Bibliologia 2

Pastor Evangélico

1 APÓCRIFOS, PSEUDOPÍGRAFOS E PERGAMINHOS

12.1 Escritos Apócrifos

Nas Bíblias de edição da Igreja Católica Romana, o total de livros é de 73, porque essa igreja, desde o Concílio de Trento, em 1546, incluiu no cânon do Antigo Testamento 7 livros apócrifos, além de 4 acréscimos ou apêndices a livros canô-nicos, acrescentando, assim, ao todo, 11 escritos apócrifos.

A palavra apócrifo significa literalmente, escondido, oculto, isto em referência a livros que tratavam de coisas secretas, misteriosas, ocultas. No sentido religioso, o termo significa não genuíno, espúrio, desde sua aplicação por Jerônimo. Os apócrifos foram escritos entre Malaquias e Mateus, ou seja, entre o Antigo e o Novo Testa-mento, numa época em que cessara por completo a revelação divina; isto basta para tirar-Ihes qualquer pretensão de canonicidade. O Historiador Flávio Josefo rejeitou-os totalmente. Nunca foram reconhecidos pelos judeus como parte do cânon hebraico. Jamais foram citados por Jesus nem foram reconhecidos pela igreja primitiva.

Jerônimo, Agostinho, Atanásio, Júlio Africano e outros homens de valor dos primitivos cristãos, opuseram-se a eles na qualidade de livros inspirados. Apareceram pela primeira vez na Septuaginta - tradução do Antigo Testamento feita do hebraico para o grego. Quando a Bíblia foi traduzida para o latim, em 170 d.C., seu Antigo Testamento foi traduzido do grego da Septuaginta e não do hebraico.

Quando Jerônimo traduziu a Vulgata, no início do Século V (405 d.C.), incluiu os apócrifos oriundos da Septuaginta, através da Antiga Versão Latina, de 170 d.C., porque isso lhe foi ordenado, mas recomendou que esses livros não poderiam servir como base doutrinária.

12.1.1 Livros Apócrifos do Antigo Testamento

Os 7 livros apócrifos constantes das Bíblias de edição católico-romana são: TOBIAS (Após o livro canônico de Esdras), JUDITE (após o livro de Tobias) SABEDORIA DE SALOMÃO (após o livro canônico de Cantares), ECLESIÁSTICO (após o livro de Sabedoria), BARUQUE (após o livro canônico de Jeremias), 1 MACABEUS, 2 MACABEUS (ambos, após o livro canônico de Malaquias). Os 4 acréscimos ou apêndices são: ESTER (a Ester, 10.4 -16.24), CÂNTICO DOS TRÊS SANTOS FILHOS (a Daniel, 3.24-90), HISTÓRIA DE SUZANA (Daniel, cap.13), BEL E O DRAGÃO (a Daniel, capo 14). Os livros rejeitados são: 3 ESDRAS, 4 ESDRAS, A ORAÇÃO DE MANASSÉS. A Igreja Católica Romana aprovou os apócrifos em 18 de abril de 1546, para combater o movimento da Reforma Protestante, então recente. Nessa época, os protestantes combatiam violentamente as novas doutrinas romanistas: a doutrina do Purgatório, a doutrina da oração pelos mortos, a doutrina da salvação mediante obras etc. A Igreja Católica Romana via nos apócrifos base para essas doutrinas, e, apelou para eles, aprovando-os como canônicos.

12.1.2 Razões da Rejeição dos Livros Apócrifos

A razão porque 66 livros da Bíblia se harmonizam entre si é que a mesma mente divina inspirou a cada escritor. Se, por exemplo, João tivesse escrito algo que não concordasse com as obras de Moisés, seríamos obrigados a rejeitar seu Evangelho, as Epístolas e o livro do Apocalipse. Os primeiros livros constituem o critério para todos os outros chamados inspirados. Se as doutrinas dos livros apócrifos não concordam em cada ocasião com aquilo que Moisés escreveu, não devem achar-se no Cânon da Palavra Inspirada. Os livros apócrifos ensinam doutrinas que são contrárias ao que Moisés e outros profetas escreveram. Por essa razão não foram colocados entre os outros livros do Velho Testamento, nos dias de Esdras. Nem Cristo nem os apóstolos citaram os livros apócrifos. S. Jerônimo os rejeitou da Bíblia Latina, por não estarem escritos em hebraico.

12.1.2.1 Ensino da Arte Mágica

Tobias 6.5-8. Então, o anjo lhe disse: toma as entranhas deste peixe e guarde para ti seu coração, o fel e seu fígado. Pois são necessários para medicinas úteis [...] Logo, Tobias perguntou ao anjo e lhe disse: Eu te rogo, irmão Azarias, para quais remédios são boas essas coisas, que tu pediste separar do peixe. E o anjo, respondendo, lhe disse: Se puseres um pedacinho do seu coração sobre as brasas, seu fumo há de espantar toda a espécie de demônios, seja de um homem ou de uma mulher, de modo que não possam mais voltar a eles.

12.1.2.2 Dar Esmolas Purifica do Pecado

Tobias 12.8,9. A oração é boa como o jejum e esmolas; é melhor do que guardar tesouros de ouro, pois, esmolas livram da morte, e é o mesmo que espia os pecados e conduz à misericórdia e vida eterna. Se ofertas caridosas pudessem expiar os nossos pecados, não teríamos necessidade do sangue de Jesus Cristo.

12.11.2.3 Pecados Perdoados pela Oração

Eclesiástico 3.4. Quem amar a Deus, receberá perdão de Seus pecados pela oração. Os pecados não se perdoam pela oração. Se fosse assim, não teríamos necessidade de Jesus. Todos os povos pagãos fazem orações, mas os pecados não se perdoam somente pela oração. Pv 28.1; 1Jo 1.9. Só Cristo, nosso Advogado, pode perdoar o pecado.

12.1.2.4 Orações pelos Mortos

2 Macabeus 12.42-46, E, fazendo uma arrecadação, mandou doze mil dracmas de prata a Jerusalém para ser oferecido um sacrifício pelos pecados dos mortos, e fez bem em pensar religiosamente na ressurreição, (pois, se não tivesse esperança que os que haviam sido mortos ressuscitassem novamente, haveria de ser supérfluo e em vão orar pelos mortos). E considerava que, os que haviam adormecido no temor de Deus, alcançaram para si muita graça. A Igreja Católica afirma que estes versículos lhe autorizam a doutrina do purgatório. Orações e missas pelos mortos são aceitas e o devoto católico crê nelas. Excede a imaginação a quantidade de dinheiro que aflui todos os anos aos cofres da igreja pelas missas em favor dos mortos.

12.1.2.5 O Ensino do Purgatório

Sabedoria 3.1-4. Mas, as almas dos justos estão na mão de Deus; e o tormento da morte não as tocará. Aos olhos dos ignorantes pareciam eles morrer e sua partida foi considerada desgraça. E, sua separação de nós, por uma extrema perda. Mas, eles estão em paz. E, embora aos olhos dos homens sofram tormentos, sua esperança está plenamente na imortalidade. A Igreja Católica baseia a sua crença da doutrina do purgatório nestes versículos citados: Embora aos olhos dos homens sofram tormentos, sua esperança está plenamente na imortalidade. Os tormentos nos quais se acham os justos, diz a Igreja, referem-se ao fogo do purgatório, onde os pecados estão sendo expiados. Sua esperança está plenamente na imortalidade, pois a igreja interpreta isso, declarando que após suficiente tempo de sofrimento no meio do fogo, poderão passar para o céu. 1Jo 1.7. Esse ensino aniquila completamente a expiação de Cristo. Se o pecado pudesse ser extinto pelo fogo, não teríamos necessidade do nosso Salvador.

12.1.2.6 O Anjo Relata uma Falsidade

Tobias 5.15-19. O anjo disse-lhe (a Tobias): Guiá-lo-ei para lá (o filho de Tobias) e o farei voltar a ti. E Tobias lhe disse (ao anjo): Eu te rogo, dize-me, de que família ou de que tribo és tu? E Rafael, o anjo, respondeu: [...] Eu sou Azarias, o filho do grande Ananias. Respondeu-lhe Tobias: Tu és de uma grande família. Se um anjo de Deus mentisse acerca de sua identidade, tornar-se-ia culpado de violação do nono mandamento. Lc 1.19. Confrontando esta declaração com o que está registrado no livro de Tobias, compreenderemos logo porque Cristo nunca Se referiu aos livros apócrifos.

12.1.2.7 Uma Mulher Jejuando Toda Sua Vida

Judith 8.5,6. E ela fez para si um aposento separado no andar superior de sua casa no qual vivia com suas servas. Seu vestido era de cabelo de crina e ela jejuava todos os dias de sua vida, com exceção dos sábados, das luas novas e demais festas da casa de Israel. Esta passagem é parecida a outras lendas católicas romanas, com respeito a seus santos canonizados. Uma mulher dificilmente jejuaria toda sua vida, com exceção de um dia da semana e algumas outras ocasiões durante o ano. Cristo jejuou quarenta dias, porém não toda a Sua vida.

A igreja católica apega-se a estes livros não inspirados porque eles sancionam alguns de seus falsos ensinos, como: oração pelos mortos, salvação pelas obras, a doutrina do purgatório, dar esmolas para libertar as pessoas do pecado e da morte.

2 12 - APÓCRIFOS, PSEUDOPÍGRAFOS E PERGAMINHOS

12.1.3 Apócrifos do Novo Testamento

Trata-se de Evangelhos, Atos de Apóstolos e Epístolas, todos lendários e espúrios, que começaram a aparecer no século II. Foram forjados, na maior parte, e assim 11 Faculdade e Seminário Teológico Nacional Ensino à Distância reconhecidos desde o princípio. São tão cheios de histórias ridículas e indignas a respeito de Cristo e dos apóstolos, que nunca foram reconhecidos como divinos, nem incorporados à Bíblia. São tentativas deliberadas de preencher lacunas na história de Jesus, como é apresentada no Novo Testamento, com o fim de estimular idéias heróicas através de falsas afirmações. Sabe-se que houve uns 50 "Evangelhos" espúrios, além de muitos "Atos" e "Epístolas". A grande quantidade desses escritos forjados fez a Igreja Primitiva ver quanto era importante distinguir entre os falsos e os verdadeiros. Dizem que Maomé tirou largamente desses livros as idéias que tinha acerca do cristianismo. Neles está a origem de alguns dogmas da Igreja Romana. Não devem ser confundidos com os escritos dos “Pais Apostólicos". Vai, aqui, uma lista de alguns dos livros apócrifos mais conhecidos:
Evangelho de Nicodemos. Inclui os "Atos de Pilatos", pretenso relatório oficial do julgamento de Jesus ao imperador Tibério. Foi produzido entre os séculos II e V. Puramente imaginário.
Proto Evangelho de Tiago. Narrativa que vai do nascimento de Maria ao massacre dos inocentes. Contos que começaram a circular no século II. Foi completado século
O Passamento de Maria. Repleto de milagres ridículos culmina com a remoção do "seu corpo imaculado e precioso" ao Paraíso. Escrito no século IV, com o aparecimento do culto à Virgem.
Evangelho Segundo os Hebreus. Adições aos Evangelhos canônicos, com algumas frases atribuídas a Jesus. Meados de 100 d.C.
Evangelho dos Ebionitas. Compilado dos Ev. Sinópticos, no interesse da doutrina ebionita.
Evangelho dos Egípcios. Conversas imaginárias entre Jesus e Salomé. Entre 130 e 150 d.C. Usados pelos sabelianos.
Evangelho de Pedro. Meados do Século II. Buscado em Evangelhos canônicos. Escrito no interesse de doutrinas docetistas e anti-judaicas.
Evangelho de um Pseudo-Mateus. Século V. Falsa tradução de Mateus, repleta de milagres da infância de Jesus.
Evangelho de Tomé. Século II. Vida de Jesus, dos 1 aos 12 anos. Apresenta-o operando milagres para satisfação de seus caprichos infantis.
Natividade de Maria. Obra de ficção Século VI, premeditada, para fomentar o culto à Virgem. Histórias de visitas diárias de anjos a Maria. Com o surto do papado, tornou-se imensamente popular.
Evangelho Arábico da Infância. Século VII. História de Milagres operados durante a estada no Egito.
Evangelho do Carpinteiro José. Século IV. Originou-se no Egito. Dedicado à glorificação de José.
Apocalipse de Pedro. Pretensas visões do céu e do inferno concedidas a Pedro. Eusébio chamou-o "espúrio".
Atos de Paulo. Meados do Século II. Romance que aconselha a continência. Contém a suposta Epístola aos Coríntios que se perdeu.
Atos de Pedro. Fim do século II. Um caso de amor com a filha de Pedro. Conflito com Simão, o Mago. Contém a história do "Quo Vadis".
Atos de João. Fim do século II. História de uma visita à Roma. Puramente imaginária. Contém um quadro revoltante de sensualismo.
Atos de André. História de André, que persuade Maximila a evitar relações com o marido, o que resultou no martírio dele.
Atos de Tomé. Fim do século II. Como os Atos de André, foi criado com interesse da abstinência de relações sexuais.
Carta de Pedro a Tiago. Fim do século II. Ataca violentamente Paulo. Pura invenção no interesse dos ebionitas.
Epístola de Laodicéia. Diz ser a que é referida em Colossenses 4.16. Um aglomerado de frases de Paulo
Cartas de Paulo á Sêneca. E outras deste àquele. Invenção século IV. Objetivo: ou recomendar o cristianismo aos seguidores de Sêneca, ou recomendar este aos cristãos. A principal característica destes escritos é o fato de serem obras de ficção, que se apresentam como história, mas em sua maior parte são absurdos por tal forma que a falsidade deles evidencia-se por si mesma.
Cartas de Abgar. Estas podem ter alguma base, Eusébio assim pensava. Conta que Abgar, rei de Edessa, estando enfermo, ouviu falar do poder de Jesus. Escreveu-lhe uma carta pedindo que fosse curá-lo, ao que Jesus respondeu por escrito: “... é necessário completar aquilo para o que fui enviado; depois disso serei recebido em cima, por aquele que Me enviou. Quando, pois, Eu for recebido no céu, enviarei um dos Meus discípulos que te curará". Contam que foi Tadeu o enviado, a quem mostraram as Cartas a que ficaram arquivadas em Edessa. Possivelmente, Jesus mandou um recado verbal, que eles registraram.

3 12 - APÓCRIFOS, PSEUDOPÍGRAFOS E PERGAMINHOS

12.2 Os Pseudopígrafos

São os livros escritos sob um nome fictício. Para outros são os escritos judaicos, extra bíblicos, não inspirados do Antigo Testamento. São considerados de valor no estudo do cânon, e alguns estudiosos os incluem no mesmo grupo dos apócrifos. Dentre os pseudopígrafos destacam-se:
O Livro de Enoque. A crítica textual não tem condições de localizá-lo exatamente em determinada época, mas deve pertencer ao período de 200 a.C. e as primeiras décadas do primeiro século da nossa era.
A Assunção de Moisés. Deve ter sido publicado no tempo de Cristo e procura narrar a história do mundo, em forma de profecia, desde Moisés até ao tempo do autor.
Os Oráculos Sibilinos. São obras judaicas que, à imitação das profecias pagãs de Sibila, pretendem divulgar o pensamento hebraico entre os gentios.
O Livro dos Jubileus. É um comentário sobre Gênesis, frisando que a Lei foi observada desde os mais remotos tempos. Recebe este nome pelo fato de dividir a história em períodos jubileus, isto é, quarenta e nove anos (sete semanas de anos).
O livro dos Segredos de Enoque (2 Enoque). Descreve pormenorizadamente os sete céus e antecipa em mil anos o reinado de Deus na terra.
O Apocalipse de Baruque. Alguns o atribuem ao escriba de Jeremias. Foi escrito, segundo os críticos, nas últimas décadas do primeiro século da nossa era.
O Apocalipse de Abraão. É uma obra judaica com passos de literatura do cristianismo. Pertence ao século I da nossa era.
Os Salmos de Salomão. Coletânea de dezoito salmos, escrita por um fariseu, que viveu na segunda metade do primeiro século da era cristã. O estilo é bastante semelhante ao dos Salmos que temos na Bíblia.
A Carta de Aristéias. É interessante por informar-nos das supostas circunstâncias em que foi feita a tradução do Velho Testamento hebraico para o grego.
Macabeus, 3 e 4. No III encontramos uma tentativa de massacre dos judeus no reinado de Ptolomeu Filopator. O 4 é um tratado filosófico ilustrando a tese do autor no caso dos mártires macabeus. Embora haja referências a estes livros na Bíblia (2Tm 3.8; Jd 9 e 14) não necessitamos aceitá-los como canônicos.
A literatura pseudopígrafa foi produzida entre 200 a.C., e 200 a.D. com o objetivo de encorajar e consolar a nação judaica durante as invasões dos sírios e romanos.

