Filosofia Moderna

Filosofia e Ética

1 A História da Filosofia:

A História da Filosofia não é apenas um relato histórico, mas as transformações do pensamento humano ocidental, ou seja, o percurso do pensamento ocidental; o modo pelo qual essa forma de pensar influenciou a realidade e, ao mesmo tempo, foi resultado dessa realidade histórica. A História da Filosofia pode ser estuda a partir de quatro períodos:

  • Filosofia Grega
  • Filosofia Medieval: Cristã
  • Filosofia Moderna
  • Filosofia Contemporânea

2 FILOSOFIA MODERNA:

A Ciência Antiga e a Ciência Moderna:

Filosofia Medieval Cristã constituiu-se do pensamento cristão e da ciência antiga. A ciência antiga tinha como base o dogmatismo: era especulativa e partia de interpretações da Bíblia. A ciência antiga era baseada na lógica e na demonstração de verdade, sem considerar a observação e a experiência. É o caso da teoria geocêntrica, ou seja, a teoria que postulava que a terra é o centro do universo, vigorava há quase vinte séculos e constituía a maneira pela qual o homem antigo e medieval via a si mesmo e ao mundo. A concepção medieval cristã via o homem como é o ser supremo da criação divina e a terra era o centro do universo.

A teoria de que a terra era o centro do mundo, geocentrismo, era uma explicação que justificava tal visão. A ciência antiga era um corpo de verdades teóricas universais, de certezas definitivas, que não admitiam erros, mudanças ou crítica. O novo período – Idade Moderna - vai significar uma ruptura com essa concepção de mundo dogmática, que não permitia a reflexão e a crítica.

Filosofia Moderna:

Sec. XVII e XVIII 

Após a Idade Média, há um período de transição entre o século XV e XVI para a Idade Moderna, que significou ruptura com a tradição anterior cristã, fundamentada em Deus, e passou-se a valorizar o homem. É o período chamado Humanismo Renascentista: artes plásticas, valorização do homem, liberdade e criatividade. É o momento em que se rompe com a visão sagrada e teológica na arte, no pensamento, na política, na literatura.

Os pensadores desse período passam a valorizar o saber dos gregos antigos. Valoriza-se o homem e rompe-se com o pensamento teocêntrico, que considera Deus como o centro de tudo, e a Ciência Antiga. A Idade Moderna traz a proposta de uma nova ordem e visão de mundo, rejeitando a autoridade imposta pelos costumes e pela hierarquia da nobreza e Igreja, em favor da recuperação do que há de virtuoso, intuitivo e espontâneo na natureza humana. Surge um novo estilo com nova temática. Valoriza-se o corpo humano, artes, pensamento, política, ciência. É o momento de novos pensadores e artistas, tais como Leonardo da Vince, William Shakespeare, Rafael, Maquiavel, Michelangelo, Montaigne.

As condições históricas:

Surge uma nova maneira de pensar e ver o mundo, resultado das transformações históricas que ocorreram na Europa. Entre os fatores históricos, pode-se destacar:

  • O humanismo renascentista do sec. XV
  • A descoberta do Novo Mundo (sec. XV)
  • A Reforma Protestante do sec. XVI
  • A revolução científica do sec. XVII
  • Desenvolvimento do mercantilismo e ruptura da economia feudal
  • Grandes núcleos urbanos e a invenção da imprensa.

O humanismo renascentista do sec. XV:

Nasceu na península itálica, sendo um período de transição entre a Idade Média e a Moderna. Rompeu com a filosofia cristã da escolástica medieval e, valoriza o saber dos gregos antigos, retomando a concepção do humanismo. O período medieval, anterior, foi marcado por uma forte visão hierárquica e religiosa de mundo, em que a arte está voltada para o sagrado, filosofia está vinculada à teologia e à problemática religiosa. O homem e seus atributos de liberdade e razão passam a ser importantes novamente, e não apenas as o mundo divino.

Nas artes predomina os temas pagãos, afastados da temática religiosa. É a arte voltada para o homem comum, não mais reis e santos. Valoriza-se o corpo e a dignidade humana. Thomas Morus, em a A Utopia, defende a tolerância religiosa, critica o autoritarismo dos reis e da Igreja, favorecendo a razão e a virtude natural. Maquiavel, autor escreveu O Príncipe, inaugurou o pensamento moderno da política, em que faz uma análise do poder como fato político, independente das questões morais.

A descoberta do Novo Mundo:

Outro fator importante que levou a mudança do pensamento moderno foi a descoberta do Novo Mundo, pois revelou a falsidade e fragilidade da geografia antiga, o desconhecimento da flora e fauna encontradas. Revelou também a falta de conhecimento de outros povos e culturas. Muita coisa precisava ser reformulada. A ciência antiga perde a autoridade é questionada, pois nada explica sobre a nova realidade e suas narrativas. Acreditava que a “terra era plana”, desconhecem os novos habitantes dessas terras descobertas, sua natureza, sua origem, sua cultura, tão distintas da européia.

