico da antecipação, da prefiguração do futuro, da profecia 10 fenomenal. Importante frisar que, apesar de mover-se no mundo conjectural da profecia, da visão, da visão de sonho, a relação tipológica estabelecida entre dois acontecimentos é sempre resultante de “algo real e histórico que anuncia alguma outra coisa que também é real e histórica. A relação entre os dois eventos é revelada por um acordo ou similaridade” (idem, 1997, p. 27). Desse modo, o Antigo Testamento narra uma realidade que antecipa outra realidade, aquela que será relatada nos escritos neotestamentários. Esse modo interpretativo de vincular os acontecimentos bíblicos passados, presentes e futuros, aparece em profusão no Novo Testamento e ganha continuidade nas interpretações patrísticas. Por exemplo, em Adversus Marcionem (3, 16), de Tertuliano, a figura de Josué relacionada a Jesus sugere que a condução do povo de Israel à terra prometida da Palestina, feita por Josué, anunciava também a condução dos seguidores de Jesus à terra prometida da vida eterna. Essa interpretação de Tertuliano, diz Auerbach, “tinha como objetivo mostrar que todas as pessoas e acontecimentos do Velho Testamento eram prefigurações do Novo Testamento e de sua história de redenção” (idem, 1997, p. 28).
A TB foi utilizada, pelos primeiros cristãos, ou judeus-cristãos, como forma de encontrar argumentos que confirmassem a nova doutrina. O missionário Paulo, que era um judeu-cristão, mais uma vez faz uma variação do termo, dizendo que a lei judaica era “sombra” de coisas futuras, e tais coisas vieram a se esclarecer e realizar na fé cristã: “Ninguém, pois, julgue vocês pelo que comem ou bebem, ou por causa de festas anuais, mensais ou de sábados. Tudo isso é apenas sombra daquilo que devia vir. A realidade é Cristo” (Cl 2, 16-17), ou ainda: “A Lei possui apenas uma sombra dos bens futuros, e não a realidade concreta das coisas” (Hb, 10, 1).
A proposição da TB, ou interpretação figural, é, portanto, enigmática, dado que os acontecimentos históricos são provisórios e incompletos; apontam para algo futuro que está por vir; uma promessa a ser cumprida; um mistério, de sentido espiritual, a ser desvendado. Esse modo de retomar e explicar as velhas passagens bíblicas ultrapassou o círculo social restrito aos personagens bíblicos e aos judeus, e generalizou-se na educação, nos sermões religiosos, nas 11 representações teatrais, nas esculturas, etc., ampliando o alcance de sua significação e de sua influência. Indicativa de realização futura, a alegoria interpretativa expandiu sua exegese, e os tipos deixaram de se completar apenas na vida de Cristo; as narrativas passaram a aplicar o plano de Deus entrevisto nas Escrituras à vida pública de indivíduos ou instituições, celebrando também o modelo crístico em odes, cartas, biografias e outros relatos de vida privada. Por exemplo, na literatura inglesa do século XVII, o rei David não só é identificado com Cristo, mas também com a figura de reis ingleses, assim como a Inglaterra é identificada como uma nação eleita (cf. Zwicker , 1977, p. 116 e ss).
A TB faz de algo ou alguém, de um dado momento histórico, figura alegórica geradora de outros, algo e alguém, igualmente históricos, em outro momento e, assim, sucessivamente, constituídos em uma infinidade de exemplos, “e o exemplarismo não é defeito, mas decorrência do método, que situa Cristo logicamente como premissa menor do pensamento para produzir proporções analógicas correspondentes” (Hansen, 2006, p. 99). A exegese tipológica é feita segundo o caráter de semelhança, o qual permite fazer analogia entre dois eventos. Esse caráter de semelhança não necessita de atributos fortemente evidenciados, que justifiquem a proposição que junge a dupla ocorrência: “muitas vezes, vagas similaridades na estrutura dos acontecimentos ou em circunstâncias relacionadas com eles bastam para tornar a figura reconhecível (Auerbach, 1997, p. 27).
Proposta como unidade teológica, a leitura dos testamentos é paradigmática: o primeiro promete, o segundo cumpre; um é sombra, traço, sinal, indício, o outro é luz, preenchimento, realização e acontecimento. Conseqüentemente, a partir dessa visão de incompletude constitutiva das Escrituras judaicas, podemos inferir um progressivo apagamento, no âmbito da cultura cristã, dos vínculos entre o Antigo Testamento e o povo que o escreveu, decorrente da unicidade que a TB determinou para o livro sagrado:
O Velho Testamento, em seu todo, deixou de ser (...) um livro da lei e da história de Israel para tornar-se, de modo integral, uma promessa e uma 12 prefiguração de Cristo, um livro em que não há nenhum significado definitivo, mas tão-somente profético, e que só fora preenchido agora, no qual tudo está escrito “para nossa salvação” (I Cor. 9:10, cf. Rom. 15:4). (Auerbach, 1997, p. 44)
Sob essa paradoxal conformidade, de suprimido a incorporado, o Antigo Testamento tem sido interpretado por centenas de anos. A sombra, que inicialmente estava projetada sobre a palavra-promessa, clareou-se para aqueles que entenderam a palavra-realizada. E aqueles que não a entenderam, e mantiveram-se fiéis à velha palavra, permaneceram, segundo se pode depreender da visão cristã, na obscuridade.
1.2. A tipologia como sacramento do futuro
A TB, assim como tudo o que provém da matéria bíblica, tem uma longa trajetória de uso. Ainda que caracterizada essencialmente pela comunicação que faz entre os dois Testamentos, a TB pode ser identificada como técnica exegética já na prática de escrita da Bíblia hebraica, especialmente nos registros de caráter messiânico dos profetas, os quais descrevem o reino vindouro como um paraíso, como um novo Êxodo, como um novo dilúvio, criando interação semelhante entre um acontecimento passado e uma eventualidade futura. Prática comum, portanto, como veremos mais adiante, dos redatores do Novo Testamento, os escritos tipológicos são aí entendidos como um estágio de interpretação avançado em relação às propostas proféticas, uma vez que escrevem a respeito de ser Jesus Cristo uma realização das figuras presentes nos personagens e nos fatos do Antigo Testamento. E ganham prosseguimento, como fonte exemplar de interpretação e de escrita, trabalhada ou em resposta às sugestões proféticas do Antigo Testamento ou como reprodução de fé do Novo Testamento, na literatura patrística.
Os escritos patrísticos são considerados testemunhos da tradição mais próxima da origem do cristianismo, e geraram um pensamento cristão basilar, considerado de recepção de verdade revelada, numa primeira etapa, e de assimilação e difusão dessas verdades, numa segunda etapa (cf. Folch Gomes, 13 1979, p. 9-10). A TB está neles entrelaçada, e, para demonstrarmos tal asserção, utilizaremos o material do cardeal francês Jean Daniélou2, teólogo especialista em patrística, que organiza tematicamente o assunto em seu livro chamado Sacramentum futuri. Etudes sur les origines de la typologie biblique (1950).
Trata-se de uma abordagem tradicional, que traz à luz o consenso das autoridades teológicas e eclesiásticas, retomando passagens bíblicas conjuntamente com interpretações dos cristãos dos primeiros séculos, fazendo comparações tanto no que se refere a sua definição conceitual, como a seu uso litúrgico e catequético.
O estudo feito pelo cardeal divide o uso da TB em cinco partes temáticas: Adão e o Paraíso; Noé e o Dilúvio; o sacrifício de Isaac; Moisés e o Êxodo; e, por fim, o ciclo de Josué. Apresentaremos cada uma delas com a intenção de evocar seus usos nos escritos dos Padres.
A primeira delas, a tipologia adâmica, aquela que trata do final dos tempos como sendo um novo paraíso, cheio de paz e prosperidade, farto de leite e mel, é subtraída do profeta Isaías (Is, 7, 14-15), embora o tema participe de escritos de outros profetas, como Oséas (2, 21), Amós (9, 13), Ezequiel (34, 26), etc. O comando de um futuro paraíso, segundo se pode entrever dos vislumbres proféticos, não poderia estar destinado a um rei temporal. Haveria de ser, sim, de um rei messiânico, escatológico. Esse retorno da realidade, segundo a fé judaica, a um lugar em que prevalece a felicidade, está ainda irresoluto, está destinado ao futuro. Para o mundo cristão já é presente, pois foi realizado em Cristo: “O que o Novo Testamento afirma é que este Novo Paraíso já ocorreu com Jesus (Daniélou, 1966, p. 30). A propósito do novo Adão, ou o Adão verdadeiro que veio restaurar o Paraíso, podemos conferir a continuidade do tema na I Epístola aos Coríntios: “Cristo ressuscitou dos mortos como primeiro fruto dos que morreram. De fato, já que a morte veio através de um homem, também por um homem vem a ressurreição dos mortos. Como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos receberão a vida” (1Cor 15, 20-22).
Do ponto de vista sacramental, ou seja, segundo o rito sagrado instituído pela Igreja Católica para fins espirituais, o que se cumpriu substancialmente em Cristo se prolonga em cada cristão através do batismo: “O Antigo Testamento apresentava uma tipologia escatológica; o Evangelho a mostrava realizada em Cristo; São Paulo a apresenta continuando-se no cristão” (Daniélou, 1966, p. 34). Temos, então, segundo o autor, uma tipologia escatológica judaica e uma tipologia cristológica cristã. E o que caracteriza esta última, no que se refere ao Paraíso, é que a “entrada no Paraíso não é algo reservado ao fim dos tempos, mas já realizada em Cristo, ou, mais exatamente, o fim dos tempos está já presente em Cristo” (idem, 1966, p. 45), e é importante lembrar que essa atualização da escatologia não exclui, de modo algum, a renovação universal que pertence ao final dos tempos.
Num jogo de relação entre pessoas ou acontecimentos, que ora demonstra mais, ora demonstra menos conformidade, a TB coloca em relevo – e aqui o autor recorre às idéias de Santo Irineu – a unidade do plano divino: “descobre as analogias que são como a filigrana que indica a obra de um mesmo artífice, como a assinatura de Deus em sua obra e o selo que garante a autenticidade da Escritura” (idem, 1966, p. 48-49). Segundo essa concepção, que trata da unidade do plano divino, o grande princípio tipológico está em uma ordem imperfeita que prepara e prefigura uma ordem perfeita, com o objetivo de dar à criação humana a oportunidade de amadurecer, de conhecer o que é o mal e dele se afastar, e ir em direção à imortalidade. Temos em Irineu uma teologia da recapitulação, que é aquela que é caracterizada por retomar algo anterior para, então, relacionar ao que está adiante. Entre Adão – e as conjunturas de pecado que o envolvem – e Cristo – e as conjunturas de redenção e reparação do pecado que também o envolvem – há correspondências que destacam um plano divino em que o segundo, diz o autor, é precisamente réplica e recapitulação do primeiro. E as comparações desse tipo são inúmeras, encontradas em muitos Padres (cf. idem, 63 e ss.), e se estendem do Paraíso do Pecado ao Jardim da Salvação, ou ainda, de Adão a Cristo. Essa relação está, ainda, mediada pela virgindade de Maria, que recupera a figura da virgindade de Eva, antes que essa fosse abordada pela serpente do mal. E o tipo representado pela serpente ganha, no episódio de Maria, o antítipo do anjo Gabriel. Eva e Maria representam, respectivamente, a desobediência ao comando divino, que levou os homens à morte, e o acatamento à mensagem divina, que regenerou os homens à vida.
As comparações feitas entre as temáticas adâmica e edênica ecoam permanentemente nos textos patrísticos. Em seu conjunto, levam ao desenvolvimento de um outro tema, a saber, o sonho de Adão como figura do nascimento da Igreja. O entendimento, portanto, de uma relação tipológica com seu aspecto inicial ou anterior, tais como as figuras edênicas, permitem compreender seu aspecto tipológico posterior. Daniélou encontra, nas palavras de Santo Hilário, uma perfeita explicação de como deve ser compreendida uma analogia que decorre de uma que lhe precedeu: “Se Adão era uma figura de Cristo, o sonho de Adão representava a morte de Cristo, que dormia na morte, a fim de que a Igreja, verdadeira mãe dos viventes, fosse figurada por Eva, saída de sua costela (De anima, 43; P. L., 723 B)” (apud Daniélou, 1966, p. 71). Resulta, pois, que Adão e Eva sejam uma profecia de Cristo e da Igreja. Já estavam, Cristo e a Igreja, desde o começo do mundo, levados a seu termo, previstos para a consumação dos tempos. Nas palavras do cardeal, a significação do método tipológico está resumida nas seguintes palavras: “Este método consiste em voltar a seu contexto um texto citado pela escritura como tipo e dar um sentido de figura a todo o conjunto” (Daniélou, 1966, p. 79). Este é um caminho que Daniélou considerou seguro, a partir da observação feita à metodologia dos Padres, da exegese tipológica.
Passemos à segunda. Nenhum tema se repete tanto nos escritos dos Padres da Igreja, diz Daniélou, como o simbolismo da Arca de Noé. A arca é figura da Igreja que salva os homens do juízo de Deus manifesto por meio da água. O Dilúvio é abordado pelos profetas como um acontecimento passado, ocasião em que Deus decidiu exterminar a raça humana devido a seu pecado, e concedeu clemência apenas a um escolhido, que foi instrumento condutor de uma nova geração de homens.
Ao mesmo tempo em que os escritos proféticos recordam o significado do Dilúvio de Noé, eles alertam para uma destruição futura sob um novo cataclismo. Apesar disso, o foco dos profetas, para Daniélou, está mais centrado na questão do povo de Israel – submerso que estava na opressão pagã – do que na figura escatológica da inundação. Para os autores apocalípticos, tanto judeus, e.g., Enoc, como cristãos, e.g., João, a dimensão nacional e histórica do Dilúvio é substituída pela dimensão transcendente, e uma catástrofe cósmica ganha lugar numa ocasião em que alguns poucos sobreviverão, tal como prefigurado na época de Noé. Isto é o cerne da tipologia diluviana. Aplicada ao advento de Cristo, a tipologia encontrará inúmeros elementos, que, em seu percurso no discurso da tradição cristã, farão de Jesus o primogênito da segunda criação. E a tipologia escatológica será, desse modo, transformada em cristológica, ou seja, toda a leitura passa a ter Jesus por chave hermenêutica. Até o final dos tempos, dentro do período que começou com a primeira vinda de Cristo e que terminará com a parúsia, os homens têm a possibilidade de converter-se e purificar-se, visto que a água do Dilúvio é figura da água do batismo. Noé é tipo de Cristo. Salvo de uma catástrofe universal, foi chefe de uma nova humanidade e agente da primeira aliança. Igualmente, Jesus torna-se o centro de uma verdadeiramente nova humanidade e de uma nova e verdadeira aliança. Uma vez que na arca de Noé oito pessoas se salvaram, a saber, Noé e sua esposa, seus três filhos com as respectivas esposas, é porque o número oito corresponde ao oitavo dia, aquele que sucede o sábado – o domingo – quando Jesus ressuscitou. Representa ainda, como primeiro dia da semana, o início de uma nova era, a eternidade que se sucederá a todos os tempos. Por fim, assim como Noé é tido como resto da raça de Adão, Jesus é resto da raça de Israel. E arca é tipo da Igreja, e sua madeira é figura da cruz. Se no Dilúvio salvaram-se apenas aqueles que estavam sobre a arca, no juízo final só se salvarão aqueles que estão inseridos na Igreja. Mesclam-se, na exegese tipológica do dilúvio, analogias escatológica, cristológica e eclesial.
Passemos à terceira. Na tradição rabínica, diz Daniélou, Abraão ocupa um lugar consagrado, e muito se fala dessa sua posição de destaque nos Evangelhos. No entanto, ainda que Abraão seja um grande modelo de fé na literatura cristã antiga, raramente é tomado como profecia figural. No plano da tipologia, o maior destaque é dado a seu filho Isaac, pelas condições de seu nascimento, que se deu pela promessa e intervenção divinas, e também pelo episódio do sacrifício em que sua vida esteve envolvida. A interpretação tipológica desses dois aspectos, diferentemente das duas temáticas anteriores, não se constitui no Antigo Testamento, ela começa a se organizar apenas a partir do Novo Testamento.
O nascimento de Isaac é, segundo a Epístola aos Gálatas (3, 16) de Paulo, figura de Cristo. O apóstolo, quando faz essa afirmação, recusa a interpretação usual dada à palavra descendência no episódio bíblico em que Deus pede a Abraão para que olhe para os quatro pontos cardeais e vislumbre toda a terra que ele e sua descendência herdarão (Gn, 13, 14-16). Paulo argumenta que a palavra descendência está no singular e refere apenas Isaac, e não no plural, como é comumente entendida, e remetendo, portanto, a todo o povo que daí descendeu. Sendo Isaac entendido como figura de Cristo, a promessa de Deus à descendência de Abraão está destinada a Cristo. Essa interpretação se alarga e se faz mais clara quando o apóstolo refere a origem dos dois filhos de Abraão, um nascido da serva e outro nascido de mulher livre. Essas duas mulheres, Agar e Sara, seriam correspondentes aos dois Testamentos, ou, como posteriormente retomou-se, à Sinagoga e à Igreja. E o filho menor, Isaac, substituiria o filho maior, Ismael, assim como o povo cristão teria vindo para substituir o povo judeu.
Os Padres da Igreja retomam, explicam e exemplificam à exaustão esse episódio. Entre os exemplos, temos que o oferecimento de Isaac e a posterior libertação de tomá-lo em sacrifício correspondem, respectivamente, à Paixão e à Ressurreição de Cristo. A correspondência entre os eventos diz que a lenha que Isaac carregou é alusão à cruz carregada por Cristo. Não tendo se cumprido o sacrifício em Isaac, filho amado de Abraão, imolaram um cordeiro, para mais tarde cumprir-se o sacrifício em Jesus Cristo, o cordeiro crucificado, filho amado de Deus. E mais: Abraão entregou a Deus um filho mortal que não havia de morrer; por conseguinte, Deus, pelos homens, entregou à morte Jesus, seu filho imortal. E não esqueçamos que a interferência divina deu-se na esterilidade de Sara, mãe de Isaac, assim como na virgindade de Maria, mãe de Jesus; o milagroso nascimento de mãe estéril prefigura a maternidade virginal.
Há também referências tipológicas importantes com relação ao casamento dos patriarcas. Diz Daniélou, retomando concepções patrísticas, que estes estão traspassados de sentidos misteriosos. Por exemplo, os casamentos de Jacob figuravam o que em Cristo havia de se cumprir, sendo que a primeira esposa – Lia – era tipo da sinagoga, e a segunda – Raquel – tipo da Igreja. No casamento de Isaac com Rebeca, a esposa figura a Igreja e o marido figura Cristo. Ou ainda, o casamento de Isaac com Rebeca figura a união de Cristo com a Igreja.
