A psicologia da personalidade I

Noções Básicas em Psicologia Social

1 A psicologia da personalidade:

Como a maioria dos temas em psicologia, senso comum "usa e abusa” da palavra personalidade, que exerce grande fascínio sobre os leigos. Ela é usada de diferentes maneiras: ora para designar habilidades sociais (a capacidade de tomar decisões rápidas, por exemplo), ora para se referir à impressão marcante que alguém causa a partir de uma característica considerada como central (a timidez, a inteligência etc.). E todos nós já ouvimos o termo, empregado para anunciar a presença de alguém “importante” ou ilustre.

Nos dois primeiros casos, parte-se de um comportamento observável, infere-se um conjunto de características e verifica-se uma tendência à valoração da personalidade enquanto boa ou má. A Psicologia, enquanto abordagem científica deste tema, evita o juízo de valor, isto é, não faz a valoração da personalida de enquanto boa ou má. O processo de inferência — supor processos ou características psicológicas não observáveis, a partir de comportamento observável —, quando ocorre, é rigoroso e fundamentado num método científico. E nenhuma teoria parte de um único comportamento observável para fazer um perfil ou diagnóstico da personalidade.

De modo geral, personalidade refere-se ao modo relativamente constante e peculiar de perceber, pensar, sentir e agir do indivíduo. A definição tende a ser ampla e acaba por incluir habilidades, atitudes, crenças, emoções, desejos, o modo de comportar-se e, inclusive, os aspectos físicos do indivíduo. A definição de personalidade engloba também o modo como todos esses aspectos se integram, se organizam, conferindo peculiaridade e singularidade ao indivíduo.

Os conteúdos desta estrutura da personalidade estão relacionados com as vivências concretas do indivíduo no seu meio social, cultural, religioso, etc. Só é possível compreender a personalidade considerando a relação indissociada entre estrutura e conteúdo. Esta relação dá a dinâmica da personalidade, fornece o caminho para compreender seu desenvolvimento e as mudanças, mais ou menos radicais, que pode sofrer. A interioridade ou intimidade do indivíduo expressa-se, de modo mais ou menos transparente, nos seus comportamentos e no seu modo de estar no mundo, bem como esta subjetividade constitui-se por este mesmo “estar no mundo”, pela presença do outro que marca cada um de nós. A personalidade não é um modo de funcionamento no “vazio”, não é só a possibilidade de pensar, por exemplo, mas o conjunto estruturado de opiniões, valores etc., que possibilita o exercício desta capacidade. Outro exemplo: a capacidade de estabelecer relações afetivas, por si só, não diz muito do indivíduo; é necessário compreender, também, quais são os seus objetos de afeto, como é a expressão deste afeto, o que não é expresso e por quê.

2 Caráter, temperamento e traço

Na abordagem da personalidade, alguns termos são em pregados frequentemente com vários significados, inclusive no senso comum. Alguns destes termos são: caráter, temperamento e traço de personalidade. Caráter — é um termo que os teóricos preferem não usar, devido à diversidade de usos existentes, inclusive no senso comum, para designar os aspectos morais dos indivíduos. Em vez de falar sobre teoria da personalidade, ele fala de teoria do caráter, integrando os aspectos biofísicos e psicológicos.

Temperamento — é outro desses termos usados em vários sentidos. Ele deve ser entendido como uma alusão aos aspectos da hereditariedade e da constituição fisiológica que interferem no ritmo individual, no grau de vitalidade ou emotividade dos indivíduos. Neste sentido, afirma-se que os indivíduos têm uma quantidade de energia vital, maior ou menor, que dará a tonalidade de seus comportamentos. Por exemplo, há o indivíduo “mais calmo” e aquele “mais agitado”. Traço de personalidade — refere-se a uma característica duradoura da personalidade do indivíduo. Por exemplo, ser reservado, ser bem-humorado, ser expansivo etc. Os traços são inferidos a partir do comportamento. Alguns podem ser mais “centrais” da personalidade. Os centrais seriam aqueles em torno dos quais o conjunto das demais características ou traços organizam-se. Desenvolveu também este aspecto em sua teoria da personalidade, chegando a criar tipos psicológicos. Os traços podem ser comuns a um grupo social (por exemplo, a persistência), ou podem variar neste mesmo grupo social (por exemplo, a expressão da agressividade). As teorias que desenvolvem essa “tipologia” de personalidade sofrem algumas críticas no sentido de que são “artificiais”, porque é impossível encontrar-se um tipo puro, isto é, os indivíduos normalmente localizam-se em algum ponto desta escala de opostos, por exemplo, quanto a ser passivo ou ativo.