A Reforma Protestante:

Martin Lutero contesta a autoridade da Igreja marcada pela corrupção e passa a valorizar a consciência individual de buscar a própria fé, sem ser pela imposição das verdades dogmáticas. Rompe com Igreja Católica e funda a Igreja protestante. Essa nova igreja propõe e representa, assim, a defesa da liberdade individual e da consciência em lugar da certeza, valorizando a ideia de que o indivíduo é capaz de encontrar sua própria verdade religiosa.

A revolução científica moderna:

Outro fator essencial desse processo de transformação é a revolução científica que significou o ponto de partida para a ciência nos moldes que conhecemos hoje. Nicolau Copérnico no século XVI vai defender matematicamente que a Terra gira em torno do Sol, rompendo com o sistema geocêntrico de Ptolomeu (sec.II) e inspirado em Aristóteles. A teoria do geocentrismo vigorava há quase vinte séculos e era maneira pela qual o homem antigo e medieval via a si mesmo e ao mundo. A ciência moderna surge quando se torna mais importante observar e experimentar, ao contrário da visão antiga que partia de princípios estabelecidos e dogmáticos.

É um processo de transição e não uma ruptura radical. Ao longo desse processo surgem Galileu e Isaac Newton, entre outros, que vão transformar a visão científica do século XVII seguinte. O rompimento com a ciência antiga revelou uma concepção de distinto do universo antigo, que é fechado, finito e geocêntrico. A nova ciência propõe o modelo heliocêntrico e o universo é infinito. A ciência é ativa valoriza a observação e o método experimental, une ciência e técnica. A ciência antiga é contemplativa, separa ciência e técnica. No século XVII a Filosofia e a Ciência se separam. Galileu, usando um telescópio, demonstra o modelo de desenvolvido por Copérnico. Vai ser interpelado pela Igreja.

Entre os principais pensadores daquele momento, destacam-se:

  • Copérnico, um sacerdote polonês, propôs a teoria heliocêntrica que atingia a concepção medieval cristã de que o homem é ser supremo da criação divina e que por isso a terra é o centro do universo.
  • Giordano Bruno leva adiante a ideia de Copérnico e desenvolve a concepção de universo infinito. É condenado e morre queimado vivo na fogueira.
  • Galileu Galilei contribuiu com descobertas científicas, como o aperfeiçoamento do telescópio, e com uma nova postura metodológica de investigação científica: observação, experimentação, uso da linguagem matemática. Por condenar os dogmas tradicionais da Igreja, também foi condenado pela Inquisição, mas optou por viver e seguiu fazendo suas pesquisas clandestinamente.

A revolução científica pode ser considerada uma grande realização do espírito crítico humano, e acaba concentrando sua atenção na natureza do universo, na ciência da natureza.

Desenvolvimento do mercantilismo e ruptura da economia feudal:

O mercantilismo antecede ao desenvolvimento da indústria e trouxe novas necessidades com o surgimento da burguesia, diferentes dos interesses da nobreza.

Surgimento dos grandes centros urbanos leva a novos valores e necessidades. E a invenção da Imprensa permite que as idéias possam ser publicadas e difundidas.

3 Sobre a produção do conhecimento:

A Idade Moderna é um período é marcado por grandes transformações. Estas transformações e o desenvolvimento da ciência moderna levaram o homem a questionar os critérios e os métodos usados para aquisição do conhecimento verdadeiro da realidade. Como podemos conhecer? Quais os fundamentos do conhecimento? O que é conhecer? Essas questões são essenciais pra a ciência, a ética e epistemologia. A Filosofia Moderna vai enfrentar o prestígio que o pensamento de Aristóteles tinha e a supremacia da doutrina da Igreja, na Idade Média, e inaugurou um modo novo de conceber e compreender o conhecimento.

O século XVII viu nascer o método experimental e a possibilidade de explicação mecânica e matemática do Universo, que deu origem à ciência moderna. A partir desses questionamentos, duas novas perspectivas para o saber, às vezes complementares, às vezes antagônica. Surgem o racionalismo e o empirismo. O racionalismo e o empirismo constituem novos paradigmas da filosofia moderna para conhecer a realidade. O que é a razão? Existem vários sentidos de razão no nosso dia a dia. A Filosofia se define como conhecimento racional da realidade natural e cultural, das coisas e dos seres humanos. A razão é a organização e ordenação de idéias, para assim poder sistematizá-las.

A razão é atividade intelectual de conhecimento da realidade natural, social, psicológica, histórica. Possui um ideal de clareza, de ordenação e de rigor e precisão dos pensamentos e de palavras. A razão, em sua origem, é a capacidade intelectual de pensar e exprimir-se correta e claramente, de modo a organizar e ordenar a realidade, os seres, os fatos e as idéias. Desde o começo da Filosofia, a origem da palavra razão fez com que ela fosse considerada oposta a quatro outras atitudes mentais:

  • Ao conhecimento ilusório
  • Às emoções, aos sentimentos, às paixões,
  • À crença religiosa, em que a verdade nos é dada pela fé numa revelação divina
  • Ao êxtase místico

A Filosofia Moderna foi o período em que mais se confiou nos poderes da razão para conhecer e conquistar a realidade e o homem – por isso foi chamado de Grande Racionalismo Clássico. O marco dessa forma de pensamento é René Descarte, matemático e filósofo, inventor da geometria analítica. O método escolhido é o matemático, por ser o exemplo de conhecimento integral racional.

