TRANSFORMAÇÕES RECENTES NA INDÚSTRIA DE TELEFONIA MÓVEL
Telecomunicações - Telefonia Fixa e Móvel
1 As novas tecnologias e o ambiente inovativo
Em qualquer atividade da economia, novas tecnologias costumam mudar o ambiente competitivo. No complexo das TICs, em particular no setor de aparelhos celulares, esse processo ocorre de maneira mais rápida. Estes produtos costumam ter um ciclo de vida muito curto. Nesse sentido, há tecnologias, como as de redes, que uma vez padronizadas tornam-se imperativas no setor e impõem alterações no produto (ou solução). Quando a tecnologia 3G foi estandardizada, todas as operadoras de celulares tiveram que funcionar neste padrão, com seus recursos e funções peculiares. Assim, as tecnologias de rede condicionam o setor de telefonia móvel.
A transmissão de vídeo só foi possível depois do advento da tecnologia 2,5G. O recurso, que inicialmente poderia ser considerado uma fonte de diferenciação do produto, atualmente é um requisito para a competitividade dos fabricantes aqui estudados. Tradicionalmente empenhadas em telefones celulares, estas empresas lançaram-se em uma corrida por renovação dos seus ativos tecnológicos, adquirindo competências e desenvolvendo novas capacidades que até então não eram imprescindíveis. Assim fez a Nokia, por exemplo, ao comprar a fabricante de aparelhos GPS Navteq em 2007, pois o advento dos PDAs (personal digital assistants, um computador de dimensão reduzida, com grande capacidade de memória e conexão sem fio) mudou a concepção de telefonia móvel. Esse último aparelho, originalmente criado pela Palm no final dos anos 1990, é considerado o precursor técnico dos smartphones. O serviço de fototelefonia móvel japonês i-mode, é considerado o pioneiro nas aplicações de recursos multimídia em aparelhos móveis.
O relacionamento “em camadas” na cadeia de telefonia móvel
Assim, com o advento da internet móvel, a inovação no setor passa a ser fruto da interação e complementação entre bases tecnológicas distintas no interior do complexo das TICs. Essa configuração se deve a um aspecto destas tecnologias: segundo Corrocher et al. (2007), são tecnologias de uso geral (transversais) que têm como característica, além da difusão do uso e o potencial inerente de melhoria, elevado dinamismo para aplicações em diferentes soluções. Para os autores, a indústria possui uma base de conhecimento diversificada, mas o grau dessa diversificação difere muito entre os aplicativos. Fransman (2007, pp. 96-104), usando uma metáfora biológica, interpretou essa configuração como um ecossistema.
Segundo o autor, as TICs são compostas por quatro grupos fundamentais divididos em camadas e a inovação é decorrente das relações simbióticas entre elas (algumas sumarizadas pelas setas laterais da figura 2). A eles acrescentamos as instituições de normatização (um ator adicional) que representa um conjunto de interesses diversos (governos, empresas, etc) e descreve com mais detalhe o ecossistema que este estudo procura caracterizar. Nessas relações, as soluções fornecidas devem ser constantemente melhoradas, modernizadas e atualizadas, implicando em geração e acumulação de conhecimento e, ao mesmo tempo, em inovação não desprezível.
É importante destacar o papel dos consumidores finais. Eles são fundamentais para o teste (experimentos) e chancela da maioria das inovações e melhorias que ocorrem no setor, funcionando como mecanismo de seleção do processo evolutivo, uma vez estabelecida a inovação. Além das dificuldades iniciais de introdução da tecnologia 3G, um outro exemplo atual e evidente é o sistema operacional da Nokia: a despeito de sua notória capacitação e liderança no setor, principalmente por conta do hardware, o sistema Symbian da empresa não obteve a aceitação dos usuários. No entanto, em um setor onde o ciclo de vida do produto é curto, em que a defasagem tecnológica dos aparelhos espanta pela rapidez, um insucesso pode não ser definitivo (e eliminar uma firma do mercado), pois as próximas “rodadas” da luta competitiva entre futuras gerações de tecnologias (Stopford, 1995) podem reverter o cenário atual. Por isso, esse mercado é caracterizado por um aparente paradoxo: de um lado alta concentração e, de outro, acirrada competição e rotatividade de liderança.
Há inúmeros casos que descrevem as relações simbióticas entre os fabricantes e os outros agentes, mas aqui destacamos alguns que consideramos exemplares para os nossos propósitos: (i) a criação em 2010, por parte da operadora Verizon, de um centro de inovação em Massachussets da tecnologia LTE (long term evolution), no qual os fabricantes podem testar novos produtos em uma rede 4G. (Thomsom apud Kubota et al., 2010); (ii) a parceria da Nokia com a operadora AT&T para premiar aqueles que desenvolvessem aplicativos para seus dispositivos móveis, tendo como foco o mercado da América do Norte – uma estratégia da empresa para a difusão da plataforma Symbian e, com isso, elevar sua participação no mercado estadunidense5 ; (iii) o sucesso do sistema Android (que acarretou no fracasso do Symbian da Nokia, como mencionado), uma plataforma da estadunidense Google que tem como usuários, por exemplo, a Samsung e a Motorola, mostra que a principal relação inovativa entre os elementos dessas camadas está ancorada no sistema operacional e nas suas melhorias
Estes exemplos mostram não apenas como os EUA, em especial as empresas do Vale do Silício, tem se destacado no setor de telefonia móvel, mas, principalmente, como os mercados – em termos de participantes, liderança tecnológica e produtos ou soluções – estão se reconfigurando. Google e Apple, por exemplo, até então conhecidas por outras atividades dentro das TICs, atualmente são as grandes first movers do setor de telefonia móvel, uma evidência da dinâmica subjacente ao ecossistema descrito acima. A liderança em um setor altamente concentrado pressupõe a assimilação de novas idéias, vindas de diferentes fontes, e os desenvolvimentos das tecnologias existentes são fontes importantes para futuras inovações, daí a importância da obtenção de patentes (ver nota 6).