12.3 Os Rolos do Mar Morto

No verão de 1947, tiveram início na Palestina, por obra de casual descoberta de um jovem beduíno, chamado Moâmede ad-Dib, encontros arqueológicos de excepcional importância: os chamados manuscritos do Deserto da Judéia, do Mar Morto ou ainda Manuscritos de Qunran. Ele tinha perdido uma cabra, por isso subiu penosamente a encosta, chamando pelo animal que continuava a elevar-se, a procura de alimento. Nesta sua busca ele deparou com uma cavidade, atirou para dentro dela uma pedra, apurando o ouvido para escutar a queda, a fim de determinar a sua profundidade. Qual não foi a sua surpresa, quando em vez do esperado ruído, seu ouvido percebeu um típico som de louça. Com esforço conseguiu olhar para dentro, notando com surpresa a existência de vários objetos cilíndricos, de grande tamanho. Amedrontado pela superstição, o moço fugiu rapidamente daquele sítio, e, à noite, comentou com um amigo a inusitada descoberta da caverna. No dia seguinte os dois se dirigem à gruta, e ao entrarem nela, encontram sete rolos. Levaram alguns para a tenda e ao desenrolarem ficaram surpresos com a sua extensão e por não entenderem nada do que neles estava escrito.
Os beduínos, indo regularmente a Belém para vender leite e queijo, certo dia, levaram também os pergaminhos, vendendo-os a um cristão sírio, dono de um armazém, conhecida pelo nome de Kando, que também por ignorar totalmente o valor deste achado, abandonou-os no chão da loja por vários dias, sendo estes pisados pelos que nela entravam. Certo dia, atentando melhor para aqueles pergaminhos, ocorreu-lhe a idéia de levá-los a Jerusalém para os vender no Convento Sírio de São Marcos. O superior do convento procura pessoas entendidas que estudassem os manuscritos, a fim de que ele pudesse ter uma idéia de seu real valor, assim sendo, um dos pergaminhos foi enviado ao Professor E. L. Sukenik, da Universidade Hebraica. Sukenik analisando-o, em profundidade, concluiu que o documento apresentava grande valor pelo seu conteúdo e considerável antiguidade.
A caverna na qual foram encontrados os manuscritos fica na região desolada e quente do Deserto de Judá dos dias bíblicos, cerca de doze quilômetros ao sul de Jericó, na altura do Uadi Qunran.
Os sete rolos retirados desta gruta eram bem diferentes, pois dois eram manuscritos do livro de Isaías, um completo e outro incompleto, um manual de Disciplina da Seita, uma coleção de Salmos e Ações de Graça, uma ordem de batalha para uma guerra apocalíptica entre os Filhos da Luz e os Filhos das Trevas, um Comentário ao livro de Habacuque. Todo este material foi publicado por Sukenik e pelos americanos. Além dos manuscritos já citados ainda foram encontrados documentos os mais diversos conto contratos de casamento, cartas do líder judeu Bar Cocheba, um hinário de mais ou menos quarenta salmos, cópias dos apócrifos de Eclesiástico e Tobias, além de trechos de pseudepígrafos como o de Enoque.
A gruta em que aqueles pastores entraram, e que marcou o início de uma fase histórica da arqueologia, recebeu o n.º 1. Não longe dela, encontrou-se, em fins de 1951, a gruta a que se deu o n.º 2. Continha fragmentos dos Salmos, os livros de Isaías, do Êxodo, de Rute, um documento litúrgico e o livro apócrifo dos Jubileus, que é uma paráfrase do Gênesis, selecionados pelos fariseus. Descobriu-se, depois, a gruta n.º 3, onde se encontraram 2 rolos de chapas de cobre, com textos gravados.
A gruta que deu colheita mais rica foi a de n.º 4. Continha 380 manuscritos, dos quais mais ou menos uma centena são de ordem bíblica. Seguiram-se as de n.º 5 e 6, que deram manuscritos de pouca importância bíblica e histórica. Em fins de 1955, revistaram-se as grutas que receberam os nos 7, 8, 9 e 10, todas contendo ora pergaminhos, ora papiros, tudo de pouca importância. Logo após, nos últimos dias de 1955, encontram-se outras duas séries de grutas, uma à margem do Uadi Murabaat, e outra à margem do Uadi Mird, sempre nos arredores do Mar Morto.
Os dois rolos de chapa de cobre mediam mais ou menos 2 metros de comprimento e uns 30 centímetros de largura. Durante 3 anos estudos foram feitos para que os rolos fossem abertos sem se estragar a escrita. Foi preparada uma máquina especial pelo Departamento de Tecnologia de Manchester, Inglaterra, para cortar o rolo, trabalho este levado a efeito no dia 16 de janeiro de 1956. Estes rolos podem ser vistos no Museu de Amã. Na escrita de um deles estava a relação de uns 60 esconderijos, nos quais, se encontrariam depósitos de ouro, prata ou caixas de incenso.
Três sociedades científicas: Departamento Arqueológico da Jordânia, Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém (Santo Estêvão) e o Museu Arqueológico Palestinense têm inventariado as riquezas destas grutas. Os fragmentos de manuscritos descobertos nas onze cavernas de Qunran são cerca de 600 e um quarto destes fragmentos contém textos bíblicos; com exceção do livro de Ester, todos os livros do Velho Testamento se acham ali representados. Os mais numerosos são dos livros de Isaías, de Deuteronômio e dos Salmos.

12.3.1 Quem Guardou Estes Manuscritos

Uma pergunta que vem à mente de todos é esta: quem foram as pessoas que moravam nesta região e copiaram os manuscritos encontrados nas grutas? Segundo a opinião dos eruditos seus habitantes pertenciam à seita judaica dos essênios, os quais ocuparam esta região entre 185 a.C. e 68 a.D.
Havia entre os judeus no tempo de Cristo as seguintes seitas: Os fariseus – legalistas e separados, observadores de tradições antigas, eram muito religiosos; os saduceus – conhecidos por sua oposição aos fariseus e por negarem a ressurreição. Eram incrédulos e livres pensadores; os essênios – muitas etimologias têm sido apresentadas para explicar a origem deste nome. The Interpreter's Dictionary of the Bible, cita pelo menos dez entre palavras gregas e hebraicas, salientando que os eruditos não têm nenhuma uniformidade em seus pontos de vista. Os essênios eram pessoas que estavam decepcionadas com a corrupção reinante em seus dias, por isso abandonaram a sociedade e se refugiaram em mosteiros para se dedicarem a uma vida de oração e ao estudo da palavra de Deus.

12.3.2 Origem da Comunidade Essênica de Khirbet Qumran

Para o mosteiro de Khirbet Qumran podemos indicar diversos períodos de construção, como atestam as escavações realizadas entre 1951 e 1956. A primeira construção monástica, edificada em pedra, data do tempo do sumo sacerdote João Hircano (134-104 a.C.), da dinastia macabeu - asmonéia. Antes dessa época, os hassideus (essênios) tiveram que contentar-se com abrigos encontrados ao acaso. Uma figura característica que se encontra sempre de novo nos textos de Qumran é o anônimo 'mestre de nossa justiça', a quem a comunidade de Qumran deve a sua clara diferenciação dos outros grupos religiosos, antes de mais nada do culto e da hierarquia de Jerusalém, e que de várias maneiras, deu também impulso às normas de vida de Qumran.
Antes da primeira revolta judaica, por causa do avanço da décima legião sob o comando de Vespasiano, os manuscritos da biblioteca do mosteiro foram colocados a salvo (por volta do ano 68 d.C.). O próprio mosteiro foi destruído pelos romanos.
Durante a segunda revolta judaica (132-135), o lugar das ruínas e arredores constituíram um ponto de apoio para os combatentes da resistência judaica que se encontraram em torno de Bar Kokba, Com efeito, numa gruta ao sul de Qumran, foram encontrados, além de apetrechos sacrificais, vestes e moedas, também manuscritos da época entre 88 e 135 d.C., entre os quais uma carta de Bar Kokba."

4 12 - APÓCRIFOS, PSEUDOPÍGRAFOS E PERGAMINHOS

12.3.3 Valor dos Rolos do Mar Morto

Embora o valor desta descoberta ainda não possa ser avaliado em toda a sua plenitude, há certos fatos já conhecidos que são os seguintes: Estes manuscritos são pelo menos 1000 anos mais velhos do que o mais antigo manuscrito hebraico que possuímos – O Códice Petropolitano escrito em 912 a.D; os manuscritos de Qumran são mais antigos do que os mais velhos fragmentos da Septuaginta existentes, quanto à história da evolução da escrita, fornecendo, portanto precioso material à Paleografia. Estes manuscritos foram copiados entre os séculos III a.C. e o primeiro século a.D.; antes desta descoberta pouco se sabia a respeito do judaísmo pré-cristão. Através do Manual de Disciplina conhecemos hoje muito dos seus costumes e maneira de viver; estes manuscritos vieram desfazer afirmações infundadas, concernentes ao trabalho dos copistas pré-massoréticos e ainda de que a Bíblia Hebraica de hoje fora organizada e emendada pelos massoretas.
Os estudantes da Bíblia não puseram tanto em dúvida as mudanças no texto quando foram acrescentadas as vogais e a pontuação para formar o texto Massorético, séculos depois de Cristo, pois sabiam que os copistas depois daquele tempo, preservaram com cuidado extremo cada jota e til do texto. Alguns críticos opinavam que os mais antigos copistas por não serem tão escrupulosos trataram o texto com mais liberdade, portanto havia diferenças consideráveis em nossa Bíblia.
Quando o texto hebraico de hoje foi comparado com os manuscritos de Qumran verificou-se surpreendente identidade de conteúdo. Os rolos do Mar Morto comprovam a validade do texto hebraico, tão cuidadosamente transmitido através dos séculos. O descobrimento destes rolos e de outros manuscritos mostrou a fragilidade dos argumentos da Alta Crítica, comprovando que o trabalho dos copistas e tradutores por dois mil anos não mudou a Palavra de Deus. Eles comprovaram que a maioria das variações de um manuscrito para outro são simplesmente questões de letras, palavras ou frases que não modificam suficientemente o sentido para influenciar alguma doutrina importante.

12.3.4 Fragmentos de Papiros em Qumran

Numa das cavernas de Qumran foram encontrados muitos fragmentos de papiros e entre estes, o papirólogo espanhol, José O'Callaghn descobriu um trecho do Evangelho de São Marcos – correspondente aos versículos 52 e 53, do capítulo 6. Após este encontro, em março de 1972, o erudito espanhol, recorrendo a métodos técnicos, conclui que se trata de um manuscrito do ano 50 a.D. A história nos confirma que o General Vespasiano, no ano 68 a.D, tomou posse do mosteiro essênio de Qumran, ocasião em que seus habitantes esconderam os rolos nas cavernas, pensando em regressar mais tarde para recuperá-los.

12.3.5 Conclusões

Todo o cuidado e todos os avanços feitos pela ciência têm sido utilizados, quer na determinação das datas deste valioso material, quer na sua leitura e conservação. Assim foi descoberto um método com base na ciência atômica, para determinar a idade do material orgânico. Foi usando esse método, com o isótopo, "Carbono 14", que o Instituto Nuclear da Universidade de Chicago pode confirmar com precisão a opinião dos arqueólogos, segundo a qual o pano que envolvia os rolos, descobertos em 1947, datava do I século da era cristã. No Museu de Jerusalém, onde se encontra boa parte do material descoberto, documentos, à primeira vista ilegíveis, são decifrados graças à fotografia infravermelha que traz à luz, letras que normalmente não podem ser distinguidas pelos olhos humanos. Inegavelmente, esta foi a descoberta arqueológica mais sensacional dos últimos tempos, porque veio provar a autenticidade da Bíblia e a sua maravilhosa conservação através dos séculos.

5 13 - VERSÕES, TRADUÇÕES E REVISÕES

13.1 Conceituação

Tradução é simplesmente a transposição de uma composição literária de uma língua para outra. Por exemplo, se a Bíblia fosse transcrita dos originais hebraico e grego para o latim, ou do latim para o português, chamaríamos esse trabalho tradução. Se esses textos traduzidos fossem vertidos de volta para as línguas originais, também chamaríamos isso tradução.
A tradução literal é uma tentativa de expressar, com toda a fidelidade possível e o máximo de exatidão, o sentido das palavras originais do texto que está sendo traduzido. Trata-se de uma transcrição textual, palavra por palavra. O resultado é um texto um tanto rígido.
A transliteração é a versão das letras de um texto em certa língua para as letras correspondentes de outra língua. É claro que uma tradução literal da Bíblia fica sem sentido para uma pessoa de pouca cultura.
Versão, tecnicamente falando é uma tradução da língua original (ou com consulta direta a ela) para outra língua, ainda que comumente se negligencie essa distinção. O segredo para a compreensão é que a versão envolve a língua original de determinado manuscrito
Revisão, ou versão revista, é termo usado para descrever certas traduções, em geral feitas a partir das línguas originais, que foram cuidadosa e sistematicamente revistas, cujo texto foi examinado de forma crítica, com vistas em corrigir erros ou introduzir emendas ou substituições.
Paráfrase é uma tradução "livre" ou "solta". O objetivo é que se traduza a idéia, e não as palavras. Daí que a paráfrase é mais uma interpretação que uma tradução literal do texto. O comentário é simplesmente uma explicação das Escrituras. O exemplo mais antigo desse tipo de trabalho é o “Midrash”, ou comentário judaico do Antigo Testamento.

13.2 Versões e Traduções mais Antigas

As traduções mais antigas apareceram antes do período dos Concílios da Igreja (350 d.C.), abarcando obras como Pentateuco Samaritano, os Targuns Aramaicos, o Talmude, o Midrash e a Septuaginta (LXX).

13.2.1 O Pentateuco Samaritano

Segundo Norman Geisler e William Nix (1997, p. 187), “o Pentateuco samaritano pode ter-se originado no período de Neemias, em que se reedificou Jerusalém. Não sendo na verdade uma tradução, nem versão, mostra a necessidade do estudo cuidadoso para que se chegue ao verdadeiro texto das Escrituras”. Essa obra foi, de fato, uma porção manuscrita do texto do próprio Pentateuco. Contém os cinco livros de Moisés, tendo sido escrito num tipo paleo-hebraico, muito semelhante ao que se encontrou na pedra moabita, na inscrição de Siloé, nas Cartas de Laquis e em alguns manuscritos bíblicos mais antigos de Qumran. A tradição textual do Pentateuco samaritano é independente do Texto massorético. Não foi descoberto pelos estudiosos cristãos senão em 1616, embora fosse conhecido dos pais da igreja, como Eusébio de Cesaréia e Jerônimo, tendo sido publicado pela primeira vez na obra Poliglota de Paris (1645) e, depois, na Poliglota de Londres (1657).
O manuscrito mais antigo do Pentateuco samaritano data de meados do século XIV e trata-se de um fragmento de um pergaminho o rolo chamado Abisa. O códice do Pentateuco samaritano mais antigo traz uma nota sobre ter sido vendido em 1149-1150 d.C, embora fosse muito mais velho. A Biblioteca Pública de Nova Iorque abriga outro exemplar que data de cerca de 1232. Imediatamente após a descoberta desse exemplar, em 1616, o Pentateuco samaritano foi aclamado como superior ao Texto massorético. No entanto, depois de cuidadoso estudo, foi relegado a posição inferior. Só recentemente esse documento reobteve um pouco de sua antiga importância, ainda que seja considerado até hoje de menor importância do que o texto massorético da lei. Os méritos do texto do Pentateuco samaritano podem ser avaliados pelo fato de apresentar apenas 6 000 variantes em relação ao Texto massorético, e em sua maior parte constituem diferenças ortográficas que se considerariam insignificantes. Há ali a afirmativa de que o monte Gerizim é o centro de adoração, e não a cidade de Jerusalém, com acréscimos aos relatos de Êxodo 20.2-17 e Deuteronômio 5.6-21. (GEISLER; NIX, 1997, p. 188).

13.2.2 Os Targuns

Segundo Norman Geisler e William Nix (1997, p. 188), “há evidências de que os escribas, já nos tempos de Esdras (Ne 8.1-8), estavam escrevendo paráfrases das Escrituras hebraicas em aramaico. Não estavam produzindo traduções, mas textos explicativos da linguagem arcaica da Tora”. Antes do nascimento de Cristo, quase todos os livros do Antigo Testamento tinham suas paráfrases ou interpretações (targuns). Ao longo dos séculos seguintes o targum foi sendo redigido até surgir um texto oficial.
Os mais antigos targuns aramaicos provavelmente foram escritos na Palestina, durante o século II d.C, embora haja evidências de alguns textos amaraicos de um período pré- cristão. Esses textos primitivos, oficiais, do targum, continham a lei e os profetas, embora targuns de épocas posteriores também incluíssem outros escritos do Antigo Testamento.
Durante o século III d.C., surgiu na Babilônia um targum aramaico sobre a Tora. Possivelmente se tratasse de uma versão corrigida de texto palestino antigo; mas também poderia ter-se originado na Babilônia, tendo sido tradicionalmente atribuído a Onquelos (Ongelos), ainda que tal nome provavelmente resultasse de confusão com Áquila.
O Targum de Jônatas ben Uzziel é outro targum babilônico em aramaico, que acompanhava os profetas (os primeiros e os últimos). Data do século IV, sendo uma tradução mais livre do texto que a tradução de Onquelos. Esses targuns eram lidos nas sinagogas: o texto de Onquelos ao lado da Tora, que se liam em sua inteireza; Jônatas era lido ao lado de seleções dos profetas (haphtaroth, pl.). Visto que as demais partes do Antigo Testamento (escritos) não eram lidas nas sinagogas, não se produziu nenhum targum oficial, mas havia cópias não-oficiais usadas pelas pes-soas de modo particular.
Pelos meados do século VII surgiu o Targum do pseudo-Jônatas, sobre o Pentateuco. Trata-se de uma mistura do Targum de Onquelos e alguns textos do Midrash. Outro targum apareceu ao redor do ano 700, o Targum de Jerusalém, do qual sobreviveu apenas um fragmento.

