Os resultados são descritos a seguir por categorias de análise, apresentando-se dados sócio-demográficos da amostra estudada e, posteriormente, uma descrição da percepção do idoso sobre qualidade de vida.
Caracterização da Amostra Estudada
Julgamos pertinente uma descrição mais detalhada da amostra de idosos estudada, pois oferece vários vértices de discussão e não somente uma descrição metodológica de explicação da amostra estudada. Nas tabelas a seguir serão apresentadas características como Faixa Etária, Sexo, Estado Civil e Cor da amostra estudada.
Na tabela 1, observa-se que dos 30 idosos estudados, dez (33,3%) são do sexo masculino e 20 (66,7%) do sexo feminino. Conforme explicado anteriormente, a seleção destas pessoas foi por “conveniência”, ou seja, referindo-se apenas às pessoas que se dispuseram a participar do estudo. Neste processo tivemos um número maior de mulheres a se disporem a participar do que a de homens; muito embora, o número de mulheres frequentadoras do Centro de Referência do Idoso – CRI, é seguramente maior do que a de homens. Estes dados também nos remetem àqueles observados nos últimos censos. Segundo dados do censo de 2000, as mulheres correspondiam a 55,1% da população idosa, o que significa que, para cada 100 mulheres há 81 homens idosos; essa diferença é explicada pelo fenômeno mundial da maior expectativa de vida nas mulheres, que em média vivem oito anos a mais que os homens (IBGE, 2002). Outra fonte importante são os dados da pesquisa Sabe que apontam para uma estrutura etária de mulheres mais envelhecidas do que homens, pois uma em cada quatro mulheres tem 75 anos ou mais, enquanto que entre os homens essa proporção é de um para cinco. Dessa forma, pode-se dizer que a velhice é feminina, pois a maior longevidade da mulher acarreta nesse diferencial na composição por sexo (LEBRÃO; DUARTE, 2003).
Em termos sociais, as implicações da feminização tornam-se evidentes. Segundo Camarano (2002 apud IBGE, 2002), grande parte das mulheres são viúvas, vivem sozinhas, não possuem experiência de trabalho no mercado informal e são menos educadas. No entanto, Debert (1999 apud IBGE, 2002) vê de forma otimista a condição atual das mulheres idosas, pois tanto a velhice quanto a viuvez podem representar uma certa independência ou mesmo uma forma de realização.
Em relação à cor, quando perguntados, 73,3% dos idosos disseram ser brancos, 10% negros e pardos e 6,7% amarelos. Sobre esses dados “cor da pele”, eles coincidem com a população geral pois, segundo informações do
último censo demográfico de 2000, o Brasil possuía uma população de 170 milhões de habitantes, dos quais 53,7% se classificaram como brancos, seguido por pardos (38,4%), pretos (6,2%) e amarelos (0,4%) (IBGE, 2002).
Nas categorias referentes ao “estado civil”, os casados representaram 50% dos idosos estudados. Os homens casados são maioria (80%) e 35% das mulheres apresentaram este estado civil. Os viúvos perfazem 30% da amostra, sendo que a maior incidência de viuvez (35%) está entre as mulheres. Entretanto, ao somarmos o número de pessoas em condição civil “sem parceiro” (viúvos, solteiros e divorciados) verificamos que a outra metade (50%) se encontra nessa condição, sendo 65% entre as mulheres e 20% entre os homens.
Estes dados trazem indicativos de que os idosos frequentadores do CRI
– Centro de Referência do Idoso, buscam esta referência independente da sua condição civil. Mais interessante ainda é observar que estes idosos (50%), mesmo casados, buscam frequentar o CRI, fato que indica que o estereótipo de que o idoso sozinho ou sem companhia é aquela que busca centros de referência de lazer para idosos.
Quanto à categoria “escolaridade” observa-se que a maioria (66,7%) apresenta escolaridade baixa (Ensino Fundamental Incompleto), seguindo-se do Ensino Fundamental e Médio, ambos com 16,7%. Todavia, ao somarmos o total do que chamamos de baixa escolaridade, verificamos que este perfaz um total de 83,4%.