Ademais, as firmas – e suas parcerias ou associações para desenvolvimento de tecnologias – que reúnem e combinam os conhecimentos de forma inovadora e alcançam uma posição proeminente no mercado estabelecem vantagens (“saem na frente”) para a próxima “rodada da competição entre novas tecnologias”. Nessa perspectiva, a liderança não é apenas um benefício temporário ou circunstancial (estático), nem mesmo uma posição supostamente duradoura, mas o resultado de uma estratégia mais abrangente, de incorporação de vantagens que precisam ser confirmadas ou (re)construídas sucessivamente. Em outras palavras, liderança é parte (resultado) da luta concorrencial vista numa dimensão temporal, ou seja de ativos construídos dinamicamente.
A capacitação dinâmica da firma (Teece e Pisano, 1994) é um outro aspecto que vale destacar neste contexto. Além da Apple, a Samsung é um caso particular interessante. A empresa, conhecida pela fabricação de eletrônicos, certamente usou essa competência para entrar no mercado de telefonia móvel com duas inovações de produto: os smartphones e, recentemente, os tablets.
Além dessas novas tecnologias, que alteraram o ambiente competitivo da telefonia móvel, existem as tecnologias de rede que condicionam as outras tecnologias. As tecnologias de rede, porém, não surgem simplesmente do tino inovador da empresa. EUA, União Européia e Japão possuem cada um a sua tecnologia de rede específica, oriunda dos conhecimentos das TICs e de padronizações estabelecidas pelas instituições de normatização. Essas últimas também têm papel importante por definem “as regras do jogo” e nortearem o comportamento dos demais agentes que, que por sua vez, têm o poder de influenciar essas mesmas instituições que condicionam as suas ações. Daí a importância de instituições normatizadoras, como o International Telephone Union (ITU) e o European Telecommunications Standards Institute (ESTI): enquanto não há aprovação, ou regulação de uma nova tecnologia por estas organizações, ela não pode ser usada.
Além dessas novas tecnologias, que alteraram o ambiente competitivo da telefonia móvel, existem as tecnologias de rede que condicionam as outras tecnologias. As tecnologias de rede, porém, não surgem simplesmente do tino inovador da empresa. EUA, União Européia e Japão possuem cada um a sua tecnologia de rede específica, oriunda dos conhecimentos das TICs e de padronizações estabelecidas pelas instituições de normatização. Essas últimas também têm papel importante por definem “as regras do jogo” e nortearem o comportamento dos demais agentes que, que por sua vez, têm o poder de influenciar essas mesmas instituições que condicionam as suas ações. Daí a importância de instituições normatizadoras, como o International Telephone Union (ITU) e o European Telecommunications Standards Institute (ESTI): enquanto não há aprovação, ou regulação de uma nova tecnologia por estas organizações, ela não pode ser usada
O processo inovativo, altamente complexo e incerto e envolvendo uma diversidade de agentes é discutido também por Kline e Rosenberg (1986), que desenvolveram o “modelo interativo” de inovação (figura 3) – que é adotado pelo Manual de Oslo (OCDE, 2005). Este modelo concebe a inovação em termos da interação entre oportunidades de mercado (que podemos associar ao advento das novas tecnologias de rede) e a base de conhecimento e capacitações das empresas. Cada função geral descrita na figura 3 envolve vários sub-processos com resultados altamente incertos. À medida que as TICs são beneficiadas pelos avanços da pesquisa científica, a ciência também se beneficia com as melhorias proporcionadas por elas e, com isso, seu uso se torna extensivo e intensivo, resultando em mais eficiência e mais inovação. O modelo pressupõe a existência de feedbacks (representados pelas setas) nas diversas fases da concepção de uma nova tecnologia, ou seja, há uma relação permanente entre a empresa e a estrutura de ciência, tecnologia e inovação (CT&I).
Modelo interativo de inovação
A partir do modelo original de Kline e Rosenberg (1986) – diagrama A da figura 3 – podemos pensar o modelo interativo de inovação com as características do setor de telefonia móvel (diagrama B). As três etapas (“invento e/ou design analítico”, “design detalhado e teste” e “re-design e produção”) representam, respectivamente, invenção de uma nova tecnologia com sua descrição e possibilidades de uso (“o que é” e “para que serve”); características funcionais e teste de desempenho (e.g. velocidade para executar determinada função); e melhorias possíveis e aplicações (como essas tecnologias podem ser melhor aproveitadas e como isso será feito). Nesse sentido, as empresas podem tanto desenvolver novas tecnologias em parcerias com a infra-estrutura científica, como também melhorá-las e/ou adaptá-las, e uma pesquisa feita em um local pode ser fruto de idéias inovadoras geradas em outro local. Sendo assim, a nova tecnologia é uma forma de soluções de problemas utilizada por determinados agentes em diferentes localidades. Um exemplo é a tecnologia CDMA desenvolvida pela Qualcomm que pôde ser utilizada pelas empresas japonesas, quando ainda a tecnologia 2G era dominante.