4 RACIONALISMO:

O racionalismo sustenta que há um tipo de conhecimento que surge diretamente da razão. É baseado nos princípios da busca da certeza e da demonstração, sustentados por um conhecimento que não vêm da experiência e são elaborados somente pela razão. O racionalismo considera que o homem tem idéias inatas, ou seja, que não são derivadas da experiência, mas se encontram no indivíduo desde seu nascimento e desconfia das percepções sensoriais. Enquanto a ciência cristã e antiga constituía um corpo de verdades teóricas universais, de certezas definitivas, não admitindo erros, mudanças ou crítica, a ciência moderna e racional vai propor formular leis e princípios que expliquem o funcionamento da realidade.

O pensamento racional ao introduzir a dúvida no processo do pensamento, introduz a crítica como parte do desenvolvimento do conhecimento científico. São esses princípios da ciência moderna que encontramos hoje.

Principais pensadores: René Descartes, Pascal, Spinoza e Leibniz, Friedrich Hegel.

René Descartes:

Nasceu na França, em 1596, em um momento de profunda crise da sociedade e cultura européia, passando por grandes transformações e ruptura com o mundo anterior. Foi um dos principais pensadores do racionalismo. Expôs suas idéias com cautela para evitar a condenação da igreja. É considerado um dos pais da filosofia moderna. O princípio básico de sua filosofia é a frase: “Penso, Logo existo”. A base de seu método é a dúvida de todas as nossas crenças e opiniões. Para ele, tudo deve ser rejeitado se houver qualquer possibilidade de dúvida. O pensamento é algo mais certo que a matéria. Ele valorizava a atividade do sujeito pensante em relação ao real a ser conhecido. Descarte acreditava que o método racional é caminho para garantir o conhecimento de uma teoria científica.

EMPIRISMO:

O Empirismo defende que o conhecimento humano provém da nossa percepção do mundo externo e da nossa capacidade mental, valorizando a experiência sensível e concreta como fonte do conhecimento e da investigação. Segundo os empiristas, o conhecimento da razão, da verdade e das idéias racionais é importante, mas desde que estejam ligados à experiência, pois as idéias são adquiridas ao longo da vida e mediante o exercício da experiência sensorial e da reflexão. O método empirista baseia-se na formulação de hipóteses, na observação, na verificação de hipóteses com base nos experimentos. O empirismo provoca uma revolução para a ciência. A partir da valorização da experiência, o conhecimento científico, que antes se contentava em contemplar a natureza, passa a querer dominá-la, buscando resultados práticos.

Principais filósofos: Francis Bacon, John Locke, David Hume, Thomas Hobbes e Hohn Stuart Mill.

Francis Bacon, nasceu na Inglaterra criou o lema saber é poder, pois compreende que o desenvolvimento da pesquisa experimental aumenta o poder dos homens sobre a natureza . John Locke, médico inglês, dizia que o mente humana é uma tábula rasa, um papel em branco sem nenhuma ideia previamente escrita e que todas as idéias são adquiridas ao longo da vida mediante o exercício da experiência sensorial e da reflexão. Defendeu que a experiência é a fonte das idéias. Desenvolveu uma corrente denominada Tabula Rasa, onde afirmou que as pessoas desconhecem tudo, mas que através de tentativas e erros aprendem e conquistam experiência.

O racionalismo e o empirismo são pensamentos distintos, embora exista um elemento em comum: a preocupação com o entendimento humano.

A Filosofia Moderna:

  • O que é conhecer?
  • Como podemos conhecer?
  • Qual a relação entre consciência e realidade?

Essas questões deram origem a uma área da filosofia preocupada com o processo de conhecimento da realidade: a teoria do conhecimento, a epistemologia.

Em resposta a essas questões foram formuladas duas propostas teóricas:

  • o racionalismo – o conhecimento emana da razão 
  • o empirismo – o conhecimento emana da experiência sensível.

Idade Moderna, no século XVII, com Galileu registrou a separação da ciência e da filosofia. É nessa época que a ciência toma os rumos da ciência atual, baseada em comprovações, por meio de um método.

A Filosofia Moderna propôs algumas mudanças teóricas:

1º. O homem se volta para si mesmo, para saber se ele é realmente capaz de conhecer a verdade. O homem passou a refletir sobre seu pensamento. O pensamento tornou-se um objeto de estudo.

2º. Cria a concepção de que a realidade - natureza, instituições sociais e política - pode ser captada pelas idéias e pela razão.

3º. A realidade é racional porque é um sistema ordenado de causas e efeitos que podem ser conhecidas e transformadas pelo homem.

