Jornalismo Esportivo - Os Craques da Emoção - Parte 2

Inicialização em Jornalismo Esportivo

1 O comentarista e a liberdade de expressão

Sou do Rio Grande do Sul. Nasci em Palmeira das Missões, que fica perto de Juí, onde trabalhei em jornal e depois no serviço de alto-falante numa emissora de rádio. Dois anos mais tarde, eu estava em Porto Alegre na Rádio Farroupilha, começando uma jornada de 62 anos de carreira. Participei da fundação da Rádio Globo aqui no Rio de Janeiro, estive na TV Rio, na Rádio Nacional, na Tupi, entre outras, afinal, já completei 80 anos de idade.

Acompanhei praticamente toda a história do futebol brasileiro, esporte ao qual mais me dediquei e estudei. Tive o privilégio de escrever num jornal chamado Alerta, que durou cerca de dois anos, e foi registrado no DIP depois de uma carta que enderecei ao Getulio pedindo autorização para funcionar como órgão da juventude brasileira.

Meu interesse pelo esporte começou como o de todo menino, que ao ver os jogos de futebol, escolhe seus ídolos e time, passa a torcer por eles e a nutrir uma paixão cada vez maior. Em Porto Alegre, eu torcia para o Grêmio, mas no Rio adotei o Botafogo como time oficial.

Já não sou tão fanático por assistir aos jogos, mas continuo bastante crítico. Só que agora prefiro guardar as críticas mais contundentes para mim. Muitas vezes eu saio de casa pensando em fazer um comentário ferino, mas, quando chego lá na rádio, já não tenho vontade de falar de forma tão dura e sim de analisar equilibradamente o assunto.

Quando eu apenas narrava os jogos e ainda não conhecia a liberdade de expressão atribuída ao comentarista, gostava bastante do que fazia. Mas hoje, depois de tantos anos comentando na Rádio Globo, posso dizer que estou realizado profissionalmente, em especial quando desfruto da possibilidade de burilar as frases e exercitar minha capacidade intelectual.

O rádio desperta a imaginação. Quando o locutor narra que o goleiro fez uma defesa sensacional, podemos criar em nossa mente o lance que desejarmos. Mas, se estamos na frente da televisão, como colocar a imaginação para funcionar? Não dá, é aquilo e pronto. Esta é, sem dúvida, a fundamental diferença entre os dois meios de comunicação. Mas isso não é suficiente para elevar o rádio a uma categoria superior, cada um tem seu espaço. Quando, depois de 15 anos de rádio fui para a televisão, dizia a seguinte heresia: “rádio é diversão de cego”. Hoje entendo que não é bem assim, precisamos admitir a maior velocidade e capacidade de extensão do rádio.

Lembro-me que quando apareceram revistas como O Cruzeiro, Vida Doméstica, entre outras, todos diziam que os jornais (que quase não publicavam fotos) estavam com os dias contados. Depois chegou o rádio e, mais uma vez, ouvíamos que o jornal seria substituído; em seguida apareceu a televisão, a internet, e o jornal continua fazendo história.

O advento das faculdades de Comunicação modificou o jornalismo esportivo. Hoje, o profissional é apenas uma peça da máquina – rádio ou emissora de televisão. Antes, o profissional era a própria máquina. O ouvinte era fiel ao locutor de quem gostava, hoje a fidelidade é pela emissora, não importando o locutor

Criou-se um estilo que se apegou mais à televisão do que ao rádio, porque a televisão é coloquial, não é preciso mudar a entonação da voz para falar nela. Já no rádio, temos que usar o que é a força desse veículo, a projeção da voz. Vemos muita gente trabalhando sem voz adequada, gente que antes não passaria nem pela porta da estação, que sofre grande influência da TV e atua em emissora de rádio.

A ausência de recursos técnicos acarretava muitas dificuldades nas transmissões. Quando ousávamos acompanhar os jogos no exterior, estávamos sujeitos a muitos imprevistos, alguns bastante cômicos. Certa vez, em viagem para Santiago do Chile, ao olhar a Cordilheira dos Andes, ficamos imaginando como nossa voz ultrapassaria aquela gélida barreira para chegar ao Brasil. E, de fato, não ultrapassou. Depois de duas horas de narração, recebemos (como sempre acontecia depois do encerramento) um telegrama com a mensagem que mais temíamos: “transmissão inchegou” (inchegou para economizar palavras). Era uma verdadeira loteria, em que algumas ocasiões obtivemos êxito, com a mensagem “parabéns, transmissão excelente”.

A primeira transmissão aqui no Rio de Janeiro foi realizada por Amador Bueno, na Rádio Clube do Brasil, com um estilo bastante peculiar de narrar. Sendo pioneiro e, por conta disso, totalmente desprovido de um referencial, ele hoje diria assim: “Romário, Romário avança, continua Romário com a bola, Romário, Romário...”, enquanto o Romário não soltasse a bola ele ficava repetindo o nome, esse era o estilo de Amador Bueno

Cada um com suas características, o importante é que somos responsáveis pela formação histórica do ouvinte. A convicção de tal responsabilidade me levou a introduzir ilustres biografias em meus comentários. Ou seja, empenho-me em semear no ouvinte o interesse por conhecer cada vez mais sobre o esporte.

Cada um com suas características, o importante é que somos responsáveis pela formação histórica do ouvinte. A convicção de tal responsabilidade me levou a introduzir ilustres biografias em meus comentários. Ou seja, empenho-me em semear no ouvinte o interesse por conhecer cada vez mais sobre o esporte.

Quando, por exemplo, refiro-me a uma brilhante jogada de Arthur Friedenreinch em 1935, estou, de certa forma, estimulando o interesse do ouvinte por um dos melhores artilheiros que o mundo já viu. Em virtude de poder contar com minha excelente memória visual, outro recurso que utilizo para enriquecer os comentários é a comparação com grandes craques.

Tem um jogador chamado Carlos Alberto, que jogava no Fluminense e foi para o Futebol Clube do Porto em Portugal, a maneira como ele conduz a bola (não a qualidade do seu jogo) é muito parecida com a do Pelé, que inclinava o tronco para frente numa espécie de diagonal, dificultando a tomada de bola pelo adversário. Essas analogias não chegam a ser uma preocupação, mas, quando ocorrem, não as desperdiço.

2 O grande show radiofônico

Minha carreira começou muito cedo. Aos seis anos de idade transmiti a primeira partida de futebol. Um dos times em campo era o Fluminense, que escolhi por ser o mais colorido da loja em que minha mãe me levou para comprar meu time de botão. De transmissão em transmissão, cada vez eu ficava mais distante da medicina ou da diplomacia (carreiras que meus pais sonhavam para mim), e antes mesmo de sair do Colégio Pedro II, aos 15 anos, comecei a trabalhar como repórter de rua na Rádio Continental e depois como locutor comercial da Eldorado

Formei-me em Geografia pela Uerj e prestei concurso para professor do estado, mas a paixão pelo esporte ficou novamente em primeiro lugar. Comecei a procurar emprego como locutor e não encontrava quem me desse uma oportunidade. Até que, um dia, Valdir Amaral e Celso Garcia me contrataram como plantonista da Rádio Globo. Mas foi em 77, ao entrar para a Rádio Nacional, que dei o pulo-do-gato para o início da minha transformação de comunicador esportivo em apresentador de um grande show.

O Fluminense acabou virando meu clube de coração, mas quando estou trabalhando deixo de lado a condição de tricolor. Na verdade, estou sempre torcendo para que os grandes times tenham uma boa colocação. Isso se reflete diretamente no aumento da audiência, ou seja, Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo são meus times oficiais quando “estou em campo”.