Historicamente, e já amplamente difundido entre nós, está o fato de que nas décadas de 1930 até 1950, o Ensino Médio (Escola Normal e outros cursos) era restrito aos segmentos sociais mais privilegiados. Dessa forma, a baixa escolaridade média dessa população idosa parece ser ainda conseqüência dessa época.
Também podemos entender que estes dados remetem a Neri (2000), quando destaca que as pessoas nascidas entre 1900 e 1929 não tiveram facilidade para ingressar no sistema educacional, sendo que da população total, entre 58% e 64% ultrapassaram a idade madura sem terem sido alfabetizados; entre 20 e 23% terminaram o primeiro grau; entre 4,8 e 6%, o segundo grau e apenas 1,1% concluiu o curso superior, sendo que a maioria entrou no mercado produtivo pelo setor agrícola. Entre os idosos da amostra, os dados parecem refletir as condições da qual vivenciaram em épocas remotas.
Também é interessante observar que, de acordo com o censo de 2000 (IBGE, 2002), os níveis de alfabetização entre homens e mulheres é diferenciado. Os homens (67,7%) são mais alfabetizados que as mulheres (62,6%). Uma explicação para essa diferença seria a de que até o ano de 1960 os homens tinham mais acesso à escola do que as mulheres, as quais eram quase que exclusivamente dedicadas ao lar. A força de trabalho feminino é que irá determinar um mais elevado nível de escolaridade, exigido pela competitividade da mão de obra, movimento que em nosso país se deu após 1960.
Outro aspecto relevante em relação à escolaridade de idosos é apresentado pelos dados levantados pelo Sabe (LEBRÃO; DUARTE, 2003), quando aponta que em Cuba mais de 50% da população idosa possui a mais alta educação, enquanto no Brasil, nossos idosos, independente de idade e sexo, possuem menos de 20% nessas condições.
Como se pode verificar pela tabela 5, a grande maioria dos idosos desta amostra cohabitam com seus esposos(as) ou com outros membros da família. Os idosos que vivem sozinhos representam uma pequena parcela da amostra, ou seja, 16,7%. Observa-se ainda que os idosos que residem sozinhos são mulheres.
Vale ressaltar que entre as viúvas (tabela 3), apenas 28,6% delas vivem sozinhas, sendo que a grande maioria (71,4%) vive com seus familiares.
Também é interessante associarmos esses dados com os da tabela 3, a qual mostra que o número de pessoas em condição civil “sem parceiro” (viúvos, solteiros e divorciados) representa 65% de mulheres e 20% de homens. Verifica-se então que estes estão sem parceiro, mas não são necessariamente pessoas solitárias, já que vivem na companhia de outras pessoas. De modo que, a grande maioria da amostra de idosos estudados não são aqueles considerados “solitários”. O sentimento de solidão também parece ser evitado, ou não presente entre estes sujeitos, pois os mesmos freqüentam o CRI – instituição que provavelmente amplia ou ativa a rede social destes sujeitos. Ramos (1992 apud Cerqueira e Oliveira, 2002) também indica dados similares aos encontrados em nosso estudo; dados que apontam que 12% de pessoas idosas vivem sozinhas e 32% vivem em casas com uma geração (freqüentemente casais); 28% vivem em casas com duas gerações (casais ou não) e 28% vivem em casas com três gerações (casais, ou só um idoso, vivendo com filho casado e pelo menos um neto). Portanto, o número de pessoas que vive é ainda um número baixo.
Na tabela 6 a média da renda per capita foi de R$ 646,00, sendo o menor valor R$ 260,00 e o maior R$ 1.800,00; já em relação à média da renda familiar, esta foi de R$ 1.033,00, sendo que duas pessoas não souberam informar; tem-se ainda que o menor valor apresentado em renda familiar foi de R$ 260,00 e o maior R$ 5.800,00.