2 Identificação de tendências tecnológicas
A tecnologia 3G, que começou a ser implantada em muitos lugares ao redor do mundo a partir de 2007, resulta da escolha européia pelo UMTS (Universal Mobile Telecommunication System). Segundo analistas, o passo lógico nesta progressão é o 4G, e embora a tecnologia ainda seja imatura, algumas iniciativas já estão em andamento, como em alguns pontos nos EUA10. No entanto, o cenário futuro das comunicações móveis é mais abrangente do que pode fazer acreditar o rótulo 4G. Para Bohlin et al. (2007), o futuro não será definido pelo aumento das taxas de transmissão de dados ou uma air interface nova, mas pela crescente integração e interconexão de sistemas heterogêneos.
Diferentes dispositivos irão processar as informações para uma variedade de propósitos e um conjunto de infra-estruturas será utilizado para suporte de transmissão, contando com uma infinidade de aplicações trabalhando em paralelo para fazer o uso mais eficiente possível do espectro. Nessa perspectiva, os autores entendem que algumas das muitas tecnologias que estão surgindo – Ultra-Wide Band (UWB), Wireless Local Area Networks (WLAN), WiMax, mesh e adhoc networks, Bluetooth, sistemas de satélites, acesso fixo wireless, Home radiofreqüência (HomeRF) ou Local Multipoint Distribution Service – podem desempenhar um papel na definição do futuro das comunicações móveis.
Essas tecnologias poderão trabalhar com sistemas celulares e em cooperação com outros sistemas fixos, tais como telefonia fixa, fibra óptica, linha de assinante digital (DSL, Asymmetric-DSL) e comunicações por linha de energia (power line communications). Simultaneamente, outras tendências poderão ter impacto, como software-defined radio (capaz de utilização de freqüências diferentes, dependendo da disponibilidade, preço ou outros fatores), telefones abertos (modificáveis pelo usuário, como um PC, tanto em termos de hardware como software), IPv6 (Internet Protocol version 6), Radio Frequency Identification (RFDI), ou Voice over Internet Protocol (VoIP), que tem no Skype um exemplo de uso difundido.
Há tecnologias alternativas surgindo e os EUA procuram retomar a liderança – ainda pertencente aos fabricantes europeus, mas com os asiáticos avançando – apostando em tecnologias de comunicações móveis WiFi e WiMax por meio de forte apoio às pesquisas nesse campo. A tendência geral é que as novas tecnologias proprietárias sejam utilizadas ao longo do espectro não licenciado, coexistindo com normas desenvolvidas para uso do espectro licenciado. Tal tendência é apoiada por uma gestão flexível do espectro, o que facilita a interoperabilidade de produtos e tecnologias e a existência de uma indústria mais fragmentada. Além disso, outras tecnologias emergentes, quer já existentes no mercado, quer em vias de padronização, podem também representar um desafio ao modelo de negócios tradicional de telefonia móvel.
Pesquisas junto às empresas de consultoria especializada apontaram a relevância das seguintes tecnologias: (i) protocolos de curto alcance, como UltraWide Band (UWB), Near Field Communications (NFC), ZigBee e Bluetooth; (ii) protocolos de longo alcance, tais como WiMax, FlashOFDM e melhorias em 3G como UMTS-Time Division Duplex; e (iii) malhas (mesh) e ad-hoc networking) (Bohlin et al. 2007). A empresa de consultoria em tecnologia de informação Gartner (2009) listou oito tendências no mercado de mobilidade para os anos de 2009 e 2010: (i) Bluetooth 3.0, tecnologia de transmissão de dados a distâncias curta; (ii) Interfaces móveis de usuário; (iii) Tecnologias de localização, como o GPS; (iv) 802.11n, padrão de comunicação Wi-Fi; (v) Tecnologias de Displays, possibilitando tela em diversos tamanhos, formatos, fragilidade e duração da bateria do dispostivo; (vi) Internet móvel e Widgets (pequenas aplicações de web móvel); (vii) banda larga no celular, com a utilização da tecnologia HSPA (High Speed Packet Access); e (viii) Near Field Communication (NFC), que é uma extensão da tecnologia RFDI.
Com base nestas informações, selecionamos para análise três distintas tecnologias emergentes de mobilidade – IPv6 (protocolo de internet); 802.11n (padrão de comunicação Wi-Fi) e NFC (protocolo de curto alcance) – como representantes daquelas que apresentam boas possibilidades de sucesso, ou seja, de padrões ou soluções cujo desenvolvimento pode torná-las amplamente difundidas. Entre os produtores de equipamentos de comunicação móvel, selecionamos três empresas, Motorola, Nokia (líderes do setor, segundo o relatório da OCDE 2008) e Samsung. Esta última é um caso interessante de novo ator no mercado, tanto pelas suas interações tecnológicas, como pelo desenvolvimento de seus produtos. A metodologia adotada consiste na análise bibliométrica como uma forma empírica de prospecção tecnológica (Watts e Porter, 1997; Porter, 1999). Examinamos as características dos artigos indexados na base Scopus usando as tecnologias selecionadas como palavras-chave para a busca.