Apesar de ter me especializado em futebol, já transmiti várias modalidades esportivas. Nas Olimpíadas de Atlanta, em 96, fui para fazer a cobertura do futebol, mas, depois da eliminação da Seleção brasileira, acabei narrando a final de basquete feminino. Que, sem dúvida, é mais emocionante de ser transmitido do que uma partida de futebol, principalmente quando o jogo está equilibrado e é um tal de cesta lá, cesta cá sem parar.

A transmissão de Fórmula 1 é outra experiência bastante interessante, esta bem mais tranqüila do que o futebol. Além disso, oferece a oportunidade de viajarmos para lugares maravilhosos e não requer o envolvimento do profissional de jornalismo antes e depois da competição. O que é muito diferente, por exemplo, em uma Copa do Mundo. Principalmente se estivermos hospedados no mesmo hotel em que a Seleção do Brasil está, ficamos 24 horas no ar.

Mas nenhum benefício ou prazer que os outros esportes possam oferecer abala minha paixão pelo futebol. Faço questão de anotar e registrar todos os lances: data, resultado dos jogos, e-mails recebidos... Está tudo arquivado desde o primeiro jogo até o de número 2.133, que vou transmitir hoje à noite.

Nesses 40 anos em que faço jornalismo esportivo, já trabalhei em rádio, jornal e televisão. Mas, de todos os meios de comunicação, o rádio é o que mais me atrai, por ser o mais dinâmico, nenhum outro consegue tal velocidade e trabalha tão bem a emoção. Principalmente a transmissão de futebol pelo rádio, que é onde atuo hoje, como proprietário de uma empresa que presta serviços para a Rádio Globo

O advento do celular contribuiu para deixar o rádio mais veloz. Foi durante a Copa do Mundo de 90, na Itália, que começamos a utilizar os aparelhos na transmissão. Houve uma briga dos hooligans (torcedores violentos, na Inglaterra) na estação do pendolino (trem bala da Itália), em Turim. O repórter Pedro Costa estava com um celular e registrou tudo. Hoje já estamos acostumados com esse recurso, mas, com os avanços tecnológicos voltados para diminuir o tamanho dos aparelhos, a qualidade da recepção tem sido prejudicada.

Ter uma boa voz é fundamental para o desempenho do profissional de rádio, ela cria a imagem e isso se reflete na credibilidade da notícia. É a partir de um conjunto de vozes características que podemos identificar a emissora em que o profissional está trabalhando. Somos responsáveis pela criação das imagens mais ricas através das palavras que emitimos e os receptores são as “caixolinhas” (cabeças pensantes) dos ouvintes em toda parte do Brasil.

A história mais curiosa que se passou comigo foi uma crise de soluço durante a transmissão de uma partida Flamengo X América no estádio do Bangu, Moça Bonita. De repente eu comecei a soluçar. Nervoso, apelei para todos os meios que conhecia, e nada. Apolinho (Washington Rodrigues) era o comentarista e percebeu a minha aflição, mas não sabia como ajudar. Houve uma interrupção na partida, fiquei calado por alguns instantes e o soluço continuava.

Graças a um telefonema do Dr. Jorge da Mata, que estava de plantão no Instituto Nacional do Câncer e sugeriu que eu chupasse uma pedra de gelo, cerca de um minuto e meio depois o maldito soluço passou. No dia seguinte, a manchete do jornal O Dia era algo parecido com “Soluço pára Garotinho no Flamengo X América”. Aliás, o nome Garotinho surgiu a partir da Copa de 74, quando o repórter Denir Menezes, observando que eu tinha o costume de chamar os colegas assim, passou a fazer o mesmo comigo.

O mercado de rádio esportivo no Brasil está cada vez mais achatado, isso porque os custos ficaram muito mais elevados. Uma fatia da publicidade passou para as mídias alternativas como busdoors (anúncio dos ônibus), outdoors (cartazes de comerciais – mídia de rua), backlight (painel fotográfico translúcido iluminado por trás), recursos que antes não estavam disponíveis. Falta criatividade aos homens de rádio esportivo para arrebanhar uma porção maior desse bolo publicitário

Historicamente, o rádio esportivo transformou-se num segmento importante do jornalismo. Quando comecei, existia a figura do speaker, do locutor que se limitava a transmitir o jogo. Hoje temos uma geração de comunicadores que estão aptos a desenvolver um jornalismo esportivo da mais alta qualidade. Vejo-me como comunicador de um grande show, composto pelo antes, o durante e o depois do jogo. Etapas que envolvem os fatos que estão ocorrendo na cidade: rebelião ou fuga no presídio, informações sobre trânsito, ou seja, é o jornalismo no esporte.

3 Na mesa-redonda

O jornalista esportivo é um privilegiado. Já sei que os que trabalham em outras editorias vão contestar, reclamar, mas esta é a mais pura verdade. E o motivo é simples: ele é o único que presencia o fato sobre o qual vai escrever, do princípio ao fim. Em nenhuma outra situação o jornalista tem esta oportunidade de viver a notícia, compartilhar dela, estar no momento do fato.

Quantos de nós, que trabalhamos com esporte, já tivemos de mudar um texto por causa daquela cesta no último segundo? E o gol que surge nos acréscimos de um jogo e faz a taça trocar de mãos? O toque na borda da piscina, a disputa de um tie-break, o golpe que surpreende. Não faltam situações. A emoção de uma cobertura esportiva é inigualável, seja ela em qual dimensão. Sempre veremos o homem buscando a superação de uma marca ou de si próprio, o aprimoramento; haverá alegria e tristeza, frustração, euforia, idolatria. E não há como não se envolver.

E se abrirmos o leque aos demais jornalistas especializados em outras áreas, quem não gostaria de estar em uma Copa do Mundo ou numa Olimpíada? Para não exagerar, dê uma passadinha na Tribuna de Imprensa do Maracanã numa final de campeonato: está sempre lotada e não só de cronistas esportivos.

Mas houve um tempo em que o jornalismo esportivo não tinha o status atual. Ao contrário: quando eu ainda estava na Universidade Federal Fluminense (UFF), início dos anos 80, o que se ouvia era que as editorias de Polícia e de Esporte eram as portas de entrada para o foca/estagiário. Iam para lá porque eram editorias “menores”, onde se “ralava” de verdade, para aprender e, depois, ingressar nas editorias mais respeitadas, como a Nacional, de Política ou de Economia.

Aos poucos foram descobrindo que não só o esporte necessitava de um conhecimento tão grande quanto os demais assuntos, como também era um grande gerador de recursos financeiros. E, assim, começaram a surgir os cadernos de esporte, cada vez mais completos e dinâmicos, e até mesmo mais um jornal especializado no assunto, o diário Lance!, que compete diretamente com o tradicional Jornal dos Sports, o Cor-de-Rosa, onde, por sinal, tive o orgulho de começar, efetivamente, minha carreira, em 1981.

Por falar em carreira, foram poucos os veículos onde trabalhei, mas tenho o prazer de dizer que me senti e me sinto muito bem em todos eles. O primeiro passo foi dado num estágio, que durou apenas uma semana, na TV Bandeirantes, com Paulo Stein, Márcio Guedes e Alberto Leo, um trio com o qual voltei a trabalhar depois, na TV Manchete, e hoje, num terceiro momento, na TVE. De lá, levado pelo amigo Itamar Guerreiro, fui para o JS como estagiário e exerci todas as funções possíveis, chegando ao cargo de editor de futebol ou subeditor geral com o alvinegro Carlos Macêdo na chefia. Saí em 1994 para abrir minha empresa de assessoria de imprensa, a DB Press. Em TV, trabalhei na Manchete, em 1983, com Aristélio Andrade e Telmo Zanini, e em 1984 fui contratado pela TVE, levado pelo Telmo e onde conheci pessoas que muito me ajudaram: Dival Santos, o diretor, e Januário de Oliveira e Achilles Chirol, que me deram a oportunidade de fazer parte de uma equipe das melhores, participando dos famosos videoteipes que a TVE apresentava nas noites de domingo.

