O Desenho no Design de Moda

Inicialização em Desenho de Moda

1 O desenho como ferramenta para o Design de Moda:

A habilidade de desenhar é de grande importância para o profissional de moda, especialmente àquele que trabalha com o produto, seja na criação, seja no desenvolvimento de peças do vestuário, acessórios ou joalheria. O desenho auxilia a compreender o processo de criação, estruturação e viabilidade de confecção da peça. De acordo com RIEGELMAN, no prefácio de seu livro sobre métodos e técnicas de desenho de moda, o desenho é uma linguagem que possibilita a expressão e comunicação de idéias. No desenho de moda, as idéias a serem expressas são possíveis soluções que ainda existem apenas na mente do designer. Assim, é através do desenho como ferramenta de comunicação entre as várias etapas de produção e comercialização, que o produto de moda nasce e, passando por diferentes mãos, ele toma forma e tridimensionalidade. O desenho é um mapa, um projeto, o início do produto e é também sua memória, esperando para ser reinventado na próxima coleção de moda.

Possível início para registros gráficos na moda:

O desenho de moda, que tem como principal objetivo representar o vestuário e seus complementos, tem um desenvolvimento recente, ocorrido ao longo do século XX. Em períodos anteriores, a moda era retratada e percebida por meio de obras de arte geralmente. É comum encontrar ao longo da História registros de modelos de peças de vestuário e, especialmente reproduções de tecidos usados pelas castas mais abastadas das sociedades, em retratos e cenas religiosas. Essas obras de arte surgem com o refinamento de técnicas de pintura, principalmente, durante a Renascença que, ainda hoje, são utilizadas como referenciais para estilistas e designers de moda. Quando olhamos para a história da moda, percebemos que seus registros estão atrelados à história da arte principalmente em pinturas, esculturas e gravuras. As representações do universo da arte continuam a ser importantes referências para a moda. De acordo com BRAGA:

(...) pelo fato da moda ser uma expressão estética, a apropriação de imagens também do universo das artes ajuda a fazer a interface entre as aparentemente distintas áreas da arte e da moda, que por sua vez, em inúmeros momentos históricos acabam falando a mesma linguagem estética.

As imagens da história da arte que funcionaram, em outras épocas, como registros de objetos de moda, são quase sempre figurativas, o que contribui ainda mais para que atuem também como registros de seu tempo. Segundo SANTAELLA, as imagens produzidas pelas obras de arte, tais como as pinturas renascentistas representam de maneira realística, ou muito próxima disso, pessoas, objetos e cenários observados e, por isso, são fortemente marcadas pelo tempo e seus referenciais:

As imagens figurativas são aquelas que transpõem para o plano bidimensional ou criam no espaço tridimensional réplicas de objetos preexistentes, visíveis ao mundo externo, quer dizer, apontam com maior ou menor ambigüidade para objetos ou situações reconhecíveis (...) Na imagem figurativa, como o próprio nome diz, a relação referencial é explicita, quer dizer, trata-se de imagens que sugerem, indicam, designam objetos ou situações existentes. Sendo existentes, esse s objetos e situações estão marcados por uma historicidade que lhes é própria. Ora, ao representar o referente, a imagem acaba inevitavelmente por trazer para dentro de si a historicidade que pertence ao referente. É nesse sentido que as imagens figurativas podem funcionar como documentos de época. Figurinos, cenários, arquiteturas, decorações costumam aparecer como indicadores inequívocos de uma época.

Contudo, não eram apenas as obras de arte que poderiam ser identificadas como fonte de informação. Além das pinturas e retratos, havia ilustrações sobre moda e desenhos que integravam jornais e publicações que exemplificavam principalmente assuntos como moda e costumes. As primeiras publicações sobre moda aparecem na França, no final do século XVIII e multiplicam-se na Europa ao longo do século XIX. Podemos citar como exemplo o Journal des Dames et des Modes que foi referência de moda entre 1797 e 1839, para as mulheres da alta burguesia francesa que copiavam os modelos sugeridos nos desenhos. Mais tarde, em 1878 surge a revista Petit Echo de la Mode também na França.

Quase como que num processo de reação à esta nova realidade que se impunha, acontece em Paris a introdução de uma nova idéia de moda. O inglês Charles-Frédéric Worth, distinto costureiro, estabelece-se na capital francesa no ano de 1857, e inicia, com seu trabalho, a retomada da elitização da moda, ajudada pelas publicações que se tornariam corrente. Há na Europa uma tentativa de restaurar o glamour da alta costura de épocas anteriores, com as maisons, ou ateliês de costureiros influentes e seletivos. Assim como Worth, outros notáveis costureiros do inicio do século XX utilizavam os serviços de ilustradores e desenhistas como forma de divulgação de suas criações entre a seleta cartela de clientes.

O cenário que se configura na virada do século XIX pra o século XX em termos de moda é polarizado pelos Estados Unidos e pela Europa. Na América do Norte a crescente democratização da moda e os avanços tecnológicos nas indústrias de confecção introduzem a proposta do ready to wear , o “pronto para vestir” que os franceses chamariam de prêt-a-porter, com modelos originalmente criados por designer europeus. No Brasil da virada do século XX, ainda havia uma forte influência européia nos hábitos e costumes principalmente das elites, que tinham acesso a viagens e produtos trazidos de países como a França e a Inglaterra.