A partir dos resultados obtidos, as tecnologias foram analisadas segundo quatro critérios: (i) distribuição dos artigos ao longo dos anos – supondo que tecnologias promissoras têm maior número de artigos publicados nos anos recentes e, contrariamente, tecnologias consolidadas baixa publicação recente; (ii) áreas de concentração científica – sob a hipótese de que as tecnologias nos estágios iniciais de desenvolvimento são intrinsecamente mais complexas e por isso demandam conhecimentos novos e, por vezes, oriundos de outras áreas do saber científico; (iii) número de idiomas dos artigos publicados – que indica a dispersão geográfica da pesquisa; e (iv) as principais afiliações (universidades, centros de pesquisa, institutos, empresas, etc) – sob a hipótese de que as tecnologias nos estágios iniciais de desenvolvimento pelos mesmos motivos de (ii), envolvem um maior número de atores.
Para facilitar a avaliação e compreender as nuanças relativas às novas soluções, confrontamos os resultados obtidos para estas últimas tecnologias com os da CDMA, que já se caracteriza como uma tecnologia consolidada. Como complemento a esse esforço, realizamos uma pesquisa qualitativa sobre as parcerias tecnológicas das empresas selecionadas através da base Proquest e de informações especializadas.
No conjunto, os critérios acima nos orientarão quanto ao caráter de novidade relativa das tecnologias selecionadas para, com isso, verificar sua dispersão global. Esses critérios também servem ao propósito de identificar a participação das empresas da amostra nos artigos científicos e com isso visualizar o avanço das trajetórias através da interação entre a ciência e tecnologia de diversas bases tecnológicas. Nascimento (2010) ressalta que vem se tornando relativamente mais influente a produção de artigos brasileiros na área de telecomunicações, embora essa produção seja relativamente marginal quando comparada à de países tradicionais em termos de gasto privado em P&D no complexo das TICs
Resultados da análise bibliométrica
O Gráfico 1 mostra a evolução do total de artigos publicados (indexados à base Scopus) contendo o a tecnologia pesquisada como termo de busca, desde a data da primeira publicação. Considerando os períodos de maior concentração do total de artigos publicados de cada tecnologia (e sua taxa de crescimento), o ano de 2004 parece ser “um divisor de águas”. Nesse ano, fica evidente a novidade.
Distribuição (%) do número total de publicações ao longo dos anos
Duas tecnologias (802.11n e NFC), por um lado, e a iminente maturidade da tecnologia IPv6 (redução do crescimento) e o ocaso da CDMA (taxa negativa), por outro. Se o aparecimento de publicações das duas primeiras tecnologias permite caracterizá-las como “nas etapas iniciais da pesquisa”, o número de publicações das duas últimas reafirma aspectos relacionados à teoria discutida nos itens anteriores. Mesmo não sendo novas, as tecnologias para internet (IPv6 ou outras soluções ainda por derivar) se mantêm como um componente necessário aos novos produtos, fato que exige aperfeiçoamentos e/ou desenvolvimentos que garantem certo nível de pesquisas que mantém a dinâmica inovativa, mesmo que em ritmo inferior ao de outras novas tecnologias – como era de se esperar. O mesmo não é válido para soluções que se tornam insuficientes frente às novas (possíveis) trajetórias tecnológicas, cujos esforços científicos são no sentido de substituí-las, como é o caso da CDMA em relação à 4G.
O Quadro 1 mostra uma concentração das publicações nas áreas de engenharia e ciência da computação, como era esperado, pois se trata de tecnologias de informação e comunicação. Porém, é interessante ressaltar que houve uma expansão na base científico-tecnológica dessas atividades. Podemos dizer que as atividades de pesquisa nas telecomunicações tradicionais concentravam-se predominantemente nas áreas de engenharia e física. Com o avanço da chamada “convergência digital”, as áreas de ciência da computação e matemática passam também a ter espaço e relevância. A seguir descrevemos os resultados obtidos para cada tecnologia selecionada, sintetizados no Quadro 1.
3 Code Division Multiple Access (CDMA)
O CDMA é uma tecnologia de transmissão digital sem fio que permite o acesso a um único canal de rádio por uma grande quantidade de usuários. Ele tem uma forma de multiplexação que permite que os sinais numéricos possam ocupar um único canal de transmissão. O CDMA usa uma abordagem de espalhamento espectral de transmissão digital de dados ou voz sobre freqüências de rádio: os sons são digitalizados e, em seguida, a informação é dividida em pacote de dados que são codificados com um código de identificação único. Em seguida, todos os pacotes são enviados através de um amplo espectro de freqüências de rádio. Essa tecnologia é uma contraposição às técnicas anteriores de acesso múltiplo, uma vez que permite que um grande número de chamadas possa ocorrer simultaneamente e uma maior quantidade de tráfego para um número finito de freqüências disponíveis. A tecnologia é uma evolução dos padrões analógicos anteriores. A primeira referência encontrada na base de dados a “Code Division Multiple Access” data de 1974, porém a sua aplicação comercial, como padrão de telefonia móvel introduzido pela Qualcomm, se inicia em 1995.
