Design de Moda e Semiótica da Cultura

Tecnologia de Moda e Design

1 Sistemas de Linguagem:

O aporte teórico fundamental utilizado como suporte pelos semioticistas da cultura nos primórdios de seus estudos, sobre um conceito de "linguagem" amplificado em si mesmo, são provenientes das teorias do lingüista Roman Jackobson, que reconhecia a existência de signos organizados de uma forma distinta da linguagem verbal. Apesar disso, Jackobson reconhecia que a lingüistica constituía um sistema dotado de uma estrutura, formulada a partir da seleção e combinação de signos e códigos a ela específicos, possuídora de instrumentos com capacidade de transpor informação a outros sistemas sígnicos, dotados ou não de uma estrutura formal ou de um estruturalismo.

Os semioticistas russos, no desenvolvimento de seus estudos acerca de uma semiótica da cultura, trabalham a amplitude da abordagem do termo "linguagem", iniciada por Jackobson, confirmando a linguagem verbal como sistema dotado de estrutura, tal qual Jackobson teorizara, e os outros sistemas de linguagem não-verbal como sistemas estruturalistas que, teoricamente, só poderiam ser pensados a partir de uma estruturalidade, um princípio de organização, não uma estrutura em si, mas uma organização abstrata desse sistema. Iúri Lótman e Bóris A. Uspênski dissertam acerca do assunto:

O pressuposto de estruturalidade, elaborada a partir da prática da comunicação linguistica, exerce uma intensa ação sobre todo o complexo dos meios de comunicação. Desde modo, todo o sistema da conversação e transmissão de experiencia humana constrói-se como um sistema concentrico, em cujo centro estão dispostas as estruturas mais evidentes e coerentes (as mais estruturais, por assim dizer). Mais próximas da periferia, colocam-se as formações de estruturalidade não evidente e não demonstrada; mas que ao estarem incluídas em situações sígnico-comunicativas gerais, funcionam como estruturas. "

Lótman e Uspênskii reconhecem a importância dos sistemas sígnicos culturais e sua para-estrutura, na cultura humana, defendendo que a ausência de ordem precisa interna e organização estrutural, inerente aos sistemas não-linguísticos, confere a tais tipos de sistema um caráter dinâmico, passível de criação, de diferentes leituras e de intersecção. Apesar disso, falar de sistemas concêntricos, onde o sistema linguístico aparece numa posição central e os demais em posições periféricas, é incitar a hierarquia de um mecanismo sob os outros. E essa interpretação levou a diversos mal-entendidos nas formas de interpretação dos conceitos de modelização (primária e secundária).

A Cultura como Texto:

No entanto, é consensual, no campo de estudos da semiótica da cultura, a designação do termo "linguagem" para referências a todo e qualquer sistema composto por signos, organizáveis em formato de código e com potencial comunicativo, seja essa comunicação verbal ou não.

Para a abordagem semiótica da cultura, a linguagem pode ser definida como qualquer sistema de signos que sirva à comunicação e à produção de cultura, no mais amplo sentido o termo. Tal definição ocorre, uma vez que, a linguagem se preste à geração, organização, acumulação e transmissão de informação. "

Na semiótica da cultura, diferente de outras idéias semióticas tradicionais, onde o "texto" implica "enunciado", o conceito indica a existência de diferentes tipos de codificação, no mínimo dois, sendo ele um espaço de relações e interação. A cultura é como texto. Constituída por um código unificado de sistemas, informativos, nãohereditários, existentes em grupos sociais, hierarquicamente organizados, polissêmica. Onde cada sistema possui características própria, potencial comunicativo individual, que não poderia ser comunicado por outro sistema, da mesma forma, uma maneira única de combinar signos e gerar novos significados de mundo. E é essa a característica que faz dos objetos culturais instigantes, como a moda. A moda, assim como a cultura, é texto. O seu espaço interdiscursivo faz do sistema da moda um sistema polissêmico, assim como o sistema da cultura.

" Moda é texto principalmente porque se constitui a partir do não-texto corporal, a nudez. Considerando-se os grafismos corporais de culturas nativas, a roupa reproduz uma dupla modelização: o design em relação ao corpo e os grafismos dos tecidos em relação às pinturas. (...) À luz da semiótica da cultura, a moda é um sistema regido por uma lei iminente de mudança: assim que se converte em norma, rompe com suas próprias regulações. "

Modelização:

 Conceito: 

Lótman afirma: "A linguagem é não só um sistema de comunicação, mas ainda um sistema modelizante", à medida em que a existência de uma implica na existência da outra. O termo "Modelizar" é derivado do campo da informática e da cibernética, denota auto-organização e controle sistêmico. No campo dos estudos de Lótman e de outros semioticistas da cultura, o termo evoca semiose, análise e construção de arranjos sígnicos, significação. É a leitura de sistemas sígnicos a partir de uma linguagem natural (os idiomas); uma linguagem artificial (as línguas da ciência; a matemática; os sinais de trânsito etc.); ou linguagens secundárias (os mitos, a arte, os rituais, etc.). É, em busca do conhecimento e explicação do mundo, a partir da compreensão dos objetos culturais das sociedades.

