Mudanças em relação ao PCNs de Língua Portuguesa BNCC
Língua Portuguesa
1 As Principais novidades que a BNCC introduz na organização do ensino
A BNCC veio para atualizar os conteúdos e a formas de ensino.A boa notícia para os professores de Português do Fundamental 1 e 2: a BNCC preservou muitos dos princípios adotados nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Um deles é a centralidade do texto e dos gêneros textuais. Isso quer dizer que o ensino de português precisa continuar contextualizado, articulado ao uso social da língua. Porém, entre as duas décadas que separam os dois documentos, os estudos de linguagens evoluíram muito. Da mesma maneira, a sociedade também passou por profundas alterações, acima de tudo por conta da ampliação do uso da tecnologia.
A BNCC reflete esse avanço, que irá se manifestar, principalmente, em dois aspectos: a presença de textos multimodais, que são popularizados pela democratização das tecnologias digitais e as questões de multiculturalismo, uma demanda política da contemporaneidade.
A seguir, você irá encontrar um resumo das novidades que a BNCC introduz na organização do ensino.
A Análise Semiótica É Inserida:
Nos PCNs, a disciplina era organizada em três grandes blocos de conteúdo: Língua Oral, Língua Escrita e Análise e Reflexão sobre a língua. A estrutura proposta pela BNCC é semelhante a essa organização. No novo documento, as habilidades estão agrupadas em quatro diferentes práticas de linguagem: Leitura, Produção de Textos, Oralidade e Análise Linguística / Semiótica.
A diferença principal se refere a inserção da análise semiótica. Essa área se refere ao estudo de textos em várias linguagens, incluindo as digitais: como os memes, os gifs, as produções de youtubers etc.
Uma outra mudança é que, para cada um dos eixos, a BNCC propõe um quadro que explicita como se relaciona as práticas de uso e de reflexão. Ou seja: o documento avança na descrição de como podemos refletir sobre a língua, a fim de nos empoderarmos em seu próprio uso.
Os campos de atuação como destaque: Os campos de atuação têm, praticamente, a mesma importância dos eixos temáticos na organização dos objetivos e habilidades que precisam ser desenvolvidos durante todo o Ensino Fundamental. De maneira geral, a sua principal contribuição ao documento é demandar protagonismo dos alunos, mesmo os de anos iniciais, deixando bem clara a necessidade de contextualizar as práticas de linguagem. Para isso, a base leva em conta os campos:
- Da vida cotidiana;
- Da vida pública;
- Das práticas de estudo e pesquisa
- Artístico/ Literário
Campos De Atuação:
Os campos de atuação são as áreas de uso da linguagem, na vida cotidiana. Por exemplo: no campo de atuação artístico-literário, temos o uso da língua voltado à produção e
À leitura de contos, romances, peças de teatro, poemas. Nesse caso, se trata de gêneros textuais e usos da linguagem tendo predominância da atuação artístico-literária. No campo de atuação jornalístico/midiático, se encontram os textos com outra tônica: a transmissão de informações, da comunicação, da intenção de "vender" um produto/ideia etc.
Maior conexão entre as diferentes práticas:
Um outro avanço do novo documento é a articulação entre as práticas, a partir da compreensão de que a língua mobiliza os variados saberes. Sendo assim, as habilidades de escrita frequentemente aparecem integradas com práticas linguísticas como as de leitura e as de análise linguística/ semiótica . Veja como exemplo a habilidade abaixo: Planejar e produzir, em colaboração com os colegas e com a ajuda do professor, listas, agendas, calendários, avisos, convites, receitas, instruções de montagem e legendas para álbuns, fotos ou ilustrações (digitais ou impressos), dentre outros gêneros do campo da vida cotidiana, considerando a situação comunicativa e o tema/assunto/ finalidade do texto. (EF01LP17)
A formulação se refere a duas atividades articuladas entrei si: planejar e produzir a escrita. Os gêneros são indicados (lista, agendas, calendários, etc), assim como é explicitado o campo de atividade, a situação comunicativa, o tema e a finalidade da produção. Mas, para que o aluno desenvolva a habilidade proposta, o professor terá que planejar as práticas de leitura/escrita e outras atividades didáticas em que esses fatores estejam envolvidos.
