HERMENÊUTICA
Pastor Evangélico
1 LIVROS HISTÓRICOS:
O que é história?
História é: Narração dos fatos notáveis ocorridos na vida dos povos, em particular, e da humanidade em geral. Conjunto de conhecimentos adquiridos através da tradição e/ou mediante documentos, acerca da evolução da humanidade.
HERMENÊUTICA BÍBLICA:
Definição de Hermenêutica: É a arte e a interpretação da linguagem.
Objetivos da Hermenêutica:
Relação entre: Autor - Leitor:
O objetivo é tornar o autor contemporâneo do leitor, aproximando-os à compreensão da mesma época. O leitor deve compreender o escritor na época em que o texto foi escrito e não na época em que o texto está sendo lido.
Um segundo objetivo da hermenêutica e esclarecer tudo que haja de obscuro.
Tornar o assunto compreensível para uma posterior exposição - II Pedro 3:15 e 16.
É possível dizer a verdade de forma errada. Nas escrituras encontramos a verdade, mas por falta de conhecimento é possível ensinar ela de forma errada.
“Concordamos, também, que o pregador ou professor está por demais inclinados a escavar primeiro, e a olhar depois, e assim encobrir o significado claro do texto, que freqüentemente está na superfície. Seja dito logo de início, e repetido a cada passo, que o alvo da boa interpretação não é a originalidade, não se procura descobrir aquilo que ninguém jamais viu” – Fee/Stuart, Entendes o que lês? Página 13.
Hermenêutica:
A palavra hermenêutica deriva do termo grego Hermeneutikos, por sua vez deriva de um verbo “hermeneou” cujo significado é: arte de interpretar os livros sagrados e os textos antigos. De modo geral e mais abrangente, se fala da teoria da interpretação de sinais e símbolos de uma cultura e a arte de interpretar leis.
Ciência- Porque contém regras definidas, organizadas.
Arte - Porque na hora de aplicar as regras há necessidade de bom senso, sensibilidade.
Há espaço para a criatividade no estudo da Bíblia, porém, esta só deve ocorrer quando ela é dirigida pelo Espírito Santo. O máximo cuidado é sugerido quando levamos a imaginação a criar “verdades” sem base bíblica e a expor estas mesmas como “doutrina” quando na verdade não passa de uma questão da imaginação e fruto muitas vezes de uma dedução.
“Há uma diferença enorme entre interpretação e aplicação ”. Interpretação - Só é o significado pretendido pelo autor, ou seja, por Deus. A interpretação bíblica deverá extrair do texto apenas o que o Deus pretendia dizer através do autor humano, e não o que nós pretendemos que o texto diga.
Aplicação - Podem ser várias, dependendo da situação em que as pessoas se encontram.
2 CONCEITO GERAL HERMENÊUTICA
Procuramos ao máximo fazer um resumo de cada questão, pois caso contrário a disciplina se tornaria muito extensa, razão pela qual sugerimos que se há algum tópico que seja de interesse expressivo do aluno, ele pesquise por conta própria, para enriquecimento de sua própria cultura teológica.
3 Hermenêutica Bíblica:
Geral:
É aquela que trata as Escrituras como um todo. Princípios gerais, básicos. Elabora os princípios. Os princípios de estudos de hermenêutica são a base para uma teologia sadia e bíblica.
Especial:
- É aquela que trata de questões particulares das Escrituras. Esta classe de hermenêutica não pode elaborar princípios.
4 Distinção acadêmica,didática:
Hermenêutica:
- Parte teórica do processo (teoria).
Exegese:
Parte prática do processo interpretativa (prática); tirar para fora o significado do texto.
5 CÂNON:
Não nos compete mais a pesquisa para determinar os livros canônicos (inspirados), o estudo da formação do Cânon é um estudo de outra disciplina.
Existem muitos livros inspirados que não foram incluídos no cânon bíblico pelo fato de se tratarem de problemas específicos para aquela região, igreja ou pessoa.
Exemplos: I Cor. 5:9 (uma Carta anterior a esta que é considerada a primeira) --- Col. 4:16 (havia uma carta para os Laodicenses).
Obs: O profeta é inspirado no exercício de sua função.
6 Crítica Textual:
Ciência que estuda as possíveis mudanças que ocorrem com o texto bíblico.
- Como foi escrito?
Crítica Histórica:
- É aquela que estuda os fatos históricos envolvidos com o texto.
- Quem escreveu? Para quem escreveu?
- Em que circunstâncias? Relação da Hermenêutica com outros campos do estudo bíblico.
Teologia:
Bíblica - Limita o estudo a um livro ou um grupo de livros. Ela focaliza o livro em sí. Focaliza o livro. Sistemática- Pega um tema bíblico e nos vamos para toda a Bíblia para ver o que se fala sobre esse tema. Focaliza o tema.
Exemplo:
- O problema do sofrimento humano no livro de Jó (Teologia Bíblica).
- O problema do sofrimento humano em toda a Bíblia (Teologia Sistemática).
- Não fica limitada a situação de Jó apenas, mas vemos tudo o que Deus mostrou sobre o sofrimento humano.
Conhecido:
- Deus só pode ser compreendido na medida em que Ele se revela.
Nas Escrituras, nós temos uma revelação necessária e não revelação absoluta, pois Deus não nos revelou tudo, apenas o necessário para a nossa salvação.
A teologia sistemática do ponto de vista acadêmico é formulada em bases filosóficas.
Nas Escrituras Sagradas temos apenas revelação necessária e não revelação absoluta.
a) - II Pedro 3:15, 16:
Algumas coisas difíceis de serem entendidas.
É possível torcer as Escrituras.
Pedro tinha dificuldade para entender alguns dos escritos de Paulo
Naquela época, alguns já torciam a Bíblia.
b) - Lucas 24:27:
Os apóstolos estavam deprimidos por não interpretarem devidamente as profecias messiânicas.
O próprio Senhor Jesus reconheceu a necessidade de explicar as Escrituras.
“Expunha-lhes” – Em grego (diermeneuo).
Jesus fez hermenêutica com os discípulos.
c) - II Tim. 2:15:
“Manejar bem a palavra da verdade”
Explorar bem e ensinar corretamente a palavra da verdade.
Paulo recomenda a Timóteo que maneje bem as Escrituras.
Entender bem e ensinar corretamente a palavra da verdade.
d) - II Cor. 2:17:
“Mercadejando” - Falsificando
Do grego (capeleuo) = corromper, falsificar, adulterar
Não devemos corromper, falsificar as Escrituras.
7 BLOQUEIOS À COMPREENSÃO ESPONTÂNEA DA BÍBLIA:
1º - Histórico:
Estamos largamente separados da época dos escritores bíblicos.
A Bíblia cobre um período de cerca de 1.500 anos. Com o tempo, muita coisa se perde.
Quando compreendemos os fatos históricos, nos podemos compreender melhor os fatos bíblicos.
2º - Cultural:
Um dos mais difíceis a serem transpostos.
A cultura distinta dos povos bíblicos.
Nos apenas vemos aquilo que estamos condicionados a ver.
O ideal é nos colocarmos em uma posição neutra.
a) - Costumes:
Gen. 15:2 - Foram achados documentos na cidade enterrada de Nuzu (c. 2000 - c.1500 a.C.), que mostraram que o costume daquela época era adotar um filho quando não se tinham filhos legítimos para herdar a herança. Se, porém, o primogênito nascesse, o adotado passaria para segundo plano.
Gên. 31:34 - Ídolos do lar (no hebr. - Terafins), eram pequenos objetos que serviam como documentos que comprovavam a posse das terras e propriedades. Raquel roubou a herança de seu pai.
Prov. 22:28 - Marco das propriedades da terra. O documento que garantia o terreno, assim como as escrituras de uma casa de hoje.
Deut. 22:5 - Naquela época, as roupas dos homens e mulheres eram iguais, a diferença estava apenas nas roupas íntimas. Muitos naquela época, como hoje, usavam as roupas íntimas do sexo oposto por perversão.
b) - Pensamento:
A maneira oriental de pensar é totalmente diferente da ocidental.
Silogismo:
A análise de argumento formal baseando-se na proposição de uma premícia maior e de outra menor, as quais se verdadeiras levam à conclusão de que determinado fato é verdadeiro.
É a estrutura do pensamento grego.
* Premissa maior: Toda virtude é louvável
* Premissa menor: Ora, a bondade é virtude.
* Conclusão : Logo, a bondade é louvável.
No Velho Testamento não existe “silogismo”; No Velho Testamento a lógica baseia-se na experiência humana e não no raciocínio dedutivo; O pensamento hebraico é um pensamento concreto e não abstrato; O hebreu aceita o fato quando este fato se traduz em experiência.
O que é Deus para estes homens?
- Davi - Deus é o meu refúgio e minha fortaleza.
- Moisés - O Senhor é forte e poderoso
- Hagar - Deus é um Deus que ouve
Personagens bíblicos não estão preocupados com a fisionomia, mas de acordo com a experiência de cada um. Um teólogo deve ser conhecido com um profundo conhecedor da Bíblia. Temos conseguido viver isto em nossa vida, nossa experiência diária. Este conhecimento de nada nos aproveitará se não traduzirmos este conhecimento em vida.
É por isso que não devemos fazer certas perguntas à Bíblia. Exemplo: Como foi a fusão em Cristo (Humanidade e Divindade)?
3º - Linguístico - (Hebraico, aramaico e grego):
Nas melhores traduções há problemas.
Idiomalismo: expressão específica de uma língua, de um povo.
Falta de equivalência entre as palavras traduzidas.
I Pedro 1:20 – Qual é verdadeiro significado da palavra: (grego = epílucis) = iniciativa, impulso.
Nenhuma profecia da Escritura foi feita pelos profetas ou de sua conta, mas iluminados por Deus.
Produção da profecia e não interpretação.
8 O CONCEITO BÍBLICO DE INSPIRAÇÃO:
Defendemos o ponto de vista ortodoxa sobre a inspiração.
Inspiração Bíblica:
A Bíblia enquanto tenha mantido os estilos pessoais de expressão e liberdade dos escritores humanos, é a palavra de Deus em suas fontes originais, toda e totalmente inspirada por Deus mediante o Espírito Santo, sem nenhuma diferença qualificativa na inspiração de qualquer de seus livros, cuja autoridade é assim normativa para a fé e a vida, para a doutrina e proclamação, para pensamento e investigação.
I Cor. 7:10 - “Digo eu, não o Senhor”:
Paulo faz uma distinção entre o que Cristo diz e o que ele (Paulo), diz.
Ensino indireto por meio do Espírito Santo (Paulo era apóstolo).
Não se trata de inspiração e sim, de uma posição:
Algo que havia sido dito por Jesus e algo que apenas Paulo havia falado e não Jesus. Porém, é inspirado do mesmo modo, pois provém de Deus.
Somente a Bíblia apresenta uma dupla natureza:
1º - Sua origem divina.
2º - Sua dimensão humana.
Por causa de sua origem divina, a Bíblia é a palavra de Deus (Aqui temos duas grandes posições em relação ao significado de inspiração bíblica, uma posição defende que a Bíblia contem a palavra de Deus, enquanto que outra posição defende que a Bíblia é a palavra de Deus).
II Pedro. 1:20:
Iniciativa, ímpeto, impulso
II Pedro. 1:21
Vontade, desejo, intenção
Os profetas bíblicos não tiveram desejo nem iniciativa para escrever as Escrituras Sagradas.
Ser levado, ser movido.
Usado na época para dizer o que o vento fazia com um barco a velas, era levado, conduzido pelo vento.
Do mesmo modo, os profetas eram movidos e conduzidos pelo Espírito Santo.
II Tim. 3:16:
Inspiração de Deus
9 O CONCEITO BÍBLICO DE INSPIRAÇÃO:
2 - Sua dimensão humana:
a) Linguagem humana (Hebraico, Aramaico e Grego, eram línguas usadas na época, não só pelo povo de Deus, mas também por povos vizinhos).
b) Características peculiares (os profetas tinham sua própria personalidade e peculiaridades na forma de escrita, e isso foi vertido para seus escritos).
a) - Linguagem:
A linguagem bíblica é humana.
A linguagem não é mecânica, não é verbal.
Podemos concluir com certeza de que o profeta é preservado de erro quando se trata de uma doutrina.
II Pedro. 1:21:
Homens falaram.
João 1:1:
“E Deus era o verbo” - Diz que só há um Deus? (Não há Pai e Filho?).
“E o verbo era um Deus” - um – em grego de fato é um artigo indefinido, porque antes do substantivo Deus não tem artigo.
“E o verbo era Deus” - o fato de “Deus” vir antes do verbo torna o artigo indefinido anulado.
Isto é uma regra: Torna-se claramente definido. Sistema este facilmente comprovado em diversos escritos do grego normal da época. Isto comprova que os escritores se valiam das regras de gramática da época para seus escritos em linguagem humana. Daí a importância do conhecimento da época para entender melhor a Bíblia, caso contrário faremos confusão doutrinária. Este é um dos trabalhos da hermenêutica.
A Bíblia não nos foi dada numa elevada linguagem, acima da compreensão humana, pois se assim fosse perderia sua finalidade que é revelar Deus ao homem.
Tudo quanto é humano é imperfeito. Por essa razão devemos ter em mente que muitas vezes os escritores escreveram de forma errada, isto é, cometeram certos erros gramaticais. Mas devemos fazer uma clara distinção, veja:
- A linguagem da Bíblia é imperfeita
- A mensagem da Bíblia é perfeita.
O Senhor falou aos seres humanos em linguagem compreensível (a fim de que os seres humanos possam entender). Devia, portanto, utilizar uma linguagem e idioma da época e não de uma linguagem sobre humana, incompreensível.
O fato de a linguagem ser imperfeita não afeta a perfeição moral da mensagem.
A Bíblia foi escrita por homens inspirados, mas a maneira em que eles escreveram não é a maneira de pensar e exprimir-se de Deus, notamos isso ao comprovar a variedade de estilos literários entre Paulo e Pedro, entre Pedro e João, entre Marcos e Mateus, e assim por diante.
Perfeita como o é, sem por isso deixar de ser simples, a Bíblia não corresponde às grandes idéias de Deus. Se Deus pudesse expressar Seu pensamento ao nível de divindade, com certeza o homem finito não poderia compreender esse pensamento.
Os dois Aspectos das Escrituras:
b) - Características peculiares dos profetas:
Atenagóras dizia que Deus usou os profetas assim como um músico usa a sua flauta. Isto seria possível se a inspiração fosse mecânica. Que acredita que até as palavras foram ditadas por Deus.
Jeremias foi um dos profetas que mais demonstrou sua personalidade na sua maneira de escrever.
A personalidade do profeta é toda preservada na sua maneira de escrever.
Não são as palavras da Bíblia que são inspiradas, mas os homens é que o foram. A inspiração não atua nas palavras do homem.
O Criador de todas as idéias pode impressionar mentes diversas com o mesmo pensamento, mas cada um pode exprimi-lo por diferentes maneiras, e ao mesmo tempo, sem contradições - (Tratando-se especificamente dos Evangelhos).
10 O QUE É INSPIRAÇÃO BÍBLICA?
A Bíblia é a Palavra de Deus inspirada. Mas como se dá essa inspiração? Talvez imaginemos um ditado mecânico como a de um chefe à sua datilógrafa. Esta escreve coisas que não entende e que são entendidas apenas pelo chefe e sua equipe. Isto é o que muitos chamam de inspiração mecânica. Isso não é a inspiração bíblica. Pois, ela não dispensa certa compreensão do autor humano (o hagiógrafo), nem sua participação na redação do texto sagrado.
A inspiração bíblica também não é revelação de verdades que o autor humano não conheça. Existe sim, a Revelação, especialmente nos profetas, e Revelação é algo mais elevado do que inspiração. O estudante de teologia deve manter em mente esta clara distinção, ou seja, a diferença entre inspiração e revelação . Revelação é diferente da inspiração bíblica. A Inspiração se exercia, por exemplo, quando o hagiógrafo descrevia uma batalha ou outros fatos documentados em fontes históricas, sem receber revelação divina
Inspiração Bíblica é a iluminação da mente do autor humano para que possa, com os dados de sua cultura religiosa e secular, transmitir uma mensagem fiel ao pensamento de Deus. O Espírito Santo fortalece a vontade e as qualidades do autor para que realmente o hagiógrafo escreva o que ele percebeu.
Tais livros são todos humanos (Deus em nada dispensa a atividade racional do homem) e divinos (Deus acompanha a redação do homem escritor). A Bíblia é um livro divino-humano. Transmite o pensamento de Deus em roupagem humana. Assemelha-se um pouco a Jesus, onde Deus se revestiu de carne humana, pois na Bíblia a Palavra de Deus se revestiu da palavra do homem (judeu, grego, com todas as suas particularidades de expressão).
A finalidade da inspiração bíblica é estritamente religiosa. Não foi escrita para nos ensinar ciências naturais, mas aquilo que ultrapassa a razão humana (o sentido do mundo, do homem, da vida, da morte, etc diante de Deus). Portanto, não há contradição entre a Bíblia e as ciências naturais. Mesmo Gênesis 1-3 não pretende ensinar como nem quando o mundo foi feito, mas apenas nos revelar que Deus é a origem de todas as coisas.
A Bíblia só é inspirada quando trata de assuntos religiosos? Há páginas na Bíblia não inspiradas?
Toda a Bíblia, em qualquer de suas partes, é inspirada, qualquer que seja a sua temática. Ocorre, porém, que Deus comunica sua mensagem em linguagem familiar pré-científica, bem entendida no trato quotidiano. Por exemplo, quando falamos em nascer-do-sol ou pôr-do-sol, supomos o sistema geocêntrico (ultrapassado, pois, a verdade é que o sol não se põe e nem nasce), mas não somos taxados de mentirosos, porque não pretendemos definir assuntos de astronomia. Assim, quando a Bíblia diz que a luz foi feita antes do sol e das estrelas, ela não ensina teorias astronômicas, mas alude ao mundo em linguagem dos hebreus antigos para dizer que o mundo todo é criatura de Deus. Portanto, em assuntos não-religiosos, a Bíblia adapta-se ao modo de falar familiar ou pré-científico dos homens que, devidamente entendido, não é portador de erro.
Também o pensamento expresso em palavras, como o pensamento básico das Escrituras é inspirado. Os conceitos dos homens estão sempre ligados às palavras. Quando o Espírito Santo iluminava a mente dos autores sagrados, iluminava também o pensamento expresso nas palavras. É por isto que os próprios autores bíblicos fazem questão de realçar vocábulos da Bíblia: João 10:34-35; Hebreus 8:13; Gálatas 3:16.
Notemos, porém, que somente as palavras das línguas originais (hebraico, aramaico e grego) foram assim iluminadas. As traduções bíblicas não gozam da mesma inspiração. Por isso, ao ler a Bíblia, devemos nos certificar de estarmos usando uma tradução fiel e equivalente aos originais.
Toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça. (2Tm 3:16)
11 O PROBLEMA SINÓTICO:
Até o século XVII, a Bíblia era considerada absolutamente como palavra ditada por Deus. Partindo do conceito de inspiração bíblica como sendo um ditado, ninguém duvidava de nada. Esta compreensão havia sido tema de inevitáveis e incontáveis polêmicas interpretativas.
A partir de 1776, começou a ser despertada uma crítica do texto bíblico, motivada pelos problemas levantados pelos filósofos racionalistas. O racionalismo já estava influenciado pelo iluminismo, defendendo a auto-suficiência do homem e começou por negar no Evangelho tudo que era transcendental, restando assim pouca coisa. Esta crítica causou grande constrangimento no meio do cristianismo.