Dando seqüência, o quarto tema refere a tipologia de Moisés e do Êxodo. Esclarece o autor que “os Padres da Igreja não se cansaram de apresentar a vida de Cristo e da Igreja como cumprimento das figuras do Êxodo” (idem, 1966, p. 202). No entanto, a recordação do cativeiro e do Êxodo do Egito é tomada como fundamento de novas esperanças já pelos profetas bíblicos, entre eles Isaías e Jeremias, que anunciam um novo ou segundo Êxodo, assim como anunciavam um segundo cataclismo figurado no Dilúvio de Noé. O quadro futuro, delineado pelos profetas, é formado pelas etapas sucessivas da saída do Egito: passagem do mar, travessia do deserto, rocha de águas vivas, coluna de nuvem e nova aliança. Ou seja, foram os próprios profetas que “expuseram uma primeira exegese do êxodo, mesmo em meio ao Antigo Testamento. (...) é nos profetas onde brota o princípio da tipologia. Uma vez que consideraram o Êxodo como promessa que não se havia cumprido, tinham em mãos, diz Daniélou, “todos os elementos necessários para criar a tipologia do Novo Testamento” (idem, 1966, p. 206). Mesmo os judeus da época de Cristo – aqueles que continuavam a tradição profética –, afirma Daniélou, utilizavam os elementos do Êxodo para tratar da salvação esperada em tempo futuro. Os escritores do Novo Testamento seguem as mesmas pegadas tipológicas dos profetas, com a diferença de que não projetam para o porvir a realidade figurada no Êxodo, pois, segundo eles, ela já se cumprira em Cristo. Aqui, então, podemos observar uma conexão bastante importante que, descrita nas palavras do autor, constitui uma “relação orgânica que une a tipologia e a profecia, typos e logos. Não são coisas distantes, e sim que a profecia é uma interpretação tipológica da história” (idem, 1966, p. 207). Jesus passa a ser um novo Moisés. Ele legisla, no Sermão da Montanha, a Nova Lei, contrapondo os preceitos dessa Nova Lei aos preceitos do Decálogo. Além disso, podemos observar que andou sobre as águas, assim como Moisés atravessou as águas do mar; e repartiu o pão em lugar da repartição do maná; e enviou setenta discípulos para propagar sua mensagem, assim como Moisés elegeu setenta anciãos para repartir o peso do povo. E como lá não se creu em Moisés, aqui se perseguiu Jesus. Daniélou chega à conclusão de que todos os escritores neotestamentários apresentam o mistério de Cristo como sendo uma prolongação e superação da história de Israel no tempo de Moisés. As palavras dos profetas se prestam, muito a propósito, às escritas hagiográficas do Novo Testamento, encarregadas de demonstrar que, em Cristo, o plano divino se realizou, conforme havia sido profetizado.
A tipologia do Êxodo ocupou, portanto, um lugar de destaque na doutrinação feita pelos apóstolos que passam a ser, segundo tal modelo, os representantes da nova Israel, que, em número de doze, correspondem exatamente às doze tribos. São Paulo, citado por Daniélou, recordava, em suas pregações aos judeus, que seus pais haviam atravessado o mar e haviam sido batizados por Moisés, e isso figurava o batismo cristão. A água desempenha, então, um papel de salvação. Assim como o povo judeu livrou-se e salvou-se do tirano egípcio pela travessia das águas, o cristão liberta-se do pecado e salva-se das forças do mal pelo ritual das águas. O Faraó figura, em tal contexto, o diabo, e Moisés figura Cristo.
2 INTRODUÇÃO À TIPOLOGIA BÍBLICA
O episódio do Êxodo, é, como podemos ver, tipologicamente profícuo. Com todos os seus elementos foram criadas relações figurais: mar com a piscina batismal; coluna de nuvem com Espírito Santo; Moisés com Cristo; cajado com a cruz; Faraó com diabo; egípcios com demônios; maná com a multiplicação dos pães; a água que saiu da rocha com o sangue que saiu de Cristo; os setenta anciãos com os setenta discípulos, entre outras.
Por fim, temos a tipologia do ciclo de Josué, que se diferencia das que até aqui foram apreciadas porque não é uma continuidade, como as anteriormente citadas, da tipologia judaica. Josué, segundo o estudo de Daniélou, ganha um lugar de destaque no cristianismo que não lhe foi oferecido no judaísmo. O motivo alegado seria porque foi reservado por Deus a Josué, e não a Moisés, o privilégio de fazer entrar o povo judeu na Terra Prometida. Essa tipologia, lembra o autor, parece estar ligada ao começo do conflito entre cristianismo primitivo e judaísmo e é, portanto, posterior aos escritos do Novo Testamento. Desenvolve-se em oposição à haggada6 judaica, embora conserve o sistema judaico de substituição, em que Josué passa a substituir Moisés, assim como Jacob substituiu Esaú, ou Isaac substituiu Ismael. Josué é, segundo tal condição, figura de Cristo, que é quem nos introduz, diz o autor, na verdadeira Terra Prometida.
Para demonstrar uma relação, de modo sintético, dos elementos dessa tipologia, cujos aspectos são bastante intrincados, Daniélou toma as palavras explicativas do teólogo Tertuliano:
Dissemos que (o nome de Jesus imposto ao filho de Nun) antecipava a figura do que havia de vir (figura futuri). Claro, como Jesus Cristo é quem havia de introduzir ao segundo povo (a nós, nascidos nos desertos do mundo), na Terra Prometida, que jorra leite e mel (digo na Vida Eterna que supera a tudo), e como isso não nos havia de proporcionar Moisés (a observância da lei), e sim Jesus (ou seja, a graça do Evangelho, depois de haver sido circuncidado com facas de pedras, digo com os preceitos de Cristo, pois a pedra é Cristo), por isso, o homem convenientemente aparelhado para ser imagem desse mistério, havia de ser quem primeiro levasse este nome, chamando-se Jesus” (Adv. Marc., III, 18; Adv. Marc., IV, 7) (apud Daniélou, 1966, p. 313).
No nome de Josué figurava o nome de Jesus. E a sucessão de Moisés por Josué-Jesus é símbolo da sucessão da Lei pelo Evangelho. E tal como Deus fez seu povo atravessar o Mar Vermelho conduzido por Moisés, fez também com que atravessasse o Rio Jordão conduzido por Josué. Esta última travessia, assim como a primeira, passa mais uma vez a figurar, nas exegeses apostólicas e patrísticas, o sacramento do Batismo. E as doze pedras, que Josué (4, 1-8) rogou que se levantassem do rio, prefiguravam os doze apóstolos, ministros do batismo.
Depois de atravessar o rio Jordão, Josué está frente a Jericó, a Terra Prometida. Jericó foi transformada em ruínas depois de conquistada, com exceção da casa da meretriz Rahab. Rahab, mediante um acordo de colaboração com os conquistadores, foi salva da destruição. Tendo sido salva, juntamente com todos que em sua casa permaneceram, Rahab prefigura, tal como a arca de Noé, a Igreja. Daí a origem do axioma: “fora da Igreja não há salvação”7. Há, nessa tipologia eclesiológica, uma sucessão tipológica que liga o episódio de Oséas e sua esposa infiel com Rahab e também com Maria Madalena. Todas prefiguram a Igreja, cuja imagem, desprendida de prostitutas, se justifica pelo fato de no Antigo Testamento fornicação ser sinônimo de idolatria. A Igreja é também chamada de meretriz se pensada como oriunda da infidelidade gentílica, e, como tal, passa a oferecer a salvação aos pecadores e idólatras.
Jericó caiu ao barulho das trombetas tocadas pelos sacerdotes, e toda a terra tremeu. Este tema escatológico da caída de Jericó e a sobrevivência da Igreja como antitipo de Rahab, explica o adiamento do final dos tempos até que a plenitude das nações ingresse no corpo doutrinário e social instituído pelo cristianismo. Esta é a missão do presente. Cristo venceu o mal substancialmente e cada cristão o vence individualmente através do batismo, purificador das “imundícies”.
O livro de Josué é uma importante cadeia de figuras que remete a futuras realidades espirituais do cristianismo. Tanto em sua história, como na do Dilúvio, como também na da saída do Egito, encontramos a mesma teologia bíblica: um juízo de Deus que destrói os pecadores, que os salva pela água e que há, como podemos ver nos três casos, uma eleição de alguém como instrumento de salvação, o que demonstra a “fidelidade de Deus em seu modo de operar, último fundamento da tipologia! (Daniélou, 1966, p. 376).
perar, último fundamento da tipologia! (Daniélou, 1966, p. 376). Assim temos configurado o quadro tipológico do tratamento dado aos mistérios ou sacramentos das primeiras autoridades da Igreja9. Vale dizer que a relação estabelecida entre os tipos e os antitipos, conforme encontrada nos diversos Padres, nem sempre resulta em analogias dessa categoria. Além de todo método interpretativo gozar, por contingência, de expressão pessoal – ainda que neste caso a interpretação obedeça ao rigor de uma doutrina – a TB muitas vezes foi desarticulada de suas formações paleo testamentárias sob o propósito de, entre outros possíveis motivos, defender-se dos gnósticos, ou dos que tinham uma orientação doutrinal considerada herética. Feito esse percurso introdutório, vejamos adiante as implicações da TB na relação do cristianismo com o judaísmo.
3 PRÁTICAS TIPOLÓGICAS E FORMAÇÃO DO CÂNONE CRISTÃO - Definições preliminares
É fato reconhecido que a escrita tipológica não se restringe ao cânone cristão. Essa prática já era constitutiva da Escritura sagrada do judaísmo: “Os profetas (...) foram os primeiros a usar a tipologia em seu sentido pleno” (Davidson, 1981, p. 62). Havia uma retomada de elementos antigos da tradição na qual se reanunciava que algo já anteriormente aventado devia se consumar. As palavras que seguem, atribuídas ao profeta Jeremias, podem exemplificar essa relação estabelecida entre algo que foi dito no passado, que ele relembra, e que deverá se cumprir no futuro: “Eis que chegarão dias – oráculo de Javé – em que eu farei uma aliança nova com Israel e Judá. Não será como a aliança que fiz com seus antepassados, quando os peguei pela mão para tirá-los da terra do Egito...” (Jr, 31, 31-32). Em outros termos, Jean Daniélou diz: “a profecia é uma interpretação tipológica da história” (1966, p. 207), ou seja, a partir do momento contemporâneo o profeta espelha como será o futuro.
Como prática hermenêutica, a TB acabou associada ao mundo cristão pela importância que ganhou dentro dos escritos neotestamentários, os quais foram realizados como expansão e continuidade dos escritos sagrados do mundo judaico. Dentro dessa perspectiva, quando se fala de TB, remete-se à Bíblia dividida em duas partes – Antigo Testamento e Novo Testamento – mas que constituem um único livro10. O discurso tipológico neotestamentário não ganha seu sentido a não ser que seja colocado como resposta às profecias veterotestamentárias, independentemente de considerarmos se essa prática enfatiza os interesses de ruptura ou de integração entre as duas partes testamentárias. Há uma relação de fluidez que se estabelece entre a profecia e a tipologia: a promessa profética, projetada para o futuro, se abre para a identidade cristã. As predições contêm processos preparatórios de recepção, sinalizam que algo deverá acontecer, e lançam para frente aquilo que o Novo Testamento vai acolher como tendo sido prognosticado. Segundo esse processo de entrelaçar os tipos e os antitipos, de diferentes épocas, faz-se no novo dito uma absorção dos elementos antigos e tradicionais. Fundidos no novo, eles o legitimam. Atualizados, muitas vezes se ampliam e atendem às exigências do novo contexto histórico.
Sob essa perspectiva, observemos inicialmente como a TB se apresenta na leitura cristã das profecias judaicas (2.1.1), para, em seguida, contemplarmos sua presença na composição dos Evangelhos (2.1.2), enquanto modelo verbal de composição do cânone relativo tanto à biografia como aos enunciados atribuídos a Jesus.
2.1.1. Profecias judaicas
Os profetas e os escritos a eles atribuídos (Neviim) formam a segunda das três partes da Bíblia hebraica (Tanakh). São antecedidos pelo Pentateuco (Torah) e seguidos pelos Escritos (Ketuvim), completando, assim, uma estrutura triádica. Apesar de considerados homens especiais para carregarem a mensagem divina aos homens comuns, os profetas não ocupam, na Bíblia hebraica, posição primeira nesse papel de intermediação, pois a nenhum deles foi dado o status de importância que se deu àquele que é considerado o maior dos profetas, Moisés, que assim é caracterizado em função de ter sido o único a falar diretamente, face a face, com Deus.
Moisés, apesar de igualmente ser nomeado como profeta, não produz mensagem que participe do conteúdo dos livros proféticos. Ele é mensageiro privilegiado da primeira parte da tríade bíblica, a Torah, que é de fundamental importância na tradição doutrinária do judaísmo e cuja revelação é tida como superior às demais revelações proféticas. Aos escritos proféticos não se atribui um caráter normativo como é atribuído para o Pentateuco; os profetas apenas rememoram, de modo geral, a Lei. E se rememoram, é porque ela lhes é anterior.
Comparativamente, nos próprios conteúdos bíblicos se pode observar uma distinção de valor a favor daquilo que é mais antigo. Trata-se da aplicação da lei da antiguidade ou da precedência (cf. Ska, 2003, p. 180). Sob essa forma de argumentação, uma cidade é superior porque foi fundada antes que outra, um culto é superior porque foi professado antes que outro, as alianças com Noé e Abraão ganham importância maior que a do Sinai; daí, conseqüentemente, o mérito dado ao relato da criação, onde o Deus de Israel ocupa a posição de criador único do Universo, e, portanto, o primeiro (cf. Ska, 2003, p. 181). O próprio pronunciamento atribuído a Deus traz marcas do valor de sua antiguidade quando, em sua manifestação a Moisés, identifica-se como sendo o mesmo e o de sempre de seus antepassados, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, os patriarcas.
A deferência ao precedente ganha continuidade nos escritos que mais tarde viriam a se constituir e se chamar de Novo Testamento. E o mecanismo tipológico serviu de ferramenta eficiente para atribuir, paradoxalmente, ao Novo, as características distintivas de valor que, sob o aspecto da anterioridade, pertenceriam ao Velho. Vejamos alguns exemplos.
No Novo Testamento, especificamente nos escritos de Paulo, podemos encontrar expedientes que atribuem caráter diferenciado e superior ao mais antigo, quando se argumenta que “a fé precede a lei porque Abraão veio antes de Moisés. A precedência cronológica implica, para o Apóstolo e também para seus destinatários, uma qualidade superior – o mais velho vale mais” (Ska, 2003, p. 179). Mas dizer que a fé precede a lei é fazer um espelhamento tipológico: Abraão está para o cristianismo, assim como Moisés está para o judaísmo. As motivações dessa comparação justificam-se na fé que Abraão teve em Deus quando levou Isaac ao sacrifício e a fé nos que acreditaram em Cristo como encarnação de Deus.
As próprias palavras que circundam os diálogos atribuídos a Jesus que, quando quer falar de si, diz para os judeus: “Abraão, o pai de vocês, alegrou-se porque viu o meu dia. Ele viu e encheu-se de alegria. Então os judeus disseram: ‘Ainda não tens cinqüenta anos, e viste Abraão?’ Jesus respondeu: ‘Eu garanto a vocês: antes que Abraão existisse, Eu Sou’” (Jo, 8,56-58). Nessa acepção, a existência de Jesus antecede não apenas à de Abraão, mas identifica-se verbalmente com o criador quando utiliza as palavras “Eu sou”.
Com relação à forma da escrita dos profetas, há que se pensar em termos institucionais. Os escritos proféticos bíblicos representam apenas alguns poucos profetas; no entanto, a própria Bíblia hebraica informa que eles existiam em abundância, espécie de corporação que chegava a contar com centenas deles, como podemos observar nessas passagens bíblicas: “Então o rei de Israel reuniu seus profetas, cerca de quatrocentos homens...” (1Rs, 22, 6), ou “Entrando na cidade, você topará com um grupo de profetas descendo do lugar alto acompanhados de harpas, tamborins, flautas e cítaras; eles estarão em transe” (1Sm, 10, 5). Fala-se também em convento de profetas (1Sm, 19, 18) ou comunidade de profetas (1Sm, 19, 20). Sob essa consideração, para fazer a transformação da mensagem divina em código de natureza humana, havia um grande empenho: “[o poeta] extrai[a] o poema ou o oráculo da pedreira da linguagem” (Schökel, 1992, p. 63). As mensagens sagradas revelavam-se pela palavra humana, no entanto, não utilizavam sua forma comum de expressão. O processo de recepção da mensagem era indireto – ou seja, chegava ao profeta por meio de visão, transe ou sonhos e necessitava de decodificação. O profeta – προφήτης (profétes) –, aquele que falava em lugar de –, infundido de elevação divina, produzia, em termos concretos, uma elaborada linguagem literária, para exprimir algo em nome Deus. Ainda que fosse, em geral, um homem do povo, cuja fala advém da cultura popular, sua linguagem laboriosa – lógica e poética –, em língua hebraica, era produzida em meio às escolas e tradições de 27 determinadas instituições religiosas. Assim sendo, o profeta “emprega[va] formas tradicionais, gêneros conhecidos, esquemas convencionais; toma[va] de empréstimo e dá[va] passagem a reminiscências; transforma[va] e adapta[va] cânticos tradicionais ou cria[va] outros à imitação deles” (Schökel, 2004, p. 16). Ou seja, “os profetas não fala[va]m de improviso, eles se mostra[va]m ligados a determinadas tradições” (Rad, 2006, p. 753). Tal linguagem elaborada, provida de recursos retóricos para impressionar e disseminar a mensagem, tornou-se solo fecundo para os escritos posteriores, tanto para escritos neotestamentários, como para escritos cristãos de há dois mil anos.
A variedade de gêneros literários ou formas literárias, utilizadas nas pregações proféticas, são, segundo Sicre (2002, p. 142 e ss.), provenientes da sabedoria tribal ou familiar (exortação, interrogação, parábola, alegoria, enigmas, bênçãos e maldições, comparações); do culto (hinos, orações, instruções, exortações, e, talvez, os oráculos de salvação); da esfera judicial (discurso acusatório, requisitória, formulação casuística, precatória); da vida diária (cantos de amor, de trabalho, de morte, à espada). A nenhum desses gêneros elencados, o autor considera como sendo típico dos profetas. O gênero específico dos profetas, para Sicre, “é o oráculo de condenação, dirigido a um indivíduo ou a uma coletividade” (2002, p. 146). Quando se dirige a um indivíduo, seus elementos de composição são: introdução, acusação e anúncio de castigo. Uma grande parte dos oráculos de condenação individual se ajusta a esse sistema de formulação, outros sofrem pequenas modificações, sendo que as modificações podem se intensificar até produzir uma criação literária identificável, cujos elementos, em geral colocados em poucas palavras e de modo objetivo, dilatam-se em frases e ambientações mais detalhadas. Para a condenação feita à coletividade, ou povo, ou nações estrangeiras, os elementos básicos são a fórmula do mensageiro referindo à fala de Deus e não a do profeta, a acusação genérica, a acusação específica, o anúncio de castigo e novamente a fórmula que finaliza, retomando a afirmação inicial de que quem fala é o Senhor. A ordem estrutural, vez por outra, se modifica, invertendo a posição dos elementos, prescindindo de algum deles, ou ampliando o esquema primitivo. Os oráculos de condenação, em sua variante principal e também mais freqüente, têm uma curiosa fórmula introdutória: os “ais” proféticos: “Ai daqueles que...”, “Ai dos que...”, “Ai de vocês...”, “Ai de quem”, etc. Em geral, os oráculos de “ai” possuem uma acusação e um castigo; são praticamente exclusivos dos livros proféticos, com poucas exceções. Os “ais”, costumam aparecer em série, ou seja, duas ou mais vezes (cf. Sicre, 2003, p. 152), conforme se pode observar em Isaías: “Ai dos que arrastam a culpa com cordas de bois (...)! Ai dos que dizem que o mal é bem (...)! Ai dos que são sábios a seus próprios olhos (...)! Ai dos que são fortes para beber vinho (...)” (Is 5, 18-25)15. Do mesmo modo, prosseguirão pela redação Evangelhos. Em Lucas, por exemplo, temos: “Mas, ai [ouvai.] de vocês, os ricos, porque já têm a sua consolação! Ai de vocês, que agora têm fartura, porque vão passar fome! Ai de vocês, que agora riem (...)! Ai de vocês, se todos os elogiam” (Lc 6, 24-26).
