Transtornos Alimentares ou um Impasse Dietético?
Noções Básicas em Psicopatologia
1 Transtornos Alimentares ou um Impasse Dietético?
C om tamanha repercussão nos dias de hoje, os transtornos alimentares – como define a nomenclatura psiquiátrica –, apresentam-se à psicanálise como um desafio que formaliza cada vez mais a presença de uma clínica do objeto. Isso porque, quando se examina o DSM IV, torna-se gritante a presença de um objeto que enlouquece o sujeito posicionado em um sintoma com o qual se vê envolto e que a medicina interpreta como “severas perturbações no comportamento alimentar” (DSM IV, 1995, p. 511). Esse exemplo é utilizado como uma referência para o leitor examinar a proliferação de categorias referentes aos transtornos da alimentação que existem no DSM-IV. A ideia é que, a partir desse ponto, possa-se imaginar algo que aconteça na vida do sujeito e que possa ser tomado como um impasse. Assim, a proposta deste trabalho é situar alguns pontos importantes de tal impasse subjetivo a partir de um momento primordial: a passagem da função nutriz para a função de amor, que pode ser deduzida da cadeia conhecida como necessidade/demanda/desejo. Na mesma linha de definição, o referido manual agrupa nessa classificação a anorexia nervosa e a bulimia nervosa e deixa a obesidade simples fora de uma definição de transtornos, justificada por uma falta de “associação consistente com uma síndrome psicológica ou comportamental” (DSM IV, 1995, p. 511). Quando há alguma associação, os sintomas são levados para o âmbito dos “fatores psicológicos que afetam a condição médica”. E, ainda, quando há a presença dos referidos transtornos na infância, tais como a pica, os transtornos de ruminação e os transtornos de alimentação da infância, diz o manual que se incluem não como transtornos alimentares e sim como transtornos da alimentação da infância.
Com tamanha especificidade classificatória, essa discussão faz elaborar, logo de saída, uma pergunta pela posição do sujeito frente ao objeto, uma vez que não se pode contentar com um sujeito que toma o alimento apenas pelo viés da necessidade de sobrevivência, senão por algo que o coloque na condição de existência e o faça construir um sentido para a vida. A justificativa para a elaboração dessa pergunta encontra sua consistência nos seguintes argumentos: acaso não há a ruptura de uma linha metonímica em que o desejo de comer forma uma espécie de vazio em que o sujeito admite preenchê-lo com nada ou com tudo? E, assim sendo, não se poderia pensar que, além de um transtorno alimentar, haveria o reavivamento de algo da ordem de uma inscrição? Uma inscrição que, havendo ocorrido em uma idade atravessada por um imperativo de tomada de posição do sujeito frente ao objeto de amor, é convocada em determinado momento a dar conta de uma desgraça quando esse sujeito tentava dar conta do sentido da vida?
Em suma, não se trataria de um impasse dietético muito mais do que um transtorno alimentar? Transtornos existem e sempre existirão. Entretanto, o que aqui interessa, pela via subjetiva, não será certamente cada transtorno em si, mas principalmente aquilo em nome do qual um determinado transtorno promove uma fixidez do sujeito numa posição de encantamento frente ao objeto. Para construir uma resposta frente a essas perguntas, alguns impasses dietéticos serão discutidos, a fim de termos um fio condutor para se compreender melhor o que é conhecido como transtornos alimentares. Antes, porém, uma rápida apresentação do que se entende por dietética.
A IMPORTÂNCIA DA DIETÉTICA
Um artigo publicado na Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental destaca três movimentos da dietética, importantes na invenção do homem, a partir de três mitos precisos para uma compreensão do conceito de subjetividade, vista pela ordem do aparelho psíquico. O mito do Gênesis e os impasses registrados para o crescimento e a multiplicação do homem; o mito de Theuth e os impasses que a invenção da escrita demonstra, na tentativa de posse e captura da memória e, por último, o mito da Horda Primitiva e as nuances de um amor impossível, que se reverte em culpa para os atores de um ato de aniquilação do corpo do pai, para facultar aos filhos a mesma condição, até então exclusiva do pai, de poderoso gozador de todas as mulheres. Com esses três mitos, pode-se deduzir a invenção do homem, no surgimento da fome, do verbo e do amor. E esses são três adventos importantes para a compreensão da limitação do termo transtorno, quando se trata da subjetividade daquele que sofre nas fronteiras desses impasses (Carneiro, 2000b).
Para ser mais preciso, a dietética pode ser tomada como um fio condutor que norteia as relações entre as pessoas. Com isso, pode-se resgatar a ética, os discursos, os saberes, enfim, a própria noção de subjetividade e, conseqüentemente, a própria formação do psiquismo. Autores como Foucault (1984) e Douglas (1966) apresentam um quadro mais conciso da importância da dietética, no campo relacional do homem. Entretanto, poucos psicanalistas estão atentos à importância que a dietética traz para uma atualização do dispositivo clínico, autêntica razão de ser da psicanálise. Se Foucault (1984) sublinha a dietética como a arte de viver dos gregos; se Douglas (1966) indica a dietética como o traço ético mais antigo da humanidade; se Derrida (1972), em sua famosa Farmácia de Platão, apresenta um minucioso estudo considerado pura dietética, a partir do mito da invenção da escrita, é porque certamente tudo isso configura um precioso instrumento de trabalho em torno da subjetividade, quando o limite do homem com o outro e consigo fica posto na báscula daquilo que ele come, representa e sustenta, em uma concepção dietética de existência. Em outras palavras, trata-se aqui de uma dietética que não pode ficar aferrada à concepção natural de um ato e, sim, de uma relação cultural que esse mesmo homem injeta nas várias formas de “adietarse” no contexto das relações sociais.
