O produto diferenciado de moda II
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1 Diferenciação no produto
Uma das importantes ferramentas para que uma empresa comercializadora com marca possa permanecer competitiva (e não ser facilmente copiada) é a diferenciação do produto de moda através de atributos intrínsecos que podem ser agregados à peça. Rigueiral e Rigueiral (2002), ao se referirem às ações que a empresa utiliza para a diferenciação de produto, enumeram alguns atributos diferenciadores:
São cinco os atributos que podem ser criados, modificados ou reforçados como forma de conferir fatores de diferenciação a um produto: forma, característica, desempenho, conformidade, durabilidade, confiabilidade, facilidade de reparo, estilo e design”
Considerando as especificidades do produto de moda, estes fatores podem ser analisados de uma maneira mais particular. No desenvolvimento de produtos de moda, a Forma não deixa de ser uma Característica do produto, pois é relacionada à silhueta,bem como a diferenciação que a tecnologia traz às características básicas do produto.
A qualidade de Desempenho refere-se aos níveis pelos quais as características básicas do produto operam (em vestuário, conforto, toque, por exemplo); a qualidade de Conformidade é o grau pelo qual todas as unidades produzidas são idênticas e atendem às especificações-alvo prometidas: em se tratando de empresas que pretendem ocupar lugar de destaque no mercado, este parâmetro é condição básica do produto; Durabilidade e Facilidade de reparo, apesar de revelarem condições importantes em muitos produtos, no produto de moda, em que os ciclos de desenvolvimento e conseqüentemente de vida do produto tornam-se cada vez mais curtos, estes parâmetros sequer chegam a ser mensurados; a Confiabilidade é uma medida da probabilidade de que um produto não apresentará defeitos dentro de um período de tempo especifico que também se refere à veracidade das informações prestadas acerca do produto e a não existência de discrepâncias entre as percepções do produto e o produto recebido.
O Estilo tem a vantagem de criar distintividade para o produto, tornando-o difícil de ser copiado em produtos de moda o Estilo é um parâmetro num nível acima do produto em si, caracterizando a marca como um todo e subsequentemente seus produtos.
Tanto Estilo como Design, de acordo com a estrutura hierárquica de Gestão de Design de Moda estariam num nível hierárquico superior ao produto: enquanto que o Estilo reflete a identidade que a empresa busca imprimir em seus produtos, a despeito de tendências ou modismos, o Design se posiciona no nível estratégico da empresa (gestão), alinhavando a parte técnica da empresa com a criativa, administrando as diversas variáveis do mercado tais como: concorrentes, consumidores, fornecedores etc.
Em estudo realizado pelo SENAI-Cetiqt por intermédio de seu núcleo de estudos prospectivos com apoio técnico da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, Tenan e Miranda abordam as características de um produto de moda que podem ser fatores de diferenciação:
Para competir no cenário atual é preciso ampliar a competência da CVTCB24 de modo a aumentar a oferta de produtos diferenciados, tanto em termos de características intrínsecas (misturas íntimas, estruturas de fios e tecidos, propriedades físicas e químicas - qualidade, durabilidade, facilidade de uso - e propriedades funcionais), quanto às características extrínsecas (cor, design, estilo, acabamentos etc.)”
Nesta citação, as Características intrínsecas podem ser compreendidas como as diferenciações na área têxtil, enquanto que as extrínsecas as pertinentes ao produto confeccionado. Este tipo de categorização é bastante complexo, já que cor, design, estilo e acabamentos são atributos que não se restringem ao produto confeccionado.
Ao desenvolver o conceito das diferenciações que ocorrem na área têxtil e na área de confecções, pode-se considerar a empresa num determinado ponto da CVTCB, com as ações que ocorrem à montante e à jusante. As ações a montante são relacionadas às Características das matérias-primas (tecidos, não tecidos e aviamentos), e as ações a jusante, são aquelas que ocorrem no produto confeccionado.
Ser o primeiro a introduzir uma característica nova e valiosa é uma das maneiras mais eficientes de diferenciar e competir. Desta forma, a busca de diferenciais nas Matérias-Primas se revelaria como uma grande vantagem competitiva, já que produtos com desempenhos diferenciados, matérias-primas com alto grau de desenvolvimento tecnológico ou matérias-primas com origem certificada (com conceitos de sustentabilidade, por exemplo), entre outros, são atributos valorizados pelo mercado de vestuário.