E nas quais o aluno seja levado a reconhecê-los na leitura e a considerá-los na produção. Exemplo: que lista será produzida? Por que vamos produzi-la? Para que ela vai servir? Como ela pode facilitar nossa ação? Quem vai usá-la? Que linguagem devemos usar para que ela atinja seus objetivos? Vale destacar que, para esse trabalho, só o texto não basta, será preciso contextualizar o conhecimento escolar, a partir de situações sociais significativas para os estudantes.
A gramática volta à cena:
Com relação aos PCNs, na Base as questões gramaticais estão mais explicitadas e são indicados os conteúdos que necessitam ser tratados em cada ano. Mesmo assim, a proposta é que a gramatica seja compreendida em seu funcionamento e que não seja tratada como um conteúdo em si, de forma descontextualizada das práticas sociais. A memorização de regras tem que ser substituída pela compreensão das maneiras de uso, de acordo com a situação. Em resumo: a ideia é que a gramática seja debatida junto aos textos.
A diversidade cultural:
Além de mostrar a importância de se organizar as práticas de sala de aula de acordo com os eixos temáticos e os campos de atuação, a Base chama a atenção para o cuidado que é necessário ter ao escolher conteúdos que expressem a diversidade cultural do nosso país no momento de planejar cada aula. O que se propõe é a aumento do repertório dos alunos, a interação com culturas, línguas e usos linguísticos diversos. A ideia é que os estudantes conheçam e aprendam a valorizar essas diferenças.
Interpretação e sentidos:
A Base também aumenta, no campo da Análise Linguística e da Semiótica, a interpretação de textos a partir das imagens, links e outros recursos que os compõem. O documento apresenta, por exemplo, a observação da formatação dos mais variados textos, inclusive em ambientes digitais, de maneira que o aluno consiga entender que a escolha da diagramação do conteúdo também é portadora de sentido. Com as fotos, o estudante tem que ser capaz de perceber a intencionalidade que há por trás da imagem, que é transmitida por informações como o enquadramento, a luz utilizada etc.
Leitura Crítica:
A BNCC mostra a importância de criar habilidades que se mostram essenciais para ler e compreender a realidade transformada pelo avanço das tecnologias, como é o caso da necessidade de empreender uma curadoria competente das fontes de informação consultadas, tendo como objetivo saber lidar de maneira crítica e responsável com as fake news.
Tendo a relevância desse assunto na sociedade atual, a Base tem como sugestão trabalhar para capacitar o aluno a fazer a leitura crítica e, inclusive, a fazer implicações sobre a veracidade - ou não, dos fatos. É de grande importância que o aluno pergunte a origem da informação que chega até ele e que conheça os recursos dos quais pode lançar mão para qualificar esses dados, antes de aceitá-los como a referência segura.
- Na prática: Com a popularização de redes sociais, a produção e a divulgação de mentiras foram aumentadas.Para ajudar a combater a desinformação, cada vez mais especialistas propõem que seja feita uma nova abordagem no trabalho com textos jornalísticos em sala de aula. Trata-se do letramento midiático, um conjunto de habilidades que envolve acessar, analisar, avaliar e criar conteúdos na internet. Veja mais detalhes sobre esse trabalho na reportagem publicada em NOVA ESCOLA.
Algumas perguntas importantes que podem ser feitas ao analisar cada notícia:
- Qual é a URL do site? Você conhece?
Alguns sites de fake news usam endereços que são parecidos com o de grandes sites e jornais, mas mudam detalhes. Fique atento à grafia e terminação do link. Como a maior parte dos sites está registrada fora do Brasil, o endereço não termina com “.br”.