Essa influência estendia-se à classe média que, por sua vez, copiava à sua maneira o exemplo das elites, numa tentativa de igualar-se ou ascender. A sociedade brasileira, especialmente no Rio de Janeiro, seguia os hábitos e costumes franceses, como explica JOFILLY: 

Com a saída de cena dos nobres portugueses, nossos senhores e reis, nada muda na colônia, que continua se vestindo á moda européia, de olhos postos em Paris. E a nossa Republica, também se vestirá à moda européia. No início do século XX, as mulheres continuam servas fiéis da moda ditada pela França.

Além das roupas, acessórios como sombrinhas, os obrigatórios leques, a maquiagem e até as loções e perfumes, tudo deveria ser importado da França para ser considerado elegante. Mesmo se elegância fosse sinônimo de martírio e sofrimento, principalmente para as mulheres, que deveriam se vestir de peles e tecidos de lã em pleno verão carioca. Ainda segundo JOFILLY:

As madames e mademoiselles ricas vestiam-se nas tais casa s de prestigio, montadas pelos franceses. As de classe média usavam costureiras para copiar modelos de figurinos estrangeiros, réplicas fiéis dos últimos lançamentos franceses.

Portanto, no Brasil do inicio do século XX, a moda e os valores sociais de elegância e refinamento tinham espelho nos modos e costumes europeus, especialmente franceses. Talvez, para as famílias aristocráticas brasileiras a descendência européia e o cultivo dos costumes de origem eram de fato a diferenciações desejadas, ainda que isso exigisse um grande esforço e, no caso das mulheres, especialmente, muitos sacrifícios. Divergências óbvias, como o clima quente e a estrutura das cidades (ainda em formação e o deslocamento freqüente para fazendas e lugares mais distantes) eram problemas reais mas apesar das dificuldades, não eram levados em conta. De certo modo, talvez fosse justamente essa dificuldade de reproduzir hábitos em um ambiente pouco favorável que caracterizava o acesso de poucos á um grau de status considerado nobre ou civilizado.

O desenho e seus múltiplos papéis nos projetos de design de moda:

Para o Design de Moda, a construção do produto requer um processo de planejamento que antecede seu desenvolvimento, e que eventualmente pode se configurar como uma questão metodológica bastante especifica. Segundo CALDAS, existem regras de observação e decifração de sinais, tanto mercadológicos, como de tendências de moda e de comportamento sociais, que são de extrema valia para o designer de moda planejar, desenvolver, lançar e comunicar produtos e objetos de moda no mercado.

Para que os produtos de design existam, são necessárias várias etapas. O designer inicia este processo, pois é ele quem vai pensar na idéia do que será o produto, em termos de formas, materiais, cores, etc. Para isso, normalmente realiza-se um desenho ou um projeto onde estão inseridas todas as considerações e decisões sobre formas, adequações, materiais, etc. Na Moda, este desenho ganha o nome de croqui e apresenta a idéia do objeto roupa ou acessório, sobre o corpo, já demonstrando sua função de cobrir e ornamentar, muitas vezes de maneira a evidenciar as formas desse corpo ou até mesmo na intenção de modificá-las. Além disso, no croqui também é feito um estudo de materiais e cores simulando sua coordenação e combinações. Também é no croqui que é feito o estudo, através da representação gráfica, do comportamento dos materiais escolhidos em relação ás formas propostas. No desenho de moda, este estudo chama-se caimento.

Assim, o croqui ou desenho de moda reúne e visualiza as informações que devem ser consideradas para a concepção do produto de moda, antes de sua realização e reprodução em grande quantidade. Em seguida, dando continuidade ao processo necessário para a realização do produto de design, há uma seqüência de etapas, que variam desde a escolha de matéria prima, passando pela montagem e acabamento do produto. Nestas etapas, o objeto ganha tridimensionalidade, gerando um segundo tipo de visualidade para a idéia original: se constrói uma visualização tridimensional, que é o protótipo do objeto. Na moda, este protótipo tem o nome de peça piloto, pois é a primeira vez que a roupa será confeccionada.

As etapas que seguem a partir do croqui são as etapas de modelagem, corte e costura do modelo proposto pelo desenho. São etapas distintas, executadas ora manualmente, ora mecanicamente, passando por diversas mãos e setores antes de voltar às mãos do designer que a desenhou, para verificação e aprovação. Em todas elas o desenho está presente, mas suas características mudam de acordo com uma função para cada etapa, numa tentativa de completar ou explicar de outro modo o desenho anterior, evitando duvidas e principalmente erros durante a produção.

Dessa forma, os desenhos que acompanham o processo de criação e confecção de uma peça de vestuário, por exemplo, têm inicialmente o formato de croqui (que será detalhadamente explicado no capitulo dois), basicamente formando uma imagem da idéia do designer com a finalidade de orientar o trabalho do modelista, que é o profissional responsável pela criação dos moldes. Esses moldes, que são os desenhos das partes, separadamente, que compõem a peça, são traçados em papel e já no tamanho real do modelo e servirão para orientar o corte do tecido, ou da matéria prima determinada, no formato e tamanho adequados, na etapa seguinte de confecção do produto. Ainda nessa seqüência, além do desenho em forma de croqui e em forma de moldes, os profissionais utilizam também o desenho técnico (que também será abordado em detalhes no capitulo dois). Este tipo de desenho esclarece sobre detalhes como recortes, tipos de costuras e localização exata de outros elementos que compõem a peça, chamados de aviamentos.

