Psicopatologia freudiana
Noções Básicas em Psicopatologia
1 Psicopatologia da Angústia: da Neurose à Ansiedade
Sigmund Freud propõe-nos uma classificação das Neuroses, distinguindo entre Neuroses atuais (Neurastenia e Neurose de Angústia) e psiconeuroses (Neurose histérica e Neurose obsessiva).,
Começaremos por nos debruçar sobre as primeiras, também designadas por Neuroses do momento atual ou contemporâneo.O fundador da Psicanálise vai procurar diferenciar a Neurose de Angústia da Neurastenia, argumentando que as suas etiologia e sintomatologia clínica são distintas.
Assim sendo, enquanto a Neurastenia de Beard engloba nos seus sintomas mais típicos a pressão intracraniana, fadiga, irritação espinhal, dispepsia e obstipação, já a neurose de angústia apresenta como denominador comum dos seus sintomas somáticos o sentimento de angústia.
Deste modo, a taquicardia, hiperventilação, hipersudorese, tremores e parestesias, entre outros, apresentam uma estreita relação com aquilo que Freud designa por expectativa angustiada, sendo esta o sintoma nuclear da neurose.
Ou seja, Freud mostra-nos como a angústia é voltada para o futuro, sob a forma de ansiedade crónica. Por outro lado, embora ambas as Neuroses atuais tenham a sua origem na esfera somática da sexualidade, a neurose de angústia também pode ser precipitada por excesso de trabalho ou esforço exaustivo.
Nas duas entidades clínicas, encontramos uma etiologia que tem por base a esfera somática da sexualidade, havendo num caso acumulação de excitação (neurose de angústia) e no outro empobrecimento da excitação (Neurastenia).
Ou seja, na neurose de angústia a excitação sexual somática não encontra descarga no campo psíquico. Torna-se consequência de todos os factores que impedem que a energia somática seja psiquicamente elaborada.
Ou seja, existe uma insuficiência psíquica para fazer face ao excesso de excitação somática. Daí que na neurose de angústia, seja frequente haver diminuição do desejo psíquico.
Contrariamente às Neuroses Atuais nas quais não é possível encontrar uma etiologia psíquica, já as psiconeuroses apresentam as suas raízes na esfera psíquica da sexualidade.
Em relação á neurose histérica, Freud propõe o mecanismo de defesa da conversão através da dissociação entre afeto e representação do afeto. Ou seja, para além do recalcamento da memória ligada ao afeto, existiria uma conversão de excitação psíquica em excitação somática, a qual pode ser sensorial ou motora mas sempre relacionada com a experiência traumática.
Se na neurose histérica a expressão sintomática ocorre no domínio somático, na neurose obsessiva, pelo contrário, o afeto que foi separado da sua memória correspondente permanece na esfera psíquica. Ao persistir livre na consciência vai ligar-se a outras representações mnésicas, constituindo dessa forma, ideias obsessivas.
Em todo o caso, em ambas as psiconeuroses opera o recalcamento de representações da sexualidade psíquica. Noutro trabalho,Freud coloca a interessante hipótese de na neurose obsessiva operar um outro mecanismo que consiste na substituição de uma ideia perigosa por outra menos perigosa.
Assim sendo, a ideia obsessiva seria menos perigosa que a representação mnésica recalcada. Qual seria então o motivo da substituição? Freud considera que em causa estaria o mecanismo de defesa do ego do recalcamento com vista à proteção deste de níveis ainda maiores de angústia. Noutra publicação, Freud partindo da noção de que as psiconeuroses têm a sua origem no recalcamento de uma ideia intolerável ligada á sexualidade psíquica, vai nos esclarecer que na neurose histérica estaríamos em presença de um trauma vivenciado passivamente, enquanto na neurose obsessiva estaria em jogo uma experiência traumática ativa.
Deste modo, as autoacusações obsessivas teriam como base subjacente o sentimento de culpabilidade pelo prazer experienciado. Por último, em publicação posterior Freud vai colocar em hipótese mais um mecanismo psíquico na formação de uma neurose obsessiva.
Ocupa-se do problema da escolha da neurose obsessiva, procurando alguma especificidade etiológica. Aqui é a favor de um modelo de continuidade entre personalidade obsessiva e neurose obsessiva, a partir do mecanismo de regressão (provocado por uma frustração) ao estádio/carácter anal, onde predominariam alguns mecanismos de defesa como a escrupulosidade, preocupação pela limpeza, superioridade moral, entre outros. Numa publicação anterior o fundador da Psicanálise vai distinguir vários tipos de desencadeamento de neuroses. A este nível, refere que nalguns casos a origem da neurose seria maioritariamente causada por uma frustração externa, donde a predominância de sintomas mais focais, isto é, menos ancorados na personalidade pré-mórbida.
