No Brasil, na década de 80 em meio a diversas mudanças políticas e sociais, os profissionais que atuavam junto à infância e a adolescência começaram a passar por um processo de formação que privilegiava, na maioria das vezes, “[...] a promoção da inclusão social, visando preparar o educador para estar envolvido com questões sociais, afetivas, metropolitanas, familiares e outras” (RODRIGUES, 2005, p.271).
Atualmente são diversos os campos de atuação do educador social como: presídios, asilos, instituições de cumprimento de medidas sócio-educativas, programas de redução de danos de drogas, instituições de contra turno social, dentre outros espaços.
Em relação à função que exerce um educador social encontramos em Graciani (2005) um referencial que reflete profundamente sobre o papel deste educador. A autora define o educador social de rua como: “[...] um agente, intelectual orgânico, comprometido com a luta das camadas populares, que elabora junto com os movimentos um saber militante, captado na vida emergente dos marginalizados urbanos de rua” (GRACIANI, 2005, p.29). Ou seja, o educador social extrapola o papel de mediador do conhecimento e atua junto à população nas suas reivindicações.
Compreendemos que a formação do educador social precisa ser ampla, no sentido de que deve abranger o conhecimento específico de sua área de formação, (no caso dos educadores entrevistados a Educação Física), o conhecimento da trajetória das políticas sobre a infância e a adolescência, e uma formação política. Partindo da definição de que a formação do educador social de rua precisa ser comprometida com a luta das classes populares, assumimos que o foco da formação do educador social não pode estar desvinculado desse compromisso. A partir das falas dos educadores sociais entrevistados elaboramos três categorias de análise:
a) Atuação Profissional: Os educadores trouxeram muitos anseios e reflexões sobre sua função no contra turno social, nesta categoria, é possível observar traços de despreparo profissional dos educadores em relação a sua atuação. Segundo Graciani (2005, p.208), o educador social de rua é,
[...] um mediador do diálogo do educando com o conhecimento. Assumindo a intervenção, a diretividade do processo, revê a diferença entre o seu saber e o saber do educando e compromete-se com a assimetria inicial, caminhando na direção de diminuir gradativamente essa diferença. Ter intencionalidade, dirigir, é ter uma proposta clara do trabalho pedagógico, é propor e não impor, é desafiar o educando para aprender a pensar, elaborar e criar conhecimentos.
Portanto, a atuação profissional do educador social é complexa e exige deste um constante exercício reflexivo. Neste sentido, consideramos que o educador com formação em Educação Física que atua junto às crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social é antes de tudo um educador que não deve restringir sua atuação ao preenchimento do tempo das crianças e adolescentes com práticas lúdico-esportivas. Pelo contrário, as práticas lúdico-esportivas precisam estar conectadas a um projeto mais amplo que supere a simples execução de atividades e reflita sobre o seu papel político e social.
Nas entrevistas com os educadores estava explícito que o objetivo da sua atuação nas instituições de contra turno social para eles era confuso. A maioria dos educadores apontava que sua atuação deveria estar focada na prática esportiva: “Acho que nossa função aqui é valorizar o esporte porque na escola eles já ficam num lugar mais fechado”
A atribuição desta única função ao educador social com formação em Educação Física, descartava uma série de outras possibilidades de intervenção educacional que poderiam ser desenvolvidas nas instituições. Entretanto, um dos educadores entrevistados compreendia de forma diferente sua atuação. Entendia que esta ação educativa superava a prática de atividades lúdico-esportivas, alcançando objetivos mais amplos e abrindo possibilidades de atuar criticamente junto aos seus educandos.
Refletir sobre o trabalho educativo com adolescentes nesta perspectiva mais ampla, implica no comprometimento do educador de não estar ali na sua oficina, apenas transmitindo alguns conteúdos, deixando de lado as inúmeras possibilidades de intervenção e de conteúdos.
De acordo com FREIRE (1996, p.1), o educador precisa compreender que a sua presença na instituição: “[...] não pode passar despercebida dos alunos na classe e na escola, é
uma presença em si política. Enquanto presença não posso ser uma omissão, mas um sujeito de opções”. Um sujeito educador que deve expor todas as suas potencialidades, enfim um educador que seja generoso com os seus educandos no desenvolvimento do seu trabalho pedagógico.
As diversas formas de compreender a atuação dos educadores no contra turno social, podem ser também decorrência da dificuldade de reconhecimento da identidade deste profissional. Esta identidade é prejudicada pela ausência de leis trabalhistas definidas, pela falta de representatividade de classe, assim como por uma falta de referência para a formação deste profissional.
Identificamos nas falas dos educadores que estes atuam, na maioria das vezes, utilizando para o seu bom senso imediato, e não apoiados num planejamento metodológico construído e pensado cuidadosamente anteriormente a sua ação educativa:
“No contra turno você não assume completamente sua profissão (de professor de Educação Física), o que você estudou, você vai fazer outras coisas, o mínimo que você tem do seu conhecimento você usa aqui em termos de desporto” E1
“No meio da semana tem um período específico pra fazer planejamento. Aí, depende do que eu preciso, eu faço pra uma semana, duas semanas, escrevo num caderninho e a cada dois, três meses ele (o coordenador) pega dá uma olhada, mas eu sempre estou planejando e no final do mês a gente faz um planejamento geral que entrega pra ele” E6
Graciani (2005) afirma que o trabalho desenvolvido pelos educadores sociais sempre apresentou uma característica de ser um trabalho de reflexão e diálogo entre seus pares. Entretanto, o cenário desenhado pelas falas dos educadores entrevistados nos revelava características diferentes as quais eram realizadas nas instituições pesquisadas. As parcerias e momentos de reflexão em conjunto com outros educadores não são muito privilegiados dentro da estrutura institucionalizada.