A utilização de diferentes matérias-primas pode tratar tanto das Características como do Desempenho do produto, pois tecidos com elastano ou fabricados a partir de matérias primas de origem orgânica, por exemplo, trazem determinadas características ao produto, enquanto que tratamentos, acabamentos e tecnologias utilizadas em tecidos, e misturas que valorizem o produto, são relacionados ao desempenho do produto.
Estes atributos de ordem técnica ou tecnológica se referem ao funcionamento, desempenho e eficiência das funções e facilidades de manutenção.
As ações a jusante são aquelas em que a interferência da criatividade da empresa age de forma mais direta, ou quando as ações são mais particulares (determinadas pelo Estilo da marca). Os atributos Característica e Desempenho têm desdobramentos mais específicos, tais com Forma (silhueta),em que as modificações podem ser trazidas através da Modelagem e da escolha de determinadas Matérias-Primas.
A Modelagem interpreta as propostas adequando-as às tendências, às limitações relativas à ergonomia (a compatibilidade de movimentos e a adaptação antropométrica) e às matérias-primas utilizadas (texturas, gramaturas e caimentos).
Atributos também podem ser criados, modificados ou reforçados na Matéria-Prima que pode possuir diferentes Cores (e suas Variantes), Estampas (e suas Variantes), Texturas e Gramaturas.
Em relação a Acabamentos (tipos de costuras, corte a laser etc.) e Beneficiamentos (lavanderias), estes vão depender dos modelos de produção empregados e da tecnologia disponível.
Na prática, todos os atributos, que podem ser funções ou requisitos, têm uma interface de forma que ao se desenvolver um produto percebese que a interação entre os atributos ocorre genericamente e com intensidades relativas. Ao se buscar trazer conforto a uma peça, utilizando nanotecnologia para que o tecido não amarrote, por exemplo, pode-se estar diferenciando o produto em Característica (uma tecnologia que complementa a função básica) e em Desempenho (Matéria-Prima com elevado grau desenvolvimento de tecnológico trazendo facilidade de manutenção).
Outro exemplo pode ser dado quando se busca o conforto de uma calça confeccionada com jeans pesado (tecido denim de 14,5 oz.25, por exemplo, que, sem amaciamento é desconfortável). O Beneficiamento do produto atende às exigências de Conforto/Desempenho e, ao mesmo tempo, atende as exigências de Estilo através das tendências relativas às lavagens e tingimentos (diferenciando o produto através de uma aparência mais despojada, por exemplo).
A parceria do artesanal com o produto industrial
Todos os atributos que são agregados ao produto têm por objetivo obter alguma forma de diferenciar a sua oferta de produtos da concorrência. A opção pela inserção do artesanal na construção de um produto de moda confeccionado industrialmente pode conter diferenciações relativas às Características (utilização de matérias-primas não usuais, por exemplo), Estilo (combinação adequada de diversos materiais, processos ou técnicas etc.) e Design (diferenciação no processo de confecção do produto e gestão da cadeia de fornecedores).
A escolha pela inserção do artesanal em produtos originados da confecção industrial pode ser uma decorrência de tendência, mas em empresas que visem o novo em termos de modelo e estilo, este processo pode ser uma forma de criar diferenciais que remetam a uma linguagem própria. Pelas características particulares do trabalho artesanal, em que as “imperfeições” podem ser consideradas traços de individualidade, o resultado de um processo que funde o artesanal com o industrial resulta em peças únicas, construindo um contraponto ao excesso de industrialização, impessoalidade e repetição de modelos produzidos em escala unicamente industrial.
A obra artesanal, mesmo quando é submetida a uma repetição em múltiplos exemplares, nunca chega a atingir a identidade total de cada uma de suas cópias. Existe sempre um quid diferencial e deve existir para distinguir um objecto do outro; e é precisamente nesta diferença, por mais pequena que seja, nesta minúscula imperfeição formal, que reside o fascínio e a própria essência desta forma artística”
O artesanal fornece uma infinidade de possibilidades. Quando inserido numa produção industrial, no entanto, ao mesmo tempo em que amplia as opções criativas, também deve se adequar às características de usabilidade e exigências relativas a um produto industrial. Materiais e técnicas utilizadas, além de serem recursos de ordem estética, também devem se adequar a determinadas necessidades técnicas, tais como conforto ao usuário e compatibilidade (índice de encolhimento, reação ao calor, estabilidade de cores etc.) com o material sobre o qual está sendo aplicado.