Noutros casos, a origem da neurose teria como precipitante uma frustração ou obstáculo interno (fixação) que seria precipitada por uma mudança externa.São os casos do aparecimento de sintomas quando os doentes estão muito próximos de alcançar um êxito pessoal ou profissional. Em terceiro lugar, aparece um outro tipo que seria um exagero patológico do segundo.
Isto é, haveria uma fixação e inibição do desenvolvimento psíquico, pelo que os sintomas tipicamente teriam o seu início na passagem da infância para a adolescência, aquando do aparecimento de novas exigências da realidade.
Na publicação “Inibição, Sintoma e Angústia”, Freud vai-nos trazer uma formulação complementar sobre as Neuroses nas suas relações com a Ansiedade. Começa por salientar que nem todas as neuroses apresentam ansiedade, como é o caso da “belle indiference” da conversão histérica.
Ao contrário das suas formulações iniciais em que atribui grande valor etiopatogénico à sexualidade reprimida, aqui vai colocar a hipótese de a ansiedade ser uma reação a uma situação de perigo que foi internalizado pelo sujeito.
Donde, os sintomas de ansiedade teriam como função evitar níveis de ansiedade ainda maiores. Ou seja, a formação de sintomas põe termo á situação de perigo. Podemos dar como exemplo o caso das fobias, onde através do mecanismo de defesa de deslocamento, o perigo que outrora pertencia ao instinto interno é agora deslocado para um domínio perceptual e externo.
Deste modo, em vez de sentir ansiedade permanente, o doente só tem ansiedade quando encontra o objeto fobógeno para o qual deslocou o seu conflito interno.
A partir daqui, Freud vai distinguir entre ansiedade realística e ansiedade neurótica: enquanto na primeira o perigo é conhecido, já na segunda o perigo é desconhecido, uma vez que o doente não sabe qual o perigo internalizado que está a deslocar para o estímulo ansiogénico.Existem também casos em que as duas ansiedades aparecem juntas. Nestes, a ansiedade reativa ao estímulo ansiogénico é desproporcional ao perigo real. É também nesta publicação que Freud nos introduz as questões de ganhos primário e secundário.
O primeiro diz respeito à diminuição da tensão das instâncias psíquica (id, ego e superego) através da formação de sintomas. Pelo contrário, o ganho secundário refere-se às vantagens que o doente retira dos sintomas. Essas vantagens podem ser de ordem financeira ou de reforço emocional para a auto-estima do paciente.
2 A distinção entre Luto e Depressão
Apesar da sintomatologia do Luto e da Depressão ser bastante semelhante várias diferenças psicopatológicas podem ser adiantadas. Em primeiro lugar, na depressão há uma perda importante da auto-estima, um “empobrecimento do ego”, ou seja o próprio perdeu o seu valor pessoal, ao contrário do Luto em que a auto-estima mantém-se apesar do desinteresse no mundo externo.
Por outro lado, na Depressão há um desajuste muito grande entre a destruição da auto-estima e o motivo real que terá desencadeado o quadro clínico.Embora tanto no Luto como na Depressão, o fator precipitante possa ser uma perda, no caso do Luto está em questão uma perda real e consciente para o doente, enquanto na Depressão o que se perde é o amor e afeto da relação com essa pessoa.
Muitas vezes essa perda emocional está fora do campo da consciência do deprimido, pelo que Freud referia que o doente não sabe o que perdeu.É como se esta perda emocional fosse sentida como perda do próprio doente. Ao dirigir a culpabilidade da perda emocional para si próprio, o doente deprimido dirige a raiva e agressividade para si próprio, o que leva à destruição da sua auto-estima.
É como se esta perda emocional fosse sentida como perda do próprio doente. Ao dirigir a culpabilidade da perda emocional para si próprio, o doente deprimido dirige a raiva e agressividade para si próprio, o que leva à destruição da sua auto-estima.
É comum na prática clínica das Depressões encontrarmos a pessoa amada presente mas emocionalmente ausente.Daí que Freud falasse na Depressão como uma Neurose narcísica, pois o seu sinal patognomónico é a destruição do narcisismo (amor próprio).