As instituições priorizavam a quantidade e a ocupação do tempo no atendimento às crianças e adolescentes em detrimento do tempo de planejamento e discussão sobre a prática.
Este fato pode refletir na dificuldade de constituir uma educação crítica e reflexiva nestes espaços educativos.
Gohn (2006) aponta a metodologia como uma deficiência do campo da Educação Não Formal, defendendo a necessidade da reflexão e sistematização de metodologias sem perder de vista, entretanto, a característica essencial de movimento e provisoriedade que marca a Educação Não-Formal.
É a partir desta característica de movimento, desta procura que envolve tanto educandos quanto educadores que se inicia o processo de diálogo presente no que Freire (2005, p.87) chama de educação como prática da liberdade, “[...] É o momento em que se realiza a investigação do que chamamos de universo temático do povo ou o conjunto de seus temas geradores”.
Sendo assim, o planejamento precisa incluir de fato o educando, pois deixando ele de fora do processo negamos o princípio fundamental da ação educativa que é o diálogo. Entendemos que, este fazer junto na definição do planejamento, não deve acontecer apenas em momentos esporádicos, e não pode ser entendido apenas como uma “concessão” ao educando por alguns momentos. Nas falas dos educadores, ficou claro que os educandos participavam das decisões sobre as atividades das oficinas, mas nos momentos em que os educadores permitiam ou seja, em dias livres, ou ainda em momentos específicos como em uma apresentação de data comemorativas, o que não caracterizava um planejamento determinado através da reflexão coletiva do grupo.
Constatamos uma contradição na fala dos educadores. Mesmo afirmando muitas vezes que os educandos não participavam dos planejamentos, uma educadora deixou transparecer que valorizava o diálogo com os educandos no sentido de modificar as oficinas: “No esporte a gente acaba na regra, mas quando a gente os ouve, vê que dá pra fazer coisas diferentes, pode estar criando outras coisas. É legal, igual a gente sempre trabalhava na quadra, depois que eu conversei com eles não, eu nem sabia que existia a oportunidade de ir num campinho, outros lugares e pra mim não, tinha que ser na quadra, por isso tem que trabalhar em parceria com eles, a gente começa a ver as coisas que não estão na nossa realidade, que eles conhecem.” E5
A sensibilidade dessa educadora em relação aos conhecimentos e anseios do grupo de adolescentes pode ser compreendida como uma tentativa de saber escutar, pois só escutando realmente é que o educador consegue falar com os educandos. Freire (1996, p.128) aponta que o educador que sabe escutar:
Até quando, necessariamente, fala contra posições ou concepções do outro, fala como sujeito da escuta de sua fala crítica e não como objeto do seu discurso. O educador que escuta aprende a difícil lição de transformar o seu discurso, às vezes necessário, ao aluno, em uma fala com ele.
Sendo assim, compreendemos que os educadores com uma postura atenta a fala dos educandos podem vir a desenvolver uma ação educativa menos impositiva no sentido de que, não fortalecem uma relação autoritária, e sim de diálogo com os educandos.
b) Os Adolescentes para os Educadores: Nas entrevistas com os educadores, quando indagados sobre a visão que tinham de seus educandos, ficou explícito que compreendiam basicamente duas formas sobre a condição de vida dos adolescentes. A primeira forma identificada foi de compreendê-los como adolescentes em situação de vulnerabilidade social e que tinham realidades de vida muito difícil: “A condição de vida (dos adolescentes) é bem restrita, é o básico do básico, é uma sobrevivência, muitos não têm o que comer” E4
A fala deste educador nos indicava que, quando pensava no seu educando, pensava este sujeito com o mundo, não concebendo uma dicotomia entre homem e mundo. A fala do educador caminha na direção da educação problematizadora que:
[...] parte exatamente do caráter histórico e da historicidade dos homens. Por isso mesmo é que os reconhece como seres sendo, como seres inacabados, inconclusos, em e com uma realidade que, sendo histórica também, é igualmente inacabada (FREIRE, 2005, p.83).
A educação problematizadora parte da premissa de que o mundo está em contínuo movimento transformador, e que os homens não são objetos passivos neste movimento. Pelo contrário, apreendem o homem como ponto de partida deste movimento, não o homem isolado, o homem em relação com o mundo.
A segunda visão sobre os adolescentes expressada nas entrevistas com os educadores, referia-se ao adolescente como único culpado por permanecer com uma condição de vida precária, compreendendo-o como ser isolado da realidade: “a gente tenta encaminhar, mas muitos desistem, são assim, de dez continua dois, três que vão firme. Aqui eles têm muitas coisas de graça, mas mesmo assim, igual o dentista é tudo completo, gratuito, oftalmologista, não se interessam por nada do que é bom.”E1
Esta forma de compreender as relações entre a situação sócio-econômica dos educandos e as oportunidades que a instituição oferecia a eles com o intuito de “mudar” de condição de vida; revelava o entendimento que, pontuais oportunidades de integração do educando a sociedade que o educador/instituição considerava como ideal e única, podem realmente transformar sua situação de vida precária. Desta forma, configurava-se uma ação social paternalista e não problematizadora e libertadora. Os educandos eram considerados:
[...] casos individuais, meros ‘marginalizados’, que discrepam da fisionomia geral da sociedade. ‘Esta é boa, organizada e justa. Os oprimidos, como casos individuais, são patologia da sociedade sã, que precisa, por isto mesmo, ajustá-los a ela, mudando-lhes a mentalidade de homens ineptos e preguiçosos’ (FREIRE, 2005, p.69)