O racionalismo queria demonstrar seu ponto de vista através da crítica textual. O trabalho deles despertou os evangélicos para fazerem o mesmo, mas enfatizando o outro lado, ou seja, a defesa da fé. E eles concluíram que a mesma critica literária tinha possibilidades de ajudar a entender melhor o Evangelho. Contribuíram para isto os progressos das novas ciências da psicologia e da arqueologia. Então surgiu o método crítico-histórico, que começou a ser usado no sentido positivo pelos teólogos cristãos.
Foi então, no século XVIII, descoberto o assim chamado problema sinótico. O estudo crítico demonstrou que no texto dos evangelhos há divergências e diferenças que evidenciam o trabalho pessoal do escritor, sem deixar de lado a inspiração divina. Desde então, os exegetas se viram na contingência de considerar o Evangelho como um livro escrito por homens, que têm suas qualidades e seus defeitos, e estão sujeitos também à critica. Surge então a chamada crítica textual.
O problema sinótico se funda na constatação de que os três primeiros Evangelhos (Mateus, Marcos e Lucas) têm muitos aspectos em comum; por outro lado, têm também muitas diferenças. As semelhanças chegam a ser desde palavras a textos inteiros. As diferenças estão no fato de alguns narrarem certos detalhes e outros omitirem, além de haver discrepâncias em alguns detalhes.
Colocando em números, o problema sinótico apresenta-se da seguinte forma:
a) Dos 661 versículos do Evangelho de Marcos, 600 estão também no de Mateus, e 350 estão no de Lucas.
b) O evangelho de Mateus e de Lucas tem 240 versículos em comum, e que não constam no Evangelho de Marcos.
c) Além disso, tanto Mateus como Lucas tem versículos próprios a cada um.
Como exemplos destas semelhanças, podemos citar uma passagem no qual Marcos descreve assim: caindo a tarde, quando o sol descia...; no Evangelho de Mateus está apenas a primeira parte; no de Lucas está a segunda. Há diversas outras passagens assim, como no episódio do marido que morreu sem deixar descendência.
Descoberto o problema, procurou-se interpretar. Isto se tornou difícil, porque ao lado de grandes semelhanças, há também contrastes. Como se pode explicar isto? No caso da infância de Jesus, por exemplo, Marcos não diz nada. Mateus diz alguma coisa, enquanto Lucas apresenta diversas informações.
Numa concepção tradicional, não haveria esta dificuldade, porque todos acreditavam que os apóstolos ouviram tudo de Jesus e depois escreveram o que sabiam e que eles haviam usando por isso até as mesmas palavras. Mas descobriu-se que os Evangelhos foram escritos bastante tempo depois da morte de Cristo, em épocas diferentes, baseados em tradições orais. Como pode ter acontecido que os Evangelistas usaram as mesmas palavras, estando em lugares diferentes e até em épocas diferentes?
Aí a crítica histórica entrou em ação e surgiram várias explicações. Ainda no século XIX, dava-se como resposta que Mateus teria sido o primeiro a ser escrito. Mas Mateus é um texto muito elaborado e deve ser de época posterior. Além disso, não foi escrito em aramaico, como se pensava, mas seu original é em grego. Portanto, não é aquele do qual Eusébio noticia, que Mateus escrevera em aramaico e cada um entendeu e interpretou como pôde.
Posteriormente, explicou-se que haveria uma fonte ou tradição oral bem antiga, e baseado nesta tradição cada autor escreveu os fatos ao seu modo. Esta explicação de inicio foi aceita, mas a coincidência de palavras não pode ser justificada por uma tradição apenas oral. Há necessidade de um instrumento literário.
Daí surgiu a teoria das duas fontes, hoje aceita pela maioria, porque explica tudo. Como dissemos, nos evangelhos sinóticos podemos distinguir três partes: 1. Aquelas que são narradas pelos três; 2. aquelas que são narradas apenas por dois; e 3. Aquelas narradas apenas por um.
Quanto à primeira parte, a crítica mostrou que o primeiro evangelho a ser escrito foi Marcos, por ser mais rústico e incompleto, em contraposição aos outros, mais elaborados e mais evoluídos. Foi escrito em Roma, porque ele não explica certos termos latinos, enquanto os outros explicam. A data aproximada é entre 60 e 70, mas seguramente antes de 70, pois este foi o ano da destruição de Jerusalém, e eles ainda confundiam este acontecimento com o fim do mundo. Os outros já não fazem assim. Por tudo isto se concluiu que Marcos escreveu primeiro, provavelmente baseado na pregação de Pedro e na tradição oral.
Os outros dois (Mateus e Lucas) copiaram de Marcos, melhorando o texto e adaptando conforme e ocasião, usando também uma tradição oral. Assim se explica o fato de coincidência entre os três evangelistas.
A segunda parte, a princípio foi explicada como se um tivesse copiado do outro, mas provavelmente eles não se conheceram. Portanto, ambos devem ter se inspirado em outra fonte, talvez já em grego (não se sabe se oral ou escrita) que servia de base para um ensino primitivo. Talvez até aquele texto a que se refere Eusébio, pois é anterior aos Evangelhos escritos. É a chamada FONTE Q (de Quelle, em alemão, fonte). Esta fonte só foi conhecida de Mateus e Lucas.
A terceira parte tem explicação mais fácil: cada escritor fez uso de certas fontes que havia em suas regiões, e que os outros não conheceram. Como eles moravam longe entre si, então um não conheceu as fontes particulares do outro. Assim em Mateus, por exemplo, discriminam-se: as partes copiadas de Marcos são principalmente os fatos extraordinários (milagres...); as copiadas de Q são acima de tudo os discursos (parábolas...); as copiadas das fontes particulares são outros pormenores.
Convêm notar que nem Marcos nem a fonte Q eram crônicas, ou seja, relatos dos acontecimentos, mas escritos elaborados pela Igreja primitiva para uso no ensino. Cristo morreu em torno do ano 30. O evangelho de Marcos só foi escrito por volta de 65. Neste meio termo, a tradição foi transmitida oralmente, ou por meio de pequenos folhetos, uns contendo as parábolas, outros contando os milagres, outros contando os fatos da infância; outro contando a paixão... Em outras palavras, havia grande proliferação de escritos esparsos nas várias Igrejas e nas várias regiões.
O prólogo de Lucas faz-nos supor 3 estágios na formação do Evangelho: a) há as testemunhas oculares, que contaram o que presenciaram; b ) há os que tentaram compilar isso, as pequenas fontes; como diz Lucas muitos empreenderam... ; c) a obra do evangelista; como diz Lucas: Escrevi a exposição ordenada dos fatos.
Quando dizemos que houve cópias uns dos outros, devemos entender que o Evangelista não copiou simplesmente o outro, mas compôs baseado em suas pesquisas, e acrescentou algo de si. Além disso, o Evangelho não é um documento histórico narrativo da vida de Jesus, mas reproduz a sua mensagem, muito embora não usa sua mensagem total, pois tudo que Jesus ensinou não está nos Evangelhos. Eles escreveram apenas o que interessava àquela Igreja, naquelas circunstâncias. Assim, por exemplo, no traslado do fato do centurião, retirado da fonte Q, Mateus escreveu que o centurião veio em pessoa falar; e Lucas diz que ele mandou os anciãos falarem. E Mateus colocou neste contexto o final que Lucas só colocou no Cap.13 muitos virão do oriente e do ocidente sentar-se com Isaac e Jacó....
Noutra passagem, Mateus fala em paralisia, porque ele queria salientar apenas que os judeus não reconheceram o reino de Deus, o que os chocava. Mas Lucas diz doente quase à morte, porque o que impressionava aos gregos era o Cristo, Senhor da vida. Só para mostrar como o contexto é importante, em João no episódio do centurião, este convida Jesus para ir à casa dele. João não tinha interesse em mostrar nenhuma faceta da personalidade de Jesus, mas apenas e como um sinal: o homem chegou desconfiando de Jesus, mas no fim tanto ele como sua família, todos creram.
Mateus 22,1-14 e Lucas 14,16-24 narram a mesma parábola. Mas Mateus junta duas parábolas numa só: a dos convidados ao banquete com a da veste nupcial. Mateus, que seria mais longo, não especificou as funções de cada um. Além disso, acrescenta o episódio de incendiar a cidade e maltratar os servos. Lucas omite estes detalhes, mas especifica as ocupações dos convidados. Omite, porém a veste nupcial. Mateus, escrevendo para judeus, tinha interesse em acentuar a rejeição deles e o convite aos pagãos; Lucas, escrevendo para gregos, não tinha esta meta.
Os textos de Mt 19:1-9; Mc 10:1-10; Lc 16:18 falam no divórcio. Era discutida no tempo de Jesus uma prescrição que estava contida na lei de Moisés. Os textos em grego divergem por uma palavra, dando margem a duas interpretações. Um destes textos gregos apresenta a expressão mê epí pornéias = não em caso de fornicação, e no outro diz: paréctos logoû pornéias = a não ser no caso de fornicação. É uma questão difícil de resolver, pela dificuldade da tradução de porneia. Esta palavra vem do grego pornê” (meretriz). Porneia deve significar qualquer atividade sexual fora do matrimônio. Além da dificuldade textual há a dificuldade jurídica. Não se pode dizer que Jesus tenha aconselhado isto, porque assim estaria anulando todo o NT nem se poderia entender o seu raciocínio na ocasião.
O problema ainda permanece. Uma das soluções que teve aceitação em certo tempo foi a de um autor francês, interpretando assim: esta palavra grega porneia teria sido empregada para traduzir a palavra hebraica zenût, que quer dizer concubinato, um costume muito difundido entre os judeus. O concubinato consistia num contrato bilateral entre um casal interessado que vivia como casados, sem efeito legal. Então o texto se referiria a eles: o divórcio é proibido, a não ser em caso de concubinato, pois não sendo casados legalmente, não haveria óbice. Os outros autores (fora Mateus) não colocaram esta ressalva, porque nas situações deles não havia o costume. Esta solução não foi aceita porque seria um pleonasmo da parte de Jesus repetir um conselho ou uma ordem.
12 VALOR DOS EVANGELHOS:
Os Evangelhos são livros históricos? Jesus Cristo viveu realmente? Disse tudo aquilo que foi escrito?
Em primeiro lugar, dizemos que os Evangelhos, muito mais do que narrativas de fatos históricos, eles são baseados em fatos históricos, fundamentados no fato histórico da vida e obra de Jesus Cristo. Não se pode provar fato por fato, ou seja, com todas as minúcias. Mas não se pode negar o valor histórico geral dos fatos, por exemplo, que Cristo fez milagres. O modo como os autores escrevem, os costumes, a cultura, as palavras, a mentalidade, corresponde aos das pessoas que viviam naquela época.
Os impostos e as leis, as religiões (saduceus, publicanos, fariseus, zelotes...), as cidades e aldeias da época, a personalidade de Cristo (ás vezes contradizendo o que era comum na época), a originalidade de Jesus, etc, tudo isso forma um conjunto de fatos que seriam quase impossíveis de inventar mais tarde, organizados com tanta coerência e perfeição. Outros fatos que não se concebe terem sido simplesmente inventados, mesmo por pessoas que acreditassem neles: a paixão, a morte e a ressurreição. Hoje a cruz é glória e símbolo, mas na época era a mais humilhante das condenações. A história da paixão seria contraproducente, vergonhosa para quem queria apregoar aquela doutrina. A covardia dos Apóstolos ao abandonarem o Mestre... Estas coisas, decididamente não seriam perpetradas por quem aceitava Cristo. Eles se esforçaram por justificar estes fatos associando com as profecias do AT, muitas vezes apenas por acomodação, por coincidência.
Finalmente, podemos dizer: os Evangelhos não são livros históricos no sentido que se entende esta palavra atualmente, mas seguramente são baseados em acontecimentos históricos. Alguns autores, além dos evangelistas, falaram de Jesus. Flávius Josephus, fariseu, historiador contemporâneo de Jesus, conta detalhes daquele tempo, embora com aspecto tendencioso para a ótica dos fariseus, mas isto era mesmo de se esperar, isto é, que ele não falasse mais de Jesus e de outros movimentos messiânicos, é preciso se notar que em vista da dominação dos romanos, ele foi cauteloso para não assustá-los escrevendo sobre estes movimentos considerados por eles subversivos. Assim, só trataram mais sobre Jesus os que se interessavam por ele (os apóstolos, no caso). Também Tácito, historiador romano, escreveu os Anais no tempo de Trajano (116/117) e fala na execução de Cristo e no surgimento do Cristianismo. Portanto, mesmo outras pessoas que não eram cristãos dão testemunho da vida, paixão e morte de Cristo.
A questão da inerrância bíblica:
Duas posições evangélicas:
1º - A Bíblia é totalmente privada de erros.
2º - A Bíblia é sem erro toda vez que fala sobre salvação e fé, mas pode possuir erros em outros pontos.
“Os liberais, por sua vez, acreditam que a Bíblia é fruto da mente religiosa dos judeus”.
Contextos polêmicos produzem posições extremadas.
Argumentos:
1) - A Bíblia é plena e completamente inspirada.
2) - Inerrante em todas as matérias que toca.
3) - Verbalmente inspirada.
4) - Nenhum erro pode ser afirmado se não puder ser comprovado no texto original.
Pode esta Palavra (Bíblia), ser livre de qualquer erro no seu catógrafo original? Ela é completamente digna de confiança em matéria de história e doutrina? Os autores bíblicos sob a liderança do Espírito Santo foram preservados de cometer erro factual, histórico, científico e quaisquer outros erros?
Observação
Estes pensamentos e perguntas refletem a posição dos inerrantistas, sem que entendemos por inerrância algo que está livre de qualquer erro. Podemos afirmar algumas verdades básicas: (1) A Bíblia é um livro singular, muito especial, que se diferencia dos demais livros e compêndios da literatura universal. (2) Não podemos compreender as Escrituras apenas com nossa inteligência humana, a menos que contemos com a força, o poder e em especial a iluminação do Espírito Santo que sonda as profundezas de Deus e esclarece os mistérios da Sua Palavra (João 16:13)
1) - Premissa Maior - Tudo o que Deus faz é perfeito
2) - Premissa Menor - Deus inspirou a Bíblia
3) - Conclusão : - Logo, a Bíblia é perfeita.
Este argumento é a base dos que defendem a inerrância bíblica:
Analogia: Assim como Jesus foi divino-humano, e nunca cometeu pecado, também a Bíblia é divino-humana e não contêm erro.
Os inerrantistas dizem que negar a inerrância é negar a inspiração e a autoridade da Bíblia.
O Argumento do Dominó: Derrubando a 1a pedra (inerrância bíblica), todas as outras pedras caem.
A primeira pedra seria a inerrância bíblica.
A segunda seria a inspiração.
Derrubando-se estas duas pedras, todas as outras caem.
13 VALOR DOS EVANGELHOS:
Exemplos de dificuldades na Bíblia:
Considere com especial atenção a palavra “dificuldades” empregada neste caso, pois não estamos usando a palavra “erro”
a) - Mat. 27:37 - (comparar com Mar. 15:26; Luc. 23:38; João 19:19):
Mateus - Este é Jesus o Rei dos Judeus.
Marcos - O Rei dos Judeus.
Lucas - Este é o Rei dos Judeus.
João - Jesus Nazareno, o Rei dos Judeus.
Cada evangelista escreveu inspirado por Deus, mas de sua maneira. Cada um usou o próprio estilo literário.
Ver Mat. 6:9 a 15 com Lucas 11:1 a 4 - (Oração do Pai Nosso).
Na inspiração , a personalidade do profeta é preservada, sua linguagem é preservada, sua maneira de escrever também é preservada.
b) - I Cor. 10:8 com Núm. 25:9:
Paulo disse que haviam morrido 23.000 pessoas
Moisés disse que haviam morrido 24.000 pessoas.
c) - Levíticos 11:6:
“A lebre, porque rumina, mas não tem unhas fendidas, esta vos será imunda”.
Obs: A lebre “não rumina”.
Duas classes de linguagem:
Em muitas passagens a Bíblia emprega como recurso literário uma linguagem fenomenológica.
Em outros casos os escritores da Bíblia usaram uma Linguagem literal que descreve os fatos como eles realmente são.
Linguagem fenomenológica - descreve os fatos como eles parecem ser.
O importante não é se a lebre rumina ou não, mas o ponto central era se o povo de Israel deveria ou não deve comer a carne da lebre.
Podemos perceber no caso de Coríntios com Números que a questão em pauta arredonda os números, pois, se for fiel ao relato seria impossível ser números exatos, não poderiam ser 23.001 ou 23.999 e Paulo arredondou para a cifra menor?
d) - Mar. 6:8 com Luc. 9:3:
Marcos - Levem um bordão (bengala)
Lucas - Não levem nada, nem bordão.
O fato de levar ou não o bordão, não muda o objetivo de Jesus, que era o fato de eles dependeram inteiramente de Deus. Notamos aqui que há apenas uma divergência de ótica e não um erro de objetivo, seria diferente se Marcos falasse de não ir e Lucas de ir para a ação missionária requerida.
e) - Mat. 26:34 c/ Marc. 14:30:
“Antes que o galo cante...” = Aqui o autor está sendo em sua argumentação mais genérico.
“Antes que o galo cante, 3 vezes...” = Em contraste aqui outro autor está sendo mais específico.
Um estava sendo mais preciso que o outro, mas isto não muda o sentido fundamental da mensagem que era o fato de que Pedro iria negar a Jesus.
Erro:
Para muitos opositores da Bíblia, quando a ciência erra é apenas um sinônimo de imperfeição, inexatidão, porém... Para estes, quando encontram uma informação científica equivocada na Bíblia então é: sinônimo de engano, fraude.
Os profetas não estavam preocupados com o aspecto científico, histórico, geográfico, etc, mas com uma mensagem espiritual.
A finalidade da Bíblia não é dar informações científicas, históricas ou geográficas, mas uma informação de vida e salvação.
Na Bíblia:
O Verdadeiro Erro é não estar de acordo com a vontade de Deus.
A Verdade Bíblica se expressa unicamente na vontade e Deus.
Os mesmos argumentos servem para:
14 VALOR DOS EVANGELHOS:
Os mesmos argumentos servem para:
História Política - A Bíblia não se preocupa com isto.
História Espiritual - A Bíblia se preocupa com esta história. Que conhecemos como Plano de Salvação, que é exatamente a relação correta entre Deus e seu povo e se povo com Deus.
A Bíblia só menciona fatos políticos quando esta tem que ver com a História Espiritual do povo.
Considere com atenção a leitura de João 21:25 – Se um leitor levar em consideração de forma literal este trecho, obviamente acusaria a João de estar dando uma “falsa informação” Todavia o que temos aqui é que conhecemos em literatura como: Exagero poético - Os evangelhos não são uma biografia exata da vida de Jesus.
A explicação para o texto anterior pode ser encontrada na leitura de: João 20:30, 31 - Só se encontram as coisas necessárias à nossa salvação.
Nem tudo que Jesus fez foi escrito.
Os escritos foram fatos selecionados.
A Bíblia tem um duplo propósito:
Cristológico : Revelar a pessoa de Cristo S. João 5:39 / João 14:6
Soteriológico : Informa ao ser humano os meios providos por Deus para a salvação do homem.
II Tim. 3:15
“Deus fala através das Escrituras não com o propósito de tornar-nos eruditos, mas com o propósito de tornar-nos cristãos”.
Dentro da Bíblia existem coisas secundárias por natureza. Estas coisas contribuem para entender o ponto central, mas não essas narrativas são o ponto central.
O conhecimento que temos acerca de Deus é um conhecimento Parcial.
Consideremos a questão do conhecimento de Deus com esta visão: Jamais poderemos compreender Deus, essa compreensão será sempre parcial, e muitas vezes cometemos o erro de olhar os conceitos desde nossa visão humana, vejamos um exemplo:
Em grego temos duas palavras para o conceito de tempo: “Kronos” e “Kairos” A primeira, “Kronos”, é a visão humana sobre o tempo, a segunda é a visão divina, é a forma como Deus compreende o tempo, por essa razão insistimos em afirmar que nosso tempo não é o mesmo tempo de Deus, e isto se aplica à oração, pedimos para já, conforme nosso tempo, e Deus nos responde sim, de acordo com seu tempo, somente quando o tempo de Deus “Kairos” se cruza com nosso “Kronos” então e só então acontece o milagre.