13.2.3 O Talmude

O Talmude basicamente representa as opiniões e as decisões de professores judeus de cerca de 300 a 500 d.C., consistindo em duas principais divisões: o Midrash e a Gemara. A Mishna (repetição, explicação) completou-se perto de 200 d.C., como se fora um digesto – publicação composta de artigos, livros condensados - hebraico de todas as leis orais, desde o tempo de Moisés. Era altamente considerada como a segunda lei, sendo a Tora a primeira. A Gemara (término, finalização) era um comentário ampliado, em aramaico, da Mishna. Foi transmitida em duas tradições: a Gemara palestina (c. 200) e a Gemara babilônica, maior, dotada de mais autoridade (c. 200)

13.2.4 O Midrash

O Midrash (lit., estudo textual) na verdade era uma exposição formal, doutrinária e homilética das Sagradas Escrituras, redigida em hebraico ou em aramaico. De mais ou menos 100 até 300 d.C., esses escritos foram reunidos num corpo textual a que se deu o nome de Halaka (procedimento), que era uma expansão adicional da Tora, e Hagada (declaração, explicação), ou comentários de todo o Antigo Testamento. O Midrash de fato diferia do Targum neste ponto: o Midrash eram comentários, em vez de paráfrases. O Midrash contém algumas das mais antigas hornilias do Antigo Testamento, bem corno alguns provérbios e parábolas, textos usados nas sinagogas.

13.2.5 Septuaginta (LXX)

Bastante conhecida através da sigla LXX, é a mais importante tradução grega do Velho Testamento. Seria interessante pensar por alguns instantes qual a razão de um livro hebraico ser traduzido para o grego numa cidade do Egito? A História nos confirma que Alexandre Magno, com suas extraordinárias conquistas levou o grego a quase todas as partes do mundo conhecido. Sua morte prematura em 323 a.C. fez com que seu império fosse dividido. Cabendo a Ptolomeu I (323-285) governar o Egito, iniciando assim a dinastia dos reis gregos no Egito. Calcula-se que no tempo de Ptolomeu II, a cidade de Alexandria era composta por um terço de judeus. Como era de se esperar esses imigrantes judeus facilmente adotaram a língua dos gregos.
Dias Gomes citando Flávio Josefo, fornece-nos pormenores úteis sobre a origem desta antiga tradução. Eis uma síntese de suas palavras:
Demétrio Palério, bibliotecário de Ptolomeu Filadelfo, trabalhava com extremo cuidado e grande curiosidade para reunir de todas as partes do mundo os livros de mérito e que julgava serem agradáveis ao príncipe. Certo dia o príncipe perguntou-lhe quantos livros já havia na Biblioteca e soube que mais ou menos 200.000. Notificou também ao rei a existência entre os judeus de livros dignos de figurarem na soberba biblioteca, mas dariam muito trabalho traduzi-los para o grego. Acrescentou que este trabalho poderia ser feito porque sua majestade não olhava a gastos. O rei, persuadido pelo ilustre bibliotecário, fez um apelo ao sumo-sacerdote de Jerusalém para que lhe enviasse os livros e pessoas capacitadas para traduzi-los. O pedido foi imediatamente atendido, talvez, porque acompanhando-o havia grande soma de dinheiro e pedras preciosas. Ptolomeu recebeu através de uma carta a seguinte notificação: "Escolhemos, Senhor, seis homens de cada tribo para vos levar as santas leis e esperamos da vossa bondade, quando não tenhais mais necessidade deles, que vos dignareis remetê-los com os que vão em sua companhia." Eleazar. Quando a obra foi acabada (segundo alguns em 72 dias), Demétrio reuniu todos os judeus para que ouvissem a leitura da tradução, na presença dos 72 tradutores. A tradução foi aprovada e Demétrio elogiado por ter concebido um desígnio que lhes era tão vantajoso. (JOSEFO, Flávio. Apud. GOMES, Dias. Bíblia Poliglota Portuguesa, p. 26-28).
Para alguns esta história é lendária, sendo a verdadeira razão para a origem da Septuaginta a seguinte: Havendo em Alexandria muitos judeus que não podiam ler o Velho Testamento no original hebraico, uma tradução em grego lhes foi preparada. Por causa do número de tradutores essa extraordinária tradução se tornou conhecida (um tanto inexatamente) como Septuaginta.
A Septuaginta é comumente designada por LXX. O nome vem do latim Septuaginta, que quer dizer 70. Aristeas, escritor da corte de Ptolomeu Filadelfo, que reinou de 285-246 a.C., escrevendo a seu irmão Filócrates, conta que o referido monarca, por proposta de seu bibliotecário, Demétrio de Falero, solicitou ao sumo sacerdote judaico, Eleazar, que lhe enviasse doutores versados nas Sagradas Escrituras para preparar-lhe uma versão delas, em grego. Ele muito ouvia falar das Escrituras e queria uma versão delas, para enriquecer sua vasta biblioteca, em Alexandria. O sumo sacerdote escolheu 72 eruditos (6 de cada tribo) e enviou-os a Alexandria, os quais completaram a versão em 72 dias. De 72 derivou-se o nome Septuaginta. (Gilberto, Antonio, 1986, p. 84)
A tradução foi feita na ilha de Faros, situada no porto da cidade. Essa Bíblia teve a mais ampla difusão entre as nações, especialmente naquelas onde estavam os judeus da dispersão oriunda do cativeiro. Foi a Septuaginta a primeira tradução completa do Antigo Testamento, do original hebraico. Foi também ela que situou e dividiu os livros por assuntos como os temos hoje: Lei, História, Poesia, Profecia. Não há um só exemplar original da Versão dos Setenta; somente cópias, a mais antiga das quais data de 325 d.C. É ela a mais antiga tradução da Bíblia hebraica. A Septuaginta é usada ainda hoje na Igreja Grega. Sua primeira aparição impressa é a constante da Complutensiana Poliglota publicada em Alcalá, província de Madri, em 1514-1517, e distribuída em 1522 pelo Cardeal Ximenes.

13.2.6 A versão de Áqüila

A versão de Áqüila, natural de Sínope, cidade do Ponto. É uma tradução puramente literal. Contém só o Antigo Testamento. Foi feita em 138 d.C., no reinado de Adriano. Existe em fragmentos.

13.2.7 A versão de Teodocião

A versão de Teodocião, natural de Éfeso, coevo de Justino Mártir, que o menciona em seus escritos. Foi feita em 160 d.C., no tempo do Imperador Cômodo. Não é mais que uma revisão dos LXX. Contém só o Antigo Testamento. Teodocião era ebionita.

13.2.8 A versão de Símaco

A versão de Símaco, feita em 218. Só do Antigo Testamento. Símaco era também ebionita. Existe em fragmentos.

13.2.9 A Héxapla, de Orígenes

A Héxapla, de Orígenes. Não é propriamente uma versão; é obra compendiada. Devido a falhas na tradução da Septuaginta, Orígenes, grande erudito da igreja primitiva, compôs, em Cesaréia, a Héxapla, ou versão de 6 colunas, em 228 d.C.
As seis colunas estão dispostas da direita para a esquerda, assim: 1ª O texto hebraico; 2ª O texto grego traduzido do hebraico; 3ª A versão de Áquila; 4ª A versão de Símaco; 5ª A Septuaginta; 6ª A versão de Teodocião.

13.2.10 Revisões Depois da Hexapla

Fizeram ainda revisões na Septuaginta Luciano – fez seu trabalho mais ou menos pelo ano 300, pois foi martirizado em 311. Para esta revisão usou manuscritos hebraicos superiores aos usados por Orígenes e Hesíquio – sua revisão se processou na cidade de Alexandria e foi somente aceita no Egito.

6 13- VERSÕES, TRADUÇÕES E REVISÕES

13.2.11 Versões Siríacas

É provável que a primeira versão do Novo Testamento tenha sido feita na língua siríaca. Dentre as versões siríacas são dignas de nota as seguintes:
Siríaca Antiga. É uma versão dos quatro Evangelhos, conservada hoje com grandes lacunas nestes dois manuscritos. Embora estes manuscritos fossem copiados no 5º e 4º séculos respectivamente, a forma de texto que eles preservam data do fim do segundo século ou início do terceiro. O texto dos Evangelhos sofreu influências do Diatessaron de Taciano. Seu tipo de texto pertence ao grupo Ocidental.
Versão Peshita. Em siríaco a palavra peshita significa simples, comum, vulgar. Crêem alguns que a tradução foi feita por Rabbula, bispo de Edessa (411-432), cognominado o São Jerônimo da Igreja Síria. Outros afirmam que o autor é desconhecido, mas que a tradução foi feita para que o cristianismo pudesse propagar-se entre aquele povo. Por ser um trabalho muito bem feito, foi chamada "a rainha das versões". Contém todo o Velho Testamento sem os livros apócrifos. Do Novo Testamento não foram traduzidos II e III João, II Pedro, Judas e Apocalipse. Mais de 350 manuscritos da Peshita são conhecidos hoje, diversos dos quais datam do 5º e 6º séculos.
Versão Filoxênia. Esta é outra tradução bastante difícil de ser explicada pela Crítica Textual. Crê-se que Filóxeno, bispo de Mabugue, comissionou a tradução da Bíblia inteira baseada no grego, em 508 a.D.
Versão Siríaca da Palestina. É conhecida principalmente por um dicionário dos Evangelhos. Crêem os entendidos que seja uma tradução do quinto século.

7 14 - VERSÕES LATINAS E INGLESAS

14.1 Versões Latinas

O latim era um idioma dominante nas regiões ocidentais do Império Romano desde muito antes dos dias de Jesus. Foram nas regiões ocidentais ao sul da Gália e na África do Norte que apareceram as primeiras traduções da Bíblia em latim. Segundo Philip W. Confort (1998, p. 235) “em cerca de 160 d.C., Tertuliano notoriamente usou uma versão das Escrituras em latim. Não muito tempo depois, o texto em latim antigo parece ter estado em circulação, o que nos é evidenciado pelo uso de Cipriano antes de sua morte, em 258 d.C.”. A versão em latim antigo era uma tradução da Septuaginta. Manuscritos completos do texto em latim antigo não subsistiram. Depois que a versão latina, a Vulgata, foi completada por Jerônimo, o texto mais primitivo caiu em desuso.

14.1.1 A Vulgata latina

Segundo Philip W. Confort (1998, p. 236) “por volta do século III d.C., o latim começou a substituir o grego como língua de ensino no vasto mundo romano. Um texto uniforme e confiável era extremamente necessário para uso teológico e litúrgico”. Para preencher essa necessidade, o papa Dâmaso I (336-384 d.C.) encarregou Jerônimo, eminente erudito no latim, grego e hebraico, de fazer a tradução. Jerônimo começou o seu trabalho com uma tradução da Septuaginta em grego, considerada inspirada por muitas autoridades da Igreja, inclusive Agostinho. Contudo, mais tarde, e sob risco de grande crítica, voltou-se para o texto hebraico que então estava em uso na Palestina, como texto base para sua tradução. Durante o período de 390 a 405, Jerônimo fez sua tradução latina do Antigo Testamento hebraico. No entanto, a despeito de ter se voltado para o original hebraico, Jerônimo dependia grandemente das diversas versões gregas como auxílio à tradução. Por conseguinte, a Vulgata espelha as outras traduções gregas e latinas tanto quanto o texto hebraico fundamental.

14.1.1.1 Autor da Vulgata

Sofrônio Eusébio Jerônimo (c. 340-420) nascera de pais cristãos, em Estridão, na Dalmácia. Havia sido educado na escola local até sua ida a Roma, com a idade de doze anos. Durante os oito anos seguintes, Jerônimo estudou latim, grego e autores pagãos, antes de tornar-se cristão, com a idade de dezenove anos. Logo após sua conversão e batismo, Jerônimo devotou-se a uma vida de rígida abstinência e de serviço ao Senhor. Passou muitos anos perseguindo uma vida semi-ascética de eremita. De 374 a 379, empregara um rabino judeu para que lhe ensinasse o hebraico, enquanto estivesse residindo no Oriente, perto de Antioquia. Foi ordenado presbítero em Antioquia antes de partir para Constantinopla, onde passou a estudar sob a orientação de Gregório de Nazianzo. Em 382, foi convocado por Roma para ser secretário de Dâmaso, bispo de Roma, e nomeado membro de uma comissão para revisar a Bíblia latina.

14.1.1.2 A Data e o Lugar da Tradução da Vulgata Latina

Jerônimo recebeu a incumbência em 382 e iniciou seu trabalho quase imediatamente. A pedido de Dâmaso introduziu uma ligeira revisão nos evangelhos, completada em 383. Logo após ter terminado a revisão dos evangelhos, morre-lhe o mecenas (384), tendo sido eleito novo bispo de Roma. Jerônimo, que aspirava a esse cargo, já havia terminado uma revisão rápida do chamado Saltério romano quando regressou ao Oriente e se estabeleceu em Belém. De volta a Belém, Jerônimo voltou sua atenção a uma revisão mais cuidadosa do Saltérío romano, que completou em 387. Essa revisão é conhecida como Saltério galileu, empregado atualmente no Antigo Testamento da Vulgata. Baseou-se de fato nos Héxapla de Orígenes, a quinta coluna, sendo mera tradução dos Salmos. Tão logo havia terminado sua revisão dos Salmos, Jerônimo iniciou a revisão da LXX, embora esse trabalho não fizesse parte de seus objetivos iniciais. Estando em Belém, Jerônimo havia iniciado seu trabalho de aperfeiçoar seus conhecimentos do hebraico, de modo que pudesse executar uma nova tradução do Antigo Testamento diretamente das línguas originais. Os amigos ao redor aplaudiram seus esforços, mas outros, muito longe, começaram a suspeitar que Jerônimo estaria judaizando; alguns se enfureceram quando Jerônimo lançou dúvidas sobre a “inspiração da Septuaginta”. Traduziu o Saltério hebraico com base no texto hebraico usado na época, na Palestina. Finalmente, em 405, completou sua tradução latina do Antigo Testamento hebraico. Nos últimos quinze anos de vida, Jerônimo continuou escrevendo, traduzindo e revisando sua tradução do Antigo Testamento.
Jerônimo pouca atenção deu aos apócrifos; só com grande relutância produziu uma tradução apressada de algumas passagens de Judite, de Tobias e do resto de Ester, mais as adições de Daniel - antes de morrer. O resultado foi que a versão dos livros apócrifos, pertencente à Antiga latina, foi adicionada à Bíblia chamada Vulgata latina na Idade Média, sobre o cadáver de Jerônimo.

14.1.2 Versões, Traduções e Paráfrase em Inglês

Segundo Philip W. Confort (1998, p. 361), “no século VI, o Evangelho foi levado para a Inglaterra pelos missionários de Roma. A Bíblia que levaram foi a Vulgata Latina. Nessa época, os cristãos que viviam na Inglaterra dependiam dos monges para qualquer tipo de instrução relacionada à Bíblia. Os monges liam e ensinavam a Bíblia latina”. Depois de alguns séculos, quando mais mosteiros foram fundados, surgiu a necessidade de traduções da Bíblia em inglês. A mais antiga tradução em inglês, até onde sabemos, é a que foi feita por um monge do século VII, chamado Cedmon, que fez uma versão métrica de partes do Antigo e do Novo Testamento. Acredita-se que outro clérigo inglês, chamado Bede, traduziu os evangelhos para o inglês. Diz a tradição que, em 735, esse clérigo estava traduzindo o Evangelho de João em seus últimos momentos de vida. Outro tradutor foi Alfredo, o Grande (que reinou de 871 a 899), considerado por todos como um rei muito letrado. Incluiu em suas leis trechos dos Dez Mandamentos traduzidos para o inglês e também traduziu os Salmos.

