Relacionamento interpessoal
A vertente da administração que trabalha com psicologia organizacional tem seu surgimento na época da primeira guerra, quando o quadro das forças armadas dos Estados Unidos estava carente e escasso de mão-de-obra capaz de suprir suas necessidades. Assim sendo, fazia-se um esforço intenso e diferenciado na área do recrutamento de pessoal, pois era preciso encontrar pessoas adequadas para executar as funções das forças armadas nos tempos de guerra. Para atender essa urgente necessidade, os psicólogos foram levados a criar testes que avaliassem as mais variadas aptidões e os diversos graus de inteligência do pessoal a ser recrutado. O material criado pelos psicólogos mostrou-se indispensável às empresas que, por sua vez, tiveram que se expandir em busca de novos mercados (ZANELLI, 2002). Cada vez mais a administração, dentro das organizações, têm seu trabalho voltado ao patrimônio humano, isto é, ao comportamento do indivíduo no trabalho, tanto individual, quanto em equipe. Estão envolvidos em uma série de ocupações como um todo e não em setores fragmentados, desde o assessoramento e implantação da política de recursos humanos, como de cargos e salários, segurança de trabalho, recrutamento e seleção de pessoal, entrevista de desligamento, acompanhamento de pessoas e o clima organizacional. É necessário que ele motive as pessoas ao resgate do talento do ser humano dentro do ambiente organizacional (MARCOLIN, 2003). O que se verifica, na prática, é que a vida cotidiana é caracterizada pela vida em grupo, pois a todo o momento o indivíduo está se relacionando com outras pessoas (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 1999).
Baseada nesse conhecimento se observa que o homem faz parte de um conjunto de sistemas interligados que estão em constante processo de inter-relação com os demais sistemas que compõem este universo, tais como, família, escola, trabalho e outros. Este homem é visto como uma unidade que pensa, sente, deseja, age e necessita de integração harmoniosa entre corpo e mente, para que possa expressar a sua personalidade, características e valores pessoais. A necessidade de resgatar o valor dos sentimentos vivenciados pelas pessoas (BARRETO, 2002). Em todo grupo de trabalho existem pessoas que se relacionam com maior ou menor facilidade. Sabe-se que o relacionamento interpessoal é uma das características (ou competências) mais exigidas dos profissionais na atualidade. É também sabido, por outro lado, o quanto lidar com pessoas pode ser difícil. Assim, as relações interpessoais dentro do sistema organizacional, busca saber sobre as conseqüências que esta traz para produtividade das pessoas nas organizações. Pois dentro deste universo organizacional existem programas de reconhecimento individual ou por equipe, as doutrinas de sucesso, a falta de transparência nas políticas de benefícios e a criação de mitos e heróis internos e externos, que poderão gerar segundo Kananne (1995), frustrações e sentimentos de impotência, colaborando desta forma para que comportamentos venham a se manifestar dentre as relações interpessoais e conseqüentemente na produtividade das pessoas nas organizações.
De acordo com Carvalho (2003), sabe-se que a dinâmica organizacional é complexa, pois está constantemente lidando com pessoas; pessoas que têm opiniões próprias, estilos de As organizações são formas materiais, um grande complexo organizacional, capaz de unir pessoas com diferentes histórias, valores, padrões culturais em um mesmo espaço, ocasionando muitas vezes, problemas de relacionamento, de comunicação, que irão refletir principalmente, no crescimento e na produtividade dessa organização. (BAREMBLITT, 1996); (FLEURY; FISCHER, 1996). Segundo Chanlat (1993, p.49):
Pode-se afirmar que a organização é uma forma de ação coletiva e que não existe nenhuma razão para considera-lá, a priori, como uma forma de ação de segunda categoria em relação ao sujeito, onde a organização realiza uma ação, é uma realização concreta, da mesma forma como seria para o indivíduo. No contexto organizacional, estas relações interpessoais podem ser vistas permeadas de problemas, principalmente por causa das dificuldades em lidar com diferenças individuais. Chiavenato (1992) aborda que o indivíduo pode se relacionar em seu ambiente de trabalho, conforme seus objetivos individuais e organizacionais, levando em consideração que as formas de pensar, sentir e atitudes do homem, são influenciáveis pela organização e Kanaane (1995, p.58), complementa: a compreensão da conduta humana possibilita conceber atitude como resultante de valores, crenças, sentimentos, pensamentos, cognições e tendências à reação, referentes à determinado objeto, pessoa ou situação . Desta maneira, o indivíduo, ao assumir uma atitude, vê-se diante de um conjunto de valores que tendem a influenciá-lo.