Assim, não se pode também tomar simplesmente o ato de confirmação ou negação da ingestão de alimentos como algo situado na esfera do natural. Nessa linha, a ingestão demasiada de alimentos ou a sua total recusa não remete apenas a uma questão sobre um determinado transtorno alimentar. Trata-se - e esta é a hipótese deste trabalho – de um dispositivo mais sofisticado, no qual comparece, com toda sua força, a posição do sujeito diante do objeto alimento e sua representação. Essa representação de que se fala agora divide um espaço dietético importante na bifurcação do homem biológico e do homem subjetivado. Quando se fala de dietética e dos consequentes sintomas que o homem contemporâneo exibe em série, tais como anorexia, bulimia, obesidade, pica e tantas outras modalidades de impasses, fala-se também de estados mais primitivos da subjetividade. Com isso, conclui-se que esses sintomas levam a pesquisar o que houve no momento desses impasses referidos anteriormente e que, em vez de o sujeito responder com uma simples nostalgia, responde com algo mais fixo, da ordem de uma severidade que pode chegar ao extremo do encontro literal com a morte ou, simplesmente, o enfrentamento com um efeito “dessubjetivante”
Por outro lado, a montagem que a dietética estabelece com o campo da ética e com o espaço da estética se deixa atravessar por uma ordem discursiva que pode ser resgatada pela psicanálise, desde que seja entendido que a dietética entra no campo psicanalítico pela via do desejo. Todas as operações de falta de objeto (Lacan, 1956-57) que se conhecem como frustração, privação e castração, acompanhadas da presença fundamental de um Outro primordial que instaura o desejo no sujeito, são importantes para se entenderem os impasses dietéticos estabelecidos em cada perda e em cada mito criado pelo sujeito para sustentar sua posição frente ao objeto. É assim que, no texto citado anteriormente, estabelecem-se a relação de importância do Gênesis para a invenção do homem, a partir de um ato dietético que aparece como uma espécie de reconsideração do imperativo proferido pelo Criador: “crescei e multiplicai-vos”. Cumpri-lo, obedecendo a uma diferença primordial entre o homem e as demais espécies, foi possível a partir de uma limitação sobre o que o casal primogênito não poderia ter acesso. Uma limitação que esboça claramente um ato dietético e sua vinculação com um ato subjetivo. Depois da transgressão ao mandato do Criador, comparece a alteridade e o desejo que se faz presente pelo vazio de uma divisão.
Da mesma forma, pode-se detectar um ato dietético situado na economia do verbo, quando se examina o momento da invenção da escrita no mito de Theuth. Há uma economia de excesso, na invenção dos hieróglifos. Tudo isso aparece já marcado por um desejo parricida que fica realçado na possibilidade que o filho demonstra em apoderar-se da memória paterna. Banquete de signos, morte do Pai, aniquilamento da memória, tudo isso forma uma grande confusão que pode ser traduzida no sofrimento que consiste, para o sujeito, na tarefa de reordenar uma cadeia significante capaz de sustentar sua existência.
Finalmente, o grande hilo aparece das garras do pai tirano. Amar todas as mulheres aparece como a mais deliciosa das tarefas a ser inventada para suportar a vida. Desgraçadamente, o amor se mostra na falta de um Amo consistente, o que leva a concluir que ele é um dom a ser inventado constantemente, pois sua consistência é falha, porém indispensável para ser buscada. Com essa apresentação, ilustra-se a importância da dietética na construção do psiquismo, sobretudo para reforçar a hipótese de que, na falha desse amor, o sujeito desvanece, falece e ressuscita das cinzas de uma torpeza deprimente que é a sensação de não poder viver só.
2 Impasse dietético: onde está o objeto?
Essa pergunta começa a se fazer presente muito cedo, na trajetória do vivente. Acontece ao mesmo tempo em que a comida passa por uma espécie de operação de transformação subjetiva, como se fosse algo inerente a uma transubstanciação da carne em demanda, tal como é percebida na oferta da Eucaristia e do Sangue de Cristo, no sacrifício da missa. Essa referência à religião foi eleita neste trabalho por ser um ato simbólico que talvez possa precisar melhor o que se quer transmitir no título deste trabalho com a expressão “um impasse dietético”. Tal impasse indica que, nessa operação de transubstanciação, subsiste um resto que não se significa. Exatamente por isso, pode-se pensar na ordem do desejo como algo que atormenta. Se a anorexia mental não é um não comer mas “um comer nada”, essa operação fica situada em um desejo de comer nada, como algo perfeitamente viável, quando pensado pelo plano simbólico (Lacan, 1956-57). Com isso, podese relacionar o alimento a que se refere a transubstanciação do pão em corpo e do vinho em sangue como uma operação sugestiva de ocorrências de impasses, e não como um transtorno alimentar. É dessa forma que se articula a subjetividade, isto é, com impasses a serem superados ou simplesmente sintomatizados. O mais destacável é que, quando o sujeito reedita uma passagem sobre esse ponto, durante determinadas situações de perda, responde com nostalgia ou até violentamente, baseado numa posição fixa diante de um passe mal sucedido. Essa operação mal sucedida é o que propomos chamar de impasse dietético.