Quando pensamos em Design de Moda, todo um processo de criação, desenvolvimento e comercialização de roupas e acessórios vem à nossa mente. Neste processo, a principal força é a relação entre o consumidor e o produto de moda, seja ele qual for. Por isso, todo o design gira em torno do eixo produto “versus” consumidor e todos os elementos e ações que compõem o processo do design voltam-se para essa relação, objetivando-a e reforçando-a. Ainda que com funções diferentes, tanto o desenho como a ilustração podem ser tidos como parte integrante do projeto de design do produto de moda.

Os vários tipos de desenho para a moda, tem por objetivo principal esclarecer e orientar o processo de construção do produto, artesanal ou industrializado, exclusivo ou reproduzido em série. Podemos afirmar que a ilustração e o desenho de moda podem induzir e documentar comportamentos e valores, além de simplesmente refleti-los ou caracterizá-los. Dessa forma, podemos ainda perceber mensagens de moda implícitas em um desenho e em uma ilustração por meio dos elementos que os compõem, ou seja, formas, cores e arranjos compositivos, como explica DONDIS:

Se um meio de comunicação (verbal) é tão fácil de decompor em partes componentes e estrutura, por que não o outro? Qualquer sistema e símbolos é invenção do homem (...) A sintaxe visual existe. Há linhas gerais para a criação de composições. Há elementos básicos que podem ser aprendidos e compreendidos por todos os estudiosos dos meios de comunicação visual, (...) para a criação de mensagens visuais claras. O conhecimento de todos esses fatores pode levar a uma melhor compreensão das mensagens visuais.

É neste sentido que podemos ainda observar a ilustração e o desenho de moda como uma face do design gráfico, quando identificamos ambos como uma imagem. Imagem esta, que na moda, também pode ser entendida como instrumento de comunicação, que acontece ao longo de todo o processo de criação, desenvolvimento e comercialização do produto de moda. Comunicar o produto de moda compreende enfoques diferentes, dependendo da etapa em que ele se encontra, neste processo. Na etapa de criação, por exemplo, o desenho é fundamental para o estudo da idéia e definição do produto. Na imagem, a representação da mulher vestida demonstra ao leitor como o modelo de estola que está sendo proposto deve ser colocado sobre o corpo ao mesmo tempo em que fica claro a maneira como a peça deverá se comportar sobre este corpo.

Já para o desenvolvimento ou confecção do produto, o desenho assume um papel de linguagem técnica, que informa e estabelece definições em relação ao seu detalhamento de composição e estruturação. Na imagem abaixo, à direita, observamos como o desenho auxilia na compreensão da costura do modelo que aparece na fotografia. Finalmente na etapa de comercialização, o desenho pode ser utilizado para estabelecer ou reforçar relações entre o produto e o consumidor, agregando valor e criando identidades, fazendo parte do objeto, no caso de estampas e etiquetas, aparecendo em embalagens ou mesmo em publicidades, por vezes desvinculadas do produto propriamente.

2 O DESiGN DE MODA E SUAS REPRESENTAÇÕES GRÁFiCAS:

O DESENHO E O DESIGN: ALGUMAS DEFINIÇÕES:

Muitos autores discorrem sobre as origens dos termos desenho e design, na tentativa de esclarecer seus usos e adequações. É certo que há muitas relações entre significados e usos para estas palavras, mas a maioria dos autores parece concordar numa dupla significação na qual os conceitos relacionam o plano das idéias e a ação concreta do fazer. De acordo com DENIS:

A origem mais remota da palavra (design) está no latim designare, verbo que abrange ambos os sentidos, o de designar e o de desenhar. Percebe-se que, do ponto de vista etimológico, o termo já contém nas suas origens uma ambigüidade, uma tensão dinâmica, entre um aspecto abstrato de conceber/ projetar/ atribuir e outro concreto de registrar/ configurar/ formar. 

Contudo, hoje a utilização da palavra design procura determinar um universo maior de significações, que passa pelo campo do planejamento e estruturação de soluções, configurando projetos e processos para a obtenção de objetos utilizáveis no cotidiano. Dessa forma, a palavra desenho passa a ter uma significação reduzida, quase que pejorativa limitada apenas ao ato de registro ou mera reprodução, deixando de lado a estreita relação que há entre o desenhar e o pensar. O registro gráfico é conseqüência do ato de pensar e não pode estar desvinculado do pensamento intelectual. Como explica MARTINS:

No entanto, nem mesmo a palavra drawing (desenho em inglês) pode deixar de se referir, de alguma forma, a um projeto, ou seja, um desígnio, a um ato de pensamento, mesmo porque essa é a natureza do ato de desenhar (...) seja, um mero marcar, seja um representar, seja um determinar, o gesto revela uma intenção (...) evidenciando a origem de um procedimento intelectual mais amplo e que se origina desta forma de representação gráfica.