14.1.2.1 Desenvolvimento da Língua Inglesa

Segundo Norman Geisler (1997, p. 219), “não se sabe com certeza como a língua inglesa se desenvolveu, mas a maioria dos estudiosos segue a orientação de Beda, o Venerável (c. 673-735), que data seu início em cerca de 450 da era cristã”. O período de 450 a 1100 é denominado anglo-saxônico, ou do antigo inglês, por ter sido dominado pela influência dos anglos, dos saxões e dos jutos em seus vários dialetos. Após a invasão normanda de 1066, a língua sofreu a influência de dialetos escandinavos, e o período do médio inglês apareceu de 1100 a 1500. Esse foi o período de Geoffrey Chaucer (1340-1400) e de John Wycliffe. Após a invenção da prensa móvel por Johann Gutenberg (c. 1454), o inglês entrou em seu terceiro período de desenvolvimento: o do inglês moderno (1500 até o presente). Esse período de desenvolvimento foi precipitado pela grande mudança vocálica no século que se seguiu à morte de Chaucer e precedeu ao nascimento de William Shakespeare.

14.1.2.2 As Traduções Parciais para o Antigo Inglês (450-1100)

Segundo Norman Geisler (1997, p. 220), “as primeiras traduções de partes das Escrituras basearam-se nas traduções da Antiga latina e da Vulgata, e não nas línguas originais, o hebraico e o grego, e nenhuma delas continha o texto da Bíblia toda. Não obstante, elas ilustram a maneira pela qual a Bíblia entrou para a língua inglesa”.
Aldhelm (640-709). Aldhelm foi o primeiro bispo de Sherborne em Dorset. Logo depois do ano 700, ele traduziu o Saltério para o antigo inglês. Foi a primeira tradução direta de qualquer parte da Bíblia para a língua inglesa.
Egberto (700). Egberto da Nortúmbria tomou-se arcebispo de Iorque pouco depois da morte de Beda. Ele foi também o mestre de Alcuíno de Iorque, que foi mais tarde chamado por Carlos Magno para estabelecer uma escola na corte de Aix-Ia-Chapelle (Aachen). Por volta de 705, Egberto traduziu os evangelhos para o antigo inglês pela primeira vez.
Beda, o Venerável (674-735). Maior estudioso da Inglaterra e um dos maiores de toda a Europa dos seus dias, Beda residiu em Jarrow-on-the-Tyne, na Nortúmbria. De lá, ele escreveu sua famosa História eclesiástica e outras obras. Entre essas obras encontrava-se uma tradução do evangelho de João, cujo propósito foi provavelmente o de suplementar os três outros traduzidos por Egberto. Segundo relatos tradicionais, Beda terminou a tradução na hora da morte.
Alfredo, o Grande (849-901). Alfredo foi um estudioso de primeira, além de ter sido rei da Inglaterra (870-901). Durante seu reinado, a Lei Danesa foi estabelecida sob o Tratado de Wedmore (878). O tratado continha somente duas estipulações para os novos súditos: batismo cristão e fidelidade ao rei. Juntamente com sua tradução da História eclesiástica de Beda do latim para o anglo-saxão, ele também traduziu os Dez mandamentos, excertos do Êxodo, 21-23, de Atos, 15.23-29, e uma forma negativa da Regra áurea. Foi durante o seu reinado que a Inglaterra experimentou um reavivamento do cristianismo.
Aldred (950). Outro elemento foi introduzido na história da Bíblia inglesa quando Aldred escreveu um comentário nortumbriano entre as linhas de uma cópia dos evangelhos escrita no latim do final do século VII. É da cópia latina de Eadfrid, bispo de Lindisfarne (698-721), que a obra de Aldred recebe seu nome, os Evangelhos de Lindisfarne.
Aelfric (1000). Aelfric foi bispo de Eynsham, em Oxfordshire, Wessex, quando traduziu partes dos sete primeiros livros do Antigo Testamento. Essa tradução e outras partes do Antigo Testamento que ele traduziu e citou em suas homilias basearam-se no texto latino. Mesmo antes da época de Aelfric, os Evangelhos de Wessex foram traduzidos para o mesmo dialeto. Esses elementos constituem a primeira tradução existente dos evangelhos para o antigo inglês.

14.1.2.3. As reduções parciais para o médio inglês (1100-1400)

Segundo Norman Geisler (1997, p. 221), “a conquista normanda (1066) deu-se graças à disputa em torno do trono de Eduardo, o Confessor. Com ela, o período do domínio saxônico na Inglaterra chegou ao fim, e um período de influência normando-francesa se fez sentir sobre a língua dos povos conquistados. Durante esse período de domínio normando foram feitas outras tentativas de traduzir a Bíblia para o inglês”.
Orm ou Ormin (1200). Orm foi um monge agostiniano que escreveu uma paráfrase poética dos evangelhos e de Atos acompanhada de comentário. Essa obra, o Ormulum, é preservada em um único manuscrito de 20.000 palavras. Embora o vocabulário seja puramente teutônico, a cadência e a sintaxe mostram a influência normanda.
Guilherme de Shoreham (1320). Shoreham freqüentemente recebe o crédito de ter produzido a primeira tradução em prosa de uma parte da Bíblia para um dialeto sulista do inglês, embora exista alguma dúvida quanto a ele ter sido realmente o tradutor dessa obra de 1320.
Ricardo Rolle (1320-1340). Rolle é conhecido como o "Eremita de Hampole". Foi responsável pela segunda tradução literal das Escrituras para o inglês. Vivendo perto de Doncaster, em Yorkshire, fez sua tradução da Vulgata latina para o dialeto inglês do norte. Sua tradução do Saltério foi amplamente divulgada e reflete o desenvolvimento da tradução da Bíblia inglesa até a época de John Wycliffe.

14.1.2.4 As Traduções Completas para o Médio Inglês e para o Inglês Moderno em Fase Inicial

Embora não houvesse nenhuma Bíblia completa em inglês antes do século XIV, diversos indícios apontavam para o aparecimento iminente de uma. A ampla circulação do Saltério literal de Rolle na exata época em que a corte papal passava por lutas se associou ao chamado cativeiro babilônico (1309-1377). Esse acontecimento e suas conseqüências formaram o pano de fundo para a obra de outros tradutores bíblicos.
A Bíblia de Wycliffe. João Wycliffe (c. 1329-1384) - O mais eminente teólogo oxfordiano de seus dias - e seus associados foram os primeiros a traduzir a Bíblia inteira do latim para o inglês. Segundo Philip W. Confort (1998, p. 363), “Wycliffe foi chamado de a Estrela da Manhã da Reforma", porque audaciosamente questionou a autoridade papal, criticou a venda de indulgências, negou a realidade da transubstanciação (doutrina que diz que a substância do pão e do vinho é mudada em corpo e sangue de Jesus Cristo durante a missa) e falou abertamente contra as hierarquias eclesiásticas. O papa condenou Wycliffe por seus ensinamentos "heréticos" e pediu que a Universidade de Oxford o demitisse. Mas Oxford e muitos líderes governistas permaneceram ao lado de Wycliffe, de modo que conseguiu sobreviver aos ataques do papa.
Wycliffe acreditava que o caminho para prevalecer em sua luta contra a autoridade abusiva da Igreja Católica era tornar a Bíblia acessível às pessoas em sua própria língua. Desse modo, poderiam ler por si mesmas acerca da forma como cada uma poderia ter um relacionamento pessoal com Deus através de Jesus Cristo - independente de qualquer autoridade eclesiástica. Wycliffe, com seus associados, completaram o Novo Testamento por volta de 1380 e o Antigo Testamento em 1382. Enquanto Wycliffe concentrava seus esforços no Novo Testamento, um de seus associados, Nicolau de Hereford, fazia uma parte importante do Antigo Testamento. Wycliffe e seus companheiros, desconhecedores do hebraico e do grego originais, traduziram o texto do latim para o inglês. Depois de Wycliffe ter terminado seu trabalho de tradução, organizou um grupo de paroquianos pobres, conhecido como lolardos, para irem por toda a Inglaterra pregando as verdades cristãs e lendo as Escrituras na língua materna a todos os que ouvissem a Palavra de Deus. O resultado desse empreendimento foi que a Palavra de Deus, através da tradução de Wycliffe, tornou-se acessível a muitos ingleses.
Um dos associados mais chegados de Wycliffe, João Purvey (c. 1353-1428), continuou a obra de Wycliffe, lançando, em 1388, uma revisão de sua tradução. Purvey era um excelente erudito. Seu trabalho foi muito bem recebido por sua geração e pelas que se seguiram. Menos de um século depois, a edição revista de Purvey havia substituído a Bíblia inicial de Wycliffe.
William Tyndale (1492-1536). Após tentativas deploráveis de fazer sua tradução na Inglaterra, William Tyndale embarcou para o Continente em 1524. Após outras dificuldades, finalmente imprimiu o Novo Testamento em Colônia, no fim de fevereiro de 1526. Seguiu-se uma tradução do Pentateuco, em Marburgo (1530), e de Jonas, na Antuérpia (1531). Conforme Norman Geisler (1997, p. 224) “as influências de Wycliffe e de Lutero eram evidentes no trabalho de Tyndale e o mantiveram sob constantes ameaças. Além disso, essas ameaças eram tantas, que as traduções de Tyndale tiveram de ser contrabandeadas para a Inglaterra. Tendo chegado lá, exemplares foram comprados por Cuthbert Tunstall, bispo de Londres, que as fez queimar publicamente em St. Paul's Cross”. Conforme Norman Geisler (1997, p. 224) “em 1534, Tyndale publicou sua revisão do Gênesis e começou a trabalhar numa revisão do Novo Testamento. Pouco depois de completar essa revisão, foi seqüestrado na Antuérpia e levado à fortaleza de Vilvorde, em Flandres. Ali continuou a traduzir o Antigo Testamento”.
A Bíblia de Coverdale. Miles Coverdale era graduado de Cambridge e, como Tyndale, havia sido forçado a fugir da Inglaterra, porque fora grandemente influenciado por Lutero, à medida que audaciosamente pregava contra a doutrina católica. Enquanto estava no exterior, Coverdale encontrou-se com Tyndale e então passou a servi-lo de assistente - sobretudo ajudando-o na tradução do Pentateuco. Pela época em que Coverdale publicava uma tradução completa (1537), o rei da Inglaterra, Henrique VIII, rompia todas as relações com o papa e estava pronto para aceitar a publicação de uma Bíblia em Inglês.
A Bíblia de Rogers e a Bíblia Grande (1537). No mesmo ano em que a Bíblia de Coverdale foi endossada pelo rei (1537), outra Bíblia foi publicada na Inglaterra. Tratava-se do trabalho de alguém chamado Thomas Matthew, pseudônimo de João Rogers (c. 1500-1555), amigo de Tyndale. Obviamente, Rogers usou a tradução inédita dos livros históricos do Antigo Testamento feita por Tyndale, outras porções traduzidas por Tyndale e ainda outras porções da tradução de Coverdale para formar uma Bíblia inteira. Esta Bíblia também recebeu a aprovação do rei. A Bíblia de Rogers foi revisada em 1538 e impressa para distribuição nas igrejas de toda a Inglaterra. Conhecida como a Bíblia Grande por causa do seu tamanho e preço elevado, tomou-se a primeira Bíblia em inglês autorizada para uso público.
A Bíblia de Genebra (1524-1579). Os ingleses exilados em Genebra, Suíça, escolheram William Whittingham (1524-1579) para lhes fazer uma tradução em inglês do Novo Testamento. Whittingham usou a tradução latina de Teodoro Beza e consultou o texto grego. Essa Bíblia tornou-se muito popular, porque era pequena e de preço moderado. O prefácio e suas muitas anotações estavam impregnadas por forte influência evangélica, bem como pelos ensinamentos de João Calvino. Calvino foi um dos maiores pensadores da Reforma, renomado comentarista bíblico e o principal líder em Genebra durante essa época.
A Bíblia do rei Tiago – A King James Version (1611). Em janeiro de 1604, Tiago I foi convocado a comparecer à Conferência de Hampton Court. Na ocasião John Reynolds, presidente puritano da Faculdade Corpus Christi, em Oxford, levantou a questão de ser feita uma versão autorizada da Bíblia para todos os partidos dentro da igreja. Foi nomeada uma junta. Seis grupos de tradutores foram escolhidos: dois em Cambridge para revisar de 1Crônicas a Eclesiastes e os livros apócrifos; dois em Oxford para revisar de Isaías a Malaquias, os evangelhos, Atos e o Apocalipse; dois em Westminster para revisar de Gênesis a 2Reis e de Romanos a Judas. Apenas 47 dos 54 homens escolhidos trabalharam de fato nessa revisão da Bíblia dos bispos.
As notas marginais acompanharam a nova revisão, e a chamada Versão autorizada nunca chegou a ser de fato autorizada, nem ser de fato uma versão. Ela substituiu a Bíblia dos bispos nas igrejas porque nenhuma edição dessa Bíblia foi publicada depois de 1606.
Três edições da nova tradução apareceram em 1611. Outras edições foram publicadas em 1612. Durante o reinado de Carlos I (1625-1649), o Parlamento Lon-go estabeleceu uma comissão para deliberar sobre a revisão da chamada Versão autorizada ou produzir uma tradução totalmente nova. Somente revisões insignificantes resultaram em 1629, 1638, 1653, 1701, 1762, 1769 e duas edições posteriores. Essas três últimas revisões foram feitas pelo Dr. Blayney de Oxford. Elas variaram em cerca de 75 mil pormenores do texto da edição de 1611. Pequenas mudanças continuaram a surgir no texto até datas recentes como 1967 no texto da Versão autorizada que acompanha a New Scofield reference edition [Nova edição de referência de Scofield]. Entrementes, foram feitas tentativas de trazer amplas alterações e correções às traduções inglesas da Bíblia em virtude de novas descobertas textuais e por conta da natureza mutável da própria língua (GEISLER, 1997, p. 231).

8 TRADUÇÕES E VERSÕES CASTELHANAS E PORTUGUESAS

15.1 Traduções Castelhanas

A primeira tradução que se fez em castelhano foi o Novo Testamento surgido em 1543. Foi obra do jovem reformador Francisco de Enzinas. Filho de pais nobres e ricos foi enviado a estudar nos Países Baixos, onde recebeu decisiva influência dos reformadores. Dirigiu-se posteriormente à Alemanha para conhecer Melanchton, em cuja casa se hospedou. Estudando na Universidade de Wittenberg e encorajado por Melanchton dedicou-se à sublime tarefa de traduzir o Novo Testamento do original grego para a sua língua nativa.

A segunda tradução para o espanhol é a conhecida Bíblia de Ferrara que em realidade não contém senão o Antigo Testamento. Esta versão foi obra de certos eruditos judeus, que por questões religiosas foram banidas da Península Ibérica. Radicaram-se na Itália, onde havia maior liberdade em questões religiosas. Reunidos em Ferrara quatro bons conhecedores do hebraico e do espanhol, com manuscritos originais a sua disposição não lhes foi muito difícil concluir a tarefa a que se propuseram.

A primeira tradução completa da Bíblia para a língua castelhana foi obra de Casiodoro de Reina, que nascera ao sul da Espanha em 1520.

Após ter estudado para sacerdote, tornou-se pregador evangélico, razão porque teve de fugir da Espanha. Trabalhou 12 anos nesta tradução, que foi publicada em Basiléia no ano de 1569. Baseou seu trabalho em manuscritos originais, mas teve auxílio de traduções anteriores, como a grande versão de Ferrara (1533).

15.2 Traduções Portuguesas

Neste capítulo apresentaremos um breve histórico da tradução da Bíblia em português, tanto em Portugal quanto no Brasil.

15.2.1 Período das Traduções Parciais

D. Diniz (1279-1325) foi a primeira pessoa a traduzir para a língua portuguesa o texto bíblico. Grande conhecedor do latim clássico, e leitor da Vulgata, D. Diniz resolveu enriquecer o português traduzindo as Sagradas Escrituras para o nosso idioma, tomando como base a Vulgata Latina. Embora lhe faltasse perseverança e só conseguisse traduzir os vinte primeiros capítulos do livro de Gênesis, esse seu esforço o colocou em uma posição historicamente anterior a alguns dos primeiros tradutores da Bíblia para outros idiomas, como João Wycliff, por exemplo, que só em 1380 traduziu as Escrituras para o inglês

Fernão Lopes disse em seu curioso estilo de cronista do século XV, que D. João I (1385-1433), um dos sucessores de D. Diniz no trono português, “fez grandes letrados tirar em linguagem os Evangelhos, os Atos dos Apóstolos e as epístolas de São Paulo, para que aqueles que os ouvissem fossem mais devotos acerca da lei de Deus”. (Crônica de D. João I, 2ª. Parte). Esses “grandes letrados” eram vários padres que também se utilizaram da Vulgata Latina em seu trabalho de tradução.

Enquanto esses padres trabalhavam, D. João I, também conhecedor do latim, traduziu o livro de Salmos, que foi reunido aos livros do Novo Testamento traduzidos pelos padres. Seu sucessor, D. João lI, outro grande apoiador das traduções do texto bíblico, mandou gravar no seu cetro a parte final do versículo 31 de Romanos 8: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”.

Como nessa época a imprensa ainda não havia sido inventada, os livros eram produzidos em forma manuscrita, fazendo-se uso de folhas de pergaminho. Isso tornava sua circulação extremamente reduzida. Por ser um trabalho lento e caro, era necessário que ou a Igreja Romana ou alguém muito rico assumisse os custos do projeto. Ninguém mais indicado para isto do que os nobres e os reis.