Comer algo que lhe falta é o que Lacan vai demarcar para o sujeito anoréxico, na intervenção sobre as transformações, situada ainda no Semimário IV (1956- 57). Esse algo que falta fica demarcado no campo do amor, e então se entende perfeitamente porque os sintomas anoréxicos estão associados ao que se pode chamar de patologias do amor. Na medida em que o sujeito se vê diante da perda de um objeto amoroso, que poderia estar cumprindo a função de ressignificar um excesso de comida, recebido no momento da transubstanciação do alimento em desejo de comer, ele é levado a um clamor reincidente pelo Outro que, não havendo expressado seu desejo além do ato de servir a comida, remete o sujeito a uma deformação imaginária que o faz comer-se a si próprio. No Cristianismo, o amor a Jesus leva seus fiéis a transformar a cadeia metamórfica trigo/hóstia/pão no dogma da transubstanciação, em nome do imperativo paterno, já que foi o Senhor quem disse, após o primeiro gesto simbólico: “Fazei isso em minha memória”.
Aqui se pode demarcar, a partir dos mitos apresentados anteriormente, algo a ser representado em função da memória. Quando, na invenção da escrita, Derrida (1972) sublinha que há um ato parricida implícito na invenção do filho, destaca que essa invenção objetiva a captura da memória do pai. Fica estabelecido o grande impasse. Não há como capturar a memória do pai, a não ser mediante um ato tiranizado também. Nesse sentido, é muito importante que o Pai, em uma versão civilizada, determine as armas simbólicas que possam mediar esse ato. Em outras palavras, transformar o homem em sujeito implica, sobretudo, ter que se aplicar funções com o intuito de minimizar uma operação que será da ordem de um impasse e que deverá ser incorporada simbolicamente à vida do sujeito. O importante é que, derivada do dito cristão, cada celebração comporte a repetição do ato simbólico que, conforme diz Bataille (1957), insere o humano na dimensão simbólica do sacrifício canibalístico. Mas, sendo assim, um canibalismo mediado pelo dispositivo da cultura, como se dissesse respeito a uma transcendência, ou seja, a um distanciamento da imanência animal. É importante a utilização dessa analogia entre o revestimento amoroso que é dado ao alimento e a transubstanciação do corpo e do sangue de Cristo em pão e vinho, para que se entenda que, no momento dos cuidados de nutrição da criança, haverá um ponto em que a ausência do Outro será sustentada pela tentativa de significação de uma falta, podendo advir daí uma resposta da ordem alucinatória, não no sentido patológico do termo, mas no sentido que Freud (1900) sublinha na experiência de satisfação.
Assim, o canibalismo da anorexia retorna sobre o próprio corpo, representado como o lugar das sínteses, dos júbilos, das totalizações, porém distorcendo a imagem. Isso coloca o sujeito mais próximo, outra vez, da origem de uma soldadura imaginária, realizada ali onde ficou mais patente a imperiosa referência de suprir alimento, quando o ato da transubstanciação se viu afetado, pois a demanda foi suprida como necessidade. Essa questão parece interessante na discussão do significado de um impasse dietético. A dietética apresenta um elo promissor em referência à posição do sujeito frente ao objeto. Sobre isso, Foucault (1984) apresenta um tratado ético, quando propõe a construção da genealogia da sexualidade, exatamente quando fala sobre o uso dos prazeres. Ali, Foucault mostra que o comportamento, as ações, as atitudes, enfim, toda a arte de viver do mundo clássico fica balizada por uma dietética. Há uma dieta dos prazeres que envolve a comida, o sexo e tudo que daí pode ser estendido. Isso mostra que a transubstanciação que se encontra plasmada no corpo e no sangue de Cristo recebe um novo tratamento com o advento do Cristianismo. Não deixa de ser, porém, uma prática simbólica já utilizada nas culturas pagãs, chegando aos dias de hoje mediante a forma de um sintoma perfeitamente sustentado pelo discurso técnico-científico, em que a mais-valia se sustenta mediante uma lógica capitalista que, conforme lembra Alemán (2003), é incessante, pois ataca todos os demais discursos.
Nesse ponto, é importante redobrar a atenção para a forma como os sintomas se apresentam na clínica psicanalítica contemporânea. Para isso, tem-se desenvolvido, a partir de 1992, estudos sobre a lógica do sujeito em função do fracasso que enfrenta, diante da predominância do discurso capitalista, até chegar hoje ao aprofundamento do discurso técnico-científico. Assim, os trabalhos de Jorge Alemán (2004), de Mario Pujó (2003), publicados na revista Psicoanálisis y el Hospital, n. 24, um volume voltado para a indagação sobre as “patologias de época”, bem como os seminários ministrados no Mestrado em Psicologia da Unifor, demonstram os novos caminhos para essa montagem sintomática contemporânea, cujo maior traço de sofrimento decorre da inflação do imaginário e do real, em detrimento de um atrofiamento do simbólico. É nesse sentido que os impasses dietéticos são conclamados hoje no sujeito. Como algo que tem início no arrebentar do laço e joga o sujeito para a reserva simbólica que lhe falta. Isso é possível devido à porosidade que esta época cria, mediante o discurso capitalista que rompe limites e oferece a permissividade.