por isso que a primeira associação que comumente é feita entre o designer de moda e seu trabalho passa obrigatoriamente pela questão do desenho, ou seja, para ser um designer de moda a habilidade do desenho é necessária. Em outras palavras, o trabalho do designer de moda é conceber o produto e registra-lo graficamente para viabilizar e organizar sua produção. Na prática, é possível constatar a importância dessa habilidade na comunicação da idéia, e o desenho pode ser visto como ferramenta fundamental de trabalho. Entretanto, é importante deixar claro que, no design de moda, o desenho possui características especificas e se modifica em função da etapa em que ele é utilizado, tanto nos processo produtivos, quanto nos processos de comunicação e comercialização dos produtos de moda

O DESENHO TÉCNICO DE MODA:

O desenho técnico de moda é normalmente entendido como a representação planificada e bidimensional de peças de vestuário e de peças de acessórios, como bolsas, sapatos, jóias e bijuterias. Nesse tipo de representação, o traçado é preciso e obedece á uma espécie de legenda na qual códigos são utilizados. Esses códigos traduzem características e técnicas próprias para a representação de produtos têxteis e de moda e são, portanto, tipos específicos de registros gráficos. Por exemplo, para demonstrar costuras, a linha desenhada deve ser tracejada; já para representar recortes, a linha deve ser contínua. Não há o uso de cores para o desenho técnico, na intenção de facilitar sua leitura, mas para diferenciar planos, no caso de sobreposições de partes ou de materiais, podem ser utilizadas tonalidades claras de cinza ou hachuras.

A importância da observação e utilização desses códigos está no fato de que o desenho técnico é uma etapa fundamental no processo de confecção do produto, já que o entendimento das partes que compõem o objeto, suas relações de tamanho, formas, volumes e encaixes devem ser perceptíveis e compreendidas por meio desse registro gráfico. Sendo assim, como explica LEITE e VELLOSO:

Para o desenhista técnico de moda, a roupa deve ser entendida como um objeto que repousa sobre o volume do corpo, obedecendo às suas formas e articulações. No desenvolvimento de seu trabalho, o profissional precisará lembrar que suas orientações servirão de base para a confecção da roupa e que esta, fora do corpo, é uma superfície plana, mas que ganha volume quando vestida, tornando-se tridimensional.

O objetivo do desenho técnico é, portanto, demonstrar o produto de moda de forma clara e objetiva, visando sua reprodução exata em escala industrial. É preciso lembrar que, muitas vezes a confecção do produto passa por diferentes mãos e empresas e por isso há a necessidade de que este desenho seja preciso e acompanhado de informações escritas, contextualizadas em Fichas Técnicas.

Dessa forma, o desenho técnico na área de moda caracteriza-se como instrumento indispensável nas confecções e oficinas de produção e desenvolvimento de produtos de moda. Além disso, também encontra utilização em catálogos e manuais de venda, orientando sobre os detalhes e modelo dos produtos. Conforme aponta no prefácio do livro Desenho Técnico de Roupa Feminina a respectiva editora Marilia Pessoa,

Pode-se dizer que (o desenho técnico) é uma espécie de código genético da roupa, uma vez que nele estão inscritas todas as informações necessárias à reprodução de cópias absolutamente idênticas. O tipo de tecido, a posição exata das costura s, o local onde serão colocados os detalhes, a grade de tamanhos, a seqüência de montagem das peças e até as ferramentas que devem ser usadas para aplicação de detalhes podem ser explicitadas a partir do desenho técnico.

Assim, a elaboração de um desenho técnico de moda é sem dúvida complexa, mas é de extrema importância para o processo produtivo industrial. No mercado de trabalho e também nas escolas de moda, este tipo de desenho pode ser realizado de duas formas: manualmente e digitalmente. Nos cursos de moda, o desenho técnico é ensinado a partir do traçado manual, onde o aluno manuseia réguas e canetas sobre papel. Acompanhando os avanços tecnológicos, o desenho técnico também pode ser realizado a partir da utilização de programas de computador que permitem a elaboração de linhas e planos bidimensionais. Existem programas desenvolvidos especificamente para a área de moda e outros, de utilização mais ampla 6. Ambos oferecem ferramentas e soluções para a elaboração do desenho técnico e sua contextualização nas Fichas Técnicas. No mercado de trabalho, as duas técnicas são utilizadas, mas é notória a informatização das empresas do setor, mesmo nas de pequeno porte.

O DESENHO DE MODA:

O designer de moda trabalha fundamentalmente com projetos que buscam soluções que agreguem valores ao produto como inovação, utilidade e novidade, características, inclusive, da própria moda. Isso significa que cabe ao designer conceber o produto de moda, vestuário ou acessórios, e estudar e propor sua viabilidade, tanto comercial quanto de confecção. Assim, a pesquisa de moda se faz necessária, na medida em que o designer busca materiais, formas e cores para adequar o produto ao consumidor final, garantindo sua comercialização, e também para adequar o produto ao modo de produção, de acordo com maquinários, tecnologias e estruturas de fabricação disponíveis.