A Bíblia não contem uma revelação total de Deus, mas uma revelação parcial daquilo que é necessário para a nossa salvação.
15 Calvino e a Hermenêutica:
Adendo Cultural:
Orare e labutare foram palavras empregadas por Calvino para resumir a sua concepção hermenêutica. Com estes termos ele expressou a necessidade de súplica pela ação iluminadora do Espírito Santo e do estudo diligente do texto e do contexto histórico, como requisitos indispensáveis à interpretação das Escrituras. Com o mesmo propósito, Lutero empregou uma figura: um barco com dois remos, o remo da oração e o remo do estudo. Com um só destes remos, navega-se em círculo, perde-se o rumo, e corre-se o risco de não chegar a lugar algum.
Palavras e figuras como estas revelam a consciência que os reformadores tinham do caráter divino-humano das Escrituras e o equilíbrio fundamental que caracteriza a hermenêutica reformada da Palavra de Deus.
I. Delimitação do Assunto:
O termo hermenêutica tem sido empregado em dois sentidos. Historicamente, nos compêndios clássicos de interpretação bíblica, designa a disciplina que, partindo de pressupostos básicos, estuda e sistematiza a teoria da interpretação das Escrituras, enquanto a exegese designa a prática. Neste sentido, o objetivo da hermenêutica é descobrir e sistematizar os princípios e métodos apropriados para a compreensão do sentido que o autor intentou transmitir aos seus leitores originais.
Mais recentemente, entretanto, estes termos têm sido usados com sentidos diferentes: exegese, para designar o estudo das Escrituras com vistas a descobrir o sentido original pretendido pelo autor, e hermenêutica, no sentido restrito da sua contemporaneidade. Ou seja, a exegese seria uma primeira tarefa histórica pela qual se busca compreender o que os leitores originais entenderam; enquanto que a hermenêutica seria uma tarefa teológica prática e posterior, na qual se busca compreender a relevância da sua mensagem para nós, hoje, no nosso contexto específico. (Nota 1)
Neste Estudo estes termos são usados no sentido histórico mais comum: hermenêutica, designando a disciplina que estuda e sistematiza os princípios e técnicas, com as quais, partindo de determinados pressupostos, se busca compreender o sentido original do texto bíblico; exegese, designando a prática destes princípios e técnicas; e aplicação , designando a busca da relevância do texto ao nosso contexto específico. Isto é: tendo compreendido qual a mensagem do texto para os seus leitores originais, em que sentido esta mensagem é aplicável aos nossos dias e ao nosso contexto?
Convém esclarecer também que o termo: “reformada”, não é empregado neste estudo para designar especificamente a hermenêutica dos reformadores. Não se desejamos fazer uma descrição específica e detalhada da hermenêutica desenvolvida e praticada por Lutero, Melanchton, Calvino e outros. O termo também não se refere à denominação reformada (ramo da reforma como ficou conhecido especialmente na Europa). O termo hermenêuticareformada, neste trabalho, referese a uma corrente ou escola de interpretação bíblica histórica, distinta de outras correntes, fundamentada em pressupostos bíblicos quanto à natureza das Escrituras, e que emprega princípios e métodos específicos. Trata-se de uma escola ou corrente de interpretação que adota o método histórico-gramatical, em contraposição aos métodos intuitivos (da corrente espiritualista) e histórico-crítico (humanista) de interpretação bíblica.
Com a expressão hermenêuticareformada, quer-se designar neste estudo o modelo de interpretação bíblica defendida e aplicada pelos reformadores, pelos principais símbolos de fé protestantes, inclusive batista (Nota 2), pelos puritanos ingleses, pelos huguenotes franceses, e pelas igrejas evangélicas ortodoxas em geral até os nossos dias. Esta corrente de interpretação poderia ser chamada de hermenêutica protestante ou hermenêutica evangélica. Mas, ao que parece, estes termos já não caracterizam muita coisa — pelo menos no campo da hermenêutica —, pois englobam, sem qualquer distinção, defensores e praticantes de todas as correntes de interpretação bíblicas: desde a corrente espiritualista (intuitiva) até a corrente humanista (histórico-crítica).
II. Importância do Assunto:
A importância do assunto dificilmente pode ser exagerada, pois a hermenêutica é a base teórica da exegese, que, por sua vez, é o alicerce tanto da teologia (quer bíblica, quer sistemática) como da pregação. Parece que, atualmente, pelo menos no Brasil, estas disciplinas têm sido parcialmente relegadas por alguns segmentos evangélicos a um segundo plano. Exegese, a doutrina e a pregação têm sido substituídas por coisas ‘‘mais práticas’’ (tais como a ação social, o engajamento político, a administração eclesiástica, o evangelismo, a liturgia, as exortações morais, etc.). Quando não se nega a importância da exegese, da doutrina e da pregação, na teoria, nega-se na prática.
Convém observar, entretanto, que o apóstolo Paulo exorta Timóteo a cuidar ‘‘desi mesmo e da doutrina’’, de modo que possa ser ele mesmo salvo bem como os seus ouvintes (1 Tm 4.16). Ele o admoesta a apresentar-se a Deus ‘‘aprovado,como obreiro que não tem do que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade’’ (2 Tm 2.15). E afirma que devem ‘‘ser considerados merecedores de dobrados honorários (ou honra) os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na Palavra e no ensino’’ (1 Tm 5.17).
Não se pode esquecer de que ‘‘aprouve a Deus salvar aos que creem, pela loucura da pregação’’ (1 Co 1.21); e de que ‘‘a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo’’ (Rm 10.17).
A importância da doutrina é vista especialmente nas cartas do apóstolo Paulo e no tratamento que faz da questão da justificação pela fé na carta aos Gálata.sNem a Igreja de Corinto, com todos os seus problemas morais, foi tão duramente tratada pelo apóstolo quanto às igrejas da Galácia, em função do seu desvio doutrinário.
As verdades de Deus expressa em sua Palavra é o instrumento empregado pelo Espírito Santo para salvar e santificar. São ‘‘as sagradas letras que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus’’, e fazer com que ‘‘o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra’’ (2 Tm 3.15, 17).
Richard Baxter, um dos puritanos mais conhecidos do século XVII, foi o instrumento nas mãos de Deus em um re-avivamento na sua cidade. Autor de dezenas de obras, a maioria de cunho prático, usou uma figura para expressar a relação entre a verdade da Palavra e a santidade. Eis suas palavras:
“... As verdades de Deus são os próprios instrumentos da santificação de vocês; essa santificação é o resultado produzido por essas verdades sobre o entendimento e a vontade de vocês. As verdades são o selo e a alma de vocês é a cera; a santidade é a impressão feita. Se vocês receberem apenas algumas verdades, terão apenas uma impressão parcial... Se vocês as receberem de modo desordenado, a imagem que produzirão nas almas de vocês será igualmente desordenada; como se os membros dos corpos de vocês fossem unidos de modo monstruoso”. (Nota 3)
Aí está a importância da hermenêutica: ela é a base teórica da exegese, que por sua vez é o fundamento da teologia e da pregação, das quais depende a saúde espiritual da igreja, e da nossa própria vida. Uma hermenêutica deformada fatalmente resultará em exegese deformada, produzirá teologia e pregação deformadas, e se manifestará tragicamente em igrejas e vidas deformadas.
III. Necessidade da Hermenêutica:
Todo leitor é um intérprete. Mas ler não implica necessariamente em entender. Quando não há barreiras na compreensão de um texto, a interpretação é automática e inconsciente. Mas isso nem sempre ocorre. De conformidade com a doutrina reformada da clareza ou perspicuidade das Escrituras, a Bíblia é substancialmente, mas não completamente clara. As verdades básicas necessárias à salvação, serviço e vida cristã são evidentes em um ou outro texto, mas nem todos os textos das Escrituras são igualmente claros.
Por ser um livro divino-humano, inspirado por Deus, mas escrito por homens, admite-se que há dificuldades de ordem espiritual e de ordem humana para a compreensão das Escrituras. O apóstolo Pedro reconheceu essa dificuldade com relação aos escritos do apóstolo Paulo, dizendo que neles ‘‘há certas coisas difíceis de entender... ’’ (2 Pe 3.16).
Isto significa que a compreensão das Escrituras não é necessariamente automática e espontânea. É, sim, o resultado da ação iluminadora do Espírito Santo, por um lado, e por outro, do estudo diligente da língua e do contexto histórico em que foi escrita.
A. Dificuldades de Ordem Espiritual:
O aspecto espiritual envolvido na interpretação das Escrituras é demonstrado claramente em passagens bíblicas tais como 1 Coríntios 2.14 e 2 Coríntios 4.3-6: Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, por que lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.
...se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus... Porque Deus que disse: De trevas resplandecerá luz, ele mesmo resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo.
Nestes textos o apóstolo Paulo ensina claramente a absoluta incapacidade do homem natural (não regenerado) de compreender a revelação de Deus. A razão desta incapacidade é a cegueira espiritual em que se encontra como resultado da queda do homem do seu estado original, e da ação diabólica. E a cura desta cegueira não é intelectual, mas espiritual. Só o Espírito Santo pode fazer resplandecer a luz do Evangelho da glória de Cristo num coração em trevas.
Outro texto que demonstra o caráter espiritual envolvido na interpretação das Escrituras é 2 Coríntios 3.14-15. Neste texto o apóstolo Paulo explica que os judeus tinham como que um véu embotando os seus olhos espirituais, de modo que não podiam compreender o significado do que liam, por causa da incredulidade:
Mas os sentidos deles se embotaram. Pois até ao dia de hoje, quando fazem a leitura da antiga aliança, o mesmo véu permanece, não lhes sendo revelado que em Cristo é removido. Mas até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles.
Como este véu pode ser retirado? Pela conversão, responde o apóstolo no verso seguinte: ‘‘Quando,porém, algum deles se converte ao Senhor, o véu é retirado’’ Na carta aos Efésios, o apóstolo Paulo ensina a mesma coisa com relação aos gentios:
“...Não mais andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza dos seus corações” (Ef 4.17-18).
A ação iluminadora do Espírito Santo é, portanto, indispensável na interpretação e apreensão do ensino das Escrituras. A erudição piedosa é preciosa e indispensável para a preservação da sã doutrina. Um erudito, por mais bem equipado que esteja hermeneuticamente, desprovido, porém, da ação regeneradora e iluminadora do Espírito, possivelmente não alcançará o sentido da Escritura tanto quanto um crente simples e fiel, mesmo que indouto em métodos e técnicas de interpretação.
Mesmo o crente precisa da ação iluminadora contínua do Espírito Santo para progredir na compreensão das Escrituras. Seu coração não está embotado como o dos judeus descrentes; nem seu entendimento está obscurecido, como o dos gentios incrédulos. Mas ainda há muito a compreender; e a ação iluminadora do Espírito Santo permanece indispensável. Com esse propósito o apóstolo Paulo orava insistentemente pelos crentes, a fim de que Deus lhes iluminasse mais e mais, para compreenderem mais profundamente a natureza do evangelho e a suprema riqueza da sua graça. Eis um exemplo apenas na carta aos Efésios:
“... Não cesso de dar graças por vós, fazendo menção de vós nas minhas orações, para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele, iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do seu chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos, e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos...” (Ef 1.16-19).
“... Não cesso de dar graças por vós, fazendo menção de vós nas minhas orações, para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele, iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do seu chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos, e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos...” (Ef 1.16-19).
16 Calvino e a Hermenêutica– Adendo Cultural
B. Dificuldades Naturais
IV. Principais Correntes de Interpretação
A. Corrente Espiritualista
1. A Hermenêutica Alegórica
2. A HermenêuticaIntuitiva
3. A Hermenêutica Existencialista
B. Corrente Humanista
17 Calvino e a Hermenêutica:
1. Precursores de Interpretação Bíblica:
Os saduceus, com o seu repúdio à doutrina da ressurreição e descrença na existência de seres angelicais, podem ser considerados como precursores dessa corrente de interpretação das Escrituras. Pouco se sabe sobre a origem desse partido judaico, mas parece haver adotado uma posição secular-pragmática de interpretação das Escrituras. (Nota 10) Ao negarem verdades básicas das Escrituras, os saduceus podem ser considerados, guardadas as devidas proporções, como os modernistas ou liberais da época. (Nota 11)
2. Humanismo Renascentista:
Os humanistas renascentistas, com seu interesse meramente literário e acadêmico nas Escrituras, e com sua ênfase na moral, também podem ser incluídos nesta corrente de interpretação bíblica. Alguns se dedicaram ao estudo das Escrituras, outros chegaram até a editar textos bíblicos na língua original. Mas o interesse deles era meramente acadêmico, linguístico, literário e histórico. Estavam interessados nas Escrituras por sua antiguidade e não por ser a Palavra de Deus.
3. Escola Crítica:
A escola mais característica e influente desta corrente de interpretação bíblica é a escola crítica, com o seu método histórico-crítico. Uma das razões para o surgimento do método histórico-crítico parece ter sido ‘‘a pretensão de tornar científicos os estudos bíblicos, ou seja, faze-los compatíveis com o modelo científico e acadêmico da época’’ (Nota 12) E o resultado desta nova postura para com as Escrituras (crítica, ao invés de gramatical) foi o liberalismo teológico que tem sido a postura de muitos teólogos desde o século passado.
Trata-se sem dúvida de uma hermenêutica racionalista. Ao invés da revelação governar a razão, a razão é que determina a revelação. A razão e o intelecto passaram a ser determinantes, sendo rejeitado como erro, fábula ou mito tudo o que não puder ser explicado ou harmonizado com a razão.
Os adeptos desta corrente rejeitam as doutrinas reformadas das Escrituras, tais como inspiração, autoridade, inerrância, e preservação; enfatizam a moralidade e descartam o sobrenatural. Sob forte influência do evolucionismo de Darwin e da dialética de Hegel, as Escrituras deixaram de ser vistas como a Palavra de Deus inspirada na qual ele se revela ao homem, passando a ser considerada ‘‘como um registro do desenvolvimento evolucionista da consciência religiosa de Israel (e mais tarde da Igreja)’’. (Nota 13). O conceito liberal de inspiração das Escrituras só é objetivo no sentido de as Escrituras serem o objeto da inspiração. No mais, é subjetivo: elas são o sujeito: elas é que inspiram, com o ‘‘seu poder de inspirar experiências religiosas’’. (Nota 14)
Na prática, portanto, a principal característica da escola crítica de interpretação é o pressuposto de que as Escrituras devem ser estudadas do mesmo modo que as demais literaturas antigas, pelo emprego das mesmas metodologias. Esta postura, crítica, com sua ênfase apenas no caráter humano das Escrituras, resultaram em uma série de metodologias críticas de caráter histórico ou linguístico que vêm sendo empregadas na interpretação das Escrituras.
A crítica ou história da tradição é uma dessas metodologias, cuja pretensão é ‘‘descobrira história percorrida por determinado trecho, no âmbito da tradição oral, ou seja, na fase anterior à sua fixação literária mais antiga’’. (Nota 15). Isto é: estudar como os eventos históricos e ensinos originais de Jesus teriam dado origem às diversas formas de tradições orais até o seu registro escrito. Seu propósito é ‘‘destradicionalizar’’(semelhante à desmitologização de Bultmann) os Evangelhos, em busca do ‘‘fato’’ou ensino ‘‘original’’(Nota. 16)
A crítica da forma é outra metodologia crítica. Sua pretensão é classificar os escritos do Novo Testamento em gêneros literários e identificar as tradições que teriam dado origem às fontes empregadas pelos autores do Novo Testamento. Segundo os teóricos da crítica da forma, (nota 17), os evangelhos provêm de tradições orais não cronológicas existentes (chamadas de paradigmas, novelas, lendas, mitos e exortações). Posteriormente essas tradições orais teriam sido organizadas em relatos cronológicos escritos que foram empregados pelos evangelistas. Mas a teoria é extremamente especulativa, visto que não explica como esses gêneros teriam surgido e se desenvolvido. Além disso, não existe registro histórico dessas supostas coleções não cronológicas. (Nota 18).
Outra metodologia desenvolvida pela escola crítica de interpretação é a crítica das fontes. De acordo com esta teoria há muito pouco nos evangelhos (especialmente nos sinópticos) originário dos evangelistas. Eles teriam sido mais coletores e editores dos diversos relatos (tradições escritas) existentes sobre a vida de Jesus do que propriamente autores. A teoria se baseia nas palavras de Lucas no início do seu evangelho (cf. Lc 1.1, 3), e na observação de que os evangelhos de Mateus e Lucas normalmente concordam literalmente com o evangelho de Marcos (ambos ou cada um isoladamente), enquanto que raramente concordam entre si, quando discordam de Marcos. A conclusão mais comum a que se chegou é que Mateus e Lucas foram copiados de Marcos (quando concordam com ele) e de outra suposta fonte chamada Q, quando concordam entre si, mas discordam de Marcos.
Não há, contudo, concordância entre os críticos da forma. As evidências internas (baseadas em supostas inconsistências cronológicas, estilísticas, teológicas e históricas) a favor dessa teoria são bastante limitadas, subjetivas, ambíguas e contraditórias com as evidências externas (afirmativas dos pais da igreja que apontam de modo unânime em direção oposta). (Nota 19). Muitas outras possibilidades tornam qualquer conclusão extremamente incerta. Marcos poderia ter usado Mateus e Lucas; os três evangelistas podem ter usado as mesmas fontes; Jesus pode ter repetido ensinos e parábolas com palavras diferentes em ocasiões diferentes, etc. A verdade é que não se sabe com exatidão como os evangelistas escreveram seus evangelhos.
Parece evidente que pelo menos um, Lucas, lançou mão de algumas fontes, mas conforme ele mesmo afirma, ele e suas fontes basearam-se no que lhes transmitiram ‘‘testemunhas oculares’’ dos acontecimentos (Lc 1.2). Entretanto, não há meios de saber concretamente que fontes foram estas e até que ponto e como as usaram. Isso torna a crítica da forma necessariamente especulativa. De concreto, mesmo, têm-se os Evangelhos, como Palavra de Deus escrita por homens inspirados (movidos) pelo Espírito Santo, fundamentados no que testemunharam e no testemunho de outras testemunhas oculares, e, portanto, fidedignas.
Além dessas metodologias, há também a crítica da redação , que se propõe a estudar como os evangelistas teriam usado (editado) as suas supostas fontes na composição dos evangelhos; isto é, que mudanças peculiares (ou contribuições) teriam sido introduzidas pelos evangelistas às fontes que usaram, e com que propósito (especialmente teológico). (Nota 20) Mas, a que conclusões seguras se podem chegar com a crítica da redação, se nem mesmo há certeza alguma com relação ao uso das fontes?
Por fim, pode ser mencionado o criticismo histórico . Sua pretensão é avaliar a historicidade das narrativas bíblicas, ou, como escreve Marshall, ‘‘...testar precisão do que se propõe ser uma narrativa histórica.’’(Nota 21) Mas este propósito não é somente pretensioso (inconsistente do ponto de vista bíblico); é também tendencioso, na medida em que explora as aparentes contradições internas (especialmente entre as passagens paralelas dos evangelhos) e externas (com fontes seculares e históricas); e encara os relatos de ocorrências sobrenaturais por uma perspectiva altamente especulativa. Assim, o criticismo histórico não vê os textos paralelos como complementares, mas como contraditórios; atribui às fontes seculares autoridade superior à das Escrituras; rejeita as intervenções sobrenaturais; e considera muitas narrativas históricas como invenção da igreja, novelas ou mitos.