Já que a realidade pode ser inteiramente representada pelos conceitos elaborados pelo sujeito do conhecimento, o homem pode intervir e alterar essa realidade. O homem adquire um enorme poder sobre a natureza e realidade. Nasce a ideia da experimentação e da tecnologia. Constrói-se o ideal de que o homem pode dominar tecnicamente a natureza e a sociedade. Nasce uma nova Ciência.

Alguns importantes pensadores e cientistas modernos:

  • Galileu Galilei: nasceu na Itália e é considerado o fundador da física moderna. Defendeu as explicações do universo a partir da teoria heliocêntrica e rejeitava a física de Aristóteles, adotadas como verdade absoluta pelo cristianismo. Por contrariar essa visão tradicional foi considerado herege. Questionava a Bíblia, sendo julgado pelo Tribunal da Inquisição e condenado a fogueira ou a renegar suas concepções científicas. Optou por se retratar, mas continuou fiel às idéias e publicou clandestinamente uma obra que contrariava os dogmas cristãos.
  • Isaac Newton: nasceu na Inglaterra, físico e matemático, continuou à revolução científica que deu origem à física clássica. Fala de um universo ordenado, como uma grande máquina. Além de física, matemática, filosofia e astronomia, estudou também alquimia, astrologia, cabala, magia e teologia, e era um grande conhecedor da Bíblia. Considerava que todos esses campos do saber poderiam contribuir para o estudo dos fenômenos naturais. Suas investigações experimentais, acompanhadas de rigorosa descrição matemática, constituíram-se modelo de uma metodologia de investigação para as ciências nos séculos seguintes.

5 Homem, religião e natureza:

A religião como autoafirmação do gênero humano:

A maior parte, senão todas as civilizações que temos conhecimento possuem um traço em comum: a religião. Desde as comunidades mais primitivas até as sociedades mais desenvolvidas, todas tinham religião, (e até hoje as nações e regiões se fundam em princípios religiosos, mesmo que minimamente) sejam elas cultos e divinizações dos elementos da natureza ou religiões organizadas com deuses complexos e antropomorfizados. O que se nota a partir de achados históricos é que povos e comunidades distantes partilham essa característica; encontramos religião na Europa, na África, no Oriente Médio, na Ásia, na América, etc.

Diante disso, pode-se perguntar: por que o homem cria religiões? Segundo o filosofo alemão Ludwig Feuerbach, os homens realizam suas primeiras buscas às respostas pelo desconhecido no além, para depois serem entendidas no aquém. A religião é a primeira forma de entendimento que o homem tem de si e do mundo. “Por isso em toda a parte a religião precede a filosofia, tanto na história da humanidade quanto na história do indivíduo”. Desse modo, o sentimento particular e subjetivo da religião é uma forma de entendermos o mundo em que vivemos e aplacar o medo do que não conhecemos ainda.

Os primeiros homens não conseguiam entender e nem explicar os fenômenos naturais, era como se fossem forças superiores que agiam arbitrariamente, por isso passaram a deificar a natureza com vistas a controlá-la a partir de seus cultos. Dessa maneira, temos a primeira forma de religião: a religião da natureza.

Os povos mais rudes, por exemplo, na África, na Ásia do Norte e na América temem [...] os rios especialmente nos lugares em que formam redemoinhos perigosos ou quedas. Ao passarem por tais lugares pedem perdão ou batem-se no peito ou oferecem sacrifício à divindade irada. (FEUERBACH)

Aqui vemos um culto especial aos fenômenos negativos e nocivos por parte da natureza: tais cultos mostram o sentimento de medo diante do desconhecido, diante do que não se consegue explicar ou dominar. Feuerbach também aborda outro sentimento primitivo que funciona para explicar a necessidade do homem religioso diante do que não consegue explicar, em um primeiro momento, por vias naturais. Em verdade esse sentimento é, de certa forma, uma consequência do medo que é a “gratidão”.

Toda vez que um religioso (tanto nas religiões primitivas quanto nas mais atuais) alcança seu objetivo, fica grato e faz oferenda aos deuses que cultua, dessa forma atribuem o sucesso de uma colheita bem sucedida ou a passagem tranquila por um rio caudaloso à sua “boa relação” com os deuses. O que podemos observar até aqui é que o sentimento religioso, no fundo, nos revela uma característica essencial: a dependência. Dependemos da natureza para existir, ela é o único ser capaz de dar, manter e nos tirar a vida. Somos dependentes pelo fato de sermos finitos, seres de carências e necessidades. A dependência e, por conseguinte, a finitude são as maiores causas para que o homem crie religiões.

Sentimento de dependência ou finitude são então o mesmo sentimento. Mas o sentimento de finitude mais delicado, mais doloroso para o homem, é o sentimento ou a consciência de que ele um dia acaba, de que ele morre. Se o homem não morresse, se vivesse eternamente, não existiria religião. [...] somente o túmulo do homem é o berço dos deuses” (FEUERBACH)

Portanto, segundo Feuerbach, as religiões existem à medida que são úteis ao homem e ao seu contexto. Os sentimentos de dependência, medo e gratidão demonstram que o homem cria e cultua deuses ou elementos da natureza a partir do momento em que esses possam lhe oferecer algum tipo de vantagem. Por exemplo, os egípcios cultuavam o rio Nilo para que tivessem uma boa colheita; os gregos prestavam homenagens à Apolo (deus da guerra) para ganharem as batalhas, Atenas para que lhes desse sabedoria, etc. A maior parte dos deuses servem para beneficiar ou amaldiçoar a humanidade, dependendo de como são tratados.