Nessa lógica se insere a relação do anoréxico com a tentativa de estabelecer novos laços sociais, promulgados pela idealização estética do corpo e pelo mandato superegóico do gozo a todo custo, que a tecnociência impõe mediante a via do consumo. Note-se que a época atual privilegia o ato e desconsidera o amor. Entretanto, aqui se monta uma operação impossível, pois sem amor o psiquismo não funciona, é puro “tanatismo”. Dessa forma, são bastante procedentes os trabalhos publicados por Charles Melman (2003) sobre o império do gozo contemporâneo. É que aí já existe uma transubstanciação. E isso é curioso porque mostra uma passagem frente ao que poderia existir entre o alimento como algo imanente/natural/necessário e um outro lugar definido como transcendente/cultural/demandado.
Nesse sentido, pode-se dizer que essa é uma ação dietética que transforma comida em nada ou em tudo, sob a égide do amor. É uma ação dietética que, desde os primórdios da humanidade, situa o homem diante de uma questão ética. De fato, a dietética é tida como a referência que comporta o traço ético mais antigo da humanidade, na medida em que as ações se deixam levar por um imperativo de limites que sempre balizaram o homem, em função do múltiplo e do uno, para se falar em duas lógicas. Na lógica grega, as relações funcionavam mediante o múltiplo e, na lógica cristã, as relações são dimensionadas na trilogia do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Poder-se-ia até dizer que é nela que se desenha o uso e o emprego da linguagem, pois se poderia resgatar a presença da língua atravessando a carne, preparando-a para o espaço humano. Em outras palavras, a dietética das normas se conjuga com a dieta do desejo, precisamente no passo da necessidade à demanda. Aqui pode-se estabelecer uma lógica simples, na qual a necessidade corresponde ao alimento, a demanda dirigida àquela figura que traz o alimento e, finalmente, o desejo como operação final, fruto dessa articulação, indicando para o sujeito que, no desejo, ficam implícitas a necessidade e a demanda.
Assim, a posição do sujeito frente ao objeto indica, a partir da dietética, uma espécie de arte de viver em conformidade com uma estética que, por sua vez, denota uma falência quando o sujeito, não mais tomado pelo alimento e sim em nome de quem o conduz, faz uma transubstanciação dele para o próprio corpo. Um corpo a ser amado, gozado, enfim, falado em todas as suas implicações. Frente à pergunta: “Onde está o objeto?”, a dietética subjetivada responde com algo inerente a uma articulação com a estética, permitindo que se arme uma equação do tipo dietética + estética = die($)tética, na qual o sujeito que almeja uma espécie de satisfação com o objeto-alimento encontrará tão-somente uma falta de que os transtornos alimentares não dão conta, seja na anorexia, na bulimia, na obesidade ou em outra forma qualquer de traduzir ao corpo o gozo a ser vivido pela iniludível marca da falta de objeto.
É importante deter-se um pouco nesse ponto, pelos seguintes motivos: a) a dietética, como um traço ético mais antigo que pode ser detectado na humanidade, presta-se a uma articulação que sustenta os diversos tipos de metamorfoses enfrentadas pelo homem, com relação aos laços sociais; b) pode ser relacionada com a estética, descortinando as patologias do eu; c) revela o esfacelamento da construção fantasmática do sujeito; d) finalmente, indica em que o analista deve se apoiar para sustentar as demandas de tratamento na clínica contemporânea. Isso implica admitir que o trabalho objetivado da medicina é de grande valia, quando se trabalha no registro mais emergencial do corpo em falência. Entretanto, essa equação proposta indica que a falência do sujeito requer uma outra articulação, no plano simbólico, na medida em que o sujeito é lançado a um lugar no qual impera a lógica de catalisação do sentido da demanda, pois o que afeta, principalmente jovens e adolescentes que se embrenham pelos caminhos da anorexia, é a falta de um amor que pode vir dos mais variados ângulos do seu campo relacional.
Com a finalidade de melhor compreender essa construção, pode-se observar que a die($)tética aponta para outra entrada, na dedução da fórmula que Lacan indicou com o nome de fórmula do fantasma. Com isso, a partir do impasse com que o sujeito se depara, na posição que ocupa frente ao objeto, pode-se perguntar algo sobre o campo estético do sujeito. Isso implica admitir que o sujeito pode, nesse momento, ficar tomado por uma pergunta que emana do campo dos ideais. Ser belo, feliz, completo, enfim, toda articulação que possa ser imaginada em função de um ideal que viaja no bojo de um discurso vigente, pode tomar o sujeito no lugar desse impasse. Entretanto, o papel que essa parcela imaginária desempenha, em função dos registros simbólico e real, é de suma importância justamente porque o resultado dessa operação aponta para a ratificação da falência do sujeito, tomado por uma esfera meramente imaginária. O resultado é que daí emerge cada vez mais um sujeito dividido.