Ainda que as palavras proféticas veterotestamentárias tenham tido constante permanência no apreço popular, tais palavras se constituíram apenas entre os séculos XI e V a.C. Encerraram-se a partir do quinto século. Passou-se a esperar, a partir de então, a vinda de um grande profeta. Essa vinda foi potencializada tipologicamente no Novo Testamento, graças às passagens bíblicas que continham os seguintes dizeres: “Demoliram o altar e puseram as pedras no monte do Templo, num lugar conveniente, até que aparecesse um profeta e resolvesse o caso” (1Mc 4, 45-46); ou: “Os sacerdotes e os judeus resolveram, portanto, considerar Simão como governante e como sumo sacerdote para sempre, até que surgisse um profeta legítimo” (1Mc 14,41). Delas, diz-se que decorreram duas disposições. A primeira deposita esperanças em um profeta de moldes mosaicos, em função das palavras do Deuteronômio: “Do meio dos irmãos deles, eu farei surgir para eles um profeta como você [Moisés]. Vou colocar minhas palavras em sua boca, e ele dirá para eles tudo o que eu lhe mandar” (Dt 18,18); a segunda, baseada nas palavras finais do Livro de Malaquias, contava com a volta de Elias: “Vejam! Eu mandarei a vocês o profeta Elias, antes que venha o grandioso e terrível Dia de Javé” (Ml 3,23), (cf. Sicre, 2002, p. 334).
Algumas análises dos discursos proféticos dizem que houve uma progressão da esperança de salvação veterotestamentária, aquela que esperava por uma intervenção divina a favor do povo de Israel, que passou a servir de apoio ou justificativa às interpretações bíblicas feitas ao Antigo Testamento, pelos que naquele momento se empenhavam em difundir a nova religião cristã. É a doutrina escatológica, do juízo e da salvação, que, segundo Dingermann (2004, p. 399), começa com uma reconsideração feita pelo profeta Amós sobre as antigas e permanentes esperanças de salvação de Deus a Israel. Ele anunciou que Deus, além de julgar as nações pagãs, iria julgar também o povo escolhido. Daí em diante, “quanto mais claro se torna para os profetas da época seguinte que Israel, por causa de sua infidelidade, está maduro para o juízo divino e deve perecer, tanto mais a escatologia se torna o tema dominante de sua mensagem” (Dingermann, 2004, p. 399). Desse modo, conjuntamente com as idéias de juízo e 30 de destruição, surge a ideia messiânica de salvação. Isaías é o expoente máximo dessa mensagem de destruição e salvação, sendo que a salvação está reservada a alguns poucos, cerca de uma décima parte, segundo o pronunciamento do profeta.
Os demais profetas, anteriores ao exílio babilônico, são partidários desse mesmo ponto de vista e “também para eles o juízo e a salvação constituem o ponto central da mensagem, mas não atingem a amplitude de dimensões cósmicas das profecias de Isaías” (idem, 2004, p. 400). Com a destruição dos reinos de Israel e de Judá, seguidos do exílio babilônico, as profecias passam a apostar que, uma vez destruídos e julgados, a salvação é eminente: “a fé profética vê em um futuro muito próximo a vinda de Deus para salvar Israel e a esperada nova criação, a irrupção, portanto, das ‘éschata’ (grego), isto é, das últimas coisas” (idem, 2004, p. 401). Essa escatologia, presente em Ezequiel e no Dêutero-Isaías, diz, em suma, que: “o Israel desterrado retornará, depois de um êxodo maravilhoso, para viver independente no reino restaurado” (idem, 2004, p. 402). No entanto, apesar do retorno do exílio, a nova realidade não era o que se esperava, e os discursos proféticos posteriores acabam por integrar à esperança escatológica o advento messiânico e/ou a realização das esperanças em um mundo futuro, pós-apocalíptico, orientados em sentido transcendental. Temos, então, que “existe seguramente um nexo incontestável entre a profecia e a apocalíptica. Muitos traços característicos da visão apocalíptica surgiram de um desenvolvimento do pensamento e dos pronunciamentos proféticos” (idem, 2004, p. 423).
A análise de Sicre, que trabalha comparando exaustivamente uma série de estudos sobre profecias bíblicas, observa que, diferentemente do que tem se propagado desde sempre, os profetas não anunciam a vinda do Messias. Segundo o autor, os textos que ele categoriza como estritamente messiânicos são apenas “Is 7, 10-17 (especialmente na tradução grega dos Setenta) e Zc 9, 9- 1019” (Sicre, 2002, p. 494). Os demais, a grande maioria, ou estão se referindo ao um rei concreto, ou anunciam a restauração da dinastia davídica, ou tratam de uma época de salvação e de nova aliança. Esses textos ganharam, pelo uso, diversas nuances de messianismos, pois “foram relidos e utilizados [por diversos grupos judeus, entre eles os primeiros cristãos] para descrever a pessoa e a obra do salvador futuro e decisivo, o ‘Messias’” (idem, 2002, p. 495). Em processo continuado de releitura, a adoção dos discursos proféticos pelo Novo Testamento renovou velhas interpretações. Novos sentidos foram se sobrepondo e artifícios engenhosos foram a eles se incorporando. Todo esse conjunto de práticas, sob amplo ponto de vista, acabou por ser paradigmaticamente compreendido: “os cristãos esquadrinharam a Bíblia hebraica em busca de referências a Cristo, compilando-as em diversos comentários e coleções. Os profetas de Israel passaram a ter seu alvo e seu fim em Jesus” (Pelikan, 2000, p. 26).
Jesus, também chamado de profeta, “não deixará uma única palavra escrita” (Sicre, 2002, p. 176). Foi aos escritos neotestamentários que se atribuiu a estrita tarefa de ter registrado suas palavras e sua doutrina. Não fosse o Novo Testamento, quase nada se saberia a esse respeito. E ainda que se afirme que o Evangelho neotestamentário seja único em seu gênero – que se presta apropriada e unicamente ao cristianismo, que foi redigido por escritores sem habilidades artísticas, que não havia uma preocupação maior em esmerar-se como a literatura da época, que a preocupação centrava-se apenas em transmitir a boa nova – sua mensagem não se constituiu de improviso. Ela se construiu em resposta às fórmulas proféticas, mantendo-se no caminho da tradição, ganhando delas a legitimação, reivindicando sua antiguidade, apropriando-se e ao mesmo tempo transgredindo seus conteúdos, e, assim sendo, “preencheu a sombra”, tal como se costuma ver expresso nas exegeses que têm se utilizado da TB.
2.1.2. Evangelhos e epístolas cristãs
Nos tempos antigos, muitas vezes e de muitos modos Deus falou aos antepassados por meio dos profetas. No período final em que estamos, falou a nós por meio do Filho. (Hebreus 1, 1-2) Há um evidente destaque dado aos livros proféticos dentro do Cristianismo. Especialistas da área (cf. Sicre, 2002, p. 21) o demonstram estatisticamente com o resultado comparativamente maior do número de citações presentes no Novo Testamento e na compilação da Lei oral (Mishna) feita pelo judaísmo rabínico, ambos organizados durante os dois primeiro séculos da Era cristã: “na Mishna, a cada citação dos profetas correspondem seis da Tora. No Novo Testamento a proporção é de uma por uma” (Deist apud Sicre, 2002, p. 21). Essas palavras atribuídas a Deus, transmitidas aos profetas, foram registradas, como já dito anteriormente, apenas ao redor do século IX a.C., com Oséias, até o século V a.C., com Malaquias. Daí em diante, começou a se tornar menos freqüente, consonantemente ao que se registra na literatura intertestamentária do início do séc. I a.C.: “Israel caiu numa tribulação tão grande, como nunca tinha havido, desde que os profetas desapareceram” (I Mc, 9, 27). Nos próprios escritos proféticos há menções da provável interrupção dos atos de proferição: “Dias virão - oráculo do Senhor Javé - em que vou mandar a fome sobre o país: não será fome de pão, nem sede de água, e sim fome de ouvir a palavra de Javé” (Am, 8.11).
No entanto, apesar da representada escassez da transmissão das mensagens divinas, as promessas transmitidas pelas palavras proféticas, somadas aos demais prenúncios que participam da Bíblia Hebraica, vieram a ocupar, muitos séculos a frente de seus pronunciamentos, espaço substancial no registro da doutrina neotestamentária. E esse procedimento de reutilização das palavras proféticas, quando observado do ponto de vista do uso tipológico, deve ser visto não apenas como um movimento retrospectivo, em que a atualidade prefigurada quer se fundamentar pelo indício profético prefigurante. As relações tipológicas são também interpretadas como prospectivas: “Sabemos que todo o AT é de algum modo profecia que olha para o Novo” (Schökel, 1992, p. 67), subsumindo, desse modo, um movimento que projeta para o futuro a sua realização plena.
Esse posicionamento legatório, segundo uma perspectiva historicizante, é anacrônico em relação à época dos profetas. Tem sido sustentado, no entanto, em toda a matéria cristã, desde o tempo dos judeus-cristãos – que acreditavam em Jesus como sendo o Messias prometido –, até os estudiosos cristãos da atualidade, conforme exemplifica a afirmação de Schökel. Compreender e interpretar os eventos tipologicamente é servir-se de uma mirada ao passado judaico na qual não se está apenas afirmando, como de costume, que todo acontecimento cristão é realização dos preditos veterotestamentários, ou que Evangelho deve ser lido à luz dos profetas; concomitantemente, está se dizendo que a Bíblia Hebraica previa os acontecimentos que viriam a se registrar por escrito no Testamento cristão, gerando, desse modo, uma prévia correlação do Antigo para com o Novo Testamento.
Ainda que alguns estudiosos considerem que o primeiro escrito do Novo Testamento tenha sido a epístola de Paulo aos tessalonicenses (cf. Perego, 2001, p. 98; Bonneau, 2003, p. 63; Johnson, 2001, p. 35), outros, quando organizam a história da literatura cristã primitiva, determinam os quatro Evangelhos canônicos como sua parte mais antiga (cf. Kummel, 2004, p177). Originalmente de circulação anônima, e “com uma longa pré-história antes de atingir a forma escrita” (Johnson, 2001, p. 33), essas narrativas evangélicas, redigidas na segunda metade do século I d.C., tiveram, no segundo século, suas autorias atribuídas a Mateus, Marcos, Lucas e João, importantes autoridades apostólicas que podiam responder às reivindicações de uma tradição que se estabelecia e almejava dar continuidade à religião na qual se originara. A partir desses registros evangélicos, assim como do epistolário de Paulo, o Antigo Testamento passa a ser interpretado tipologicamente à luz do acontecimento cristão.
A prática da escrita do Novo Testamento, como já dissemos, era uma prática já própria do desenvolvimento dos livros da Bíblia Hebraica, em que a produção dos escritos mais tardios fazia uma retomada e refletia sobre os escritos de livros e tradições que lhes eram anteriores (cf. Trebolle Barrera, 1995, p. 511). Essa releitura possibilitava, na nova redação, que se reutilizassem, continuadamente, suas expressões e fórmulas de escrita; e possibilitava, ainda, que surgissem novas formas de compreensão dos velhos textos. Com esse procedimento, à medida que se constituíam, os livros bíblicos registravam em si mesmos sua auto-interpretação, ou a exegese intra bíblica:
Desde os começos da tradição bíblica a interpretação é parte integrante do seu texto. Os profetas inspiram-se em tradições antigas [do próprio texto bíblico] para interpretar os acontecimentos de sua época. Seus discípulos não fizeram outra coisa que continuar este processo interpretativo, criando e recriando o texto. (idem, 1995, p. 513).
Sob essa tradição, a composição da escrita evangélica, bem como o corpo da literatura intertestamentária e apócrifa, tomava como ponto de partida a Escritura hebraica e a reelaborava teologicamente. E aqui estamos, mais uma vez, frente ao procedimento de escrita que nos interessa trazer à luz: “Entre as múltiplas formas de reelaborações teológicas cabe destacar o tipo de interpretacao tipologica, que terá grande desenvolvimento no NT e no cristianismo” (idem, 1995, p. 517). Trebolle Barrera afirma que, na transmissão evangélica mais antiga, a qual intenta em seus escritos reproduzir as palavras de Jesus, “está bem enraizada a idéia de que Jesus considerava que as profecias bíblicas tinham cumprimento na sua pessoa e na sua missão escatológica” (1995, p. 599). Entre os procedimentos utilizados pelos evangelistas, quando queriam relatar as palavras de Jesus, está a citação da Bíblia judaica. Muitas vezes essa citação reproduz a versão grega do Testamento; outras vezes a versão original hebraica ou aramaica; outras vezes a citação “difere de todos os textos conhecidos” (Trebolle Barrera, 1995, p. 600) e, em outras, “não se duvidou em modificar o texto citado, para que Jesus pudesse aplicar a profecia a si mesmo” (idem, 1995, p. 601). Verificamos, então, que a relação com o cumprimento da profecia concedia aos redatores permissão de modificar o registro sagrado. Essas modificações ou desvios produzidos nos textos bíblicos são justificados pela fluidez textual da transmissão desses mesmos textos, quando da formação da tradição evangélica. Observemos como determinadas modificações feitas ao texto bíblico judaico ansiavam atender ao apelo que, a priori, deveria partir da constituição da escrita profética. No Evangelho de Mateus, que faz um amplo uso de citações do Antigo Testamento, temos: “Isso aconteceu para se cumprir o que foi dito pelos profetas: ‘Ele será chamado Nazareno (Mt 2, 23)’”. Segundo o que se pode pesquisar nos escritos proféticos, não há nenhuma predição que corresponda a essa citação. Trebolle Barrera diz que há um jogo com a palavra nazareno, nazir no hebraico, que envolve uma correspondência tipológica entre Sansão e Jesus (cf. 1995, p. 608). Nazir significa consagrado, cuja prática deixava os cabelos crescer por devoção. Sansão é o mais famoso nazir da Bíblia hebraica. Além disso, a palavra remete a alguém nascido ou que viveu em Nazaré. De todo modo, afirma Trebolle Barrera: “[essa citação] não corresponde a nenhuma passagem conhecida nos livros dos profetas” (1995, p. 608). A atribuição profética, aparentemente injustificada, abriga-se no efeito provocado pelos typos, onde tudo ganha um sentido plausível.
O procedimento de atribuir uma citação a uma fonte que não se conhece não é regra. O que é recorrente é a reelaboração da citação integrada às palavras do novo texto, e isso difere do modo judaico de citar utilizado na Mishna e no Talmude, onde a citação aparece apartada de seus comentários e interpretações.
A modificação do texto bíblico, por meio de citação, não se restringe unicamente aos registros evangélicos. A prática de citar de Paulo, considerado o mais importante missionário do cristianismo, também incorria em semelhante processo de alteração. Primeiramente, a presença das citações nas cartas atribuídas ao apóstolo é peculiar, pois elas participam apenas das redações que se dirigem à comunidade judaica (aos Romanos, aos Coríntios e aos Gálatas). O apóstolo sabe que os destinatários de suas proferições reconhecem a repetição das palavras sagradas, e esses ecos da tradição autenticam a novidade do conteúdo que ele leva à comunidade. Por esse mesmo motivo, as cartas dirigidas aos centros comunitários não judaicos (aos Tessalonicenses, aos Colossenses e aos Filipenses) dispensam tais referências citadas (cf. Trebolle Barrrera, 1995, p. 603), pois, fora de seu próprio meio, a retransmissão da palavra original não geraria a eficiência e a distinção necessárias ao bom desempenho do pregador.
Quanto às cartas paulinas, cujas transcrições de trechos bíblicos sofreram modificações, Trebolle Barrera assim as descreve: “num total de 93 citações, Paulo modifica o texto em 52 casos e reproduz o texto sem retoques em 37. Em 4 casos não é possível um juízo preciso” (1995, p. 603). Interessa-nos nesses dados que, nas mudanças, em sua maioria, “predominam claramente as de conteúdo. Somente em 15 trata-se de mudança estilística” (Trebolle Barrera, 1995, p. 604), ou seja, em geral, Paulo traz o sentido original do texto citado, amplia hermeneuticamente seu significado, mas a fórmula expressiva se mantém. Pela permanência da fórmula expressiva percebe-se, além da tradição teológica, a tradição literária, pois, apesar de se constatar a instabilidade nos registros escritos, as citações reproduzidas nas falas de Jesus não deixavam de utilizar e demonstrar que havia fórmulas introdutórias típicas para referir o conteúdo bíblico, e essas fórmulas eram retiradas de métodos exegéticos judaicos (cf. idem, 1995, p. 602). A prática de criar, por escrito, uma verdade sobre a vida e missão de Jesus, ainda que permeada de contradições e obscuridades, não poderia prescindir de enquadrar sua trajetória às profecias do Antigo Testamento. Parece ter sido essa a maneira encontrada para fazer a mensagem atingir seu destino: novos conceitos organizados segundo formas judaicas tradicionais.
Vejamos alguns exemplos do funcionamento dessa tradição literária nas narrativas evangélicas sinóticas, que justamente estão assim nomeadas em função da semelhança que exibem em sua estrutura e em seu conteúdo: “os Evangelhos sinóticos dão a impressão de serem compostos, em forma de mosaico, de material pré-formulado (...). Alguns episódios são narrados pelos três Evangelhos com exatidão literal muito semelhantes” (Vielhauer, 2005, p. 295). Uma, entre outras, das explicações dadas a essa semelhança é que os escritores dos Evangelhos teriam utilizado algum texto anterior como fonte, gerando uma conformidade literária entre o modelo e o objeto resultado. E esse texto anterior poderia ter sido também um sinótico. Por exemplo, “em Mateus se encontram 90% das matérias de Marcos” (idem, 2005, p. 301). Suposições à parte, tal procedimento de reformular o material na tradição é reutilizado a serviço da nova doutrina.
Observemos primeiramente algumas passagens do Evangelho atribuído a Marcos, onde se pode notar (J. Marcus apud Bonneau, 2003, p. 96) uma colagem literária de textos proféticos: Está escrito no livro do profeta Isaías: “Eis que eu envio o meu mensageiro na tua frente, para preparar o teu caminho. Esta é a voz daquele que grita no deserto: Preparem o caminho do Senhor, endireitem suas estradas!”. (Mc 1, 2-3)
Trata-se da abertura do texto do Evangelho. Essa abertura, no modo em que está apresentada, parece fazer crer que é uma recorrência unicamente feita aos escritos de Isaías20. No entanto, ela possui uma mescla de três passagens bíblicas, na qual podemos observar, ainda, um trecho em que as palavras reaproveitam os escritos do profeta Malaquias, para em seguida, se entrelaçar a um versículo do Êxodo. O procedimento, que relata acontecimentos que presumem as profecias da Escritura judaica, legitima, desse modo, a autoridade de Jesus mediante a utilização de grandes figuras ou passagens do Antigo Testamento.