Os resultados de todas estas metodologias críticas são inseguros, questionáveis e dúbios, e sua aplicação prática extremamente limitada (se possível). São hipóteses construídas sobre especulações infrutíferas que não contribuem em praticamente nada para a compreensão do texto do Novo Testamento, a não ser para lançar dúvidas sobre a sua inspiração, autoridade e inerrância. (Nota 22).
Não obstante, parece que a corrente humanista de interpretação das Escrituras tem começado a prevalecer em um número considerável de seminários teológicos no nosso país. A ênfase hermenêutica destes seminários está no método, na técnica, nos aspectos literários ou históricos das Escrituras, em detrimento do seu caráter divino, espiritual e sobrenatural. A metodologia predominante tem sido o método histórico-crítico. E, em virtude da impossibilidade de conciliar este método com as doutrinas bíblicas da inspiração, autoridade, suficiência, inerrância e preservação das Escrituras, muitos destes seminários têm se afastado cada vez mais da verdadeira fides reformata (fé reformada).
Como os resultados das metodologias críticas empregadas pelo método históricocrítico são quase sempre infrutíferos, e sua aplicação prática extremamente limitada, não é incomum que o produto final de muitos dos nossos seminários seja formandos despreparados para o ofício de ministros da Palavra. Nesta condição, não é de estranhar que, como observou Lopes, ‘‘...os púlpitos de bom número das igrejas evangélicas destilam uma espécie de sermão onde pouca ou nenhuma atenção se dá ao sentido original do texto bíblico’’. (Nota 23). Destilam também, acrescento, teologias imprecisas e inconsistentes, que pouco edificam os membros de suas congregações.
C. Corrente Reformada
A corrente reformada de interpretação das Escrituras (objeto específico deste estudo) posiciona-se entre as duas correntes extremas já consideradas. Ela (a corrente reformada) caracteriza-se pelo equilíbrio resultante do reconhecimento do caráter divino-humano das Escrituras. Em função disso, os intérpretes desta corrente reconhecem a necessidade da iluminação do Espírito falando através da própria Palavra, ao mesmo tempo em que admitem a necessidade de interpretação gramatical e histórica das Escrituras. A interpretação reformada rejeita, por um lado, a alegorização indevida das Escrituras e, por outro, repudia uma postura primariamente crítica com relação a elas.
1. Método Gramático-Histórico:
O método de interpretação adotado e praticado pela corrente reformada ou protestante conservadora é conhecido pelo nome de método gramático-histórico; o método de interpretação honrado pelo tempo, no dizer de M. Lloyd-Jones. Trata-se de um método fundamentado em pressuposições bíblicas quanto à própria natureza das Escrituras, que emprega princípios gerais e métodos linguísticos e históricos coerentes com o caráter divino-humano da Palavra de Deus.O método de interpretação adotado e praticado pela corrente reformada ou protestante conservadora é conhecido pelo nome de método gramático-histórico; o método de interpretação honrado pelo tempo, no dizer de M. Lloyd-Jones. Trata-se de um método fundamentado em pressuposições bíblicas quanto à própria natureza das Escrituras, que emprega princípios gerais e métodos linguísticos e históricos coerentes com o caráter divino-humano da Palavra de Deus.O
2. Precursores: Escola de Antioquia e Agostinho:
Os reformadores não criaram este método de interpretação bíblica do nada. Eles se fundamentaram no próprio ensino bíblico sobre a sua natureza e na prática apostólica. As origens da interpretação reformada também são encontradas na escola de Antioquia da Síria, que pode ser considerada precursora do método gramático-histórico. Seus principais representantes foram Teodoro de Mopsuéstia (†428) e João Crisóstomo (†407), o ‘‘Boca de Ouro’’. Eles rejeitaram tanto o literalismo judeu, como o alegorismo de Alexandria; defendiam uma interpretação literal e histórica das Escrituras; criam na realidade histórica dos eventos descritos no Antigo Testamento; defendiam a unidade das Escrituras e admitiam o desenvolvimento ou progressividade da revelação. (Nota 24).
Agostinho também pode ser considerado precursor do método gramático-histórico de interpretação bíblica. Ele não parece haver sido consistente na aplicação do seu método. De fato, sua distinção de quatro sentidos das Escrituras foi tão influente que prevaleceu por toda a Idade Média, como já foi visto. Apesar disso, ele estabeleceu importantes princípios de interpretação bíblica no seu manual de hermenêutica e pregação, De Doctrina Chistiana. Eis alguns desses princípios: (Nota 25)
1. A fé é um pré-requisito fundamental para o intérprete da Palavra de Deus.
2. Deve-se considerar o sentido literal e histórico do texto.
3. O Antigo Testamento é um documento cristológico.
4. O propósito do expositor é descobrir o sentido do texto e não atribuir-lhe sentido.
5. O credo ortodoxo deve controlar a interpretação das Escrituras.
6. O texto não deve ser estudado isoladamente, mas no seu contexto bíblico geral.
7. Se o texto for obscuro, não pode se tornar matéria de fé. As passagens obscuras devem dar lugar às passagens claras.
8. O Espírito Santo não dispensa o aprendizado das línguas originais, geografia, história, ciências naturais, filosofia, etc.
9. As Escrituras não devem ser interpretadas de modo a se contradizerem. Para isso, deve-se considerar a progressividade da revelação.
18 Calvino e a Hermenêutica:
3. Princípios Reformados:
Tem sido reconhecido que a reforma teológica e eclesiástica do século XVI foi o resultado de outra reforma: uma reforma hermenêutico-exegética. (Nota 26). De fato, a redescoberta das doutrinas bíblicas pelos reformadores e a reforma eclesiástica decorrente foram precedidas por um evidente rompimento com os princípios hermenêuticos e com a prática exegética medieval.
a. A ÚnicaRegra Infalível de Interpretação:
A Reforma Protestante rejeitou veementemente a hermenêutica alegórica medieval, e registrou seu repúdio em alguns dos seus principais símbolos de fé. Eis um exemplo: o parágrafo IX do capítulo I da Confissão de Fé de Westminster (idêntico ao mesmo parágrafo da Confissão de Fé Batista de 1689):
A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente.
Este parágrafo estabelece o princípio reformado fundamental de interpretação bíblica, segundo o qual a única regra infalível de interpretação das Escrituras é a própria Escritura. Ela se auto-interpreta, elucidando, assim, suas passagens mais difíceis. O que estas confissões querem dizer com essa afirmativa é que o sentido de uma passagem obscura não pode ser autoritativamente determinado nem por tradição, nem por decisão eclesiástica, nem por argumento filosófico, nem por intuição espiritual, mas sim, unicamente, por outras partes das Escrituras que expliquem e esclareçam o seu sentido.
b. Repúdio à Interpretação Alegórica Medieval:
O parágrafo acima, citado da Confissão de Fé, também representa o repúdio dos reformadores ao método de interpretação quádrupla medieval. Em lugar dele, os reformadores ensinavam que cada passagem das Escrituras tem um só sentido, que é literal — a não ser que o próprio contexto ou outro texto das Escrituras requeiram claramente uma interpretação figurada ou metafórica.
John Colet (c. 1467-1519) foi um dos primeiros reformadores a romper com o método alegórico medieval, ao expor em 1496, em Oxford, as cartas do apóstolo Paulo em seu sentido literal e no seu contexto histórico. (Nota 27). Três anos depois, em 1499, ele já sustentava o princípio de que as Escrituras não podem ter senão um único significado: o mais simples. (Nota 28)
Lutero também rejeitou a interpretação alegórica. Defendeu que ‘‘nós devemos nos ater ao sentido simples, puro e natural das palavras, como requerido pela gramática e pelo uso do idioma criado por Deus entre os homens.’’ (Nota 29)
Quanto a Calvino, sua aversão à interpretação alegórica era de tal ordem que ele chegou a afirmar ser satânica, por desviar o homem da verdade das Escrituras. ‘‘É uma audácia próxima do sacrilégio’’,escreveu ele, ‘‘usaras Escrituras ao nosso bel-prazer e brincar com elas como com uma bola de tênis, como muitos antes de nós o fizeram.’’ (Nota 30).
c. Necessidade de Iluminação Espiritual:
Os reformadores reconheceram a natureza divino-humana das Escrituras, e enfatizaram o papel do Espírito Santo no processo de interpretação da sua mensagem. Para eles, o impedimento maior estava na cegueira espiritual do homem, em função da queda, e não nas Escrituras. Tanto para Lutero, como para Calvino, (Nota 31) nenhuma pessoa poderia interpretar corretamente as Escrituras sem a ação iluminadora do Espírito Santo através da própria Palavra. Eis as palavras de Lutero sobre o assunto:
...a verdade é que ninguém que não possui o Espírito de Deus vê um til sequer do que está na Escritura. Todos os homens têm seus corações obscurecidos, de modo que, mesmo quando discutem e citam tudo o que está nas Escrituras, não compreendem ou conhecem realmente qualquer assunto dela... O Espírito é necessário para a compreensão de toda a Escritura e cada uma de suas partes. (Nota 32)
d. Interpretação Gramatical e Histórica:
Por outro lado, reconhecendo a natureza histórica das Escrituras, os reformadores defendiam a sua interpretação literal, enfatizando também a importância da gramática e da história na compreensão da sua mensagem.
Melanchton foi um dos responsáveis pela ênfase reformada na exegese gramatical. Em um discurso proferido em 1518 em Wittenberg, ele exortou seus ouvintes a recorrerem às Escrituras nas línguas originais, onde encontrariam Cristo, livre das discordâncias dos teólogos latinos. Lutero ficou tão impressionado com o que ouviu, que passou a assistir às aulas de grego de Melanchton, dedicando-se com afinco ao estudo do grego. (Nota 33)
Mas foi Calvino, sem dúvida, quem melhor praticou a exegese gramatical e histórica. Ele tem sido considerado por muitos o maior intérprete da Reforma e um dos maiores de todas as épocas. A profundidade, lucidez e erudição dos seus comentários, que abrangem praticamente todos os livros da Bíblia, (Nota 34) continuam a ser admirados e considerados atuais e raramente igualados. (Nota 35) E não se pense que essa é a opinião apenas dos calvinistas (um compreensível exagero presbiteriano deste autor). Mesmo Jacobus Arminius (1560-1609), um dos mais conhecidos opositores das doutrinas de Calvino, reconhecia a excelência dos comentários dele, e chegou a recomendá-los como incomparáveis. Eis suas palavras:
Depois da leitura das Escrituras..., e mais do que qualquer outra coisa,... eu recomendo a leitura dos Comentários de Calvino... Pois afirmo que na interpretação das Escrituras Calvino é incomparável, e que seus Comentários são mais valiosos do que qualquer coisa que nos tenha sido legada nos escritos dos pais — tanto assim que atribuo a ele um certo espírito de profecia no qual ele se encontra em uma posição distinta acima de outros, acima da maioria, na verdade, acima de todos. (Nota 36)
e. Desenvolvimento do Método Gramático Histórico:
Estes e outros princípios de interpretação praticados pelos reformadores (Lutero, Calvino e demais reformadores alemães, suíços, franceses e ingleses) viriam a ser desenvolvidos e adotados pelo protestantismo ortodoxo em geral desde então, (Nota 37) e se tornaram conhecidos pelo nome de método gramático-histórico de interpretação bíblica.
Foi este o método empregado pelos puritanos no séc. XVII;38 pelos líderes evangélicos do século XVIII na Europa e América do Norte (tais como George Whitefield e Jonathan Edwards); pelo anglicano J. C. Ryle, pelo batista Charles Spurgeon na Inglaterra e pelos presbiterianos Charles e Alexander Hodge no Seminário de Princeton nos EUA, no século passado; e pelos intérpretes e pregadores protestantes (luteranos, anglicanos, presbiterianos e batistas) ortodoxos deste século.
Os manuais de hermenêutica de Davidson, Patrick, Imer, Terry, Berkhof, Berkeley, Mickelsen e Ramm pertencem todos a essa escola de interpretação bíblica, bem como os comentários bíblicos de Keil e Delitzsch, Meyer, Matthew Henry, Lange, Alford, Ellicot, Lightfoot, Hodge, Broadus e muitos outros.
O método gramático-histórico de interpretação bíblica desenvolvido pela corrente reformada é, de fato, a hermenêutica honrada pelo tempo. É um método coerente com a natureza das Escrituras; fundamenta-se em pressuposições teológicas bíblicas; e emprega princípios gerais adequados e métodos linguísticos e históricos extremamente frutíferos.
19 Observações:
A teologia e a práxis eclesiástica deformadas do evangelicalismo moderno clamam por reforma; clamam por um novo retorno às Escrituras. A corrente espiritualista de interpretação bíblica já foi colocada na balança e achada em falta: as hermenêuticas alegórica, intuitiva e existencialista, por não darem a devida consideração ao caráter humano das Escrituras, abrem espaço para todo tipo de exesegese. O caráter fantasioso destas hermenêuticas acaba desviando a atenção do leitor ou ouvinte do verdadeiro sentido do texto bíblico (aquele que o Espírito Santo intentou transmitir).
A corrente humanista de interpretação bíblica também já foi colocada na balança e achada em falta: a hermenêutica dos saduceus, dos humanistas renascentistas e da escola crítica, por não darem a devida atenção ao caráter divino das Escrituras, tendem a atribuir à razão a autoridade que pertence à revelação. Este caráter racionalista da hermenêutica humanista induz ao liberalismo teológico que acaba negando a legítima fé reformada.
A corrente reformada de interpretação bíblica também já foi colocada na balança da história, mas foi aprovada com louvor: o método gramático-histórico fundamentado no próprio ensino bíblico sobre as Escrituras e desenvolvido e aplicado pelos reformadores e seus legítimos herdeiros, por dar a devida atenção tanto ao caráter divino como ao caráter histórico das Escrituras, promoveu as reformas teológicas e eclesiásticas mais profundas já experimentadas pela igreja cristã.
Durante a Reforma Protestante do século XVI e a reforma puritana do século XVII, por exemplo, muito entulho religioso teve que ser rejeitado. Muitas doutrinas e práticas eclesiásticas acumuladas no decurso dos séculos tiveram que ser abolidas, quando reformadores e puritanos dedicaram-se com labor e oração a perscrutar as Escrituras para ver se as coisas eram de fato assim. A hermenêutica reformada das Escrituras já demonstrou ter a capacidade de revelar a falácia de doutrinas e práticas eclesiásticas ‘‘fundamentadas’’em interpretações alegóricas, intuitivas, existencialistas e racionalistas.
O evangelicalismo brasileiro tem acumulado nos últimos cem anos — especialmente nas últimas décadas — considerável entulho religioso. Não é possível entrar em detalhes aqui. Mas a proliferação de teologias estranhíssimas, práticas litúrgicas inusitadas e condutas eclesiásticas no mínimo excêntricas, já descaracterizaram a fé e o culto reformados. Mesmo denominações historicamente reformadas têm absorvido doutrinas e práticas de culto inconsistentes com o ensino bíblico e com seus símbolos de fé. Esta descaracterização se explica, pelo menos em parte, pelo emprego das hermenêuticas deficientes que estivemos considerando.
Não é tempo, portanto, de reconsiderarmos os rumos que estamos tomando? De nos desvencilharmos das hermenêuticas alegóricas, intuitivas, existencialistas e racionalistas, e de retornarmos à hermenêutica reformada aprovada pela história? Não é tempo de fazermos da oração uma prática hermenêutica, suplicando pela iluminação do Espírito Santo; e de labutarmos no estudo diligente das Escrituras, dando a devida atenção à língua e às circunstâncias históricas em que foram escritas?
Orare e labutare é o caminho. Não é um caminho fácil nem mágico. Requer sinceridade e diligência. Talvez não forneça interpretações esplêndidas nem realce a criatividade, imaginação e genialidade do pregador. Mas é o antigo e bom caminho aprovado com louvor pela história. Ele deixa que a verdade de Deus opere e que as Escrituras falem com poder e graça, promovendo profundas reformas teológicas e eclesiásticas.
20 O FUNDAMENTO DA AUTORIDADE BÍBLIA:
(1) -Antigo Testamento:
Os autores do Velho testamento reivindicam que aquilo que estão escrevendo é de origem Divina.
No Antigo Testamento, aparece:
361 vezes a expressão: “diz o Senhor”
445 vezes a expressão: “assim diz o Senhor”
540 vezes a palavra dãbhãr = “Palavra do Senhor”
Os profetas assim como os ouvintes tinham plena convicção de que a mensagem era de origem divina.
O próprio Jesus aceitou a autoridade do Antigo Testamento.
Ex. Mateus 5:17-19; Lucas 10:25-28; Lucas 16:19-31
(2) -Novo Testamento:
Também repousa sobre a inspiração divina.
Mas repousa também sobre a pessoa de Jesus que também é identificado como a palavra de Deus.
Exemplos: - Hebreus 1:1, 2 - Mateus 15:6. Lucas 5:1
I Tessalonicenses. 2:16
I Timóteo 5:18 - Paulo cita um texto do Antigo Testamento e um do Novo Testamento e os coloca no mesmo nível chamando-os de Escritura.
II Pedro 3:15, 16
* O Antigo Testamento e o Novo Testamento devem ser vistos como partes de um todo. Partes da revelação de Deus, pois ambas tem a mesma origem que é a revelação de Deus.
1ª - Unidade:
Entre o Antigo e o Novo Testamento; A fonte é a mesma: Deus; E Deus não muda.
2ª – Continuidade:
O Deus que falou muitas vezes voltou a falar no momento; As revelações progressivas de Deus, elas formam um todo.
3ª – Progressividade:
A revelação de Deus é progressiva, ela é crescente; Deus falou primeiramente através dos profetas; Depois falou através de Seu Filho Jesus, o que se tornou na revelação suprema.
4ª – Diversidade:
Existe algo que une o A. T. e o N. T.; Mas existe também algo que os separa; No Antigo Testamento, Deus falou aos profetas de muitas maneiras; Os costumes eram diferentes, a linguagem era diferente, o tempo era diferente, mas o Deus era o mesmo, portanto a mensagem era a mesma - (Salvação); I Cor. 12:4-6 - O Senhor é o mesmo;
Analogia da Fé:
Temos que comparar textos do Antigo Testamento com do Novo Testamento, desde que tratam do mesmo assunto.
Exemplos: Mateus 27:5; Lucas 22:47 - João 13:27
21 A SOLA SCRIPTURA:
O conceito católico no tempo de Lutero era que a Palavra de Deus era: Bíblia + Tradições .
Diziam que a Palavra de Deus era a Revelação de Deus, mais as tradições dos homens, em especial a tradição da igreja (católica).
Lutero se posicionou contra esta ideia. Sua posição era: Sola Scriptura = Somente a Escritura (Bíblia).
O princípio de Sola Scriptura reconhece a unicidade, a veracidade da Bíblia. Reconhece a autoridade da Bíblia.
Nenhuma das doutrinas de qualquer igreja ou denominação religiosa deve estar baseada em alguma outra fonte que não seja a Bíblia.
22 HISTÓRIA DA INTERPRETAÇÃO BÍBLICA:
Não temos o direito de explorar um texto fora do contexto e da idéia que o autor queria expressar.
- Esdras 7:6, 10:
- Esdras é o mais antigo intérprete que temos notícia.
- O povo estava falando uma língua aparentada, mas diferente do hebraico: o aramaico. Isto levou Esdras a ensinar ao povo as Escrituras.
- Esdras era sacerdote e era versado nas leis de Moisés. Esdras havia proposto em seu coração guardar as leis de Deus.
- O povo daquela época perdera a facilidade com a língua hebraica por influência do aramaico.
- Por isso, os sacerdotes liam o Pentateuco para eles e os interpretava.
- O Pentateuco estava todo em hebraico.
- Neemias 8:1-8:
- V. 8 - “Leram no livro..., claramente, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia”.