A complicação que ocorre, em termos subjetivos, nessa operação, é que, quando se nota essa falência que indica uma confirmação do sujeito dividido, os efeitos que se detectam sobre o sujeito com sintomas anoréxicos atestam que há algo referente a uma dessubjetivação em marcha. E esse é um dado importante para se pensar o impasse dietético que o sujeito carrega e que, devido a uma espécie de tropeço causado pelas relações amorosas, pode se encontrar com um transtorno, não da ordem alimentar e sim de uma ordem outra, na qual o amor é o mais destacável. A partir desse ponto, a lógica do impasse dietético aparece como algo estritamente psicanalítico. Se a dietética é para a antropologia o traço ético mais antigo da humanidade (Carneiro, 2000), passa-se da condição meramente histórica que ela sugere para encontrá-la situada no espaço de formação do desejo. É o Outro quem faz a transubstanciação da dietética em die($)tética, na medida em que é o artífice do desejo. Pois é ele quem faz a matriz do “semblante” de objeto e, por não sê-lo ou possuí-lo, causa falta, fazendo com que qualquer estética comporte uma falência.
A questão que aqui emerge importante é o modo como cada um utilizará a transubstanciação para gozar do seu próprio corpo. Uns farão da estética do consumo o máximo para atingir a morte. A esses Lacan (1960-61) faz uma referência no Seminário VIII, aula 14, intitulada Demande et désir aux stades oral et anal, de 15 de março de 1961, quando trata do significado da demanda oral. Essa demanda se dirige ao lugar que o Outro ocupa e se funda no conflito de nutrição. Enquanto lhe é oferecido alimento, o sujeito demanda amor. Por ser exacerbada a condição de não tê-lo, o sujeito definha que nem Eco, depois de ser desdenhada por Narciso, conforme a narrativa de Ovídio, retratada nas Metamorfoses. Ela se transforma em pedra, para que as outras ninfas peçam vingança a Ramnusia. No caso da anorexia, o sujeito pede vingança no gozo, chegando, nos casos mais graves, a secar até atingir a transubstanciação do corpo em nada. Comer-se a si mesmo, em um movimento antropofágico, é comer nada em sua literalidade simbólica. Esse é um dos impasses da dietética trasladada à equação die($)tética. O sujeito, quando levado ao extremo dessa transubstanciação, pode imaginar-se uma plenitude na falta e transformar a relação dietética + estética em uma equação do tipo die(S)tética. Ora, isso só é passível de ser encontrado na morte, como já se sabe. É algo similar ao Éden, na medida em que se toca o estado linear ou a falta total de tensão (Carneiro, 2000b). E, em uma lógica da literalidade, o sujeito acaba encontrando o outro lado da vida, ali onde se pode comer de tudo, mesmo antes da proibição do fruto proibido. Lacan (1967-68), no Seminário XV – O ato analítico, amplia essa idéia, dizendo que a elaboração que o sujeito anoréxico pode realizar nesse momento é que, a partir da referência de que o Outro pode perdê-lo, ele morre na falta de amor. E esse é um ponto importante para estender a dimensão do impasse dietético que se desenha diante da pergunta pelo objeto de amor e dos cuidados que um paciente, nessa posição, demanda em um tratamento.
A lógica que se apresenta no discurso médico é que o sintoma é de uma ordem corporal e o sentido é um transtorno alimentar. Entretanto, é uma outra entrada que melhor sustenta esse quadro. O sintoma aponta para uma desarticulação em que comparece a referência a uma determinada falta de objeto que, aqui no caso, aponta para a falta causada por um objeto de amor – e o corpo é chamado a dar conta dessa falta. Monta-se uma operação na qual o objeto desejado, clarificado agora como perdido, faz-se presente no próprio corpo, deturpando imagens e confundindo ideais. Essa leitura, que pode ser feita no anverso do discurso médico, indica que, em vez de se colocar algo na boca do anoréxico, há que extrair algo dessa mesma boca. Algo que possa extrapolar a detenção do sujeito na teia das sensações destorcidas dos orifícios pulsionais. Assim, qualquer coisa que seja adietada ao sujeito com sintomas anoréxicos não pode simplesmente ficar no espaço do real do corpo, sem que venha a ser significada. Sabendo-se que essa é uma sintomática que se encerra no centro de uma articulação entre os corpos pulsionais, simbólicos e imaginários, é necessário que o sentido ou uma retomada da subjetividade seja reconstituída ali onde possa aparecer apenas uma questão de transtorno alimentar.