4 PRÁTICAS TIPOLÓGICAS E FORMAÇÃO DO CÂNONE CRISTÃO
Quando Marcos descreve um milagre de Jesus, a escolha das palavras para fazer tal representação também se ajusta às indicações proféticas. Vejamos o versículo: “Então Jesus pôs de novo as mãos sobre os olhos dele, e ele enxergou claramente” (Mc 8,25). Esse ato corresponde à predição de Isaías: “Então, os olhos dos cegos vão se abrir (...)” (Is 35, 5). Ou, mais uma vez, através das palavras de Isaías: “(...) e se abrirão também os ouvidos dos surdos” (Is 35, 5), recuperadas na seguinte passagem de Marcos: “[Jesus] olhou para o céu, suspirou e disse: ‘Efatá!’, que quer dizer: ‘Abra-se!’ Imediatamente os ouvidos do homem se abriram (...)” (Mc 7, 34-35). Por fim, o evangelista enfatiza o preenchimento do predito repetindo as mesmas palavras, e as coloca na boca da multidão que acompanhava o acontecimento: “Estavam muito impressionados e diziam: ‘Jesus faz bem todas as coisas. Faz os surdos ouvir e os mudos falar.’” (Mc 7, 37). Com relação ao uso que esse Evangelho fez dos ditos proféticos, diz Bonneau: “ele os modifica segundo a necessidade e os adapta à sua comunidade” (2003, p. 112). Marcos não só retoma a proposição profética como mote tradicional, influência ou busca de legitimação nas grandes figuras do Antigo Testamento como também utiliza o modelo tipológico, de uma proposição veterotestamentária seguida por uma realização neotestamentária, para mostrar o acabamento perfeito daquilo que foi previsto.
O Evangelho atribuído a Mateus é quase que integralmente composto pela forma tipológica de narrar, ou seja, ao relatar sobre Jesus, ele o faz de modo que sua trajetória de vida cumpra as Leis e as profecias veterotestamentárias.
Reproduzindo a prática recorrente na Escritura, traça três genealogias de catorze gerações, começando de Abraão até David, de David até a deportação para Babilônia, e da Babilônia até José, que, junto de Maria, gerou Jesus. Essa genealogia é necessária, ainda que José não fosse o pai carnal de Jesus, para mostrar que Jesus cumpre a profecia de Isaias de que o Messias seria descendente da casa de David: “Do tronco de Jessé [pai de David] sairá um ramo, um broto nascerá de suas raízes. Sobre ele pousará o espírito de Javé (Is 11, 1- 2). Em seguida, Mateus relata a interferência do Espírito Santo no processo de concepção e a aparição de um anjo a José para explicar como se havia dado a gravidez sobrenatural de Maria, sem intercurso sexual. A conclusão do episódio é feita, então, convocando o assinalado profético: “Tudo isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta.” (Mt 1, 22). O profeta a que o texto se refere é, mais uma vez, Isaías, que proferiu por volta do século VII a.C. as seguintes palavras a Acaz, neto do rei de Judá: “ (...) o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que uma virgem conceberá, e dará à luz um filho, e será o seu nome Emanuel” (Is 7, 14). O texto atribuído a Mateus, escrito oito séculos à frente, fez-lhe acréscimo pequeno, porém muito significativo do ponto de vista tipológico: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, o qual será chamado Emanuel, que traduzido é: Deus conosco” (Mt 1, 23). As palavras evangélicas não estão apenas explicando ou traduzindo, como de imediato parece, o significado do nome Emanuel. O verbo methermeneuomenon (μεθερμηνευομενον) contém a ideia de hermenêutica, que tanto pode ser trasladado como “traduzir”, como também pelo seu sentido mais abrangente de “interpretar”. Na Vulgata, a tradução adotada é interpretatum. Assim sendo, Mateus estaria “interpretando”, por força do verbo utilizado, que Emanuel, para além de nomear alguém, se impunha em meio a eles, e a ação contida no nome deixava seu estado de latência para ser plena manifestação: dizer Deus conosco, ou Emanuel, é o mesmo que dizer Jesus Cristo está no meio de nós. Independentemente dos desdobramentos surgidos com relação a ter sido escrito em hebraico ou grego, o que nos importa é que o pequeno acréscimo, já no princípio da narrativa, invoca o potencial da profecia a se tornar ato.
O mesmo procedimento tipológico de narrar é repetido à medida que avança o relato sobre a vida de Jesus. Vejamos: há em Mateus, entre outras, uma série de três episódios de cura de doenças (cf. Mt 8, 1-16). Depois de narrados, ao seu final, encontramos as seguintes palavras de conclusão: “(...) curou todos os doentes, para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías: ‘Ele tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças’” (Mt 8, 16- 17), retomando, mais uma vez, o modelo promessa/cumprimento.
Se observarmos, em alguma passagem atribuída às palavras de Jesus, o modo peculiar que tinha de fazer seus discursos, com mensagens morais construídas por via indireta e analógica, encontraremos aí um modo de expressão também utilizado pelos profetas: “Tudo isso Jesus falava em parábolas às multidões. Nada lhes falava sem usar parábolas, para se cumprir o que foi dito pelo profeta: ‘Abrirei a boca para usar parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo’” (Mt 13, 34-35). Esta passagem de Mateus reproduz os Salmos (78, 2), mas o prenúncio de Deus, de que falaria em parábolas pela boca dos profetas já estava em Oséas: “Eu sou Javé, seu Deus, desde a terra do Egito. (...) Falarei aos profetas, multiplicarei as visões e, pela boca dos profetas, falarei em parábolas” (Os 12, 10-11).
Outros exemplos de TB aparecem com freqüência no conjunto do Evangelho de Mateus, com a mesma eficiência e com a necessidade de reafirmar os eventos neotestamentários como consolidadores das profecias que vinham de longa data; é um modelo apologético recorrente em Mateus, que remete seu destinatário à antiga Escritura: “tudo isso aconteceu para se cumprir o que os profetas escreveram (...)” (Mt 26, 56). Esse procedimento, de provar determinadas afirmações com citações bíblicas, acompanhadas por uma fórmula que diz que o evento cumpre uma profecia, é prática costumeira: “não é uma invenção de Mateus; é comum nos Manuscritos do Mar Morto e é encontrado também na literatura rabínica” (Vermes, 2007, p. 146), com a diferença de que o vínculo feito ao texto bíblico, pela exegese rabínica, não alterava o conteúdo das Escrituras para alcançar objetivos doutrinários. Mateus, segundo exemplifica Vermes 41 “sentia-se livre para torcer o sentido de uma passagem” (2007, p. 147), em nome de fazer a figura de Jesus cumpridora das profecias messiânicas.
No Evangelho atribuído a Lucas, a tradição literária está metalinguisticamente explicitada por meio de um prólogo, ou seja, há um texto preliminar de apresentação que abre o Evangelho, informando sobre o porquê, como e a quem veio relatar justamente, e mais uma vez, “os fatos que se cumpriram entre nós”, utilizando em sua escrita o mesmo mote que retoma registros que lhe eram anteriores:
Muitas pessoas já tentaram escrever a história dos acontecimentos que se passaram entre nós. Elas começaram do que nos foi transmitido por aqueles que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e ministros da palavra. Assim sendo, após fazer um estudo cuidadoso de tudo o que aconteceu desde o princípio, também eu decidi escrever para você uma narração bem ordenada, excelentíssimo Teófilo. Desse modo, você poderá verificar a solidez dos ensinamentos que recebeu. (Lc 1, 1-4).
Percebe-se uma organização diferenciada, cuja forma literária é tida como mais elaborada em relação aos demais evangelhos. Possivelmente tenha recebido influências da literatura grega e da cultura helenística, e tenha objetivado um público distante do judaísmo, da Palestina e da época de Jesus (cf. García- Viana, 2006, p. 183). No entanto, apesar do aparato formal e do contexto diferenciado, o evangelista dá continuidade às raízes veterotestamentárias, deslocando a perspectiva histórica da tradição, sobre a futura vinda do Messias, para a figura de Jesus – o centro do tempo de Israel – no qual a salvação se demonstra por completo.
Como exemplo de que Lucas também se valeu das narrativas proféticas do Antigo Testamento, há uma passagem nesse Evangelho, a respeito do costume do Nazareno de ensinar aos sábados. Lucas conta sobre certa visita feita a uma sinagoga de Nazaré, onde Jesus recebeu em mãos o Livro Sagrado e escolheu a seguinte passagem para leitura:
“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar um ano de graça do Senhor.” Em seguida Jesus fechou o livro, o entregou na mão do ajudante, e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Então Jesus começou a dizer-lhes: “Hoje se cumpriu essa passagem da Escritura, que vocês acabam de ouvir” (Lc 4, 18-21).
Essas palavras iniciais e entre aspas, que indicam a leitura feita por Jesus aos presentes no templo, reproduzem as palavras de Isaías (61, 1). Em sintonia com o profeta, e igualmente se revelando como profeta, Jesus retoma o mesmo conjunto de promessas e fecha sobre si, na mesma dinâmica tipológica, o cumprimento do prometido.
Vejamos o Evangelho atribuído a João. Diferentemente do retrato dos sinóticos, que descrevia elementos da infância, de viagens, e de proferição de sermões, esse evangelho reduz a atuação de Jesus aos meses que envolvem o acontecimento da Páscoa. Diferencia-se, ainda, dos outros três em temas, vocabulário e técnica de escrita (cf. Ramos, 2006, p. 260). Sua linguagem é repleta de simbolismo. Seus motivos envolvem a cultura grega e a filosofia helenística, e a cultura judaica: “Não se pode negar a presença e a influência do Antigo Testamento e do judaísmo rabínico no quarto Evangelho” (cf. Ramos, 2006, p. 260). Segundo Johnson, o tratado teológico de João “exibe fortes conexões tanto com as epístolas paulinas quanto com a tradição apocalíptica judaica” (2001, p. 37). E ainda, em Schreiner, temos: “Em várias passagens (...) nota-se a influência da interpretação escriturística originariamente judaica” (2004, p. 306). Há quem veja de outro modo: “(...) [Em João] o Antigo Testamento é citado de maneira relativamente rara; e sempre de memória e de forma muito livre” (Kümmel, 2004, p. 269). E o mesmo Kümmel relata: “nenhum tipo de familiaridade com os pontos de vista rabínicos é evidente em qualquer lugar de João” (2004, p. 277).
Apesar das divergências, o que nos importa é demonstrar que, ainda que diferenciado dos demais, também a forma típica do Evangelho de João carrega na voz de seu narrador o mesmo mote de promessa/cumprimento: “Depois disso, sabendo que tudo estava realizado, para que se cumprisse a Escritura, Jesus disse: ‘Tenho sede’” (Jo 19, 28). E utiliza, ainda, o diálogo entre os apóstolos como forma de atualizar a profecia: “Filipe se encontrou com Natanael e disse: ‘Encontramos aquele de quem Moisés escreveu na Lei e também os profetas: é Jesus de Nazaré, o filho de José”’ (Jo 1, 45). Ou um discurso direto de Jesus a um grupo de judeus, onde ele se revela explicitamente como sendo o Messias: “Se vocês acreditassem mesmo em Moisés, também acreditariam em mim, porque foi a respeito de mim que Moisés escreveu” (Jo 5, 46). E as palavras escolhidas para representar sua derradeira fala, dita pouco antes de morrer, foram: “‘Tudo está realizado.’ E, inclinando a cabeça, entregou o espírito”. (Jo 19, 30). O que se constata, mais uma vez, é que “o que eles [os judeus e o mundo judaico] esperavam para o futuro, o Evangelho de São João apresenta como sendo já a realidade atual” (Ramos, 2006, p. 260).
Tendo realizado toda promessa veterotestamentária, Jesus passou a representar o antitipo realizado do Messias, esperado para o final dos tempos. E, assim sendo, tornou-se patente, conforme o propósito dos Evangelhos, que todas as passagens da Torah que tinham um sentido difícil de compreender e de explicar, passaram a fartar-se de clareza e de entendimento.
Javé seu Deus fará surgir, dentre seus irmãos, um profeta como eu em seu meio, e vocês o ouvirão (Dt 18, 15).
2.2. Percursos analíticos
Importa-nos aqui examinar o universo de polêmicas do qual a TB participa, em escritos que ocupam um papel fundador para o cristianismo, no que diz respeito à sua diferenciação em relação à religião judaica. É sempre importante e necessário lembrar que, nos primeiros séculos da Era Cristã, o cristianismo, grosso modo, identificava-se mais como uma vertente judaica do que propriamente como uma religião distinta. Para que o estatuto dos seguidores das palavras atribuídas ao dito messias se diferenciasse a ponto de se entender por cristianismo um movimento cultural com autonomia em relação ao judaísmo, ainda que embasado na Escritura deste, um extenso leque de práticas interpretativas foi necessário, do qual a TB evidentemente participa. Nesse sentido, atua recorrentemente como divisor de águas, como se verá nos escritos atribuídos aos padres, a concepção que contrapõe uma nova lei a uma velha lei. Não tivessem os cristãos adotado a Escritura sagrada judaica como parte de seu cânone, as imagens recíprocas criadas por esses dois povos certamente teriam sido outras. No entanto, com a adoção dessa literatura, disseminou-se, paralelamente à exegese, um enfático discurso de apropriação sobre o assim chamado Antigo Testamento. E tal discurso está fundamentado sobre uma intensa forma de desqualificar qualquer outra interpretação, bem como seus intérpretes, isto é, os judeus, atribuindo-lhes o estatuto de ultrapassados, para dizer o mínimo. Visando apresentar tais referências, a exposição que segue faz algumas reflexões analíticas acerca de dois textos da literatura do cristianismo primitivo, o Dialogo com Trifao (c. II d.C) e Contra os Judeus (c. II d.C), atribuídos respectivamente aos Padres Justino de Roma e Tertuliano de Cartago.
2.2.1. Dialogo com Trifao – de Justino de Roma
rata-se aqui de um texto que supõe retratar as mais antigas formulações das controvérsias entre o judaísmo e o cristianismo: o Dialogo com Trifao, datado de meados do século II, composto em grego e atribuído a Justino, aludido como filósofo e mártir.
Os interlocutores, Trifão e Justino, estão caracterizados, desde o início, em função das idéias que possuem de Deus e de Filosofia. Nesse contexto, o primeiro informa ter sido ensinado por um socrático e faz declarações pessoais sobre sua religião e sobre o meio onde vive: “sou um hebreu circuncidado que, fugindo da guerra há pouco terminada, vivo na Grécia, e passo a maior parte do tempo em Corinto” (Diál. 1, 3). O segundo, que é o narrador do diálogo, expõe ter experimentado, como buscador incansável em seu itinerário intelectual, várias filosofias: estóica, peripatética, pitagórica e platônica, sendo que, ainda que faça algumas considerações favoráveis às idéias platônicas, nada, nenhuma das vertentes filosóficas até então o havia deixado satisfeito. Devido a essa insatisfação, afastou-se do convívio dos homens, e, segundo suas próprias palavras, andando por um lugar solitário, acabou por encontrar “alguém” com quem pudesse debater sobre filosofia e felicidade. Justino relata a Trifão ter tido uma conversa fundamental com um velho sábio sobre a alma humana e sobre o meio de alcançar Deus. O velho desconhecido e sábio, que apareceu curiosamente uma única vez aos olhos de Justino é, possivelmente, uma representação antagônica das idéias socráticas de Trifão.
O diálogo, segundo a concepção socrática, contrariamente à palavra escrita que aqui vemos em Justino, possibilitava conhecer-se a si mesmo, pois, aos poucos, pela troca de palavras e de idéias, alcançar-se-ia a reminiscência de uma verdade original.
Justino, no entanto, imbuído da força que havia sido gerada pelo encontro fora do comum, exalta, em seu Dialogo – e aqui entendamos como registro escrito para ser lido – o conteúdo que o velho sábio lhe pronunciara. As palavras do sábio alegavam que os profetas bíblicos eram os verdadeiros filósofos. Na condição de inspirados pelo espírito divino, esses profetas “predisseram o futuro que está se cumprindo exatamente agora” (Diál. 7, 1). Observe-se que o “agora pronunciado no diálogo dentro do Dialogo representa o tempo presente do narrador Justino. Essa assertiva tipológica – uma profecia judaica atualizada na realidade cristã – é a principal característica destacada do texto para refletirmos sobre o significado que ela constrói sobre a representação do judeu.
2.2.1.1 A sobreposição da nova lei sobre a lei mosaica
Mostrando-se, a partir do encontro narrado, um adepto dos ensinamentos do tal velho sábio, Justino expõe a Trifão que ser filósofo era ser iniciado nos mistérios de Cristo, felicidade possível de ser alcançada por todos aqueles que desejam a salvação da alma.
Trifão, o judeu, faz sua primeira refutação dizendo que abraçar qualquer filósofo grego seria de mais valia do que depositar esperanças em um velho desconhecido, como esse que surgiu anônimo e pregou as próprias convicções. Aconselha Justino, por conseguinte, conforme os preceitos da fé judaica:
(...) primeiro faze-te circuncidar e depois observa, segundo nosso costume, o sábado, as festas, as luas novas de Deus, cumprindo tudo que está escrito na Lei. Talvez possas então alcançar misericórdia da parte de Deus. Quanto a Cristo ou Messias, se ele nasceu e está em algum lugar, é desconhecido e nem ele próprio conhece a si mesmo e não terá nenhum poder, até que venha Elias para ungi-lo e manifestá-lo a todos. Quanto a vós, porém, dando ouvidos a vozes vãs, fabricais para vós mesmos um Cristo e por sua causa estais agora perecendo sem objetivo nenhum. (Diál. 8, 4)
Justino replica: “Com efeito, vou mostrar-te imediatamente que não demos crédito a fábulas vãs, nem a doutrinas não demonstradas, mas cheia do espírito de Deus e das quais brota o poder e floresce a graça” (Diál. 9, 1). Com essas palavras, ganha curso o Dialogo que, apesar de sugerir, por seu gênero, a participação simétrica entre dois interlocutores, é desproporcionalmente distribuído, tendo maior projeção a palavra do narrador, Justino, em detrimento do espaço que é dado à palavra do seu oponente, Trifão. E, paralelamente, não há uma simetria de convicção: Trifão, vez ou outra, chega a fazer, paradoxalmente, elogios à doutrina neotestamentária e, por meio de certa condescendência, gera uma estranha vantagem para seu oponente, que serve como mote para fazê-lo dar andamento aos conteúdos cristãos. Vejamos como isso acontece.
Declara o judeu Trifão: “Quanto a mim, conheço vossos mandamentos contidos naquilo que se chama Evangelho. São tão maravilhosos e grandes que chego a pensar que ninguém é capaz de cumpri-los” (Diál. 10, 2). Apesar de se fazer parecer admirado com o conteúdo evangélico, o hebreu questiona o modo pelo qual se pode conservar a esperança a partir de um homem crucificado, contando que, com tal procedimento, é possível receber a consideração de Deus, sem, contudo, observar a Lei (Diál. 10, 2). Esta colocação elogiosa e, ao mesmo tempo, indagadora de resultados, saída da boca do adversário judeu, é técnica retórica que faz avançar a controvérsia, e vai permitir a Justino explicar a falência da Velha Lei ou preceitos da religião judaica. Tal tema, já aventado nas cartas paulinas, foi mais uma vez retomado nesse episódio e nos oferece matéria para se perscrutar o funcionamento da TB e sua relação essencial com a representação do judeu, cuja imagem está sendo gerada nesses primeiros textos da cultura cristã. Por esse motivo, torna-se conveniente citar, em toda sua extensão, o trecho referente ao assunto.