A definição desses parâmetros possibilita a idealização e a criação de produtos e o desenho é a linguagem usada pelo designer de moda para realizar a comunicação visual dessas idéias que ainda não se concretizaram. Esse desenho tem como finalidade demonstrar como o produto de moda deverá se apresentar antes mesmo de sua confecção. Os traçados, juntamente com a(s) técnica(s) de colorização utilizados pelo designer de moda, devem reproduzir de maneira convincente, e, portanto bem próxima à realidade, os materiais e acabamentos do produto. De acordo com RIEGELMAN, 

Dentro da indústria de moda, o propósito do desenho de moda é apresentar um projeto de consideração para possível fabricação. Um desenho pode ser considerado útil, do ponto de vista do designer, se ele apresenta o conceito do projeto da maneira mais clara e positiva possível, representando os tecidos e materiais da maneira mais próxima do real.

No caso de o produto de moda ser uma peça de vestuário, a representação de texturas e caimento dos tecidos sobre o corpo deve ter atenção especial. As técnicas de colorização, por exemplo, devem ser escolhidas e combinadas de acordo com o efeito que o designer idealizou para aquele produto. Por exemplo, canetas para colorir feitas a base de água ou álcool que misturam cores de forma suave e transparente, possibilitam a simulação de fluidez e leveza de tecidos como organzas e musselinas ou os lápis de cor do tipo aquarelável, que possuem textura granulada quando não dissolvidos por pincel e água, que podem simular tramas mais densas e pesadas de tecidos como tafetá ou veludo. Para a indústria, o desenho de moda também é conhecido pela denominação croqui.

De origem francesa, é muito provável que esse termo seja, ainda hoje, utilizado no Brasil uma vez que a França continua sendo uma das principais referências de moda mundiais em termos de lançamento de tendências e difusão de informações sobre moda. No croqui um estudo é feito em relação aos materiais e cores simulando sua coordenação e combinações. Também é no croqui que é feito o estudo, através da representação gráfica, do comportamento dos materiais escolhidos em relação ás formas propostas. No desenho de moda, este estudo chama-se caimento.

De acordo com as definições para a palavra croqui, encontradas em dicionários da língua portuguesa 8 e da língua francesa 9 e também em dicionário de termos artísticos10, parece haver concordância entre os autores a respeito de sua significação. Em geral, definições como esboço, desenho rápido e esquema poderiam elucidar o uso do termo. Contudo, no design de moda, o uso da palavra croqui está diretamente associado à representação da idéia do designer, a partir do ato de desenhar. Assim, o croqui é a junção do fazer e do pensar o produto de moda em termos projetuais. Em outras palavras, quando o designer de moda concebe o produto, a necessidade de exteriorizá-lo, comunicá-lo ou mesmo de estudá-lo é resolvida por meio da representação gráfica que revela, no ato de desenhar, a idéia, a intenção e o plano do designer (figura 15). Ainda de acordo com RIEGELMAN:

Do ponto de vista do ‘cliente’ – aquele quem vai analisar o desenho e decidir se o produto será ou não fabricado – a utilidade do desenho está na representação dos materiais que não apenas devem parecer atraentes, mas principalmente devem estar representados de forma realística, para que haja uma impressão precisa do produto e seu efeito final.

Assim, o croqui é de fundamental importância, uma vez que, se bem feito, pode convencer donos de empresas ou compradores de produto, por exemplo, a favor de sua fabricação, mesmo sem que tenha sido realizado um protótipo do produto. Portanto, o desenho de moda feito de forma “clara e positiva”, além de seduzir, também reduz custos e otimiza recursos e tempo para a indústria.

A ILUSTRAÇÃO DE MODA:

Outra forma de representação gráfica que a moda possui é a ilustração, que assim como o desenho de moda, permite uma ampliação dos significados subjetivos. Entendida aqui também como linguagem de representação visual, a ilustração de moda traz elementos próprios deste universo e vai mais além, incorporando e interpretando elementos culturais e sociais. Isto significa dizer que a ilustração de moda traz o “pulsar do tempo”, pois carrega traços desse tempo, valores e comportamentos, mudanças e oscilações, que influenciam a percepção e a concepção de novas estéticas, bem como análise e interpretação do espírito do tempo, da época em que ela foi realizada.

Por isso mesmo, a diferença entre desenho e ilustração é muito sutil e suas nuances se entrelaçam e se misturam, dificultando a percepção de limites. Um possível ponto de referencia que permite a diferenciação entre desenho e ilustração é a própria idéia de comunicação do produto de moda. Se em ambos há a representação gráfica de peças de roupa ou acessório, o desenho ou croqui preocupa-se com seu detalhamento e características envolvidas em sua fabricação e na ilustração concentra-se na mensagem de moda intrínseca a este produto. A partir dessa perspectiva, podemos entender que a ilustração de moda está no campo do experimental: novas estéticas, conceitos e técnicas de comunicação tanto de moda como de estilos de vida.

Estas outras informações são lidas de acordo com o repertório do espectador. De acordo com o comentário de Jonathan Tran, ilustrador de moda britânico, no prefácio de Fashionize: A ilustração de moda deve capturar idealismos e comportamentos. Elas devem comunicar tudo àquilo de inatingível e subjetivo que envolve o objeto em questão.