A modelização está diretamente relacionada ao processo de significação, no qual uma linguagem ressignifica um modelo, atuando de forma recodificadora. Esse famoso instrumento teórico de Lótman propicia um melhor entendimento da dinâmica dos sistemas culturais, em seu processo de síntese como linguagem - como se formam, de que forma interagem, como dispõe-se em organização, como produzem sentidos - e de atuação como tal. O instrumento de modelização explicíta as diferentes possibilidades de diálogo que podem haver dentro de um âmbito semiosférico, entre os diferentes tipos de linguagem, exaltando o caráter polissêmico da cultura, uma vez que, no contexto semiosférico, nenhum sistema cultural é visto de forma isolada, e sim como parte integrante do organismo vivo, do universo aberto, representado pela semiosfera:

" Deste modo, cada sistema de comunicação pode realizar uma função modelizante, e inversamente, cada sistema modelizante pode desempenhar um papel de comunicação. Certamente que esta ou aquela função pode ser expressa mais intensamente ou não ser quase sentida nesta ou naquela utilização social concreta. No entanto as duas funções existem potencialmente. "

Ressalta-se, na obra de Lótman, que na semiótica da cultura as linguagens não se sobrepõem hierarquicamente, não existe predominância valoral de uma linguagem sob a outra, as linguagens se equivalem, apesar de a linguagem-verbal atuar como modelo para as outras, como modelo para suas respectivas descrições.

Design:

Design por design, numa perspectiva semântica, para Flüsser (2007), está relacionado a fraude, a técnica, a arte, é uma manobra, artíficio, é artificial, é poder. O designer consegue ser, ao mesmo tempo, um "conspirador malicioso que se dedica a engendrar armadilhas" e um artista que presenteia o material amorfo com a forma, alguém que engana a natureza utilizando a técnica como meio, um "prestidigitador". O designer engana a natureza e constrói o artificial, realçando técnica e arte, no sentido mais amplo do termo.

" A cultura moderna, burguesa, fez uma separação brusca entre o mundo das artes e o mundo da tecnica e das máquinas, de modo que a cultura se dividiu em dois ramos estranhos entre si: por um lado, o ramo científico, quantificável, "duro" e por outro o ramo estético, qualificador, "brando". Essa separação desastrosa começou a se tornar insustentável no final do século XIX. A palavra design entrou nessa brecha como uma espécie de ponte entre esses dois mundos. E isso foi possível porque essa palavra exprime a conexão interna entre técnica e arte. "

Para o autor, a recorrente transformação do design em objeto de estudo do próprio design em oposição as preocupações concernentes à idéia tem contribuído para o desgaste e para a perda do valor do objeto. Flüsser exemplifica o caso com o exemplo das canetas de plástico:

" As canetas de plástico estão se tornando cada vez mais baratas e tendem a ser dstribuiídas de graça. O material (hylé = madeira) de que são feitas praticamente não tem valor, e o trabalho (que ,segundo Marx, é a fonte de todos os valores), graças a uma tecnologia sagaz, é realizado por máquinas totalmente automatizadas. A única coisa que confere valor a essas canetas de plástico é seu design, que é a reazão de escreverem. Esse design não deixa de ser uma coincidência de grandes idéias que, provenientes da ciência, da arte e da economia, fecundaram-se e complementaram-se de maneira criativa. "

A exemplificação de Flüsser ilustra bem a teoria da modelização de Lótman, onde o design atua como um sistema modelizante, em diálogo com diferentes esferas e sistemas sígnicos para um entendimento diferente e criativo de mundo, e para a produção de um produto, cultural e socialmente, funcional. Mas, infelizmente, a intencionalidade do autor não é, apenas, a de ressaltar a polissemia existente nos sistemas culturais contemporâneos não, Flüsser chama a atenção para o fato de que, segundo ele, "graças a palavra design, começamos a nos tornar conscientes de que toda cultura é uma trapaça", assinalando, como enganoso, o envolvimento com a cultura, embora faça equivaler o fato de que esse é o posicionamento que ele optou por adotar em sua obra, revelando que "tudo depende do design" adotado.

É nesse contexto, onde a arte encontra a técnica, sob o nome de design, para a produção de valores comercializáveis às grandes massas, onde o produto é idealizado com finalidades aquém das suas leis de funcionalidade, que a moda atua como sistema modelizante, construindo e desconstruindo a si mesma, rompendo com suas próprias regulações, resignificando e apropriando-se de sistemas sígnicos outros, embebendo-se de carga simbólica e gerando novos textos.

2 Design de Moda:

Premissas de Produção:

Como sistema de linguagem não-verbal, a moda irá dispor de diversos outros sistemas sígnicos para comunicar.

" Os estilos no campo do vestuário datam dos primórdios da humanidade. Ao longo do tempo foram sendo criados e diversificados em razão de inúmeros fatores sociais, econômicos, culturais, políticos e comportamentais – incrementados pelo advento de novos materiais, pelo progresso técnico dos processos de confecção, bem como em função de um incessante desenvolvimento tecnológico aliado, por sua vez, ao gênio inventivo e empreendedor de incontáveis profissionais da indústria da moda "

Inicialmente, para a produção de produtos em design de moda, deve-se entender que uma série de fatores devem ser pensados e calculados para que o produto final consiga atender as especificidades e objetivos desejados, não só pela marca, mas pelos usuários da mesma, que buscam satisfação e valor. Para João Gomes Filho, a estética do objeto, o design, o estilo e a simbologia do produto são pontos destacados como importantes para que a indumentária seja concebida e comercializada na contemporaneidade. A estética do objeto é concernente aos "sinais e às características formais propriamente ditas do produto.

Isto é, refere-se à adoção de um determinado partido estético-formal (por exemplo: formas orgânicas, geométricas ou combinadas, eventuais adornos, cores, acabamentos, etc.) e, por sua vez, subordinado ao estilo e seus atributos adotados na organização visual do objeto.". Os estudos e pesquisas realizadas, concernentes a estética do produto, são de fundamental importância para definição final do projeto de design do produto, sua configuração estético-formal. O estilo do produto já vem carregado de apelos mais emocionais, além do estético, que agregam valores e sensações ao consumo daquele produto em si, no caso deste estudo, o vestuário.