A concepção de Justino, na esteira da pregação do apóstolo Paulo, diz:
Com efeito, ó Trifão, eu li que deveria vir uma lei perfeita e uma aliança soberana em relação às outras, que agora devem ser guardadas por todos os homens que desejam a herança de Deus. A lei dada sobre o monte Horeb já está velha e pertence apenas a vós. A outra, porém, pertence a todos. Uma lei colocada contra a outra lei anula a primeira; uma aliança feita posteriormente também deixa sem efeito a primeira. Cristo nos foi dado como lei eterna e definitiva e como aliança fiel, depois da qual não há mais lei, nem ordem, nem mandamento. Ou não leste o que diz Isaías? “Escutai-me, escutai-me, povo meu; e os reis deem-me ouvidos. Porque de mim sairá uma lei e o meu julgamento para iluminar as nações. Minha justiça se aproxima depressa, minha salvação logo sairá e em meu braço as nações esperarão”. E por meio de Jeremias, se refere à nova aliança, dizendo o seguinte: “Eis que vêm dias, diz o Senhor, e eu estabelecerei com a casa de Israel e com a casa de Judá uma nova aliança, não como a que estabeleci com seus pais no dia em que os tomei pela mão para tirá-los da terra do Egito”. Deus, portanto, anunciou que estabeleceria uma nova aliança e esta para iluminar as nações. Vemos e estamos convencidos de que, por meio do nome de Jesus Cristo crucificado, as pessoas se afastam da idolatria e de toda iniquidade, para aproximar-se de Deus, suportando até a morte para confessá-lo e manter a sua religião. Todos podem compreender que esta é a lei nova e a nova Aliança, assim como a expectativa daqueles que, de todas as nações, esperam os bens de Deus. Com efeito, nós somos o povo de Israel verdadeiro e espiritual, a descendência de Judá e de Jacó, de Isaac e de Abraão, que foi atestado por Deus enquanto ainda era incircunciso e que foi abençoado e chamado pai de muitas nações. Nós somos aqueles que se aproximaram de Deus por meio desse Cristo crucificado, como ficará demonstrado quando continuarmos os nossos raciocínios. (Diál. 11, 2-5)
A seqüência do Dialogo passa, então, a fundamentar o debate em torno das Escrituras. As palavras virtuosas referidas nas considerações de Justino ficaram destinadas aos que aceitavam a boa-nova e, opostamente, as viciosas, destinadas àqueles que se mantinham na velha Lei. Visto que, desde o antigo registro bíblico judaico já se constatava que o povo era castigado por não cumprir as expectativas divinas, agora, no tempo de Justino, inventariava-se o lastro desse comportamento repreensível. Vituperava-se, assim, a atitude de desconsideração às palavras divinas e o ato de não compreendê-las, conforme anunciadas pelos profetas, que, a partir do tempo de Jesus e ainda no tempo do Dialogo, continuavam se realizando. E tal forma de vitupério, responsável pela formulação do juízo negativo sobre aqueles que ignoravam as palavras transmitidas pelos evangelhos, procura sustentar-se sobre uma lógica consagrada pelas próprias escrituras judaicas, conforme se verá a seguir.
5 PRÁTICAS TIPOLÓGICAS E FORMAÇÃO DO CÂNONE CRISTÃO - A naturalização retórica da afirmação do Novo pelo Velho
A maneira como o narrador constrói suas argumentações em favor do cristianismo, na tentativa de convencer seus interlocutores, possui uma forma característica a ser notada pela sua repetição ao longo do texto, e que pode ser observada também no fragmento citado sobre a Velha Lei. Trata-se de um modo de narrar que reúne três diferentes enunciados:
1) um veterotestamentário, retirado dos profetas;
2) outro pronunciado por Jesus ou que refere seus atos; e, por fim,
3) ambos retomados para compor o discurso do narrador.
Essa fórmula – que coloca na mesma dimensão as palavras do narrador, de Jesus e dos profetas – deseja elucidar que o dito profético do passado antigo, manifesto ou recapitulado no passado recente por meio da vinda de Cristo, é agora, na ocasião do Dialogo, presentificado. A mensagem de Deus é atemporal, cumpre-se em todos os tempos desde que decodificada corretamente, porque Deus “antecipouse em manifestar-vos [aos judeus] gratuitamente todos os seus mistérios antes de seus próprios tempos” (Diál. 131, 4).
Para exemplificarmos como acontece essa fusão de vozes, segue um trecho do Dialogo, entre outros que poderiam ser destacados para essa finalidade. O apologista, reutilizando as palavras da pregação de Jesus, também prega e, ao mesmo tempo, confirma o conteúdo do que está anunciando, com uma citação do rei Davi:
Nosso Jesus, porém, sem ainda ter vindo glorioso, enviou a Jerusalém um cetro de justiça, isto é, a palavra do chamado e da conversão dirigida a todas as nações sobre as quais dominavam os demônios, como o diz Davi: “Os deuses das nações são demônios”. E sua poderosa palavra persuadiu muitos a abandonarem os demônios a quem serviam e a crer, por meio dele, no Deus onipotente, porque os deuses das nações são demônios. (Diál. 83, 4)
Essas palavras, assim organizadas, reatualizam e dão continuidade ao propósito de conversão religiosa, apoiando-se, para isso, nas palavras que, segundo o Evangelho, foram ditas por Jesus e, por conseguinte, as autentica por meio da anterioridade e sabedoria atribuídas, neste caso, à fala do rei, que ocupa o lugar do dito dos profetas, pois, para Justino, os reis guardaram as palavras dos profetas em seus livros, tais como foram ditas originalmente (I L. 31,1).
A certa altura do Dialogo, o próprio narrador explicita, metalingüisticamente, esse modo de construir argumentações: Uma vez que tu, Trifão, já leste os ensinamentos de nosso Salvador, como tu mesmo confessaste, não creio ter feito algo fora de lugar citar algumas breves sentenças dele junto com as dos profetas. (Diál. 18, 1)
Esse recurso da forma letrada – um relato em primeira pessoa investido das autoridades dos profetas e do Messias, que distam entre si por mais de um milênio – afirma a tradição e expande suas conexões, tendo o efeito de legitimar as relações históricas ou factuais entre as profecias do Antigo Testamento e as figuras do Novo Testamento. Tal organização narrativa, baseada sobre estruturas verbais recorrentes, reúne palavras de origens independentes, sob o modelo da mensagem tipológica.
Além disso, as proposições, independentemente da forma como estão organizadas, assumem-se perpassadas por um critério de verdade, unicamente porque derivam de fontes inspiradas, que, a priori, para Justino são insuspeitas: Contudo, em todos os meus raciocínios eu parto das Escrituras proféticas, que são santas para vós, e apoiado nelas eu vos apresento as minhas demonstrações, esperando que alguém de vós possa encontrar-se no número dos que foram reservados, pela graça do Senhor dos exércitos, para a eterna salvação. (Diál. 32, 2)
Justino utiliza de tal recurso como força argumentativa para fazer frente a todo tipo de objeção de seu oponente, e pede para que este dê ouvidos ao fato de que o conteúdo de suas palavras, por ser bíblico, independe da origem religiosa para ter valor e veracidade: Uma vez que parto das Escrituras e dos fatos para fazer minhas demonstrações e exortações, não demoreis nem vacileis em me dar crédito ainda que eu seja incircunciso. (Diál. 28, 2)
Sempre com o intuito de convencer, Justino explica que suas interpretações sobre Jesus estão fundamentadas somente nas partes da Escritura que são reconhecidas pelos judeus (Diál. 120, 5). No entanto, Trifão questiona-o, dizendo, por exemplo, que este utiliza palavras ambíguas e insuficientes para demonstrar ou convencer sobre o assunto de que fala (Diál. 51, 1). Solicita novos argumentos, novas provas, onde são dadas ao protagonista inúmeras oportunidades, como já dissemos, de discorrer sobre sua fé. E à medida que Justino vai destacando literalmente as passagens da Escritura, Trifão – piedoso frente às palavras destacadas de seu livro sagrado – não consegue revidar, e acaba cedendo inúmeras vezes: “As Escrituras obrigam-me a concordar contigo” (Diál. 67, 8). Desse modo, Justino organiza seu discurso sobre elementos de uma retórica fundada sobre as relações de espelhamento entre o Antigo e o Novo, e vai direcionando persuasivamente a reação de Trifão, ainda que não o admita: “Citar-vos-ei passagens das Escrituras e não pretendo oferecer-vos discursos retoricamente preparados, pois não tenho talento para tal coisa” (Diál. 58, 1).
Como se pode observar, esse trecho é um disfarce retórico, que contradiz literalmente aquilo que afirma. Pretende dar ao conteúdo bíblico um valor imanente, ao mesmo tempo em que qualifica o pregador por um valor subentendido, que é ser um escolhido de Deus. Melhor explicando, ao pregador humilde, sem capacidade oratória, segue a força divina capaz de convencer. Esse modo de pensar sobre o não uso da técnica retórica está bastante aclarado em outro escrito de Justino, no qual ele exalta os doze apóstolos que, a despeito de 52 serem “ignorantes e incapazes de eloquência”, pela força de Deus, “persuadiram todo gênero humano de que haviam sido enviados por Cristo para ensinar a todos a palavra de Deus” (I Apol. 39, 3).
Apesar de todo poder atribuído à participação de Deus nas palavras proferidas, para Trifão é dada a possibilidade de discordar da colocação de Justino: “Todavia, parece que falas com ironia ao dizer que não possuis a arte dos discursos” (Diál. 58, 2). Com isso Justino pode explicar que, apesar de seu discurso parecer retoricizado – e evidentemente o é – tudo o que ele fala é naturalmente sustentável. Tem em Deus seu álibi, que também se utiliza dessa arte de bem falar para alcançar um objetivo ou afirmar determinado ponto de vista: “(...) também Deus não ignorava nada, quando perguntou a Adão onde estava e a Caim sobre o paradeiro de Abel, mas desejava interrogar cada um sobre o que era e para que até nós chegasse o conhecimento de tudo...” (Diál. 99, 3). Como podemos ver pela citação, Justino enfatiza que nada de mal há em se utilizar de uma técnica que funciona desde o começo do mundo, e nada mais, nada menos do que pela boca do criador. Seu discurso, nesses termos, vai ganhando credibilidade sob todas as perspectivas.
2.2.1.3 A afirmação da Escritura como palavra escrita
Outro modo de representar o Antigo Testamento, utilizada por Justino, e que aparentemente é mais material ou visível do que a força divina que se esconde por trás das palavras, é o registro escrito. O Antigo Testamento é a palavra de Deus manifesta por escrito. É a palavra inspirada que se transforma em Escritura Sagrada. E essa característica da Escritura é auto-referente: Deus expressa seus mandamentos em caracteres (Ex. 31.18) e Moisés escreveu sobre as tábuas as palavras da aliança (Ex 34.28). Justino lembra que as palavras de Deus ficaram consignadas por escrito (Diál. 99, 3), e os grandes prodígios de Moisés no Egito podem ser fielmente conhecidos através dos livros do próprio Moisés (I Apol. 78, 4), pois Moisés também colocou as palavras de Deus por escrito (Diál. 29, 2); e dos escritos dos profetas, conservados até o momento do Dialogo (Diál. 7, 2), também não havia dúvida sobre a existência deles; e tudo o 53 que foi feito por Cristo pode ser comprovado pelas Memórias deixadas no Evangelho (I Apol. 66, 3) e, ainda, fora da Escritura, como bem lembra Justino, nas Atas redigidas no tempo de Pôncio Pilatos (I Apol. 48, 3).
Esse código de representação gráfica da linguagem ganha uma consideração diferenciada e oposta àquelas que pertenciam ao mundo grego socrático, cuja filosofia, ao lado da religião judaica, era representada por Trifão. A Sócrates, nenhum texto tem sua autoria atribuída:
Filósofo profundamente grego e cidadão profundamente ateniense, como poderia escrever? Todos os filósofos gregos – ao menos até o final da época clássica – desconfiam da escrita, pelas razões, entre outras, que expõe Platão (Fedro); o texto escrito sofre de três males congênitos: primeiramente ele é fixo e “a quem lhe dirige a palavra, ele se contenta com significar uma coisa única, sempre e de uma vez por todas”; em segundo lugar, uma vez publicado, o texto vive sua própria existência e se dirige da mesma maneira a todos, seja qual for a competência do interlocutor; enfim, entregue a si mesmo, é incapaz de se defender sem a presença de seu autor e de responder a seus adversários. (Wolff, 1982, p. 37)
Prova do que foi dito por Deus, o uso da Escritura Sagrada tem feito frente à colocação socrática sobre a escrita. A palavra de Deus, na tradição dos Padres, é única e incontestável, e há de revelar sempre a mesma verdade, ainda que as interpretações que dela derivem sejam distintas umas das outras.
tas umas das outras. Registrou-se por escrito, portanto, na Escritura. Alonso-Schökel, estudioso dos profetas, atribui a esse escrito um papel instrumental que, junto com a língua e os instrumentos musicais, é responsável pela transmissão da palavra da dimensão divina para a humana. Segundo ele observa, essa transmissão funciona da seguinte maneira: “A cabeça manda um impulso pelos centros nervosos e a mão, ou a língua, executa a obra. Essa semelhança poderia determinar o modo pelo qual imaginamos a ação do Espírito e a do escritor sagrado” (Schökel, 1992, p. 45).
O Antigo Testamento, em seu original hebraico, tem o registro escrito caracterizado, em determinadas ocorrências da palavra profética, de um modo bastante interessante. Trata-se de ocasiões em que Deus fala “por intermédio” de alguém. “Por intermédio” é a versão da expressão hebraica beyad, que quer dizer “pela mão”. Etimologicamente, as passagens que contêm essa expressão poderiam ter suas versões feitas pela maneira completa de seu significado: Deus falou “por intermédio das mãos” de alguém. Provavelmente a expressão cristalizou-se de forma abreviada pelo fato de a escrita pressupor as mãos. Não se trata de discutir um problema de tradução. O que se quer, com essa exemplificação, é enfatizar que a língua original do Antigo Testamento possui um termo que confere importância à linguagem escrita, porque é nessa forma de linguagem que se concretiza o passado bíblico, não só como conteúdo, mas como presença divina. Sob a interferência divina no corpo do homem, materializou-se um escrito que percorre todos os tempos, chegando até o tempo presente. O escrito ou é o ato da mão do profeta que registrou a escuta da palavra de Deus, ou é o ato da mão de alguém que ouvia as palavras divinas saindo pela boca do profeta. Desse modo colocado, atesta-se a importância do registro escrito, pois se pressupõe nele a marca da presença divina. E, conseqüentemente, espera-se que quando se faz contato com esses escritos, o caminho temporal passe a ser percorrido inversamente, e se alcance, desse modo, o momento em que Deus se expôs aos homens, possibilitando o registro de suas palavras.
2.2.1.4 A tradução escritural posta em dúvida
O Dialogo prossegue com uma preocupação com a transposição lingüística da mensagem divina, emitida numa determinada língua (hebraico) e transformada para o equivalente em outra língua (grego). Trata-se da polêmica passagem: “Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho” (Is 7, 14). A palavra hebraica ‘almah ( עלמה ,( comumente traduzida por jovem, possui um campo semântico que, muitas vezes, engloba a virgindade. Pode ser, no entanto, igualmente utilizada para se referir a uma mulher casada jovem que prescinde de tal estado de inexperiência. Foi traduzida, na Septuaginta, pelo termo grego parthenos, cujo significado restringiu-se apenas à virgindade.
A certa altura do Dialogo, Justino afirma ter sido Cristo o único a ter nascido de uma virgem na linhagem carnal de Abraão (Diál. 66, 4). Isso, evidentemente, justifica uma bifurcação na linhagem: há os que continuam sendo descendência da carne e os que passam a ser descendência do espírito. Trifão, a par da polêmica, contesta a tradução do texto sagrado do hebraico para o grego: “A escritura não diz: ‘Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho’, mas: “Eis que uma jovem conceberá e dará à luz um filho’” (Diál. 67, 1). Numa tentativa de fazer com que Justino perdesse o apoio de sua prerrogativa, exemplifica que a utilização da palavra “virgem” é copiosa na mitologia grega. Justino rebate à provocação: “ (...) quando uma passagem da Escritura os argúi fortemente de opinião insensata e pessoal, eles [os mestres do judeu Trifão] se atrevem a dizer que no texto original não está assim” (Diál. 68, 8). E complementa: “Não me deixo persuadir por vossos mestres, que não admitem estar bem feita a tradução de vossos setenta anciãos, que estiveram com Ptolomeu, rei do Egito, mas colocaram-se eles mesmos a traduzir” (Diál. 71,1). Abre-se uma longa discussão sobre problemas de tradução e sobre a eliminação de certas passagens bíblicas. A demonstração sobre a concepção virginal apenas se encerra quando Justino recorre às palavras dos profetas como solução para a questão. E aí a questão avança da tradução para a compreensão ou interpretação das palavras proféticas.
