A Cultura e o Trabalho no Contexto Escolar
Educação do Campo
1 Resumo
Este estudo integra as pesquisas desenvolvidas junto ao Observatório da Educação no Estado do Paraná. Faz parte da pesquisa de doutorado que prioriza a observação e a entrevista em profundidade para analisar o conceito de cultura localizado numa esfera histórico social, um espaço imbuído por características específicas, numa escola localizada no meio rural no Estado do Paraná. Relacionamos a possibilidade da manifestação cultural, em contraposição ao conceito atribuído historicamente aos trabalhadores do campo, tratados como negação da prática agrícola.
Entendemos a educação voltada para o futuro de acordo com Mészáros (2008); O conceito de cultura tratado por Williams (1992) como criação resultante da contradição entre o homem e a natureza na procura de adaptações; Marx (2004) contribui com a análise acerca da acumulação e concentração da propriedade privada e as relações de forma do capital sobre o trabalho; Frigotto (2010) discute o projeto hegemônico de sociedade marcando frontalmente o campo da educação; os estudiosos e pesquisadores que discutem a educação do campo Arroyo (2010); Beltrame (2002); Caldart (2004); Souza (2006; 2008); Munarim (2008) e Vendramini (2007) possibilitam entender a proposta pedagógica própria da educação do Campo, práticas educativas, o percurso histórico e as políticas públicas voltadas aos povos do campo e a relação entre Educação e trabalho.
Finalmente apresentamos a análise da entrevista envolvendo a cultura por meio do olhar do professor, como parceria entre os conhecimentos que são transportados nas atividades escolares e a teoria, atrelados as contradições vividas pelos professores, neste contexto e indagamos as relações que se estabelecem a partir da prática pedagógica fortalecem ou não o diálogo entre matrizes.
2 A Cultura e o Trabalho no Contexto Escolar
Introdução
A centralidade deste artigo reside no trabalho docente enquanto forma (particularidade) de realizar a educação do campo e possui especificidades do mundo do trabalho (trabalhador) que são expressas nas atividades de teor cultural e Justifica-se a partir de três razões teóricas: Relações e contradições entre o trabalho (natureza) e a cultura no contexto escolar, entre o projeto histórico e projeto educacional de escolarização e, a contradição entre a manifestação da cultura e o trabalho pedagógico; localiza-se nas relações sociais de produção de vida e nos remete a análise de uma educação que busca historicamente a valorização da cultura campesina e neste caso específico, o desafio que sintetiza as relações entre escola e a classe trabalhadora; neste sentido propomos pensar que a escola é uma das grandes influenciadoras, bem como é influenciada pela construção ou não da identidade social dos sujeitos.
A discussão está centrada na contraposição à educação rural, ou seja, entendemos a educação do campo como uma proposta de educação que tem desafiado o projeto hegemônico de sociedade e que tem delineado contornos inovadores ao modo de pensar a educação para os povos que vivem e trabalham no campo. Para tanto, os autores e estudiosos que discutem esta temática em consonância com nossa pesquisa são:
Arroyo (2010) trata das matrizes pedagógicas e as possibilidades de voltarmos o olhar para a cultura no intuito de fortalecimento destas matrizes, tão necessárias ao desenvolvimento pleno dos sujeitos de direitos; Caldart (2004), Vendramini (2007), Beltrame (2002) e Souza (2006; 2008) que em síntese discutem a proposta pedagógica própria do MST; a relação educação e trabalho; a prática educativa e formação de professores do campo; o percurso histórico e as pesquisas em Movimentos Sociais, prática educativa e escola do campo.
A construção da história humana como cultura, com Williams (1992) especificamente no capitulo 4 de sua obra que aborda como área de estudo as relações entre os meios materiais de produção e as formas sociais dentro das quais são usados; quaisquer que sejam os objetivos das práticas culturais, os meios de produção são sempre materiais e a inserção dos artefatos no meio social caracterizam a necessidade de desenvolver-se humanamente. Entendemos cultura a partir do autor acima mencionado, como criação resultante da contradição entre o homem e a natureza na busca de adaptações, um processo produtivo e de bens de consumo, bens de produção, um problema histórico que envolve acumulação e apropriação na sociedade capitalista dividida em classes.