Quando observamos as ilustrações de moda contemporâneas, fica ainda mais claro que esse tipo de representação recusa classificações tradicionais; ela encontra e segue seus próprios caminhos, em meio a tendências e novas tecnologias digitais. Na figura podemos perceber formas e cores que nos remetem ao universo jovem e descontraído dos anos de 1970. Mas os personagens feminino e masculino que aparecem nos dão pistas da mistura de épocas e referências: a forma da boca da garota, grande e carnuda e seu braço magro e exageradamente torneado pode remeter à imagem de beleza que o cinema hollywoodiano apresenta no final da década de 1990.

Ainda é possível outra gama de interpretações, que dependem do referencial do espectador. Percepções como a questão do posicionamento da mulher na sociedade contemporânea, já que a figura feminina aparece maior e no centro da imagem, ou ainda a ligação entre musica, tecnologias e comportamento jovem, por meio das representações de discos de vinil (long-plays ou LPs), fitas cassete e compact discs (ou CDs), apenas para citar algumas possibilidades nessa imagem.

A ilustração pode, também, fazer parte do projeto de comunicação do produto de moda, tanto para o processo de produção como para o processo de venda, exercendo influências sobre o consumidor. Quando isso acontece, a ilustração deixa de ter um caráter experimental e passa a considerar questões que envolvem a comercialização do produto de moda. Em outras palavras, a ilustração de moda pode ser uma forma de comunicação entre marcas e produtos e seus consumidores, criando e identificando códigos sociais para essa comunicação. Segundo GARCIA: (...) a moda é um instrumento poderoso de inserção humana no contexto cultural, tornando-se também ela um sujeito ativo que detém o poder para agir de diferentes formas no processo comunicacional; (...) moda como instrumento de comunicação (...) não-verbal, ou seja, expressão do eu em interação com o mundo.

Dessa maneira, as ilustrações de moda são utilizadas inclusive para transmitir valores e conceitos anteriores ao produto de moda em si. Torna-se uma imagem que pode não estar preocupada com a identificação do produto para venda direta (detalhes do modelo, por exemplo), mas sim com a identificação dos valores e referências que a marca, ou fabricante, atribui a seus produtos de forma geral. A idéia é buscar, antes da compra imediata, uma identificação, por parte do consumidor, com relação à marca propriamente, conquistando assim a fidelidade desse consumidor e garantido vendas futuras. 

Através do uso das cores quase podemos sentir o cheiro do perfume: o que aparece à esquerda da figura tem em sua embalagem o verde e o azul, cores que possuem conotação fria e refrescante. O desenho da garota em pose descontraída e solta, usando roupas leves, frescas e de cores fortes, típicas de verão, traz a idéia de uma jovem consumidora de férias na praia, em um dia ensolarado. A ilustração que aparece à direita na figura tem as cores vermelho e laranja em profusão, que conferem conotação mais quente e adocicada, e que, quando associadas ao desenho da garota usando um vestido mais escuro e justo ao corpo sugerem uma situação de fim de tarde ou de agitação em bar ou casa noturna, bem típico do comportamento de uma jovem na faixa dos seus vinte anos.

Em seu livro Observatório de Sinais, CALDAS, afirma que para uma tendência de moda existir, ela depende da crença naquilo que se quer fazer crer e que, para tanto, o processo comunicativo que veicula essa tendência é constituído por dois pólos: o emissor da mensagem e o receptor da mensagem. Podemos entender o “pólo receptor” como o individuo que consome objetos e produtos de moda e o “pólo emissor” como o designer de moda, responsável pela inserção de mensagens nos objetos e produtos de moda. Estabelecidas as pontas da comunicação, entendemos que a mensagem de moda deverá seguir o caminho de um para o outro.

A moda se apropria de imagens, muitas vezes criadas pela publicidade, para a comunicação da mensagem. Assim, a forma não-verbal de expressão que se dá através de imagens é passível de ser analisada e interpretada pelo receptor/ consumidor, possibilitando o contato e a identificação entre produto e usuário. É possível identificar a ilustração de moda como essa imagem que comunica e carrega mensagens ao consumidor. Mesmo sendo figurativas, essas imagens representam algo de caráter abstrato e geral. Podemos classificar as ilustrações de moda contemporâneas nessa categoria já que tratam do comportamento e atitudes das sociedades através da linguagem corporal onde as roupas são símbolos de informação e comunicação e não necessariamente da roupa como produto.

No exemplo da imagem, a ilustração traz elementos de moda como a calça jeans por dentro das botas e a mistura nos estilos dos acessórios (colares, pulseiras e faixa no cabelo). Contudo, outros elementos compositivos nessa imagem nos fornecem pistas para um entendimento mais amplo: características culturais e sociais podem estar descritas ou escondidas na escolha em vestir a personagem com calças do tipo jeans e botas no estilo norte-americano que conhecemos como cow-boy; na posição em que a garota se encontra, parecendo estar muito a vontade sentada no chão, o que também pode ser um indicio de características comportamentais de uma jovem urbana que tem acesso à informação de moda, por exemplo.

Ainda de acordo com SANTAELLA, há outra classificação possível para uma imagem: a imagem simbólica. Este tipo de imagem seria um meio termo, uma ou muitas nuances entre a idéia de temporalidade e de atemporalidade. O simbolismo na imagem também pode ser determinado a partir de regras culturais, onde os elementos que constituem a imagem são passíveis de interpretações que vão além de seu significado comum ou imediato, e que dependem de referências culturais e de valores atribuídos á objetos ou representações, códigos culturais: Já as imagens simbólicas, embora possam sugerir a temporalidade de possíveis referentes, essa temporalidade é sempre tão geral e vaga quanto é genérica e universalizante a função referencial desse tipo de imagem.

