Ética e Cultura
Filosofia e Ética
1 ÉTICA, CULTURA E CRISE ÉTICA DE NOSSOS DIAS:
ÉTHOS, ÉTICA E CULTURA:
Na Grécia Antiga, muito antes de Aristóteles estruturar filosoficamente a Ética como uma verdadeira “Ciência do éthos”, havia uma ética tradicional, narrada e divulgada nos versos épicos de Homero, o educador da Grécia. Esses poemas enalteciam o heroísmo de Aquiles, a sabedoria de Nestor, a coragem e a audácia de Ulisses, a fidelidade de Penélope e deles faziam verdadeiros modelos paradigmáticos de conduta ética, que o povo grego procurava imitar. O mesmo poder-se-ia dizer das lições de vida e de sabedoria que emanavam das máximas dos Sete Sábios da Grécia, dentre as quais eu destacaria aquela que afirma: “ótima é a medida ”, e as que exortam: “não desejes o impossível” e “não enriqueças de modo desonesto”. Estas máximas éticas fazem parte do patrimônio da sabedoria tradicional do povo helênico. Depois, elas foram transformadas em uma verdadeira ciência da ética, quando foram articuladas aos princípios metafísicos, nos quais encontraram o segredo da validade de suas exortações. Mas, vejamos primeiro o que os gregos entendiam pelo termo éthos, pois é nele que a palavra Ética tem sua raiz etimológica.
Etimologicamente, a palavra grega “éthos” tem uma polissemia muito significativa. Quando escrito com a letra “ε” (épsilon), ela significa “costume”, vale dizer, aquela “disposição interior”, que leva o indivíduo, com uma certa constância do agir, a compartilhar da comunidade social a que pertence. Porque desprovido da necessidade e do determinismo natural que regem o mundo da Physis, vale dizer, o mundo da Natureza e garantem a sua ordem, o ser humano precisa de uma certa “constância no agir” para conseguir um estilo de vida harmonioso com seus companheiros de existência e para não se perder nos labirintos criados pela sua própria liberdade. Esta “constância no agir”, significada pelo ethos-costume, justificava, para os gregos, a analogia entre a ordem cósmica do universo e a ordem ética do agir humano.
Uma forma mais acabada deste éthos-costume é aquela expressa pelo “hábito”, que os gregos designavam com a palavra “héxis ” e que traduzia a maneira regular e constante de agir, que só era capaz de possuir, aquele que tinha um certo domínio de si e de seus atos. Olhado, desse modo, o éthos, seja na dimensão do “costume”, seja na dimensão do “hábito”, cria um espaço para a realização individual e social do ser humano.Na constância do costume, as ações, na medida em que são repetidas, formam os hábitos, e, desse modo, orientam o ser humano para a conquista dos bens e dos valores, com os quais pode dar sentido à sua vida..
O conceito grego de virtude (αρετη):
Na Grécia Antiga, o conceito de virtude (areté) tinha um valor todo especial. Primeiramente, o homem virtuoso era um homem “kósmios”, vale dizer, um homem sintonizado com a harmonia da ordem cósmica. O seu oposto era o homem “hybristhos”, isto é, o homem transgressor da medida e escravo da desmedida, em total oposição à noção de medida (métron), na qual Aristóteles via a essência da
virtude. Dizendo que a virtude era sempre o meio termo entre dois excessos, Aristóteles não estava fazendo a apologia da mediocridade, mas o elogio do equilíbrio capaz de harmonizar, no seu modo de agir, as tendências contrárias e contraditórias da natureza humana. Assim sendo, o homem corajoso é aquele que consegue equilibrar, em uma conduta sensata e virtuosa, a pusilanimidade do medroso e a audácia do imprudente. O homem verdadeiramente corajoso é aquele que, apesar de sentir medo, não deixa de enfrentar o perigo, não de qualquer modo, mas de um modo sensato e racional. Este o segredo e esta a grandeza daquilo que os gregos chamavam a virtude da coragem.
