Durante as observações constatou-se que os alunos só queriam pintar desenhos prontos, reclamando constantemente que não sabiam desenhar. Dessa forma, procurando interferir nesta realidade e trabalhar a Arte no contexto dos educandos, a prática de estágio iniciou-se com a proposta dos alunos desenharem por meio de observação seu sapato. Inicialmente solicitou-se que fechassem os olhos e desenhassem a partir da observação realizada. Na seqüência, pediu-se para que, de olhos abertos, desenhassem o mesmo objeto e depois de prontos, que comparassem os dois desenhos.
A partir desta atividade, os educandos perceberam que cada um desenha de uma determinada maneira e ficaram satisfeitos com o resultado de sua produção. De acordo com Buoro, a satisfação dos alunos com o resultado obtido é muito importante e levá-los a observar os objetos reais propiciou a percepção de que cada um fez um desenho diferente, não só porque o ponto de vista era diferente, mas porque cada um tem uma forma própria de desenhar. Esta atividade teve por objetivos estimular a percepção visual, bem como propiciar a comparação, a observação e a capacidade de abstração dos educandos.
De acordo com Buoro, a Arte contribui para o desenvolvimento dessas capacidades, tão importantes para a aprendizagem da criança. [...] a arte é uma forma de o homem entender o contexto ao seu redor e relacionar-se com ele. O conhecimento do meio é básico para a sobrevivência, e representá-lo faz parte do próprio processo pelo qual o ser humano amplia seu saber. Esse processo de conhecimento pressupõe o desenvolvimento de capacidades de abstração da mente, tais como identificar, selecionar, classificar, analisar, sintetizar e generalizar. Tais habilidades são ativadas por uma necessidade intelectual existente na própria organização humana.
Ainda considerando a importância da Arte para o desenvolvimento dos alunos, realizou-se a atividade de releitura da obra de arte “Feira”, de Tarsila do Amaral, com o objetivo de estimular a criatividade e desenvolver um olhar crítico dos educandos. Inicialmente pediu-se para que os alunos observassem a obra, depois descrevessem o que haviam visualizado. Após a descrição, foram informados sobre a biografia da artista e na sequência realizou-se a discussão sobre os elementos da linguagem plástica. Em seguida, foram estimulados a produzir uma releitura da obra observada.
Ao término da atividade, percebeu-se que as discussões permitiram que as crianças refletissem sobre o conteúdo trabalhado. Isso ficou evidente no trabalho realizado a partir da releitura, pois as crianças enfatizaram em suas produções os artigos que eram vendidos na feira e no supermercado de seu bairro, por meio dos conhecimentos da linguagem plástica aprendidos anteriormente, o que demonstrou a ampliação de seu conhecimento de mundo. A partir dos trabalhos realizados, iniciou-se uma conversa sobre a feira do produtor realizada no bairro semanalmente, discutindo sobre os produtos vendidos e seus preços.
Discutiu-se também sobre os artigos vendidos em supermercados e a importância de comparar os preços no momento da compra. De acordo com Ruiz e Bellini, a Matemática está presente no dia-a-dia, como na data de nascimento, na idade, na hora, no dia, no mês, no ano, no salário, na temperatura, nos preços dos produtos da feira, no supermercado, no telefone; enfim, onde houver número a matemática está presente.
Dessa forma, pediu-se para que as crianças fizessem com ajuda dos pais, uma pesquisa do custo de alguns produtos encontrados nos supermercados, evidenciando a presença da matemática em seu cotidiano. Os resultados obtidos nesta atividade foram bastante positivos, pois todas as crianças participaram expondo os preços pesquisados e que deveriam ser colocados nos produtos. No momento da soma, os alunos ficaram entusiasmados em expor os resultados obtidos, demonstrando eficiência e rapidez na resolução da atividade proposta, confirmando assim, o exposto por Ruiz e Bellini:
A matemática possibilita o desenvolvimento das faculdades intelectuais por meio do pensamento lógico e do raciocínio, além de capacitar para a resolução de problemas de ordem prática, com eficiência e rapidez. É uma ciência exata que estuda números, operações, espaço, formas, medidas, estatística e que pode desenvolver conhecimento e a capacidade de raciocínio.
Ainda trabalhando com o mesmo tema, realizou-se a brincadeira feira do produtor. As crianças foram divididas em grupos de vendedores e compradores dos produtos da feira, determinando-se como regra que umas inicialmente seriam os vendedores e depois seriam os compradores. Os resultados obtidos durante a brincadeira foram positivos, uma vez que, as crianças por meio dessa atividade perceberam que a Matemática está presente em seu cotidiano, sendo estimuladas em sua capacidade de percepção, memorização e socialização, vivenciando por meio da brincadeira, situações de sua vida diária.