- Qual é a data da publicação?
Informações antigas podem ser publicadas novamente em lugar de destaque, de forma a enganar os leitores, passando a ideia de que o fato é atual.
- Quem assinou?
É muito comum que em fake news não tenham a identificação do autor. Porém, se o nome for publicado, deve-se verificar se é uma pessoa conhecida ou se ela já escreveu outros textos e se os mesmos são verdadeiros.
- Saiu em outro veículo?
Se possível, faça uma pesquisa rápida e verifique se a notícia também foi divulgada em um meio de comunicação conhecido e com credibilidade.
- As legendas têm a ver com as fotos? Existe algo de estranho nelas?
Se as cores ou os cortes da imagem parecem estranhos, ou a descrição não corresponde à imagem, você pode estar diante de uma montagem. O site tem formatação estranha? Muitas propagandas? Outras janelas se abrem automaticamente durante a leitura?
O site tem formatação estranha? Muitas propagandas? Outras janelas se abrem automaticamente durante a leitura?
- Desconfie. Veículos sérios se preocupam com o aspecto visual.
2 Normas formas para ler e escrever:
O novo documento junta ao ensino-aprendizado da língua materna as especificidades da leitura e da escrita em ambientes digitais. Escrever cartas ou avisos, por exemplo, não é o mesmo que estar escrevendo e-mails ou publicações de Facebook.
A produção de um texto, ou mesmo a sua leitura, em um ambiente digital, sempre envolve a dimensão do hipertexto. Além do mais, os textos digitais podem recorrer, tanto em sua composição quanto nos links que apresentem, a conteúdos dos mais variados tipos, incluindo áudios, vídeos, imagens etc., que ajudam a dar significado à mensagem. A Base não só considera esse potencial multissemiótico ou multimodal dos textos, como também estimula seu estudo e produção, em classe.
- Práticas de oralidade com objetos definidos: Nos PCNs, existia somente a indicação de se abordar a linguagem oral no âmbito do uso. A BNCC amplia e aprofunda esse enfoque, explicitando a cada ano o que tem que ser trabalhado, de acordo com as práticas dos variados campos de atuação ou esferas sociais em que os alunos estão inseridos.
- Na prática: Durante o 1º e o 5º ano, por exemplo, está previsto, no Campo Artístico-Literário, um trabalho que irá envolver contar histórias como objeto de conhecimento e que busca desenvolver a habilidade de "Recontar oralmente, com e sem apoio de imagens e textos literários lidos pelo professor.
Nos 3º, 4º e 5º anos a proposta é trabalhar, no Campo das Práticas de Estudo e Pesquisa, a “escuta de textos orais” como objeto de conhecimento, vinculada à habilidade de “Escutar, com atenção, apresentações de trabalhos realizadas por colegas, criando perguntas pertinentes ao tema e solicitando esclarecimentos sempre que for necessário”.
No 4º ano é dito, no Campo da Vida Pública, o trabalho com “planejamento e produção de texto” como objeto de conhecimento, planejando desenvolver a habilidade de “Produzir jornais radiofônicos ou televisivos e entrevistas veiculadas em rádio, TV e na internet, orientando-se por roteiro ou texto e demonstrando conhecimento dos gêneros jornal falado/ televisivo e entrevista”.
- Liberdade na definição dos procedimentos didáticos: Nos PCNs, em cada eixo temático da área de Língua Portuguesa, existia um bloco de conteúdo chamado de Tratamento didático, onde eram explicitados alguns procedimentos para implementar em classe a teoria contida no documento. Na base, esse tipo de direcionamento não existe, porque se tem um entendimento de que as redes e escolas precisam ter autonomia para utilizar as metodologias que considerem mais apropriadas ao seu público, considerando a realidade local e regional, entre diversos outros parâmetros importantes.