Obviamente que a perda emocional da pessoa amada não é suficiente para explicar uma evolução psicopatológica no sentido de uma Depressão.
Aqui Freud dá-nos algumas pistas para solucionar este passo intermédio. Começa por referir que o estilo relacional do enlutado e do deprimido que precedem a perda são diferentes: no Luto seria uma relação neutra enquanto na Depressão a relação seria pautada por um conflito ambivalente com sentimentos de amor e ódio para com a pessoa amada.
Para Freud, é justamente esta relação de ambivalência que é mantida fora da consciência, um dos principais obstáculos ao trabalho de luto no deprimido.Deste modo, parece existir uma identificação do deprimido com os aspectos frustrantes da relação com a pessoa amada.
Daí a frase “A sombra do objeto que paira sobre o sujeito” . São esses aspectos frustrantes da relação emocional que são voltados contra o próprio ego do deprimido de forma auto-acusatória e culpabilizante.
Para Freud, a própria escolha da pessoa amada no deprimido já seria em si mesma uma “escolha narcísica”isto é, um estilo relacional capaz de garantir e preservar o amor-próprio do futuro deprimido.
Em conclusão, poderíamos apontar como principais mecanismos psicopatológicos dinâmicos na Depressão, a perda emocional, o conflito ambivalente e a direção da raiva, agressividade e culpa para o próprio.
3 As distinções entre Neurose e Psicose
No seu trabalho sobre as psiconeuroses de defesa, Freud vai distinguir entre defesa neurótica e psicótica com base em dois casos clínicos de lutos patológicos delirantes.Refere que há entretanto, uma espécie de defesa muito mais poderosa e bem-sucedida. Nela, o Eu rejeita a representação intolerável juntamente com o seu afeto e se comporta como se esta jamais tivesse ocorrido.
Ou seja, ao livrar-se de uma ideia intolerável, perde também o contato com o fragmento de realidade ao qual esta está ligada.Posteriormente, em 1924 vai retomar toda esta problemática. Considera que uma das principais diferenças entre Neurose e Psicose diz respeito ao fato de na Neurose o conflito se situar entre o ego e o id, enquanto nas psicoses estaríamos em presença de um conflito entre o Eu e o mundo externo.
Por outro lado, na neurose o ego mesmo em conflito com o id mantém-se ao serviço do superego e da realidade, enquanto na psicose o ego desiste do compromisso com o real e passa a estar em harmonia com os impulsos do id.
Para Freud, é com base nas emoções do id que se vão formar os conteúdos dos sintomas heterólogos, funcionando estes como uma compensação da lacuna que existe entre o ego e a realidade externa.Apesar de em ambas as situações (Neurose e Psicose) o conflito ser despertado por uma frustração, a dissociação seria mais grave nas segundas, tendo em conta o mecanismo de divisão do Ego que causa a perda de unidade da personalidade.
Mais tarde na publicação A perda da realidade na neurose e psicose,Freud vai dissecar ainda mais as principais diferenças entre estas duas entidades clínicas.Começa por sublinhar que na Neurose predomina a relação e compromisso com a realidade externa, ao passo que na Psicose predomina as exigências dos instintos do id.
A um outro nível, na neurose primeiro existe um investimento na realidade seguido de uma fuga mas sem a repudiar.Pelo contrário, na Psicose existe um primeiro movimento de afastamento em relação ao real (Autismo de Bleuler) e um posterior re-investimento na mesma, embora de forma patológica, uma vez que há uma tentativa de substitui-la
Freud e as Esquizofrenias através de Bleuler
Freud irá debruçar-se sobre as Esquizofrenias pela primeira vez no seu trabalho sobre o caso do Presidente Schreber.É aqui que avança com a possibilidade de os sintomas heterólogos (delírios e alucinações)constituírem tentativas de restituição/remodelação da realidade, de acordo com a patobiografia dos doentes.
Compara a Paranoia á Esquizofrenia, considerando que a retirada da libido (energia mental vital na terminologia de Jung)na segunda é muito maior e mais precoce em relação á primeira patologia.Ou seja, os sintomas heterólogos teriam como objectivo o re-investimento da libido no mundo externo como forma de fazer face á referida retirada libidinal prévia.Posteriormente no trabalho “Introdução ao Narcisismo” , considera que nas Esquizofrenias haveria um excesso de libido narcísica (voltada para o próprio) e défice de libido objectal (voltada para o exterior).