Vygostky evidencia que é através de uma situação imaginária que a criança desenvolve o pensamento abstrato, bem como que é no final do desenvolvimento da pré-escola que surgem as regras e quanto mais rígidas elas são, maior será a exigência de atenção da criança, maior a regulação da atividade dela, assim mais tenso e agudo torna-se o brinquedo. Com bases na discussão de Vygostky, percebe-se a importância que as brincadeiras e os jogos com regras possuem para o desenvolvimento da criança.
Nesta perspectiva Galvão afirma que ao brincarem ou jogarem as crianças, “precisam interagir com ‘alimento cultural’, isto é, linguagem e conhecimento”, bem como que o ritmo pelo qual estas se desenvolvem nunca ocorre de forma linear, ou seja, o desenvolvimento da criança é sempre marcado por rupturas, retrocessos e reviravoltas. Tendo por base a contribuição dos jogos e brincadeiras para o processo de alfabetização e letramento, pretendeu-se durante toda a prática de estágio trabalhar com atividades lúdicas que auxiliassem as crianças a inserirem-se no mundo letrado e na aquisição do código da língua escrita, uma vez que, segundo Soares, o letramento é a participação das crianças em experiências variadas com a leitura e a escrita. É o conhecimento e interação com diferentes tipos e gêneros textuais de material escrito, ou seja, o indivíduo letrado é aquele que já conhece a função social que esta exerce.
Assim, com o intuito de trabalhar o processo de alfabetização de forma associada ao processo de letramento, continuando as discussões promovidas a partir do trabalho com a obra “Feira”, foram realizadas algumas atividades com o objetivo de desenvolver o processo de alfabetização e letramento. Segundo Soares, a alfabetização é a consciência fonológica e fonêmica, é a habilidade de codificação e decodificação da língua escrita, ou seja, a alfabetização é o processo de aquisição do código da escrita.
Nesse sentido, durante o momento das atividades de leitura e de escrita, foi possível perceber que a maioria das crianças já estavam alfabetizadas, uma vez que, participaram falando a ordem alfabética e as letras necessárias para a escrita correta das palavras. Essas atividades possibilitaram trabalhar a alfabetização e letramento de forma indissociável, permitindo uma aprendizagem significativa e contextualizada com a realidade das crianças, pois de acordo com Soares.
Dissociar alfabetização e letramento é um equívoco porque, no quadro das atuais concepções psicológicas, linguísticas e psicolinguísticas de leitura e escrita, a entrada da criança (e também do adulto analfabeto) no mundo da escrita ocorre simultaneamente por esses dois processos: pela aquisição do sistema convencional de escrita a alfabetização e pelo desenvolvimento de habilidades de uso desse sistema em atividades de leitura e escrita, nas práticas sociais que envolvem a língua escrita o letramento. Não são processos independentes, mas interdependentes, e indissociáveis [...].
Foi no sentido de trabalhar a alfabetização e o letramento associados à disciplina de Matemática, bem como de propiciar o desenvolvimento das noções de quantidade por meio de jogos e brincadeiras, que se viu a importância de propor atividades, como a de confeccionar o jogo de dominó de caixas de leite e deixar com que as crianças jogassem após terem sido enfatizadas as regras, uma vez que, segundo Leontiev, os jogos contribuem para o desenvolvimento cognitivo da criança principalmente quando eles envolvem regras, pois:
[...] traços extremamente importantes de personalidade da criança são desenvolvidos durante tais jogos e sobretudo, sua habilidade em se submeter a uma regra, mesmo quando um estímulo direto a impele a fazer algo muito diferente. [...] Dominar as regras significa dominar seu próprio comportamento, aprendendo a controlá-lo aprendendo a subordiná-lo a um propósito definido.
Durante a realização do jogo de dominó, percebeu-se o quanto são importantes os jogos e as brincadeiras, para a socialização, o respeito às regras, bem como no processo deaprendizagem, pois as crianças aprenderam brincando conteúdos das áreas de Língua Portuguesa, Arte e Matemática, de forma interligada e contextualizada.
Partindo da premissa que a geometria desenvolve nos alunos habilidades importantes e necessárias para o processo de alfabetização e letramento, foram realizadas atividades com o objetivo de possibilitar o desenvolvimento do raciocínio geométrico, pois de acordo com Souza, “O pensar geométrico é o conjunto de algumas habilidades de pensamento que podem ser desenvolvidas desde que trabalhadas sistematicamente”.