Esses benefícios ou malefícios estão voltados para a sociedade ou comunidade em que estão inseridos. Por exemplo, não há sentido para os gregos antigos cultuarem o rio Nilo, ou um deus que dará ouro para os Incas, pois não há interesse na existência de deuses descontextualizados. Melhor dizendo: os deuses servem para os propósitos e para as demandas locais de onde estão inseridos e quanto mais complexas vão ficando as sociedades mais complexas são suas religiões. Para os gregos antigos não bastavam mais religiões naturais primitivas porque eles tinham demandas maiores e mais complexas como a guerra, a política, a polis e a educação. Portanto:

a história da religião ou, o que dá na mesma, de Deus (porque quão diversas as religiões tão diversos os deuses, e as religiões tão diversas como são os homens) nada mais é do que a história do homem. Para ilustrar e esclarecer [...] com um exemplo [...], assim como o deus grego, romano, em suma, o deus pagão é, como nossos próprios teólogos e filósofos admitem, apenas objeto da religião pagã, um ser que possui existência somente na crença e imaginação de um pagão, mas não de um homem ou povo cristão. [...]; da mesma forma é também o deus cristão apenas um objeto da religião cristã [...]. A diferença entre o deus pagão e o cristão é apenas a diferença entre o homem ou o povo pagão e o cristão. (FEUERBACH:

A grande contribuição do cristianismo, que é o objeto específico desse estudo, foi a universalização da religião. A religião pagã, por exemplo, estava voltada para as nações pagãs; os diversos deuses eram relevantes apenas para os povos que os cultuavam, por isso, acreditava-se que os deuses voltavam-se apenas para determinadas comunidades. Os deuses pagãos eram seres diversos que supriam a diversidade do seu povo, diferente do deus cristão que não vê diferenças nas nações e nem na humanidade, é mais universal. Em suma: os deuses pagãos eram deuses mais nacionais, mais específicos; enquanto o deus cristão é um deus que abstrai as diferenças e por isso é um deus universal, que atende ao gênero humano

É significativo ainda, para se depreender a diferença entre o Cristianismo (monoteísmo) e o paganismo (politeísmo), a relação entre a espécie (o individual) e o gênero (o universal) [...]: o Deus pagão é um deus “patriota”, “nacionalista”, “limitado”, porque o pagão não ultrapassa os limites de sua nacionalidade: o deus cristão é, ao contrário, “cosmopolita”, “universal”, “infinito”, porque ele não está limitado a uma determinada nação. [...] no paganismo, o homem faz da essência de sua espécie uma essência absoluta, ou seja, ele não se eleva sobre sua espécie que se encontra no âmbito da pluralidade, razão pela qual há aqui muitos deles; no cristianismo, ele se eleva para o gênero, [...] as diferenças das espécies foram aqui suprimidas. (CHAGAS)

Apesar de possuírem características diferentes, podemos notar até aqui que as religiões são um reflexo dos sentimentos humanos. Mesmo as religiões mais naturais, a natureza é interpretada como algo que demonstra sentimentos como fúria, ira, mansidão, tranquilidade, etc. Ao notarmos esse caráter da religião, percebemos que o homem identifica sua criação consigo mesmo e promove uma relação de semelhança com o objeto religioso.

A partir disso tudo, podemos afirmar que a religião é uma criação humana voltada à própria humanidade, pois o que está por trás da religião são os benefícios que esta pode trazer ao crente; por isso estudar os deuses é o mesmo que estudar o homem, nas palavras de Feuerbach “teologia é antropologia”. Ainda segundo o autor, somos os únicos que podemos ter religião, pois somos os únicos que conseguimos ser “eu e tu” ao mesmo tempo, os únicos que conseguimos nos colocar no lugar do outro, portanto os únicos que possuem noção de “gênero”, de humanidade. Isso se dá por conta de uma “trindade” que é exclusiva à essência humana e é perfeita e ilimitadas no gênero humano, são elas a razão, a vontade e a sensibilidade.

A força do pensamento é a luz do conhecimento, a força da vontade é a energia do caráter, a força do coração o amor. Razão, amor e vontade são perfeições, são os mais altos poderes, são a essência absoluta do homem enquanto homem e a finalidade de sua existência. O homem existe para conhecer, para amar e para querer. (FEUERBACH)

Razão, vontade e sensibilidade são partes fundamentais da nossa essência e mostram a consciência do nosso gênero e da nossa infinitude real. Porém essa consciência do infinito se deslocará para um ser sobre-humano que toma nossas características e as torna infinitas, ilimitadas e universais, a esse novo ser damos o nome de Deus.8 Nesse sentido, o termo “religião”, que deriva da palavra latina “religare” (religar), ganha um novo significado. Religare – no sentido teológico-cristão significa que a religião é o caminho para religar o homem ao divino; no sentido abordado aqui, religião significa religar o homem a si mesmo, o autoconhecimento humano, onde o homem faz um movimento de sair de si, se reconhecer em outro ser, se identificar nesse ser e voltar a si mesmo.