As publicações sobre a CDMA concentram-se entre os anos de 2003 e 2007, período de transição do padrão 2G para o 3G. Com o advento das tecnologias sem fio (Wireless, Wi-fi) e a evolução de outros padrões como o UMTS, o número de publicações sobre a tecnologia começa a entrar em declínio a partir de 2007, confirmando a opinião de alguns analistas que prevêem seu desaparecimento iminente. As áreas tecnológicas dos artigos concentram-se no campo das TICs (engenharia e ciência da computação), sendo que a primeira aparece mais do que o dobro de vezes da segunda, denotando o que já havíamos ressaltado: o caráter tradicional e difundido dessa tecnologia - a principal ciência básica é “física e astronomia”. A publicação em mais de 16 línguas mostra como é disperso o conhecimento acerca desta tecnologia ao redor do mundo, contendo artigos majoritariamente em inglês, mas também artigos oriundos de países em desenvolvimento da Ásia e do Leste Europeu.
As afiliações dos autores dos artigos estão principalmente em países desenvolvidos, como os EUA e a Coréia do Sul, mas Cingapura e China participam dessa lista. Além disso, aparece uma universidade brasileira (PUC-RJ) com um bom número de publicações (52). Entre as empresas da amostra, este número é bastante elevado – a Nokia possui mais de 400 publicações, Motorola e Samsung acima de 170. Os resultados espelham a vantagem construída ao longo do tempo pela empresa finlandesa (e a associação com a Nippon T&T) no que concerne às competências em relação ao hardware. Porém, como já observado, trata-se de uma tecnologia em esgotamento.
4 Internet Protocol v6 (IPv6)
O IPv6, também chamado de IPng (Internet Protocol next generation) é o protocolo de próxima geração de redes de internet. Ele é um avanço em relação ao IPv4, o protocolo atual, oferecendo mais segurança, melhor suporte a serviços (como o VoIP) e maior mobilidade entre as redes para os usuários. Sua criação é fruto do esforço do Internet Engineering Task Force (IETF: comunidade internacional ampla e aberta que visa a evolução da arquitetura da internet) e suas linhas mestras foram traçadas por Scott Bradner e Allison Marken, em 1994. O IPv6 foi projetado para funcionar em redes de alto desempenho (e.g. Gigabit Ethernet) e, ao mesmo tempo, continuar a ser eficiente para redes de banda larga baixa (e.g. wireless). O principal benefício desse protocolo é o número exponencialmente maior de endereços de IP que pode suportar em relação ao protocolo anterior14 . Além disso, por ter como características escala (número de usuários) e a extensão (redes de velocidades variáveis) elevadas, ela permitirá que dispositivos diferentes, como celulares e eletrodomésticos, além de PCs, possam acessar mais amplamente a internet. Em suma, um avanço promissor em termos de interoperabilidade e convergência, propriedades que ajudam a explicar alguns dos resultados apresentados a seguir – em especial, a participação de instituições governamentais e profissionais que auxiliam a definir/selecionar padrões internacionais, ou seja, estabelecer trajetórias.
As publicações sobre o IPv6 estão distribuídas ao longo dos anos 2005 a 2008, um período de concentração relativamente maior do que o da tecnologia CDMA. As áreas tecnológicas dos artigos concentram-se no complexo das TICs, mas a principal ciência básica é a matemática (Quadro 1). O idioma mostra uma limitada dispersão da investigação acerca desta tecnologia, com publicações em oito línguas, compreendendo, além do inglês, idiomas do Leste Europeu e o japonês.
As afiliações dos autores dos artigos são principalmente em instituições de pesquisa, a maioria asiática. A Nokia e a Samsung (o conglomerado e a divisão de eletrônicos) aparecem com publicação nessa área, o que parece apontar para a busca de conhecimentos que as coloquem em situação de participante ativo das novas configurações estabelecidas pela indústria de telecomunicações e, com isso, de primazia nas aplicações dessas tecnologias em seus dispositivos móveis. Ademais, como os endereços do padrão IPv4 estão em vias de esgotamento, para empresas que têm um dispositivo móvel com internet como pedra angular das suas vantagens, pesquisar sobre esta tecnologia e assimilá-la é imprescindível.
Protocolo 802.11n
O padrão 802.11n faz parte de uma família de padrões de rede sem fio IEEE 802.11, provedores de mobilidade para os usuários numa determinada área de alcance. Aprovado pelo IEEE em setembro de 2009, o 802.11n proporciona redes Wi-Fi mais rápidas, com taxas de transferência entre 100mbps e 300mbps, de maior alcance e mais seguras, resultado de um grupo de trabalho criado em 2003 com o objetivo de aumentar as taxas de transferência das redes locais a partir do padrão anterior, 802.11g – com taxas entre 25mbps e 54mps. Essa tecnologia é baseada no chamado MIMO (multiple-input multiple-output) que utiliza várias antenas para enviar de forma coerente mais informações do que seria admissível com uma única antena. Essa solução é possibilitada pela multiplexação espacial (SDM), capaz de transmitir simultaneamente vários fluxos de dados (streams) espacialmente independentes e separados por múltiplas antenas.
