sexualidade infantil e orientacao sexual na escola

Introdução a Sexologia

1 SEXUALIDADE INFANTIL E ORIENTAÇÃO SEXUAL NA ESCOLA NO PROCESSO EDUCATIVO

Unidade I: Reflexões históricas sobre o conceito de sexualidade

Neste capítulo, você vai conhecer um pouco do histórico da Sexualidade pela compreensão de nossas práticas educativas relacionadas a esta questão. Vamos lá! Muitas vezes, as pessoas pensam que falar sobre SEXUALIDADE é assunto sempre complicado. Mas a sociedade já se deparou com esta questão de forma mais natural. A partir da arte rupestre , foram registradas ocorrências de condutas sexuais datadas de mais de 22 mil anos, apontando semelhanças do ato sexual humano com o comportamento dos demais animais.

Quando os grupos deixaram de ser nômades, surgiram novas organizações sociais que buscaram estruturar formas de garantir e preservar sua subsistência por meio de grupos nucleares (gênese da estruturação familiar). No entanto, o conceito de família passa, constantemente, por transformações históricas e culturais. Essas mudanças relacionam-se direta ou indiretamente com o conceito de sexualidade. Mudanças comportamentais dos séculos seguintes identificaram um local e uma condição para que o sexo ocorra: a FAMÍLIA e o CASAMENTO. Tais medidas foram fundamentas pela ética cristã e o direito canônico. Neste contexto, o sexo ficou diretamente relacionado à reprodução. O comportamento de crianças e jovens passou a ser mais vigiado e controlado. A influência religiosa, pelo controle da confissão, teve acesso inclusive aos pensamentos, que passaram a ser descritos e condenados como pecaminosos.

Shicasho e Manzini (1999) pontuaram que os comportamentos repressores em relação às crianças e adolescentes, perpassaram os séculos XIX e XX. Podemos considerar que nos dias atuais permanecem presentes. Aspectos culturais e históricos favoreceram diferentes concepções sobre a sexualidade humana. Ainda no momento atual, há contradições, muitas vezes, dentro da escola e da própria família, sobre o comportamento sexual das crianças. Temas como:

Gênero

Identidade sexual

Papéis sexuais

Orientação sexual

Erotismo

Prazer

Intimidade e reprodução são ainda bastante conflituosos Mas, efetivamente, o que entendemos por Sexualidade? Segundo a Organização Mundial da Saúde, a sexualidade é um aspecto central de ser humano, presente durante toda a vida. Além do sexo, também aborda as questões de gênero , as identidades e os papéis do indivíduo, sua orientação sexual, erotismo, e reprodução. Pode ser expressa por meio de pensamentos, fantasias, desejos, opiniões, atitudes, valores, comportamentos, papéis e relacionamentos. Por tratar de todas essas dimensões, é influenciada pela interação de fatores biológicos, psicológicos, sociais, econômicos, políticos, culturais, éticos, legais, históricos, religiosos e espirituais (WHO, Acesso em 20.08.2007).

Unidade II: Sexualidade e Deficiência: Mitos e Desafios

Tratar do tema sexualidade já é algo polêmico, imagine só quando envolve a questão da deficiência. Em pesquisa sobre a produção bibliográfica no período de 1990 a 2003, em banco de dados da Bireme, Bastos e Deslandes (2005) localizaram apenas 13 artigos relacionados a este tema. Outros autores, como Denari (2002), Maia (2006), ressaltaram o quanto este tema merece melhor atenção.

Na primeira unidade, propositadamente, não tocamos na questão da sexualidade da pessoa com deficiência. Vocês imaginam por quê? Vou dar uma dica. Vamos interromper um pouquinho nossa leitura e dar uma olhada neste trecho de vídeo: [cena 12, filme: Reflexos de uma amizade

Depois de assistir ao trecho do filme indicado, algumas questões são importantes para a nossa reflexão e planejamento de futuras práticas educativas, tais como:

1) Além das nomeações que mudaram no decorrer do tempo em que os amigos estiveram separados, o que mudou na vida de Pappas?

2) Analisando as mudanças relacionadas à sexualidade na vida de Tom nesses anos que passaram (casou-se, teve filhos, está em crise etc...) a que conclusões você chegar a respeito da sexualidade de Pappas?

3) Poderia ser diferente? Como?

Importante!!!!