Existem inúmeras teorias da personalidade. Estas teorias enfatizam aspectos diferentes. A Psicanálize por exemplo, enfatiza os aspectos psicossexuais; a teoria rogeriana, enfatiza a necessidade fundamental de auto-realização de todo indivíduo humano; a teoria behaviorista enfatiza a aprendizagem e, praticamente, substitui a teoria de personalidade por uma teoria de aprendizagem em que os aspectos duradouros do comportamento do indivíduo são os hábitos. Além da ênfase em aspectos diferentes da personalidade, as teorias também podem-se agrupar ou diferenciar quanto aos princípios pelos quais norteiam a abordagem da personalidade. Alguns destes princípios são:

1. Os determinantes inconscientes do comportamento, em contraposição aos determinantes conscientes, permanecem, atualmente, como fatores centrais na diferença entre as várias teorias de personalidade. Alguns teóricos rejeitam, explicitamente; a determinação inconsciente do comportamento, como K. Lewin e G. Àllport. Eles desenvolveram a psicologia da consciência. Freud e seus seguidores enfatizam o inconsciente como núcleo fundamental da teoria e da conduta na vida cotidiana e não só na patologia.

2. Conceber a personalidade e, portanto, o homem como produto do determinismo ambiental ou do determinismo psíquico é outra questão importante. Alguns teóricos, adeptos da teoria S-R, como HulI, Dollard e Miller, supõem que, quando o indivíduo nasce, a mente humana é uma “tábula rasa” que só vai adquirindo estrutura e conteúdo pela estimulação do meio, pelas inúmeras situações de aprendizagem que compõem o cotidiano e a vida inteira. O homem é pensado como passivo e reativo. Segundo esta teoria, é na compreensão do ambiente e neste mundo exterior ao indivíduo que se deve buscar a causa do comportamento, da resposta, enquanto reação a estímulos ambientais. A personalidade, portanto, é um conjunto de hábitos e comportamentos adquiridos a partir de condicionamentos na infância e outras formas de aprendizagem que vão reforçando alguns hábitos, substituindo outros. E o determinismo ambiental. Em oposição a estes teóricos, estão aqueles que não fazem qualquer referência ao processo de aprendizagem, como Jung e Rogers. Estes, assim como Freud, colocam o indivíduo como fonte de seus atos. A natureza do homem é ativa. Ele é dotado de impulsos, instintos, motivações, necessidades, desejos conscientes ou inconscientes, bem como de uma energia vital ou sexual que determinam seu modo de ser. E o determinismo psíquico.

3. Existe uma tendência geral dos estudiosos da personalidade em considerar a hereditariedade e a base biológica do organismo como relevantes. Os teóricos que enfatizam a aprendizagem afirmam que o ambiente atua, inicialmente, sobre uma base biológica, o organismo. A Psicanálise afirma que a base inata dos instintos transforma-se em pulsões. Sheldon é um dos teóricos que mais radicaliza a importância deste fator, no sentido de “reduzir” os aspectos da personalidade às características genéticas. Este autor sustenta que há uma estrutura biológica que determina o desenvolvimento físico e a modelagem de comportamento. Suas pesquisas tentam comprovar que existe uma correlação entre tipo físico e tipo psicológico. Por exemplo, a correlação entre o tipo mesomorfo (tipo físico atlético) e a postura de dominação e agressividade na sua relação com os outros. Outros autores, como Lewin e Rogers, não negam a influência do biológico, mas a reduzem ao mínimo e enfatizam os fatos psicológicos, o conjunto de experiências significativas do indivíduo, a vivência em grupo etc.

4. O contexto sociocultural, enquanto referência ao mun do das relações sociais mais amplas e da cultura, é considerado por poucas teorias como influenciador da formação e do desenvolvimento da personalidade. W. Reich, em sua teoria, procurou demonstrar que o comportamento dos indivíduos é determinado, também, pelas condições histórico-estruturais da sociedade em que os homens vivem. Seus estudos sobre a sexualidade da juventude e o comportamento das massas na Alemanha nazista buscou mostrar como ocorre a formação do caráter (personalidade) peculiar e ajustada às condições de vida econômica, política e cultural de um povo. E esta formação caracteriológica (de personalidade) passa a “sustentar”, legitimar e conservar esta ordem social. Erich Fromm é outro psicólogo que também acata a importância de se compreender a personalidade como produto de condições culturais, isto é, para ele a personalidade desenvolve-se de acordo com as oportunidades que a sociedade oferece. Outros autores, como Lewin, consideram a influência social equivalente a experiências grupais, isto é, afirmam a importância dos grupos sociais aos quais o indivíduo pertence ou já pertenceu, na formação e controle de seu comportamento. Em síntese, as inúmeras concepções de personalidade, os diferentes modos de compreender sua estrutura e funcionamento refletem a diversidade de concepções filosóficas sobre o que é o homem, o que é ciência, bem como filiação dos teóricos a uma ou outra escola de pensamento em Psicologia. As diferentes teorias são diferentes recortes de um mesmo homem, que pensa, sente, age, se autoconhece e se transforma. Não há ainda uma teoria que englobe todos os conhecimentos acumulados nesta área de estudo e supere esta diversidade.