Para eles, pois, a virtude revelava a excelência no modo de ser e de agir dos homens. Virtuoso era o homem que fazia, de modo excelente, o que precisava ser feito, fosse ele o general planejando suas batalhas, ou o simples e humilde sapateiro fabricando seus sapatos. Dando uma certa constância ao agir, o éthos-costume, aperfeiçoado pelo hábito, proporciona ao homem, desprovido de um modo de agir pré-determinado pela natureza, a condição de se tornar “responsável” pelos seus atos e o introduz, assim, no mundo da liberdade e da responsabilidade.
Mas o termo ethos, quando escrito com a letra “η” (eta), tem também um outro sentido igualmente muito significativo. Ele quer dizer “morada”. Para não se perder no ilimitado do espaço que o circunda e envolve, o ser humano precisa construir uma morada, na qual possa proteger-se tanto contra as intempéries da natureza, quanto contra as ameaças e hostilidades do meio ambiente e dos outros homens com os quais partilha a aventura do existir. Construir uma morada torna-se, assim, para o ser humano, uma sugestiva metáfora da tarefa existencial que o define e constitui como um ser-no-mundo. Com efeito, a vida não lhe foi dada realizada ou feita, mas, sim, como uma tarefa a ser feita, ou como uma missão a ser realizada e cumprida. Se o ser humano, na sua essência, ou seja naquilo que define a sua natureza, recebeu a dádiva da sua natureza humana, sem que dela tivesse podido fazer uma verdadeira escolha; a existência, ou seja, a história de sua vida é de sua inteira responsabilidade.
Cada um de nós será aquilo que fizer de sua existência e a história de nossas vidas será aquela que cada um de nós escrever na trajetória de sua existência. Já se disse que o animal, quando entra no mundo, não precisa construir uma casa, porque “sua casa é o Cosmos”. 4 Seu aparato instintivo participa da lei universal que rege o maravilhoso poema do acontecer cósmico, o qual se manifesta no balé dos astros e na dança do tempo que rege a sucessão dos dias e das noites, bem como a mudança dos cenários, nos quais é representado o espetáculo das estações do ano, vale dizer, a beleza da primavera com suas flores, a do verão com a claridade transparente de seus dias, a tristeza do cair das folhas mortas que se desprendem das árvores, e, finalmente, o inverno com o silêncio limpo de seus campos cobertos de neve.
Mas o homem, este deve construir uma morada e esta é, sobretudo, o lugar da intimidade e do repouso, o lugar onde ele restaura as energias perdidas nas lutas do dia a dia.. Se levarmos em consideração a precocidade biológica da criancinha recém-nascida e o seu conseqüente estado de desamparo, pois ao nascer ela é o mais desamparado de todos os animais e se encontra na total impossibilidade de poder ajudar-se a si mesma, compreender-se-á que a psicanálise tenha feito da fantasia do retorno ao útero materno, uma das “fantasias originárias”(Urphantasien como as chamava Freud), que estão na base da estruturação e da organização de toda a nossa vida fantasmática, particularmente quando nos colocamos diante dos grandes enigmas da existência humana.
O homem, cada noite, retorna temporariamente ao aconchego desta ”morada originária”, quando dorme e sonha. De fato, o sono é, provavelmente, o protótipo mais expressivo do útero, que todas as noites novamente nos acolhe. E esta volta ao aconchego do silencioso útero da mãe-noite, nos faz viver, em todo amanhecer, a poesia de um verdadeiro renascer. O ethos-morada é também um símbolo da realidade do mundo em que o homem se situa como um ser-no-mundo, estruturalmente constituído pelas categorias do corpo, da realidade psíquica e da realidade espiritual. Constituído pelo corpo, o homem não apenas tem um corpo como os demais animais, mas é o seu corpo. Pela sua mediação, ele se exterioriza e se situa no mundo como uma realidade dada, como um “ente” entre os demais. Todavia, pela sua estrutura psíquica, ele interioriza o mundo, no qual foi exteriorizado pelo corpo, e, mediante seus desejos, fantasias, conceitos e representações, torna o mundo uma realidade significada, construindo assim a realidade de seu mundo interior
Na passagem do mundo exterior das coisas materiais – o mundo da natureza - para a realidade significada que é o mundo da cultura, abre-se o espaço, no qual vão se inscrever as normas, os ideais e o tesouro de inúmeras formas simbólicas, tais como: o saber, a arte, a religião, a ciência, a técnica, formas simbólicas estas que tornam o mundo-morada do homem um mundo habitável. Resumindo, o homem é o único animal que cria seu mundo-morada como um universo simbólico de normas e de ideais, e isto é justamente o que eu entendo por cultura.