- Dessa forma iniciou-se a ciência que nós chamamos de Hermenêutica.
- Segundo a tradição judaica, Esdras é considerado o primeiro a usar a exegese, foi ele quem iniciou os escribas (ele é considerado o primeiro escriba).
- Sopherins: Escribas:
- Foi também neste período que surgiram as sinagogas
- O templo era para serviços oficiais. A sinagoga era para serviços informais.
- Eram eles que ensinavam o povo sobre as Santas Escrituras
- Copiaram zelosamente as Escrituras.
- O período inter testamentário, foi o período em que surgiram diversas seitas no Novo Testamento:
- Alguns escribas, fariseus, saduceus, essênios.
- Estavam tão desejosos de guardar a lei que começaram a dizer que cada palavra era inspirada.
- Isso trouxe vantagens e desvantagens:
Vantagem:
Fidelidade ao texto bíblico original.
Desvantagem:
achar que todos os pormenores, todos os detalhes, tinham uma mensagem, cada letra era considerada como inspirada. A interpretação literal, não leva em conta as figuras de linguagem.
Letrismo:
Ênfase demasiada nas letras.
Literalismo:
Leva em conta a existência de figuras de linguagem
23 Tipos de Interpretação do Passado:
Nos tempos de Cristo:
1 - Literal - (Peshat) - nós cremos
2 - Midráshica (rabínica) - vem do hebraico: Beth-Midrash = Escola; Beth - casa; Darash- interpretar;
Hillel (Liberal) e Shamai (conservador) eles eram dois rabinos fundadores de escola, importantes da época de Cristo. Gamaliel era neto de Hillel.
Ao estudarmos a Bíblia, temos que buscar os princípios envolvidos. 3 - Pesher (essênios).
Pesher - exegese fantasiada.
As 1, 2 e 3, eram mais comuns entre Judeus
Palestinos. A 4, era entre os Judeus helenistas.
4 - Alegórica:
O alegorismo surgiu na Grécia.
Homero e Hesíodo (escritores gregos), foram os responsáveis por toda tradição mitológica grega.
Heródoto, Tales, Tucídides, começaram a usar o alegorismo para explicar os escritos de Homero e Hesíodo.
Os estudos foram transferidos de Atenas para Alexandria.
Ideia Platônica:
Como se fosse uma bola partida no meio.
Parte de cima: Idéias (Deus, sobrenatural)
Parte de baixo: Sombras (Homem, físico)
Judeus na Grécia contavam as historias da Criação e do Êxodo.
Os gregos viram estas histórias semelhantes, às histórias da Mitologia grega (Homero e Hesíodo)
Os estudiosos começaram então a usar o Alegorismo para explicar a Bíblia, assim como usavam para explicar os escritos de Homero e Hesíodo.
24 Aristóbulo:
Filo (20 a.C. - 50 d.C) – Começou a empregar em seus livros o método do alegorismo. Aplicou a filosofia grega à teologia judaica. Para ele, o alegorismo é uma flutuação da interpretação sobre a linha do texto.
Assim só os mais adiantados conseguiriam usar o alegorismo. Os simples ficavam presos ao que está escrito.
O método alegórico de interpretarão entrou na igreja no 2º século.
Apareceu mais tarde como método crítico.
Citações no Novo Testamento que lembram o Velho Testamento:
- 160 - citações diretas
- 4.105 – alusões
O uso que Jesus fez do Antigo Testamento:
1º - Foi uniforme e tratava o texto, os registros, como fatos fiéis.
2º - Fazia aplicação sem mudar o sentido do texto
3º - Denunciou o modo como os rabinos estavam interpretando as Escrituras.
4º - Os escribas e fariseus nunca puderam acusar Jesus de usar qualquer texto da Escritura de modo ilegítimo.
5º - Parece que Jesus usou alguns textos de modo antinatural, mas geralmente se tratava de legítimas expressões idiomáticas hebraicas ou aramaicas, ou padrão de pensamento que não se traduz diretamente para nossa cultura e nosso tempo.
Obs. São geralmente passagens de cumprimento.
O uso que os apóstolos fizeram do Antigo Testamento:
56 casos, pelos menos, há referências explícitas a Deus como o autor do texto bíblico.
1º - Ao citar o Antigo Testamento, com freqüência o Novo modifica o fraseado primitivo. Como se pode justificar hermeneuticamente tal prática?
R: - Na época havia várias versões do A. T., Além da versão em hebraico havia também quatro versões em grego (Septuaginta, Áquila, Símaco, Teodócio).
2º - Muitas vezes o autor do Novo Testamento faz alusões, vale-se da memória ao transcrever os textos do A. T.
3º - Na vida comum, não estar preso à atuação é geralmente sinal de que o autor tem domínio da matéria.
A forma como os escritos do N.T. usam o A.T. deve nos ensinar a maneira em que devemos usar as Escrituras.
25 EXEGESE PATRÍSTICA:
O alegorismo predominou desde o 2º século, até à Idade média, foi o método que mais durou na história cristã.
Os escritores bíblicos queriam mostrar que Jesus era o Messias. Então os judeus começaram a interpretar o Antigo testamento de Maneira errada, usando o alegorismo para provar que Jesus não era o Messias.
Na ansiedade de mostrar que o Antigo Testamento é um documento cristão e que Jesus não era o Messias, caíram no erro de alegorizar os textos bíblicos.
Clemente de Alexandria:
Alexandria - Berço do alegorismo grego.
Nessa cidade um personagem chamado Panteno fundou a Escola Catequética de Alexandria.
Clemente - foi o substituto de Panteno, foi o segundo professor da escola.
Clemente foi o primeiro cristão a suar vastamente o alegorismo para interpretar o texto bíblico. Ele era versado na filosofia grega. Era também de origem pagã.
Para ele, cada texto bíblico tem cinco sentidos: HISTÓRICO, DOUTRINAL, PROFÉTICO,FILOSÓFICO e MÍSTICO(alegórico)
Origens:
Foi sucessor de Clemente
Foi um gigante intelectual. Publicou obras apologéticas.
Cria ser a Escritura uma vasta alegoria na qual cada detalhe é simbólico.
Acreditava que o homem constitui de 3 partes:
Corpo - sentido literal
Alma - sentido moral
Espírito - sentido alegórico ou místico.
Assim também as Escrituras constituem de três partes.
Produziu a “Hexapla - Hebraico, Grego, Áquila, LXX, Símaco, Teodócio”, a maior obra respectiva à Bíblia produzida até hoje. Tinha 12 mil páginas. Levou trinta anos para ficar pronta.
Agostinho:
Escreveu o livro “Cidade de Deus”
Escreveu também o livro “A Doutrina Cristã”
Tinha 12 regras básicas para interpretar as Escrituras.
Na prática, acabou renunciando seus princípios e inclinou-se para uma alegorização excessiva.
Cria que Escritura tinha um sentido quádruplo:
HISTÓRICO, ETIMOLÓGICO, ANALÓGICO, ALEGÓRICO.
Foi um homem mui piedoso, mas que causou uma das maiores desgraças do cristianismo: a criação da “Santa Inquisição” .
Forçava os “hereges” a aceitarem as idéias da igreja.
A Escola de Antioquia da Síria:
Fundada no ano 290 por 2 presbíteros: Doroteu e Luciano.
Primeira escola protestante de hermenêutica.
Criticavam o alegorismo por lançarem muitas dúvidas na historicidade de muita coisa do Antigo Testamento.
Os princípios exegéticos da escola de antioquia lançaram a base da hermenêutica evangélica moderna.
26 Exegese Medieval:
Neste período os teólogos não tinham muito conhecimento da Bíblia.
Valiam-se em grande parte das tradições e do alegorismo para explicar as Escrituras.
Foi uma época de pouca cultura e erudição. Poucas pesquisas foram feitas neste período.
A fonte de doutrinas não era só a bíblia, mas também as tradições.
Tentavam harmonizar as tradições com a Bíblia.
O método do alegorismo predominava, mas não havia só este método. Havia também o misticismo.
Exemplo: Cabala ou Kabbala - é um tratado filosófico, religioso hebraico que propõe resumir uma espécie de religião secreta que se supõe haver coexistido com a religião popular dos hebreus.
Kaballah - Kabbel: Receber.
No cabalismo, também estava presente o “letrismo” Era um letrismo absurdo. Era uma teologia completamente mística.
Os judeus da Espanha (Sefarditas) fundaram uma escola própria de interpretação, liderada por Willian Champeaux, Séc. XII.
Incentivaram o retorno a um método de interpretação histórico-gramatical.
Nicolau de Lyra:
Grande impacto. Restaura os chamados: Quatro sentidos.
Influência grandemente a Lutero.
27 Exegese da Reforma:
Lutero:
1) - Fé é a iluminação (como princípios de Interpretação)
2) - Rejeitou o método alegórico...
3) - A Bíblia é um livro claro...
Ao romper com o método alegórico, valeu-se do método cristológico.
Separou textos do Antigo e Novo Testamento que mencionavam ou se referiam a Cristo.
Quando o homem aceita a graça de Deus e a Jesus como Salvador, quando ele passa pela cruz então é justificado.
Aquilo que lhe condenava agora não lhe condena mais O que nos salva é o sangue de Cristo
Muitos que não fizeram crime, adultérios, etc, estarão perdidos, por não aceitarem esta graça.
Existem dois tipos de pecado:
1 - Pecado consciente, pecado decidido, viver no pecado.
2 - Pecado ocasional, conseqüente de minha natureza pecaminosa. Exemplos:
1 - Aquele que vive pecando e não aceita a graça de Deus
2 - Aquele fiel que vive em comunhão com Deus, mas que por um deslize cai em pecado.
Calvino:
Seguiu as mesmas linhas de Lutero.
28 Exegese Pós-Reforma:
Confessionalismo:
Concílio de Trento - dogmas da Igreja Católica
Contra reforma
Protestantes também firmaram suas doutrinas.
Pietismo:
Surgiu em resultado ao confissionalismo.
Retorno à antiga piedade bíblica. Verdadeiro estudo da Bíblia (fé, oração).
Racionalismo:
Diz que a razão e a única coisa que pode governar o homem.
Era uma filosofia.
29 Hermenêutica moderna:
O pai da teologia liberal que aplicou os conceitos do racionalismo na teologia cristã foi Friedrich Schleiermacher (1768-1834)
Lia a Bíblia como um produto puramente humano, e, portanto, esta não era nenhuma norma de vida.
- Religião humanista
Para ele, Deus é apenas mais uma experiência, um sentimento.
O homem é agora o centro da religião. Cada um pode ter a sua religião particular. Nenhuma autoridade externa.
Liberalismo:
O liberalismo está constituído sobre três coisas:
1 - Não existe o sobrenatural (Não existe Deus, pois Deus é um sentimento)
2 - A Bíblia é um livro puramente humano
3 - A Bíblia deve ser interpretada baseada apenas em recursos humanos (do ponto de vista humano).
Tudo que não é racional deve ser rejeitado.
Vê-se nisto um processo evolutivo (lei do mais forte). Ainda hoje há resíduos deste tipo de liberalismo.
Neo-Ortodoxa:
É uma tentativa de aproximar mais os liberais e os conservadores (meio termo, posição equilibrada).
Diz que Deus não se revela em palavras. Portanto, a Bíblia não é a palavra de Deus.
Deus se revela a Sí mesmo, em pessoa ao homem.
A Bíblia é um testemunho de homens que experimentaram um contato pessoal com Deus.
Kar Barth:
“A Bíblia é a cada passo a vulnerável palavra do homem”.
Emil Brummer:
Pegou o pensamento de Bubber e aplicou a Deus:
Conhecida como Teologia do Encontro.
Dizia que não devemos ver a Deus como uma coisa, mas como alguém real. A Bíblia é o testemunho de homens que tiveram um encontro com Deus.
Martin Bubber:
Filósofo e sociólogo alemão com sangue judeu.
Para Bubber isto não tem nada a ver com Deus (religião)
Diz que homens no passado tiveram esse encontro pessoal com Deus e baseados nesse testemunho pessoal, escreveram a Bíblia.
30 Conceito Neo-Ortodoxo quanto à inspiração:
A Bíblia não é inspirada por Deus ao ter sido escrita, mas a Bíblia inspira a todos que a lêem. Para eles, isto é inspiração.
Portanto, a Bíblia deixa de ser normativa.
A religião fica sendo algo puramente pessoal.
O pensamento neo-ortodoxo é religioso, mas é extremamente humanista.
ERRADO:
O significado de um texto fica sendo aquilo que ele achar melhor, que se adapta melhor à sua condição de vida.
Tantos significados quantos forem os leitores e não há interpretação certa ou errada.
CERTO:
Um texto tem apenas um significado, aquele pretendido pelo autor.
1 - Interpretação e Aplicação:
A respeito de Efésios 4:26-27, a que tipo de relações Paulo estava se referindo?
a) relações entre marido e mulher
b) relações entre pais e filhos
c) relações entre membros da igreja
d) relações entre patrão e empregados
Princípio presente neste texto:
Na medida do possível, procurar resolver os problemas no mesmo dia. Toda e qualquer aplicação deve derivar da interpretação do texto. Ao pregarmos, devemos fazer uma boa exegese do texto e estar certo de sua aplicação.
2 - Sensus Plenior:
O significado mais profundo intencionado por Deus em uma passagem.
Daniel 12:8 - Nem sempre o profeta entende aquilo que ele escreve.
Exemplo: Salmo 2:7
Sensus Plenior:
Só se reconhece olhando o Novo testamento e achando-se passagens do Velho Testamento citadas com uma outra interpretação.
Tem que ter algo em comum.
Exemplo: (A.T.) - Isaías 64:4. (N.T.) - I Cor. 2:9
Um profeta inspirado pode usar qualquer texto da Bíblia e usá-lo com outro propósito. Mas não necessariamente isto seja Sensus Plenior, mas é inspirado e é verdade do mesmo jeito.
Verdade Prescritiva:
É aquela que nos diz o que devemos fazer, uma prescrição.
Exemplo. Idolatria, Deus Criador, etc.
Declaração explícita.
Verdade repetida muitas e muitas vezes na Bíblia como um todo ou no mesmo livro.
Verdade descritiva:
Não são normas de vida para hoje, são simplesmente descrições.
Exemplos. Véu na igreja, ósculo santo, mulheres caladas na Igreja. Etc.
31 O CASAMENTO CRISTÃO:
O capítulo anterior foi quase todo negativo. Nele discuti o que há de errado com o impulso sexual no homem, mas falei muito pouco sobre seu funcionamento correto - em outras palavras, sobre o casamento cristão. Há duas razões pelas quais não quis abordar o tema do casamento. A primeira é que a doutrina cristã sobre o assunto é extremamente impopular. A segunda é que nunca fui casado, e, portanto, não posso falar sobre ele por experiência própria. Apesar disso, sinto que não posso deixar este assunto de lado num sumário da moral cristã.
A ideia crista de casamento se baseia nas palavras de Cristo de que o homem e a mulher devem ser considerados um único organismo - tal é o sentido que as palavras uma só carne teriam numa língua moderna. Os cristãos acreditam que, quando disse isso, ele não estava expressando um sentimento, mas afirmando um fato — da mesma forma que expressa um fato quem diz que o trinco e a chave são um único mecanismo, ou que o violino e o arco formam um único instrumento musical. O inventor da máquina humana queria nos dizer que as duas metades desta, o macho e a fêmea, foram feitas para combinar-se aos pares, não simplesmente na esfera sexual, mas em todas as esferas. A monstruosidade da relação sexual fora do casamento é que, cedendo a ela, tenta-se isolar um tipo de união (a sexual) de todos os outros tipos de união que deveriam acompanhá-la para compor a união total. A atitude cristã não toma como errada a existência de prazer no sexo, como não considera errado o prazer que temos quando nos alimentamos. O erro está em querer isolar esse prazer e tentar buscá-lo por si mesmo, da mesma maneira que não se deve buscar os prazeres do paladar sem engolir e digerir a comida, apenas mastigando-a e cuspindo-a.
Professor Moriarty, o maior inimigo de Sherlock Holmes nas histórias criadas por Conan Doyle. (N.doT.)
Em consequência, o cristianismo ensina que o casamento deve durar a vida toda. Neste ponto, é claro que existem diferenças entre as diversas Igrejas: algumas não admitem o divórcio em hipótese alguma; outras o admitem com relutância em casos específicos. E uma grande lástima que os cristãos divirjam quanto a essa questão; para um leigo, porém, o fato a notar é que, no que diz respeito ao casamento, todas as Igrejas concordam muito mais umas com as outras do que concordam com o que vem do mundo exterior. Todas encaram o divórcio como se fosse algo que cortasse ao meio um organismo vivo, como um tipo de cirurgia. Algumas acham que essa cirurgia é tão violenta que não deve ser feita de forma alguma. Outras a admitem como um recurso desesperado em casos extremos. Todas asseveram que o divórcio se parece mais com a amputação das pernas do corpo do que com a dissolução de uma sociedade comercial ou mesmo com o ato de deserção de um soldado. O que todas elas repudiam é a visão moderna de que o divórcio é simplesmente um reajustamento de parceiros, a ser feito sempre que as pessoas não se sentem mais apaixonadas uma pela outra, ou quando uma delas se apaixona por outra pessoa.
Antes de analisar essa visão moderna e sua relação com a castidade, não devemos deixar de considerar sua relação com outra virtude - a saber, a justiça. A justiça, como eu disse antes, inclui a fidelidade à própria palavra. Todos os que se casaram na igreja fizeram a promessa pública e solene de permanecer unidos até a morte. O dever de cumprir essa promessa não tem nenhum vínculo especial com a moralidade sexual: ela está em pé de igualdade com qualquer outra promessa. Se, como as pessoas hoje em dia insistem em dizer, o impulso sexual é igual a todos os outros impulsos, então deve ser tratado em pé de igualdade com eles. Assim como o gozo de todo e qualquer impulso é controlado por nossas promessas, assim deve ser o gozo do impulso sexual. No entanto, se, segundo penso, ele não é igual a nossos demais impulsos, mas encontra-se morbidamente inflamado, devemos ter mais cautela para que ele não nos leve à desonestidade.
Certas pessoas podem retrucar dizendo que consideram a promessa feita na igreja uma simples formalidade, a qual nunca tencionaram cumprir. A quem, então, pretendiam enganar quando fizeram tal promessa? A Deus? Isso não é nada sensato. A si mesmas? Isso não é muito mais sensato que a alternativa anterior. Enganar a noiva, o noivo, os sogros? Isso é traição. E mais frequente, na minha opinião, o casal (ou um deles) querer enganar o público. Quer a respeitabilidade que vem do casamento sem ter de pagar por isso: ou seja, são impostores, são enganadores. Se essas pessoas são desonestas e não se preocupam com isso, não tenho nada a lhes dizer. Quem poderia adverti-las a seguir o nobre, mas penoso, dever da castidade, se elas não pretendem nem mesmo ser honestas? Caso recobrassem a razão, a própria promessa feita as constrangeria. Tudo isso, como você pode notar, está circunscrito ao âmbito da justiça, e não da castidade. Se as pessoas não acreditam em casamento para sempre, talvez seja melhor viver juntas sem estar casadas que fazer uma promessa que não pretendem cumprir. É claro que, ao viver juntas sem estar unidas pelo matrimônio, elas são culpadas de fornicação (sob o ponto de vista cristão). Uma falta, porém, não conserta a outra: a falta de castidade não é minorada quando a ela se acrescenta o perjúrio.
