Esta pesquisa é de natureza descritiva, qualitativa e estudo de caso, pois apresenta características de um determinado grupo e analisa as relações entre as variáveis do fenômeno em estudo (BOGDAN; BIKLEN, 1994). O projeto foi aplicado em uma escola da rede municipal de Fortaleza-CE, localizada numa periferia, em uma sala de aula do 1º ano do ensino fundamental I. A sala era composta por vinte e seis alunos matriculados, entre eles um que apresentava perda parcial de audição, dificuldades na fala e, de acordo com a professora, dificuldades de aprendizagem. Os alunos tinham entre 6 e 8 anos.
Para o levantamento de dados foram utilizados como métodos, a observação e o registro de modo não participante, solicitando informações à professora, sempre que necessário. Aconteceu durante duas semanas, no total de seis dias. A observação baseou-se nos conceitos de psicomotricidade, psicogenética walloniana e educação inclusiva, procurando verificar o desenvolvimento motor e cognitivo dos alunos, o modo como a professora os estimulava e as possibilidades de participação de todas as crianças. Além disso, averiguou-se também qual conteúdo seria apropriado desenvolver com o grupo para tornar as atividades contextualizadas.
Em seguida realizou-se o planejamento da oficina, que deveria relacionar conteúdo programático, práticas inclusivas e meios que estimulassem o desenvolvimento psicomotor. O tema gerador das atividades foi higiene pessoal. A aplicação aconteceu em três dias consecutivos, no período da tarde. A avaliação das atividades foi realizada pelas próprias crianças e a partir de produções gráficas e de escrita.
O que acontece por lá?
O diagnóstico como processo pedagógico permite aproximação com a realidade escolar, com o cotidiano de sala de aula e com alunos e professores. Esta aproximação permite conhecer as particularidades dos grupos e os alunos individualmente, suas necessidades, capacidades e habilidades. Acrescenta-se também uma análise sobre as relações entre os alunos e destes consigo e com o professor.
Para realização deste diagnóstico, a observação foi o instrumento utilizado. A escola onde a pesquisa foi aplicada apresentava um espaço físico satisfatório, sendo amplo e bem dividido, com quadra de esportes, espaços verdes, refeitório, salas de aula espaçosas e bem iluminadas, dando condições para realização de atividades que envolvem movimento corporal.
Na sala da turma pesquisada encontramos um amplo espaço que era pouco aproveitado. Apresentava as cadeiras dispostas em fileiras, direcionadas ao quadro, onde do lado ficava o birô e a estante da professora. Não havia espaços lúdicos, nem de leitura. Era solicitado aos alunos que permanecem sentados e quietos, observando o que a professora explicava. Não havia exposição dos trabalhos produzidos pelas crianças e a lousa apresentava muitos cartazes produzidos pela escola, tornando confusas as informações.
Esta organização pode ser explicada pelos conceitos impostos pela cultura ocidental sobre a postura corporal adequada para a aprendizagem. Segundo Limongelli (2004, p.50), o movimento em sala de aula é considerado “gerador de desatenção” e por isso não interessante para o processo de ensino-aprendizagem, isto porque o movimento é compreendido apenas como deslocamento de um espaço para outro em determinado período, desconsiderando sua dimensão na construção da pessoa.
Durante a observação, a professora ministrava uma aula expositiva apoiada no livro didático. Em seguida realizou atividade de leitura na qual as crianças escolhiam, de acordo com seus interesses, os livros para ser lido pela professora em um segundo momento. No transcorrer das atividades, percebeu-se que não era permitido aos alunos sentar ou deitar no chão para contemplação dos livros, todos tinham que ficar nas carteiras. Era constante a solicitação da professora para que os alunos permanecessem sentados; no momento da leitura do livro escolhido as crianças foram postas sentadas agrupadas em um canto da sala e poucos puderam contribuir/falar.
Foram raros os momentos que promoviam a relação entre os alunos e, em relação ao aluno com deficiência (chamaremos de João) percebemos que ele observava o que estava acontecendo na sala, mas não se sentia a vontade para participar. Ele parecia ativo, movimenta-se bastante o que, de acordo com a professora, caracterizava uma dificuldade de concentração.
Ao tratar da atividade docente numa perspectiva walloniana, Prandine (2004, p.37) faz crítica à tendência pedagógica da cultura ocidental que parte exclusivamente do domínio do conhecimento, ignorando a afetividade e o movimento nas atividades de ensino aprendizagem, o que considera impossível. Ainda de acordo com a autora, é necessário para o docente (PRANDINE, 2004, p.44):
Reconhecer que as crianças têm uma grande necessidade de movimento e que a evolução das funções do domínio do conhecimento se dá a partir do movimento o que leva o professor a compreender que a criança imobilizada enfrenta condições adversas ao processo de aprendizagem.
Na saída para o intervalo, os alunos permaneceram enfileirados de acordo com a organização imposta pela professora. No intervalo as crianças corriam pela quadra e pelo pátio, livremente, sem orientação ou coordenação de um adulto. Brincavam muitas vezes de forma violenta, reproduzindo brigas corporais. Ao retornarem, também em fila, sentavam-se e realizavam um momento de relaxamento, de cabeça baixa e luz na penumbra.