A questão que fica é: a ressignificação da perda do objeto de amor não poderá ter êxito apenas com uma providência sobre aquilo que foi o elemento causador do impasse vivido pelo sujeito, em uma fase de transubstanciação da comida em amor. Ao contrário, na anorexia mental, o que se presta a uma reorganização deverá passar não apenas por uma dieta natural emergencial e cautelosa, pois isso será bem-vindo nos casos extremos em que a dessubjetivação já tenha alcançado níveis extremados. O que aqui deve ser feito, sobretudo, é algo de uma reconstituição subjetiva na qual entra em jogo o imaginário a ser restaurado, um real a ser mantido como causa de um desejo e, finalmente, um simbólico que não tente dar conta da deglutição de um corpo. Em outras palavras, trata-se da reconstituição de funções que, partindo outra vez da esfera pulsional, possa encontrar outro sentido para a boca que não seja apenas o órgão que signifique uma revolta contra os alimentos, quando o que fica em evidência é a perda de sentido sobre um objeto de amor. Com isso, haveria o resgate de algo da ordem de um traço nostálgico e não mais de uma dimensão melancólica que tanto destitui o sujeito do seu estatuto de divisão. Haveria, pois, a reconstituição, de forma mais consistente, por meio do que sai da boca do anoréxico, do sentido para a falta, isto é, deslocando a falta de um campo meramente inapreensível do real, situando-a no campo simbólico possível, sem mais pretensões de que o corpo, em sua referência ao real, sirva de banquete para o fiasco amoroso de uma relação sexual que não existiu.
Por isso, a chamada pela posição do objeto tem uma importância fundamental naquilo que seja a recomposição fantasmática de um sujeito sintomatizado em uma posição na qual o corpo contém o objeto. Como continente daquilo que foi perdido, o paciente se volta contra ele, deformando-o imaginariamente para que sirva simbolicamente de matéria comestível. A chamada pela posição do corpo, no campo subjetivo do anoréxico, enfraquece a divisão do sujeito e, conseqüentemente, traz um movimento de inflação do real que se apresenta no corpo como algo desconhecido para o sujeito. O analista, ao receber um paciente com um impasse dietético, além de uma restauração do apetite, tem a função de causar o desejo que, nesse caso, restabelece um fluxo psíquico de energia. Tomado da função e do campo da palavra, esse fluxo reorganiza o corpo simbólico, o corpo imaginário e suas funções ideais, para finalmente deixar lugar para o motor de todas essa dinâmica da ordem do real. Assim, fica reconduzido o objeto para o lugar de objeto, o sujeito para o lugar de sujeito, para que seja possível outra vez trabalhar com um ($), em vez de um (S), pretensamente viável. Por isso, considerar-se que essa construção leva a reconstituir um lado da fórmula do fantasma, como Lacan propõe.
Finalmente, percebe-se que o impasse do sujeito, aclarado nesse movimento aqui chamado de impasse dietético, é algo eminentemente da ordem de uma macro-operação de divisão do sujeito, envolvendo uma alienação e uma separação. Ele se deixa alcançar por uma espécie de engessamento de uma das três faltas de objeto. Tudo, porém, recoberto pela deflagração da falta do objeto de amor que, em um determinado momento, aflora de forma abrupta, exatamente por encontrar uma falha mais ampla no impasse que todo sujeito há de responder de uma forma própria e única, quando se encontra diante do desvelo de um objeto que faz presente sua falta.
IMPASSE DIETÉTICO: COMER NADA
Tal impasse surge no desdobramento lógico que a equação dietética + estética apresenta. Se há uma die($)tética, certamente será por uma causa. A causa a que o anoréxico se vê submetido, em nome do que lhe falta – o amor – moveo em direção à descoberta do impossível. Sabe-se que o amor há de ser completo para aquele que pode transubstanciá-lo da comida ao corpo investido pela linguagem. Mas para quem não pode operar a referida metamorfose, o que fazer, senão tentar a travessia em direção ao real? Dessa maneira, apresenta-se o segundo impasse dietético. Comer nada, em sua literalidade, passa a representar para o sujeito a única possibilidade de resolver seu impasse.
A questão é que o lugar em que o sujeito situa suas investidas reflete o próprio corpo como algo similar à única operação ética que ele pode suportar. No caso da anorexia, secar por amor significa o mesmo que plasmar o amor demandado no lugar daquilo que lhe é oferecido em nome do alimento. O grande risco dessa operação é que o amor, quando fusionado ao corpo em sua literalidade, produz uma espécie de causa própria e nela aparece o objeto-causa como viável de ser comido em um movimento autofágico. Comer-se a si mesmo, como uma forma de encontrar o amor vacante, insere uma implosão do corpo. Comer-se a si mesmo, como uma forma de encontrar o amor vacante, insere uma implosão do corpo. O fracasso aqui referido reside na idéia de que o sujeito poderia situar-se, prioritariamente, na confluência do simbólico com o real, o que indica uma falha no ato da transubstanciação do alimento em doação amorosa. Seria imaginar, por exemplo, o simbólico comendo literalmente o real do corpo, mediante a distorção do imaginário. Isso ficaria mais claro ao se imaginar, por exemplo, que a imagem vista não corresponde à realidade corporal exibida. Seria uma espécie de “eclipse do sujeito”, uma conjunção do simbólico com o real, em que o imaginário perde seu poder mediador.
Em termos de uma plasmação dietética, pode-se considerar que se é esse o único movimento ético que esse sujeito reconhece, então o sujeito se vê confrontado por uma dieta ética própria. O resultado que se pode construir dessa formatação dietética indica que, da equação dietética + ética resultará uma diet(a)ética, em que a possibilidade de fusão entre o amor e sua causa cria uma espécie de impasse que também conduz ao banquete literal do nada, pois o objeto a não se mostra compatível a um ato comestível, como se apresenta ao anoréxico. O que resulta daí é que, como impossibilidade e como causa, o sujeito falece e advém a morte, por uma espécie de indigestão do impossível. Foi assinalado, anteriormente, que há uma die($)tética por uma causa. Essa causa que o anoréxico tenta apreender o situa mais uma vez na possibilidade de se alinhar a uma die(S)tética, na medida em que consegue comer o amor em forma de nada. É claro que esse é mais um movimento falido, quando se observa a articulação entre os três registros. Não há como imaginar-se simplesmente o simbólico comendo o real. Se assim acontecer, a operação será bem-sucedida e algo similar ao sucesso conseguido será alcançado, quando alguém põe fim à vida.