Em casos mais específicos, ajustes do trabalho em relação ao acabamento (“avesso perfeito”) ou ainda à conformidade do produto em relação à peça piloto, trazem uma realidade bastante diferente ao universo que cerca o trabalho artesanal que, na maioria das vezes, é baseado na informalidade e numa formação autodidata. A busca pela linguagem artesanal se depara com aspectos contraditórios à sua natureza individual, quando da necessidade de adaptação à conformidade de um esquema de produção industrial.
A peça piloto é um bom exemplo da adaptação do artesanal ao industrial: na indústria de confecção, após a concepção da peça pelo setor de criação, esta é encaminhada para a modelagem, onde é feito um protótipo (para a verificação do desenho e da forma) que, ao ser aprovado transforma-se na peça piloto. A partir da correta análise operacional da peça piloto, é elaborado o seu processo produtivo com o planejamento da operacionalização de todos os equipamentos, beneficiamentos, operadores e outras necessidades específicas ao desenvolvimento do produto.
No caso da inserção do artesanal no industrial, esta peça piloto serve também como referência para as artesãs para a conformidade do produto em relação ao tamanho e ao trabalho realizado pela artesã em si, além de outras características específicas a cada produto.Deve-se entender que a peça piloto não é uma simples referência para a repetição de um modelo, mas serve para que todos os itens produzidos atendam aos padrões industriais de exigência do mercado, em que as individualidades do artesanal são “controladas” pelo industrial.
O produto resultante da parceria entre o artesanal e o industrial pode ocorrer das seguintes formas:
aplicações de trabalhos artesanais tais como crochê, tricô, bordado, rendas, macramé, fuxico etc. no produto confeccionado (em diferentes momentos de sua fabricação);
• técnicas de estamparia artesanal (localizada ou corrida).
Deve-se considerar também o aspecto artesanal da própria costura (imagem abaixo) que, por vezes, acaba adquirindo uma linguagem artesanal pelas particularidades na elaboração do produto (por exemplo, um produto feito com trabalho de patchwork, com muitas pregas, aplicações, nervuras, acabamentos cuidadosos, pespontos detalhados etc.).
O setor de confecção, ao possuir como característica a dependência de uso intensivo de mão-de-obra, traz ao produto vestuário um caráter artesanal, pois “a indústria de confecção está ainda baseada no binômio máquina de costura/costureira, onde a maior parte do tempo é gasto no manuseio do material”
No caso da confecção, mesmo com o aprimoramento das máquinas, podemos dizer que o trabalho ainda guarda características artesanais, estando a qualidade do produto muito associada à habilidade do trabalhador”,
As parcerias contínuas existentes entre artesãos e empresas são mais facilmente estabelecidas quando a empresa tem neste tipo de diferenciação a sua “marca registrada” (um percentual representativo de produtos que inserem o artesanal no industrial no seu mix de produtos) ou, ao menos, um comprometimento em relação à utilização constante deste recurso em seu mix de produtos.
Devido ao caráter ainda informal deste tipo de mão-de-obra e aos diversos formatos dos fornecedores (mão-de-obra avulsa, grupos informais, redes, cooperativas, ONGs etc.), as dificuldades relativas a este tipo de produção demandam uma gestão que procure organizar e coordenar todos os setores envolvidos no desenvolvimento deste produto com características tão peculiares.
Gestão do produto diferenciado de moda
As estratégias e processos que originam um produto diferenciado envolvem a participação de várias competências ou profissionais que atuam de forma coordenada desde o surgimento da nova idéia até o seu lançamento no mercado.
“O processo criativo de design numa empresa de moda é amplamente conhecido como possuindo um alto nível de incerteza dos empreendimentos e uma forte dependência com outras funções relacionadas com a empresa”
É necessária uma coordenação ajustada para minorar a dificuldade na execução do processo criativo de desenvolvimento de produtos diferenciados de moda a fim de atender satisfatoriamente e no tempo certo as preferências dos consumidores.
O ciclo de desenvolvimento do produto diferenciado inicia-se com a etapa da geração de idéias, indo até o seu lançamento, passando por pesquisa de mercado, de tendências, seleção de conceito, de fornecedores, projeto de produto e processo, pré-produção, comunicação e comercialização, áreas que demandam um conjunto de conhecimentos que necessitam da participação, simultânea ou não, de diferentes setores da empresa e de fornecedores de matérias-primas ou serviços.