Feuerbach considera que as religiões personalistas, como a cristã, possuem lados positivos e negativos. Positivamente, ela faz com que o homem se compreenda melhor. Quando o homem religioso se identifica com seu deus, ele na verdade está se identificando e de certa forma – compreendendo a si próprio e a partir desse conhecimento consegue identificar suas virtudes, capacidades e potencialidades. Jesus é para o cristianismo a figura humana mais perfeita, mais próxima de deus. A figura de Cristo é o exemplo de humanidade almejada pelo cristão. Sendo Jesus o exemplo de bondade, justiça, amor, moral, etc. é dever do cristão se espelhar e buscar ser o melhor possível, o mais próximo possível desse ideal.

Nesse ponto há positividade na religião cristã, a partir do momento em que ela liga o homem à sua própria sensibilidade (através do amor ao seu deus, amor ao próximo) e lhe dá noções de ética e justiça. Portanto, de acordo com Feuerbach, temos o dever de reconhecer a positividade da religião, ela permite que o homem se compreenda e se conecte à sua sensibilidade. Nesse sentido a religião serve para a autoafirmação do gênero humano, mesmo que em outro ser (não-humano). Dessa forma, notamos o quão válida é a religião nesse sentido, desde que o homem saiba reconhecer os limites e sua independência para com esta.

6 A religião como subversão da essência humana:

Quando a religião passa a se tornar mais complexa, quando extrapola o seu sentido original de religar o homem à si mesmo e se transforma em doutrina (teologia), começaremos a perceber mais claramente os problemas das religiões. Aqui ela deixa de ser uma “proteção” às limitações humanas, deixa de ser um modo do homem conhecer o mundo e, ao mesmo tempo, conhecer a si mesmo e se transforma em uma máquina aglutinadora de crenças, dogmas e princípios que pressupõem a construção de verdades universais e indubitáveis; aqui ela deixa de ser “religião” e passa a ser “teologia”.

No caso da religião cristã, temos um deus totalmente em ato, onipresente, onipotente e onisciente. Infinito, imortal e ilimitado. Um deus persona que tem o poder de criar todas as coisas, inclusive o homem, produzido à sua “imagem e semelhança”. Nesse caso, temos um deus ativo e criador que doa sua imagem e características ao homem (porém em menos quantidades, visto que somos indivíduos finitos, limitados e mortais). Do ponto de vista da filosofia de Feuerbach, o que temos aqui é uma inversão da criação: se antes o homem criava seus deuses e empregavam características suas ou sentimentos humanos neles (mesmo que inconscientemente), já a teologia cristã promove um deus que transfere suas características ao homem.

Melhor dizendo: se antes o homem criava deus à sua imagem e semelhança, agora [com a teologia cristã] é o contrário. Feuerbach percebe algo problemático nessa inversão promovida pelo cristianismo, pois ela cria e eleva um ser inexistente (deus) ao mesmo tempo em que rebaixa o homem e por consequência transforma-os em opostos: 

Deus é o ser infinito; o homem o finito; deus é perfeito; o homem imperfeito; deus é eterno; o homem transitório; deus é plenipotente; o homem impotente; deus é santo; o homem pecador; deus e homem são extremos: deus é o unicamente positivo, cerne de todas as realidades; o homem é o unicamente negativo, o cerne de todas as nulidades. (FEUERBACH)

Pode-se perceber que a inversão do papel homem-deus tira (ou transfere) as virtudes essenciais humanas e as transporta para um ser imaginário e criado que nada mais é do que o próprio homem universalizado e abstraído de suas deficiências. A consequência negativa desse fato é que o cristão passa a negar sua própria humanidade, é como se ele se identificasse tanto com esse deus que sua maior pretensão agora é ser esse deus, ser infinito e para que isso aconteça, deve negar a sua própria humanidade, a própria materialidade.

A partir daí, tudo o que é “humano, demasiado humano” passa a ser praticamente abominado, tudo aquilo que é carnal e material passa a ocupar um nível inferior com relação ao que é celestial. O crente doutrinado passa a abominar o sexo e tudo o que está ligado à sexualidade, à sensualidade, ao corpo, etc.; passa a negar suas próprias necessidades físicas e psicológicas, em suma, passa a ser um asceta que se retira do mundo com fins de se tornar um santo cristão. Em poucas palavras: o cristianismo abomina tudo o que é finito, concreto e carnal.