Outras figuras da monarquia de Portugal também realizaram traduções parciais da Bíblia. A neta do rei D. João I e filha do Infante D. Pedro, a Infanta D. Filipa, traduziu do francês os Evangelhos. No século XV surgiram publicados em Lisboa o Evangelho de Mateus e porções dos demais Evangelhos, um trabalho realizado pelo frei Bernardo de Alcobaça, que pertenceu à grande escola de tradutores portugueses da Real Abadia de Alcobaça. Ele baseou suas traduções na Vulgata Latina.

A primeira harmonia dos Evangelhos em língua portuguesa, preparada em 1495 pelo cronista Valentim Fernandes, e intitulada De Vita Christi, teve os seus custos de publicação pagos pela rainha Dona Leonora, esposa de D. João II. Cinco anos após o descobrimento do Brasil, D. Lenora mandou também imprimir o livro de Atos dos Apóstolos e as epístolas universais de Tiago, Pedro, João e Judas, que haviam sido traduzidos do latim vários anos antes por frei Bernardo de Brinega

Em 1566 foi publicada em Lisboa uma gramática hebraica para estudantes portugueses. Ela trazia em português, como texto básico, o livro de Obadias.

15.2.1.1 Outras Traduções

Outras traduções em língua portuguesa, realizadas em Portugal, são dignas de menção: Os quatro Evangelhos, traduzidos em elegante português pelo padre jesuíta Luiz Brandão. No início do século XIX, o padre Antônio Ribeiro dos Santos traduziu os Evangelhos de Mateus e Marcos, ainda hoje inéditos.

É fundamental salientar que todas essas obras sofreram, ao longo dos séculos, implacável perseguição da Igreja Romana, e de muitas delas só escaparam um ou dois exemplares, hoje raríssimos. A Igreja Romana também amaldiçoou a todos os que conservassem consigo essas traduções da Bíblia em idioma vulgar (BÍBLIA THOMPSON, 1992, p. 1379).

15.2.2 Tradução de João Ferreira de Almeida

A Edição Comemorativa do Terceiro Centenário da Tradução da Bíblia em língua portuguesa apresentou para João Ferreira de Almeida as seguintes informações: Nascido em Torres de Tavares, Conselho de Mangualde, Portugal, em 1628, faleceu, João Ferreira de Almeida, em 1691”. Temos aqui 63 anos que se dignificaram na vida do consagrado servo de Deus. É consagrado no campo da cultura secular, versado na lingüística, incansável na comparação das línguas que aprendeu e usou, valeu-se de sua língua nativa, a portuguesa, para a expressão geral e ampla de suas obras principais, destacando-se, dentre elas, a tradução que fez da Bíblia, dos originais hebraico e grego para a língua portuguesa.

João Ferreira de Almeida foi quem primeiro traduziu a Bíblia para o nosso vernáculo. Português ele, de três séculos idos, é certo que ainda falando e escrevendo corretamente, com segura inteligência das proposições, das frases e das palavras teve linguagem que hoje seria distante e até, não raro, diferente para as sucessivas edições da Bíblia, segundo ele a traduziu, porque a evolução semântica da linguagem, por vezes, impõe mudanças de palavras para que se não mude o sentido das mensagens.

Há 300 anos (1681) João Ferreira de Almeida traduziu o Novo Testamento, em Amsterdã; e daí avante, sua publicação (Batávia, 1693), novamente em Amsterdã (1712); em Trangambar, 1760; e outra vez em Batávia, 1773.

Incansável no trabalho traduziu também o Antigo Testamento, mas até o versículo 12 do capítulo 48 de Ezequiel.

Em 1656, Almeida foi ordenado pastor da Igreja Reformada, mas sempre desejoso de promover a Reforma em Portugal. De 1656 até 1658 foi missionário no Ceilão, depois na Índia, e foi o primeiro ordenado a pregar em português. De volta a Batávia, pastoreou a comunidade portuguesa ali existente.

Faleceu, dissemos, em 1691, todavia João Ferreira de Almeida até hoje influi com as traduções que deixou da Bíblia. A mais antiga versão usual no Brasil, entre os evangélicos, mereceu da Sociedade Bíblica do Brasil certa atualização na linguagem, pois distam três séculos a tradução do Almeida.

Na seção de Livros Raros da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, há um exemplar do Novo Testamento impresso em Amsterdã (1712).

9 15 - TRADUÇÕES E VERSÕES CASTELHANAS E PORTUGUESAS

15.2.2.1 A Tradução de Almeida Revisada

Duas entidades – Comissão Revisora e Comissão Consultiva – foram organizadas entre nós, sob os auspícios das Sociedades Bíblicas Unidas para se desincumbirem da sagrada responsabilidade de rever a Tradução de Almeida e atualizar a sua linguagem. Estas duas comissões em sua reunião inaugural, no dia 14 de abril de 1943, sob a presidência do destacado Pastor César Dacorso Filho, tratavam das "Razões por que necessitamos de uma revisão das atuais versões da Bíblia em Português". Os brasileiros contaram com o apoio irrestrito e a sábia experiência dos Secretários Executivos das Sociedades Bíblicas Unidas nesta primeira reunião, mas posteriormente o Secretário de Tradução da Sociedade Bíblica Americana, Dr. Eugene A. Nida visitou o nosso país com a principal finalidade de orientar os trabalhos de tradução e revisão.
Depois de ponderados e minuciosos estudos das três traduções mais divulgadas no Brasil, ou sejam: Almeida, Figueiredo e da Tradução Brasileira de 1917, a comissão decidiu pela revisão da tradução Almeida, observando os seguintes tópicos: fidelidade ao texto original; tradução e não interpretação; clareza, correção e elegância de linguagem; cunho espiritual da linguagem; aproveitamento de outras versões e acesso às línguas originais.
De acordo com a Sociedade Bíblica do Brasil, o trabalho feito não foi uma nova tradução, mas uma revisão da tradução de João Ferreira de Almeida. Os textos originais foram Nestle, para o Novo Testamento e Letteris para o Velho Testamento.
As modificações feitas em Almeida se basearam, especialmente, nestes aspectos: infidelidade ao original, ou em desacordo com o melhor texto; palavra ou frase antiquada demais; palavra ou frase que apresentasse alguma impropriedade; construção gramatical inferior.
Nesta revisão, talvez tenha permanecido, no máximo, 30% da linguagem de Almeida, não sendo de admirar este corte se levarmos em consideração que a linguagem de Almeida, que estava sendo atualizada, tinha quase 200 anos.
O renomado vernaculista, Antônio de Campos Gonçalves, secretário e relator da Comissão nos científica de que a Sociedade Bíblica do Brasil desejou conservar o mais possível a linguagem de Almeida, mas este objetivo era difícil de ser alcançado, por ser muito antiga a sua linguagem e por serem diferentes os originais seguidos por Almeida (Textus Receptus) e pela Comissão Revisora (Letteris e Nestle).
Outros aspectos contestados por entendidos na arte de traduzir sobre a Almeida Atualizada são os termos eruditos e rebuscados, desconhecidos até por pessoas cultas. Preciosismos literários idênticos aos seguintes deveriam ser evitados: coudelaria (Et 8.10), excogitar (Sl 64.6), acrisolar (Sl 66.10), espelta (Is 28.25), sachar (Is 5.2), prevaricações (Ez 33.0), gazofiláceo (Mc 12.41), recalcitrar (At 2614), inculcando-se (Rm 1.22), adágio (2Pe 2.22). Não nos esqueçamos de que a linguagem é correta e o estilo agradável de se ler.
Como bem destacou o Dr. Bittencourt, no livro O Novo Testamento, páginas 244 e 245: "Nenhuma tradução é perfeita, nem quanto ao presente, nem futuro. E a última revisão de Almeida não poderia escapar a este destino.
A crítica aponta-lhe sérios erros de tradução, que seria cansativo enumerar. E, ao comentar o fato sobre o Antigo Testamento o ilustre professor de línguas da Universidade de São Paulo, disse que os Salmos, especialmente, poderiam ser bem melhorados, quer quanto à tradução propriamente dita, quer quanto à métrica.
Embora a espaços largos no correr do tempo, a semântica de alguns vocábulos varia. Novos vocábulos vão sendo criados e outros abandonados, tornando-se arcaicos.
E para que determinada tradução não envelheça, ela deve ser revista, não só quanto à língua, mas quanto à tradução propriamente dita, levando-se em conta as descobertas no campo da crítica textual que sempre trazem novo material para o aperfeiçoamento do texto sagrado nas línguas originais. E esta revisão, tão recente, já pede outros trabalhos que a tornem bem melhor.

15.2.3 Tradução de Figueiredo

Por um decreto de 1757, no tempo do Papa Bento XIV, a Bíblia era reconhecida como útil para fortalecer a fé. Esta nova atitude da Igreja Católica Romana deu impulso à tradução da Bíblia com a Vulgata como base. Entre estes se encontrava o Padre Antônio Pereira de Figueiredo, nascido perto de Lisboa em 1725. Por ser exímio latinista, e como ele mesmo confessa: "Não sendo eu nem ainda medianamente instruído nas línguas originais, hebraica e grega, em que foram escritos, respectivamente, o Velho Testamento e os Evangelhos, mal poderia sair exata e perfeita esta minha tradução."
A sua tradução se baseou na Vulgata. Por 18 anos ocupou-se deste trabalho, que foi submetido a duas revisões cuidadosas antes de ser publicado. A primeira edição do Novo Testamento saiu em 1778 em seis volumes e o Velho Testamento foi publicado em 17 volumes, seguidamente, desde 1783 a 1790.
A edição de sete volumes completada em 1819 é considerada o padrão das versões de Figueiredo. A tradução de Figueiredo em um só volume foi publicada pela primeira vez em 1821.
A principal objeção que se faz à Bíblia de Figueiredo é esta: apresenta deficiências que se verificam numa tradução de tradução.
Dr. Benedito P. Bittencourt apresentou ainda as seguintes falhas nesta tradução:
O uso de algumas palavras em Português demonstra como foi tendenciosa a tradução de Figueiredo. Em 1 Pedro 5.5 ele traduz: 'apoiando a honra dos padres'. Nas revisões feitas pelas sociedades Bíblicas esta tradução foi mudada para 'obedecei aos mais velhos' em harmonia com o original. Em João 11.57 ele traduz 'pontífice' em lugar de 'sumo-sacerdote', bem como na maioria dos lugares em que o termo aparece na carta aos Hebreus. A palavra padre, no sentido usado pela Igreja Romana, é usada, como no exemplo dado, para traduzir a palavra grega presbíteros em muitos lugares, o que não representa o sentido original. Figueiredo foi acusado de tradução perifrástica e livre. Em 2Co 4.8b ele traduz: 'Somos cercados de dificuldades insuperáveis e a nenhuma sucumbimos', que Almeida revista traduz: 'perplexos, porém não desanimados'. Não é somente tradução perifrástica, mas a segunda parte não guarda o significado original. Ele faz duas pequenas sentenças coordenadas em vez de adversativas. Não foi influência da Vulgata que ele tinha diante de si, pois esta traz: aporiamur, sed non destituimur, mas seu próprio modo de traduzir [...] Dezenas de exemplos se poderiam citar, mas estes poucos dão idéia de como Figueiredo fez sua tradução: melhor linguagem que a de Almeida, mas pior tradução." (O Novo Testamento. Cânon – Língua – Texto, p. 220).
A tradução de Figueiredo foi a primeira a verter a expressão "kuriakê hemera" de Ap 1.10 para domingo.

10 15 - TRADUÇÕES E VERSÕES CASTELHANAS E PORTUGUESAS

15.2.4 Edição Trinitária de 1883

Tão logo se fundou a Trinitarian Bible Society, em Londres, cuidou de verter o Livro Santo em vários idiomas, inclusive em português, que saiu a lume em 1883. Esta primeira edição da Trinitária é muito disputada pelos adventistas da fala portuguesa, ao ponto de se pagarem somas fabulosas por um exemplar, hoje raríssimo. E por quê? Porque ela registra assim Lc 23.43: 'E Jesus lhe disse: Na verdade te digo hoje, que estarás comigo no Paraíso'. E Ap 22.14: 'Bem-aventurados aqueles que guardam os seus Mandamentos, para que tenham acesso à árvore da vida, e para que entrem na cidade pelas portas'. E assim Jo 3.4: '... pecado é quebrantamento da Lei'. Estes três textos, assim traduzidos, casam-se maravilhosamente com certos aspectos da doutrina adventista. Também Is 42.21: '... engrandecerá Ele a Lei, e a fará ilustre'.
Entretanto, tirando esta aparente vantagem para os adventistas, a tradução, nos demais, do ponto de vista técnico e diante de novas descobertas da Crítica Textual, deixa muito a desejar, não é recomendável como um todo. A crítica especialmente aponta-lhe sérios deslizes tradutórios no Velho Testamento, principalmente em alguns Salmos. A parte do Novo Testamento baseou-se no texto Receptus de 1624, que não é bom, e foi superado pelo trabalho de Tischendorf e posteriormente por Westcott and Hort, pelos papiros de Beatty, e mais recentemente pelo famoso e atualíssimo texto de Ebberard Nestle. Ora, os textos gregos modernos estão livres de interrupções e imperfeições dos textos antigos, pois o trabalho da Crítica Textual consiste em restaurar, tanto quanto possível o texto original.
O português desta primeira edição da Trinitária é simplesmente horroroso, arcaicíssimo e deselegante. É freqüente o emprego de termos obsoletos e desusados, como, 'capros' (Lv 16.8), 'hum', 'humo' (em vários passos), 'olíbano' (Is 66.3), 'graça' (Sl 1.4)... e, sobretudo a inadmissível grafia dos verbos no futuro ('virão', por exemplo).
Cacófatos dos piores encontram-se, por exemplo, em 2Sm 1.3; Gn 25.30; Ez 45.24; 46.11; Sl 102.6; Is 62.8; 2Co 11.33; Hb 11.27. E um verbo de sentido chulo em Lc 2.6 e 7. A Versão Trinitária em 1883 jamais é referida pelos eruditos, que a consideram destituída de valor crítico.

15.2.5 Trinitária Revisada

Circula em Portugal, há algum tempo, uma edição revista da Trinitária, com a linguagem melhorada e atualizada, de acordo com a reforma ortográfica oficializada pela Academia de Ciências de Lisboa. Mas não melhorou o conteúdo, e foram 153 Faculdade e Seminário Teológico Nacional Ensino à Distância alteradas certas redações, inclusive de Lc 23.43, que agora está como as demais versões: "na verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso". E ainda conserva boa parte dos cacófatos, e incorreções tradutórias. Os próprios evangélicos brasileiros não a apreciam.

15.2.6 Traduções parciais da Bíblia no Brasil

Nazaré. Em 1847 publicou-se, em São Luís do Maranhão, O Novo Testamento traduzido por frei Joaquim de Nossa Senhora de Nazaré, que se baseou na Vulgata. Este foi, portanto, o primeiro texto bíblico traduzido no Brasil. Essa tradução tornou-se famosa por trazer em seu prefácio pesadas acusações contra as “Bíblias protestantes”, que, segundo os acusadores, estariam “falsificadas” e falavam “contra Jesus Cristo e contra tudo quanto há de bom”. Em 1879, a Sociedade de Literatura Religiosa e Moral do Rio de Janeiro publicou a que ficou conhecida como “A Primeira Edição Brasileira” do Novo Testamento de Almeida. Essa versão foi revista por José Manoel Garcia, lente (professor de escola superior ou secundária) do Colégio D. Pedro II; pelo pastor M. P. B. de Carvalhosa, de Campos, RJ, e pelo primeiro agente da Sociedade Bíblica Americana no Brasil, pastor Alexandre Blackford, ministro do Evangelho no Rio de Janeiro.
“Harpa de Israel” foi o título que o notável hebraísta F. R. dos Santos Saraiva deu à sua tradução do Livro dos Salmos, publicada em 1898.
Em 1909, o padre Santana publicou sua tradução do Evangelho de Mateus, vertida diretamente do grego. Três anos depois Basílio Teles publicou a tradução do Livro de Jó, com sangrias poéticas. Em 1917 foi a vez de J. L. Assunção publicar O Novo Testamento, tradução baseada na Vulgata Latina.
Traduzido do velho idioma etíope por Esteves Pereira, O Livro de Amós surgiu isoladamente no Brasil em 1917. Seis anos depois, J. Basílio Pereira publicou a tradução do Novo Testamento e do Livro dos Salmos, ambos baseados na Vulgata. Por essa época surgiu no Brasil (infelizmente, sem indicação de data) a Lei de Moisés (O Pentateuco), edição bilíngüe hebraico-português, preparada pelo rabino Meir Masiah Melamed.
O padre Huberto Rohden foi o primeiro católico a traduzir no Brasil o Novo Testamento diretamente do grego. Publicada pela instituição católico-romana Cruzada Boa Esperança, em 1930, essa tradução, por estar baseada em textos considerados inferiores, sofreu severas críticas.