A possibilidade da manifestação cultural, em contraposição a possível negação do conceito atribuído historicamente aos trabalhadores do campo, tratamos como negação da prática agrícola que venham a abranger os programas escolares e a prática pedagógica numa escola localizada no meio rural no Estado do Paraná. Também levamos em conta no proceder de pesquisa, as vozes dos sujeitos que anseiam por um modelo de escola que preconize suas origens, neste caso específico, entrevista realizada junto à professora que integra as ações junto ao Observatório da Educação que está sob a responsabilidade do NUPECAMP.
Neste sentido este trabalho trata da transformação do sujeito a partir da valorização da cultura campesina, como um processo que se inicia na infância, ou seja, vivem e trabalham e são envoltos por uma teia de relações engendradas no ambiente em que a escola está localizada. As discussões de Frigotto (2010) acerca de um percurso histórico marcado pelo capitalismo dependente e que atinge frontalmente o campo da educação, nos permite pensar, as (im) possibilidades de embates e os desafios sintetizados no e do trabalho e da classe trabalhadora, bem como os processos educativos alienadores e mantenedores da ordem do capital.
O autor escreve sobre a manutenção do poder por meio da burguesia dominante, as alianças do governo no processo de transição política no país, conduzindo a um projeto de capitalismo dependente; evidenciando uma sociedade desigualitária sem remissão. Dentre tantos argumentos, Frigotto (2010) levanta questões sobre educação básica pública, enquanto direito social e subjetivo negado e mutilado, dados que comparam os analfabetos no Brasil com a população de outros países. O projeto de capitalismo dependente no Brasil e a cópia de tecnologia e não pelo investimento em educação básica.
O endividamento externo para os projetos mantendo a estrutura assimétrica descomunal entre os ganhos do capital e os salários dos trabalhadores. Neste sentido Mészáros (2008) permite - nos pensar acerca da evidência que a proposta de educação do campo propicia vislumbrar: Os elementos mais avançados de uma educação que busca ir além do capital. As preposições no e do campo, não se resumem a questão de semântica, mais sim, como preposições históricas que se expressam em termos de disputas no plano educativo, os embates conceituais entre educação para o campo, no campo e do campo que estão historicamente voltados às questões de alienação e ou emancipação.
A linguagem e a cultura fazem parte do materialismo histórico e também comungam desta disputa contra hegemônica, as relações do poder não são as únicas criticas a cultura como forma de viver. O ideário marxista sobre a acumulação e concentração da propriedade, a relação histórica da educação com o projeto de uma sociedade capitalista está voltada aos valores de produção desmedida e a ausência do envolvimento dos professores com o que seja a cultura campesina, está atrelada a ausência de um projeto educacional e de trabalho pedagógico voltado à valorização do trabalhador do campo.
Para Marx (2004) as origens da gênese do capital residem na acumulação e concentração da propriedade, ou seja, a produção individual de muitos e suas propriedades minúsculas, fazendo a propriedade colossal de alguns e ainda, os métodos de acumulação primitiva, abrangendo uma série de processos violentos, dentre eles, a expropriação dos produtores. Vale ressaltar que desde o avanço do capitalismo estão em jogo duas contradições universais que a burguesia estabeleceu na história, ou seja, a contradição entre as relações produtivas e as forças produtivas e a contradição entre as duas classes antagônicas, burguesia e classe operária.
O pensamento marxista considera que a propriedade privada determina a separação entre o trabalho e o produto do trabalho, pensamento este que nos leva a refletir acerca do que seja alienação, ou ainda, o resultado da atividade humana (trabalho) distante do entendimento dos sujeitos ativos que a produzem (trabalhador), uma distância entre desenvolvimento social e desenvolvimento individual, neste caso, muitos trabalham para enriquecimento de poucos.
Em síntese neste trabalho trataremos primeiramente da educação do campo entendida como uma educação, cujo conceito está atrelado às lutas históricas dos povos que emergem do campo em prol de educação e trabalho em seu espaço de pertencimento; na facção seguinte discutimos a emergência de práticas pedagógicas que valorizem as especificidades do trabalho que ecoa nas vozes dos sujeitos pertencentes a escola localizada no meio rural, e finalmente trazemos indagações que possibilitam a reflexão sobre a busca de melhores condições de vida e trabalho aos sujeitos de direitos, a favor de uma educação de qualidade e que permita aos sujeitos saírem do estado de coisas vigente.