Portanto, a dupla significação da palavra ethos, vale dizer, o éthos-costume e o éthos-morada, abre um espaço, no qual o ser humano, para tornar seu mundo mais habitável, cria as formas simbólicas, através das quais as “coisas materiais”, ou as realidades da natureza, são integradas ao sistema simbólico da cultura. A realidade material (res) transforma-se, então, em uma verdadeira “obra” cultural (opus). E quando as coisas da natureza transformam-se em obras humanas, a Natureza se faz Cultura, da qual o homem é, ao mesmo tempo, a causa e o efeito. Causa porque é ele quem transforma a Natureza em Cultura, e, ao mesmo tempo, efeito, porque todo homem é homem de seu tempo e traz as marcas da cultura em que se insere e da qual recebe as influências.
Pois bem, na medida em que o homem, como criador de símbolos, revela o significado dos objetos materiais que transforma em objetos de cultura, ele diz, ao mesmo tempo, o que esses objetos são, o que significam e o que devem-ser para atingir sua finalidade no mundo simbólico da cultura. Neste mundo, o indivíduo não encontra apenas o que precisa para sua sobrevivência, mas também descobre um sistema de normas e de valores de que precisa para sua realização, tanto individual quanto comunitária. Por isso, o éthos é co-extensivo à cultura e a cultura, por sua vez, adquire uma dimensão axiológica, vale dizer, uma dimensão ética e valorativa, que é constitutiva daquilo que a define como cultura. Esta a razão pela qual se diz que não existe cultura sem ética, da mesma forma que não pode existir ética sem cultura.
Na Grécia antiga, o que possibilitou a passagem da ética tradicional, regida pelo respeito tradicional dos mitos e dos ritos sagrados, para a Ciência da Ética, regida pela “razão”, foi o trabalho de Sócrates, quando relacionou as máximas éticas tradicionais a uma visão mais profunda da psyché humana, vendo, nela, o princípio fundamental do ser e do agir do homem. Se na Grécia Antiga, os homens não se sentiam responsáveis pelos seus próprios atos, porque viviam inteiramente submissos aos caprichos e ao destino estabelecido pelos deuses, com Sócrates, o homem passou a ter uma outra concepção de si e foi no interior de sua alma, que ele foi buscar as razões do seu viver. Para Sócrates, o importante, na vida, não era apenas o fato de viver, mas as razões pelas quais o homem vive. Daí porque todo seu filosofar teve como objetivo cuidar da alma dos homens seus concidadãos, a fim de torná-los melhores. Platão afirma que foi o deus Apolo quem confiou a Sócrates esta missão, fazendo dele um terapeuta da alma humana. Integrando à sua filosofia o “conhece-te a ti mesmo” do Oráculo de Delfos, ele preparou o terreno para Platão e Aristóteles estruturarem depois as bases metafísicas da ciência e da consciência ética.
Não seria este o momento oportuno para analisar como nasceu, desenvolveu-se e se estruturou a ciência da ética na tradição socrático-platônica e na tradição aristotélica. Direi apenas como a Ética, regida pela Razão prática, surgiu nas origens da cultura ocidental, dando início ao ciclo civilizatório no qual ainda hoje nos movemos.