Esta experiência, em jornal e TV, é muito importante. São veículos muito distintos, que ensinam tudo o que você necessita na profissão: agilidade e saber apurar e redigir, com precisão. Nunca o repórter deve se dar por satisfeito com o que apura! Todas as perguntas, por mais idiotas que possam parecer, devem ser feitas para não haver dúvidas. Repórter que tem vergonha de perguntar vai voltar para a redação precisando de um algo mais.

No JS, ainda estagiário, assumi a responsabilidade de acompanhar o Campeonato Estadual de Juniores. Fazia o noticiário de 12 clubes durante a semana, o que me permitiu criar amigos em todos eles, até hoje. Na TVE, o trabalho já era bem diferente – enquanto no jornal você se torna um setorista de determinado clube ou se especializa em três ou quatro modalidades olímpicas, na TV você cobre de tudo um pouco, o que o obriga, também, a ampliar seu foco e a ler e ouvir ainda mais sobre o assunto

Nesse período todo, algumas coberturas foram marcantes e precisaria de um livro para contá-las todas, mas sem dúvida ter ido à Olimpíada de Seul, pelo JS, foi a principal delas. Além de burlar a rígida segurança ao entrar na Vila Olímpica sem crachá, disfarçado de remador, ainda consegui chegar ao fosso de fotógrafos, também sem crachá específico, e registrar, com minha máquina, o momento em que Ben Johnson cruzou a linha dos 100m rasos, deixando para trás o até então imbatível Carl Lewis.

Pode parecer que trabalhar com esporte é sempre agradável. Nos fins de semana, ir à praia para acompanhar uma competição de surfe, vôlei de praia, beach soccer, bodyboarding. Ou ir ao estádio ver seu time de coração jogar e ainda estar ali, bem pertinho de seus ídolos, daqueles que milhares de pessoas dariam um braço para poder tocar. Quem sabe, viajar, conhecer novos lugares? É verdade, tem tudo isso sim. Mas trabalhar numa editoria de Esporte exige, acima de tudo, gostar de esportes. E não só futebol, a preferência popular. Que tal, nesse mesmo fim de semana, passar o domingo inteiro na praia, de sapato, calça comprida e camisa, sem poder dar um mergulho, provavelmente sem almoço e tendo de voltar para a redação para escrever a matéria? Ou entrar num barco, ir para alto-mar acompanhar uma regata, passar mal e ainda ter de buscar o resultado? Ou assistir, ali mesmo no Maracanã, a seu time de coração ser goleado e ter de colocar no papel a alegria do campeão, sem transparecer qualquer sentimento contrário?

Trabalhar com esporte exige boa memória, conhecimento de regras, leis, números, história; exige imparcialidade, mas também paixão. Aliás, é engraçado o leitor/ouvinte/telespectador que não aceita ser o cronista esportivo um torcedor de futebol. Ora, se o sujeito não gosta de futebol, certamente ele vai buscar outra profissão – que não é, também, a de árbitro, pois até eles têm seu clube de coração. O cronista deve ser imparcial em suas colocações, nas análises que faz. Mas, daí a não ser um torcedor, vai uma distância muito grande. Há, até mesmo, os que são reconhecidos pela sua ligação com determinado clube e nem por isso perdem o respeito e o reconhecimento do público.

Enquanto eu era repórter, estava tudo bem. Mas desde que assumi uma das cadeiras do programa de debates da TVE nas noites de domingo – a tradicional mesa-redonda –, vários foram os torcedores que passaram a me procurar para saber qual o clube de minha preferência. Confesso que, no início, tinha receio de que declarar ser Flamengo fosse me causar problemas, mas tive uma surpresa bem feliz: mesmo de outros clubes, telespectadores se diziam mais confiantes no que eu dizia pelo simples fato de eu assumir ser rubronegro. Viam, ali, franqueza e coragem de quem acredita no que diz.

É claro que os mais passionais não me “engolem”. Ou, se pudessem, me engoliriam vivo, literalmente. Mas são minoria. Aliás, o maior cuidado que um jornalista esportivo deve ter é exatamente o de evitar atingir a paixão dessas pessoas. Existe um ditado que afirma ser o homem capaz de mudar de mulher ou de qualquer outra paixão, mas nunca de seu clube de futebol. É por aí. O respeito ao torcedor, em qualquer instância, é fundamental para que se realize um trabalho correto. Criticar é aceitável, mas humilhar, provocar, isso nunca.

Em 20 anos de profissão, fiz amigos, trabalhei em bons lugares, aprendi um pouco da profissão que escolhi, faço verdadeiramente o que gosto. E ainda sou jornalista esportivo! Sou ou não um privilegiado?

4 O poder das imagens

Comecei numa redação como contínuo, levando as matérias para a oficina. Nessa época, havia uma recomendação para que o texto das legendas não ocupasse menos de uma linha, mas, como nem sempre o autor da matéria estava presente para fazer isso, o jeito era apelar para os novatos. E foi assim que comecei a escrever os meus primeiros textos, completando legenda. Até que um dia, foi preciso reescrever o título de uma matéria e lá estava eu, aproveitando mais uma oportunidade e recebendo elogios do secretário da redação: “Está melhor do que o anterior”, disse ele. Enfim, por essas e outras, o contínuo virou redator auxiliar.

O Cruzeiro, Jornal do Brasil, Correio da Manhã, TV Globo, TV Tupi, TV Educativa, TV Rio, passei por esses e por outros lugares fazendo de tudo, mas nem sempre jornalismo. Já fiz até roteiro de show. Nos anos 60, entrei para o esporte, depois de uma mudança no Jornal do Brasil, quando o Jânio de Freitas, chefe de redação, saiu e foi substituído por Alberto Dines. Eu trabalhava com Marcos de Castro e Armando Nogueira. Foi o próprio Armando quem me convidou para ser comentarista esportivo da TV Globo.

Minha melhor escola foi o improviso: depois do microfone aberto não temos escolha, é preciso falar. Criamos mecanismos para construir nosso discurso, sem contar que ainda recebemos o auxílio de quem escreve. Modestamente, eu nunca fiquei sem ter o que dizer. Apesar de sempre existir uma saída para situações mais complexas, isso não impede que tenhamos histórias muito engraçadas para contar.

Para ser um bom profissional, o jornalista precisa ter isenção. Um comentário pode até ter alguma repercussão junto ao dirigente esportivo e aos jogadores, mas, em geral, os técnicos acham que o jornalista não entende tanto quanto pensa, pelo fato de não termos jogado futebol profissional. Mas não é assim que funciona, caso contrário, um crítico de teatro teria que ter sido um ator e um crítico de arte, um pintor. O que nós, profissionais, temos, na verdade, é o poder de observação, um acúmulo de conhecimento e a possibilidade de expressá-lo

Cada vez mais, o rádio está sendo massacrado pela televisão. A TV conta com imagem, ilustração (narrador), comentarista, repórter e ainda a reprise do lance. Para a transmissão de um jogo da Seleção brasileira utilizamos, em média, 24 câmeras, que depois podem repetir um lance de vários ângulos. O rádio leva vantagem na cobertura do pré-jogo e do pós-jogo, pois tem mais tempo e facilidade para entrevistar um número maior de pessoas, principalmente em outro estado, em alguns casos utilizando o celular. Mas na transmissão do jogo em si, em qualquer lugar do mundo, a televisão é imbatível.