É uma luta inglória a tarefa do anoréxico de poder comer a causa do próprio desejo. Se todo desejo é o desejo do Outro, o que aparece como mais factível, em uma lógica anoréxica, é que esse nada tão desejado pode ser perfeitamente alinhado ao Outro. É uma grande melancolia do Outro que se põe em marcha, dentro do calvário da anorexia. É uma espécie de não poder viver sem o Outro que se deixa transparecer em uma dinâmica enfraquecida e transformada em fixidez, na relação com o objeto. Assim, o sentido da escuta será também o de restabelecer o lugar desse desejo, na medida em que o dispositivo analítico é, sobretudo, um dispositivo ético, no verdadeiro sentido psicanalítico do termo. Será, então, da escuta que poderá surgir o contraponto à lógica médica do tratamento aos transtornos alimentares
A transferência, como um grande esteio de amor, suportará a prova de que o analista, ao ser constituído como alguém que pode escutar, cessará a enlouquecedora repetição que, nesse caso, ganhara ares de um verdadeiro complexo de nutrição. Talvez, em termos subjetivos, tudo de que um paciente anoréxico precise seja alguém que possa descaracterizar a comida da sua função nutricional. Nesse caminho, o analista acena com a posição de “semblante” do objeto no qual, por meio da escuta, poderá causar um deslocamento da causa do anoréxico. Será um deslocamento do próprio corpo para o “semblante” de objeto que o analista oferece. Essa tarefa é de suma importância porque pode-se entender como se restabelece a subjetivação do paciente de que tanto se falou no item anterior deste artigo. Não há como fazer um restabelecimento fantasmático do sujeito que não seja partindo da mais real das funções, de algo em que o paciente possa, em vez de se contrapor ao que lhe obrigam a engolir, sentirse causado a expelir esse impasse em forma de palavras.
Essa é a tarefa de reconstituição do sentido de um impasse que um Outro deturpou, em determinado momento, ao escancarar demasiadamente não ter para dar em forma de amor e por haver simplificado o máximo possível em formas excessivas de servir o alimento. É claro que o transtorno psíquico não é da ordem alimentar, pois o que ficou afetada foi a passagem do sujeito a um plano dinâmico de relação com o objeto. Dessa forma, a equação dietética + ética, aqui proposta como o lado fundamental para o tratamento de um impasse dietético, aponta para uma diet(a)- ética, mostrando sobretudo que, no trabalho com o paciente anoréxico, é de suma importância a retomada da causa do desejo desse paciente, para que o desejo de comer nada seja diferenciado do desejo do Outro que, em um dado momento, era simplesmente o de manter na ordem alimentar aquilo que deveria ter sido transubstanciado em “dom” de amor.
3 TRANSTORNOS ALIMENTARES OU UM IMPASSE DA DIETÉTICA?
Dessas duas fórmulas trabalhadas na confluência da dietética com a estética e a ética, pode-se reconstruir por outra via, como já visto, a fórmula do fantasma. Do ($) desprendido da equação dietética + estética, bem como do (a) que cai como um resto inassimilável da equação dietética + ética, teremos invariavelmente $ ◊ a (Carneiro, 1997, 2000). A conseqüência, para se fazer uma incursão sobre os discursos contemporâneos que advertem o sujeito para o consumo exacerbado do objeto, é que, mais que uma era do vazio, pode-se pensar em uma era na qual a posição do sujeito frente ao objeto permite a possibilidade de se inserir o resto no banquete social como um alimento factível. Nesse sentido, só há uma die($)tética por uma causa. E essa causa é posta em movimento, mediante esses discursos, em direção à descoberta e até da tentativa de apreender o impossível. Esse é um grande impasse dietético, na medida em que as operações de transubstanciação do corpo abandonam o espaço das necessidades, implementam a presença das demandas e finalmente tentam, por “semblantes” articulados sobre o objeto-causa do desejo, uma possível fusão com o corpo do vivente. Esse exercício permite vivenciar hoje muito mais uma “era do resto”, deduzida também do impasse que é a posição do sujeito frente ao desejo de comer o vazio.
Tudo isso aclara a angústia de que não há relação sexual possível de sustentar um ideal de amor, quando ele se calcifica no sonho da completude. Uma vez que os laços amorosos se desfazem, o Outro é chamado a comparecer em sua versão mítica. E esse é um momento de grande importância para a história da vida amorosa do sujeito. É o momento de se articularem as duas pontas de um nó que sustenta o sujeito: amor e sexo. O sujeito em perda de subjetividade significa um sujeito no qual algo da ordem do amor evoca o comparecimento de uma série de traços que qualificam ou desqualificam sua posição frente ao objeto. Entram em choque traços narcísicos, eleição de objeto, operações de respostas frente à privação, frustração e, em última instância, a afetação dos limites da castração e a deflagração de um gozo incomensurável que pode até acabar com o próprio sujeito. Aqui, neste trabalho, isso é chamado de uma perda de subjetividade acentuada. São perdas que podem levar o sujeito a uma espécie de aderência, adição a algo que possa responder de forma mais pronta à constatação de que a maldição do sexo é um ponto de inflexão que pode reaparecer a cada desilusão amorosa, confirmando que a relação sexual não existe.