Embora o resultado destas reflexões, bem como outras que possam surgir, não necessite ser postado no ambiente, no entanto, serão importantes para atividade de planejamento no final do caderno. Historicamente, a questão da sexualidade da pessoa com deficiência foi negada, negligenciada ou omitida. Partimos de condições em que as pessoas com qualquer tipo de deficiência eram sacrificadas, posteriormente, toleradas, mas não consideradas como seres humanos e, por isso, destituídas de todos os direitos. Não possuindo cidadania, não tinham direito à herança e não podiam casar-se. Em um momento no qual a sociedade determinou que a condição para que houvesse uma conduta sexual seria o casamento, não ter direito ao mesmo era sinônimo de ser assexuado (JANUZZI, 1992). Mesmo quando, por parte da nobreza, asseguraram-se alguns direitos, o mito de que as pessoas com deficiência mental seriam assexuadas ainda permaneceu. Em algumas vezes, ainda se apresenta em atitudes bastante preconceituosas da sociedade atual.

A sexualidade não se restringe ao ato sexual, envolve também o que as pessoas sentem, fazem e pensam sobre si e as pessoas com quem se relacionam. No entanto, para controle da conduta sexual, muitas vezes, a sociedade procurou incutir sentimentos de culpa e vergonha em relação a vivência da mesma (BASTOS; DESLANDES, 2005). É óbvio que não haveria como controlar a conduta sexual de alguém e, por mais que se tenha buscado mecanismos de controle e punição, diretos ou indiretos, por vezes, ocorriam condutas que não eram as mais desejáveis, como o onanismo público e/ou outras exposições consideradas obscenas pelas normas sociais

Nesta condição, parte-se de um extremo em que o indivíduo seria assexuado, para um outro mito de que a pessoa com deficiência mental teria uma sexualidade exacerbada. A sexualidade das pessoas com deficiência mental ainda é algo pouco estudado, carregado de crenças e mitos que se misturam a estereótipos (MAIA, 2006). Faz-se necessário o desenvolvimento de posturas que reconheçam e respeitem as necessidades da pessoa com deficiência, em relação a seus direitos, vontades e sentimentos. Ou seja, ora ele não tem desejo, nem identidade sexual, é visto como um anjo, ora ele é um tarado com manifestações públicas e compreendidas como violentas em relação à sexualidade. O que permanece em todas as épocas é a ausência de direitos e a crença em sua incapacidade de entender, fazer escolhas e ter sentimentos.

Como desmistificar estas questões?

1) Todos nós somos pessoas sexuadas e aí estão incluídas todas as pessoas, com ou sem deficiência. Uma das dificuldades para discussão da sexualidade das pessoas com deficiência é a ausência de relatos sobre o assunto, conforme apontado por Bastos e Deslandes (2005). Não falar sobre o assunto é uma forma de sustentar a idéia de que eles não teriam direito a sexualidade. Maia (2006) apontou que não se questiona a sexualidade das pessoas com deficiência negando a sua existência, como se a simples negação tornasse o fato verdadeiro. No entanto, a sexualidade é inerente a todo o ser humano, com ou sem deficiência. Em resposta a esta questão a autora afirma que:

[...] há uma necessidade de que estas pessoas também recebam informações adequadas sobre sexualidade para autoconhecimento e, também, esclarecimentos e orientações sobre as questões que possam gerar dúvidas e angústias para auxiliá-los na efetivação de relacionamentos afetivos e sexuais, se assim forem desejados (MAIA, 2006, p. 79).

2) As modificações físicas, próprias da puberdade, acontecem naturalmente para as pessoas com deficiência mental. Alguns adolescentes, porém, não sabem bem como lidar com as novas sensações, por isso, os déficits estão relacionados ao controle dos impulsos sexuais. Isso ocorre principalmente pela omissão de informações, principalmente quando a família e a escola continuam tratando-os eternamente como crianças. Condutas que incomodam, como a masturbação em local público, podem ser orientadas de acordo com o nível de compreensão de cada um. Da mesma forma, mesmo uma criança ou adolescente que não tenha histórico de deficiência, mas que não receba orientação sobre as transformações do seu próprio corpo e como lidar com os impulsos sexuais, também poderá ter condutas inadequadas socialmente.

Conforme nos apontam Poppi e Manzini (1999) a ausência da sexualidade deve preocupar mais do que sua existência. O desafio consiste em realizar programas de orientação sexual satisfatórios, que atendam às necessidades das pessoas com ou sem deficiência, bem como o esclarecimento de familiares e educadores que ainda têm dificuldades frente a esta questão.