2.2.1.5 A legitimidade tipológica da tradução escritural
A explicação que gira em torno da concepção virginal decorre do entendimento das profecias. Vale notar que o texto faz uso da palavra “figura”, que vincula as relações entre o Velho e Novo Testamento, com função tipológica: Senhores [refere-se não apenas a Trifão, mas também a alguns que o acompanham], eu poderia recorrer a todas as outras ordens dadas por Moisés e demonstrar-vos que são figuras, símbolos e anúncios do que aconteceria com Cristo e com aqueles que nele crêem, conhecidos de antemão, assim como também o que o próprio Cristo haveria de fazer. (Diál. 42, 4)
A referência à interpretação do Livro Sagrado, feita pelo filósofo, ressalta uma metodologia de leitura que, para ser eficiente em captar a mensagem divina, há de ser tipológica. Justino ensina que as palavras proféticas não apenas aludem ao futuro; esse futuro, segundo sua leitura e compreensão da palavra sagrada, já chegou e realizou, de fato, aquilo que foi proferido. E Justino elucida a questão, resolvendo o problema da tradução não só por caminhos linguísticos, e sim pela leitura cristianizada das profecias: Vós, porém, inclusive nesta passagem, tendes a ousadia de mudar a interpretação dada pelos vossos anciãos que trabalharam junto a Ptolomeu, rei do Egito. E dizeis que não consta no texto original o que eles interpretaram, mas “Eis que uma jovem conceberá”, como se fosse sinal de grande obra que uma mulher conceba através da relação carnal, coisa que fazem todas as mulheres jovens, exceto as estéreis. E mesmo estas, se Deus quiser, pode fazê-las conceber. (...) De modo que não tendes motivo para supor que Deus não possa fazer o que ele quiser. Sobretudo, tendo sido profetizado que haveria de acontecer, não vos atrevais a mudar ou interpretar falsamente as escrituras, pois com isso prejudicareis somente a vós mesmos e não a Deus. (Diál. 84, 3)
A polêmica polissemia – que traduziu o termo hebraico para uma acepção grega de menor extensão de sentido – passou a ser explicada, em termos definitivos, pela suposta interpretação correta da profecia. Considera-se, portanto, imprescindível que se compreenda que o Novo Testamento é o desenlace do que se profetizou no Velho, e quem não faz essa leitura, deixa, conforme nos quer demonstrar Justino, de absorver algo essencial dos Testamentos, que é, precisamente, a consolidação dos oráculos proféticos. Segue outro exemplo: Citar-vos-ei outro salmo, ditado pelo Espírito Santo a Davi, para mostrar que não entendeis nada das Escrituras, pois dizeis que se refere a Salomão, que foi também vosso rei, quando foi dito para o nosso Cristo. Vós vos deixais enganar pela semelhança das expressões. (Diál. 34, 1)
Esse jogo pronominal feito com “vosso” e “nosso” só se torna possível porque Justino argumenta dentro de um interregno de cerca de mil anos. O reinado de Salomão, sucessor do suposto salmista e rei Davi, deve ter sido considerado, em seus quarenta e bem sucedidos anos, a realização das preces do citado Salmo 71. Mas como o tempo de Salomão já era passado, e a realidade voltara a clamar por um rei que atendesse aquelas mesmas necessidades, facilmente se podia retomar o salmo e transpor seus clamores como tendo sido atendidos no mundo agora cristão. Assim sendo, Justino ensina que o rei Jesus, sim, cumpre o lugar que aparentemente se acreditava ser de Salomão, e que, denominado sacerdote eterno, cumpre também o lugar de Melquisedec. A dinâmica de mudanças, que o passar do tempo possibilita, fez parecer que Melquisedec e Salomão não efetivaram o que inicialmente estava a eles atribuído como realização. Sob essa perspectiva, Justino ajusta, com proficiência, as profecias à leitura cristológica:
Sei que Salomão, sob cujo reinado se construiu o chamado templo de Jerusalém, foi rei ilustre e grande. Contudo, é evidente que nada do que se diz no salmo aconteceu com ele. De fato, nem todos os reis se prosternavam diante dele, nem reinou até os confins da terra, nem seus inimigos, caindo a seus pés, comeram o pó. (Diál. 34, 7) Justino transfere, encaixa e estabelece sentidos que guiam a compreensão das profecias. Trifão contesta, mas suas palavras estão organizadas para revelar um homem de pouca fé, que desconfia e despreza a suposta vinda do Salvador:
Com efeito, estás dizendo muitas blasfêmias, pretendendo nos convencer de que esse crucificado existiu no tempo de Moisés e Aarão e que lhes falou na coluna de nuvem; que depois se fez homem, foi crucificado, subiu ao céu e há de vir outra vez à terra e que deve ser adorado. (Diál. 38, 1)
6 2 – PRÁTICAS TIPOLÓGICAS E FORMAÇÃO DO CÂNONE CRISTÃO
2.2.2. Contra os judeus – de Tertuliano
2.2.2.1 Lei caduca e lei atual
2.2.2.2 A circuncisão do coração na lei renovada
2.2.2.3 O sábado eterno na lei renovada
2.2.3. A tipologia bíblica na cisão entre cristianismo e judaísmo
7 3 – TIPOLOGIA BÍBLICA E REPRESENTAÇÃO NA MODERNIDADE
3.1. Definições preliminares
3.1.1. Representação e instituição
8 3 – TIPOLOGIA BÍBLICA E REPRESENTAÇÃO NA MODERNIDADE
3.2.1. Relações judaico-cristãs
3.2.2. Os Protocolos dos sábios do Sião
9 3 – TIPOLOGIA BÍBLICA E REPRESENTAÇÃO NA MODERNIDADE
10 4 – PERMANÊNCIA DA TIPOLOGIA BÍBLICA NA FORMA LITERÁRIA
4.1. Definições preliminares
4.1.1. Visão figural da realidade – em Erich Auerbach
11 PERMANÊNCIA DA TIPOLOGIA BÍBLICA NA FORMA LITERÁRIA
Em Shakespeare, igualmente, Auerbach identifica, pela não separação de estilos, em oposição ao Classicismo francês, “o elemento da criaturalidade corpórea” (idem, 2004, p. 279). São personagens de posição elevada (reis, 103 príncipes, generais, nobres, etc) que, no entanto, podem ser gordos, fedorentos, bêbados, loucos, todos com aspectos do medievocriatural, com alternância entre cenas trágicas e cômicas dentro da tragédia. O quadro estilístico shakespeareano, escreve Auerbach, também encontra raízes na tradição popular que nada mais é, originalmente, que o “drama universal da história de Cristo” (idem, 2004, p. 288), ainda que reunido com motivos folclóricos não cristãos. Auerbach observa que, nos séculos medievais, a concepção do trágico não se desenvolveu completamente, pois “toda a tragicidade [foi] encerrada na tragédia de Cristo” (idem, 2004, p. 275). E continua: (...) por mais sérios que fossem [os acontecimentos], estava a dignidade superlativa, que tudo abrangia, de um único acontecimento, a aparição de Cristo, e toda tragédia não era senão figura ou reflexo de um só conjunto de acontecimentos no qual necessariamente desembocava: o conjunto do pecado original, nascimento e sofrimento de Cristo, Juízo Final. (idem, 2004, p. 282).
No decorrer do século XVI, “afrouxou-se finalmente a concepção da moldura cristã-figural em quase toda a Europa” (idem, 2004, p. 283). No teatro elisabetano, reafirma Auerbach, “a velha e grande ordem do pecado original, sacrifício divino, Juízo final, retrocede” (idem, 2004, p. 288). O significado disso tudo é que o trágico ou o campo de ação humana perdem os antigos limites, ou seja, “a solução através do pecado original e do drama da salvação começou a perder sua validade” (idem, 2004, p. 288), liberdade que durou pouco, pois logo depois “os movimentos contrários represadores conseguiram predominar” (idem, 2004, p. 288), entre eles o Protestantismo e a Contra-Reforma. Até mesmo na Espanha de Cervantes, diferenciada, aos olhos de Auerbach, do resto do espírito da Europa, “os fenômenos da realidade já se haviam tornado difíceis de serem abrangidos, e não mais se deixavam ordenar de forma unívoca e tradicional” (idem, 2004, p. 319). E nas tragédias francesas, em especial as de Racine, “não deve aparecer nem o cotidiano dos acontecimentos, nem o criatural das pessoas” (idem, 2004, p. 331). Há motivos bíblicos na tragédia racineana, como por exemplo, os personagens Esther e Assuéros, porém, desprovidos da concepção criatural, e ajustados à moldura estabelecida que, na era absolutista, adotava regra das unidades dramáticas e segregava tudo o que era baixo, permitindo o máximo de elegância da expressão. Há uma quebra com a tradição popular milenar, cristã e misturadora de estilos. No entanto, o século XVII possui uma importante literatura cristã na França, e ainda que sua escrita esteja completamente caracterizada pelo estilo elevado, diz Auerbach, “é tido como um século cristão-ortodoxo” (idem, 2004, p. 352). No século seguinte, iluminista, a mistura de estilo volta a ocorrer, mas não há um aprofundamento no criatural, apenas algumas poucas representações, exemplificadas em Voltaire quando refere a decadência de seus últimos anos de vida. No entanto, Auerbach retoma os séculos XVII e XVIII para tratar do gênero que abarca as memórias e os diários, da vida das mais altas camadas sociais. Destaca Saint-Simon que, particularmente, difere de todos os estilos de sua época, contrasta com o estilo elegantemente formulado e considera o corporal e o espiritual como um todo. Na Alemanha, “a mistura estilística cristã-criatural se manteve através do século XVII e também mais tarde não foi totalmente suplantada pela influência clássico francesa (idem, 2004, p. 389). No entanto, continua o autor, “a mistura de estilos, entusiasticamente recebida sob os auspícios de Shakespeare, aparece quase exclusivamente em assuntos históricos ou poéticos-fantásticos” (idem, 2004, p. 395).
Auerbach situa, na Alemanha, a fixação do historicismo ou realismo moderno. Trata-se, segundo suas palavras, da história como fundamento mais profundo da realidade, um critério fundamental na compreensão das culturas e das sociedades humana. Aos poucos vai demonstrando, não só na literatura alemã, mas também na francesa e na inglesa, como as condições da história contemporânea vão sendo enredadas na ação de forma cada vez mais exata e real. Desenvolveu-se progressivamente, diz Auerbach, (...) uma espécie totalmente nova de estilo sério ou, se se preferir, elevado; não seria possível transferir para os novos objetos, sem mais nem menos, os níveis antigos, nem os cristãos, nem os shakesperianos, nem os níveis racinianos de percepção e expressão. (idem, 2004, p. 431)
Auerbach demonstra o historicismo nos diversos autores do XVIII e XIX, até chegar em Flaubert. Em Flaubert, há uma intenção de alcançar a expressão lingüística plena, uma autonomização da linguagem, que é quando, por uma submersão nos objetos da realidade, se atinge uma maturidade verbal que faça com que os objetos sejam vistos (...) como Deus os vê, na sua verdadeira realidade. A isto se junta uma concepção da mistura de estilo que surge na mesma visão mítico-realista; não haveria objetos elevados e baixos; o universo seria uma obra de arte criada sem parcialidade, o artista realista deveria imitar os processos da criação, e cada objeto conteria, na sua peculiaridade, perante o olho de Deus, tanto a seriedade quanto a comicidade, tanto a dignidade quanto a baixeza. (idem, 2004, p. 438).
Era o puramente literário, afastado de considerações políticas e econômicas. Já em Zola, diz Auerbach, “o princípio lart pour lart está liquidado” (idem, 2004, p. 459). Zola, segundo o autor, “levou a sério a mistura de estilos; foi além do realismo meramente estético da geração que o precedeu” (idem, 2004, p. 459-460), isto é, sua obra considerava os problemas sociais de sua época, e seu nível estilístico mistura o humilde com o sublime para escrever uma tragédia histórica que procurava abranger toda a vida de seu tempo. Depois dele, veio a reação “antinaturalista”. O realismo russo do século XIX, por sua vez, diz Auerbach, (...) está fundamentado numa ideia cristã e patriarcal da dignidade criatural de cada ser humano, independentemente da sua classe social ou da sua situação e que, portanto, está aparentado, nos seus fundamentos, muito mais com o antigo realismo cristão do que com o moderno realismo europeu ocidental. (idem, 2004, p. 467) Ou, em outras palavras, a realização mais plena, aos olhos dos leitores europeus, da mistura de realismo e tragédia.
No último capítulo, o motivo figural-criatural já não pode mais ser encontrado conceitualmente. O que encontramos é a seleção de um fragmento proustiano que refere Abraão – o mesmo personagem bíblico que participa do capítulo primeiro do Mimesis – e que está aí inserido junto às lembranças que o protagonista de Em busca do tempo perdido consegue resgatar do pai. É como se o patriarca bíblico reaparecesse para explicar exegeticamente o trecho final do livro. Com essa correspondência entre os dois textos, entre tantas outras que encontramos no decorrer da leitura, é inevitável pensar que o Mimesis articula em seus ensaios o funcionamento do esquema figura/preenchimento, ou seja, que o método figural representaria a própria estrutura do sistema discursivo do livro. No entanto, embora uma parte da crítica concorde que essa seja a tendência geral do Mimesis, outra aponta esse tipo de leitura como reducionista ou até mesmo equivocada.
Por fim, mais uma vez explicitamos o propósito desse recorte de perspectiva tipológica feito ao Mimesis. A despeito de estarmos diante de uma organização cronológica lacunar, às vezes interrompida por mais de cinco séculos, como acontece na seqüência dos capítulos 4 e 5, que tratam de Gregório de Tours e da Cancao de Rolando, a interpretação figural tem operado continuadamente nos acontecimentos exemplarmente circunscritos entre os textos homéricos e bíblicos até os textos do século XX. E dá evidências de que a interpretação figural/criatural é uma leitura da literatura ocidental vinculada à tradição cristã, ou mais exatamente, como expressam as palavras de Benzaquén de Araujo, no Mimesis há “um esforço no sentido de se valorizar a contribuição cristã dentro da história literária do Ocidente” (Colóquio UERJ, 5º, 1994, p. 78), numa totalidade indissolúvel entre conteúdo e forma.
4.1.2. Estrutura de escrita – em Northrop Frye
Northrop Frye inicia seu livro Codigo dos codigos declarando que não pretende pensar “a Bíblia enquanto literatura” (2004: 10). Seu intuito é demonstrar “como os elementos da Bíblia montaram uma estrutura imaginativa – um universo mitológico, (...) – dentro do qual a literatura do ocidente operou até o século XVIII, e dentro do qual ela ainda opera em grande parte” (idem, 2004, p. 9). É uma relação que se estabelece entre a Bíblia – considerada por ele como um livro que começa no princípio do Antigo Testamento e finda no final do Novo Testamento – e a literatura do Ocidente.
Frye trabalha com uma divisão tríplice do uso da linguagem artística: metafórica, metonímica e descritiva. À primeira corresponde a estoria da ação dos deuses; à segunda, o argumento, abstracao, ou conceito; e à terceira, a descrição historica dos fatos e, necessariamente, por se tratar de arte, não deriva dessa seqüência uma concepção de progresso. Mas o texto da Bíblia, perspectivado segundo essa categorização, mostra-se de modo ligeiramente diferenciado. A Bíblia, diz ele, “entra de modo um pouco desajeitado em nosso ciclo de três fases” (idem, 2004, p. 53). E explica o que acontece:
uagem, apesar da importância que elas tiveram na história da influência bíblica. Esse idioma não é metafórico como a poesia, embora seja pleno de metáforas, e ele é tão poético quanto possa sem ser uma peça literária. Não usa a linguagem transcendental da abstração ou da analogia, e seu uso da linguagem descritiva é ocasional ao longo de todo o conjunto. Na verdade é um quarto tipo de expressão, para o qual eu adoto o agora bem fixado termo de “kerygma”, ou seja, proclamação. No uso comum reserva-se esse termo quase só para os Evangelhos, mas a diferença que possa haver entre estes e o resto da Bíblia não justifica essa restrição. (idem, 2004, p. 55) Para Frye, as estruturas verbais bíblicas lembram a natureza do mito, o qual se define, do ponto de vista da crítica literária, como sendo enredo ou narrativa que, ao longo do tempo, ajuda a criar uma história cultural, e vem a se tornar parte da matéria prima da literatura.
Na tentativa de reunir a definição de estória do populário ou folclórica e mito, como sendo a mesma espécie de narrativa, o autor afirma que “na Europa Ocidental as estórias bíblicas tiveram esse significado mítico central pelo menos até o século XVIII” (idem, 2004, p. 59), sem nenhuma diferença do ponto de vista estrutural ou de conteúdo. E, segue o autor, “as estruturas míticas continuam a dar forma às metáforas e à retórica de tipos posteriores de estrutura” (idem, 2004, p. 61), ou seja, determinados traços metafóricos e retóricos permanecem. Importante para o nosso ponto de vista é a vinculação indelével que o autor explicita entre os Testamentos. Referindo-se aos evangelistas e seus escritos, diz que “a única coisa que lhes merece o interesse é a comparação entre os eventos que relatam e o Antigo Testamento, naquilo que, conforme a leitura deles, este diz que deveria acontecer ao Messias” (idem, 2004, p. 68).
Com relação a algumas características textuais, o autor observa que é próprio da época a veiculação de textos em forma poética e com uso de metáforas, independentemente de os textos terem a pretensão de se estruturarem como literários. Dado o caráter de verdade atribuído ao conteúdo bíblico, a veracidade de um fato é, então, comumente representada por meio de hipérbole ou exagero intencional; os fatos são representados enfaticamente. E o uso feito da metáfora na Bíblia, observa Frye, é ilógico, pois sustenta que (...) duas coisas são a mesma coisa, permanecendo diferentes, o que é absurdo. (...) Acabamos tendo que considerar a possibilidade de que a metáfora não é um ornamento acessório da linguagem bíblica, mas uma de suas modalidades diretivas do pensamento. (idem, 2004, p. 81).
Do ponto de vista cristão, os Testamentos formam um espelho duplo, se autoreferenciam e se auto-explicam. As concepções cristãs se desdobram dos escritos do Antigo, às vezes como citação direta, às vezes indireta. Cada parte do Novo Testamento tem, desse modo, uma relação explicativa com um ponto qualquer tomado de seu antecessor. E reivindica, tautologicamente, a legitimidade desse poder de explicação, de modo tão circularmente ilustrativo: “Como sabemos que a estória dos Evangelhos é verdadeira? Porque confirma profecias do Antigo Testamento. Mas como sabemos que estas profecias são verdadeiras? Porque a estória no Novo as confirma” (idem, 2004, p. 107). Redundantes, um Testamento antecipa algo, o outro Testamento cita ou explicita a antecipação, e a desdobra como evidente realização, produzindo, com o recurso responsivo acertado, uma volta natural à pendência profetizada que o gerou.
Há alusões ao Antigo Testamento em praticamente todas as passagens do Novo. Daí esse procedimento chamar-se TB, pois os fatos ou personagens do Antigo Testamentos são tipos – do grego typos, traduzido para o latim como forma ou figura – que potencialmente sugerem algo inacabado, ou prefigurado, à espera de que se realizem, e, uma vez realizados, produzem seus antitipos. Frye alerta para a idéia de que o modo tipológico de ler a Bíblia é tão evidente no Novo Testamento “a ponto de não restar dúvida de que este é o modo ‘certo’ de lê-la. ‘Certo’ aqui tem o único sentido que a crítica literária pode admitir: o do modo que se conforma à intencionalidade do próprio livro e às convenções que ele pressupõe e exige para a leitura” (idem, 2004, p. 109). Frye observa que estudar academicamente a TB não significa aderir ao credo cristão, pois a tipologia “é uma forma de retórica, e pode ser estudada criticamente como tal, tanto como qualquer outra forma de retórica” (idem, 2004, p. 109-110). Tal como a causalidade, que é também mais uma forma retórica, a TB pressupõe e sugere um processo histórico. É o que acontece com o tipo, que em seu passado profetizou algo que remete ao antitipo presente, quando já realizado, ou o tipo presente que aponta ou conduz ao antitipo futuro, ainda a ser realizado. Segundo Frye, “a tipologia e a causalidade são retoricamente semelhantes na forma, e de fato pode-se pensar naquela como analogia desta” (idem, 2004, p. 111).
A tipologia, vez ou outra, tem também um procedimento retrospectivo, quer dizer, os tipos são estabelecidos depois que aparecem os antitipos, ou seja, não se diz, no Cristianismo, que Isaías, entre o oitavo ou sétimo século antes do advento de Cristo, estivesse profetizando sobre a vinda de Jesus. Uma vez que Jesus foi aceito como sendo o Messias, aí sim ficou entendido, ou estabelecido, que a profecia de Isaías a ele se referia.
No entanto, entre tipologia e causalidade há uma diferença com relação ao tempo. Nesta última, “as causas devem se situar no mesmo plano temporal de seus efeitos para que sejam genuínas” (idem, 2004, p. 111-112). Já a tipologia, “assinala eventos futuros que freqüentemente se tomam como pertencendo a um tempo transcendente, de tal modo que contém tanto um movimento para diante quanto um esforço vertical” (idem, 2004, p. 112).
Frye explica que historicamente o povo de Israel não possuía um Império. Os dois períodos de prosperidade ligados à história de Israel estavam no entremeio do declínio de um grande império e o surgimento de outro; o poder temporal estava, portanto, em “mãos pagãs”. A forma histórica registrada no Antigo Testamento dirigia-se, por esse motivo, para o futuro, onde se acreditava que a importância de Israel seria reconhecida. Daí não ser a TB uma forma exclusiva da escrita cristã do Novo Testamento; a respeito disso, diz o autor que “do ponto de vista do judaísmo o Antigo Testamento é muito mais genuinamente tipológico sem o Novo do que com ele” (idem, 2004, p. 112). A restauração de Israel e a vinda do Messias são, por conseguinte, os principais antítipos das profecias veterotestamentárias. Ademais, a Bíblia “fornece os antítipos cujos tipos são cultos pré-bíblicos, como dos cananeus. Deduz-se daí que ela reivindica explicar o ‘verdadeiro significado’ desses cultos, relacionando-os com o serviço do verdadeiro Deus” (idem, 2004, p. 121).