Por se tratar de uma tecnologia nova, os artigos sobre o padrão 802.11n foram publicados nos últimos anos: 2009 – data de sua aprovação – e 2010. Os artigos estão concentrados nas áreas científicas das TICs (engenharias e ciência da computação), mas têm a matemática como principal ciência básica. O idioma dos artigos restringe-se ao inglês e marginalmente ao chinês, evidenciando o seu caráter de novidade. Essa peculiaridade também pode ser notada pelo grande número de artigos produzidos em países desenvolvidos – entre os dez primeiros, a única exceção é Taiwan (Quadro 1). Cabe notar a participação do Brasil através da UFRGS, uma vez que se trata de uma tecnologia recente, ainda que seja uma evolução de tecnologias anteriores.
As empresas das TICs que aparecem como principais pesquisadoras nesta tecnologia pertencem ao setor de eletrônicos, como Intel, Toshiba, Samsung Electronics e STMicroletronics, evidenciando não apenas a diversidade da base científico-tecnológica requerida – e sua convergência –, mas principalmente o caráter de meio de conectividade alternativo às redes das telecomunicações, uma vez que é um protocolo para as redes wireless. Os tablets lançados recentemente têm, inicialmente, conexão Wi-Fi e, prometem a conexão com as redes de telecomunicações. Por exemplo, o Folio 100 da Toshiba (tablet lançado em 2010) e o Galaxy S (smartphone) da Samsung, prometem maior velocidade na rede sem fio do que na 3G. Essa última empresa vem realizando esforços na corrida dos tablets, produzindo aparelhos que incorporam elementos de conectividade destes dispositivos móveis e daqueles relacionados às áreas de especialização próximas da empresa. Samsung e Nokia têm parcerias com outras firmas do setor de computação, o que, qualitativamente, as diferencia.
Near field communication (NFC)
A NFC é uma tecnologia sem fio de curto intervalo de alta freqüência, ou seja, de transmissão de dados e informações de maneira instantânea entre dispositivos a cerca de dez centímetros de distância. É uma extensão do cartão de proximidade RFID (Radio-frequency Identification), que combina a interface de um cartão inteligente e um leitor em um único dispositivo. Trata-se de uma tecnologia que começou a ser desenvolvida em 2004, através de um fórum estabelecido por Nokia, Philips e Sony, com o fim de buscar soluções que possibilitassem uma interação baseada no toque com aparelhos eletrônicos de consumo, dispositivos móveis, PCs, objetos inteligentes e para operações de pagamento. A tecnologia ainda não alcançou o mercado de forma expressiva, pois há falta de telefones compatíveis, apesar dos esforços nesse sentido.
Podemos apontar três fatos recentes que indicam que esta situação tende a ser alterada. A Samsung já lançou um smartphone com essa tecnologia (suportada pelo sistema Android 2.3 da Google). Paralelamente, enquanto a Nokia tornou-se sócia minoritária da empresa Obopay, especialista em serviço de pagamentos por celular, a Motorola adquiriu a Symbol Technologies, fabricante de handhelds que podem ler códigos de barras, RFID e Wi-Fi. Em outras palavras, as líderes do setor de telefonia móvel estão se movendo, seja através de parcerias, seja por aquisição de empresas, para incorporar conhecimento complementar que lhes permita desenvolver e dominar a nova tecnologia. Assim, procuram reafirmar as suas posições no mercado, seja oferecendo novas soluções de conectividade, seja ofertando produtos novos ou diferenciados por aperfeiçoamentos. No caso específico da tecnologia NFC, o esforço requer também a colaboração de empresas de eletrônicos de consumo, pois envolve conhecimentos em tecnologias de produtos – e de mercados – e de processos produtivos diferentes, pelo menos enquanto não houver a integração dessas tecnologias.
Como no caso da tecnologia anterior (e era esperado), a concentração de publicações ocorre nos últimos anos: 2009 e 2010. Além disso, elas se concentram nas mesmas áreas científicas das TICs, mas há uma diferença interessante em relação às outras, qual seja, o surgimento das ciências sociais como terceira área importante. Isso condiz com a proposta de interatividade da tecnologia. O idioma dos artigos é principalmente o inglês, aparecendo apenas um em chinês. Ademais, também as afiliações estão concentradas nos países desenvolvidos, especialmente europeus, mas com a participação do México em terceiro lugar como única exceção. O surgimento de países (México, Espanha e Áustria) ausentes nas outras tecnologias parece sustentar a noção de janelas de oportunidade no período do surgimento de uma nova tecnologia.
Entre as empresas de telequipamentos, apenas a Nokia possui publicações sobre essa tecnologia. A empresa anunciou que irá incorporar a tecnologia NFC em vários de seus smartphones e que ela será baseada no Symbian a partir de 2012. Este é um anúncio que desperta curiosidade, pois, como insistentemente discutido, o sistema operacional da Nokia é relativamente inferior aos dos concorrentes16. Assim, mesmo que Motorola e Samsung não constem como pesquisadoras nesta tecnologia, o fato delas usarem o sistema Android pode representar vantagens nas próximas rodadas competitivas.
No Brasil, em 2009, Claro, VisaNet, Nokia, Visa, Bradesco e Banco do Brasil testaram a viabilidade de um sistema de pagamentos móvel no Brasil. Este exemplo é uma evidencia de dois aspectos relevantes: (i) as relações simbióticas necessárias dentro do ecossistema das TICs para promover melhorias tecnológicas; e (ii) que há oportunidades para países em desenvolvimento quando surgem novas tecnologias. Ainda assim, a cumulatividade é imprescindível nessas atividades, pois foi a Google a pioneira na nova tecnologia, usando o sistema operacional Android. Nos EUA, AT&T, Verizon e T-Mobile anunciaram a adoção do Isis, rede de e-commerce que usará celulares – transformados em “carteiras digitais” – para efetuar pagamentos através do NFC.