É uma atividade interdisciplinar, um mecanismo de coordenação que é conduzido com o objetivo de gerenciar várias interdependências entre as atividades e recursos e que requer um grande envolvimento do designer, já que esse profissional possui uma abordagem generalista e um olhar abrangente em relação à formação dos atributos tangíveis e intangíveis do produto.
A coordenação pode ser compreendida como um mecanismo que administra objetos interdependentes, tais como tarefas, responsabilidades, capacidades e informação de diferentes grupos que devem combinar entre si formas e tempos de execução de tarefas que sejam desempenhadas a contento para objetivos em comum. A interdependência entre os grupos é condição indispensável, pois o processo de desenvolvimento de uma empresa é dividido por muitos atores.
Como a divisão e coordenação das diversas tarefas desempenhadas não estão diretamente submetidas a uma única autoridade, faz-se necessária uma gestão através da qual se torna possível administrar a interdependência entre as funções.
Segundo Law , a “moda pode ser vista como uma obsolescência programada promovida pelos varejistas de moda que visam motivar os consumidores a comprar novas roupas continuamente” fato que força a ciclos de vida mais curtos e, conseqüentemente, de ciclos de desenvolvimentos de produto muito rápidos. Dada a natureza de extrema interdependência entre as atividades (incluindo o processo de desenvolvimento de produto,produção logística e comercialização), o mecanismo da coordenação é um meio ou procedimento através do qual se administra a interdependência das funções a fim de atingir as metas ou objetivos estabelecidos.
Nos novos arranjos estruturais do setor têxtil e de confecção, ocorre a separação das atividades de maior valor agregado (inovação e desenvolvimento de produtos) das de menor valor agregado (fabricação e montagem), fato que leva à terceirização e/ou subcontratação ou outsourcing,práticas comuns nas empresas devido à necessidade de especialização produtiva, redução de custos e riscos trabalhistas.
Consequentemente ocorre uma concentração das atividades de inovação e gestão (de produto e de marca) dentro da empresa que, ao descentralizar a produção, passa a concentrar-se nos ativos intangíveis, atividades em que a agregação de maiores valores é possível. O caráter fragmentado, interdependente e multidisciplinar da construção do produto de moda demanda uma gestão mais organizada num setor que tradicionalmente não é adepto das boas práticas.
A coordenação das atividades entre as unidades se torna importante enquanto a empresa tem o foco principal em suas atividades centrais e pratica o outsourcing com o resto, portanto, o seu crescente sucesso depende de habilidades em coordenar as suas atividades externas e internas na cadeia de valores fora de seus limites. A coordenação efetiva entre as unidades na cadeia de suprimento tornou-se um papel chave quando o foco é a inovação, flexibilidade e rapidez, que servem como recursos para uma vantagem competitiva necessária para a sobrevivência numa competição global.
De acordo com Christopher e Peck, a indústria de moda possui aspectos únicos no que tange aos tempos de desenvolvimento e entrega (tempo entre o início do projeto ou do processo e o aparecimento de seus primeiros resultados), períodos curtos das coleções, alto nível de incerteza da demanda e ambiente extremamente competitivo. Os processos da cadeia de fornecedores do setor de vestuário são extremamente complexos e requerem uma coordenação precisa a fim de alcançar a flexibilidade adequada para responder à natureza mutável das necessidades dos consumidores.
Nas empresas comercializadoras com marca, que possuem capacidade inovativa ou ativos comerciais estabelecidos (canais de comercialização ou marcas próprias), uma das principais estratégias é a do controle do ciclo de desenvolvimento de fornecedores, ou supply chain management.
Segundo Brito e Bernardes, essas novas funções de inteligência estão ligadas aos ciclos de desenvolvimento e gerenciamento de novos projetos e design (produto). As tarefas associam-se à elaboração das coleções, inserção internacional, estratégia de marketing, reforço da marca (projeto) e no desenvolvimento dos fornecedores do produto. Ao comandar a cadeia de fornecedores, estas empresas determinam os parâmetros de funcionamento dos atores nela inseridos.
O desenvolvimento de fornecedores é uma atividade crítica nesse tipo de estratégia, uma vez que grande parcela da produção é terceirizada. As empresas envolvidas nessa atividade fazem o detalhamento do projeto para a produção e determinação das especificações do produto, e também estabelecem os critérios para o controle de qualidade. Essa área também contribui com pesquisas de novos materiais, corantes, tecidos, padronagens e embalagens feitas em parceria com os fornecedores, que auxiliam os estilistas no desenvolvimento das coleções. Normalmente, os principais requisitos são: a flexibilidade do sistema de produção, pois há demanda de produção em pequenos lotes e grande variedade de produtos, bem com prazos de entrega reduzidos; e a garantia da qualidade do produto, que consiste na exigência de permanência no cadastro de fornecedores.