A ideia de que estar enamorado é o único motivo válido para permanecer casado é totalmente contrária à ideia do matrimônio como um contrato ou mesmo como uma promessa, Se tudo se resume ao amor, o ato da promessa nada lhe acrescenta; e, assim, nem deveria ser feito. Uma coisa curiosa é que os próprios amantes, enquanto permanecem apaixonados, sabem disso muito mais que os que só falam de amor. Como observou Chesterton21, os apaixonados têm a tendência natural de fazer promessas um ao outro. As canções de amor do mundo inteiro estão repletas de juras de fidelidade eterna. A lei cristã não exige do amor algo que é alheio à sua natureza: exige apenas que os amantes levem a sério algo que a própria paixão os impele a fazer.E é evidente que a promessa de ser fiel para sempre, que fiz quando estava apaixonado e porque o estava, deve ser cumprida mesmo que deixe de estar. A promessa diz respeito a ações, a coisas que posso fazer: ninguém pode fazer a promessa de ter um determinado sentimento para sempre. Seria o mesmo que prometer nunca mais ter dor de cabeça ou nunca mais ter fome. Pode-se perguntar, no entanto, qual o sentido de manter unidas duas pessoas que não se amam mais. Existem várias razões sociais bem fundamentadas para tanto: dar um lar para os filhos, proteger a mulher (que provavelmente sacrificou a carreira pelo casamento) de ser trocada por outra quando o marido se cansar dela. Existe, no entanto, um outro motivo do qual estou bastante convencido, mesmo que o julgue difícil de explicar.
E é evidente que a promessa de ser fiel para sempre, que fiz quando estava apaixonado e porque o estava, deve ser cumprida mesmo que deixe de estar. A promessa diz respeito a ações, a coisas que posso fazer: ninguém pode fazer a promessa de ter um determinado sentimento para sempre. Seria o mesmo que prometer nunca mais ter dor de cabeça ou nunca mais ter fome. Pode-se perguntar, no entanto, qual o sentido de manter unidas duas pessoas que não se amam mais. Existem várias razões sociais bem fundamentadas para tanto: dar um lar para os filhos, proteger a mulher (que provavelmente sacrificou a carreira pelo casamento) de ser trocada por outra quando o marido se cansar dela. Existe, no entanto, um outro motivo do qual estou bastante convencido, mesmo que o julgue difícil de explicar.
Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), escritor cristão inglês. (N. doR.T.)
E difícil porque tanta gente não consegue se dar conta de que, mesmo que B seja melhor que C, talvez A seja melhor que ambos. As pessoas gostam de raciocinar com os termos bom e mau, não com os termos bom, melhor e o melhor de todos, e ruim, pior e o pior de todos. Elas perguntam se você julga o patriotismo uma coisa boa; se você responde que ele é muito melhor que o egoísmo dos indivíduos, mas bastante inferior à caridade universal, e que deve ceder lugar a esta sempre que os dois estiverem em conflito, elas acham sua resposta evasiva. Perguntam o que você acha dos duelos. Se você responde que é muito melhor um homem perdoar o próximo que duelar com ele, mas que o duelo pode ser uma alternativa melhor que uma inimizade eterna, expressa no esforço secreto de causar a ruína do oponente, elas se queixam de que você não ofereceu uma resposta franca e direta. Espero que ninguém cometa o mesmo erro com o que tenho a dizer agora. O que chamamos de estar apaixonado é um estado maravilhoso e, sob diversos aspectos, benéfico para nós. Ajuda-nos a ser mais generosos e corajosos, abre nossos olhos não apenas para a beleza do objeto amado, mas para toda a beleza, e subordina (especialmente no início) nossa sexualidade animal; nesse sentido, o amor é o grande subjugador do desejo. Ninguém que tenha o uso perfeito da razão negaria que estar apaixonado é melhor que a sensualidade ordinária ou o frio egocentrismo. Mas, como eu disse antes, a coisa mais perigosa que podemos fazer é tomar um certo impulso de nossa natureza como padrão a ser seguido custe o que custar. Estar apaixonado é muito bom, mas não é a melhor coisa do mundo. Existem muitas coisas abaixo, mas também muitas outras acima disso. A paixão amorosa não pode ser a base de uma vida inteira. E um sentimento nobre, mas, mesmo assim, é apenas um sentimento. Não podemos nos fiar em que um sentimento vá conservar para sempre sua intensidade total, ou mesmo que vá perdurar. O conhecimento perdura, como também os princípios e os hábitos, mas os sentimentos vêm e vão.
E, o que quer que as pessoas digam, a verdade é que o estado de paixão amorosa normalmente não dura. Se o velho final dos contos de fadas: E viveram felizes para sempre, quisesse dizer que pelos cinquenta anos seguintes sentiramse atraídos um pelo outro como no dia anterior ao casamento, estaria se referindo a algo que não acontece na realidade, que não pode acontecer e que, mesmo que pudesse, seria pouquíssimo recomendável. Quem conseguiria viver nesse estado de excitação mesmo por cinco anos? Que seria do trabalho, do apetite, do sono, das amizades? E claro, porém, que o fim da paixão amorosa não significa o fim do amor. O amor nesse segundo sentido - distinto da paixão amorosa - não é um mero sentimento. E uma unidade profunda, mantida pela vontade e deliberadamente reforçada pelo hábito; é fortalecida ainda (no casamento cristão) pela graça que ambos os cônjuges pedem a Deus e dele recebem. Eles podem fruir desse amor um pelo outro mesmo nos momentos em que se desgostam, da mesma forma que amamos a nós mesmos mesmo quando não gostamos da nossa pessoa. Conseguem manter vivo esse amor mesmo nas situações em que, caso se descuidassem, poderiam ficar apaixonados por outra pessoa. Foi a paixão amorosa que primeiro os moveu a jurar fidelidade recíproca. O amor sereno permite que cumpram o juramento. E através desse amor que a máquina do casamento funciona: a paixão amorosa foi a fagulha que a pôs em funcionamento.
Se você discorda de mim, é claro que vai dizer: Ele não sabe do que está falando. Ele nem é casado. Talvez você tenha razão. Antes de dizer isso, porém, tome o cuidado de embasar seu julgamento nas coisas que você conhece por experiência pessoal ou pela observação de seus amigos, e não em ideias derivadas de romances ou de filmes. Isso não é tão fácil de fazer quanto as pessoas pensam. Nossa experiência é preenchida pelas cores dos livros, peças de teatro e filmes do cinema, e é necessário ter paciência para delas desentranhar e para separar o que aprendemos da vida por nós mesmos.
As pessoas tiram dos livros a ideia de que, se você casou com a pessoa certa, viverá apaixonado para sempre. Como resultado, quando se dão conta de que não é isso o que ocorre, chegam à conclusão de que cometeram um erro, o que lhes daria o direito de mudar - não percebem que, da mesma forma que a antiga paixão se desvaneceu, a nova também se desvanecerá. Nesse departamento da vida, como em qualquer outro, a excitação é própria do início e não dura para sempre. A emoção intensa que um garoto tem quando pensa em aprender a pilotar um avião não sobrevive quando ele se junta à Força Aérea, onde realmente vai aprender o que é voar. A palpitação de conhecer um lugar novo se esvai quando se passa a morar lá. Acaso quero dizer que não devemos aprender a voar ou não devemos morar num lugar aprazível? De jeito nenhum. Em ambos os casos, se você perseverar, o arrepio da novidade, quando morre, é compensado por um interesse mais sereno e duradouro. Além disso (e mal consigo lhe dizer o quanto isto é importante), são exatamente as pessoas dispostas a sofrer a perda do frêmito inicial e a acatar esse interesse mais sóbrio que têm maior probabilidade de encontrar novas emoções em campos diferentes. O homem que aprendeu a voar e se tornou um bom piloto subitamente descobre a música; o homem que se estabeleceu num local idílico descobre a jardinagem.
Segundo me parece, essa é uma pequena parte do que Cristo quis dizer quando afirmou que nada pode viver realmente sem antes morrer. Simplesmente não vale a pena tentar manter viva uma sensação forte e fugaz: é a pior coisa que podemos fazer. Deixe o frisson ir embora deixe-o morrer. Se você passar por esse período de morte e penetrar na felicidade mais discreta que o segue, passará a viver num mundo que a todo tempo lhe dará novas emoções. Mas, se fizer das emoções fortes a sua dieta diária e tentar prolongá-las artificialmente, elas vão se tornar cada vez mais fracas, cada vez mais raras, até você virar um velho entediado e desiludido para o resto da vida. É por serem tão poucas as pessoas que entendem isso que encontramos tantos homens e mulheres de meia-idade lamentando a juventude perdida, na idade mesma em que novos horizontes deveriam descortina-se e novas portas deveriam abrir-se. E muito mais divertido aprender a nadar que tentar resgatar incessantemente (e inutilmente) a sensação da primeira vez que chapinhamos na água quando garotos.
Outra ideia que apreendemos de romances e peças de teatro é que a paixão amorosa é algo irresistível, algo que simplesmente contraímos, como sarampo. Por acreditar nisso, certas pessoas casadas largam tudo e se atiram a um novo amor quando se sentem atraídas por alguém. Penso, porém, que essas paixões irresistíveis são muito mais raras na vida real que nos livros, pelo menos depois de chegarmos à idade adulta. Quando conhecemos uma pessoa bonita, inteligente e bem-humorada, é claro que devemos, num certo sentido, admirar e amar essas belas qualidades. Porém, não cabe a nós em boa medida julgar se esse amor deve ou não dar lugar ao que chamamos de paixão amorosa? Sem dúvida, se nossa cabeça está cheia de romances, peças e canções sentimentalistas, e nosso corpo está cheio de álcool, vamos tender a transformar qualquer amor nesse tipo específico de amor, da mesma forma que, se houver uma valeta junto à estrada num dia de chuva, toda a água vai correr por ela, ou, se você estiver usando um par de óculos de lentes azuis, tudo ficará azulado. A culpa será sua. Antes de deixar a questão do divórcio, gostaria de esclarecer a distinção entre duas coisas que geralmente se confundem. Uma delas é a concepção cristã de casamento; a outra, completamente diferente, é se os cristãos, enquanto eleitores ou membros do Parlamento, devem impor sua visão do casamento sobre o restante da comunidade, incorporando essa visão às leis estatais que regem o divórcio. Um grande número de pessoas parece pensar que, se você é cristão, deve tentar tornar o divórcio difícil para todo o mundo. Eu não penso assim. Pelo menos creio que ficaria bastante zangado se os muçulmanos tentassem proibir que o restante da população tomasse vinho. Minha opinião é que as Igrejas devem reconhecer francamente que a maioria dos britânicos não são cristãos, e, portanto, não se deve esperar que levem uma vida crista. Deve haver dois tipos distintos de casamento: um governado pelo Estado, com regras aplicáveis a todos os cidadãos, e outro governado pela Igreja, com regras que ela mesma aplica a seus membros. A distinção entre os dois tipos deve ser bastante nítida, de tal forma que se saiba sem sombra de dúvida quais casais são casados pela Igreja e quais não.
Isso já é o bastante a respeito da doutrina cristã da indissolubilidade do casamento. Resta tratar de outra coisa, ainda menos popular. As esposas cristãs fazem o voto de obedecer a seus maridos. No casamento cristão, diz-se que os homens são a cabeça. Duas questões obviamente se levantam. (1) Por que a necessidade de uma cabeça — por que não a igualdade? (2) Por que a cabeça deve ser o homem?
(1) A necessidade de uma cabeça segue-se da ideia de que o casamento é permanente. E claro que, na medida em que o marido e a esposa estão de acordo, a necessidade de um líder desaparece; e gostaríamos que esse fosse o estado de coisas normal no casamento cristão. Mas, quando existe um desacordo real, o que se deve fazer? Conversar sobre o assunto, é claro; estou partindo da ideia de que tentaram fazer isso e mesmo assim não conseguiram chegar a um acordo. O que fazer então? O casal não pode decidir por votação, pois não existe maioria absoluta entre duas pessoas. Certamente, uma das duas coisas pode acontecer: podem separar-se e cada um ir para o seu lado, ou então uma das partes deve ter o poder de decisão. Se o casamento é permanente, uma das duas partes deve, em última instância, ter o poder de decidir a política familiar. Não se pode ter uma associação permanente sem uma constituição.
(2) Se há a necessidade de um líder, por que o homem? Em primeiro lugar, pergunto: existe uma vontade generalizada de que isso caiba à mulher? Como eu disse, não sou casado, mas, pelo que vejo, nem mesmo a mulher que quer ser a chefe de sua própria casa admira essa situação quando a observa na casa ao lado. Nessas circunstâncias, costuma exclamar: Pobre sr. X! Por que ele se deixa dominar por aquela mulherzinha horrível? Isso está acima da minha compreensão. Também não penso que ela fique lisonjeada quando alguém menciona o fato de ser ela a cabeça. Deve haver algo de antinatural na proeminência das esposas sobre os maridos, pois as próprias esposas ficam bastante envergonhadas disso e desprezam o marido que se submete. Porém, há mais uma razão, e sobre ela falo francamente a partir da minha condição de solteiro, pois pode ser vista melhor por quem está de fora que por quem está dentro. As relações da família com o mundo exterior - o que poderíamos chamar de política externa — devem depender, em última análise, do homem, porque ele deve ser, e normalmente é, mais justo em relação às pessoas de fora. A mulher luta prioritariamente pelos filhos e pelo marido contra o resto do mundo. Naturalmente e, em certo sentido, quase com razão, as necessidades deles são priorizadas em detrimento de todas as outras necessidades.
A mulher é a curadora especial dos interesses da família. A função do marido é garantir que essa predisposição natural da mulher não chegue a predominar. Ele tem a última palavra para proteger as outras pessoas do intenso patriotismo familiar da esposa. Se alguém duvida de mim, deixe-me fazer uma pergunta simples. Se seu cachorro mordeu a criança da casa ao lado, ou se seu filho machucou o cachorro do vizinho, com quem você prefere tratar com o chefe da família ou com a dona da casa? E, se você é uma mulher casada, deixe-me fazer outra pergunta. Apesar de admirar seu marido, você não diria que a falha principal dele está em não fazer valer os direitos da família contra os dos vizinhos tão vigorosamente quanto você gostaria? Não seria ele apaziguador demais?
32 O PERDÃO:
Eu disse no capítulo anterior que a castidade era a menos popular das virtudes cristãs. Mas não estou tão certo disso. Acredito que haja uma virtude ainda menos popular, expressa na regra cristã Amarás a teu próximo como a ti mesmo. Porque, na moral cristã, amar o próximo inclui amar o inimigo, o que nos impinge o odioso dever de perdoar nossos inimigos.
Todos dizem que o perdão é um ideal belíssimo até terem algo a perdoar, como nós tivemos durante a guerra. Nesse momento, a simples menção do assunto é recebida com bramidos de ódio. Não é que as pessoas julguem essa virtude muito elevada e difícil de praticar: julgam-na, isto sim, odiosa e desprezível. Essa conversa nos dá nojo, dizem. E metade de vocês já deve estar querendo me perguntar: E, se você fosse judeu ou polonês, perdoaria a Gestapo?
Normalmente, a afeição natural deve ser encorajada. No entanto, seria um erro pensar que o caminho para se obter a caridade consiste em sentar-se e tentar fabricar bons sentimentos. Certas pessoas são frias por temperamento; isso pode ser um azar para elas, mas é tão pecaminoso quanto ter problemas de digestão — ou seja, não é pecado. Isso não lhes tira a oportunidade nem as exime do dever de aprender a caridade. A regra comum a todos nós é perfeitamente simples. Não perca tempo perguntando-se se você ama o próximo ou não; aja como se amasse. Assim que colocamos isso em prática, descobrimos um dos maiores segredos. Quando você se comporta como se tivesse amor por alguém, logo começa a gostar dessa pessoa. Quando faz mal a alguém de quem não gosta, passa a desgostar ainda mais dessa pessoa. Já se, por outro lado, lhe fizer um bem, verá que a aversão diminui. Existe, porém, uma exceção a essa regra. Se você lhe fizer um bem, não para agradar a Deus e obedecer à lei da caridade, mas para lhe mostrar como você é uma pessoa capaz de perdoar, para lhe deixar em dívida e para sentar-se à espera de manifestações de gratidão, provavelmente vai decepcionar-se. (As pessoas não são bobas: elas têm um olho clínico para todas as formas de exibicionismo ou condescendência paternalista.) Sempre, porém, que fizermos o bem ao próximo por ser ele um eu igual a nós, criado por Deus, que deseja sua própria felicidade como nós desejamos a nossa, teremos aprendido a amá-lo um pouco mais ou, no mínimo, a desgostar dele um pouco menos.
Consequentemente, apesar de a caridade cristã parecer fria para as pessoas cujas cabeças estão cheias de sentimentalismo, e apesar de ser bem diferente da afeição, ela nos conduz a este sentimento. A diferença entre um cristão e um ímpio não é que este tem afeições e gostos pessoais ao passo que o cristão só tem a caridade. O ímpio trata bem certas pessoas porque gosta delas; o cristão, tentando tratar a todos com bondade, tende a gostar de um número cada vez maior de pessoas no decorrer do tempo — inclusive de pessoas de quem ele não poderia imaginar que um dia fosse gostar.
A mesma lei espiritual funciona de maneira terrível no sentido oposto. Pode ser que os alemães, de início, maltratassem os judeus porque os odiassem; depois, passaram a odiá-los ainda mais por tê-los maltratado. Quanto mais cruel você é, mais ódio você terá; quanto mais ódio tiver, mais cruel será - e assim para sempre, num círculo vicioso perpétuo.
O Bem e o Mal aumentam ambos à velocidade dos juros compostos. E por isso que as pequenas decisões que eu ou você tomamos todos os dias têm tanta importância. O menor gesto de bondade feito hoje garante a conquista de um ponto estratégico a partir do qual, em alguns meses, você poderá alcançar vitórias nunca sonhadas. Já uma concessão aparentemente trivial à luxúria ou à ira significa a perda de uma colina, de uma linha férrea ou de uma cabeça de ponte a partir das quais o inimigo poderá lançar um ataque que, de outro modo, seria inviável. Alguns escritores usam a palavra caridade para designar não somente o amor cristão entre seres humanos, mas também o amor de Deus pelo homem e o amor do homem por Deus. As pessoas costumam preocupar-se mais com este último. Ouviram dizer que devem amar a Deus, mas elas não encontram esse amor dentro de si. O que devem fazer? A resposta é a mesma de antes. Aja como se você amasse. Não fique sentado tentando fabricar esse sentimento. Pergunte a si mesmo: Se estivesse certo de que amasse a Deus, o que eu faria? Quando encontrar a resposta, vá e faça.
No geral, o amor de Deus por nós é um tema muito mais seguro que o nosso amor por ele. Ninguém consegue ter sempre o sentimento de devoção: e, mesmo que conseguisse, não são os sentimentos que mais importam a Deus. O amor cristão, seja para com Deus, seja para com os homens, é um assunto da vontade. Se nos esforçamos para obedecer à sua vontade, estamos cumprindo o mandamento Amarás o Senhor teu Deus. Ele nos dará o sentimento do amor se assim desejar. Não podemos criá-lo por nós mesmos nem podemos exigi-lo como se fosse um direito nosso. Porém, a grande coisa a se lembrar é que, apesar de nossos sentimentos irem e virem, o amor dele por nós não se altera. Não se desgasta por causa dos nossos pecados nem por nossa indiferença. Logo, é inflexível em sua determinação de que seremos curados desses pecados custe o que custar, seja para nós, seja para ele.