A difusão desse tipo de tecnologia não apenas gera impactos por eliminar as transações em moeda e em “dinheiro plástico” (cartões de débito e de crédito), mas, se combinada com outras tecnologias, e.g. as duas últimas acima (rede de internet global associada a uma rede local Wi-Fi, ambas velozes e de grande capacidade de transmissão de informações), pode revolucionar o sistema de pagamentos e financeiro internacional.
Comentários finais
O estudo das tecnologias do setor de telefonia móvel permite reafirmar a tendência da chamada convergência digital e, principalmente, interpretá-la como fruto de diferentes trajetórias tecnológicas, que desembocaram no padrão de rede 3G (Funk, 2009b) e co-existem (integradas) com as soluções para Internet Móvel. Na verdade, estas transformações começaram a ser gestadas a partir da passagem da tecnologia analógica para a digital, 1G para 2G, mas a rede 3G foi capaz de mudar toda a estrutura do setor de telefonia móvel. Em especial, alterou as vantagens competitivas, a estrutura da indústria e as formas de relacionamento entre as firmas, os institutos de pesquisa e os governos. Para isso, foi necessária a reconstrução dos elos de relacionamento em um sistema (ou um “ecossistema”, na expressão de Fransman) mais sofisticado e complexo, que tornasse mais eficiente a interação entre os diferentes e novos atores.
Assim, novos mecanismos de coordenação foram criados, dentre os quais destacamos (i) o papel das instituições de regulamentação na definição das trajetórias tecnológicas que representasse – pelo menos em parte - os interesses e reduzisse a incerteza dos agentes; (ii) a importância das universidades e dos institutos de pesquisa como suporte técnico-científico para a pesquisa básica, o desenvolvimento e aperfeiçoamento de tecnologias; (iii) a capacidade das firmas de integra-se ao sistema e extrair habilidades e apropriar-se de competências (traduzidas em patentes) que lhes permitisse manter e expandir a sua participação no mercado.
Antes, Nokia e Motorola, por exemplo, dedicavam-se aos mercados de infra-estrutura de redes e de aparelhos celulares. Quando o ambiente mudou, novas oportunidades foram geradas e surgiram novos concorrentes, oriundos de diferentes atividades econômicas, com capacitações dinâmicas e cumulatividade específicas às suas trajetórias. Entre estes novos atores, destacam-se Samsung (conglomerado diversificado, mas aqui examinado principalmente no segmento eletrônico de consumo), Palm (computadores), Apple (computadores), Google (internet) e Microsoft (softwares e sistemas operacionais).
As fronteiras do mercado tornaram-se fluídas, “um espaço gelatinoso”, remoldável, de tal forma que as duas últimas empresas anunciaram recentemente o início da produção de aparelhos móveis. Porém, a entrada de novos concorrentes não é propriamente uma surpresa, uma vez que estas empresas estão no país central das TICs (os EUA) e podem determinar trajetórias e captar muitos efeitos de transbordamento. Surpreende, isto sim, por se tratar de atividades dinâmicas, a capacidade assimiladora e transformadora do ambiente desses novos atores. Ao mesmo tempo, a forte política industrial e tecnológica dos países asiáticos capacitou-os a desenvolver competências e competitividade em muitas das atividades do complexo das TICs. Particularmente relevantes são os casos da entrada da Samsung no segmento de smartphones e tablets e o serviço de fototelefonia do Japão (o i-mode) que reconfiguraram toda a estrutura existente da telefonia móvel.
As pesquisas passaram a dar importância a áreas científicas que até então não eram prioritárias, principalmente as relacionadas às ciências da computação e matemática, substituindo áreas tradicionais como física e astronomia. Surpreende também (e pode ser tomado com um caso exemplar de convergência científica necessária às novas tecnologias), o aparecimento de ciências sociais como área científica importante em tecnologias de comunicação. Uma hipótese que este dado sugere é que muitas destas novas tecnologias promovem inovações, novos desenvolvimentos e aperfeiçoamentos a partir de soluções baseadas “apenas” em software, e alteram e expandem o espectro de áreas científicas, incluindo, além de algoritmos e lógica matemática, também conhecimentos sobre redes sociais.
No entanto, as “inovações radicais” das TICs e, em particular, da telefonia móvel não parecem ser introduzidas – como é usual deduzir a partir de uma leitura apressada de Schumpeter (1934, 1942) – “subitamente”, de maneira a alterar a dimensão e a estrutura do mercado e/ou introduzir e eliminar atores repentinamente. O longo tempo de aprendizado e aperfeiçoamento das inovações, detectado pelos nossos resultados, coloca tal processo em uma perspectiva mais relacionada com aquela descrita por Rosemberg (1976, cap. 11).
As tecnologias aqui avaliadas resultam de cerca de dez anos entre a primeira publicação e o ano de maior concentração das publicações. Se considerarmos que a concentração de publicações é própria de tecnologias cujo conhecimento ganhou “maturidade técnico-científica”, ou seja, que a sua difusão está em processo, o tempo total para a maturidade de uma “tecnologia vencedora” pode alcançar cerca de vinte anos. Mesmo que as inovações sejam radicais, certamente não se pode considerar esse período (entre pesquisa inicial e a maturidade tecnológica) – como curto. Em suma, também para as inovações radicais, o tempo é imprescindível e determinante da corrida por patentes como ativos estratégicos para as empresas.