15.2.6.1 Traduções completas

Em 1902, as sociedades bíblicas empenhadas na disseminação da Bíblia no Brasil patrocinaram nova tradução da Bíblia para o português, baseada em manuscritos melhores que os utilizados por Almeida. A comissão constituída para tal fim, composta de eruditos nas línguas originais e no vernáculo, entre eles o gramático Eduardo Carlos Pereira, fez uso de ortografia correta e vocabulário erudito. Publicado em 1917, esse trabalho ficou conhecido como Tradução Brasileira. Apesar de ainda hoje apreciadíssima por grande número de leitores, essa Bíblia não conseguiu se firmar-se no gosto do grande público.
Coube ao padre Matos Soares realizar a tradução mais popular da Bíblia entre os católicos na atualidade. Publicada em 1930 e baseada na Vulgata, essa tradução possui notas entre parêntesis defendendo os dogmas da Igreja Romana. Por esse motivo recebeu apoio papal em 1932.
Em 1943, as Sociedades Bíblicas Unidas encomendaram a um grupo de hebraístas, helenistas e vernaculistas competentes uma revisão da tradução de Almeida. A comissão melhorou a linguagem, a grafia de nomes próprios e o estilo da Bíblia de Almeida.
Em 1948 organizou-se a Sociedade Bíblica do Brasil, destinada a “Dar a Bíblia à Pátria”. Esta entidade fez duas revisões no texto de Almeida, uma mais aprofundada, que deu origem à Edição Revista e Atualizada no Brasil, e uma menos profunda, que conservou o antigo nome “Corrigida”.
Em 1967, a Imprensa Bíblica Brasileira, criada em 1940, publicou a sua Edição Revisada de Almeida, separada com os textos em hebraico e grego. Essa edição foi posteriormente reeditada com ligeiras modificações.
Mais recentemente, a Sociedade Bíblica do Brasil traduziu e publicou a Bíblia na Linguagem de Hoje (1988). O propósito básico desta tradução tem sido o de apresentar o texto bíblico numa linguagem comum e corrente.
Em 1990, a Editora Vida publicou a sua Edição Contemporânea da Bíblia traduzida por Almeida. Essa edição eliminou arcaísmos e ambigüidades do texto quase tricentenário de Almeida, e preservou, sempre que possível, as excelências do texto que lhe serviu de base.
Enquanto a edição da Bíblia Thompson estava sendo preparada, uma comissão constituída de eruditos em grego, hebraico, aramaico e português, coordenada pelo São. Luiz Sayão trabalhava em uma nova tradução das Escrituras para a língua portuguesa, sob o patrocínio da Sociedade Bíblica Internacional.
São, também, dignas de referência: A Bíblia traduzida pelos monges de Meredsous (1959); A Bíblia de Jerusalém, traduzida pela Escola Bíblica de Jerusalém (padres dominicanos), e editada no Brasil por Edições Paulinas em 1981, com notas, e a Edição Integral da Bíblia, trabalho de diversos tradutores sob a coordenação de Ludovico Garmus, editado por Editora Vozes e pelo Círculo do Livro, também com notas.

11 16 - ERROS NO TEXTO, CRÍTICA TEXTUAL E TEXTO RECEPTUS

16.1 Causas dos Erros na Transmissão do Texto Bíblico

Antes da invenção da imprensa, no século XV, a transmissão de qualquer escrito, apenas poderia ser feita copiando, pacientemente, à mão, palavra por palavra. Podemos imaginar quantas probabilidades de erro tal método comporta. Experimentese pedir a 20 pessoas que copiem determinado trecho, copiando sucessivamente, cada uma da outra cópia, no final ficaremos admirados diante do resultado obtido. Nos manuscritos tiravam-se cópias e apesar do estrito cuidado, as variantes logo apareciam.

16.1.1.1 Erros provenientes de uma visão deficiente

O escriba atingido por astigmatismo achava difícil distinguir as letras gregas que se pareciam, especialmente se o copista anterior não escreveu com cuidado. Assim num manuscrito uncial, onde o sigma era feito como sigma lunar, era fácil confundi-lo com o épsilon, o teta e o ómicron C E Y O. Se dois lâmbdas fossem escritos muito juntos poderiam ser tomados pela letra Mi, como aconteceu em Romanos 6.5, em muitos manuscritos está A L L A (mas), noutros está AMA (juntos). Há divergência em alguns manuscritos com a parte final de 1Co 12.13. A maioria traz: "E a todos nós foi dado beber de um só Espírito"; contudo em alguns aparece: "E a todos nós foi dado beber de uma bebida". Esta variante surgiu quando alguns copistas leram erradamente IMA (a contração comum da palavra INEYMA – espírito, como IIOMA (bebida).

16.1.1.2 Erros provenientes de igual terminação

Tecnicamente, este erro chama-se homoioteleuton = final igual de duas linhas. Pelo fato de duas linhas seguidas terminarem com a mesma palavra ou sílabas, os olhos do copista podiam pular da primeira para a segunda, omitindo acidentalmente várias palavras. Assim é explicada a curiosa tradução de João 17.15 no Códice Vaticano, onde não aparecem as palavras aqui colocadas entre parênteses: "Não peço que os tires do (mundo, mas que os livres do) mal". Algumas vezes, os olhos do escriba, apanhavam a mesma palavra ou grupo de palavras uma segunda vez e como resultado copiava duas vezes, o que deveria ter feito apenas uma. Em Atos 19.34 a expressão: Grande é a Diana dos efésios, aparece duas vezes do Códice Vaticano. Chama-se ditografia a repetição daquilo que ocorre apenas uma vez e haplografia a falta da repetição de uma letra ou palavra.

16.1.1.3 Erros provenientes de audição deficiente

Era comum ditarem ao copista e ele escrever uma outra palavra parecida, como as nossas imersão e emersão, despercebido e desapercebido, comprimento e cumprimento. Outro problema com o ditado encontrava-se nas homônimas não homógrafas, como ilustram as palavras portuguesas: sinto e cinto, incipiente e insipiente, cocho e coxo. A confusão entre épsilon e eta, ômega e ómicron era muito comum em ditados. Um problema desta natureza está em Romanos 5.1, onde a variante tenhamos se alterna com temos, em grego ecwnen e econen. Dr. Benedito de Paula Bittencourt, em seu trabalho pioneiro de Crítica Textual em Língua Portuguesa fez a análise crítica deste versículo e a quem pedimos vênia para citar algumas de suas conclusões.
Crítica externa – Quantitativamente e qualitativamente as evidências externas parecem favorecer o subjuntivo. No entanto, descoberta recente, a do fragmento do MS 0220, vem suprir o que falta a P. 46, que começa em 5.17. Este manuscrito, cuja leitura é dificultada pelo estado em que se encontra, parece indicar que o verbo está escrito com ómicron e não com ômega, sendo, no caso, um indicativo e não subjuntivo, como indicam os escribas primários do Sinaítico e Vaticano. Crítica interna – Se a Teologia de Romanos e dos escritos paulinos como um todo for examinada, poderá o crítico chegar a uma conclusão final, na qual os elementos já compulsados das evidências externas darão sua colaboração conclusiva. O indicativo dá ideia de algo ativo no presente, enquanto o subjuntivo é modo exortativo e que traz em si a idéia de ação almejada no tempo futuro. Há no subjuntivo também a idéia de ordem, imperativa. O subjuntivo coloca o Apóstolo exortando o homem justificado pela fé em Cristo a alcançar por seus esforços sua paz com Deus. Mas, isto é contra o pensamento paulino. Para Paulo não há necessidade de esforços humanos para alcançar paz com Deus, pois o homem é incapaz de realizar sua própria salvação e mesmo manter sua paz. Cristo, e somente Cristo, é seu Salvador e só Ele é capaz de reconciliar o homem com seu Deus e lhe dar paz. Esta é a ideia do indicativo (O Novo Testamento, p. 199-200).
No grego Coinê os ditongos oi, ui, e as simples vogais h, i, u não apresentavam diferença de pronúncia soando todos como o nosso "i" resultando daí trocas entre hmeiv = nós e umeiv = vós; eieroiv = outros e eiairoiv = companheiros (Mt 11.16). Em Hebreus 4.11 o escriba do Códice Claromontano escreveu aletheias = verdade, por apeitheias (desobediência) com resultados desastrosos para o sentido. A declaração de Paulo de 1Co 15.54: "tragada foi a morte na vitória (nicós em Grego)" está no papiro 46 e Códice B: "tragada foi a morte no conflito (neicós)".

16.1.1.4 Erros de Memória

Estes erros surgiram porque a memória falhava enquanto o copista olhava para o manuscrito e procurava escrever o que lá se encontrava. Este tipo de erro explica a origem de um grande número de mudanças, especialmente nos evangelhos sinóticos, envolvendo a substituição de sinônimos, variação na ordem das palavras, troca de palavras por influência de outra passagem paralela, talvez conhecida do escriba. A substituição de sinônimos aparece em exemplos como: eipen por efe, ec por apó, etc. Um exemplo de troca de palavras temos em Mt 19.16-17, onde alguns copistas alteraram o relato para que este concordasse com Mc 10.17 e Lc 18.18. À declaração de Cl 1.14 copistas acrescentaram em alguns manuscritos, "através do seu sangue", por influência da passagem paralela de Ef 1.7.

16.1.1.5 Erros de Julgamento

Encontramos alguns erros que apenas podem ser explicados por culpa de copistas pouco inteligentes ou descuidados. Palavras ou notas explicativas, encontradas na margem, eram muitas vezes, incorporadas ao texto do Novo Testamento. Ao copista encontrar na margem, notas explicativas como sinônimos de palavras difíceis, correções, comentários pessoais, ficava perplexo sem saber o que fazer com elas. Alguns resolveram o problema da seguinte maneira – colocaram a nota no texto que estavam copiando. Há manuscritos que trazem acrescentadas a Rm 8.1 as seguintes palavras: "que não andam segundo a carne, mas segundo o espírito". Esta era uma nota explicativa na margem do primeiro versículo, talvez tirada do verso quatro.
Somente descuido em alto grau pode justificar alguns absurdos perpetrados por escribas pouco perspicazes. Talvez um dos piores desatinos cometidos por um escriba se encontra no manuscrito 109 do século XIV. Este manuscrito, dos quatro evangelhos, agora no Museu Britânico, foi transcrito de uma cópia que deve ter tido a genealogia de Jesus era duas colunas de 28 linhas cada uma. Em vez de transcrever o texto seguindo as colunas em sucessão, o escriba do 109 copiou a genealogia seguindo as linhas através das duas colunas, surgindo como era de se esperar um resultado desastroso. Quase todos os filhos estão com os pais trocados; Deus é dado como filho de Adão e Fares é a fonte de toda a raça e não Deus.

16.1.2 Erros Intencionais

Por estranho que pareça, os escribas que pensavam, eram mais perigosos do que aqueles que se limitavam a copiar o que tinham diante de si. Muitas das alterações, que podem ser classificadas como intencionais foram, sem dúvida, introduzidas de boa fé por copistas que criam estar corrigindo erros ou infelicidades de linguagem, que se haviam introduzido no texto sagrado e precisavam ser retificados. A despeito da vigilância de eclesiásticos zelosos, alguns escribas, chocados com erros reais ou imaginários, de ortografia, gramática e fatos históricos, deliberadamente, introduziram mudanças no que estavam copiando.

16.1.2.1 Correções na Ortografia, Gramática e Estilo

O livro de Apocalipse, com seus freqüentes semitismos e solecismos, apresentava muitas tentações aos escribas zelosos da correção gramatical. Para melhorar a sintaxe do nominativo depois da proposição apó (Ap 1.4), eles inseriram tou, Qeou ou Kurivon. O escriba culto era tentado a melhorar a linguagem.

16.1.2.2 Correções Harmonizadoras

Intencionalmente ou não, procurando harmonizar passagens paralelas ou relatos idênticos, os copistas alteravam algumas passagens bíblicas.
Os exemplos são muitos, mas aqui serão apresentados somente dois: Em João 19.20 encontra-se a expressão – Jesus Nazareno, o Rei dos Judeus, estava escrito em hebraico, latim e grego. Em muitos manuscritos, os copistas acrescentaram no texto de Lucas 23.38, isto foi escrito em hebraico, latim e grego; a forma mais curta da Oração do Senhor em Lc 11.2-4 foi alterada, em muitas cópias, para concordar com a forma mais familiar e mais longa encontrada em Mateus 6.9-13.

16.1.2.3 Acréscimo de Complementos Naturais e Semelhantes

A obra dos copistas na amplificação e arremate das frases é evidente em muitas passagens.
Vários escribas, supondo que algo estava faltando na declaração de Mt 9:13 "Pois não vim chamar os justos, mas os pecadores" acrescentavam "ao arrependimento". Outros copistas achavam difícil deixar a palavra escriba, sem acrescentar fariseu, como aconteceu em Mt 27.41. Em Cl 1.23 há um interessante exemplo ilustrando como os copistas não resistiram à tentação de realçar a dignidade do Apóstolo Paulo. Neste verso Paulo diz que ele se tornou ministro do Evangelho, em grego está "diácono". Sendo que a palavra grega "diácono" significa, literalmente, aquele que serve ministro, passou a designar uma ordem inferior do ministério, isto é, aqueles que executam trabalhos mais simples na Igreja; os copistas dos manuscritos alefe a e P mudaram diáconos para querix e apóstolos, por acharem que estes títulos eram mais apropriados ao grande Apóstolo dos Gentios. O manuscrito A traz os três títulos para Paulo – arauto, apóstolo e ministro.

16.1.2.4 Esclarecimento de Dificuldades Históricas e Geográficas

A citação de Mc 1.2 é introduzida pela fórmula "Como está escrito no profeta Isaías". Acontece que a citação é proveniente dos profetas Isaías e Malaquias: Isaías 40.3 e Malaquias 3.1. Alguns escribas sentindo esta dificuldade substituíram a expressão "no profeta Isaías" por "nos profetas". Sendo que Mateus 27.9 atribui ao profeta Jeremias o que na realidade veio de Zacarias 11.12; não é de admirar que alguns copistas procurassem corrigir o erro, substituindo o nome, ou omitindo-o. Alguns copistas tentaram harmonizar o relato da cronologia da paixão com a de Marcos, pela mudança da "hora sexta" de João 19.14 para "terceira hora", que aparece em Marcos 15.25. Porque a declaração de Marcos 8.31 - "depois de três dias ressuscitará", parece envolver um problema cronológico, alguns copistas a alteraram para "ao terceiro dia".

16.1.2.5 Duplicidade de Textos

O que faria um escriba cuidadoso quando descobria que a mesma passagem fora dada diferentemente em dois ou mais manuscritos que tinha diante de si? Em vez de fazer uma escolha entre as duas variantes (com a probabilidade de omitir a genuína) muitos incorporaram as duas na mesma cópia que estavam transcrevendo. Isto produziu a chamada duplicidade de textos ou de leituras, característica predominante da família bizantina. Os dois exemplos seguintes confirmam este fato: A declaração de Lucas de que os discípulos estavam continuamente no templo bendizendo a Deus, aparece em alguns manuscritos, "estavam continuamente no templo orando a Deus". Não poucos copistas concluíram que era mais seguro transcrever as duas declarações, aparecendo assim: "estavam continuamente no templo orando e bendizendo a Deus". Atos 20.28 aparece em alguns manuscritos como: "Igreja de Deus", e em outros: "Igreja do Senhor". Vários manuscritos posteriores trazem "Igreja do Senhor e Deus".

16.1.2.6 Alterações Feitas por Questões Doutrinárias

Estas alterações são difíceis de serem avaliadas.
Irineu, Clemente de Alexandria, Tertuliano, Eusébio e muitos outros Pais da Igreja acusaram os heréticos de corromperem as Escrituras para apoiarem suas opiniões pessoais. Por exemplo, Márcion tirou do Evangelho de Lucas todas as referências judaicas relacionadas com Jesus. A Harmonia dos Evangelhos de Taciano traz várias alterações textuais para apoiar suas opiniões ascéticas. Os manuscritos do Novo Testamento preservam traços de duas espécies de alterações dogmáticas: as que envolvem eliminação ou alteração do que era considerado doutrinariamente inaceitável ou inconveniente e as que introduziram dentro das Escrituras "provas" para uma prática ou um dogma teológico. Os exemplos são muitos, como podem ser vistos em The Text of the New Testament, página 202 e 203, mas destes apenas um será transcrito: Escribas que não podiam harmonizar a declaração de Jesus de Mt 24.36 e Mc 13.32 "que Ele não sabia o dia da sua vinda", com a sua divindade, omitiam a expressão: "nem o Filho".