Cada mídia tem uma linguagem própria. A impressa é documental. Hoje, o jornal é muito mais para registrar, comentar e opinar sobre os fatos do que para cobrir o factual. Depois que a televisão transmite um fato, não há mais o que dizer sobre o assunto, pois ela atinge um público monumental, esmagador. Um ponto de Ibope em São Paulo, por exemplo, significa 47 mil aparelhos ligados, sendo que isso não corresponde apenas a esse número de pessoas assistindo, temos em média duas ou três pessoas por aparelho

Um problema da TV é estar diretamente ligada à publicidade. Para transmitir uma partida que se realize ao meio-dia, por exemplo, será preciso tirar do ar o Globo Esporte, os jornais regionais (RJ, TV, SP, TV etc.), e o Jornal Hoje. E tirar do ar essa programação significa queda de audiência e desencaixe de dinheiro. Quem acoplou sua publicidade a um desses jornais, perde. Como é que você faz? Quando o tempo já está vendido a alguém, é preciso recompensá-lo de alguma forma. Não se pode simplesmente tirar uma coisa do ar e colocar outra. Em todas as Olimpíadas temos vários problemas com choque de horário de eventos importantes acontecendo no horário de programas de interesse nacional.

Lembro-me de uma final de vôlei coincidindo com o Jornal Nacional e a novela. O responsável pela programação disse: “Tudo bem, vocês podem colocar o vôlei, mas quem paga o desencaixe de um milhão de dólares”? O argumento é muito forte, não tem jeito. Os 30 segundos mais caros da TV americana são nas finais de basquete e de futebol, que custam em média 450 mil dólares.

O comentarista precisa trabalhar em muita sincronia com o locutor. Eu procuro ficar atento, porque às vezes o locutor se engana, principalmente quanto aos nomes dos jogadores. Quando isso acontece, escrevo num papel e mostro para ele, mas o Luís Roberto, que trabalha comigo, erra muito pouco. A maior dificuldade é quando a transmissão é feita do estúdio, vendo pela televisão.

Ao cobrir o campeonato brasileiro, por exemplo, não conhecemos os jogadores todos. Quando se está cobrindo o carioca, depois do terceiro ou quarto jogo já conhecemos o jogador pelo andar, pelos gestos, mas não conhecemos bem os de outros estados. Houve um jogo Vasco e Vitória, da Bahia, no ano passado, que foi transmitido daqui. Noventa por cento do time baiano é composto por negros, todos parecidos. De repente aconteceu uma substituição no Vitória e o jogador que entrou foi à frente. Exatamente quando o Luís Roberto gritou “gooooool”, o tal jogador tirou a camisa. Sem parar de gritar, o locutor olhou para mim esperando que eu soubesse o nome do autor. Sinalizei informando que também não sabia. Ele continuou berrando “gooooool” e nada de o repórter entrar. O Luís Roberto continuou: “é gol do Vitória, o Vitória chega lá, o Vitória consegue...” Para o narrador, omitir o nome do jogador que fez um gol é muito grave, até hoje ele não se perdoa.

Mas é raro não estarmos no local do jogo, até porque a presença no estádio é uma exigência dos contratos. Entretanto, quando não existe cabina, isso se torna impossível, porque o público às vezes é muito agressivo. Eu fiz um jogo em Santos, onde a cabina era aberta, e começaram a jogar coisas na minha cabeça, até lata.

Outra vez um cara pulou e puxou o monitor, ele quase caiu lá em baixo, arrebentou o cabo, mas eu salvei o monitor. Temos de ser os últimos a sair do estádio. Ainda em Santos, em outro jogo, chegaram a sacudir a nossa unidade móvel e só a polícia conseguiu controlar a situação.

Temos que ter a capacidade de criticar de uma maneira elaborada, de maneira que o torcedor não considere ofensiva, embora isso seja muito difícil. O torcedor sempre acha que o comentarista está contra. Atualmente, com sinceridade, não tenho time. Quando começamos a ver o futebol por dentro, descobrimos que não é uma coisa tão maravilhosa quanto pensávamos. Descobrimos que jogadores, que durante uma partida deram pontapé um no outro, de noite se encontram e vão beber cerveja juntos. Por que eu vou me irritar, se eles não se irritam?

5 Em busca da emoção perdida

Esses velhos olhos assistiram, nas últimas cinco décadas, a toda sorte de acontecimentos esportivos, amplificando-os, de forma exagerada por vezes, ou reduzindo-os às medidas das lentes fechadas. Enfocaram momentos épicos, a par de outros prosaicos, sem relevância; viajaram do pitoresco ao contundente, tudo ao sabor das emoções que, ao final, ditaram a sua reprodução jornalística, através de um comportamento profissional necessariamente ético.

Essa preliminar deve ser entendida como uma bula a balizar os caminhos dos jornalistas, de todas as áreas ou editorias, e de quaisquer veículos, dos conservadores aos de vanguarda. É claro que uma característica vigorosa deve norteá-la: a ética geral, sem, entretanto, ser desprezada a lógica de cada um. Essa análise repousa com maior incidência sobre os veículos de maior poder de fogo – jornal, rádio e TV – dentro do universo das comunicações, afora a avalanche da computação eletrônica que opera como elemento adjacente.

Ainda nesse desambicioso lidão deixo bem claro que não considero o jornal como aquilo que você lê, nem o rádio aquilo que você ouve e, sobretudo, a televisão aquilo que você vê e ouve. Dentro dessa conceituação, agiríamos, no mínimo, de forma preguiçosa e a preguiça é uma inconveniência nesse veloz mundo científico da comunicação social. E, se não houvesse uma rebelião contra o imobilismo jornalístico, estaríamos, ainda, escravizando os pombos-correio da Agência Reuters a fim de atravessar mensagens pelo Canal da Mancha ou o revezamento de jograis para levar as novas aos mais longínquos quintais da Grécia e cercanias.

Essa introdução há de servir como uma ponte para ligação ao assunto que me é reservado: o jornalismo esportivo. Ao fixar-me em analisá-lo, sei que vou avançar para situações, algumas é verdade, até aqui impermeáveis. Detenho-me na principal delas, ou seja, seu componente mais saboroso, a emoção. De cima da experiência de várias décadas de jornalismo e de professor universitário, entendi que o jornalismo praticado em outras áreas deveria obedecer aos rigores da técnica normativa de então. O sistema de lide e da pirâmide invertida certamente tinha sentido, até por uma questão de objetividade. Num dos jornais em que trabalhei, possivelmente o mais importante (O Estado de S. Paulo), sempre contestei o acerto do emprego desses esquemas em duas editorias: Polícia e Esportes.

Há quem sustente que as competições restringem as emoções somente aos seus praticantes. Teoria pálida essa que omite o torcedor, imaginando-o apenas um figurante na história. Ao invés, imagino que os jogadores podem explorar toda a sua técnica e usar sua garra, impelindo o jogo ao nível dramático. É a sua superação – sublimação mesmo. Contudo, suas emoções rapidamente são controladas. Afinal, emoções não são privilégios dos atletas. Com maior força, avançam pelo universo das torcidas, eletrizando-as por longo tempo. Assumo a certeza de que as histórias esportivas nutrem-se de componentes singulares, distante da rotina. Daí, serem narrados e comentados em linguagem própria.

Quando entrei para O Estado de S. Paulo, gol era grafado como ponto. Os irmãos Mesquita devem ter demorado para visualizar o Maracanã superlotado, decisão do Mundial de 50, no fatídico Brasil X Uruguai. Eis que Friaça chuta e marca o primeiro gol. 170 mil torcedores agitam-se e um coral gigantesco grita: “ponto”. A modernização do tradicional diário paulista embutiu, também, uma certa liberação no uso dos neologismos e outros que tais. A diagramação do vespertino Ultima Hora revelava maior liberdade, inclusive com sua produção gráfica mais ousada. O velho francês Albert Lawrence, por não saber português corretamente, não atribulou meus dias. No Diário da Noite e no Diário de Notícias, sustentamos igualmente nosso direito de escrever sem muitas peias. Meu melhor momento, contudo, foi na revista Placar, de cuja fundação participei. Hamilton de Almeida Filho, Guima, Maurício Azevedo, Dante Matiussi, Michel Lawrence e Fausto Neto souberam cultivar a qualidade de texto, quase livre, equilibrando seu peso ao fato descrito. Infelizmente, a bela revista, após a perda de alguns nomes acreditados, definhou. Perdeu suas características principais.