A própria doutrina cristã cindirá o mundo em dois: de um lado o celestial perfeito e do outro o carnal imperfeito. Dessa forma, acabará por fazer o crente decidir por esse novo mundo imaginário, que será mais plausível a partir de artifícios ilusórios que tornarão seus adeptos mais distantes do mundo real. A própria fé cristã é um dos princípios que fundamentam a religião e um dos maiores exemplos de como se nega o mundo e a humanidade. Por conta da fé, o cristão reza, a oração é o pedido do impossível, é a crença no que não acontece naturalmente. A conclusão da oração é o milagre, e o milagre nada mais é que “um desejo sobrenatural realizado”.

O homem exclui de si o mundo e com ele todas as ideias da causalidade, dependência e da triste necessidade; ele transforma os seus desejos, os interesses do seu coração em objetos do ser independente, plenipotente e absoluto, i.e, ele os afirma ilimitadamente. (FEUERBACH)

O papel da fé é o de transportar o homem para fora das limitações do mundo e de si mesmo; através dela consegue-se extrapolar o que a própria racionalidade e o mundo negam.

A fé não se restringe à concepção de um mundo, de um universo, de uma necessidade. Para a fé existe apenas Deus, i.e., a subjetividade ilimitada. (FEUERBACH)

Mas por que se separar do mundo, se estamos dentro dele? Pela crença na “imortalidade pessoal”. Segundo a tradição, deus cria os homens para que sejam infinitos, o mundo em que vivemos é uma passagem, uma provação para sermos julgados e finalmente entrarmos no paraíso. Aqui se funda um dos maiores dogmas cristãos e por conseguinte um dos mais complexos; quem crê nesse princípio não precisará viver de fato nesse mundo, negará a própria natureza e a própria humanidade pois se sentirá aprisionado a elas e não parte delas.

A vida deste mundo é a vida obscura, incompreensível, que só se tornará clara no além; aqui eu sou um ser mascarado, complicado; lá cai a mascara: lá eu sou o que sou na verdade.

Portanto, o que se defende aqui é que o cristianismo além de criar uma moral forçada que o vê o bem como um meio (de chegar à vida eterna no paraíso) e não como um fim nega a essência propriamente humana, sufocando o homem com vistas a um ser imaginário. O mesmo caso acontece com a visão cristã de mundo: nega-se a natureza, pois esta está subordinada a um ser mais universal. É necessário dizermos que, como é patente, a ideologia cristã não se limita apenas a seus adeptos. A relevância da crítica a essa religião se dá justamente pelo fato de que a maioria de seus dogmas e crenças se naturalizaram e enraizaram no pensamento ocidental.

A ideia de um deus criador de todo o universo rebaixa a natureza para um status de criação e, sendo assim, fica subjugada à vontade divina. A própria natureza, o próprio mundo em que vivemos é um castigo divino (é para onde viemos quando Adão e Eva foram expulsos do Éden); diante disso, a natureza é uma escada para o paraíso, sua imperfeição representa uma provação. Ao mesmo tempo ela [a natureza] é um presente dado ao homem (a meta da criação divina), criada pela suma vontade de deus. Com a fé no milagre e através do poder de deus o homem consegue alterar suas leis [da natureza], seu funcionamento, destruí-la e recondicioná-la, pois ela não é um ser autônomo, tudo aqui depende do poder divino.

A própria Bíblia mostra casos como o episodio de “Jonas e a baleia”, “Abraão”, “a divisão do mar em dois por Moisés”, “a multiplicação do pão”, “a transformação da água em vinho”, “Jesus andando sobre as águas”, etc. A natureza para Feuerbach não pode ser explicada a partir da criação divina, pois não há logica em se gerar algo material a partir da arbitrariedade ou abstração. Portanto a natureza como tal, não é explicada por pensamentos, ela é em si mesma, e ainda, é a base da existência e de tudo que é racional. Para Feuerbach, a natureza é causa, incriada, base de toda a vida, não precisa de um deus ou mesmo do homem para existir, pois age por suas próprias leis, independente da vontade humana e/ou divina.

A natureza é, em primeira linha, uma verdade dada aos sentidos. Como objeto dos sentidos, ela não é um produto nem da atividade de um puro eu, do desenvolvimento do espirito, nem do ato arbitrário de um Deus fictício, sobrenatural mas pelo contrario, uma essência autônoma que existe independente da consciência humana [...] a natureza é incriada, eterna, não deduzível; ela é em si mesmo, existe apenas por si e não por meio de outra essência [...] a natureza é necessária. Porque ela é, é ela necessária, e exatamente assim como ela é, isto é, correspondendo às suas próprias leis. Se, a saber, tudo o que é, é necessariamente por meio da natureza, assim não tem sentido aceitar um espírito ou Deus criador que planeja para o esclarecimento da natureza e por fim, [...] a natureza corresponde apenas a si mesma. (CHAGAS)

Como se pode perceber, a natureza e a própria humanidade é rebaixada à criação e à vontade de um ser ilusório; o homem cristão não precisará depender da natureza (e nem de si próprio) pois agora depende única e exclusivamente da vontade do deus cristão e de sua fé.