16.1.2.7 Acréscimo de Pormenores:

Acréscimos feitos na margem ou em notas no rodapé, uma vez ou outra eram introduzidos para o texto. Sempre houve e ainda há grande curiosidade em saber o nome de alguns personagens que aparecem anonimamente no texto bíblico. Como a tradição dava nomes a estas pessoas, copistas eram tentados a colocá-los no texto que estavam copiando. Velhos Manuscritos latinos apresentam os seguintes nomes para os dois ladrões crucificados com Cristo: Zoatan, Camma, Magatras. Entre nós é comum ouvirmos que o nome do bom ladrão era Dimas. O nome do 163 Faculdade e Seminário Teológico Nacional Ensino à Distância homem rico de Lucas 16.19 aparece na versão saídica como Níneve ou Ninivita, nome comum para ricos dissolutos naquele tempo. Uma adição apócrifa num antigo manuscrito latino declara que quando Jesus foi batizado uma tremenda luz brilhou da água atemorizando a todos os que estavam presentes. Os títulos dos livros apresentam curiosidades dos amanuenses. O mais original neste aspecto é o título que o copista do manuscrito 1775 deu ao Apocalipse: "Apocalipse do todo glorioso evangelista, amigo do peito de (Jesus), virgem, amado de Cristo, João – o teólogo, filho de Salomé e Zebedeu, mas filho adotivo de Maria, a mãe de Deus, e filho do trovão"

Conclusões

Todos os estudiosos dos problemas dos copistas estão bem cientes de que o estudo comparativo de vários textos é de grande ajuda para a eliminação destes erros. Estes erros têm sido denominados de periféricos, porque não abrangem a essência dos ensinamentos divinos. Quem sabe pessoas iniciantes ou despreparadas em "Crítica Textual" pensem da seguinte maneira: este estudo não deveria ser apresentado, porque pode levar pessoas a descrerem da Palavra de Deus e a concluírem que os escribas eram descuidados, caprichosos e tendenciosos. Verdades e realidades não podem e não devem ser escondidas.
Todos devem ter em mente esta verdade fundamental: o que foi apresentado neste capítulo aconteceu com alguns manuscritos e com poucos copistas, o que vem mostrar a fragilidade da natureza humana. Existem muitas evidências mostrando o trabalho dedicado, cuidadoso, honesto e fidelíssimo da maioria dos copistas, bem como abundante conquista de manuscritos não alterados, que nos levam a crer firmemente na fidelidade da transmissão das Santas Escrituras. A Crítica Textual não abate os fundamentos da nossa crença, antes os solidifica.

16.2 A Crítica Textual e a Bíblia

A palavra crítica origina-se do verbo grego "krino" que significa julgar. A crítica textual tem como primeiro objetivo conhecer a exatidão de um texto. Muitos dignos cristãos, bem intencionados, mas mal esclarecidos têm protestado energicamente contra qualquer aplicação da crítica textual à Bíblia. Para eles é simplesmente absurda a ideia de aplicar a crítica em relação à Bíblia. Perguntam eles: Como submeter a Palavra de Deus, obra do Espírito Santo, aos critérios humanos? Esta simples frase resolveria todos os problemas: O texto original (ou melhor, o autógrafo) da Bíblia é totalmente isento de erros, mas não as cópias feitas por copistas passíveis às falhas humanas. Até à invenção da imprensa, no século XV, os manuscritos eram produzidos por copistas, que freqüentemente cometiam erros de transcrição. Quando sabemos que os manuscritos eram recopiados uns dos outros, sem ser possível a conferência com o texto original é fácil concluir, que os erros tendiam a multiplicar-se nas cópias posteriores.
A finalidade essencial da crítica textual é restabelecer em toda a sua pureza o texto como saiu das mãos do autor, isentando de erros dos copistas, tais como adições indevidas, notas marginais que foram inseridas no texto ou correções tendenciosas visando atenuar, ou torcer o sentido de uma frase, modificar o estilo, transformar o pensamento de um escritor. Os que atacam a crítica textual demonstram o seu despreparo nesta ciência. Para que o trabalho da crítica textual seja efetivo é necessário em primeiro lugar possuir razoável conhecimento das línguas bíblicas; seguindo-se um inventário tão completo quanto possível dos manuscritos, como a sua classificação em famílias; a coerente aplicação dos métodos da crítica textual, até chegar às causas primordiais dos erros na transmissão do texto bíblico.
Entende-se por crítica textual toda pesquisa científica em busca da verdadeira forma de um documento escrito no original, ou, pelo menos, no texto mais próximo do original. No que diz respeito aos autores dos últimos quatro séculos, depois da genial invenção de Gutenberg, podemos estar certos de possuirmos suas obras exatamente como foram escritas, salvo raras exceções, particularmente quanto a erros tipográficos de menor importância. Já não se pode dizer o mesmo a respeito das obras que circularam em manuscrito, antes da invenção da imprensa. Não é de admirar que os escritos copiados múltiplas vezes, umas cuidadosamente, mas outras sem maiores cuidados, e isto durante séculos, sofressem múltiplas e variadas alterações. Isto constitui, nos diferentes documentos conhecidos da mesma obra, o que se chama de variantes ou textos divergentes. E a crítica textual, particularmente a do Novo Testamento, tem por objetivo a escolha do texto, entre todos os encontrados nos vários manuscritos, que possua a maior soma de probabilidades de ser o original ou a forma primitiva do autógrafo, já que não possuímos nenhum dos autógrafos do Novo Testamento, mas apenas cópias e algumas delas distantes mais de dois séculos do original. Esta busca científica dos originais ou dos textos que lhes sejam mais próximos é de extrema dificuldade, cheia de problemas de vasta complexidade. A regra geral nos leva a concluir que, quanto mais distante dos autógrafos, tanto quanto ao tempo como quanto ao número de cópias, maior a corrupção do texto, maior a soma de erros. No entanto, esta regra não é absoluta. Há obras, e o Novo Testamento é deste tipo, onde a matéria em si leva o copista a correções intencionais, e a corrupção, neste caso, não estaria em função da distância que separa a cópia de seu original, nem quanto ao número de cópias, nem mesmo quanto ao tempo, mas em função direta e inequívoca a matéria a ser copiada. Entretanto, o maior número de cópias torna os serviços do crítico mais suaves, pois o pequeno número de manuscritos conduz à probabilidade de perda, alguns lugares, da verdade original, que só pode ser alcançada mediante conjetura, processo deveras precário. Dr. Benedito P. Bittencourt, já várias vezes citado, inquestionavelmente, uma das maiores autoridades em crítica textual no Brasil, assim escreveu no capítulo “A Tarefa da Crítica Textual”.
O Novo Testamento leva, quanto ao tempo que separa os mais antigos manuscritos de seus originais, grande vantagem sobre os clássicos. Possui o Novo Testamento cópias completas dentro do quarto século. Há partes, como as do Papiro Chester Beatty, por exemplo, que se situam na primeira metade do século terceiro e até mesmo no último quartel do segundo, como o caso do Papiro de Bodmer. Há mesmo um fragmento bem perto de seu autógrafo: é o fragmento de papiro P52, situado na primeira metade do século segundo, e mesmo no seu primeiro quartel por alguns paleógrafos, distando, assim, menos de cinqüenta anos de seu original, se colocarmos o Evangelho de João, que P52 representa, na última década do primeiro século. A tarefa do crítico é reagir contra os erros dos copistas. Ninguém deve recear a tarefa, nem mesmo menosprezá- la, quando se pode afirmar, com os entendidos do assunto, que não só os grandes manuscritos, mas também os mais antigos papiros atestam a integridade geral do texto sagrado. E, todavia, a incontestável autoridade da Lagrange diz que entre esta pureza substancial e um texto absolutamente igual aos originais há distância apreciável. Se nos lembrarmos de que os manuscritos e citações diferem entre si entre 150.000 e 250.000 vezes e que um estudo só do Evangelho de Lucas revelou mais de 30.000 passagens diferentes e que, como afirma a autoridade de M. M. Parvis, "não há uma só sentença do Novo Testamento na qual a tradição seja uniforme", sentiremos a grandeza e a responsabilidade da tarefa. Há uma afirmação do mesmo prof. Parvis, da Universidade de Chicago, que surge aos olhos do leigo como um choque' tremendo e que só pode ser avaliada pelos estudiosos da matéria, que o presente Autor não pode deixar de transcrever: "Até que esta tarefa esteja completa, a incerteza a respeito do texto do Novo Testamento permanece". Note-se, todavia, que a elevada cifra de variantes, em sua maioria esmagadora, diz respeito a questões que não afetam o sentido profundo do texto e que o número de variantes que se revestem de importância, especialmente no que diz respeito à doutrina, é assaz reduzido. A tarefa da crítica textual do Novo Testamento é, diz Kenyon, "o mais importante ramo da ciência". Ela trata com um livro cuja importância é imensurável e vital, mais importante que qualquer outro livro do mundo, pois o Novo Testamento é único, nem mesmo comparação pode sofrer. É tarefa básica, pois dela dependem as outras ciências bíblicas. A crítica textual lança os fundamentos sobre o qual a estrutura da investigação espiritual deve ser construída. Sem um bom texto grego, tão mais próximo dos autógrafos quanto lhe permitam os labores da crítica textual, não é possível fazer segura exegese, hermenêutica, crítica histórica ou literária, nem mesmo teologia, para não falarmos em tradução. Embora seja chamada de baixa critica e bem modestos os seus esforços, é fundamental e indispensável ao estudante do Novo Testamento, desde o tradutor até o teólogo. O crítico textual tem por função, primeiro, a coleta do material documentário, que encontra no exame de vários manuscritos, versões e noutro elemento muito precioso, ainda não mencionado, as citações dos chamados Padres Apostólicos. Depois se entregará ao exame crítico desse material, pela estima de sua chacota. Para que ele possa realizar bem sua primeira função é necessário que esteja familiarizado com o material, terreno onde realiza suas investigações. Deve conhecer não só os vários manuscritos, versões e citações dos antigos escritores da Igreja Cristã, como também o modo pelo qual foram produzidos, os usos da escrita literária e não literária do tempo, o material usado, o destino e o objetivo final dessa mesma produção [...] Para que possa realizar a segunda parte, mais profunda, mais difícil e que requer mente bem educada e de grande relevância intelectual, deve conhecer a própria história do texto, os métodos da crítica textual, teologia do autor cujo livro se examina, a história das doutrinas, a língua original, particularmente sua gramática, e um conhecimento cultural da época do autor e dos escritos cujas cópias considera. Por estas ligeiras indicações o leitor pode ver, não só a extensão, mas as implicações desta ciência. Isto para não falarmos em paleografia, arqueologia, conhecimento dos clássicos, como quer a escola alemã, pois se pressupõe este trabalho já realizado pelos respectivos especialistas e colocado ao alcance do crítico textual através da caracterização dos vários documentos (O Novo Testamento, Cânon – Língua – Texto, pp. 71-75).

12 16 - ERROS NO TEXTO, CRÍTICA TEXTUAL E TEXTO RECEPTUS

16.3 O Textus Receptus - Seus Defensores e Opositores

Recebe o nome de "Textus Receptus" o texto grego que dominou, no campo do estudo do Novo Testamento por mais de 300 anos. Este texto é também conhecido pelos nomes de Texto Recebido ou Texto Grego Vulgarizado.
No início do século XVI dois grandes eruditos – o Cardeal Ximenes e Erasmo – lançaram-se à enorme tarefa de publicar o Novo Testamento em grego, procurando unificar os vários textos gregos existentes.
Para a boa compreensão da história do "Textus Receptus" é preciso partir do famoso editor francês Roberto Estéfano (1503-1559), que publicou quatro edições do texto grego. Sua terceira edição (1549) é o primeiro texto onde aparece um aparato crítico. Foi esta edição que se tornou o modelo para a King James Version de 1611 e até o século XIX foi o paradigma de todos os textos gregos publicados. A sua quarta edição (1551) não pode ser esquecida na história do texto bíblico, porque pela primeira vez aparece a divisão em versos numerados. Embora a expressão "Textus Receptus" se refira à terceira edição de Estéfano, esta não foi usada por ele.
Outro nome intimamente ligado com o "Textus Receptus" é o de Teodoro Beza (1519- 1605), que entre 1565 e 1604 publicou nove textos bíblicos. O texto de Beza pouco difere da quarta edição de Estéfano. A importância do seu trabalho consiste no seguinte: suas edições visavam popularizar o "Textus Receptus". Os tradutores de King James fizeram largo uso das edições de Beza. Em 1624, os irmãos Elzevirs, impressores alemães, lançaram uma edição do Novo Testamento Grego, em cujo texto predominava o de Estéfano, mas havia também um pouco do texto de Beza. No prefácio da segunda edição se encontravam as seguintes palavras: "No texto que é agora recebido por todos, não apresentamos nada mudado ou alterado." A expressão "Textus Receptus" nasceu desta mesma frase em latim: "Textum ergo habes, nunc ab omnibus receptum: in quo nihil immutatum aut corruptum damus." Os autores desta simples frase jamais sonhariam que ela fosse o início de uma grande contenda na história do texto bíblico.

16.3.1 Edições Posteriores ao "Textus Receptus" – Edições Críticas

O próximo estágio na história da Crítica Textual do Novo Testamento é caracterizado por constantes esforços para reunir manuscritos gregos, versões e citações patrísticas, que diferissem do "Textus Receptus". Por quase dois séculos, eruditos atacaram as bibliotecas e museus da Europa e Oriente Médio, procurando provas para o texto do Novo Testamento. Durante este período, estudiosos publicaram Novos Testamentos baseados em melhores manuscritos, Brian Walton, que publicou a grande Bíblia Poliglota (1657) baseada no exame de 16 manuscritos. John Mill, também de Oxford, trabalhou 30 anos no preparo de sua edição de 1707, baseando-se em manuscritos, versões e Pais da Igreja. Bentley, empregando em vários lugares pessoas capazes para confrontarem manuscritos e versões, reuniu material para uma definitiva edição que suplantasse o "Textus Receptus", mas, infelizmente, por questões alheias à sua vontade, não chegou a completar sua edição do Novo Testamento.
Entre os colaboradores de Bentley estava J. J. Wettstein de Basiléia, que após quarenta anos de pesquisas publicou em Amsterdam (1751) uma edição do Novo Testamento. Sua obra tem grande valor até hoje, não apenas pelas notas marginais e os seus prolegômenos (prefácio longo a uma obra científica), mas também pelo aparato crítico, onde pela primeira vez os manuscritos unciais são indicados pelas letras maiúsculas e os manuscritos minúsculos pelos números arábicos. Pertencem ainda a esta fase Semler (1725-1791) e Bengel (1687-1752), que individualmente publicaram uma edição do Novo Testamento Grego. Estes Novos Testamentos estavam baseados em manuscritos diferentes daqueles que foram usados para o "Textus Receptus". Contudo eles divergiram daquele texto e os apresentados por eles poucas variantes apresentavam relacionadas com o texto consagrado.

16.3.2 Declínio do "Textus Receptus"

O primeiro erudito a se opor frontalmente ao "Textus Receptus" foi o alemão Karl Lachmann (1793-1851). Seu objetivo ao editar o Novo Testamento não era reproduzir o texto original, pois ele cria ser isso uma tarefa impossível, mas procurar reconstruir o texto corrente no fim do IV século. Para isso usou manuscritos unciais primitivos, versões latinas, a Vulgata de São Jerônimo e o testemunho de alguns Pais da Igreja. Após cinco anos de trabalho, publicou em Berlim (1831) uma edição do texto grego, com uma lista de passagens nas quais diferia do texto dos irmãos Elzevirs. Por esta divergência foi duramente atacado. No prefácio de sua segunda edição Lachmann atacou seus críticos por preferirem, cegamente, um texto familiar, mas inferior, a um primitivo muito mais exato. Seu valor está em chamar a atenção dos estudiosos para a conveniência de aceitarem um texto superior e não se contentarem com aquele, tradicionalmente conhecido e aceito por todos.

16.3.3 Constantino Tischendorf

Ninguém conseguiu fazer mais pelo texto bíblico do que este autor. Quando estudava teologia, seu professor de grego, Winer (autor de uma famosa gramática) despertou nele um desejo profundo para pesquisar manuscritos antigos, a fim de reconstruir a mais perfeita forma do Novo Testamento Grego. Com este objetivo em mente, dedicouse de corpo e alma a esta sublime tarefa, pois escrevendo à sua noiva ele declarou: "Resolvi dedicar-me a uma tarefa sagrada – a luta para conseguir a forma original do Novo Testamento”. Sem receio de contestação pode-se afirmar que ninguém fez mais do que Tischendorf para restaurar o texto original grego. Basta ter em mente que foi a pessoa que publicou mais manuscritos e produziu mais edições críticas da Bíblia Grega.
Entre 1941 e 1842 ele preparou oito edições do Novo Testamento Grego. A edição mais importante é a oitava, publicada em dois volumes, acompanhada por um rico Aparato Crítico, no qual Tischendorf reunia tudo sobre variantes textuais que ele ou seus predecessores tinham achado em manuscritos, versões e Pais da Igreja. Em virtude do grande esforço despendido, seu estado de saúde não lhe permitiu continuar o trabalho, por isso sua obra foi completada por seu discípulo – Gaspar Renê Gregory. O texto de sua oitava edição, de acordo com Nestle difere da sétima em 3.572 lugares. Foi acusado de dar excessivo valor à evidência do Códice Sinaítico, que ele tinha descoberto entre o lançamento da sétima e da oitava edição. Tischendorf deixou de lado o "Textus Receptus", não levando também em conta a classificação dos manuscritos em famílias.