3 A SILHUETA FEMININA E O DESIGN DE MODA:

Como vimos o desenho é ferramenta fundamental para o designer de moda. Em um primeiro momento, o desenho é tido como instrumento de estudo e expressão de idéias e conceitos que antecedem o produto propriamente, porém são intrínsecos á ele. Ao longo da produção da peça o desenho também assume papel de instrumento de comunicação, tanto para o auxÍlio da confecção e realização deste produto de moda como na sua efetiva comercialização. Quando falamos em produto de moda, entendemos que a amplitude do termo considera elementos decorativos e de complemento, como jóias, bolsas e sapatos também como pertinentes à área de moda. Contudo, é importante dedicarmos maior atenção ás peças que compõem o vestuário, isto é, a roupa. A roupa e suas inúmeras variações, que não somente cobrem o corpo, como colaboram para a construção da imagem deste corpo. Podemos chamar esta imagem de silhueta na medida em que consideramos as formas, os volumes e as muitas relações entre estes fatores, que criam diferentes contornos para o corpo.

Em outras palavras, quando o designer de moda idealiza uma peça para determinado corpo vestir, a figura humana se torna uma imagem em função do conseqüente delinear desse corpo pela roupa, que ora evidencia suas formas originais, ora transforma volumes em outras possibilidades. E há ainda que se considerar a construção da roupa pelo corpo que a veste, em função das mesmas formas e volumes que, em suas variações, preenchem e modelam tecidos e outros materiais.

Estas proposições, pensadas e concebidas pelo designer se materializam, em primeira instância, por meio dos desenhos de moda, que representam as possibilidades de contornos desses corpos vestidos, ou seja, as silhuetas de moda. Isto significa que o desenho de moda é a primeira expressão da imagem ideal da figura humana em termos de aparência desejada em determinada época e lugar. Dessa forma, os desenhos revelam mais que a idéia do modelo da roupa uma vez que consideram o individuo e sua imagem em função da vestimenta, ou ainda, a roupa e o individuo em função de sua imagem. É o que explica Ana Claudia de Oliveira na apresentação do livro Moda e Linguagem, CASTILHO:

Intimamente imbricada às feições do sujeito que cada época faz emergir como uma de suas expressões, a moda é, dentre essas, talvez, a expressão mais significante, que faz circular o sistema de valores partilhado pela coletividade com suas regras de conduta. Quer na moda vestimentar, quer na moda das silhuetas, impõem essas um contingente de coerções que presentificam os contextos ao lhe dar uma modelação que lhes confere existência. Na moda e por ela, os sujeitos mostram-se, mostrando os seu s modos de ser e estar no mundo, o que os posiciona neles.

Concordamos com Oliveira na afirmação de que “corpo e roupa, por encontrarem-se plasticamente fundidos, compõem conjuntamente a aparência final do sujeito. Será por intermédio de decorar-se, ornamentar-se e vestir-se que se formarão concepções de beleza, bom gosto, costumes e comportamentos próprios de cada sociedade”. 

Parâmetros mais freqüentes para representação da silhueta no desenho de moda:

O desenho de moda, especificamente o croqui, e as ilustrações promovem o que CASTILHO chama de (re) arquitetura anatômica. Os desenhos e as ilustrações são imagens criadas pelo homem a partir do corpo biológico “natural”. Por meio da imaginação humana, essas representações gráficas exprimem valores intrínsecos à sua época. O corpo biológico é, então, transformado em um “ser cultural”, produto de seu tempo e imaginação. Isto acontece também em função da necessidade humana de comunicação. A linguagem corporal, que antecede a comunicação por meio de palavras, encontra na moda forte aliada para reforçar gestualidades, trejeitos e principalmente a imagem daquilo que se quer parecer ou ser.

Neste sentido, a moda colabora para a garantia de uma identidade social e cultural do individuo e o corpo assume um papel de suporte da roupa e do discurso daquele indivíduo, em determinada época e lugar, inclusive nas suas representações. Por outro lado, a moda pode colaborar na busca por uma nova identidade e por um novo posicionamento dessa pessoa que encontra na moda recursos para a expressão de um novo significado e uma nova comunicação em relação ao que ele é e o que ele quer parecer ser. É quando, por meio da moda o corpo é re-inventado e modificado em suas formas originais com propósitos muitas vezes estéticos, e que sempre acabam por revelar características e valores.

No croqui, o corpo geralmente ganha destaque, pois é ele que vai dar vida ao produto, justificando-o e emprestando seus movimentos a ele, carregados de simbolismos e características. Os estudos em moda, bem como profissionais da área, consideram a forma como o corpo se apresenta nesses desenhos de fundamental importância, já que o produto de moda pode ser valorizado em função da postura e gestualidade desse corpo representado no desenho. Por outro lado, essa postura é também entendida como a atitude que esse corpo tem ou quer ter e que pode ser evidenciada pelo produto de moda.