Uma gestão apropriada do produto de moda, ou da cadeia de suprimento, pode tornar realidade as potenciais sinergias entre as partes da cadeia produtiva, de forma a atender o consumidor final mais eficientemente, tanto através da redução dos custos, como através da adição de mais valor aos produtos finais.O desenvolvimento de produtos diferenciados, produtos com características únicas e especiais (consequentemente com valores diferenciados), demanda, na maioria das vezes, a utilização de mão-de obra externa, pois o nível de conhecimento específico relativo a cada um dos tipos de diferenciação requer diferentes especialistas.
A forma de atuar do designer, estabelecendo a integração e comunicação dos diversos setores da empresa e de seus fornecedores, facilita a compreensão das concepções e intenções, buscando estabelecer relações de confiança e comprometimento de todos os profissionais envolvidos no objetivo comum de uma busca de maior eficiência e resposta positiva dos resultados.
Gestão do produto diferenciado de moda originado da inserção do artesanal no industrial
A estratégia da diferenciação de produtos de moda requer uma coordenação de diversos atores que podem estar no mesmo local físico, mas que, na maioria das vezes, encontram-se distantes uns dos outros. Tal cenário demanda a coordenação das ações que envolvem diferentes fornecedores (de serviços e matérias-primas), a fim de que o produto chegue ao varejo obedecendo a prazos e coordenações planejados, mantendo o padrão de qualidade especificado.
As motivações que levam ao desenvolvimento de produtos diferenciados, especificamente do produto diferenciado de moda originado da parceira do artesanal com a confecção industrial, são decorrentes de várias razões tais como a criação de diferenciação dentro de um cenário homogeneizado, o reconhecimento deste tipo de trabalho pelo público consumidor, uma forma de dificultar a cópia, possibilidade de praticar preços diferenciados (pela não comparação com a concorrência) e, finalmente, atender a um público-alvo diferenciado que busca se distinguir através de produtos sem equivalência.
Ainda pode-se acrescentar a estas motivações, a não necessidade de grandes investimentos iniciais para a existência deste diferencial no produto. Ao contrário de diferenciações que decorrem de investimentos em equipamentos, beneficiamentos e tecnologias ou em estratégias de marketing, a inserção do trabalho artesanal pode ser o primeiro passo dentro de estruturas sem muitos recursos financeiros que buscam a diferenciação.
Esta suposta facilidade em se obter a diferenciação através da inserção do artesanal no industrial, à primeira vista, poderia gerar resultados que poderiam ser rapidamente copiados. No entanto, a adequação da linguagem artesanal ao produto industrial demanda, entre vários fatores, a utilização e treinamento de mão-de-obra que possua domínio ou certo conhecimento de determinada técnica e o estudo de adequação de processos para a viabilização da parceria do artesanal com o industrial.
Esta mão-de-obra dificilmente estará apta a produzir de imediato o produto de moda, pois carece de informação e linguagem apropriadas para se inserir num setor tão competitivo. A competência da gestão das duas linguagens, do artesanal e do industrial, a bem da verdade, acaba se revelando como a grande estratégia de diferenciação do produto.
A criação de barreiras à concorrência tais como a construção de uma rede própria de fornecedores (especificamente mão-de-obra especializada no trabalho artesanal), logística e coordenação ágil da cadeia de fornecedores permitem que a (inevitável) cópia do produto por parte da concorrência seja irrelevante, pois através de um mecanismo eficiente de gestão, a empresa poderá estar sempre um passo à frente para colocar rapidamente em prática novas idéias e criações.
No produto diferenciado de moda originado da parceira do artesanal com a confecção industrial, em que o trabalho realizado por mão-de-obra que trabalha com técnicas diferenciadas é um dos pontos altos do produto, o controle do fluxo de desenvolvimento e execução do produto demanda um trabalho com grande envolvimento por parte da área de design/produto, já que geralmente lida com técnicas e processos diferentes dos usuais.
A formação deste tipo de produto depende eminentemente da subcontratação de mão-de-obra externa à empresa, ou seja, mão-de-obra terceirizada. Neste tipo de ação, em que a transferência das atividades meio é feita para mão-de-obra terceirizada e especializada, há basicamente três formas de prestação de serviço: fornecedores individuais, grupos informais ou cooperativas.