Curiosamente, Freud considerava as Esquizofrenias como não analisáveis devido a este excesso de libido voltada para o próprio, o que impossibilitaria o emergir de transferência para o psicanalista.Contudo, as ideias de Freud sobre a “Interpretação de Sonhos” (1900) teriam uma profunda influência em Eugen Bleuler, o qual viria a operacionalizá-las na teoria e clínica das Esquizofrenias na escola de Zurique.
Era Bleuler quem afirmava que a sua teoria sobre as Esquizofrenias não era mais do que a aplicação das ideias de Freud sobre a Demência Precoce.
Apesar de o sintoma primário da doença (Afrouxamento das Associações) ter uma etiopatogenia predominantemente orgânica, toda a restante sintomatologia da doença é de natureza psicogênica.Ou seja, seriam formas patológicas de voltar a estabelecer contacto com a realidade mais objetiva.
Bleuler vai utilizar de forma eloquente o processo primário (funcionamento inconsciente e emocional) proposto por Freud em 1900 para tornar compreensíveis os sintomas heterólogos através das emoções inconscientes de medo e desejo presentes nas histórias clínicas dos seus doentes.
Em relação aos sintomas principais, aquele que nos parece ter maior proximidade com as ideias de Freud é o conceito de Autismo Bleuleriano. Este, é-nos apresentado como tendo muito pouca diferença com o auto-erotismo proposto por Freud.
Por outro lado, a dificuldade em contactar com os outros, tendência ao isolamento, negativismo, indiferença, atitudes e comportamentos rígidos e vulnerabilidade aos sintomas heterólogos colocam em evidência o conflito proposto por Freud entre o Eu e o mundo externo.
A relação entre Autismo, Sonho e Psicose também é sublinhada por Bleuler, ao referir-se aos doentes com Autismo:
Em compensação eles vivem num mundo de sonho, que para eles se torna realidade . Na mesma linha de pensamento, Freud refere que nas psicoses o mundo exterior não é percepcionado, ou a sua percepção não é valorizada pelos doentes.Isto é: também o mundo interno, que, como cópia do mundo externo, até agora o representou, perde sua significação.
Salienta também um “novo mundo” se vai formando de acordo com os desejos do id, dissociado da realidade externa, devido a frustrações intoleráveis provenientes desta última. Por último, argumenta que nas psicoses o mundo de fantasia, correspondente do Autismo Bleuleriano, vai ter uma importância crucial na perda de contacto com a realidade.
Ou seja, é justamente esta realidade interna que o doente procura colocar como substituto da realidade externa
4 Diferença entre Ego, Superego e Id
O Ego, o Superego e o Id são instâncias que formam a psique humana. Isto de acordo com a Teoria da Personalidade, desenvolvida por Sigmund Freud em seus estudos sobre a psicanálise.
O que é Id?
O Id é o componente nato dos indivíduos, ou seja, as pessoas nascem com ele. Consiste nos desejos, vontades e pulsões primitivas, formado principalmente pelos instintos e desejos orgânicos pelo prazer.
A partir do ID, desenvolvem-se as outras partes que compõem a personalidade humana: Ego e Superego.
O que é Ego?
O Ego surge a partir da interação do ser humano com a sua realidade, adequando seus instintos primitivos (o Id) com o ambiente em que vive. É também chamado de "princípio da realidade".
É o mecanismo responsável pelo equilíbrio da psique. Ele procura regular os impulsos do Id, ao mesmo tempo que tenta satisfazê-los de modo menos imediatista e mais realista.Graças ao Ego, a pessoa consegue manter a sanidade da sua personalidade. O Ego começa a se desenvolver já nos primeiros anos de vida do indivíduo.
O que é Superego?
O Superego se desenvolve a partir do Ego e consiste na representação dos ideais e valores morais e culturais do indivíduo.O Superego atua como um “conselheiro” para o Ego. Isto porque o alerta sobre o que é ou não moralmente aceito, segundo os princípios que foram absorvidos pela pessoa ao longo de sua vida.
De acordo com Freud, o Superego começa a se desenvolver a partir do quinto ano de vida. É quando o contato com a sociedade começa a se intensificar (através da escola, por exemplo).A partir dos cinco anos de idade, as relações sociais passam a ser melhor interpretadas pelos seres humanos.
Em suma, o Id, o Ego e o Superego são os três componentes da formação da personalidade. São as representações da impulsividade, da racionalidade e da moralidade, respectivamente.