A Razão Prática:
O Lógos , ou a Razão, que substituiu o mito na explicação filosófica da ordem da Natureza, tornou-se também a Razão que rege e orienta a conduta dos homens. Se, como vimos, o éthos-costume já sustentava uma certa “constância no agir”, isto era feito precisamente porque o homem podia ser dirigido no seu agir pelos ditames de sua Razão. A Razão, que dirige o agir ético, é a Razão prática, que Aristóteles distinguiu tanto da razão teórica, destinada à representação dos conceitos e à contemplação da verdade, quanto da razão poiética, ou técnica, destinada a dirigir o trabalho produtivo do homem no campo do fazer. A razão teórica dirige o pensar, a razão prática o agir e a razão técnica o fazer do homem como ser no mundo. Enquanto a razão técnica destina-se ao aperfeiçoamento dos objetos, que o homem trabalha para transformá-los em obras humanas e inseri-las no universo simbólico da cultura, a finalidade da razão prática é o autoaperfeiçoamento do ser humano, mediante a consecução dos bens e dos valores, desde os materiais até os espirituais, nos quais se escondem as razões do viver e o sentido da vida.
Para os gregos, a Razão prática tinha uma abertura metafísica para o horizonte universal do Bem, e isto fundamentava a prática ética no princípio ontológico que assim se enunciava: o Bem deve ser feito − Bonum est faciendum. Daí eles concluíam que há um dever-ser que é imanente à prática ética, que dá ao éthos uma valoração universal, a qual antecede e transcende a particularidade dos costumes das diversas culturas humanas em que ele se manifesta. Em qualquer que seja a cultura, quaisquer que sejam seus costumes e hábitos, por mais diferentes que estes possam ser nos diferentes povos em que vigoram, esses hábitos e costumes só serão dignos de uma cultura verdadeiramente humana, se forem dirigidos por este princípio ontológico da prática ética: Bonum est faciendum, vale dizer, o bem deve ser feito. Quando não perde de vista esta dimensão universal, o éthos ao se inscrever na particularidade das diversas culturas, ao invés de se fragmentar em valores particulares regidos unicamente pelos caprichos e interesses dos indivíduos, ele “suprassume” (no sentido da Aufhebung hegeliana), na sua particularidade cultural, o valor de seus princípios universais e temos, assim, a constituição do sujeito ético, que, embora seja particular na medida em que é inserido em uma cultura particular, nem por isso deixa de ser um sujeito de direitos e de deveres universais
Nesta tendência ontológica da Razão prática para o Bem, estaria, pois, o segredo do valor ético universal da conduta humana, que embora perca esta universalidade ao se particularizar na variedade das diversas culturas, é ao mesmo tempo conservado, quando, no dinamismo de seu movimento dialético, “suprassume” (para continuar falando como Hegel) na singularidade do sujeito ético, tanto a particularidade da cultura em que se insere, quanto a universalidade de seus princípios. Isso concretamente significa que as leis mudam e devem mudar através da História e os costumes, eles também, mudam e devem mudar nas diversas culturas e nas diversas épocas do devir histórico; mas, se as novas leis e os novos costumes deixarem de procurar o Bem da comunidade humana, a ética entrará em crise por maior que seja o progresso sócio-econômico das culturas particulares.
Para Aristóteles, o homem é essencialmente não só um animal racional, mas também um animal político (Zóon politikón). Isto quer dizer que, para os gregos, os homens não podiam encontrar uma verdadeira auto-realização sem levar em consideração o bem estar da pólis ou da comunidade política a que pertenciam. Político era o homem que primordialmente pensava nos interesses e no bem da comunidade a que pertencia! Não obstante tudo isso, a Grécia do século V a.C viveu, ela também, uma crise ética, que tem muitos traços semelhantes à crise ética que estamos vivendo atualmente. 5 É esta crise ética de nossos dias, suas causas e conseqüências que passarei a analisar, em seguida, na segunda parte deste ensaio.