33 A ESPERANÇA:
A esperança é uma das virtudes teológicas. Isso quer dizer que (ao contrário do que o homem moderno pensa) o anseio contínuo pelo mundo eterno não é uma forma de escapismo ou de auto-ilusão, mas uma das coisas que se espera do cristão. Não significa que se deve deixar o mundo presente tal como está. Se você estudar a história, verá que os cristãos que mais trabalharam por este mundo eram exatamente os que mais pensavam no outro mundo. Os apóstolos, que desencadearam a conversão do Império Romano, os grandes homens que erigiram a Idade Média, os protestantes ingleses que aboliram o tráfico de escravos - todos deixaram sua marca sobre a Terra precisamente porque suas mentes estavam ocupadas com o Paraíso. Foi quando os cristãos deixaram de pensar no outro mundo que se tornaram tão incompetentes neste aqui. Se você aspirar ao Céu, ganhará a Terra de lambuja; se aspirar à Terra, perderá ambos. Essa regra parece esquisita, mas pode-se observar algo semelhante em outros assuntos. A saúde é uma grande bênção, mas, no momento em que fazemos dela um dos nossos principais objetivos, nos tornamos hipocondríacos e passamos a imaginar que há algo de errado conosco. Só nos mantemos saudáveis na medida em que queremos outras coisas além da saúde: comida, jogos, trabalho, lazer, a vida ao ar livre. Do mesmo modo, nunca conseguiremos salvar a civilização enquanto for esse o nosso principal objetivo. Temos de aprender a querer outra coisa ainda mais do que queremos isso.
A maioria de nós acha muito difícil desejar o Paraíso - a não ser que por esse nome queiramos dizer o encontro com os amigos que já morreram. Uma das razões dessa dificuldade é que não tivemos uma boa formação: toda a educação atual tende a fixar nossa atenção neste mundo. Outra razão é que, quando o verdadeiro anseio pelo Paraíso está presente em nós, não o reconhecemos. A maior parte das pessoas, se tivesse aprendido a examinar profundamente seus corações, saberia que querem, e querem com veemência, algo que não pode ser alcançado neste mundo. Existem aqui coisas prazerosas de todo tipo que nos prometem isso que queremos, mas que nunca cumprem o prometido. Aquele anseio que nasce em nós quando nos apaixonamos pela primeira vez, quando pela primeira vez pensamos numa terra estrangeira, quando começamos a estudar um assunto que nos entusiasma, é um anseio que nenhum casamento, viagem ou estudo pode realmente satisfazer. Não estou falando aqui do que costumam chamar de casamentos infelizes, férias frustradas e carreiras fracassadas, mas sim das melhores possibilidades em cada um desses campos. Havia algo que vislumbramos no primeiro instante de encantamento e que simplesmente desaparece quando o anseio se torna realidade. Acho que todos sabem do que estou falando. A esposa pode ser uma boa esposa, os hotéis e a paisagem podem ter sido excelentes, e talvez a Química seja uma bela profissão: algo, porém, nos escapou. Ora, existem duas maneiras erradas, e uma certa, de lidar com esse fato.
(1) A Via do Tolo — Ele põe a culpa nas próprias coisas. Passa a vida toda a conjecturar que, se arranjasse outra mulher, fizesse uma viagem mais cara, ou seja lá o que for, conseguiria dessa vez capturar essa coisa misteriosa que todos nós procuramos. A maior parte dos ricos entediados e descontentes do nosso mundo são desse tipo. Eles passam a vida toda pulando de uma mulher para outra (com a ajuda dos tribunais), de continente para continente, de passatempo para passatempo, sempre na esperança de que o último será, enfim, a coisa certa, e sempre decepcionados.
(2) A Via do Homem Sensato Desiludido - Logo ele conclui que tudo não passava de conversa fiada. E bem verdade, diz ele, que, quando é jovem, a pessoa se sente assim. Quando chega à minha idade, porém, você desiste de buscar o fim do arco-íris. Então, ele se acomoda, aprende a não esperar muito da vida e reprime a parte de si mesmo que, nas suas palavras, costumava uivar para a lua. Essa é, sem dúvida, uma via bem melhor que a primeira; torna o homem mais feliz e não faz dele um problema para a sociedade. Tende a torná-lo um chato (sempre pronto a se achar superior diante dos que julga adolescentes), mas, de maneira geral, faz com que ele leve uma vida sem grandes sobressaltos. Seria a melhor opção se o homem não tivesse uma vida eterna. Mas suponha que a felicidade infinita realmente exista e esteja logo ali, à nossa espera. Suponha que realmente seja possível alcançar o fim do arco-íris — nesse caso, seria uma pena descobrir tarde demais (imediatamente após a morte) que, por causa do nosso suposto bom senso, sufocamos em nós mesmos a faculdade de gozar dessa felicidade.
(3) A Via Cristã - Dizem os cristãos: As criaturas não nascem com desejos que não podem ser satisfeitos. Um bebê sente fome: bem, existe o alimento. Um patinho gosta de nadar: existe a água. O homem sente o desejo sexual: existe o sexo. Se descubro em mim um desejo que nenhuma experiência deste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é que fui criado para um outro mundo. Se nenhum dos prazeres terrenos satisfaz esse desejo, isso não prova que o universo é uma tremenda enganação. Provavelmente, esses prazeres não existem para satisfazer esse desejo, mas só para despertá-lo e sugerir a verdadeira satisfação. Se assim for, tenho de tomar cuidado, por um lado, para nunca desprezar as bênçãos terrenas nem deixar de ser grato por elas; por outro, para nunca tomá-las pelo algo a mais do qual são apenas a cópia, o eco ou a miragem, Tenho de manter viva em mim a chama do desejo pela minha verdadeira terra natal, a qual só encontrarei depois da morte; e jamais permitir que ela seja arrasada ou caia no esquecimento. Tenho de fazer com que o principal objetivo de minha vida seja buscar essa terra e ajudar as outras pessoas a buscá-la também.
Não devemos nos preocupar com os irônicos que tentam ridicularizar a esperança cristã do Paraíso dizendo que não querem passar a eternidade tocando harpa. A resposta que devemos dar a essas pessoas é que, se elas não entendem os livros que são escritos para adultos, não devem palpitar sobre eles. Todas as imagens das Escrituras (as harpas, as coroas, o ouro etc.) são, obviamente, uma tentativa simbólica de expressar o inexprimível. Os instrumentos musicais são mencionados porque, para muita gente (não todos), a música é o objeto conhecido nesta vida que mais fortemente sugere o êxtase e a infinitude. A coroa é mencionada para nos dar a entender que todo aquele que estiver reunido com Deus na eternidade tem parte no seu esplendor, no seu poder e na sua alegria. O ouro é citado para nos dar a ideia da eternidade do Paraíso (o ouro não enferruja) e também da sua preciosidade. As pessoas que entendem esses símbolos literalmente poderiam também pensar que, quando Cristo nos exortou a ser como as pombas, quis dizer que deveríamos botar ovos.
34 A FÉ:
Devo falar neste capítulo sobre o que os cristãos entendem por fé. Grosso modo, a palavra fé é usada no cristianismo em dois sentidos, ou em dois níveis, e tratarei primeiro de um deles e depois do outro. No primeiro sentido, significa simplesmente a crença - aceitar ou considerar verdadeiras as doutrinas do cristianismo. Isso é bastante simples. O que provoca confusão nas pessoas - pelo menos provocava confusão em mim - é que os cristãos consideram a fé, nesse sentido, uma virtude. Eu queria saber como ela poderia ser uma virtude - o que existe de moral ou imoral em acreditar ou não acreditar num conjunto de princípios? Eu costumava dizer: é óbvio que todo homem são aceita ou rejeita uma determinada afirmação não por querer, mas por haver provas que a confirmem ou refutem. Se ele se enganar sobre as provas, isso não fará dele um homem mau, apenas um homem não muito inteligente. Se ele achar que as provas indicam que a afirmação é falsa, e mesmo assim tentar acreditar nela, isso será mera estupidez.
Bem, ainda sou dessa opinião. O que eu não via então — e muita gente ainda não vê — é o seguinte: eu supunha que, a partir do momento em que a mente humana aceita algo como verdadeiro, vai automaticamente continuar considerandoo verdadeiro até encontrar um bom motivo para reconsiderar essa opinião. Na verdade, eu partia do pressuposto de que a mente é completamente regida pela razão, o que não é verdade. Vou dar um exemplo. Minha razão tem motivos de sobra para acreditar que a anestesia geral não me asfixiará e que os cirurgiões só começarão a operar quando eu estiver completamente sedado. Isso, porém, não altera o fato de que, quando eles me prendem na mesa da operação e me cobrem a face com sua tenebrosa máscara, um pânico infantil toma conta de mim. Começo a pensar que vou me asfixiar e que os médicos vão começar a cortar meu corpo antes que eu perca a consciência. Em outras palavras, perco a fé na anestesia. Não é a razão que me faz perder a fé: pelo contrário, minha fé é baseada na razão. São, isto sim, a imaginação e as emoções. A batalha se dá entre a fé e a razão, de um lado, e as emoções e a imaginação, de outro.
Quando você para para pensar, começa a lembrar de vários exemplos como esse. Um homem tem provas concretas de que aquela moça bonita é uma mentirosa, não sabe guardar segredos e, portanto, é alguém em quem não se deve confiar. Entretanto, no momento em que se vê a sós com ela, sua mente perde a fé no conhecimento que possuí e ele pensa: Quem sabe desta vez ela seja diferente, e mais uma vez faz papel de bobo com ela, contando-lhe segredos que deveria guardar para si. Seus sentidos e emoções destruíram-lhe a fé em algo que ele sabia ser verdadeiro. Ou tomemos o exemplo do garoto que aprende a nadar. Ele sabe perfeitamente bem que o corpo não vai necessariamente afundar na água: já viu dezenas de pessoas boiando e nadando. Mas a questão principal é se ele continuará crendo nisso quando o instrutor tirar a mão, deixando-o sozinho na água - ou se vai repentinamente deixar de acreditar, entrar em pânico e afundar.
A mesma coisa acontece no cristianismo. Não quero que ninguém o aceite se, na balança da sua razão, as provas pesarem contra ele. Não é aí que entra a fé. Vamos supor, entretanto, que a razão de um homem decida a favor do cristianismo. Posso prever o que vai acontecer com esse sujeito nas semanas seguintes. Chegará um momento em que receberá más notícias, terá problemas ou será obrigado a conviver com pessoas descrentes; nesse momento, de repente, suas emoções se insurgirão e começarão a bombardear sua crença. Haverá, além disso, momentos em que desejará uma mulher, sentir-se-á propenso a contar uma mentira, ficará vaidoso de si mesmo ou buscará uma oportunidade para ganhar um dinheirinho de maneira não totalmente lícita; nesses momentos, seria muito conveniente que o cristianismo não fosse a verdade. Mais uma vez, suas emoções e desejos serão artilharia pesada contra ele. Não estou falando de momentos em que ele venha a descobrir novas razões contrárias ao cristianismo. Essas razões têm de ser enfrentadas, e isso, de qualquer modo, é um assunto completamente diferente. Estou falando é dos meros sentimentos que se insurgem contra ele.
A fé, no sentido em que estou usando a palavra, é a arte de se aferrar, apesar das mudanças de humor, àquilo que a razão já aceitou. Pois o humor sempre há de mudar, qualquer que seja o ponto de vista da razão. Agora que sou cristão, há dias em que tudo na religião parece muito improvável. Quando eu era ateu, porém, passava por fases em que o cristianismo parecia probabilíssimo. A rebelião dos humores contra o nosso eu verdadeiro virá de um jeito ou de outro. E por isso que a fé é uma virtude tão necessária: se não colocar os humores em seu devido lugar, você não poderá jamais ser um cristão firme ou mesmo um ateu firme; será apenas uma criatura hesitante, cujas crenças dependem, na verdade, da qualidade do clima ou da sua digestão naquele dia. Consequentemente, temos de formar o hábito da fé.
O primeiro passo para que isso aconteça é reconhecer que os sentimentos mudam. O passo seguinte, se você já aceitou o cristianismo, é garantir que algumas de suas principais doutrinas sejam mantidas deliberadamente diante dos olhos de sua mente por alguns momentos do dia, todos os dias. É por esse motivo que as orações diárias, as leituras religiosas e a frequência aos cultos são partes necessárias da vida cristã. Temos de nos recordar continuamente das coisas em que acreditamos. Nem essa crença nem nenhuma outra podem permanecer vivas automaticamente em nossa mente. Têm de ser alimentadas. Aliás, se examinarmos um grupo de cem pessoas que perderam a fé no cristianismo, me pergunto quantas delas o terão abandonado depois de convencidas por uma argumentação honesta. Não é verdade que a maior parte das pessoas simplesmente se afasta, como que levadas pela correnteza?
Volto-me agora para a fé no seu segundo sentido, o mais elevado: será o assunto mais difícil de que terei tratado até aqui. Para abordá-lo, retorno ao tópico da humildade. Você há de se lembrar que eu disse que o primeiro passo em direção à humildade era dar-se conta do próprio orgulho. Acrescento agora que o segundo passo consiste em empenhar um esforço dedicado para praticar as virtudes cristãs. Uma semana não basta. As coisas vão de vento em popa na primeira semana. Experimente seis semanas. Até lá, depois de sucumbir e voltar à estaca zero, ou ter decaído para um ponto ainda inferior, teremos descoberto algumas verdades a respeito de nós mesmos. Nenhum homem sabe realmente o quanto é mau até se esforçar muito para ser bom. Circula por aí a ideia tola de que as pessoas virtuosas não conhecem as tentações. Trata-se de uma mentira deslavada. Só os que tentam resistir às tentações sabem quão fortes elas são. Afinal de contas, para conhecer a força do exército alemão, temos de enfrentá-lo, e não entregar as armas. Para conhecer a intensidade do vento, temos de andar contra ele, e não deitar no chão. Um homem que cede à tentação em cinco minutos não tem a menor ideia de como ela seria uma hora depois. Por esse motivo, as pessoas más, em certo sentido, sabem muito pouco a respeito da maldade. Na medida em que sempre se rendem, levam uma vida protegida. É impossível conhecer a força do mal que se esconde em nós até o momento em que decidimos enfrentá-lo; e Cristo, por ter sido o único homem que nunca caiu em tentação, é também o único que conhece a tentação em sua plenitude - o mais realista de todos os homens. Pois bem. A principal coisa que aprendemos quando tentamos praticar as virtudes cristãs é que fracassamos. Se tínhamos a ideia de que Deus nos impunha uma espécie de prova na qual poderíamos merecer passar por tirar boas notas, essa ideia tem de ser eliminada. Se tínhamos a ideia de uma espécie de barganha — a ideia de que poderíamos cumprir a parte que nos cabe no contrato e deixar Deus em dívida conosco, de tal modo que, por uma questão de justiça, ele ficasse obrigado a cumprir a parte dele —, ela deve ser eliminada também.
Creio que quantos possuem uma vaga crença em Deus acreditam, até se tornarem cristãos, nessa ideia da prova ou da barganha. O primeiro resultado do verdadeiro cristianismo é o de reduzir essa ideia a pó. Quando a veem reduzida a pó, certas pessoas chegam à conclusão de que o cristianismo é um embuste e dele desistem. Essa gente parece imaginar que Deus é extremamente simplório. Na verdade, ele sabe de tudo isso. Uma das intenções do cristianismo é justamente reduzir essa ideia a pó. Deus está à espera do momento em que você vai descobrir que jamais conseguirá tirar a nota mínima para passar nesse exame, e não poderá jamais deixá-lo em dívida.
Com isso vem outra descoberta. Todas as faculdades que você possui, sua faculdade de pensar ou de mover os membros a cada momento, lhe são dadas por Deus. Mesmo se dedicasse cada momento de sua vida exclusivamente ao seu serviço, você não poderia dar-lhe nada que, em certo sentido, já não lhe pertencesse. Logo, quando uma pessoa diz que faz algo para Deus ou lhe dá algo, é como se fosse uma criança pequena que interpelasse o pai e lhe pedisse: Papai, me dê cinquenta centavos para lhe comprar um presente de aniversário. E claro que o pai dá o dinheiro e fica contente com o gesto do filho. Tudo é muito bonito e muito correto, mas só um imbecil acharia que o pai lucrou cinquenta centavos com a transação. Quando o homem descobre essas duas coisas, Deus pode realmente começar a agir. E depois disso que a verdadeira vida começa. O homem agora está desperto. Podemos passar a discorrer sobre o segundo sentido da palavra fé.
Vou começar por dizer algo em que gostaria que todos prestassem a máxima atenção. E o seguinte. Se este. capítulo não significar nada para você, se ele der a impressão de procurar responder a perguntas que você nunca fez, largue-o imediatamente. Não se amofine por causa dele. Existem coisas no cristianismo que podem ser compreendidas mesmo por quem está de fora, por quem ainda não é cristão; existe, por outro lado, um grande número de coisas que só podem ser compreendidas por quem já percorreu um certo trecho da estrada cristã. São coisas puramente práticas, embora não o pareçam. São instruções de como lidar com certas encruzilhadas e obstáculos da jornada, instruções que não têm sentido até que a pessoa esteja diante deles. Sempre que você deparar com uma frase de um escrito cristão que você não seja capaz de compreender, não se aborreça. Deixe-a de lado. Virá um dia, talvez anos mais tarde, em que você subitamente entenderá o que ela queria dizer. Se não consegue entendê-la agora, é porque ela só lhe faria mal.
E claro que isso diz respeito não só aos outros, mas a mim também. O que tentarei explicar neste capítulo talvez esteja muito acima da minha compreensão. E possível que eu pense que já tenha chegado lá, mas na realidade não tenha. Só posso pedir aos cristãos instruídos que ouçam com muita atenção o que digo e me avisem se estiver errado; quanto aos outros, que aceitem com cautela o que for dito - como algo que ofereço por pensar que pode ajudar, não por ter a certeza de estar com a razão.
Estou tentando falar sobre a fé nesse segundo sentido, o mais elevado. Disse há pouco que essa questão surge no homem depois que ele tentou ao máximo praticar as virtudes cristãs, constatou-se incapaz e chegou à conclusão de que, mesmo que tivesse conseguido, não estaria oferecendo a Deus nada que já não lhe pertencesse. Em outras palavras, ele descobre que está falido. E bom repetir: o que importa para Deus não são nossas ações enquanto tais. O que lhe importa é que sejamos criaturas de determinado tipo ou qualidade — o tipo de criaturas que ele tencionava que fôssemos quando nos criou -, vinculadas a ele de uma determinada maneira. Não acrescento e vinculados uns aos outros, porque isso é uma consequência natural. Se você tem a atitude correta diante de Deus, inevitavelmente terá a atitude correta diante do próximo, da mesma forma que, quando os raios de uma roda estão bem encaixados no cubo e no aro, inevitavelmente guardam as distâncias corretas entre si. E, enquanto o homem concebe Deus como uma espécie de examinador que nos passa uma prova, ou como a outra parte numa espécie de barganha em que cada parte tem seus direitos e obrigações, não está ainda com a atitude correta diante de Deus. Não sabe nem o que ele é nem o que é Deus, e só poderá ter a atitude correta quando descobrir que está falido.
Quando digo descobrir, quero dizer exatamente isso: não é o mesmo que repetir palavras como um papagaio. Qualquer criança que tenha recebido a educação cristã mais elementar aprende rapidamente que o homem não tem nada a oferecer a Deus que já não seja dele, e que nem isso conseguimos oferecer sem surrupiar uma parte para nós. Mas estou falando de uma descoberta real, advinda da experiência pessoal.