A teoria de ERICH FROMM:

Com a apresentação da teoria de personalidade de Erich Fromm, pretendemos fornecer uma ideia geral de um corpo sistematizado de conhecimentos nesta área, a partir das ideias principais de um dos estudiosos da personalidade. Natural da Alemanha, Erich Fromm concluiu os estudos de Psicologia, Sociologia e Filosofia em seu país, tendose radicado nos Estados Unidos, em 1933. Sua formação teórica foi em Psicanálise e é considerado um culturalista, porque defendia enfaticamente que os aspectos culturais, sociais e políticos são determinantes das possibilidades de realização humana e, portanto, da estruturação da personalidade. Este autor postula a existência de cinco necessidades específicas que se originam das condições da existência humana:

• A necessidade de relacionamento: o homem sente-se só e isolado porque se separou da Natureza e dos outros homens. Ele, ao contrário dos animais, perdeu suas ligações de interdependência com a Natureza e, portanto, como homem isolado, não está instrumentado para enfrentar todas as condições da Natureza. Nesse sentido, necessita de relações humanas que assegurem o cuida do mútuo, a compreensão.

• A necessidade de transcendência: refere-se à necessidade humana de superar sua natureza animal, de poder realizar sua capacidade de raciocinar, imaginar, criar. O bloqueio dessa necessidade leva o homem a ser destruidor. Nesse sentido, o amor e o ódio são respostas à necessidade que o homem tem de superar sua natureza animal.

• A necessidade de segurança: diz respeito ao seu desejo de ser parte integrante do mundo e ter certeza quanto ao pertencimento a algum grupo. Esta necessidade é plenamente satisfeita, na criança pequena, pela relação gratificante com a mãe. A satisfação e a felicidade estão relacionadas à solidariedade e fraternidade que sente dos outros.

• A necessidade de identidade: o homem deseja ter sua própria marca, sua individualidade, ser original e diferente como indivíduo. A possibilidade de realizar seu potencial criador leva-o a desenvolver sua própria identidade no mundo. Quando é impedido disto, acaba por reproduzir o comportamento de outra pessoa ou grupo.

• A necessidade de orientação: o homem necessita de um quadro de referências para pautar sua conduta, para ter um modo consistente e estável de perceber e compreender o mundo e a si próprio. Mas pode ser encontrado, em forma menos dramática e muitas vezes mais pérfida, em quase todos os tipos de relações interpessoais e de organização social. Um dos seus aspectos, que interessou especialmente os psicólogos, é o papel da personalidade no comportamento autoritário. Por exemplo, um amplo estudo de Adorno e seus companheiros apresenta provas de que uma síndrome de traços “autoritários” pode ser identificada como uma parte nuclear e permanente das personalidades de algumas pessoas. Os principais traços que constituem a síndrome parecem ser:

1. Grande interesse por relações de autoridade entre as pessoas; extrema deferência para com a autoridade superior e imposição da própria autoridade sobre os que estão em posição inferior.

2. Grande acentuação da moralidade, dos valores e do com portamento convencional; estrita conformidade às normas do grupo.

3. Excessivo controle e negação dos próprios impulsos e sentimentos “imorais”, e projeção de tais impulsos em quem não pertence ao seu grupo; exagerado sentimento da própria “correção” moral; falta de autoconhecimento.

4.. Despersonalização das relações sociais; tendência para dirigir e explorar pessoas como se fossem objetos, em vez de tratá-las como seres humanos; expectativa de ser explorado pelos outros; tendências sádicas (prazer em ferir outras pessoas), ao mesmo tempo que tendências masoquistas (prazer em ser ferido).

5. Rigidez dos processos de pensamento excessivamente es tereotipada; preconceito e intolerância com relação aos grupos minoritários.

O estudo de Adorno sugere que o desenvolvimento dessa síndrome decorre de tratamento disciplinar muito severo da criança; esse tratamento, de forma característica, envolve uma excessiva acentuação da correção das normas e valores dos pais, insistindo-se em total obediência, reforçada por punições. Muitas vezes, essa disciplina severa é acompanhada por uma atitude, dos pais, de rejeição emocional da criança, e pela sua exploração. Como resultado dessa situação, a criança desenvolve uma extrema submissão à autoridade dos pais, que mais tarde se estende a todas as autoridades. Essa submissão está ligada a uma aceitação indiscutida da correção dos valores das autoridades. Ao mesmo tempo se desperta uma grande hostilidade com relação aos pais ou outras autoridades. Essa hostilidade não pode exprimir-se numa agressão direta contra a imagem da autoridade. De um lado, existe o medo de punição, dada pela autoridade todo-poderosa;• de outro, essa agressão seria incompatível com a crença na total correção da autoridade. Assim, a hostilidade é reprimida (...), e a agressão se desvia para objetos mais seguros, tais como grupos minoritários ou aqueles em posição de um status inferior, e algumas vezes contra o eu.

Provas para essa imagem geral foram encontradas por Adorno e seus companheiros — e por um grande número de outros investigadores — através de estudos de muitos grupos de sujeitos com o emprego de diferentes tipos de técnicas de investigação, tais como entrevistas psiquiátricas, questionários de atitudes, testes de laboratório levantamento sociológico.

Deve-se acentuar que a síndrome “autoritária” não, é característica exclusiva de qualquer movimento ideológico; classe social, ou profissão. “Personalidades autoritárias” podem ser encontradas em qualquer lugar — tanto no sindicato quanto na administração industrial, tanto em clubes quanto na burocracia governamental; não são desconhecidas nas igrejas, nem nas salas de aula.