Os dados apontam para o fato de que os rendimentos mensais dos homens são consideravelmente maiores do que o das mulheres, somandose ainda o fato de que uma grande parcela de mulheres não tem nenhuma remuneração. Estes dados coincidem com aqueles apresentados pelo Sabe (2003), quando investiga a condição de emprego e renda da população idosa de São Paulo. Nestas investigações, o Sabe revela que a grande maioria dos idosos tinha, em média uma renda pessoal de 2,1 salários mínimos. Além da renda média ser baixa, mais de 50% dos idosos relataram não ter renda, e como esperado, as mulheres apresentaram níveis de renda inferiores aos dos homens. Dados esses amplamente coincidentes com os desta nossa pequena amostra.
Com relação ao censo 2000 (IBGE, 2002), os dados não são tão coincidentes, pois este órgão aponta que o rendimento nominal médio mensal das pessoas acima de 60 anos, responsáveis pelo domicílio à nível Brasil é
de R$ 657,00 e, no Estado de São Paulo, os idosos receberam em média R$ 893,00. Os idosos de nossa amostra recebem, em média o semelhante ao país e não o esperado para São Paulo.
Outro aspecto de interessante observação, diz respeito aos idosos responsáveis pela remuneração do lar. No presente estudo não se tem este dado, porém os dados do IBGE (2002) mostram que a distribuição dos responsáveis idosos por classes de rendimento ainda se encontra extremamente concentrada nos estratos de renda mais inferiores. Por outro lado, esses idosos também apresentaram uma ligeira melhora no aspecto educacional, aumentando a proporção de idosos alfabetizados, embora a média de anos de estudo deste segmento ainda seja extremamente baixa, com cerca de 60% dos responsáveis idosos considerados analfabetos funcionais. Este é um dado de importante investigação em trabalhos futuros.
Em nosso estudo não foram abordados, de forma completa e sistemática, os indicadores sobre a qualidade da moradia (bens móveis, saneamento, tipo de construção etc.). Acreditamos ser possível vislumbrar pela tabela 7, os bens destes idosos e outros pertences como seguro saúde e seguro de vida. Vale ressaltar que do total de entrevistados, 90% possuía casa própria.
Finalizamos esta primeira parte que teve como objetivo analisar os aspectos sócio-econômico-cultural dos idosos a fim de conhecer a realidade da qual fazem parte.
A seguir, serão analisados e discutidos dados que se referem à percepção do idoso sobre boa e má qualidade de vida.
Da análise das respostas dos 30 idosos às perguntas: “O que é uma boa qualidade de vida?” e “O que é uma má qualidade de vida?”, emergiram os indicadores de boa e má qualidade de vida, segundo a percepção do próprio idoso. Estes indicadores foram agrupados dentro das “dimensões da vida humana” propostas pelo próprio instrumento (PASCHOAL, 2000). Cabe ressaltar que a ordem em que as dimensões e seus indicadores aparecem referem-se à ordem de importância dada pelos idosos.
Boa qualidade de vida
As respostas sobre a questão "ter uma boa qualidade de vida" mostraram o significado que as dimensões propostas pelo instrumento tinham em suas vidas, conforme quadro 1.