No bojo destas transformações, o hardware perde importância e as empresas parecem se comportar de acordo com as hipóteses de Sturgeon (1997) sobre o abandono relativo das atividades de manufatura ou a fabricação de componentes e a maior atenção a outros aspectos da concorrência, dentre eles os tecnológicos17. De Negri e Ribeiro (2010), analisando as principais tendências de patenteamento das empresas líderes mundiais do setor de equipamentos de comunicação, também constataram que os domínios tecnológicos de semicondutores vêm perdendo participação à medida que cresce a importância da informática. Se essa percepção estiver correta, decorrem implicações relevantes sobre a divisão internacional do trabalho. Em primeiro lugar, os atores asiáticos posicionam-se como participantes relevantes do sistema, indicando que, conforme apontara Sturgeon, a relocalização da manufatura “carrega” conhecimento científico necessário ao processo produtivo, especialmente em setores tecnologicamente dinâmicos.
O conhecimento é necessário para acompanhar as mudanças produtivas, implicando a inserção mais próxima do produtor asiático em um ecossistema cujo centro está em outras partes. Isso pode explicar a presença forte de empresas asiáticas de eletrônicos na publicação científica a respeito, por exemplo, de protocolos de internet – uma tecnologia cujo conhecimento já está disseminado, mas que não se pode afirmar que seja madura. Em segundo lugar, o mesmo fenômeno explica a presença forte de empresas estadunidenses na produção científica a respeito de tecnologias mais novas (transmissão de redes sem fio e transmissão de dados a curta distância). Pode-se inclusive aventar a possibilidade de os EUA retomarem a hegemonia perdida em tecnologias móveis nas primeiras rodadas de concorrência em telefonia celular.
A Europa foi, durante os anos 1990, líder em tecnologia móvel e assumiu a liderança em padrões de telefonia, suplantando inclusive empresas do Vale do Silício. No entanto, a cumulatividade de empresas dessa última região serviu para o aproveitamento das novas oportunidades desencadeadas pelo advento da Internet Móvel. Por isso, não se deve desprezar outros desdobramentos, relacionados à co-evolução das tecnologias e instituições que tratamos, e que tem a ver com o fato de o mercado estadunidense para esses aparelhos ser maior do que o europeu e com a atual liderança mundial da estadunidense Verizon na implementação da tecnologia LTE. Também não se deve ignorar, como comentado acima, a emergência dos atores asiáticos como um desdobramento importante.
Quanto ao Brasil, trata-se de uma boa surpresa identificar universidades que fazem pesquisas nessa área. Contudo, a literatura sobre sistemas setoriais e nacionais de inovação aponta que essa participação tem peso tanto maior quanto mais os outros atores do sistema participem dos processos inovativos. Não é o caso do Brasil, que não possui fabricantes relevantes senão as internacionais, ainda que seja possível pensar em inovações incrementais e melhorias que tais empresas possam realizar em parcerias com institutos tecnológicos e universidades brasileiras.
O caso da Nokia ilustra como a posição de liderança pode ser contestada. A empresa vem percebendo lucros menores e perda de mercado em smartphones, a ponto de seu principal executivo, Stephen Elop (recém contratado, não por acaso, da Microsoft), ter indicado a necessidade de reinvenção da empresa (The Wall Street Journal, 2011a). Seu diagnóstico é o que em grande parte identificamos neste artigo: os consumidores estão escolhendo aparelhos móveis baseados em software e não hardware, que indica uma mudança do campo de batalha de dispositivos para ecossistemas.
Também recentemente (The Economist, 2011) a empresa anunciou que usaria o Windows Phone, sistema operacional da Microsoft, e mudanças radicais associadas à instalação de uma estrutura operacional nova e a contratação de uma nova equipe de administradores não-finlandeses. Ilustra também o problema descrito por Teece e Pisano (1994). Apesar de acumular um grande estoque de ativos tecnológicos (como mostram alguns dos resultados aqui apresentados), a Nokia, por um lado, não foi capaz de dar-lhes um caráter dinâmico e distintivo, ou seja, torná-los uma fonte permanente de vantagens competitivas. Além disso, ela não conseguiu reunir as capacitações necessárias para adaptar, integrar e reconfigurar as suas qualificações organizacionais, recursos e competências funcionais internas e externas a um ambiente em que o ritmo exigido de acumulação de conhecimento é acelerado e a natureza da competição futura e dos mercados é de difícil determinação.
Nesse sentido, são necessárias mudanças não apenas no âmbito da corporação, mas principalmente, em todos os elos interorganizacionais, pois as inovações na arquitetura dos ecossistemas requerem novas “rotinas” para integrar (principalmente o conhecimento externo) e coordenar o novo conhecimento científico (por exemplo, priorizando a ciência da computação ao invés da engenharia, ou software e não hardware). Por outro lado, esses recursos e qualificações acumuladas (Penrose, 1959), insuficientes nesta fase da luta competitiva, podem ser a base decisiva de vantagens nas próximas rodadas de concorrência entre tecnologias (Stopford, 1995). Nessa perspectiva, é necessário examinar os próximos passos das estratégias individuais.