- O que não mudou: Mesmo que traga avanços expressivos para o componente, a BNCC ainda mantém vários dos pressupostos já adotados nos PCNs:
- A centralidade do texto para a definição de conteúdos, habilidades e objetivos, partindo do gênero discursivo a que ele pertence;
- A adoção de uma perspectiva enunciativo-discursiva da linguagem, em que os textos aparecem sempre relacionados aos seus contextos de produção;
- O objetivo de desenvolver habilidades necessárias à participação em práticas de linguagem (escuta, fala, leitura e escrita) e a preferência pela metodologia de aprendizagem ditada pelo uso da linguagem, em que a reflexão se segue ao uso e serve para incrementá-lo.
Principais mudanças para as práticas de linguagem:
Eixo Leitura:
Como era nos PCNs:
- Existia uma recomendação de que os textos fossem considerados em um contexto. Os gêneros textuais se baseavam sobretudo na linguagem escrita e nos suportes analógicos, como cartazes, jornais, livros etc.,
Como ficou na BNCC:
- É preciso uma atenção especial à questão da escuta ativa, como um comportamento necessário à interpretação do texto oral, em especial nos anos iniciais do Ensino Fundamental;
- As habilidades de leitura constantemente aparecem integradas aos campos de atuação, uma vez que a língua é estudada é estudada sempre em relação ao seu uso social. O contexto de produção continua sendo fundamental para o trabalho com a leitura;
- A cultura digital entra em cena com os textos multimodais, em que as produções escrita e a audiovisual interagem. Ao fim do Ensino Fundamental, os alunos precisam estar capacitados a ler, compreender e criticar essas produções.
Eixo Escrita:
Como era nos PCNs:
A escrita já era abordada em sua dimensão discursiva, ou seja, enquanto produto da interação social, mas a produção de textos aparecia como um conteúdo essencialmente procedimental, necessitando de uma metodologia adequada à aprendizagem desse “saber fazer”.
Como ficou na BNCC:
- A BNCC inclui, de maneira objetiva, alguns determinantes sociais da escrita, no momento da produção textual: os próprios campos, o gênero, a situação de comunicação, o interlocutor, a variação linguística etc.
- Com frequência, a habilidade de produção aparece articulada com outras práticas linguísticas, especialmente as de leitura e as de análise linguística/semiótica.
- O novo documento traz ao processo de ensino-aprendizado da Língua Portuguesa as especificidades da leitura e da escrita em ambientes digitais.
Eixo Gramática, Análise Linguística E Semiótica:
Como era nos PCNs:
- A partir da perspectiva de que a língua deveria ser considerada em situações de uso, os PCNs minimizaram as questões gramaticais, que não foram tratadas de forma objetiva.
Como ficou na BNCC:
- As questões gramaticais estão mais explicitadas, a cada ciclo do Ensino Fundamental;
- A BNCC propõe que a análise da língua tem que ser feita de maneira contextualizada às práticas sociais. A memorização de regras tem que ser substituída pela compreensão das formas de uso, de acordo com a situação;
- A análise linguística, em classe, tem que abranger textos multimodais e multissemióticos.
Eixo Oralidade:
Como era no PCNs:
O documento já tinha a ideia de que a aprendizagem da linguagem acontece por meio do uso que fazemos dela, na interação com o outro. A análise da língua oral e/ou escrita é feita considerando de que se trata de um instrumento de interação social.
Existia somente a indicação genérica de se abordar a linguagem oral nesse âmbito, em relação ao "como fazer" o documento era mais genérico.
Como ficou na BNNC:
A capacidade de se produzir discursos, seja orais ou escritos adequados às situações é tomado na BNCC como um fundamento pedagógico, tendo em vista a necessidade de formar usuários competentes da língua.
A Base prescreve os conhecimentos essenciais, as competências e as habilidades linguísticas relacionadas às práticas de oralidade, que se espera que as crianças e os jovens desenvolvam em cada etapa da Educação Básica em todo país.