O projeto da filosofia para o homem do futuro:

Quando lemos os escritos de Feuerbach, percebemos que a questão humana é um fio condutor em sua obra. Por isso, é raso limitar a filosofia feuerbachiana a um simples ateísmo. A intenção da filosofia do autor não é apenas a de acabar com a religião ou matar os deuses, há algo mais importante: a ascensão do homem. Uma das maiores propostas feuerbachianas é a de valorizar o gênero humano e conscientizar-nos das nossas potências e virtudes. A maioria das religiões e mais visivelmente o cristianismo deturpa a ideia de homem e inverte suas qualidades transferindo-as para outro ser.

Em contraposição a isto, a proposta de Feuerbach é inverter a inversão, fazer uma filosofia do homem, voltada para o próprio homem. Como consequência a isso dar-se-á a própria emancipação humana, que por mais penosa que possa ser, torna-se necessária.

 É melhor sofrer do que agir, é mais agradável ser libertado e redimido por um outro do que libertar-se a si mesmo, é mais agradável fazer depender a própria salvação de uma outra pessoa do que da força da própria atividade [...] é muito mais cômodo refletir-se nos olhos fulgurantes de amor de um outro ser pessoal do que no espelho oco do próprio Eu ou do que contemplar a fria profundidade do oceano tranquilo da natureza. (FEUERBACH)

Ou seja, apesar de ser mais fácil ser passivo ao mundo e às suas contradições, apesar de ser mais cômodo agarrar-se à outro ser, a independência e a liberdade são imprescindíveis. Só através do reconhecimento do homem como um ser livre de representações especulativas e metafisicas é que ele poderá valorizar seu próprio gênero e se reconhecer como parte da natureza e do mundo material. A partir disso, Feuerbach pensa como deve ser a “filosofia do futuro”:

A nova filosofia faz do homem, com a inclusão da natureza, enquanto base do homem, o objeto único, universal e supremo da filosofia faz, pois, da antropologia, com inclusão da fisiologia, a ciência universal.

E defende que a nova filosofia tem a tarefa:

de reconduzir a filosofia do reino das “almas penadas” para o reino das almas encarnadas, das almas vivas; de a fazer descer da beatitude de um pensamento divino e sem necessidades para a miséria humana. Para esse fim de nada mais precisa do que de um entendimento humano e de uma linguagem humana. (FEUERBACH)

Portanto, a nova filosofia funda-se no homem, tem por meta a vontade humana, porém de acordo com os limites e com base na natureza. Mas só podemos pensar nisso quando atingimos a totalidade da essência humana: a sensibilidade e a razão. Só nos interessa aqui o que é sensível e racional, sempre unidos. Para Feuerbach:

nova filosofia começa com a proposição: sou um ser real, um ser sensível; sim, o corpo na sua totalidade é o meu eu, a minha essência. [...] o filósofo novo pensa em consonância com os sentidos. (FEUERBACH)

E ainda: “A nova filosofia, relativamente à sua base, nada mais é do que a essência do sentimento elevada à consciência” (FEUERBACH). Dessa forma, não haverá aqui quimeras (ir)racionais, seres suprassensíveis e sobrenaturais; uma filosofia que se funda nos sentidos derruba, por princípio, todos os véus impostos ao pensamento e desvela o que se pode tomar por verdadeiro: o homem concreto, real, sensível, de necessidade, não o eu, não o espírito absoluto, isto é, abstrato, numa palavra, não a razão por si só [...] [a nova filosofia] apóia-se, sem dúvida , também na razão, mas na razão cuja essência é o ser humano; por conseguinte não numa razão sem ser, sem cor e sem nome, mas na razão impregnada com o sangue do homem.

É interessante notar que não se trata aqui apenas do “eu”, mas do “eu” em consonância com o “tu”; o homem só se realiza na comunidade e ainda, na natureza. A partir da emancipação humana, tem-se na natureza o reconhecimento da vida, só a natureza é capaz de gerar, de manter e de acabar com a vida; em suma, a natureza é cerne de toda a vida, sendo assim deve ser reconhecida e preservada como tal.

Portanto, fica claro como a religião deturpa o próprio significado de humanidade, sua origem baseada no medo e na dependência foram erros advindos da inocência e ingenuidade humana que se desenvolveram a níveis absurdos ao ponto de negar o que há de mais próprio na humanidade, tirando suas virtudes e criando seres sobrenaturais. Feuerbach admite que é próprio da essência humana ter religião, esse é o primeiro contato que o homem tem consigo mesmo, porém é papel da filosofia conscientizar que o que se chama de deus, deve ser chamado de homem.

Dessa forma, não se trata somente de destruir a religião e tudo o que a envolve, mas de construir uma vida voltada ao próprio gênero humano, às próprias relações sociais, ao reconhecimento de si mesmo e do outro como semelhante, em suma, uma vida pautada na humanidade com sua base voltada à natureza. O reconhecimento da imperfeição do mundo e da naturalidade da finitude trará o homem de volta ao próprio mundo, fará com que ele viva essa vida, supere qualquer ilusão de um além. Essa tarefa proposta por Feuerbach é um desafio a todos os filósofos e homens do futuro.