Aprendi, ao longo dos tempos, que colher a informação da boca do declarante – crua e dura – e transmiti-la sem melhor vestimenta, constituía-se, no mínimo, em um logro ao leitor. Confeitá-la, tornava-se necessário. Esse entendimento era comum aos mais experimentados jornalistas, sobretudo os de esportes. Nesse caso, a utilização do copidesque não prevaleceu apenas para enxugar o material escrito mas, também, para adorná-lo, tornando-o mais saboroso ao gosto dos leitores. Veja-se dois exemplos de declarações publicadas, no mundo inteiro, de formas diferentes, embora o mesmo conteúdo neles aparecessem.

Subimos juntos – fora do tempo – para cabecear uma bola. Eu era mais alto e, certamente, contava com maior impulsão. Desci ao nível do chão e, perplexo, olhei para cima. Pelé ainda estava no alto cabeceando a bola. Parecia um helicóptero em sua mágica capacidade de permanecer no ar o tempo que quisesse.

(Fachetti, notável zagueiro italiano, na Copa de 1970)

Sua figura era grotesca. As pernas aleijadas, como se fossem duas foices, voltavam-se para o mesmo lado. A fim de ser figurante de um circo, nada faltava. Seu repertório, engraçado, constituía-se em um só drible. Nunca vi coisa igual. Ele nos lesou, o tempo todo, com seu futebol de mentiras. Naquele dia, considerei, até, a hipótese de não voltar a Moscou.

(Tsarev, na coletiva de 15/6/58, referindo-se a Garrincha, em Gotemburgo/Suécia)

1938 – Copa do Mundo da França – A voz poderosa do locutor Gagliano Neto atravessa o Atlântico, pipocando os aparelhos denominados capelinhas (por seu feitio semelhante a uma igrejinha), em transmissões sensacionais, autorizando uma prospecção do que seria a reportagem esportiva, dali para a frente. Parecia o prenúncio, mais tarde cristalizado, do sucesso do rádio brasileiro. Nomes de grande expressão rivalizavam com Gagliano Neto, sobretudo nos dois maiores centros culturais do país – Rio e São Paulo: Oduvaldo Cozzi, Ary Barroso, Raul Longras, os irmãos Wolney e Doalcey Camargo, Mario Provenzano, Ruy Porto, Waldir Amaral e, ultimamente, José Carlos Araújo, nas emissoras cariocas, salientandose, ainda, Rebelo Júnior, Pedro Luiz, Edson Leite, Fiori Giglioti e José Silvério, em São Paulo.

O rádio lhes ofereceu caminhos livres. Eles criaram estilos vários, com vocabulários adjetivados tão do agrado dos ouvintes. Suas transmissões eram, a um só tempo, narrativas, expositivas e, sobretudo, analíticas. Não havia e não há, até hoje, qualquer compromisso com a ordem direta das frases. Pre-ponderância mesmo só de orações intercaladas e apostos explicativos, muitas vezes redundantes. Ágeis nos raciocínios, alguns locutores esportivos repousam seu trabalho em frases preparadas e encaixadas segundo o correr da bola, tudo num malabarismo vocal admirável.

As transmissões esportivas não têm copidesque e nem sempre a regência do verbo está correta. Mas criticá-las seria, no mínimo, uma covardia. Afinal, os locutores têm que fugir do factual e criar situações nem sempre reais para transferir em emoções aos ouvintes, tornando-os espectadores de algo que não vêem, numa magia merecedora de aplausos.

Não há como fugir da análise segundo a qual o locutor tem incumbência múltipla. A definição melhor é a de Waldir Amaral, o czar das transmissões esportivas das décadas de 60 e 70: “Você tem que maquiar o jogo para fazer o ouvinte vê-lo, além de ouvi-lo”. Adianto que, muitas vezes, o aspecto fantasioso da transmissão leva o ouvinte a sonhar com uma competição muito mais emocionante do que a vista no estádio. Tanto é assim que nas décadas de 60 e 70 os estádios estavam repletos de torcedores munidos de rádios de pilha.

Embora o rádio esportivo acione um só sentido, a audição, sua carga de emoção é maior do que a da televisão, embora esta se sustente sobre a audição e a visão, ao mesmo tempo. Talvez, esse fato condicione o telespectador a um esforço menor ao acionar seus mecanismos de atenção. A imagem amplia a mensagem, mas ela alcança o receptor nem sempre preparado para recebê-la.

As transmissões esportivas nas televisões exigem menos do narrador que não tem necessidade de preencher os vazios ocasionais da competição. A imagem opera por ele, figurando o áudio, neste caso, como um componente meramente de apoio. Tais teorias, evidentemente, não se aplicam aos programas, tanto os de rádio quanto os das televisões, estes sujeitos às normas vigentes (frases e palavras curtas e em ordem direta, preferencialmente). De todas as formas, o fator emoção deve sempre presidir essas programações, cujo imediatismo torna-as portadoras de um grau de dificuldade bastante grande para repórteres e locutores.

Os narradores de televisão sempre tentaram imprimir a força de sua voz e seu estilo particular às transmissões. Foi assim com Ary Barroso, Luiz Mendes, Ruy Viotti e, mais recentemente, com Galvão Bueno e seus seguidores da Globo. Inutilmente. Nada há de superar as fotos que aparecem nas falas, exalando emoções por todos os lados. A voz humana opera apenas como uma pálida legenda. Nada mais que isso.

6 Manual da reportagem esportiva

A reportagem esportiva possui aspectos diferentes de alguns setores do jornalismo. Em uma competição, as personagens já são conhecidas previamente e o levantamento da pauta, por conter informações extras, auxilia o trabalho do repórter. Os dados são selecionados com tempo e cabe, tanto ao pauteiro – quando o veículo dispõe desse profissional – quanto ao repórter, inserir informações adicionais durante a transmissão. Se o jornalista lida apenas com dados factuais, são duas as explicações: ou ele tem poucas informações sobre o fato ou a pesquisa acrescentou muito pouco à cobertura. O trabalho de reportagem começa com o interesse do jornalista em conhecer previamente todos os aspectos que envolvem uma competição ou um noticiário. É pelo processo de levantamento de dados que as idéias vão surgindo e, assim, o texto começa a tomar corpo. Se o repórter desconhece o assunto, o tempo para coleta de informações e para compreensão do fato torna-se um empecilho à produção. A notícia acaba sendo construída, pela ausência de referenciais, por informações que acrescentam muito pouco ao público que absorve aquela notícia.

O jornalismo trabalha, primeiramente, com dados escolhidos pela equipe de reportagem, mas que são determinados pelo acontecimento. Os dados dependem da característica daquela cobertura, mas no jornalismo esportivo o fato vem sempre antes, porque a data, o local e a competição já estão previamente marcados.

As personagens já foram, em sua maioria, escolhidas, e o repórter acaba dependendo apenas do desenrolar dos fatos. E isso não é somente para coberturas de competições, mas para treinos, preparativos e desfechos de noticiários. Afinal, no jornalismo esportivo, tudo que envolve o fato é importante, e isso só depende da quantidade e da qualidade da informação que é transmitida. Se um repórter repete demais alguns dados é porque tem somente tais dados; se, no entanto, a notícia é diferenciada e apresenta algo novo quem pesquisou está munido de informações extras.

A pauta possui elementos que são primordiais para o desenvolvimento da matéria como um histórico dos personagens envolvidos e do fato que está por acontecer. Nele, todos os aspectos devem ser desenvolvidos: os principais dados da vida pessoal e profissional dos personagens, os resultados anteriores dos clubes e dos atletas dentro daquela competição ou mesmo em eventos anteriores, os principais confrontos entre os competidores e os episódios que fizeram parte daquela disputa. O histórico da competição também é incluído, porque é dele que depende o interesse do público pelos clubes e pelos atletas, assim como as regras da competição, não só do esporte, mas também do próprio torneio.