Nos dois casos, o objetivo principal do croqui é alcançado, na medida em que a mensagem de moda que o desenho transmite comunica produto e conceito. A eficiência dessa comunicação é fundamental para a garantia de aprovação daquele modelo ou idéia e sua conseqüente realização. Se o croqui pressupõe o traçado corpo como base para o desenho da roupa, é necessário verificar como se dá essa construção. Quando a figura humana é construída no desenho de moda atual, ainda se utiliza o estudo de proporção estabelecido na Antiguidade por Vitruvius. Resgatado por Leonardo Da Vinci no Renascimento, o estudo se resume no famoso desenho, chamado “O Homem Vitruviano”, realizado no final do século XV, com bases nas observações de Vitruvius. Essas observações foram, por sua vez, transcritas no topo e logo abaixo do desenho e são descrições detalhadas das relações geométricas e matemáticas entre as partes e o todo da figura humana. O desenho renascentista reproduz fielmente as observações feitas na Antiguidade, descritas em estudos sobre questões do estilo, da proporção, da ornamentação, sobre os sentidos das ruas, fundações e subestruturas, inclusive métodos e materiais para construção, além de invenções antigas, acústica, e harmonias estruturais.

O estudo considera a cabeça como unidade de medida e comparação entre as partes que compõe o todo. Dessa forma, estabelece que a altura do homem é igual a sete vezes e meia o tamanho de sua cabeça. Esta é uma concepção clássica, utilizada desde o Renascimento em pinturas e esculturas de diversos artistas como Leonardo Da Vinci, Rafael, Botticelli, Michelangelo, entre outros. De acordo com os valores da época, a perfeição da natureza era tida como “divina” e consequentemente, utilizada como parâmetro de beleza para a realização de obras como pinturas e esculturas, que retratam a figura humana com valor “divino”. Por isso, o estudo de Leornado Da Vinci também é conhecido por “Divina Proporção”, pois traduz o pensamento vigente daquela época. Podemos relacionar como alguns dos importantes fatores do pensamento Renascentista que influenciaram as artes da época, a organização, a harmonia e o equilíbrio entre formas, volumes e proporções na construção do desenho da figura do corpo humano. VIGARELLO comenta sobre a Divina Proporção de que se trata de “correspondência cósmica cuja teoria das proporções tira do século XVI seu prestígio inaudito: ela revelaria nas normas matemáticas da beleza física o princípio do gesto divino, recolhido inteiramente na cifra absoluta”.

Esse modelo é ainda utilizado para a representação da figura humana de moda, ao longo do século XX. Entretanto, quando nos aproximamos do início do século XXI é possível perceber que esse parâmetro de perfeição e beleza começa a ser questionado. O desenho de moda revela esse questionamento quando aponta alguns “ajustes” na construção do corpo ideal, tomando como base a Divina Proporção. Para o desenho de moda, ocorrem distorções nos parâmetros de proporção, principalmente. A figura de moda, tanto feminina quanto a masculina é construída com pelo menos nove cabeças de altura, em vez das sete e meia, propostas por Da Vinci. O resultado é uma figura mais alta, de silhueta alongada e longelínea, muito parecida com as mulheres consideradas belas de nossa época. O traçado e a composição do corpo da figura de moda, principalmente o feminino, como vimos, é apresentado de forma a seguir os padrões de beleza vigentes em cada época, na intenção de localizar e contextualizar o produto de moda tanto culturalmente quanto socialmente. Assim, o desenho de moda representa certa idealização da realidade, por vezes distorcida, funcionando como “estratégia visual de aceitação”. Neste sentido, como explica CASTILHO: A associação entre corpo, gestualidade e os elementos de decoração e vestuário estabelece interações diversas em vários níveis de posicionamento e de reconhecimento social que permitem ao ser humano expressar-se amplamente nas manifestações discursivas que o presentificam e seu contexto social.

Em outras palavras, há certa manipulação das informações visuais que compõem o desenho de moda, por parte do designer, na intenção de conduzir o olhar e a percepção do observador para aquilo que é importante naquele produto, seja a adequação de seu conceito ao público a que se destina, seja algum detalhamento ou particularidade em relação a formas ou materiais inovadores, ou ainda algum elemento de diferenciação e originalidade. Como já foi dito, é importante que haja fidelidade na representação do produto de moda, especialmente os de vestuário (roupas e acessórios) em termos de formas, cores e materiais, já que a intenção é a de simular o objeto final.

Assim, a manipulação, ou ainda a distorção necessária para a eficácia do arranjo compositivo dessa imagem que se configura, e que estamos chamando de desenho de moda ou croqui, acontece principalmente na composição do elemento de base, que sustenta o produto: o corpo. Este corpo passa a ser representado então como um corpo humano estilizado, ou “figura humana de moda”, denominação muito comum em livros e manuais de desenho de moda.

Essa estilização ou manipulação que gera a figura humana de moda é caracterizada pelo exagero de alguns elementos do desenho: forma e volume que caracterizam a estruturação desse corpo, ou movimento, que caracteriza a gestualidade da figura em termos de posturas e poses. As distorções, no entanto variam de acordo com a intenção do designer, mas é notória a influência dos padrões de beleza vigentes nas épocas em que o desenho é realizado.