Uma das mais imediatas sensações que invadem o sujeito nesse estado é a nítida sensação de desamparo, traduzida como uma miséria do sujeito, afetandoo tanto na esfera psicomotora quanto física. E essa é uma alusão subjetiva que serve muito para os chamados quadros de transtornos alimentares. Trata-se aí de um sujeito que apaga uma marca da subjetividade, pagando muitas vezes com o aniquilamento subjetivo e funcional do próprio sexo. Essa é uma marca inconteste de um impasse que não pode ser também tratado apenas com a esfera nutricional, com atividades de restauração do peso ideal do sujeito, pois essa marca se instaura no aspecto subjetivo que recobre o alimento em si. Há, dessa forma, uma estreita relação entre sexo e amor, voltada para a compreensão de um impasse dietético que passa a ocupar grande importância no funcionamento psíquico do sujeito. Não há como ignorar que as operações de corte, de limite pelas quais o sujeito se constitui são de uma ordem dietética, o que implica dizer que o próprio conceito de inconsciente está marcado por esse traço.
Assim, dessa operação de falência do sexo instituído na relação de amor, o sujeito se depara com a queda de uma estética da completude, afirmando que há nesse processo a presença invariável de uma die($)tética, indicando que, naquele momento, ele pode contar é com o seu desamparo. Ausência do bemamado, remissão nostálgica a um suporte de cunho subjetivo em que o Outro deveria ter constituído a marca do amor, resta agora o resquício de uma operação em que o resto se confunde com o corpo.
É nesse sentido que, nesse percurso, a passagem do corpo simbólico pode ser facilmente confundido com o corpo real. E essa confusão decorrente de um impasse dietético, aqui entendido como um momento de transição de um ato de nutrição em amor, se reapresenta exatamente quando o amor, montado em uma operação direta 1 + 1 = 2, falha. Se falha o amor, então resta a literalidade do corpo confundido com um resto possível, no resquício fantasmático do sujeito. É aí, na falência dupla, decorrente do sexo e do amor, que a equação diet- (a)ética se põe em cena para esse sujeito afetado pelo desencanto subjetivo: ter que suportar o abandono do Outro, agora replicado nos enlaces amorosos falidos que a vida lhe apresenta. Com isso, o trabalho com pacientes que rejeitam cuidados nutricionais há de passar pela montagem de um dispositivo transferencial, em que o analista possa sustentar o “semblante” do objeto em suas dimensões de corte e desaparecimento. Restabelece-se, assim, a dimensão da fala. Com a palavra, alcança-se outra vez o campo das funções, no qual o dito pode revestir o sujeito em sua reconquista fantasmática. Conseqüentemente, o desejo de apoderar-se do próprio corpo como última alça se desfaz, pois outra vez um trabalho de ressignificação é implementado e, em vez de um simples ato de forçamento alimentar – empanturrar um ser com comida – cede lugar ao sentido que é dizer algo sobre esse ato. Caminho inverso. Não só de pão vive o homem, senão da própria palavra que pode da sua boca sair.
Em definitivo, não há como trabalhar com transtornos alimentares, senão com a posição do sujeito frente ao objeto, já que dos alimentos nada se pode escutar. Da boca do sujeito, sim. O corpo da transubstanciação os transforma em palavras e estas denotam o que cada um tenta preencher na cadeia significante. Isso pode, por sua vez, demarcar um sujeito que come nada, tudo, ou faz alternância entre as duas posições. É esse o impasse dietético que, após esse percurso, pode ser repensado a partir do tripé fome, verbo e amor. Questões foram formuladas no início deste trabalho. Agora, com o intuito de poder contemplar uma elaboração, fruto das construções aqui apresentadas, elas serão retomadas. Um transtorno alimentar pode ser reparado pelo discurso técnico-científico. Já um impasse dietético construído entre a fome, o verbo e o amor, não. Esse impasse demanda uma outra posição, sobretudo de escuta e sustentação de um “semblante” de objeto, para que seja restaurado o desejo de falar sobre aquilo que foi negado ao sujeito. Enfim, sobre o que lhe foi negado, no ato de doação, e objetivado pelo deslocamento do amor em objeto.
É isso que fica como uma matriz de fixação daquilo que pode ser o amor. Algo que não pode ser lido como um ato de encantamento da serpente, sob os efeitos da música de um flautista. Ao sujeito do impasse dietético apresentouse pão, em vez de amor, quando a transubstanciação, nesse momento, ganhava um destaque fundamental. Isso não se fixa apenas como um passe de mágica sobre a experiência do que foi vivido em uma idade tenra e que, por ironia do destino, faz-se cumprir como um determinismo. Fica explicitado nos ditos de um Outro que ratifica o feito. O registro então se firma no sujeito.