O quadro 1 mostra os indicadores de qualidade de vida dessa amostra de idosos localizados em dimensões da vida, conforme preconiza Paschoal (2000) em seu instrumento. Para esses idosos, ter qualidade de vida está intimamente ligado ao significado que estes indicadores tem para suas vidas. Assim, na dimensão Saúde Geral encontrou-se o indicador Saúde, o qual mostrou que ter saúde é de importância fundamental para se ter uma boa qualidade de vida, estando diretamente relacionado com ter boa saúde física e mental, alimentação saudável, ter hábitos de vida que valorizam a saúde, como praticar exercícios físicos e não depender dos outros para viver. Algumas falas dos idosos ilustram essa compreensão: “Dormir bem”; “alimentação melhor”; “não ter doença e nem dor” (sic). Na dimensão Psicológica encontrou-se o indicador Estado Emocional Positivo, no qual qualidade de vida é dispor de recursos subjetivos para enfrentar a velhice; apontando o equilíbrio psíquico como fundamental. Segundo os idosos, isso significa ter alegria, felicidade, auto-estima, paz e sentir-se satisfeito com a vida. Em suas falas encontramos: “Ter paz”; “É se amar”; “Sempre rir”;
“Ter disposição” (sic). Na dimensão Social encontramos os indicadores Relações Interpessoais Positivas e Lazer. Para os idosos da amostra, ter qualidade de vida é manter vínculos saudáveis com familiares e amigos, solidificando o suporte social na velhice. O lazer também é um indicador importante, pois promove divertimento, distração e relaxamento, contribuindo para a qualidade de vida desses idosos. Viajar, frequentar o centro de referência do idoso, dançar, são algumas das atividades mencionadas pelos idosos como sendo indicadores de qualidade de vida. Assim, as respostas indicaram: “Ter amizades”; “Ter bons amigos e boa família”; “Conviver com os outros” (sic). Na dimensão Econômica encontrou-se o indicador Condições Financeira, que relaciona-se ao fato de que ter boa qualidade de vida é ter condições para suprir suas necessidades de alimentação, saúde, medicamentos, moradia, entre outras, para viver com dignidade. Suas falas assim expressaram: “Não se preocupar com os gastos, sem se preocupar com o amanhã”; “Ter o suficiente para comer”; “Ter condição financeira razoável”
(sic). Na dimensão Meio Ambiente tem-se o indicador Suporte, indicando que qualidade de vida implica na possibilidade da existência de condições favoráveis para se locomover com segurança e respeito, por meio de transportes adequados às suas necessidades. Também implica em ter acesso à educação formal, como escolas e cursos. Na dimensão Religiosidade/Transcendência, encontrou-se o indicador Religiosidade que indica a possibilidade de vivenciar a fé, buscar conforto e paz espiritual. Tido como indicador de boa qualidade de vida, para alguns idosos que expressaram este indicador nas seguintes falas: “Ter paz espiritual”; “Acreditar em Jesus e Nossa Senhora” (sic).
Assim, pudemos verificar, a partir do discurso desses idosos, que todas as dimensões apontadas por Paschoal (2000) foram contempladas. Os idosos de nossa amostra tiveram total discernimento das dimensões da vida em termos de qualidade. De modo que se pode dizer que esses têm boa percepção do que representa a qualidade de vida na terceira idade.
Na tabela 8, constam os dados distribuídos em indicadores de boa qualidade de vida, segundo a percepção do idoso em quantidade de respostas.
Nesta tabela 8 são apresentados esses mesmos indicadores de qualidade de vida segundo as respostas dadas pelos próprios idosos, quando se perguntou o que os mesmos consideravam sobre ter uma “boa qualidade de vida”. Observa-se que nas respostas isoladas a saúde aparece em primeiro lugar, com o total de 32,9%, sendo que os homens parecem apontar mais para esse indicador do que as mulheres. Um segundo indicador é o estado emocional positivo, que aparece em 29,3% das respostas da amostra. Este indicador está relacionado aos aspectos psicológicos ou subjetivos, relativos aos sentimentos e emoções agradáveis, sendo um indicador importante de qualidade de vida, visto que entre as mulheres existe uma preocupação maior com o bem-estar subjetivo, seguido da saúde, o que difere dos homens que apontam para uma preocupação maior com a saúde. As relações interpessoais aparecem em 13,4% das respostas, seguidas do indicador lazer (12,2%). Ao analisarmos pela dimensão social, agrupando estes dois indicadores, obtivemos 25,6% das respostas da amostra. As mulheres têm uma maior preocupação com o lazer, seguido das relações interpessoais. Para as mulheres, viajar, passear, dançar e participar de atividades no Centro de Referência do Idoso são afazeres mais relevantes do que o simples fato de estar em contato com o outro. Os homens, diferentemente das mulheres, parecem ter uma preocupação maior de estar em contato com o outro, mantendo bons vínculos afetivos familiares e de amizade e menor preocupação com danças, passeios e viagens. O indicador financeiro aparece em 6,1% das respostas, o que indicou que para os idosos ter boa qualidade de vida está muito mais relacionado ao bem-estar físico, psíquico e social do que ao conforto material, mesmo apresentando rendimentos considerados baixos, pois a média da renda per capita foi de R$ 646,00 e renda familiar de R$ 1.033,00.