Nesse sentido, só podemos descobrir que somos incapazes de cumprir a Lei de Deus depois de tentar cumpri-la com todas as nossas forças (e fracassar em seguida). Se não tentarmos, continuaremos pensando em nosso íntimo que, se nos esforçarmos mais na próxima vez, conseguiremos ser completamente bons. Assim, em certo sentido, a estrada que nos leva de volta a Deus é a do esforço moral, a via da auto superação. Mas, em outro sentido, não é o esforço que nos levará para casa. Toda a força que fazemos nos conduz ao momento crucial em que nos voltamos para Deus e lhe dizemos: O Senhor tem de fazer isso. Não consigo. Imploro que vocês não comecem a se perguntar: Será que já cheguei a esse momento? Não fique sentado esperando, observando a própria mente para ver se o momento está chegando. Isso o levará a tomar o bonde errado. Quando acontecem as coisas mais importantes da vida, nem sempre nos damos conta do que está ocorrendo. A pessoa não para de repente e diz para si mesma: Opa, estou crescendo! Em geral, é só quando olha para trás que percebe o que aconteceu e reconhece que é isso que as pessoas chamam de crescer. Isso pode ser notado até nos assuntos mais prosaicos. O homem que começa a querer saber se vai conseguir dormir ou não, com toda probabilidade vai passar a noite em claro. Além disso, o fenômeno de que estou falando pode não ocorrer de repente, como ocorreu com o apóstolo Paulo ou Bunyan. Pode se dar de forma tão gradual que ninguém consiga apontar uma hora específica, ou mesmo o ano em que aconteceu. O que interessa é a natureza da mudança em si, e não como nos sentimos quando ela ocorre. É a mudança do sentimento de confiança em nossos próprios esforços para um estado em que nos desesperamos completamente e deixamos tudo nas mãos de Deus.
Sei que as palavras deixar tudo nas mãos de Deus podem ser entendidas de forma errada, mas vamos deixá-las assim por enquanto. O sentido em que um cristão deixa tudo nas mãos de Deus é que ele deposita toda a sua confiança em Cristo: confia em que, de alguma forma, Cristo vai dividir sua obediência humana perfeita com ele, obediência que Cristo carregou consigo do nascimento à crucificação. Cristo fará do homem uma imagem de si, compensando, de certa forma, suas deficiências. Na linguagem cristã, ele repartirá a sua filiação, fará de nós filhos de Deus, como ele mesmo; no Livro IV, farei um esforço para analisar o significado dessas palavras com mais profundidade. Se lhe agrada colocar as coisas sob essa perspectiva, Cristo nos oferece algo por nada; na verdade, oferece tudo por nada. Num sentido, toda a vida cristã se baseia em aceitar essa oferta extraordinária. A dificuldade está em chegar ao ponto de reconhecer que tudo o que fazemos e podemos fazer se resume a nada. Gostaríamos que a coisa fosse diferente, que Deus contasse nossos pontos bons e ignorasse os ruins. Ou senão, num certo sentido, podemos dizer que nenhuma tentação pode ser superada se não desistirmos de superá-la - se não jogarmos a toalha. Por outro lado, ninguém poderia parar de tentar da forma correta e pelas razões corretas se antes não tentasse com todas as suas forças. E, num outro sentido ainda, é claro que deixar tudo nas mãos de Cristo não significa que devemos parar de nos esforçar. Confiar nele significa tentar fazer tudo o que ele disse. Não há sentido em dizer que confiamos em tal pessoa se não aceitamos seus conselhos. Logo, se você realmente se entregou nas mãos dele, conclui-se daí que está tentando obedece-lhe. No entanto, está tentando de uma forma nova, menos preocupada. Não está fazendo essas coisas para ser salvo, mas porque ele já começou a salvá-lo. Não está esperando ganhar o Paraíso como recompensa das suas ações, mas quer inevitavelmente agir de uma determinada forma porque já tem dentro de si os primeiros e tênues vislumbres do Paraíso.
Os cristãos sempre tiveram o costume de polemizar sobre o que conduz o cristão à sua morada: se as boas ações ou se a fé em Cristo. Na verdade, não tenho o direito de falar sobre um assunto tão difícil, mas me parece que é como perguntar qual das lâminas de uma tesoura é a mais importante. O esforço moral sério é a única coisa que pode nos conduzir ao ponto de jogar a toalha. A fé em Cristo é a única coisa que pode nos salvar do desespero nesse ponto: e, dessa fé, é inevitável que surjam boas ações. No passado, alguns grupos cristãos acusaram outros grupos cristãos de parodiar a verdade de duas formas. O exagero das situações talvez ajude a tornar a verdade mais clara. Um dos grupos era acusado de dizer: As boas ações são tudo o que interessa. A melhor das boas ações é a caridade. O melhor tipo de caridade é dar dinheiro. A melhor forma de dar dinheiro é fazer uma doação para a Igreja. Logo, faça uma doação de 10.000 libras e garantiremos sua entrada na vida eterna. A resposta a esse absurdo é que as ações feitas com essa intenção, com a ideia de que o Paraíso pode ser comprado, não são boas ações de forma alguma, mas somente especulações comerciais. Outro grupo era acusado de dizer: A fé é tudo o que importa. Logo, se você tem fé, não importam as suas ações. Peque à vontade, meu filho, divirta-se a valer, que para Jesus Cristo não vai fazer a mínima diferença no final. A resposta a esse absurdo é que, se o que você chama de fé em Cristo não implica dar atenção ao que ele disse, ela não é fé de maneira alguma — nem Fé nem confiança, mas apenas a aceitação mental de alguma teoria a seu respeito.
A Bíblia encerra a discussão quando junta as duas coisas numa única sentença admirável. A primeira metade diz: Ponham em ação a salvação de vocês com temor e tremor - o que dá a ideia de que tudo depende de nós e de nossas boas ações; mas a segunda metade complementa: Pois é Deus que efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar - o que dá a ideia de que Deus faz tudo e nós, nada. Esse é o tipo de coisa com a qual nos defrontamos no cristianismo. Fico perplexo, mas não surpreso. Veja você, estamos tentando compreender e separar em compartimentos estanques o que Deus faz e o que o homem faz quando se põem a trabalhar juntos. É claro que a nossa concepção inicial desse trabalho é a de dois homens que atuam em conjunto, de quem poderíamos dizer: Ele fez isto e eu, aquilo. Porém, essa maneira de pensar não se sustenta. Deus não é assim. Não está só fora de você, mas também dentro: mesmo que pudéssemos compreender quem fez o quê, não creio que a linguagem humana pudesse expressá-lo de forma apropriada. Na tentativa de expressar essa verdade, as diferentes igrejas dizem coisas diversas. Você há de constatar, porém, que mesmo as que mais insistem na importância das boas ações lhe dirão que você precisa ter fé; e as que mais insistem na fé lhe dirão para praticar boas ações. Neste assunto, não me arrisco a ir mais longe. • Creio que todos os cristãos concordariam comigo se eu dissesse que, apesar de o cristianismo, num primeiro momento, dar a impressão de só se preocupar com a moral, com deveres, regras, culpa e virtude, ele nos leva além, para fora de tudo isso e para algo completamente diferente. Vislumbramos então um país cujos habitantes não falam dessas coisas, a não ser, talvez, como piada. Todos eles são repletos do que chamaríamos de bondade, como um espelho é repleto de luz. Eles mesmos, porém, não chamam isso de bondade. Não o chamam por nome algum. Não pensam a respeito desse assunto, pois estão ocupados demais em contemplar a fonte de onde isso provém. Mas nos aproximamos aí do ponto em que a estrada cruza o limiar deste nosso mundo. Nenhum olhar pode enxergar muito além disso; muitos olhares podem enxergar bem mais longe que o meu.
35 CRIAR E GERAR:
Todos me aconselharam a não lhes dizer o que vou dizer neste último livro. Afirmam: O leitor comum não quer saber de Teologia; dê-lhe somente a religião simples e prática. Rejeitei o conselho. Não acho que o leitor comum seja um tolo. Teologia significa a Ciência de Deus, e creio que todo homem que pensa sobre Deus gostaria de ter sobre ele a noção mais clara e mais precisa possível. Vocês não são crianças: por que, então, lhes tratar como tal?
Em certo sentido, até compreendo por que algumas pessoas se sentem desconcertadas ou até incomodadas pela Teologia. Lembro-me de certa ocasião em que dava uma palestra para os pilotos da R.A.F. e um oficial velho e rijo levantou-se e disse: Nada disso tem serventia para mim. Mas saiba que também sou um homem religioso. Sei que existe um Deus. Sozinho no deserto, à noite, já senti a presença dele: o tremendo mistério. E é exatamente por isso que não acredito em todas essas fórmulas e esses dogmas a respeito dele. Para qualquer um que tenha conhecido a realidade, todos eles parecem mesquinhos, pedantes e irreais.
Ora, num sentido, até concordo com esse homem. Creio que ele provavelmente teve uma experiência real de Deus no deserto. Quando se voltou da experiência para o credo cristão, acho que realmente passou de algo real para algo menos real. Da mesma maneira, um homem que já viu o Atlântico da praia e depois olha um mapa do Atlântico também está trocando a coisa real pela menos real: troca as ondas de verdade por um pedaço de papel colorido. Mas é exatamente essa a questão. Admito que o mapa não passa de uma folha de papel colorido, mas há duas coisas que devemos lembrar a seu respeito. Em primeiro lugar, ele se baseia nas experiências de centenas ou milhares de pessoas que navegaram pelas águas do verdadeiro oceano Atlântico. Dessa forma, tem por trás de si uma massa de informações tão reais quanto a que se pode ter da beira da praia; com a diferença que, enquanto a sua é um único relance, o mapa abarca e colige todas as experiências de diversas pessoas. Em segundo lugar, se você quer ir para algum lugar, o mapa é absolutamente necessário. Enquanto você se contentar com caminhadas à beira da praia, seus vislumbres serão mais divertidos que o exame do mapa; mas o mapa será de mais valia que uma caminhada pela praia se você quiser ir para os Estados Unidos.
A Teologia é como o mapa. O simples ato de aprender e pensar sobre as doutrinas cristãs, considerado em si mesmo, é sem dúvida menos real e menos instigante do que o tipo de experiência que meu amigo teve no deserto. As doutrinas não são Deus, são como um mapa. Esse mapa, porém, é baseado nas experiências de centenas de pessoas que realmente tiveram contato com Deus — experiências diante das quais os pequenos frêmitos e sentimentos piedosos que você e eu podemos ter não passam de coisas elementares e bastante confusas. Além disso, se você quiser progredir, precisará desse mapa. Note que o que aconteceu com aquele homem no deserto pode ter sido real e certamente foi emocionante, mas não deu em nada. Não levou a lugar nenhum. Não há nada que possamos fazer. Na verdade, é justamente por isso que uma religiosidade vaga — sentir Deus na natureza e assim por diante — é tão atraente. Ela é toda baseada em sensações e não dá trabalho algum: é como mirar as ondas da praia. Você jamais alcançará o Novo Mundo simplesmente estudando o Atlântico dessa maneira, e jamais alcançará a vida eterna sentindo a presença de Deus nas flores ou na música. Também não chegará a lugar algum se ficar examinando os mapas sem fazer-se ao mar. E, se fizer-se ao mar sem um mapa, não estará seguro.
Em outras palavras, a Teologia é uma questão prática, especialmente hoje em dia. No passado, quando havia menos instrução formal e menos discussões, talvez fosse possível passar com algumas poucas ideias simples sobre Deus. Hoje não é mais assim. Todo mundo lê, todo mundo presta atenção a discussões. Consequentemente, se você não der atenção à Teologia, isso não significa que não terá ideia alguma sobre Deus. Significa que terá, isto sim, uma porção de ideias erradas — ideias más, confusas, obsoletas. A imensa maioria das ideias que são disseminadas como novidades hoje em dia são as que os verdadeiros teólogos testaram vários séculos atrás e rejeitaram. Acreditar na religião popular moderna da Inglaterra é a mesma coisa que acreditar que a Terra é plana — um retrocesso. Pois, na prática, a ideia popular de cristianismo é simplesmente esta: Jesus Cristo foi um grande mestre da moral e, se seguíssemos seus conselhos, conseguiríamos estabelecer uma ordem social melhor e evitar uma nova guerra. Saiba que isso tem seu fundo de verdade. Mas é muito menos que a verdade integral do cristianismo, e na realidade não tem importância prática alguma.
E verdade que, se seguíssemos os conselhos de Cristo, viveríamos em breve num mundo mais feliz. Nem precisaríamos ir tão longe: se déssemos ouvidos ao que disseram Platão, Aristóteles ou Confúcio, estaríamos muito melhor do que estamos. E daí? Nunca seguimos os conselhos dos grandes mestres. Por que começaríamos a segui-los agora? E por que estaríamos mais dispostos a ouvir a Cristo que aos outros? Porque ele é o melhor mestre da moral? Com isso, é ainda menos provável que o sigamos. Se não conseguimos aprender nem as lições elementares, como passaremos às mais adiantadas? Se o cristianismo não passa de mais um bocado de conselhos, ele não tem importância nenhuma. Não nos faltaram bons conselhos nos últimos quatro mil anos. Um pouquinho mais não faz diferença.
No entanto, logo que nos debruçamos sobre os verdadeiros escritos cristãos, vemos que eles falam de algo inteiramente diferente dessa religião popular. Dizem que Cristo é o Filho de Deus (o que quer que isso signifique). Dizem que os que nele depositam sua confiança podem também tornar-se filhos de Deus (o que quer que isso signifique). E dizem ainda que sua morte nos salvou de nossos pecados (o que quer que isso signifique). Não adianta reclamar que essas afirmações são difíceis. O cristianismo pretende falar-nos de um outro mundo, de algo que está por trás do mundo que podemos ver, ouvir e tocar. Você pode até pensar que essa pretensão é falsa, mas, se for verdadeira, o que o cristianismo nos diz será necessariamente difícil — pelo menos tão difícil quanto a Física moderna, e pela mesma razão.
O ponto mais chocante do cristianismo é a afirmação de que, quando nos ligamos a Cristo, podemos nos tornar filhos de Deus. Alguém pergunta: Mas já não somos filhos de Deus? A paternidade de Deus não é uma das ideias principais do cristianismo? Bem, em certo sentido não há dúvida de que já somos filhos de Deus. Ou seja, Deus nos trouxe à existência, nos ama e cuida de nós, como um pai. Mas, quando a Bíblia fala que podemos nos tornar filhos de Deus, obviamente quer dar a entender algo diferente. E isso nos leva para o próprio coração da Teologia.
Um dos credos diz que Cristo é o Filho de Deus gerado, não criado; e acrescenta: Gerado pelo Pai antes de todos os mundos. Por favor, ponha na sua cabeça que isto não tem nada que ver com o fato de que, quando Cristo nasceu na terra como homem, foi filho de uma virgem. Não estamos falando aqui do nascimento virginal, mas de algo que aconteceu antes que a natureza fosse criada, antes que o próprio tempo existisse. Antes de todos os mundos Cristo é gerado, não criado. O que isso significa?
Não usamos mais as palavras begetting e begotten22 no inglês moderno, mas todo o mundo ainda sabe o que elas significam. Gerar (to beget) é ser pai de alguém; criar (to create) é fazer, construir algo. A diferença é a seguinte: na geração, o que foi gerado é da mesma espécie que o gerador. Um homem gera bebês humanos, um castor gera castorzinhos e um pássaro gera ovos de onde sairão outros passarinhos. Mas, quando fazemos algo, esse algo é de uma espécie diferente. Um pássaro faz um ninho, um castor constrói uma represa, um homem faz um aparelho de rádio - ou talvez algo um pouco mais parecido consigo mesmo que um rádio: uma estátua, por exemplo. Se for um escultor habilidoso, sua estátua se parecerá muito com um homem. Mas é claro que não será um homem de verdade; terá somente a aparência. Não poderá pensar nem respirar. Não tem vida.
Esse é o primeiro ponto que devemos deixar claro. O que Deus gera é Deus, assim como o que o homem gera é homem. O que Deus cria não é Deus, assim como o que o homem faz não é homem. É por isso que os homens não são filhos de Deus no mesmo sentido em que Cristo o é. Podem se parecer com Deus em certos aspectos, mas não são coisas da mesma espécie. Os homens são mais semelhantes a estátuas ou quadros de Deus.
A estátua tem a forma de um homem, mas não tem vida. Da mesma maneira, o homem tem (num sentido que ainda vou explicar) a forma ou semelhança de Deus, mas não o tipo de vida que Deus possui. Vamos examinar o primeiro ponto (a semelhança com Deus) em primeiro lugar. Tudo o que Deus criou tem alguma semelhança com ele mesmo. O espaço se parece com ele em sua vastidão; não que a grandeza do espaço seja do mesmo tipo que a grandeza de Deus, mas é uma espécie de símbolo dela, ou uma tradução dela em termos não-espirituais. A matéria é semelhante a Deus por ter energia: embora a energia física seja diferente do poder de Deus. O mundo vegetal é semelhante a Deus por ter vida, pois ele é o Deus vivo. A vida em seu sentido biológico, porém, não é a mesma coisa que a vida em Deus: é como um símbolo ou uma sombra. Já nos animais encontramos outras formas de semelhança com Deus além da vida vegetativa. A intensa atividade e a fertilidade dos insetos, por exemplo, é uma primeira e vaga imagem da atividade incessante e da criatividade de Deus. Nos mamíferos superiores, temos um princípio de instinto afetivo. Não é a mesma coisa que o amor que existe em Deus; mas é semelhante a este - da mesma maneira que uma figura desenhada numa folha plana de papel pode ser semelhante a uma paisagem. Quando chegamos ao homem, o mais elevado dos animais, vemos, entre as coisas que nos são conhecidas, a semelhança mais perfeita com Deus. (Pode haver criaturas em outros mundos que se pareçam ainda mais com Deus, mas não as conhecemos.) O homem não apenas vive como também ama e raciocina: nele, a vida biológica atinge o nível mais elevado de que temos notícia. Mas o que o homem, em sua condição natural, não possui, é a vida espiritual — um tipo diferente e superior de vida que existe em Deus. Usamos a mesma palavra — vida - para designar a ambas; mas se você pensa que por isso as duas são a mesma coisa, é como se pensasse que a grandeza do espaço e a grandeza de Deus são o mesmo tipo de grandeza. Na realidade, a diferença entre a vida biológica e a vida espiritual é tão importante que vou tratá-las por nomes diferentes. A vida biológica, que vem da natureza e que (como tudo o mais no mundo natural) tende a se corromper e a decair -de modo que só pode se conservar através de contínuos subsídios dados pela natureza na forma de ar, água, alimentos etc. - é bíos. A vida espiritual, que é em Deus desde toda a eternidade e que criou o universo natural inteiro, é zoé. É certo que bíos tem uma certa semelhança parcial ou simbólica com zoé: mas é apenas a semelhança que existe entre uma fotografia e um lugar, ou entre uma estátua e um homem. O homem que tinha bíos e passa a ter zoé sofre uma mudança tão grande quanto a de uma estátua que deixasse de ser pedra entalhada e se transformasse num homem real. E é exatamente disso que trata o cristianismo. Este mundo é como o ateliê de um grande escultor. Nós somos as estátuas, e corre por aí o boato de que alguns de nós, um dia, ganharão a vida.
36 UM DEUS EM TRÊS PESSOAS:
O capítulo anterior tratou da diferença entre gerar e criar. Um homem gera uma criança, mas cria uma estátua. Deus gerou o Cristo, mas fez o homem. Contudo, quando digo isso, estou apenas ilustrando um aspecto de Deus, a saber, que o que Deus Pai gera é Deus, alguém da mesma espécie que ele. Nesse sentido, esse ato é semelhante ao de um pai humano que gera um filho humano. Mas não é exatamente igual. Por isso, tenho de tentar dar mais algumas explicações.
Do verbo to beget: gerar, originar. (N. doT.)
Hoje em dia, um bom número de pessoas diz: Acredito em Deus, mas não num Deus pessoal. Elas pressentem que o mistério por trás de todas as coisas deve ser maior que uma pessoa. Os cristãos concordam com isso. Porém, os cristãos são os únicos que oferecem uma ideia de como seria esse ser que está além da personalidade. Todas as outras pessoas, apesar de dizerem que Deus está além da personalidade, na verdade concebem-no como um ser impessoal: melhor dizendo, como algo aquém do pessoal. Se você está em busca de algo supra pessoal, algo que seja mais que uma pessoa, não se verá obrigado a escolher entre a ideia cristã e as outras ideias, pois a ideia cristã é a única existente no mercado.