Em outras atividades propostas, percebeu-se a predominância de cópias, atividades dos livros e poucos momentos que propiciassem a movimentação dos alunos, tão pouco atividades planejadas para o desenvolvimento psicomotor destes. O foco das atividades estava apenas no cognitivo, sem reconhecer a necessidade das dimensões afetivas e motoras, e por isso os alunos eram orientados a permanecerem em silêncio, quietos e sentados. Galvão (1995, p.110) reflete sobre este tipo de atuação do docente:
Segundo a visão academicista, considera-se que a criança só aprende se estiver parada, sentada, concreta. Ora se lembrarmos das características da atividade infantil, veremos que isso não é verdade, pois o movimento (sobretudo em sua dimensão tônico-postural) mantém uma relação estreita com a atividade intelectual
[...] a imposição de imobilidade por parte da escola pode ter efeito contrário sobre a aprendizagem, funcionando como um obstáculo.
Portanto, pensou-se em promover atividades que possibilitassem não só a movimentação das crianças, como também desenvolvessem conceitos psicomotores como lateralidade, coordenação psicomotora, criatividade, equilíbrio, percepção e linguagem utilizando-se de ferramentas lúdicas.
Para Vayer e Picol (1988, p.216) a educação psicomotora é uma ação educativa e, como tal, para atingir seus objetivos precisa orientar-se por leis psicológicas e pedagógicas. Dentre as estabelecidas pelos autores cabe citar algumas que darão norte à pratica planejada (1988, p.217):
a) o exercício não é um fim, mas um meio;
b) para ser educativo um exercício deve ser desejado e pensado;
c) o que importa é que o exercício seja adaptado ao objetivo proposto;
d) na educação psicomotora a criança age, fala, constata, controla, corrige e descobre.
Vamos dar um banho no Cascão
Partindo do diagnóstico, foi elaborado o projeto intitulado Vamos dar um banho no Cascão! utilizando o personagem da revista em quadrinhos da Turma da Mônica, de Maurício de Sousa, que não gosta de tomar banho. Portanto, o tema gerador foi higiene pessoal. Este tema surgiu do contexto de sala de aula e seria desenvolvido com os alunos de acordo com o planejamento da professora. Para a construção do projeto, foram utilizadas as seguintes orientações de Galvão (1995, p.101):
[...] o planejamento das atividades escolares não deve se restringir somente à seleção de seus temas, isto é, do conteúdo de ensino, mas necessita atingir várias dimensões que compõem o meio [...] decidindo sobre os aspectos como a área ocupada, os materiais utilizados, os objetos colocados ao alcance das crianças, a disposição do mobiliário, etc.
Foi elaborado um jogo no qual o Cascão caminharia até o chuveiro. Para tanto, as crianças precisavam realizar as atividades propostas, cada atividade correspondia a uma casa que seria andada pelo personagem. As atividades estavam relacionadas aos hábitos de higiene. A escolha do jogo como recurso baseia-se na seguinte fala de Wallon (1995, p.85):
Com a ficção, introduz-se na vida mental o uso de simulacros, que são a transição necessária entre o indício, ainda ligado à coisa, e o símbolo, suporte das puras combinações intelectuais. Ajudando a criança a transpor este limiar, o jogo desempenha um papel importante na sua evolução psíquica.
As crianças foram então estimuladas a ensinar ao personagem ações como lavar as mãos, os cabelos, escovar os dentes, limpar as unhas, passar sabonete no corpo, todas relacionadas aos objetivos da psicomotricidade como lateralidade, orientação espacial, coordenação motora e de apropriação de conceitos do tema gerador. As atividades propostas foram pensadas de modo a permitir a participação de todos os alunos, inclusive de João.
A princípio, foi construído com o grupo o conceito de higiene, ouvindo o que eles tinham a dizer sobre o assunto e fazendo com que estes reconhecessem e expressassem diversas posições (conceito percepto motor). Em uma roda de conversa, tendo cuidado em deixar João sempre próximo da aplicadora para que pudesse compreender o diálogo e ter contato direto com os materiais, os alunos falaram não só sobre o tema como também sobre o personagem.
Construído o conceito, convidamos os alunos a montar um boneco que representava o Cascão utilizando canos, isopor e tecido TNT, estimulando a criatividade e proporcionando atividades de encaixe. Confeccionamos também o caminho que o boneco deveria percorrer até
o chuveiro e o próprio chuveiro. Finalizada a atividade, o Cascão dá seu primeiro passo.
Posteriormente foram sendo propostas outras atividades como ensinar o Cascão a tomar banho, mostrando como ele deve lavar os cabelos e o corpo; a lavar as mãos antes das refeições; a escovar os dentes utilizando creme, fio, escova dental e enxaguante bucal; todas utilizando o próprio corpo das crianças como recurso que, à medida que ensinavam, experimentavam as ações, aprendendo as noções básicas de higiene corporal.
Este tema foi escolhido por ter sido observada falta de zelo das crianças com a própria higiene e a não estimulação da escola em promover, por exemplo, a lavagem das mãos antes das refeições e a escovação dentária após a refeição. Além disso, estava relacionado ao conteúdo que seria ministrado pela professora.