A torcida é um ponto de observação na pauta porque sua participação interfere diretamente no resultado de uma competição. A quantidade expressiva de torcedores (Corinthians ou Flamengo, por exemplo, são as maiores torcidas do Brasil) ou a localização, se um clube ou atleta atua próximo de sua torcida (se o clube ou o atleta atua em casa) são informações adicionais à matéria e que devem ser incluídas na pauta. No caso do Brasil, as torcidas organizadas tornaram-se parte do espetáculo e da cobertura jornalística e, por isso, não podem passar despercebidas.

Os bastidores de uma partida ou de um noticiário também são incluídos porque a competição está se desenrolando. O conjunto de informações anteriores ao fato é relatado, assim como incidentes que podem ocorrer durante a partida, como as contusões, os treinamentos, a escalação, a classificação, o doping, as punições, a torcida, o regulamento, a comissão técnica (principalmente os treinadores), as federações e a imprensa.

A matéria esportiva começa, antes, muito antes, do encerramento da competição anterior. Se o atleta ou clube participa de um torneio, o outro já está em pauta, porque os eventos desportivos são sequenciais. O repórter começa assim uma peregrinação para sintetizar todas as informações incluídas na pauta. O maior número de informações auxilia na composição textual e na produção da matéria.

As informações são coletadas com a pesquisa em arquivos e entrevistas com as fontes iniciais. Os dados permitem ao repórter estar preparado para a escolha dos entrevistados e para a própria entrevista de campo. Quando ele conhece o assunto e os entrevistados, é possível colher informações que ainda não tem e acrescentá-las à matéria. A ausência de informações sobre os envolvidos e/ou sobre o assunto tira a credibilidade do repórter que pode, pelo desconhecimento, ser manipulado pelo entrevistado ou mesmo legitimar uma fonte imprópria, que ele escolheu no local do fato ou mesmo pautou sem antes conhecê-la. É evidente que, no âmbito jornalístico, o repórter coleta informações no local do fato, mas também é importante ter fontes já pautadas e pesquisadas.

A pauta é apenas um referencial para a cobertura, com dados brutos e condicionados aos bastidores e ao fato. A matéria é de responsabilidade do repórter que detecta e transmite o que é realmente importante para o público e para os envolvidos na informação. Se ficar preso à pauta, o jornalista possibilita a interferência das fontes duvidosas e da própria empresa jornalística.

Qualquer tipo de pesquisa jornalística requer do profissional uma atenção especial diante dos dados, porque nem sempre eles são confiáveis. Um documento necessita da verificação do jornalista antes de ser transmitido. As publicações dos meios de comunicação de massa são documentos acessíveis e com fontes consideráveis, mas é importante confirmar com a fonte produtora ou mesmo com as especializadas a validade daqueles dados. Outra maneira de conferir a veracidade dos dados é comparando documentos. Uma notícia, geralmente, é publicada em vários meios de comunicação e, por isso, o jornalista tem a possibilidade de confrontar e verificar as publicações.

As novas tecnologias, principalmente a internet, facilitaram a procura por dados antes de difícil acesso. Após a análise e captação da informação, o jornalista confirma com as fontes se aquele dado é válido ou não. A matéria fundamentada apenas

pelo recurso das novas mídias é perigosa, pois, nem sempre, a informação colocada via internet é confiável. Os meios eletrônicos servem como instrumento de auxílio na busca de informações, mas muitos dados são brutos, o que serve de alerta para os profissionais de comunicação.

Os arquivos dos meios impressos como jornais e revistas e de emissoras de televisão e rádio são documentos um pouco mais confiáveis porque o jornalista pode citar de onde tirou determinadas informações e mesmo porque há uma legitimação junto ao produtor e aos responsáveis pela publicação. Muitos arquivos já estão disponíveis na web e os dados possuem validade para publicação. O erro na captação da informação é possível porque muitos dados transmitidos pela imprensa podem ser falsos. É importante, portanto, sempre desconfiar de uma publicação.

Além de confirmar com os responsáveis pela notícia a validade da informação ou mesmo comparar dados, o jornalista tem de tomar cuidado com o desenrolar da matéria, porque um fato vai se desenvolvendo conforme os acontecimentos. Torna-se perigoso divulgar uma informação recortada antes do desfecho do fato. Assim, as publicações jornalísticas devem ser consideradas como um todo, ou seja, do começo ao fim da apuração da notícia. Uma cobertura jornalística pode ter apenas uma publicação, mas muitas notícias requerem uma quantidade de matérias para explicar um fato.

As publicações de caráter científico (artigos, livros, teses, dissertações e monografias) são reconhecidas como fontes confiáveis para a produção de uma matéria. Apesar disso, a especulação científica e tecnológica diante do novo ou mesmo do inédito trouxe ao jornalismo uma desconfiança diante dos fatos divulgados, já que os meios de comunicação de massa poderiam ser utilizados como propagadores de falsas promessas ou falsas experiências e não como divulgadores de ciência e tecnologia. Uma pesquisa é publicada quando os dados já foram previamente testados e, assim, se tem uma validade desse tipo de informação. O repórter desvincula-se do inédito e utiliza as pesquisas e as produções já comprovadas cientificamente, porque ele (jornalista) pode ser persuadido a elaborar matéria muito mais de caráter publicitário do que jornalístico.

Produções artísticas e culturais como literatura, cinema, teatro, música são fontes úteis para o aprimoramento da matéria esportiva. O jornalista consegue explorar um contexto amplo na matéria, fugindo da cobertura simples e factual da competição. Uma disputa pode ser transformada em espetáculo, com personagens e histórias. Se um atleta foi personagem de um livro ou é semelhante ao protagonista ou mesmo quando uma história é parecida com a outra, a analogia enriquece de detalhes a reportagem. A cobertura é fundamentada com diversos referenciais. Além de auxiliar na criação do texto, as informações artísticas e culturais são também utilizadas como um dado novo na matéria, como é o caso da participação de um atleta em filme ou de uma personalidade ou de uma modalidade que esteja no conteúdo de um livro. A informação jornalística é sempre respeitada como um relato que acrescenta algo ao público. A pesquisa é elaborada de forma rápida e perceptiva. Em poucos minutos, o repórter consegue recolher as informações necessárias para a sua matéria. É importante ter um banco de dados sobre determinado assunto. O conteúdo do arquivo é composto por um resumo do assunto, matérias já publicadas em outros meios de comunicação, endereços de sites, principais fontes (pessoas ligadas ao tema com endereço, fone, fax, e-mail para contato), títulos de obras já produzidas (livros, peças de teatro, filmes, fotografias, etc.), entre outras informações.

A fase de coleta de dados para a reportagem chega ao ponto crucial com a elaboração das entrevistas. Elas servem para buscar informações complementares ao fato, justificar os dados e humanizar a matéria. Os entrevistados são as personagens da narrativa, porque os fatos estão condicionados à participação deles no desenrolar da história. Sem eles, a reportagem perde o teor jornalístico. Os entrevistados são escolhidos conforme o grau de envolvimento com o acontecimento e seus depoimentos são interpretados pelo jornalista.

A escolha dos entrevistados é o momento mais delicado da reportagem esportiva. Em uma competição, seria normal entrevistar os atletas envolvidos e recolher respostas dos competidores. A matéria estaria pronta com o informe do torneio e dos envolvidos nele, mas cabe ao jornalista perceber que, no esporte, uma disputa envolve personagens que nem sempre estão competindo, como é o caso da comissão técnica, árbitros, dirigentes dos clubes e das federações, torcedores e a própria imprensa. Os profissionais de outras áreas também são entrevistados para dimensionar o trabalho dos profissionais que atuam no esporte, como da área de saúde, direito, administração etc.