O serviço prestado por estes fornecedores será agregado em diferentes momentos, de acordo com a especificidade de cada tipo de diferenciação ou processo, à peça confeccionada industrialmente para então formar o produto final. Devido também à informalidade deste tipo de mão-de-obra e à informalidade na forma de se agrupar, a coordenação e gestão dos fluxos e processos passa a ser um ponto de extrema relevância para que os resultados previstos sejam obtidos de forma adequada e nos prazos estipulados. Neste desenho da organização do trabalho artesanal associado ao trabalho industrial, o papel do design é indispensável para o planejamento, decisões e práticas a serem adotadas.
A opção pela inclusão de produtos diferenciados de moda originados da parceria do artesanal com o industrial demanda uma organização adequada para lidar com variadas características e particularidades inerentes a este tipo de produção, tais como:
a) a irregularidade do produto originado, e conseqüente controle contínuo e individual para manutenção de padrão e qualidade (conformidade), b) falta de qualificação profissional,c) atenção redobrada com o cumprimento de prazos de entrega,d) não sistematização das técnicas tradicionais de trabalho artesanal,e) acesso a matérias-primas diferenciadas, f) conhecimento das potencialidades de cada técnica aplicada.
A inserção de processos artesanais numa produção industrial requer uma sistematização do conhecimento relacionado às técnicas utilizadas e às especificidades de cada produto.É necessário o reconhecimento, adequação e eventual intervenção do design nos processos tradicionais de forma a adequá-los às tendências e demandas do mercado.
A despeito da velocidade das informações e desenvolvimento de produtos de moda, o levantamento das técnicas e de suas possibilidades é condição fundamental para a efetividade de ações e resultados. A união de duas formas de produção tão diferentes – artesanal e industrial – possui a mediação do designer que, formado dentro de uma sistemática de conhecimentos que direcionam a criação de um produto para uma necessidade específica do mercado ou de determinado público-alvo, vai encontrar o artesão, que é detentor de habilidades manuais e tradicionais provindas de um coletivo e cujas características são de informalidade e de caráter empírico.
Nesse encontro, o designer atua como um gestor operacional que busca trazer soluções criativas e funcionais para os produtos desenvolvidos. Na adequação das soluções aos métodos tradicionais de artesanato, ou na proposta de novas formas de realizar o trabalho (inovação dos processos), o objetivo é sempre a valorização do produto e sua adequação ao mercado.
A atuação do designer na produção do trabalho artesanal, de acordo com o produto desenvolvido, pode ser relativamente neutra (reconhecimento e adequação das técnicas e processos) ou interferir de forma mais ativa, trazendo novas matérias-primas, novas formas de produção e diferentes percepções de determinados trabalhos artesanais.
O peso do produto diferenciado de moda originado da parceria do artesanal com o industrial dentro de uma coleção, de acordo com o mix de produtos da empresa, pode variar, mas a sua presença tem grande importância na distribuição entre produtos com diferentes ciclos de vida, já que este tipo de produto, ao trazer em si diferenciações que podem ser nas características, no estilo ou no design, desperta interesse na coleção como um todo.
A introdução de produtos com uma linguagem própria, de produção complexa e de resultados que traduzem um esforço para a obtenção de itens que fujam de uma padronização de tendências e de processos industriais, ajuda a fixar a empresa no mercado, trazendo elementos para chamar a atenção do consumidor e que podem resultar em fatores tais como aumento nas vendas, maior retenção da marca e melhora da imagem.
Devido à sazonalidade das tendências que ditam os rumos tomados pelo setor, mesmo uma empresa que busca uma identidade e linguagem próprias não pode se esquivar do que o mercado impõe. Erner (2005, p. 103) afirma que “supõe-se que as marcas estejam governando as tendências. Na verdade são submetidas a elas”. A despeito da intenção de se manter esse tipo de diferenciação (parceria do artesanal com a confecção industrial), com todas as vantagens que parcerias mais constantes e duradouras trazem (treinamento e adaptação da mão-de-obra, aprimoramento dos processos, fluxo constante de serviço etc.), o produto de moda, no entanto, diferenciado ou não, tem ciclos de vida relativamente muito curtos e a natureza efêmera e autofágica das tendências de moda, que desbancam constantemente a si próprias, cria dificuldades no estabelecimento de parcerias duradouras.