Indivíduo e organização têm certo tipo de relação alienativa, pois esta quando ocorre entre estranhos, pode gerar sentimentos de hostilidade, uma vez que o desenvolvimento de laços se torna dificultado em decorrência da divergência de opiniões; contudo, existe a necessidade de pertencer, de possuir um lugar no grupo, de apreciação mútua para uma sobrevivência saudável (ETZIONI, apud CORADI, 1996). Serra (2003) afirma ser necessário levar em consideração a hierarquia organizacional no que concerne ao encorajamento do comportamento de competições internas no ambiente de trabalho, tendo em vista que destina o privilégio de crescimento às camadas superiores. Ou seja, aos altos cargos, evidenciando assim uma disputa pelo reconhecimento profissional, propiciando certo desconforto nas relações, uma vez que o fator humano está intrinsecamente ligado a toda e qualquer tarefa realizada no sistema organizacional e na sociedade como um todo e Kanaane (1995, p.87) aborda que o comportamento organizacional refere-se às manifestações emergenciais no contexto das organizações, indicando os controles, o processo decisório e os esquemas técnico-administrativos assumidos num dado momento organizacional e A influência das relações organizacionais, dos padrões de comunicação e desempenho afetam direta e indiretamente os relacionamentos, tanto harmoniosos, quanto conflitantes. A tendência conflitante no comportamento organizacional ocorre em conseqüência de impactos no clima organizacional, devido a conflitos e contradições delineados pelos indivíduos que fazem parte desse espaço social (KANAANE, 1995).
Comportamento e clima organizacional são constituídos pelas diferentes possibilidades de perceber o outro num conjunto de comunicações e inter-relação. Segundo Moscovici (2001, p. 35): Para o autor, as relações interpessoais e o clima de grupo influenciam-se recíproca e circularmente, de forma que o ambiente poderá ser agradável e estimulante ou desagradável e avesso e que essas modalidades poderão trazer sentimentos de satisfação pessoal e grupal. Segundo Silva (1997), é de grande importância quando se trata de modificar, por exemplo, as relações interpessoais existentes na empresa dentro do clima de fofocas, desconfianças, falta de ânimo do pessoal, desentendimentos, insatisfações dos empregados para com superiores e vice-versa. A pergunta que se faz é se é possível a uma pessoa, que não se relaciona bem com as demais em seu trabalho, produz e progride? Toda relação interpessoal mobiliza processos psíquicos. Estes processos que se situam na origem do desenvolvimento cognitivo e afetivo do ser humano, representam a parte imersa da interação, objetos privilegiados de estudo da psicologia e da psicanálise, processos que subentendem e acompanham toda palavra, todo discurso e toda a ação, (CHANLAT, 1993). Refere o autor que, tanto em nível interpessoal como intergrupal, os processos de identificação, de introspecção, de projeção, de transferência, de idealização, de clivagem, de repressão, para falar como os psicanalistas, são onipresentes freqüentemente imperceptíveis. São à base de numerosos problemas, qüiproquós e conflitos que se encontram nas organizações. Aliás, a presença destes mecanismos, na maioria das vezes inconscientes, exerce maior ou menor influência na qualidade da comunicação que se pode estabelecer entre duas ou mais pessoas.
Vê-se que a capacidade de comunicação interpessoal é o ponto de maior importância para os relacionamentos entre pessoas e equipes. Os conflitos, que podem aflorar entre os membros de um grupo, simplesmente pelo convívio do dia-a-dia corporativo. Uma melhor comunicação, entre os indivíduos, poderá diminuir consideravelmente a incidência negativa deste sentimento, tornando possível que se manifeste de forma construtiva (ROSA, 1995). Estes sentimentos, tanto positivos, quanto negativos são vistos de forma nítida nas organizações, embora os sentimentos negativos quase sempre não sejam admitidos, mesmo sendo evidenciados com grande freqüência. Muitas vezes o próprio ambiente de trabalho gera extrema competitividade fazendo com que muitos funcionários sem qualquer tipo de ética e respeito, ultrapassem seus limites e comecem a invadir o espaço do outro. As desigualdades dentro de qualquer organização são inevitáveis e, muitas vezes, funcionais, explicitadas em parte pela hierarquia organizacional. O que varia é o grau de como o poder é distribuído. Essas diferenças podem ser identificadas a partir da análise dos estilos de liderança, dos processos decisórios e da relação entre chefes e subordinados. Em todos os setores organizacionais, encontram-se problemas de relações humanas. Onde se encontram duas ou mais pessoas, geralmente ocorrem dificuldades de interação. Ter boas relações pessoais significa sentir-se bem a respeito de si mesmo e se entender bem com os outros. Os esforços feitos pelo indivíduo para ter boas relações, determina o ambiente psicológico no departamento e na empresa (MOLLER, 1996).
As empresas deveriam desenvolver relações interpessoais próximas e fluídas com todos os setores da organização, mostrando para cada funcionário, a importância da união dos mesmos, para o melhor desenvolvimento das atividades laborais como um todo. Segundo Lakatos (1997, p.35): A média e a grande empresa, assim como a transnacional, por seu próprio tamanho, não podem desenvolver relações semelhantes em cada setor. Mas o quanto impessoal, elas serão dependentes da maneira de como se organizam e da forma como são geridas.