Os competidores são as principais personagens da competição e para entrevistá-los o repórter precisa conhecer os principais detalhes da carreira daquele atleta. Algumas virtudes, como a altura ou a velocidade, o local de treinamento ou se a torcida está a favor, são pontos que o jornalista pode explorar durante a entrevista. Antes, durante e depois da competição, aquele detalhe é o referencial para a cobertura. Se outro fato acontece, o jornalista condiciona a matéria ao novo aspecto, mas é primordial ter um referencial, porque é aquele fundamento que o atleta vai explorar durante a competição. Se ele falhar, pode ser o fator da derrota; mas, se acertar, pode ser o início de uma vitória. As perguntas são colocadas de acordo com a competição e entre os competidores, porque cada um, mesmo em competições coletivas, tem um diferencial que o destaca no universo esportivo.

A preparação física é um elemento que interfere diretamente no resultado de uma competição. Uma série de resultados negativos de um atleta pode estar ligada à sua condição física. Uma contusão séria e ainda em fase de tratamento, o retorno antecipado de uma contusão, alimentação desbalanceada, preparação física inadequada, dificuldade de adaptação ao local da competição (clima, altitude etc.), entre outros fatores, interferem na performance do atleta. O jornalista esportivo precisa estar atento aos últimos resultados conseguidos pelo atleta e interpretar se aquele competidor (ou equipe) possui realmente condições de vitória. Dessa forma constrói-se, para o público, um aspecto real da disputa, eliminando uma falsa expectativa diante do resultado

O jornalista despreparado envolve o público na disputa e mostra os competidores como iguais. A expectativa da vitória é para todos (apesar de o acaso ser uma das características do esporte), mas ela também causa a decepção. O dever do jornalista é levar as informações ao público e deixar que ele as interprete. Caso o atleta esteja preparado, é importante colocar essas virtudes, assim como os problemas pelos quais passou.

O perigo está em esconder do público algumas informações ou detalhes que poderiam ser ditos antes do resultado final. Um atleta que obteve resultados negativos durante o ano tem menos possibilidades de vencer uma competição, ao contrário de um atleta com resultados positivos e que não apresentou nenhum problema físico durante o calendário. O jornalista esportivo passa a armar um cenário das competições, com as personagens sendo construídas por meio de fatos. As perguntas são elaboradas de acordo com o universo vivido pelo atleta. A questão escolhida é que vai dimensionar o momento do atleta e suas reais chances numa competição esportiva.

Assim como o aspecto físico, o emocional também pode interferir na performance do atleta e o jornalista deve tomar cuidado com este fator. Problemas pessoais apenas serão explorados fora dos torneios porque já existe um desconforto do competidor diante do fato e sua concentração pode ser prejudicada. Casos como envolvimento na justiça ou problemas de saúde com o atleta ou a família interferem na notícia e podem criar comoção ou mesmo uma falsa interpretação em relação ao noticiário. Evitar o sensacionalismo na informação é importante para a cobertura esportiva. Pode ser até interessante citar o fato, mas não explorá-lo intensivamente, principalmente com uma série de perguntas sobre o problema, fazendo com que o público fique muito mais interessado na vida do atleta do que em sua performance durante a competição.

A comissão técnica é a equipe de apoio e, geralmente, é dela que o repórter vai conseguir informações sobre a condição de cada um para a competição. Um atleta lesionado, fora de forma ou mesmo com algum problema psicológico é um dado esclarecedor para o público, assim como se ele está evoluindo em algum aspecto ou se atingiu a condição física e psicológica ideal. A tática da comissão técnica para uma competição, como a escalação, os meios de preparação (alimentação, concentração, altitude etc.) e as informações sobre outros atletas, são alguns dos fatores que podem influenciar o resultado.

O repórter deve observar, em primeiro lugar, se os competidores dispõem de uma comissão técnica adequada para uma disputa. Muitas vezes, os clubes ou atletas não têm nem comissão técnica, como um profissional de Educação Física, um médico, um fisiologista, um nutricionista, um fisioterapeuta, um psicólogo, um enfermeiro do esporte. No mínimo, o repórter deve observar se alguém da equipe técnica tem formação em Educação Física; caso contrário, é necessário destacar que a preparação do atleta foi deficiente e sua performance não é a ideal. Se mesmo assim o atleta conseguir algum resultado positivo, é importante destacar seu talento, mesmo sem as condições ideais. O repórter deve dirigir-se ao responsável pela equipe (geralmente é o treinador) e perguntar a ele e também ao atleta se o trabalho de determinado profissional complementaria o treinamento.

Outro fator que pode interferir no resultado e deve ser informado ao público é se a comissão técnica elaborou planejamento para uma competição. O repórter, desde o noticiário, precisa observar as fases de treinamento e, com perguntas relacionadas aos atletas ou clubes, elaborar um questionário de perguntas relacionadas à preparação. O período de treinamento em relação a uma disputa (a quantidade de dias para preparação tática, técnica e física), o local de preparação adequado ou com poucas condições de uso (campos ou ginásios esburacados ou com grama alta, entre outros), a concentração (se o atleta tem como se comunicar com os familiares ou se o dormitório é confortável), a alimentação balanceada, o vestuário (calçados, uniformes...), o transporte ideal para a distância (ônibus, avião, trem...) são pontos que podem ser explorados já que determinam as condições mínimas para um ser humano que se dedica exclusivamente ao desporto.

As estatísticas dos atletas também auxiliam na preparação porque determinam os elementos de instabilidade do atleta ou da equipe. O jornalista esportivo pode ilustrar a reportagem com números, como os principais fundamentos utilizados durante a competição ou no decorrer da carreira, além dos pontos fracos que são e podem ser explorados pelos adversários.

Os integrantes da comissão técnica, especialmente os treinadores, têm a tradição de omitir da imprensa a tática que vai ser utilizada numa competição. “Esconder o jogo” é um artifício para surpreender o adversário. O jornalista tem de respeitar a decisão da comissão técnica, mas com as informações dos últimos esquemas táticos explorados nas competições é possível determinar o elemento surpresa e os elementos que serão utilizados pelos concorrentes. As perguntas são elaboradas de acordo

com as características de cada um, os pontos fortes e os defeitos. A velocidade, a altura, a força, entre outros, são elementos primordiais para uma competição individual. Já no coletivo, é possível também alertar sobre a força do conjunto de uma equipe. Se ela joga ou treina há algum tempo com os mesmos atletas e com a mesma comissão técnica, o estilo de jogo já está predeterminado; mas se a equipe troca muito de comissão técnica e de atletas, sua característica é uma surpresa, valendo muito mais o valor individual do que o coletivo.

A arbitragem é o elemento decisivo no decorrer de uma disputa. Um erro pode prejudicar o trabalho de um ano inteiro, mas torna-se parcial e antiético por parte do jornalista julgar um árbitro por uma falha durante o jogo. O público tem o direito de saber o porquê do erro, como forma de esclarecimento, mas jogar o torcedor contra o juiz é perigoso. Outra falha é ficar explorando o erro passado de um árbitro. Se ele errou numa disputa anterior, não quer dizer que vá errar agora.

O trabalho jornalístico visa informar sobre quais as condições de cada árbitro para dirigir uma disputa, ou seja, a condição física (se está bem preparado e no peso ideal) e técnica (se o juiz conhece as regras, se tem a bagagem ideal para conduzir uma disputa (pelo número de competições que participou e está participando), se possui curso de Educação Física ou algum curso oficial etc.. As entrevistas com árbitros são complexas, pois muitos não admitem interferência em seu trabalho, mas o jornalista deve insistir nas aplicações das regras e na ética do desporto como um todo. Um árbitro polêmico que geralmente cria confusão é um exemplo. Justamente por desrespeitar as regras ou desejar ser o centro das atenções, ele acaba sendo alvo dos jornalistas que exploram seus erros e exageros. A insistência do repórter em polemizar a figura de determinado árbitro desvia a atenção do público para a arbitragem, que sempre acaba julgando previamente aquele juiz e, assim, qualquer erro será motivo de taxação e polêmica.

