A holandesa Marloes Ten Bhömer começou a sua trajetória como designer de calçados ao graduar-se em Design 3D pela Escola de Artes de Arnhem – Holanda. O seu objetivo, é fazer com que o produto se torne diferenciado em relação aos já existentes no mercado. Huey e Proctor (2011) descrevem que, no seu trabalho a designer descreve o lógico e o mistério, o esconder e o revelar, com uma linguagem específica e eficiente, aonde se encontra uma infinidade de oportunidades para a interpretação.
O trabalho de Bhömer, além de desafiar os limites do design convencional, questiona a percepção de funcionalidade, explorando territórios desconhecidos, como uma maneira de variar as formas até então limitadas pelos aspectos práticos do calçado. Conforme Huey e Proctor (2011) até o presente momento, Bhömer somente produziu projetos extraordinários para serem vendidos à colecionadores ou exibidos como objetos de arte, mas a designer tem a intenção de produzir calçado diferenciado sem tirar a sua função primária, a de ser usável. A sua linguagem fundamenta-se na arte e na tecnologia, tendo a pesquisa da construção como um meio para explorar a estrutura do calçado, reinventando-o.
O trabalho da designer Marloes Ten Bhomer
Bhomer já trabalhou em vários projetos diferenciados, abaixo estão relatados dois dos trabalhos que mais chamaram a atenção pelo fator inovação.
1 - “Sapato moldado por rotação” (Rotationalmouldedshoe 2009). Produzido a partir de borracha de poliuretano e aço inoxidável. O processo começa com o derramamento lento da borracha líquida dentro do molde negativo que começa a rodar, este material solidifica em contacto com as paredes interiores do molde, formando um reservatório com uma forma oca. Este projeto foi realizado para uma exposição no Museu de Arte Krannert em Illinois, EUA, e também fez parte dos projetos de exposição do mesmo ano no Museu de Design de Londres.
2 - “Sapato bege dobrado” (Beigefoldedshoe 2009). Produzido a partir de uma única peça de couro vegetal dobrada, e tem o calcanhar reforçado por aço inoxidável (figura 2). Este desenvolvimento resulta de uma pesquisa feita por engenheiros juntamente com a designer. De acordo com a matéria sobre o calçado de Marloes Ten Bhömer, realizado por Etherington para a revista Dezeen (2009) este projeto foi feito manualmente, incorporando conhecimentos técnicos dos fabricantes. Esta é uma edição especial lançada numa galeria em Londres e comercializada por Bhomer.
Análise do trabalho de Marloes Ten Bhomer
Neste estudo de caso analisaram-se as formas do calçado projetado por Bhomer, fazendo uma divisão por 3 categorias: calçado com linhas geométricas, calçado com linhas orgânicas e calçado com características mistas. De seguida, se explanará somente os calçados que possuem linhas geométricas (a forma mais significativa no trabalho da designer). A análise que se segue é baseada em Charles Peirce. De acordo com Santaella (2004) Peirce, em seus estudos voltados a filosofia, sinalizou que há três elementos formais e universais em todos os fenômenos que se apresentam à percepção. Esses elementos foram chamados de “primeiridade” (quali-signo – qualidades do signo), “secundidade” (sin-signo – o que o signo representa) e “terceiridade”(legi-signo – o efeito provocado no intérprete).
Análise Semiótica (Geométricos):
Primeiridade: Os visuais aqui selecionados são limpos e contam com formas claras, bem definidas, dando ideia de tecnologia e sofisticação. As formas remetem à inovação, à racionalidade e à vanguarda, são estranhas, estão fora das convenções. Ao serem observados, nota-se aqui que os qualisignos dos objetos sugerem a perda da sua função original, que seria de proteger os pés. O fato de não contarem com acabamentos convencionais e terem linhas geométricas muito diferenciadas, transmitem a ideia de não serem adaptáveis ao corpo, serem duros, instáveis, inseguros, estáticos, desconfortáveis e portanto não funcionais para calçar.
A primeira instância, o aspecto icônico de todos esses projetos selecionados sugerem a ideia de serem esculturas, peças únicas, objetos feitos somente para exposição. A combinação de várias formas geométricas juntas, acaba por dar força ao calçado, também passa a ideia de diferenciação, de choque e de desrespeito ao corpo. São objetos que suscitam interpretação ao serem observados, pois quando o impacto causado pela obra é de surpresa, de estranheza, ou de conflito por exemplo, se acentua o diálogo com a mesma, permitindo a produção de uma apreciação estética, fazendo com que as pessoas reflitam se o que veem, são mesmo sapatos ou são obras de arte.
Secundidade: Depois de analisadas as características dos calçados selecionados na primeiridade, nota-se que os sin-signos dos objetos sugerem a ideia de ignorar, criticar ou desafiar o design convencional, fazendo com que estes, percam a função que está associada ao termo calçado. Já, tendo em vista seu modo indicial, percebe-se que a sua linguagem fundamenta-se na arte e na tecnologia, devido às suas linhas claras e bem definidas, às cores utilizadas, à forma como as linhas foram dispostas e aos materiais utilizados.
As formas de fabrico variam entre produzidos manualmente, montados, prensados e constituídos por moldagem rotacional, apesar das formas tão diferenciadas de fabrico, todos os modelos contam com poucas peças e passam por pouquíssimas etapas de produção, sendo esse mesmo o objetivo de Bhömer, usar a tecnologia como sua aliada. O material utilizado na constituição dos projetos variam entre borracha de poliuretano, aço inoxidável, fibra de vidro couro, couro vegetal , madeira, lona e fibra de carbono.
A utilização de tecnologias e materiais não tradicionais tem como objetivo reinventar o processo de concepção do calçado. As formas finais tentam retratar sandálias abertas, sandálias do estilo peep-toe, sapatos fechados e tamancos, todos eles com alturas médias e altas que variam entre 4 e 9 cm do chão (com salto). Para o público que Bhömer pretende atingir, as formas apresentadas não precisam ter clareza visual, pois cada um fará a sua própria interpretação. Todos os projetos aqui selecionados, foram concebidos com o objetivo de serem apresentados em museus e exposições da área.
Terceiridade: De acordo com os legi-signos, os objetos aqui selecionados como geométricos são considerados objetos de exposição/esculturas em forma de calçado. Chega-se a esta conclusão devido ao exame do símbolo que conduz para a forma, a ideia de calçado em consequência dos objetos possuírem saltos, local para encaixar o pé e formato que lembra um calçado, mas que não tem características suficientes para o uso.
Produtos conceituais, como os escolhidos para análise, tem como objetivo conceituar uma coleção e se diferenciar em relação aos já existentes no mercado. A referida designer foca no produto ao cursar mestrado em Londres, onde investiga materiais, construções e também aspectos intuitivos. A partir dessa formação, começou a desenvolver objetos que desafiem a percepção, vendendo produtos a colecionadores, galerias de arte e museus.