16.3.4 Samuel Tregelles

Na Inglaterra, o intelectual mais bem sucedido em afastar-se do "Textus Receptus" foi Samuel Tregelles. Desde menino, demonstrando grande talento e curiosidade intelectual, já fazia planos para uma nova edição crítica do Novo Testamento. No intervalo de 1857 e 1872 publicou um texto grego equipado com o mais completo aparato de variantes das versões que já aparecera. Dotado de extraordinária força de vontade, Tregelles conseguiu vencer a pobreza, a oposição e a saúde precária, apresentando notável trabalho no terreno da Crítica Textual. Sua dedicação ao trabalho era um ato de adoração, pois no prefácio de sua obra declarou "na crença total de que esta deve ser para o serviço de Deus e para ser útil à Sua Igreja”.

16.3.5 Westcott e Hort

Estes dois intelectuais ingleses, após um dedicado trabalho de 28 anos publicaram dois volumes: O Novo Testamento no Original Grego com Introdução e Apêndice, onde os princípios críticos seguidos por ele são minuciosamente expostos. Depois de exaustivas pesquisas na procura de manuscritos antigos, os estudiosos desejaram classificá-los em grupos, assim várias tentativas foram feitas, mas quase todas infrutíferas quanto aos seus resultados. Coube a B. F. Westcott e F. J. A. Hort, dois renomados professores da Universidade de Cambridge, a classificação dos manuscritos do Novo Testamento em quatro famílias, por eles denominadas: Siríaca, Ocidental, Alexandrina e Neutra.
Para eles a mais importante destas famílias era a neutra, por estar mais próxima dos autógrafos e por contar com os dois mais famosos códices unciais – Sinaítico e Vaticano. A preferência de Westcott e Hort por esta família é partilhada por insignes vultos da Crítica Textual, mas, estudos posteriores têm indicado que eles foram otimistas demais quanto à pureza do texto neutro. Pode-se notar ainda que o texto Alexandrino não é distinto do texto neutro, por isso, hoje, aparece como Alexandrino.

16.3.6 A Defesa do "Textus Receptus"

Os defensores deste discutido texto tornaram-se tão fanáticos, que não admitiam que ele fosse alterado ou melhorado. Aqueles que ousaram divergir foram tachados de irreverentes e sacrílegos. Sendo que Westcott e Hort rejeitaram totalmente o texto tradicional, suas idéias não foram bem aceitas pelos conservadores. Em breve, intelectuais se levantaram como denodados paladinos do texto aceito por todos durante 300 anos. Dentre esses defensores destacam-se Scrivener, Edward Miller e John Burgon. O argumento principal destes estudiosos em defesa do "Textus Receptus" era este: "Se as palavras da Escritura tinham sido ditadas pela inspiração do Espírito Santo, Deus não teria permitido que elas fossem corrompidas no decurso de sua transmissão." Os argumentos apresentados em defesa do "texto recebido" não tiveram a ressonância que eles esperavam e após a morte deles esta polêmica foi para sempre encerrada.

16.4.1 Herman Von Soden: (1852-1913)

Graças ao apoio financeiro da Sra. Elise Koenigs, Von Soden, professor em Berlim, pôde enviar muitos estudantes que tinham sido treinados por ele para examinarem manuscritos nas bibliotecas e museus da Europa e do Oriente Médio. Ele identificou três grupos de manuscritos, designando-os pelas letras gregas K, H, I. Estas letras são inicias das seguintes palavras: K de koinê – comum H de Hesíquio e I de Siríaco de W. H.; O H incluiria o Neutro e o Alexandrino de W. H., enquanto o I equivaleria ao Ocidental dos dois professores da Universidade da Universidade de Cambridge. Discordando da classificação dos manuscritos em unciais e minúsculos e do agrupamento em famílias de W. H. idealizou nova classificação que indicasse a idade, conteúdo e tipo de cada manuscrito. Por ser um trabalho complexo, difícil de ser aceito na prática, redundou num grande desapontamento para a Crítica Textual, por isso foi totalmente posto de lado. Como resultado de suas pesquisas e de seus muitos auxiliares, Von Soden publicou a História do Texto Bíblico em 2.203 páginas de seus prolegômenos. Este trabalho, resultado de prolongada investigação e intensivo estudo, tem sido descrito como um magnífico fracasso.

16.4.2 Bernard Weiss (1827-1918)

Enquanto professor de Exegese Grega, em Berlim, editou o Novo Testamento em três volumes. Sendo um profundo exegeta tratou com eficiência de problemas teológicos e literários do texto do Novo Testamento. Seu trabalho se caracteriza pela valorização das evidências internas, discordando assim de Westcott e Hort, que se apoiavam em evidências externas, concordando, porém, com eles em classificar o manuscrito Vaticano como o melhor. Weiss discorda também dos defensores da teoria genealógica na classificação dos manuscritos bíblicos.

16.4.3 Eberhard Nestle (1851-1913)

A edição do Novo Testamento Grego mais amplamente usada foi preparada por Nestle, através da Sociedade Bíblica de Stutgart (1898). Seu texto é baseado em uma comparação dos textos editados por Tischendorf, Westcott e Hort e Weiss. A obra de Nestle representa o aperfeiçoamento do texto do fim do século XIX. Sendo notável pela síntese maravilhosa do Aparato Crítico e pela precisão da grande soma de informações textuais, sua edição tem sido muito apreciada. Uma nova edição do Novo Testamento Grego de Nestle foi planejada, quando a Sociedade Bíblica Britânica comemorou seu sesquicentenário (1954). O texto foi preparado por Kilpatrick, com a ajuda de Erwin Nestle e Kurt Aland (Londres – 1958). Houve mudanças numas 20 passagens e diversas alterações na ortografia, acentuação e no uso de parênteses

16.5 Nova Edição para os Tradutores da Bíblia

Em 1966, após uma década de trabalho por uma Comissão Internacional, cinco Sociedades Bíblicas publicaram uma edição do Novo Testamento Grego com a finalidade de ser usada pelos tradutores da Bíblia.
As edições do Novo Testamento Grego, aqui apresentadas, são as mais importantes, mas o seu número exato desde 1514 até nossos dias é difícil de ser avaliado. Bruce, cuja autoridade em problemas de crítica textual ninguém discute, calcula que mais de mil edições já apareceram.

13 16 - ERROS NO TEXTO, CRÍTICA TEXTUAL E TEXTO RECEPTUS

Apêndice

O Valor religioso da Bíblia. Bíblia é, sem dúvida, um dos mais apreciados legados literários da humanidade. Contudo o seu valor não se firma de maneira substancial no fato literário. A riqueza da Bíblia consiste no caráter essencialmente religioso da sua mensagem, que a transforma no livro sagrado por excelência, tanto para o povo de Israel quanto para a Igreja cristã. Nessa coleção de livros, a Lei se apresenta como uma ordenação divina (Êx 20; Sl 119), os Profetas têm a consciência de serem portadores de mensagens da parte de Deus (Is 6; Jr 1.2; Ez 2-3) o os Escritos ensinam que a verdadeira sabedoria encontra em Deus a sua origem (Pv 8.22-31).
Esses valores religiosos aparecem não só no título de Sagradas Escrituras, mas também na forma que Jesus e, em geral, os autores do Novo Testamento se referem ao Antigo, isto é, aos textos bíblicos escritos em épocas precedentes. Isso ocorre, por exemplo, quando lemos que Deus fala por meio dos profetas ou por meio de algum dos outros livros (Mt 1.22; 2.15; Rm 1.2; 1Co 9.9) ou quando os profetas aparecem como aquelas pessoas mediante as quais “se diz” algo ou “se anuncia” algum acontecimento, forma hebraica de expressar que é o próprio Deus quem diz ou anuncia (Mt 2.17; 3.3; 4.14); também quando se afirma a permanente autoridade das Escrituras (Mt 5.17-18; Jo 10.35; At 23.5), ou quando as relaciona especialmente com a ação do Espírito Santo (At 1.16; 28.25). Formas magistrais de expressar a convicção comum a todos os cristãos em relação ao valor das Escrituras são encontradas em passagens como 2Tm 3.15-17 e 2Pe 1.19-21.
A Igreja cristã, desde as suas origens, tem descoberto na mensagem do evangelho o mesmo valor da palavra de Deus e a mesma autoridade do Antigo Testamento (Mc 16.15-16; Lc 1.1-4; Jo 20.31; 1Ts 2.13), Por isso, em 2 Pe 3.16, se equiparam as epístolas de “nosso amado irmão Paulo” (v.15) às “demais Escrituras”. Gradativamente, a partir do século II d.C., foram sendo reconhecidos os 27 livros que formam o Novo Testamento a sua categoria de livros sagrados e, em conseqüência, a plenitude da sua autoridade definitiva e o seu valor religioso.
Tal reconhecimento, que implica o próprio tempo da presença, direção e inspiração do Espírito Santo na formação das Escrituras, não descarta, em absoluto, a atividade física e criativa das pessoas que redigiram os textos. Elas mesmas se referem a essa atividade em diversas ocasiões (Ec 1.13; Lc 1.1-4; 1Co 15.1-3,11; Gl 6.11). A presença de numerosos autores materiais é, precisamente, a causa da extraordinária riqueza de línguas, estilos, gêneros literários, conceitos culturais o reflexões teológicas que caracterizam a Bíblia.
A natureza da Palavra de Deus. A expressão “a palavra de Deus” (também “a palavra do Senhor”, ou simplesmente “a palavra”) possui várias aplicações na Bíblia. Obviamente, refere-se, em primeiro lugar, a tudo quanto Deus tem falado diretamente. Quando Deus falou a Adão e Eva (Gn 2.16,17; Gn 3.9-19), o que Ele lhes disse era, de fato, a palavra de Deus. De modo semelhante, Ele se dirigiu a Abraão (Gn 12.1-3), a Isaque (Gn 26.1-5), a Jacó (Gn 28.13-15) e a Moisés (Êx 3– 4). Deus também falou à totalidade da nação de Israel, no monte Sinai, ao proclamar-lhe os dez mandamentos (Êx 20.1-19). As palavras que os israelitas ouviram eram palavras de Deus.
Além da fala direta, Deus ainda falou através dos profetas. Quando eles se dirigiam ao povo de Deus, assim introduziam as suas declarações: “Assim diz o Senhor”, ou “Veio a mim a palavra do Senhor”. Quando, portanto, os israelitas ouviam as palavras do profeta, ouviam, na verdade, a palavra de Deus.
A mesma coisa pode ser dita a respeito do que os apóstolos falaram no Novo Testamento. Embora não introduzissem suas palavras com a expressão “assim diz o Senhor”, o que falavam e proclamavam era, verdadeiramente, a palavra de Deus. O sermão de Paulo ao povo de Antioquia da Pisídia (At 13.14-41), por exemplo, criou tamanha comoção que, “no sábado seguinte, ajuntou-se quase toda a cidade a ouvir a palavra de Deus” (At 13.44). O próprio Paulo assegurou aos Tessalonicenses que, “havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade) como palavra de Deus” (1Ts 2.13; At 8.25).
Além disso, tudo quanto Jesus falava era palavra de Deus, pois Ele, antes de tudo, é Deus (Jo 1.1,18; 10.30; 1Jo 5.20). Lucas, escritor do terceiro evangelho, declara explicitamente que, quando as pessoas ouviam a Jesus, ouviam na verdade a palavra de Deus (Lc 5.1). Note como, em contraste com os profetas do AT, Jesus introduzia seus ditos: Eu “vos digo...” (Mt 5.18,20, 22, 23, 32,39; 11.22,24; Mc 9.1; 10.15; Lc 10.12; 12.4; Jo 5.19; 6.26; 8.34). Noutras palavras, Ele tinha dentro de si mesmo a autoridade divina para falar a palavra de Deus. É tão importante ouvir as palavras de Jesus, pois “quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não entrará em condenação” (Jo 5.24). Jesus, na realidade, está tão estreitamente identificado com a palavra de Deus que é chamado “o Verbo” [“a Palavra”] (Jo 1.1,14; 1Jo 1.1; Ap 19.13-16; Jo 1.1). A palavra de Deus é o registro do que os profetas, apóstolos e Jesus falaram, isto é, a própria Bíblia. No Novo Testamento, quer um escritor usasse a expressão “Moisés disse”, “Davi disse”, “o Espírito Santo diz”, ou “Deus diz”, nenhuma diferença fazia (At 3.22; Rm 10.5,19; Hb 3.7; 4.7); pois o que estava escrito na Bíblia era, sem dúvida alguma, a palavra de Deus. Mesmo não estando no mesmo nível das Escrituras, a proclamação feita pelos autênticos pregadores ou profetas, na igreja de hoje, pode ser chamada a palavra de Deus. Pedro indicou que, a palavra que seus leitores recebiam mediante a pregação, era palavra de Deus (1Pe 1.25), e Paulo mandou Timóteo “pregar a Palavra” (2Tm 4.2). A pregação, porém, não pode existir independentemente da Palavra de Deus. Na realidade, o teste para se determinar se a palavra de Deus está sendo proclamada num sermão, ou mensagem, é se ela corresponde exatamente à Palavra de Deus escrita.
O que se diz de uma pessoa que recebe uma profecia, ou revelação, no âmbito do culto de adoração (1Co 14.26-32)? Ela está recebendo, ou não, a palavra de Deus? A resposta é um “sim”. Paulo assevera que semelhantes mensagens estão sujeitas à avaliação por outros profetas. Todavia, há a possibilidade de tais profecias não serem palavra de Deus (1Co 14.29 “E falem dois ou três profetas, e os outros julguem”).
É somente em sentido secundário que os profetas, hoje, falam sob a inspiração do Espírito Santo; sua revelação jamais deve ser elevada à categoria da inerrância (1Co 14.3).
O Poder da Palavra de Deus. A palavra de Deus permanece firme nos céus (Sl 119.89; Is 40.8; 1Pe 1.24,25). Não é, porém, estática; é A mesma coisa pode ser dita a respeito do que os apóstolos falaram no Novo Testamento. Embora não introduzissem suas palavras com a expressão “assim diz o Senhor”, o que falavam e proclamavam era, verdadeiramente, a palavra de Deus. O sermão de Paulo ao povo de Antioquia da Pisídia (At 13.14-41), por exemplo, criou tamanha comoção que, “no sábado seguinte, ajuntou-se quase toda a cidade a ouvir a palavra de Deus” (At 176 Faculdade e Seminário Teológico Nacional Ensino à Distância 13.44). O próprio Paulo assegurou aos Tessalonicenses que, “havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade) como palavra de Deus” (1Ts 2.13; At 8.25).
Além disso, tudo quanto Jesus falava era palavra de Deus, pois Ele, antes de tudo, é Deus (Jo 1.1,18; 10.30; 1Jo 5.20). Lucas, escritor do terceiro evangelho, declara explicitamente que, quando as pessoas ouviam a Jesus, ouviam na verdade a palavra de Deus (Lc 5.1). Note como, em contraste com os profetas do Antigo Testamento, Jesus introduzia seus ditos: Eu “vos digo...” (Mt 5.18,20, 22, 23, 32,39; 11.22,24; Mc 9.1; 10.15; Lc 10.12; 12.4; Jo 5.19; 6.26; 8.34). Noutras palavras, Ele tinha dentro de si mesmo a autoridade divina para falar a palavra de Deus. É tão importante ouvir as palavras de Jesus, pois “quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não entrará em condenação” (Jo 5.24). Jesus, na realidade, está tão estreitamente identificado com a palavra de Deus que é chamado “o Verbo” [“a Palavra”] (Jo 1.1,14; 1Jo 1.1; Ap 19.13-16; Jo 1.1). A palavra de Deus é o registro do que os profetas, apóstolos e Jesus falaram, isto é, a própria Bíblia. No Novo Testamento, quer um escritor usasse a expressão “Moisés disse”, “Davi disse”, “o Espírito Santo diz”, ou “Deus diz”, nenhuma diferença fazia da palavra de Deus.
A palavra de Deus é a arma que o Senhor nos proveu para lutarmos contra Satanás (Ef 6.17; Ap 19.13-15). Jesus derrotou Satanás, pois fazia uso da Palavra de Deus: “Está escrito” (“consta como a Palavra infalível de Deus”; Lc 4.1-11; Mt 4.1-11).
Finalmente, a palavra de Deus tem o poder de nos julgar. Os profetas do Antigo Testamento e os apóstolos do Novo Testamento freqüentemente pronunciavam palavras de juízo recebidas do Senhor. O próprio Jesus assegurou que a sua palavra condenará os que o rejeitarem (Jo 12.48). E o autor aos Hebreus escreve que a poderosa palavra de Deus julga “os pensamentos e intenções do coração” (Hb 4.12). Noutras palavras: os que optam por desconsiderar a palavra de Deus acabarão por experimentá-la como palavra de condenação.