No cristianismo, a ressurreição do Messias não estabeleceu o final dos tempos que promoveria o mundo da eternidade. A ressurreição ocorreu sem produzir tal evento, e o apocalipse foi deslocado para o futuro. Com esse adiamento passou a existir a crença sobre a parúsia, ou uma segunda vinda messiânica. Enquanto isso, as doutrinas da teologia cristã, como antítipos, vão preenchendo continuadamente os tipos das profecias bíblicas. Frye lembra ainda que um dos resultados da Reforma Protestante foi renovar a ênfase na importância tipológica do Antigo Testamento, e “com as grandes revoluções científicas do século XVIII o pensamento tipológico adentrou a arena secular” (idem, 2004, p. 115). Desse modo, o próprio presente da existência humana torna-se tipo que sinaliza acontecimentos futuros, seus antítipos.
Frye observa que as religiões bíblicas enfatizam a salvação, quer seja uma salvação social, quer seja individual. Ambas se alternam e estão interligadas. O autor entende, ainda, que o conteúdo da Bíblia é essencialmente de revelação, que acontece em sete fases. Há uma progressão dialética nessas sete fases da revelação, que são: “criação, revolução ou êxodo (Israel no Egito), lei, sabedoria, profecia, evangelho e apocalipse” (idem, 2004, p. 136). As cinco primeiras pertencem ao Antigo Testamento, e as duas últimas ao Novo. Cada uma das fases amplia a perspectiva daquela que a antecede, e, consideradas como outro aspecto da tipologia, cada fase é tipo da que lhe é anterior e o antítipo da que lhe é posterior. Vejamos.
Com relação à primeira fase, o autor chama a atenção para o fato de que “o significado essencial da estória da criação parece ser o de um tipo cujo antítipo (sic) é o novo céu e a nova terra prometidos no Apocalipse, 21:1” (idem, 2004, p. 144). A segunda fase, revolução ou êxodo, é a revelação feita por Deus a Moisés por meio de escuta, e não pela visão. Daí a proibição à feitura de imagens, o ódio à idolatria, e “uma impaciência revolucionária que vai de encontro a uma atitude passiva em relação à natureza e aos deuses” (idem, 2004, p. 149). A obediência judaica à lei, neste caso o segundo mandamento, para que a ajuda de Deus esteja presente, e sua contraparte cristã, o exercício de fé que produz resultados milagrosos, “ambas as coisas incluem protestos contra qualquer rendição ao destino ou aos ciclos da natureza” (idem, 2004, p. 149). Em seguida à expulsão do Egito, vem a lei, a qual dá um sentido de pureza ao povo que, tendo sido expurgado ou apartado, se unifica perante a crise ou a malignidade enfrentada. Embora a visão da natureza seja distinta da visão grega, também há na Bíblia uma identificação entre lei moral e lei natural, pois ambas, são controladas pela mesma vontade divina. No entanto, “com um Deus personalizado e onipotente não se pode na verdade distinguir um milagre de um evento natural, exceto pela raridade do primeiro” (idem, 2004, p. 152). Com a individualização da lei, principia a quarta fase, a da sabedoria, na qual temos a interpretação, comentário e aplicação da lei. O sábio tem por característica “ser aquele que segue pelo caminho aceito, aquele que a tradição e a experiência já demonstraram ser o certo” (idem, 2004, p. 153). A literatura da sabedoria é constituída de provérbios. Essa fase, com seu senso de repetição do que já foi experimentado, reafirma a tradição. Já a profecia, ou quinta fase, retoma a revolução deixada para trás pela postura conservadora da sabedoria. “A profecia é a individualização do impulso revolucionário, assim como a sabedoria é a individualização da lei; aquela está engrenada com o futuro assim como esta com o passado” (idem, 2004, p. 158). Os profetas, inicialmente, são reconhecidos por poderes resultantes de êxtases; absorvidos pelo funcionalismo das cortes e coagidos a agradar o rei, passam a ganhar destaque bíblico quando falam mal da política real: “profeta autêntico é o que tem mensagem impopular” (idem, 2004, p. 158). Suas predições, diz Frye, tratam de um futuro próximo. A fase profética amplia a fase da sabedoria. E completa: “o momento presente do profeta é o do filho pródigo alienado, um momento que rompeu com sua própria identidade no passado, mas pode a ela retornar no futuro” (idem, 2004, p. 161). A sexta fase, o evangelho, intensifica a visão profética. É, segundo Frye, “uma forma diferente de se individualizar a lei, fundada na profecia. (...) o Cristianismo vê o Antigo Testamento sobretudo como profecia, não como lei” (idem, 2004, p. 163). O Apocalipse, diz Frye, “é um mosaico de alusões ao Antigo Testamento. Isto significa que ele é uma 113 progressão de antítipos” (idem, 2004, p. 168). O autor termina a exposição da última fase demonstrando como essa fase retorna à primeira, fechando um ciclo: “No final do Livro do Apocalipse, com frases como ‘faço eu novas todas as coisas’ (21:5), e a promessa de um novo céu e de uma nova terra, alcançamos o antítipo de todos os antítipos, o verdadeiro começo da luz e do som, cujo tipo é a primeira palavra da Bíblia” (idem, 2004, p. 171).
Retomando as questões da linguagem metafórica, Frye divide as imagens naturais da Bíblia em dois níveis: “o inferior, expresso no contrato de Deus com Noé, pressupõe uma natureza a ser dominada e explorada pelo homem; o superior, expresso no contrato anterior, com Adão, ainda no Paraíso, é a natureza a que o homem pertence essencialmente” (idem, 2004, p. 171). Entre um e outro temos mais três, formando a estrutura de cinco conjuntos de imagens bíblicas: “o paradisíaco, o pastoral, o agrícola, o urbano e o da própria vida humana” (idem, 2004, p. 178). Tendo por base tais grupos imagéticos, o autor cria inúmeras relações tipológicas entre os Testamentos. A título de exemplificar sumariamente as inúmeras imagens com que o autor ilustra cada um dos conjuntos, temos, por exemplo, para a imagem paradisíaca, a redenção prefigurada na estória do Éden, que é o mundo idealizado e apocalíptico, o qual se apresenta em forma de revelação. Para a pastoral, o sacrifício de Abel torna-se tipo de Cristo. Para a agrícola, há identificação do corpo de Cristo com a árvore da vida do Jardim do Éden. E ainda o corpo de Cristo, para a imagem urbana, em lugar do templo na nova Jerusalém. Assim por diante, as imagens visuais se expandem através da linguagem.
Lembramos, como exposto inicialmente, que Frye define a palavra mito no contexto literário como sendo mythos, o mesmo que enredo ou narrativa. E temos, mais uma vez, uma referência que define os conceitos de mito e tipologia: (...) o pensamento mítico e tipológico não é racional; temos de nos acostumar a concepções que não seguem distinções ordinárias de categorias; por assim dizer, são líquidas ao invés de sólidas. Mas não são gasosas, pois tendem a manter seu volume; talvez também sua forma. (Frye, 2004, p. 211)
Para finalizarmos esta demonstração do funcionamento da Bíblia como um texto unificado e contínuo, do qual decorre um modo de ler imprescindível para a visão tipológica, apresentaremos um quadro comparativo do arranjo textual tipológico elaborado a partir das informações do autor (idem, 2004, p. 244):
Há, na organização, assim observada, uma correspondência de conteúdos estabelecida entre os dois Testamentos. O curioso, decorrente dos paralelos estabelecidos, é que, ao término do Antigo Testamento, temos o Segundo Livro das Crônicas, no qual podemos ler um decreto do rei Ciro da Pérsia, na segunda metade do sexto século a.C, sobre a volta dos judeus à terra de Israel. É um final tipo a ser preenchido na futura restauração da terra natal dos israelitas.
Obviamente que, com a reorganização dos livros na Bíblia Cristã, esse final deixa de ocupar a posição derradeira da compilação bíblica, e, realocado para junto dos livros históricos, em seu lugar, aparece o livro profético de Malaquias, cujas palavras, no fechamento do cânone cristão, possibilitam a transição para o Novo Testamento.
Daí por diante, e mais uma vez tomamos as palavras de Frye, “as grandes estruturas doutrinárias do passado, aquelas que identificamos como católicas, protestantes e similares, sempre tenderam a fazer de si mesmas antitipos da narrativa e das imagens bíblicas” (2004, p. 266), ou seja, a disposição do procedimento tipológico deixou escapar a estrutura da escrita da Bíblia para dentro dos escritos seculares.
Dado que a intenção de expor as concepções de Auerbach e Frye é a de enfatizar o quão intensa e abrangente é a relação existente entre a estrutura de composição do cânone religioso cristão e as práticas literárias dessa civilização, consideramos por finalizada a exposição do pensamento de seus dois importantes estudos, de grande influência nos estudos literários. Sob esse ponto de vista, a Bíblia representa não apenas matéria-prima para o conteúdo, mas também uma fonte de percursos lógicos, que concede primordialmente um modelo relacional para o universo literário – entre outras instituições culturais – que vem sendo praticado secularmente.
Entendemos os trabalhos de Auerbach e Frye como referências necessárias da teoria literária para que se justifique conceitualmente a proposta fundamental deste trabalho, que é o de construir um quadro referencial da TB capaz de contribuir para o entendimento das representações do povo judeu nas práticas literárias. Trata-se a exposição do trabalho dos dois autores, portanto, da exposição de um pressuposto de nossa pesquisa, que é a natureza inextricável da influência entre as práticas de retórica e leitura religiosa e a composição literária de índole não religiosa. E, nesse pressuposto, enquadra-se a idéia específica de que o tratamento concedido à figura do judeu compartilha de um universo bem mais amplo do que o das relações históricas ou pretensamente históricas entre os povos cristãos e judeus. Segundo nossa hipótese, a relação estabelecida entre os dois povos, do ponto de vista do cristianismo, é análoga à relação de suas escrituras religiosas.
Tendo em vista a explicitação do pressuposto de que a literatura está integrada à tipologia da escritura religiosa, conforme feita neste capítulo da tese, e as reflexões anteriormente feitas, acerca da TB, sob os aspectos de distinção entre cristianismo e judaísmo e posterior desmerecimento da história judaica, ilumine-nos essa ordem de reflexões com duas análises de obras da literatura brasileira.
12 PERMANÊNCIA DA TIPOLOGIA BÍBLICA NA FORMA LITERÁRIA - Percursos analíticos
Há, na literatura brasileira, um corpo de exemplos a ser explorado acerca da representação do judeu na literatura, conforme podemos averiguar pela abundância de ocorrências recenseadas no Arquivo da presenca judaica e estrangeira na literatura brasileira (cf. Marczyk, 2007). É certo que, numa investigação minuciosa, faz-se de extrema complexidade determinar os limites entre os tratamentos dados à figura do judeu e atestar se são provenientes da TB, das divergências teológicas relativas à não aceitação de Jesus como Messias ou outras formas de conceber esse povo, provenientes de leituras religiosas, e por que não míticas, mas que se pretendem históricas.
Se nem tudo que é representação do judeu pode ser entendido como proveniente do pensamento tipológico, por outro lado, é importante também lembrar que a presença da TB nem sempre está associada à representação do judeu, ao menos de forma direta. Vejamos, a título de ilustração, o seguinte trecho do poema O Cristo Aclamado, de Murilo Mendes (1994, p. 801):
É o homem de sentidos perfeitos, Previsto e anunciado desde o tempo antigo (Antes que Abraão fosse ele é). Prefigurado pelos patriarcas e profetas, O Deus coeterno ao Pai e ao santo Espírito. É ao mesmo tempo o homem contemporâneo, Que se senta à nossa mesa, rompe o pão e bebe o vinho, Conversa com as mulheres da vida E muda pelo avesso os pecadores.
Aí se encontram, ainda que repletos do ar místico que caracteriza o projeto literário modernista do autor, os mais antigos preceitos pertinentes à lógica da prefiguração, que autorizou a cristandade a absorver a escritura judaica independentemente de seu povo. No entanto, isoladamente, esse poema tem pouco a nos dizer sobre representação do povo judeu.
Em nossa busca conceitual, foi possível descrever e revelar o quão fundamental é conhecer o tratamento dado às Escrituras no que diz respeito à forma de observar a relação entre os povos, de modo a fazer notar que os fatores que envolvem a representação do judeu na cultura cristã transcendem a polêmica em torno da vinda do Messias. Trata-se assim de uma relação ambígua, por parte do cristianismo, que, se por um lado, não pode ignorar a herança judaica, por outro, propõe que seu valor seja circunstancial e condicional. O valor dado ao legado testamentário judaico está condicionado à sua associação ao universo de escritos e de exegese do cristianismo, e tem sua importância desmerecida quando visto dissociada dos preceitos tipológicos. Sob tal visão é que ocorre, no uso literário da imagem do judeu, um tratamento perverso: quer-se o judeu para que ele possa validar o cristianismo, que, de modo radical, desautoriza o credo judaico.
Temos assim, nas duas análises seguintes, essa mesma problemática vista e utilizada para finalidades distintas. No romance de Alencar, As minas de prata, afirma-se a pátria brasileira, numa conjunção entre projeto romântico de nacionalismo e representação da sociedade colonial. Faz-se, nessa síntese, uma retomada das tradições pelas quais o Brasil se formou, inserindo, em meio aos grupos sociais, a figura do judeu. Ao indagarmos a que serve essa presença judaica, observamos, como se verá na análise apresentada adiante, que o judeu é necessário como figura representativa de um passado a ser abandonado, apagado e substituído por um presente cuja identidade se forma regulada e inspirada pelos valores do cristianismo.
Jogo de ambiguidade semelhante se dá no poema de Jorge de Lima, Invocação a Israel, onde roga-se ao povo judeu, já no título, de modo a parecer que se quer sua presença. Dá-se, então, um dinâmico concurso que faz coincidirem a tradição literária moderna e a inspiração mística cristã sobre o eu do poeta que enfatiza, em seu chamamento, as ausências e faltas que o cristianismo atribui ao povo judeu. Nessa dinâmica, espelham-se tradições antigas e contemporâneas, do ponto de vista estético e religioso, de modo a fazer-se necessária a figura do israelita como forma de afirmação do caminho adotado pela tradição cristã, ali emaranhado ao projeto estético do autor. Vejamos a seguir as duas obras literárias e o uso que fazem da TB e da presença do judeu, seja para afirmar a nacionalidade, seja para afirmar um projeto estético.
4.2.1. As Minas de Prata, de José de Alencar
Em minha dissertação sobre o romance histórico As minas de prata, de José de Alencar, eu constato que os personagens, em especial os judeus, encontram na teologia católica modelos básicos de composição que lhes dão as formas tipificadas. No geral, a caracterização dos personagens desse romance absorveu muito do padrão tecnicamente construído. Isso quer dizer que apesar de criados no século XIX, foram reambientados no século XVII, e ganharam prescrições retóricas ou modelos de composição que eram aplicadas às artes seiscentistas. Em meio aos modelos elencados, temos a TB. Ela foi uma espécie de pano de fundo da constituição do enredo e de certos personagens, explorada principalmente em seu caráter enigmático, quando anuncia algo que está por vir, tendo se prestado eficientemente à trama armada no romance, que justamente joga para o futuro – na descoberta das minas de prata – a resolução do núcleo problemático apresentado na vida de seus protagonistas.
Essa perspectiva tipológica, na verdade, começa em uma ampla dimensão divina e vai se afunilando, ou se aproximando, da dimensão humana. Relaciona a vontade de Deus com a realidade primeira do homem, em analogia com criação bíblica. A América, mote de nacionalismo, é nova e paradisíaca. Igualmente o Brasil, que é também novo e significativo dentro do continente americano. E, no Brasil, temos a capital Bahia de Salvador, cujo nome já tem em si a dimensão judaico-cristã messiânica. Daí em diante, o foco narrativo fecha em seus vários personagens, os quais são caracterizados dentro dessa perspectiva de interpretação religiosa.
O autor compõe, então, um espelhamento tipológico entre a descoberta da América e a Independência do Brasil, e, com isso, faz um enaltecimento – típico do nacionalismo literário de sua época – à importância do Brasil dentro da história do continente americano:
Deus o tinha sagrado ao martírio da glória. Aos 12 de outubro de 1492 dava Colombo um mundo ao mundo. Mais de três séculos depois, na mesma data 12 de outubro de 1822, devia outro herói, D. Pedro I, dar um império à América. Essas duas datas memoráveis se olham na história do Novo Mundo, como acaso se contemplariam de longe as estátuas colossais dos dois heróis, eretas sobre gigantesco pedestal, a norte e sul do vasto continente americano. (Alencar, 1964, p. 429)
Independentemente de buscarmos conferir se há uma coincidência fatual com as datas, ou se o registro histórico quis torná-las coincidentes, o importante é notar a correspondência estabelecida entre os dois fatos. Colombo, do ponto de vista europeu, foi quem fez a América vir à luz do mundo. Um novo paraíso terrestre, tratado como se não existisse até então. Foi quem lhe deu a dimensão concreta, foi o seu co-criador porque fez esse paraíso existir segundo o que já estava designado por Deus: “Deus o tinha sagrado ao martírio da glória”. Assim sendo, sob o mesmo desígnio, o narrador espelha a data da descoberta da América, repetindo-a no marco temporal que inicia o Império do Brasil, fazendo eco à chegada do genovês, acontecida há mais de três séculos. A data de nascimento do imperador D. Pedro I corrobora mais uma vez essa rede de conexões. Ele nasceu nesse mesmo dia 12 de outubro.
No entanto, muito antes da glória do Império de Pedro I, o narrador já nos oferece uma antevisão de que o Brasil, séculos antes de se consolidar como nação, seria uma espécie de terra prometida. A narrativa começa no início do século XVII. Durante as festividades que iniciavam o ano de 1609, destacava-se o emblema representante da cidade de Salvador: uma pomba branca, sobre um campo verde, que levava no bico um ramo de oliveira, acompanhada das seguintes palavras “Assim ela voltou para a arca”. Essa imagem remete à criação bíblica, conforme nos explica o narrador:
Esse emblema recordava a tradição bíblica. A rola simbolizava a mensageira de Deus que viera anunciar ao Brasil a aurora da civilização, como no começo do mundo anunciara ao gênero humano a bonança depois do dilúvio. (idem, 1964: 328).
Séculos e séculos adiante da prática dos primeiros cristãos, o narrador ainda reproduz o mesmo pensamento basilar, descrito em Sacramentum futuri de Danielou. A analogia, como de praxe e modelo, deve retomar algo anterior, de tradição bíblica – neste caso Noé e o dilúvio –, e passa então a oferecer um sentido figurado ou tipológico a todo o conjunto. O sentido da arca, como vimos, é ser figura da Igreja que tem o papel de salvar, por meio da água do batismo, os homens de seus pecados. A volta da pomba significa, então, que a cidade de Salvador, colônia ainda portuguesa, anuncia junto com os sinos que fazem presente o poder da Igreja, os protagonistas que serão os germes e representantes adâmicos da nação brasileira, a qual se configurará dois séculos mais tarde, no então presente do autor. Esses dois protagonistas, Cristóvão de Garcia de Ávila – descendente de família nobre que chegara do Reino junto com Tomé de Souza, em 1549, e Estácio Correia – brasileiro miscigenado de índio e de português, herdeiro das supostas minas de prata – formarão pares, respectivamente, com Elvira de Paiva – “filha de um belo tipo da raça hebraica” (Alencar, 1964, p. 290), e Inesita de Aguilar, que era filha de fidalgo castelhano. O povo brasileiro se formaria, então, segundo a concepção do autor, da reunião de portugueses, espanhóis, índios e judeus. No entanto, a parte composta de judeus teria que passar por uma transformação. Vejamos.