A preparação do árbitro e a aplicação das regras continuam sendo o mais importante em uma notícia esportiva. Cabe ao repórter explorá-las ao noticiário por meio de entrevistas com os árbitros, a comissão de arbitragem, as federações, os profissionais de Educação Física e os especialistas em arbitragem, como ex-árbitros e professores. Os depoimentos coletados dos dirigentes, os chamados cartolas, são motivados pela necessidade do jornalista de obter informações extras para sua matéria. Os investimentos nos atletas ou nos clubes por intermédio de contratações, dispensas, benefícios e punição de pessoal (comissão técnica, atleta e demais funcionários) ou mesmo na parte física (reformas nas instalações do clube e aquisição de equipamentos) são determinantes para que o jornalista perceba se a agremiação está se preparando para a competição em que está inscrita. O jornalista pergunta sobre as condições dos atletas e das equipes para a disputa, conforme o investimento.

Os regulamentos também estão condicionados aos dirigentes. O jornalista avalia, anteriormente, o regulamento e seleciona os pontos duvidosos antes de questionar os cartolas. Se, mesmo assim, algum artigo continuar obscuro, o jornalista deve procurar um especialista em legislação desportiva e continuar confrontando suas dúvidas com os dirigentes. O jornalista deve mostrar os pontos duvidosos e esclarecer o que pode acontecer na competição com a opinião dos dirigentes e dos juristas.

Os torcedores, ou aqueles que participam diretamente de treinos e jogos, são figuras participantes da cobertura jornalística. Toda a informação transmitida pelo repórter vai ser confrontada com a atuação dos competidores. Se a performance for diferente da informação, o jornalista pode criar um elo de frustração diante da expectativa do torcedor. O jornalista transmite as informações que realmente podem interferir durante o desenvolvimento de um torneio.

O público fica então precavido sobre a real possibilidade de vitória. A responsabilidade do jornalista é grande, pois o torcedor fica, muitas vezes, condicionado por aquilo que o repórter transmite. O jornalista vai preparado para a entrevista porque sabe quais são os argumentos dos torcedores. Se uma equipe está com seu principal jogador suspenso ou se um atleta vem de sucessivas derrotas, o torcedor pode predeterminar uma fraca atuação por determinados motivos, mas se o jornalista deixou de informar sobre os acontecimentos, os torcedores irão trabalhar com outros referenciais.

A participação dos torcedores é fundamental para a performance do atleta, principalmente, quando o este está atuando próximo de sua torcida ou na cidade natal. Outro ponto é quando os resultados anteriores foram positivos ou negativos. Uma seqüência de vitórias ou derrotas aumenta ou diminui a ansiedade do torcedor por um resultado positivo.

O comparecimento dos torcedores ao local de competição também interfere. Um estádio lotado traduz a confiança da torcida num bom espetáculo ou num resultado positivo, mas o estádio vazio significa o desinteresse por aquele jogo. O jornalista observa os fatos e questiona o espectador acerca das dúvidas que ele tem sobre os atletas e equipes e quais os pontos positivos que atribui à possibilidade de vitória. Este acaba mostrando o quanto o torcedor está informado, mesmo sendo o esporte um espetáculo de entretenimento.

Numa cobertura jornalística, os profissionais de Imprensa tornam-se também fontes. O trabalho de alguns especialistas, mesmo de outros meios de comunicação, é benéfico para a captação de informações. Muitas vezes, os colegas de profissão apresentam um conhecimento maior sobre determinado assunto, seja este uma equipe, um atleta ou uma competição. A opinião deles torna-se necessária para complementar uma notícia. Além disso, o profissional de Comunicação é uma fonte com credibilidade junto ao público. A preocupação do jornalista deve ser escolher um profissional que seja especialista no assunto e não apenas um amigo ou colega. As perguntas precisam ater-se somente ao tema da matéria. A intimidade e a discussão sobre jornalismo são então deixadas de lado, pois o tema é esporte e não o jornalista. A pauta deve ser conduzida com precisão, sem preservar nem ferir o colega, mas com clareza dos fatos. Não são dois colegas conversando sobre esportes, mas um diálogo entre dois profissionais sobre um tema esportivo.

Os especialistas são profissionais das mais variadas áreas do conhecimento (humanas, exatas e biológicas) e seus depoimentos auxiliam no esclarecimento de determinado assunto que não ficou claro para o jornalista. O depoimento de determinados profissionais serve também para o repórter desvincular-se das fontes oficiais ou daquelas que estão totalmente envolvidas com o fato. Uma informação nova é importante para complementar a matéria e desvendar dúvidas que podem prejudicar a interpretação do público

Se o repórter tiver uma dúvida sobre o regulamento de um torneio, torna-se necessário o depoimento de um advogado especializado em Direito Esportivo. A opinião de um médico é importante no caso da cirurgia que afastará um atleta de determinada competição. Um matemático é necessário no caso da pontuação em torneios que podem determinar a classificação de uma equipe ou atleta. Na reforma de um estádio ou de um complexo esportivo, o engenheiro civil e o arquiteto são fontes com credibilidade. O especialista é o elemento que vai proporcionar um possível esclarecimento extra-oficial sobre o fato. Os depoimentos de profissionais vinculados às fontes oficiais, que fazem parte da notícia, são necessários, mas o fato de possuir vínculo com a fonte torna sua opinião parcial. Dessa forma, a opinião de um outro perito no assunto pode ampliar a informação e ajudar o público na interpretação de determinado fato.

Os especialistas auxiliam na compreensão de pontos diretamente ligados ao esporte, principalmente a Educação Física, o Direito, a Farmácia e a Medicina. Na competição, o profissional de Educação Física trabalha como um consultor de esportes que vai ampliar a visão do público, e também do repórter, sobre o evento, já que possui um conhecimento determinante para a compreensão básica dos aspectos físicos, táticos e técnicos da equipe ou atleta, além de esclarecer as regras do torneio e as reais possibilidades de cada um. O mesmo pode ser observado com os outros profissionais: no Direito, o aspecto jurídico, como a legislação desportiva e os regulamentos; na Farmácia e na Nutrição, os componentes das substâncias ingeridas pelos atletas, como medicamentos e nutrientes; na Medicina, problemas relacionados à saúde do atleta; e assim por diante. Os especialistas participam da reportagem indiretamente, para esclarecer dúvidas. Com eles, o repórter elimina lacunas que podem complicar o entendimento do noticiário esportivo pelo público.

Todas as pessoas envolvidas de forma direta ou indireta na notícia são fontes de consulta para o repórter esportivo. O jornalista escolhe os entrevistados que podem contribuir para o esclarecimento dos fatos. Sempre haverá rivais numa disputa, seja ela individual ou coletiva. O repórter deve mesclar todos os competidores, mostrando as chances de cada um na competição. A entrevista com diversos profissionais serve para ilustrar o que prejudica ou contribui para a performance do atleta, sejam esses dados condicionados ao aspecto físico, tático, técnico, político ou estrutural.

As perguntas devem ser sempre abertas, diretamente relacionadas ao assunto, mas sempre apresentando a possibilidade de um diálogo entre a fonte e o jornalista como forma de adquirir dados para esclarecer a importância de um fato esportivo, sem privilegiar um ou outro competidor, mesmo sendo ele favorito numa disputa. Com a pesquisa e as entrevistas realizadas, o jornalista esportivo parte para a fase decisiva da seleção dos dados que vai possibilitar a construção da reportagem.