Bem entendida do ponto de vista organizacional, certas medidas preventivas podem ser postas em prática. Por exemplo, reduzir distinções hierárquicas, promover a igualdade de poder ou a gestão participativa, eliminar os privilégios, conceber programas de participação nos lucros ou reduzir as diferenças extremas nas escalas de salários. Evitar os comportamentos indutores de inveja que surgem de diferentes formas ostentatórias de consumo pode igualmente ter por efeito reduzir a tensão, (CHANLAT, 1993). Segundo Dejours (1992, p.133):
A organização do trabalho exerce, sobre o homem, uma ação específica, cujo impacto é o aparelho psíquico. Em certas condições, emerge um sofrimento que pode ser atribuído ao choque entre uma história individual, portadora de projetos, de esperanças e de desejos, e uma organização do trabalho que os ignora. Esse sofrimento, de natureza mental, começa quando o homem, no trabalho, já não pode fazer nenhuma modificação na sua tarefa no sentido de torná-la mais conforme as suas necessidades fisiológicas e a seus desejos psicológicos, isto é, quando a relação homem trabalho é bloqueado.
A forma de que se reveste o sofrimento varia com o tipo de organização do trabalho. O trabalho repetitivo cria a insatisfação, cujas conseqüências não se limitam a um desgosto particular. Ela é de certa forma, uma porta de entrada para a doença, e uma encruzilhada que se abre para as descompensações mentais ou doenças somáticas, em virtude de regras que foram, em grande parte, elucidadas. As tarefas perigosas, executadas na maioria das vezes em grupo, dão origem ao medo específico. Contra a angústia do trabalho, assim como contra a insatisfação, os funcionários elaboram estratégias defensivas, de maneira que o sofrimento não é imediatamente identificável. Assim disfarçado ou mascarado, o sofrimento só pode ser revelado através de uma capa própria a cada profissão, individualizada, que constitui de certa forma sua sintomatologia. (DEJOURS, 1992) Num mundo que cada vez mais se desencanta consigo mesmo e institui um individualismo sem limites, que reduz os valores coletivos a mero apêndice da felicidade pessoal, a capacidade de mudar estes modelos de comportamento que norteiam a sociedade é muito importante e positiva, (TOMEI, 1994). Somente assim será possível sintetizar, de modo criativo e engajado, um indivíduo com suas exigências e direitos fundamentais, com as organizações, com a sua cultura, sua ordem, seus valores e necessidades.
Para Tomei (1994), é cada vez mais importante discutir a utopia possível: que organizações queremos e que organizações temos condições de criar. Embora se possa discutir deficiências e dificuldades é fundamental a recorrência ao tema. Isso implica algumas doses de imaginação, pensar ainda o que não existe. É tempo de reformular, de reconstruir, de discutir valores, de refletir eticamente sobre relações entre as organizações e os indivíduos. O que se precisa descobrir é se na organização brasileira a realidade é maior que o sonho, se a organização que se quer é viável, se é possível ou se é uma fantasia. Portanto, desenvolver um bom nível de relacionamento com todas as pessoas é uma responsabilidade individual e organizacional. Para se conhecer melhor, é preciso criar um ambiente de confiança que possibilite realização de feedbacks que nem sempre é fácil, pois na maioria das vezes, a cultura atual das organizações não utiliza esta prática de forma profissional, impedindo o crescimento e a transparência nos relacionamentos.
A presente pesquisa tem com prósito investigar os motivos que dificultam o relacionamento interpessoal de uma empresa privada, localizada na grande Belém-PA, de uma empresa de prestação de serviços, sendo o universo de 197 colaboradores ao todo, participaram da pesquisa 51 colaboradores, que se prontificaram a colaborar com a pesquisa, tendo como instrumento de pesquisa o questionário, contendo 6 questões abertas e fechadas. O procedimento foi dividido em algumas etapas: 1ª) entrou-se em contato com a organização e solicitou-se permissão para a realização da pesquisa; 2ª) submeteu-se o projeto à apreciação; 3ª) esclareceram-se os objetivos deste trabalho para o responsável do setor no quais os dados foram coletados; 4ª) selecionou-se os colaboradores, que tinham no mínimo 1 ano de exercício profissional nesta empresa, que participaram da pesquisa; 5ª) esclareceu-se aos colaboradores os objetivos, a metodologia e a operacionalização do trabalho de pesquisa, e solicitou-se a autorização destes; 6ª) aplicou-se o questionário; 7ª) analisou-se os dados obtidos na pesquisa com posterior descrição dos resultados; 8ª) realizar-se-á a devolução dos resultados à empresa na quais os dados foram coletados. Em seguida, após realizada a pesquisa fez-se a tabulação dos resultados, as análises e a descrição dos resultados e conclusões. Programa estatístico utilizado foi o Excel.