Elvira era filha de Luísa de Paiva, cuja caracterização era de conversa ou de descendente de convertidos, os chamados cristãos-novos. Luísa de Paiva tinha, portanto, “restos de sangue impuro” (Alencar, 1964, p. 394). Tal personagem demonstrava que sua hereditariedade era transpassada pelo mal e, por vezes, até por forças demoníacas, ainda que em condição de beata, radicalmente religiosa. Curiosamente, Luísa de Paiva, tendo sido construída sob o perfil de malignidade, foi, a certa altura da narrativa, retirada da trama sem maiores justificativas, deixando o espaço necessário para que sua filha atuasse retamente e realizasse seu destino com sucesso, conforme a expectativa criada para o leitor. Tal qual explicado na dissertação (cf. Marczyk, p. 74), Elvira coloca ponto final a uma genealogia de linhagem bíblica longínqua, representada pela analogia de sua mãe com a figura bíblica de Judite, removendo de vez, segundo a concepção cristã, sua parcela judaica. O caminho para tal purificação foi organizado conforme os padrões de santificação dos dogmas da Igreja, que traçaram para Elvira uma conexão entre a queda edênica e um modelo de pureza, intermediados por um processo de martirização que incluíram um padecimento físico e moral, uma espécie de via crucis que transferiu sua conduta humana para uma conduta divina, percorrendo o mesmo caminho do tipo Eva-pecadora para Maria-virgem. Esse processo de purificação aconteceu por meio de uma gravidez, permeado pela escuta e presença divina, gerando para Elvira uma salvação de caráter transcendente, uma espécie de santificação que reelegeu alguém que, na tradição, era biblicamente eleito, com o intuito de promover uma descendência purificada do mal e, extensivamente, impregnar de pureza, santidade e virtude à comunidade brasileira, que se formava a partir de sua descendência. Casou-se com Cristóvão, cujo nome contém a palavra Cristo, e cuja genealogia e nobreza podem ser encontradas em registros históricos. Elvira também projeta o arquétipo feminino bíblico por meio de seu nome, que contém a palavra Eva. O casal foi organizado, ao final da narrativa, para reviver em um novo Éden, correspondendo ao modelo prefigurado de Adão e Eva, na cidade de Salvador prefigurada no dilúvio, repetido na linha do tempo e desvendado em leitura tipológica, provando que para tal união e sua descendência não haveria espaço para o acaso.
A presença judaica na narrativa não se resumiu a essa oposição transitiva de mãe judia para filha cristã. Há, na ambientação colonial feita por Alencar, uma série de outros personagens judeus. No entanto, se nem Luísa de Paiva, que se esforçava para transitar de sua condição de judia para o status de cristã, conseguiu passar pelo crivo egrégio, o que se dirá dos demais personagens que eram efetivamente caracterizados como judeus? Eles apenas serviram para engrossar o caldo representativo da presença judaica em terras brasileiras como sendo algo que não poderia aqui permanecer. Vejamos, sucintamente, como foram caracterizados esses personagens, agora redimensionados em suas características tipológicas.
Samuel Levi, uma autoridade rabínica, foi criado para ser um usurário, sendo que o empréstimo de dinheiro a juros é de natureza pecaminosa do ponto de vista da história eclesiástica. Ademais, a prática religiosa na casa de Samuel resumia-se a um sinédrio organizado às escondidas, na calada da noite, caracterizado como uma espécie de reunião conspiratória, tal qual vimos nos PSS, onde religião e dinheiro se confundiam, desmoralizando a prática religiosa. Afora isso, o rabino foi acusado de traidor por colaborar com invasores holandeses e, consequentemente, condenado ao degredo.
Raquel Levi, a pedido do pai Samuel, também se tornou colaboradora da presença invasora holandesa. Seu modelo foi trabalhado em conformidade com personagens bíblicas, Ester e Judite, que são tidas como heroínas por ajudarem a salvar seu povo. Entretanto, ao serem revivificadas pela personagem Raquel, tenderam a incorporar um modelo moral pouco apropriado para a imagem de uma mulher. Além disso, Raquel é caracterizada como assimilada cultural, condição que favorece a exaltação dos jovens cristãos por quem ela se apaixona, em detrimento de sua própria condição de judia. E mais uma vez, estamos diante de um conflito de geração, estabelecido entre Raquel e seu pai, tal qual já observamos entre Elvira e sua mãe. Ambas, Raquel e Elvira, tipologizam a condição de que os novos valores estão aptos a objetar os velhos, neste caso, explicitamente os valores cristãos favorecidos em relação aos valores judaicos.
Joaquim Brás, ou Brás Judengo, é um taberneiro criado sob uma natureza maligna, de aparência desproporcionalmente monstruosa, demoníaco, sem religiosidade, oportunista, ganancioso, contrabandista, incoerente, contraditório, pecaminoso, dono de um traçado rico de personalidade que contrastava perfeitamente com o quadro moralizador da oficialidade católica. Seu âmbito de atuação extrapolava os domínios de terras brasileiras. Era delator do reino, onde negociava com informações secretas sobre as minas de prata. Coagido por autoridade eclesiástica inquisitorial, aderiu à palavra cristã. Mesmo assim, foi preso e pendurado no pelourinho, satisfazendo o leitor que acaba por desejar ou concordar que se faça a devida justiça a um personagem que tipifica tão perfeitamente, com sua identificação judaica, o arquétipo da alteridade não-cristã.
Mais detalhadamente, Luísa de Paiva, como representante da raça hebraica, é traçada segundo a sensualidade. Ela é comparada à Judite bíblica que, por meio de sua beleza, encantou suas presas, criando um ardil para alcançar e degolar o chefe do exército que oprimia e humilhava a sua comunidade; e é também comparada a Madalena, figura judaica bíblica neotestamentária presente nos quatro evangelhos. Das duas personagens bíblicas podem-se extrair pontos de vista ambíguos, no sentido de que Judite tanto pode ser considerada heroína de rara beleza, como também possuidora de natureza assassina; Madalena tem sua imagem construída ora sob um caráter sagrado, ora sob um caráter pecador. Luísa de Paiva, comparada a uma e a outra, reforça sua natureza dupla de judia ou conversa, ora participante do Antigo, ora do Novo Testamento. Sofre um apagamento na narrativa para dar espaço à protagonista Elvira, do mesmo modo como a TB apaga o judaísmo para abrir espaço ao evento cristão.
Fora do âmbito judaico, mas em relação direta com ele, temos um personagem de extrema importância na narrativa, porque ambientado exemplarmente na atmosfera dos seiscentos, que é o Padre Molina. Molina, em trajetória picaresca, almejou ser membro da ordem da Companhia de Jesus. Ter alcançado essa posição foi uma forma tipológica de responder a uma prenunciação feita por sua mãe: Quando estava sendo gestado, sua mãe fez um pedido a Inácio de Loiola, o mais importante fundador da Companhia de Jesus, para que seu filho nascesse à sua imagem e semelhança. É, portanto, pós-figuração quando observado ao lado da imagem do Santo: “era tal a semelhança, que a primeira vista se julgaria que o vulto do fundador da Ordem de Jesus destacara da moldura” (Alencar, 1964, p. 323). É prefiguração quando “figura solene e inspirada” (idem, 1964, p. 535) demonstra sua “voz possante e arrebatada [que troava] pelas abóbadas do templo augusto, onde meio século depois devia ecoar a palavra eloquente de Vieira” (idem, ibidem). (Marczyk, 2006, p. 42).
Desse modo, há uma constituição tipológica que é prospectiva, a partir de Loyola, passando por Molina em direção a Vieira, em que todos os três formam parte de um mesmo desenho, uma “recapitulação” permanente no decorrer do tempo, como visto, anteriormente nas palavras de Irineu (p.14), espécie de assinatura de Deus em sua obra, para demonstrar que tudo faz parte de um único plano divino.
O papel de Molina, em relação à presença judaica, é de fundamental importância. Por um lado, por ser um inquisidor, faz interrogatórios persuasivos com Brás Judengo (cf. Alencar 1964, p. 719-721) e com Luísa de Paiva (cf. idem, 1964, p. 726), colaborando com a má sorte que foi destinada a ambos na narrativa. Por outro, a autoridade do padre autentica o papel de Elvira como uma escolhida, quando a livra do destino traçado por sua mãe Luísa, que a desviaria da responsabilidade de gerar uma descendência do povo brasileiro, mandando-a para um convento.
Nesse conjunto de personagens, que são trazidos ao romance segundo formas apregoadas pela ideologia vigente do cristianismo, constrói-se o percurso tipológico da sucessão e do apagamento, tal qual se faz na relação entre as 125 escrituras judaica e cristã. Subjaz dessa forma às descrições não-tipológicas – do avarento, traidor, da impura, etc. – a forma tipológica de pensar, pela qual o Brasil funda-se enquanto nação, a partir do abandono do antigo, ou da transformação do velho em novo, regida por um vir-a-ser no qual os imigrantes judeus são tipos dos antítipos cristãos aos quais e pelos quais a nova pátria será ostentada.
4.2.2. Invocacao a Israel, de Jorge de Lima
Observaremos agora o poema “Invocação a Israel”, de Jorge de Lima, segundo a perspectiva que ele cria do povo judeu e o uso que faz da TB. Antes, porém, de adentrarmos o poema propriamente dito, lembremos da forma como o autor concebia o fazer poético: “Para mim, a Poesia será sempre uma revelação de Deus, dom, gratuidade, transcendência, vocação.” (Lima, 1997, p. 36). Jorge de Lima trabalhou conjuntamente com Murilo Mendes numa proposta poética que tinha por objetivo restaurar a poesia em Cristo, afirmando que optar por essa linha seria atuar, conforme suas palavras, em “a mais alta poesia, a mais alta verdade, o nosso destino mesmo, e tivesse, não uma tradição regional ou nacional, mas sim a mais humana e universal das tradições, que é a bíblica” (Lima, 1997, p. 45). O poema “Invocação a Israel” faz parte do livro A tunica inconsutil (1938), e segundo Mário de Andrade (cf. Lima, p. 89), Jorge de Lima queria que o livro todo fosse considerado um único poema. A propósito de sua relação com a tradição literária da religião cristã, Mário de Andrade define A Tunica Inconsutil como um livro que rastreia “poética e tematicamente a Bíblia, às vezes em imitações perfeitamente voluntárias e perceptíveis ao primeiro golpe de vista” (Lima, 1997, p. 89). Diz ele, ainda, que “o poeta se despreocupa de inventar” (Lima, 1997, p. 89), mas esse não inventar não está aliado à falta de imaginação, muito pelo contrário, compara-o aos grandes poetas que compunham seus poemas emulando os clássicos: “Se Jorge de Lima tivesse vivido alguns séculos atrás teria sido por certo um desses grandes plagiários à feição de Shakespeare ou de Camões (...) da mesma qualidade que eles” (Lima, 1997, p. 88). E, levando em conta o senso de ruptura que muitas vezes se projeta dedutivamente à poesia modernista – devido a esse movimento estético visar desconstruir os sistemas da arte tradicional –, é extremamente significativo para nossa visada tipológica conceber o poeta como um emulador, conforme a avaliação crítica de Mário de Andrade. Jorge de Lima utiliza o cânone bíblico não apenas como material inspirado, mas também como modelo de inspiração de seus escritos, cuja composição adere doutrinária e retoricamente à lógica da TB. Como se verá, essa adesão aos fatores exegéticos que unificam os dois testamentos do cristianismo tem como decorrência o afastamento e a denúncia dos erros que se creem ter cometido o povo ao qual está associado o primeiro testamento. Vejamos como isso acontece no poema.
Estamos diante, conforme diz o título, de uma invocação. E uma invocação é uma súplica, um pedido de socorro que, na tradição da epopéia, o poeta fazia para que sua obra fosse inspirada pelos deuses. O poema inicia, desse modo, com palavras que invocam Israel, o povo escolhido por Deus, para representar o tempo divino da eternidade: passado, presente e futuro (linha 4). Mas essa invocação tem uma natureza estranha àquela que usualmente invoca a inspiração poética. Não é um chamado para submeter-se, como costuma fazer o poeta, à presença invocada. Ele está invocando o povo de Israel para, em seguida, reuni-lo (convocar – linha 6) e, posteriormente, explicar-lhe ou esclarecer-lhe qual o seu papel a ser exercido no mundo. É uma postura superior, de quem ocupa uma posição que permite aconselhar.
O poema abre com um chamado a Israel, sinônimo de povo hebreu. Uma vez invocado, pela força do título, espera-se que ele se apresente e ouça o que a ele foi expresso pelo poeta. Assim acontecendo, Israel vê-se diante de palavras que exaltam sua condição de povo escolhido e inspirado por Deus. Pressupondo a eficiência da exaltação inicial oferecida, consequentemente, o leitor, se pertencente ao povo escolhido por Deus, torna-se presa do discurso pregador que se segue, pois a voz poética passa a falar em nome da vontade de Cristo. Essa condição é a que o faz invocar com sentimento de superioridade.
Desse modo, podemos entender que a invocação a Israel não foi feita com a finalidade de obter inspiração. O poeta trabalhava previamente inspirado pela presença divina, a mesma que supostamente, há milhares de anos, havia inspirado as poderosas palavras bíblicas. Assim sendo, o discurso poético proferido é instrumento para fazer falar Deus sua mensagem extratemporal (linha 8).
13 PERMANÊNCIA DA TIPOLOGIA BÍBLICA NA FORMA LITERÁRIA
Na sequência do poema, aparece designada, como espécie de justificativa para a pregação cristã, uma série de impropérios a serem notados e que, em função deles, se faz necessária a (re)orientação religiosa: povo duro e rebelde (linha 8), povo contraditório (linha 9), demitido e readmitido (linha 9), que se afastou da face familiar de Deus (linha 11), filho pródigo (linha 13) e saudoso da casa paterna que abandonou (linha 15), faminto de profecias (linha 13), que vaga no próprio deserto interior (linha 14), e que, além de matar os próprios profetas (linha 20), compactuou com a morte do maior deles: Jesus Cristo (linha 21). E mais uma vez, temos aqui, como já observado anteriormente nos exemplos trazidos da tradição dos Padres, uma atribuição de impertinência ao povo que ficou preso à enganosa (Linha 22) e, portanto, ultrapassada “velha Lei”.
Feita a acusação, conforme o modelo profético, segue a forma de reparação. O poeta diz a Israel ser ele a carne e o sangue do Messias (linha 6), o mesmo Messias que ele, hebreu, não aceitou. Na condição de onisciente e de onipresente, que participa uno de Deus-pai sentado a sua direita, Cristo continua à espera de um entendimento e de uma aceitação (linha 7). Há uma instigação para que Israel se volte para o Corpo místico (linha 18), que é o corpo de Cristo e, por extensão, sinônimo da Igreja. Ele deve acatar a esse chamado, porque essa é a sua vocação (linha 16), é desse modo que Israel poderá recuperar a sua primazia entre os povos (linha 17), reabsorver a Sabedoria (linha 23) e participar da Igualdade presente na Grande comunhão (linha 24) pressuposta na comunidade de Cristo (linha 33), que é justamente a Igreja colocada em lugar da “longínqua Sinagoga” (linha 34), querendo significar com a palavra longínqua não um afastamento geográfico, e sim algo que se perdeu no grande distanciamento do tempo.
O poema retoma, então, motivos básicos da representação do judeu, ora de caráter histórico, como a participação na morte de Jesus, ora de caráter religioso, como a não aceitação de Jesus como sendo o Messias, ou ainda, dentro desse caráter religioso, o não entendimento das palavras proféticas como tendo sido realizadas. No entanto, o núcleo da mensagem, aquele que ilumina todas as colocações circundantes, é a menção à tradição poética, aquela que vem se realizando de geração em geração. Há uma explícita relação de continuidade entre a proferição feita por Deus para o povo escolhido – que resultou na escrita do mais importante livro do mundo monoteísta – e a inspiração divina que fez o poeta redigir suas linhas. Ambos, povo de Israel e o poeta, beberam da fonte da grande poesia, estabelecendo uma relação de missão e continuidade, pois foram insuflados da mesma elevação divina, que produz a matéria poética escrita: a nova medida da poesia (linha 23), que em primeira instância atualiza a mensagem divina (linha 5), por meio do poema cristão, em relação à mensagem anteriormente dada ao povo judeu, e ainda, em instância concomitante, como qualquer poema que abre seus vários significados ao leitor, a nova medida também representa a criação modernista do autor em relação aos seus poemas anteriores, de métrica parnasiana.
E o povo judeu, tal como o poeta cristão, é visado e estrangeiro no mundo (linha 32), muitas vezes insolente no meio do grupo em que vive, ou repreensível do ponto de vista das autoridades porque se colocam como Eleitos da grande poesia (linha 26). É dessa grande poesia, a escrita bíblica, que o poeta se sente parte e herdeiro: “sinto-me enxertado em ti, nasço de tuas raízes espirituais como nasço da verdade una, continuada e permanecida em mim” (linha 11). Ele entende que escrevendo sob tal inspiração divina, ele deve se voltar para o judeu e alertá-lo que ele retorne à casa paterna da qual tem nostalgia (linha 15) e que, desse modo, sacie sua fome de profecia (linha 13) por meio desse profeta-poeta que fala segundo o modelo tradicional do “relato de vocação”: invocação, inspiração, acusação e reparação, onde “se representa como o instrumento de Deus” (Dutra, 1997, p. 149), ou onde faz “afirmação da iniciativa divina na direção de Israel através do carisma do mandato ou da palavra” (Schökel, 2004, p. 36). Cabe ao processo de reparação, trocar a Sinagoga pela Igreja, aceitando a Túnica Inconsútil, a enjeitada (linha 36), que nas palavras do próprio Jorge de Lima, “não é outra senão a túnica de Cristo, a única que não se pode dividir” (Lima, 1997, p. 46). Desse modo, finalizamos esse exemplo analítico com a observação pertinente de Waltensir Dutra, que, ao analisar a evolução poética de Jorge de Lima, diz que:
(...) é preciso não esquecer que cada motivo demanda sua linguagem própria, e seria inteiramente impossível falar da igrejinha provinciana com as mesmas frases rebuscadas do soneto sobre motivos clássicos. O poeta nunca esteve nos templos clássicos, e para falar deles só poderia adotar um tom convencional; mas ao tratar de seu ambiente, não poderia deixar de usar a linguagem desse ambiente, sob pena de se tornar mais do que falso ou artificial, sob pena de se tornar ridículo (Lima, 1997, p. 139).
Completamos tais palavras dizendo que para o poeta compor um autêntico poema tecido sob a inspiração religiosa e católica, profética ou teológica, e, igualmente, para um leitor compreender ou interpretar esse mesmo âmbito de criação, ambos – poeta e leitor – devem estar aparelhados dos mesmos elementos típicos da catolicidade, aqueles que perfazem os documentos da igreja e regem a leitura exegética da Bíblia. Murilo Mendes, ao se referir a outro livro de Jorge de Lima, Invencao de Orfeu, também de cunho religioso, diz que há certas poesias que estão “ao alcance da imediata percepção do homem mediano” (Lima, 1997, p. 129), mas há outras que “reclamam cultura mais elevada, maior poder de penetração espiritual, hábitos de meditação, além de certa familiaridade com certas ‘correspondências’ e analogias próprias ao clima da literatura e da religião” (idem, ibidem).