Esse trabalho dirigido exige que o aluno tenha oportunidade de perceber as formas geométricas, representar as figuras geométricas, construindo-as e concebendo-as por meio da criação de objetos e formas. Ainda com o objetivo de desenvolver o raciocínio geométrico, trabalhou-se com o jogo de quebra-cabeça Tangram, visto que segundo Souza, o Tangram ajuda a desenvolver os conceitos das figuras geométricas, bem como ajuda a estabelecer regras que não podem ser quebradas, uma vez que, “as regras desse jogo consistem em usar as sete peças em qualquer montagem, colocando-as lado a lado sem sobreposição".
O quebra-cabeça pode ser utilizado como apoio lúdico, pelo fato de oferecer àquele que brinca um envolvente desafio. De acordo com os autores, o Tangram está sendo bastante utilizado nas aulas de Matemática, pelo motivo das formas geométricas que o compõem permitirem que os professores explorem o material de diversas maneiras. Ele pode ser utilizado como apoio ao trabalho de alguns conteúdos específicos, ou como forma de propiciar o desenvolvimento de diversas habilidades mentais, possibilitando ainda, a conexão entre as áreas de conhecimento da Matemática, da Arte e da Língua Portuguesa.
Foi, então, no sentido de trabalhar de forma interdisciplinar, que iniciou-se as atividades utilizando o Tangram. Assim, após ouvirem a lenda do referido jogo, os alunos manusearam suas peças, montaram figuras e na sequência produziram um texto. Segundo Cagliari é importante incentivar as crianças na produção de textos espontâneos, pois:
Quando as crianças se põem a redigir textos espontâneos, mesmo que não saibam quase nada sobre o funcionamento do sistema da escrita, e, menos ainda, a respeito da ortografia das palavras, nota-se que escrevem com uma grafia muito idiossincrática (individual). Apesar disso, os textos têm um certo sabor interessante e, do ponto de vista do valor, são no mínimo razoáveis.
Assim, durante a atividade desenvolvida, percebeu-se que algumas crianças tiveram dificuldades em montar as figuras propostas e produzir o texto, mas de modo geral, tiveram produções textuais bastante significativas, bem como diferentes tentativas de montagem utilizando o jogo do Tangram. Nesse sentido, diversas brincadeiras foram realizadas, com o objetivo de propiciar o desenvolvimento das habilidades psicomotoras, estimulando a agilidade e a coordenação dos movimentos.
Para Fonseca a psicomotricidade é uma técnica que pelo recurso ao corpo e ao movimento, se dirige ao ser humano na sua totalidade, no qual visa à fluidez do corpo no envolvimento. O seu fim é permitir melhor integração e melhor investimento da corporalidade, maior capacidade de situar-se no espaço, no tempo e no mundo dos objetos, facilitando e promovendo melhor harmonização na relação com o outro, ou seja, para o autor a psicomotricidade é uma forma de incluir métodos expressivos e de relaxamento às atividades lúdicas. Diante do exposto, os resultados obtidos com a realização das brincadeiras foram positivos, pois conseguiu-se trabalhar a psicomotricidade com todas as crianças, que entenderam a proposta da atividade e se exercitaram bastante.
Por meio do desenvolvimento do projeto, pode-se verificar que os jogos e brincadeiras possibilitam grandes contribuições para o desenvolvimento da criança no processo de alfabetização e letramento. Segundo Brasil, existem inúmeras possibilidades de incorporar a ludicidade na aprendizagem, mas para que uma atividade pedagógica seja lúdica, é importante que se permita a fruição, a decisão, a escolha, as descobertas, as perguntas e as soluções por parte das crianças, pois do contrário será compreendida apenas como mais um exercício.
No processo de alfabetização, por exemplo, jogos de rima, lotos com palavras, jogos de memória, palavras cruzadas, entre outras atividades, constituem formas interessantes de se aprender brincando. Desse modo, considerou-se importante aliar a ludicidade durante as práticas, por potencializar-se as possibilidades de aprender ao prazer das crianças no processo de conhecer. A prática realizada permitiu a constatação da importância do professor como mediador no processo de ensino e aprendizagem.
A partir das atividades realizadas foi possível propiciar às crianças o conhecimento dos conteúdos da Língua Portuguesa, de Arte e de Matemática, articulados a ludicidade proporcionada pelos jogos e brincadeiras. Percebeu-se que o brincar e o jogar constituem-se como importantes fontes de desenvolvimento e aprendizagem, possibilitando ao aluno apropriar-se de conhecimentos e habilidades no âmbito da linguagem, da cognição, dos valores e da sociabilidade.
Ou seja, é no brincar e no jogar que as crianças vão se constituindo como agentes de sua experiência social, organizando com autonomia suas ações e interações, elaborando planos e formas de ações conjuntas, criando regras de convivência social e de participação.